A PINTURA E A VIDA DE VAN GOGH – por almandrade / salvador.ba

“Ai, ai, as pinturas mais belas são as que sonhamos deitados na cama, fumando um cachimbo, mas nunca pintamos.” Van Gogh

Uma vida curta e conturbada para uma longa biografia de mais de mil
páginas, Van Gogh, filho de pastor, depois de fracassar em tudo que
Almandrade 1
tentou fazer, decidiu ser pintor. Um pintor também “fracassado”, ou
melhor incompreendido pelo seu tempo, cuja obra imensa e invejável que
construiu em sua rápida existência penosa e turbulenta, vem
inquietando e provocando as gerações posteriores. O livro escrito por
Steven Naifeh e Gregory White Smith, é uma das biografias mais
extensas e completas de um artista que se tornou um mito da arte
moderna. Do nascimento do pintor à sua morte aos trinta e sete anos,
os autores vasculharam a vida de um navegante solitário, remando
sempre contra a correnteza.

A biografia de um artista não explica, nem justifica sua obra, mas
elas se comunicam, diria o filósofo francês Merleau-Ponty. Em se
tratando de Van Gogh e sua vida difícil, com episódios trágicos, é
possível ver uma relação estreita entre sua obra e o modo como viveu.
Mesmo com todas as dificuldades não desistiu da ilusão de ser pintor.
Desde a infância com um olhar desconfiado sobre o mundo, crises de
raivas, caminhadas solitárias por lugares distantes, quem sabe para
distanciar-se de tudo e de todos. Criado num ambiente religioso,
protegido dos excessos do pecado, privado de emoção e cor, criou um
mundo colorido e emotivo como meio de transgressão.

Uma vida que colecionava infelicidades, zombarias e desafetos, buscava
encontrar na arte o que não via na vida. Talvez o mais deprimido dos
artistas, mas com uma produtividade incansável, como se estivesse
sublimando na tela a infância não vivida e as emoções reprimidas.
Ariscou a vida no trabalho da pintura, produziu como um louco mas sem
perder a razão, indispensável ao ofício de pintor, “dedico-me a minhas
telas com toda a minha mente”, escreveu para o irmão Theo. Acrescentou
ao mundo a verdade da pintura.

Tinha um único amigo, confidente, incentivador e responsável pelo seu
sustento, com quem se correspondia e também tinha atritos, o irmão
mais novo, Theo. Sem negar a rivalidade familiar, Theo era o filho que
deu certo, tinha profissão, ajudava no sustento da família, tinha uma
vida correta dentro do esperado nos padrões da classe média. Van Gogh
era o contrário, com sua pintura ridicularizada pelos seus
contemporâneos, desprovidos de informações para compreendê-las, sem
aceitação no mercado. Quanta aflição. Somente mais de cinco anos
depois de sua morte é que veio a ser reconhecido e celebrado.

Queria pintar o que via, mas via o que pintava. Uma pintura de uma
força irresistível, cor firme, céu agitado, uma forma particular de
ver as coisas e a paisagem. Vida e obra se misturavam, o temperamento
rebelde do artista, diagnosticado com várias enfermidades, – entre
elas esquizofrenia, – desentendimentos, crises existenciais, a amizade
tumultuada com Paul Gauguin, amputação da orelha, até a morte trágica,
reavaliada no livro. Os autores descartam a hipótese, mais conhecida,
de suicídio do pintor. Com um inventário de provas, acreditam em
assassinato acidental. Com base em laudos médicos, que informam que a
arma do crime foi disparada de certa distância do corpo, declaração do
próprio artista que achava o suicídio “uma covardia moral” etc. Um
crime misterioso, sem testemunha e sem o local exato do disparo, que
até a arma desapareceu, mas não tão misterioso quanto a sua arte.

Suicídio ou assassinato? Longe de mim de tomar partido, não sou
advogado nem perito criminal. As condições precárias em que viveu numa
sociedade hostil contribuíram, sem dúvida, para o final brutal, por um
ferimento de bala na parte superior do abdômen. Mas de uma coisa
ninguém duvida, da fascinação e da certeza de sua pintura que muitoVincent_van_Gogh
acrescentou à história da arte. Uma obra inquestionável que ultrapassa
os acidentes da vida. Quantos artistas na história viveram à margem do
sistema social, com uma vida pouco digna e construíram uma obra que
sensibiliza gerações.

O livro faz uma revelação importante, a meu ver, para o meio de arte,
hoje em dia, recheado de qualquer coisa e sintomas culturais. Os
autores mostram um Van Gogh com uma sólida formação cultural, leitor e
freqüentador de museus, reflexivo, que planejava suas telas antes de
realizá-las e as pintava na mais plena lucidez. “Chamam um pintor de
louco se vê as coisas com olhos diferentes dos deles,” dizia nas suas
correspondências para Theo. Sua pintura não era obra do acaso ou da
loucura, cada gesto, cor e pincelada eram a manifestação de um
pensamento.

A problemática e a ambígua relação entre arte e loucura vem à tona. Um
artista que passou temporadas internado num abismo moderno chamado
hospício, nos últimos anos de sua vida, onde a liberdade humana é
restrita, nos deixou uma experiência artística longe do estado de
loucura. Através da arte Van Gogh escorregou da psicose, a sua
pintura, se nasceu na angústia pessoal, a realidade foi transformada a
partir da vontade consciente de um sujeito.

É quase impossível a compreensão da vida humana sem a presença da
arte, a irracionalidade está presente na estrutura interna da obra de
arte, nos adverte o filosofo alemão Heidegger. Até mesmo a pintura de
uma visualidade racional, como a de um Mondrian, não deixa de ser um
fenômeno irracional. A suposta loucura na arte de Van Gohg é
perfeitamente reconhecida e apreendida em nosso mundo racional.

Se contemplamos nas suas telas paisagens, retratos, campos de trigo,
girassóis, corvos, é um problema nosso. Ele fez apenas pintura e por
isso nos inquieta até hoje e vai inquietar muitas gerações enquanto a
arte existir. Se os autores dedicaram dez anos para escrever esta
biografia é porque o seu personagem se entregou ao mundo para
transformá-lo em pintura. Lembrei-me de Paul Valery. Van Gogh sabia o
que estava pintando e para isso ele precisava não só de telas, tintas
e pincéis; precisava também da razão e da imaginação.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

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VAN GOGH – A VIDASteven Naifeh e Gregory White Smith

Trad: Denise Bottmann

São Paulo: Companhia das Letras, 2012

Uma resposta

  1. A ARTE SUPERA A VIDA

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