O Rio de Janeiro de antes do choro e do samba – por claudio caldas / ilha de santa catarina

Fiquei pensando aqui com os meus botões, meu caro leitor, se é possível imaginar uma cidade como o Rio, nos tempos em que nem samba e nem chorinho ainda existiam…pesquisando aqui e acolá, cheguei a um quadro interessante, mas que confesso, não é tão fácil de “sentir” depois de tantos anos….os textos sobre Chiquinha Gonzaga e Joaquim Calado, nos ajudam um pouco.
Vamos nos situar no tempo e no espaço. O período a que me refiro é mais ou menos o compreendido entre o final da Guerra do Paraguai e a Proclamação da República, algo entre 1870 e 1889. Nos livros de história ficamos sabendo que os gastos com a Guerra do Paraguai tinham aumentado, de forma considerável, a nossa dívida externa. As fazendas de café do Estado do Rio de Janeiro e de São Paulo, responsáveis pela maior exportação brasileira, agora sofriam com a queda vertiginosa dos preços do grão no mercado internacional.
O Rio de 1885, segundo Marc Ferrez
O Rio tinha , em 1872, segundo o primeiro senso realizado no Brasil, uma população de 274.972 pessoas. Era o Brasil Imperial ainda e em plena utilização do trabalho escravo, especialmente nestas regiões produtoras de café. Um época de muita efervescência política na cidade e de discussões de questões que culminaram com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, fatores geradores de movimentos migratórios para o Rio de Janeiro, que, já em 1890, na aferição do segundo senso, contou 522.651 habitantes.
Era o tempo da criação dos grêmios políticos e literários, das associações recreativas que intensificaram a vida urbana. O carioca passa a ter hábitos mais sociais e logo são abertas várias confeitarias, propiciando que instrumentistas realizassem apresentações e saraus aqui e ali, para mostrar suas polcas. Creio que estas condições fizeram com que a organização do tipo patriarcal, familiar, fosse substituída pelas sociedades civis, não ligadas ao governo, que promoviam encontros, discussões, audições de piano e a apresentação de peças teatrais.
É neste ambiente que surge uma mulher que não reconhecia limites de participação e que queria mostrar seu trabalho, suas criações musicais. Chiquinha Gonzaga que já havia passado por dificuldades por conta de seu temperamento, separada inclusive dos filhos, frequenta confeitarias e lança em 1877 a sua polca “Atraente”, com um sucesso que obteve 15 edições de sua partitura.
O Rio passa a ter vida noturna e surge a figura do seresteiro, primeiro isoladamente, com seu violão a apresentar modinhas. As confeitarias multiplicam-se, agora até com a presença de senhoras, que sentam-se às mesas e pedem seus sorvetes, doces e pastéis, licores e cervejas. Os artistas passam a marcar ponto na Confeitaria Castellões, na Rua do Ouvidor. Carlos Gomes, quando ia ao Rio, por lá passava para encontrar o pessoal do Teatro e da Música. São também deste tempo a Confeitaria Paschoal, na Rua do Ouvidor, nr. 128, muito frequentada pelo abolicionista José do Patrocínio e a Colombo, que ainda hoje tem grande simpatia do carioca.

Os café-cantantes também foram instalados neste início de boêmia carioca e neles rolavam apresentações de cançonetas maliciosas de duplo sentido. O bonde surgia pra facilitar a movimentação deste  novo público e a Rua do Ouvidor era o “must”, o “point” da cidade.

Rua do Ouvidor 1890
Uma rua estreita e cheia de elegantes lojas, cujos donos eram predominantemente franceses, ditava a moda, costumes e fofocas. O escritor Machado de Assis a descreve em vários de seus contos e romances, dizendo que ela era o paraíso dos boatos. Por isso mesmo, quando cogitaram alargar a rua, ele preocupou-se em frisar que “o boato precisa de aconchego, do ouvido à boca para murmurar depressa e  baixinho…”
Este era o Rio que proporcionou que o choro surgisse e que tivesse um interesse grande do público. O mesmo ambiente que, um pouco mais tarde, foi forjando as condições para o surgimento do samba…mas aí já vale uma outra postagem…
A recomendação pra quem quiser saber mais sobre o tema, vai para “História Social da Música Popular Brasileira”, de José Ramos Tinhorão e “Chiquinha Gonzaga, uma história de vida”, de Edinha Diniz. Boa leitura e até a próxima.
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Uma resposta

  1. Avani Maria silveira Martins | Responder

    Adorei, muito bom,
    Avani Maria Silveira Martins

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