Arquivos Diários: 15 fevereiro, 2013

A história secreta da renúncia de Bento XVI – por eduardo febbro / paris.fr

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Eduardo Febbro
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 Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.

O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.

A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.

Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.

Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.

Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.

Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior.

O simpático Olsen Jr. é o autor convidado desta semana da REVISTA VERÃO / santa catarina.sc

O simpático Olsen Jr. é o autor convidado desta semana Ana ¿Bacana¿ Silveira/Divulgação

Foto: Ana Bacana Silveira / Divulgação
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A simpatia em pessoa – Olsen Jr. – escreveu este conto só para a Revista de Verão. Mas quando rascunhava, lembrou de alguém e pediu para incluirmos a dedicatória: “Para Green Eyes, que sabe por que”. Além de escritor, é jornalista, formado em Direito e atual inquilino da cadeira 11 da Academia Catarinense de Letras. É o autor de Desterro, SC, livro finalista do Prêmio Jabuti de 2000, classificado pela Câmara Brasileira do Livro como um dos melhores livros de contos daquele ano. Vive atualmente em Rio Negrinho, que fica no Norte do Estado.A mulher do vizinho

O caso aconteceu assim…

Logo que me instalei na nova casa, “longe da multidão estulta”, diria Thomas Hardy, fui retomando velhos hábitos. Um deles era, nos finais de tarde, sentar num canto da varanda e cevar um mate solitário, como faz o índio mais empedernido. Num desses dias, faz algum tempo, foi que percebi uma silhueta feminina na casa em frente. Até aí nada demais, não fosse a distância de 300 metros entre nós e morarmos quase em frente um do outro, como se fosse um espelho e a mulher aparecer sempre nua, os cabelos soltos caídos nos ombros e um corpo de mexer com o instinto de qualquer caboclo menos civilizado.

A mulher ficava imóvel. À vezes, tinha a sensação de um leve balançar da cabeça, o que se denotava pelas flutuaçõs dos cabelos, em pé o corpo todo delineado em suas formas generosas e provocantes, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Percebi, porém, que ela aparecia todos os dias exatamente naquele horário em que o dia vai perdendo espaço para a noite. Depois sumia sem deixar vestígios. Várias vezes permaneci ali tentando captar os seus movimentos na hora de se ausentar daquele palco que me tinha como espectador aparvalhado e mudo e tentado a ir ao seu encontro. Durante muito tempo aquela imagem era um conforto para um homem solitário e meus finais de tarde eram bem recompensadores.

Um dia, movido por um desejo milenar, sem qualquer planejamento, chamo o meu cachorro Thor e decido na mesma hora que iria até lá, na casa próxima, conhecer aquela vizinha sensual e que já estava me tirando o sono e a paz, deixando em seus lugares apenas um desassossego infernal que me não permitia viver. Thor era um cusco obediente e me entendia ao menor sinal. Naquela tarde seguimos em silêncio dando uma imensa volta por dentro do mato, evitando as trilhas mais batidas e nos aproximando do nosso alvo. Cerca de 20 metros da casa, obedecendo a um mesmo ângulo de visão que dispunha quando estava em minha varanda, achei que era o lugar ideal e me agachei dentro de um capão bem camuflado onde dificilmente seria visto. Thor ficou ao meu lado, em posição de ataque, bastando um leve movimento das mãos para partir em cima do que quer que fosse.

A espera não me incomodava, tinha aprendido com meu pai (que aprendeu com meu avô) aquela técnica do caçador que sabe que o esforço terá sua recompensa. Final de tarde, aguardamos até chegar a hora… Mas o que é aquilo? Não acredito… A imagem vai se formando na varanda… Tenho vontade de gritar, um misto de histeria e desespero… Não pode ser, me recuso em crer no que os meus olhos vendo… Ela está lá, inteira, nua, cabelos vaporosos e flutuantes em seus ombros… Deus meu! Exclamo… Isto não está acontecendo… Vamos embora, Thor, grito, saindo do meu lugar e pegando a trilha… Para casa! — instigo o cachorro — e ele me ultrapassa e sou eu correndo atrás dele procurando sair logo dali.

Corremos pela trilha aberta já conhecida e só paramos quando estávamos próximos de casa… Pouco depois de jogar o meu corpo em cima de um pelego no banco da varanda e abraçar o pescoço do Thor é que comecei a rir e falar sozinho, ninguém vai acreditar… Boa essa… Durante alguns dias da minha vida estive apaixonado, como todo o poeta, por uma mulher que só existia em minha imaginação… A figura ia tomando forma na varanda do vizinho a partir da projeção da sombra de uma árvore com pequena galhada que mexia insuflada por qualquer brisa daquele verão… O tronco era curvilíneo, o sonho irrealizável e o desejo insatisfeito… Acendo a luz da sala e me detenho na fotografia que mandei emoldurar onde aparece o escritor William Faulkner em cima de um trator em uma terra que está sendo arada e me contento com a ideia de que não sou mais pioneiro e nesta fazenda onde me instalei ainda existe muita coisa para ser feita.

Vocábulos de uso gaúcho

Índio – homem do campo
Caboclo – indivíduo nativo
Cusco – cachorro sem uma raça definida
Capão – Área de mato no meio de um descampado
Pelego – Couro de carneiro ou de ovelha que serve para amaciar o acento

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do DC.