Ostravacância – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Tio Otácio mora em São Ludgero desde que se entende por gente. As primeiras luzes do saber, como aprecia dizer, adquiriu-as no famoso Seminário da cidade. Aliás, o primeiro seminário do Estado. O Amilcar Nevesque ninguém sabe ao certo é até onde ele foi nos seus estudos teológicos nem até que ponto chegou na carreira eclesiástica, se é que a tenha iniciado algum dia. À força de tanta leitura saborosa servida pela vasta biblioteca do Seminário, veio a tornar-se um intelectual, ou seja, alguém que procura pensar pela própria cabeça. Era inevitável. Tio Otácio adora ler, a ponto de sentir-se mal, muito mal mesmo, quando passa um dia inteiro sem ler ao menos dez ou doze páginas de algum livro. Mas de livros que valham a pena, faz questão de completar. Tio Otácio também adora ostras, mas não chega ao exagero de passar mal se não conseguir deglutir dez ou doze desses saborosos moluscos bivalves num mesmo dia.

 

Para munir-se de ostras frescas, tio Otácio precisa deixar sua São Ludgero, onde é figura política influente e respeitada, e buscar uma beirada de mar. Muitas vezes Otacílio Osório, seu nome de batismo e de registro civil, aproveita para visitar a Capital, onde conta com o suporte logístico do sobrinho Manoel Osório, que muito aprecia os papos com o parente.

 

Tio Otácio aproveitou a primeira folga que teve no início do ano para conferir a situação, levado pela notícia de que 11,6 mil litros de óleo escorreram de dois transformadores de uma subestação desativada para as águas da Baía Sul no distante dia 16 de novembro de 2012, embora o vazamento só tenha sido descoberto e comunicado à Fundação do Meio Ambiente em 19 de dezembro. A Baía Sul, que vai da Ponte Hercílio Luz até o extremo sul da Ilha de Santa Catarina, é uma das duas maiores regiões produtoras de ostras e mariscos do Brasil. A outra é a Baía Norte. Nas duas baías há inúmeras fazendas marinhas que cultivam os moluscos e abastecem São Paulo e restaurantes no exterior, além de servirem ao consumo local. Nos restaurantes à beira-mar da Freguesia do Ribeirão da Ilha, no sul, e de Santo Antônio de Lisboa, no norte da Ilha, podes acompanhar o sujeito pegar o barco e retirar da água a ostra que te servirão em seguida.

 

– E o que diz a companhia de luz? – quer saber Otacílio Osório.

 

– Disse duas coisas – esclarece Manoel Osório. – Disse que o terreno da subestação já tinha sido repassado à Universidade Federal, a qual alega não ter ainda recebido a sua posse, e que o óleo derramado era inofensivo, praticamente inerte.

 

– E não era.

 

– Não, não era. Trata-se do Ascarel, marca comercial da notória Monsanto para um produto já proibido até no Brasil por ser altamente tóxico e cancerígeno, além de outras formidáveis propriedades negativas. Tão danoso quanto os mais deletérios pesticidas vendidos pelo mesmo fabricante.

 

Após circularem por um Ribeirão de casas todas em luto fechado, com bandeiras e faixas pretas, pessoas entristecidas pelas ruas e restaurantes entregues às moscas no auge do verão, pois a extração, o consumo e a reposição dos moluscos da região estão proibidos até a avaliação precisa do tamanho do estrago, tio Otácio apenas comenta:

 

– É obsceno, não? Quando o pessoal consegue desenvolver uma atividade econômica forte e sustentável, sem destruir a arquitetura do lugar, vem uma empresa do Estado e abandona na beira do mar equipamentos cheios de líquido mortífero. Então é isso que se vê, essa ostravacância, essa síndrome de restaurantes vazios por falta de ostras.

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