OS CHICANOS – por manoel de andrade / curitiba.pr

               “Manoel de Andrade, poeta e escritor brasileiro, escreveu esta reportagem para PURO CHILE, depois de haver conhecido, de primeira mão, a realidade dos chicanos, um exemplo do destino  que poderia esperar as nações latino-americanas se os Estados Unidos pudessem submetê-las  ao seu total arbítrio. De Andrade visitou o sul norte-americano, especialmente convidado por organizações chicanas, e sua reportagem deve constituir um dos primeiros testemunhos sobre a verdadeira situação de oito milhões de mexicanos e filhos de mexicanos que vivem no grande império do dólar. PURO CHILE publicou esta reportagem em duas partes. Esta é a primeira delas.

          Desterrados por mais de um século em sua própria terra e espalhados pelo centro e sudoeste dos Estados Unidos, oito milhões de pessoas de língua hispânica  vivem atualmente segregadas social, econômica e politicamente, em toda uma imensa e fértil região de cinquenta milhões de hectares, usurpados através de uma guerra de conquista e agressão contra a nação mexicana.

          Sua história passada é a história de sua própria tragédia. A perda do seu território; dos direitos mais elementares do ser humano; o aniquilamento sistemático  de sua cultura ancestral; a proibição de falar a própria língua e mais o sangue de milhares e milhares de caídos, foi a herança que o tempo preservou para deixar na memória de todo um povo as cicatrizes de 125 anos de genocídio.

          Sua história recente é a história de uma consigna acariciada  de geração em geração. Escreve-se com  o conteúdo de muitas palavras: greve, marchas, prisões, mártires.  Escreve-se com poemas, contos, teatro, panfletos políticos, revistas e quase uma centena de jornais. Escreve-se com o renascimento de sua cultura, com as raízes de sua raça, e,  sobretudo, com a consciência de luta de um povo explorado de uma maneira cruel e desumana. Seu grito se soma ao clamor incontido de todos “os condenados da terra”. É um grito de combate e de libertação; contudo é também um grito em busca de solidariedade, lançado desesperadamente por milhões de homens e mulheres oprimidos, discriminados, massacrados no seio mesmo da nação mais poderosa e agressiva do mundo.

          Neste artigo se conta a história do segredo mais bem guardado dos Estados Unidos: Os Chicanos.

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A guerra

          A guerra que o México declarou aos EE..UU. em 1846, teve como principal motivo a anexação norte-americana do grande território do Texas, na época parte da nação mexicana. O México perdeu a guerra, o território do Texas e teve que suportar as duras imposições do vencedor, pelas quais a metade do seu território  —  equivalente a uma extenção superior aos territórios da Bolívia e Chile juntos  —  foi arrebatada pelos ianques e passou a ser parte dos Estados Unidos da América.

A invasão norte-americana ao território mexicano chegou até a cidade do México. Alguns livros sobre o assunto relembram essa época de terror e crueldade. Os soldados ianques infundiram verdadeiro pânico às povoação da capital, assassinando, roubando, e violando mães e filhas frente aos homens da família amarrados ou sujeitados por outros soldados. Dizem os cronistas e historiadores que tal foi a barbárie de seus visinhos do norte, que 250 soldados norte-americanos, decepcionados, se uniram ao exército mexicano. Posteriormente, a refinada brutalidade com que foram executados, em um bairro metropolitano, 80 desses desertores, tem sido recordado há longo tempo pelos mexicanos como uma prova a mais da crueldade ianque.

O tratado Guadalupe-Hidalgo

          Terminada a guerra se assinou, em 2 de fevereiro de 1848, o Tratado Guadalupe-Hidalgo, pelo qual os EE.UU. se apropriaram das províncias mexicanas do Texas, Novo México, Califórnia, Colorado e, posteriormente, do Arizona, vendida em 1853 ao governo norte-americano, quando ainda governava o México o ditador Santa Anna, o qual embolsou uma parte do pagamento. Segundo as condições do Tratado, todos os cidadãos que residiam dentro dos territórios perdidos se convertiam en cidadãos dos Estados Unidos se não abandonassem a região ao cabo de um ano de sua assinatura. Somente alguns milhares de mexicanos abandonaram suas terras para marchar ao sul. A maioria da população, por negligência, pela impossibilidade de fazer a viagem, ou para não perder o único que tinham, sua terra, se converteram, automaticamente, em cidadãos norte-americanos. Por outro lado, a bilateralidade do Tratado estipulava a garantia da propriedade e os direitos políticos dos mexicanos que viviam na região incorporada, além da preservação de sua língua, religião e cultura. Obviamente que nenhuma dessas normas foram respeitadas pelos norte-americanos que, pelo contrário, passaram a tratar os mexicanos com desprezo e até com repugnância.

A época da violência

          Desde 1848, os mexicanos que viviam em sua antiga pátria começaram a ter constantes desentendimentos com os norte-americanos que ali chegavam para viver. No Texas este fenômeno foi sempre mais agudo que nos demais estados. Em fins do século dezenove o Texas se tornou famoso como uma região de bandoleiros e até os “rangers” titubeavam antes de entrar nessa terra de ninguém. Os ódios estavam tão exarcebados que por parte dos mexicanos matar um gringo era um ato de orgulho e, por parte dos texanos, matar um mexicano não era crime.

De 1908 a 1925 toda a fronteira do Rio Bravo estava convulsionada em vista da Revolução Mexicana. Este foi um período de matanças recíprocas e calcula-se  que o número de norte-americanos e mexicanos mortos tenha chegado a cinco mil. Além disso, durante a Primeira Guerra Mundial, houve uma verdadeira caça aos mexicamos por suspeitar-se que estavam conluiados com os alemães. Foi por esses anos que uma força militar norte-americana, a expedição Pershing, entrou no território do México para perseguir mexicanos. Em vista desse fato, em 9 de março de 1916, Pancho Villa invadiu com suas tropas o Estado de Novo México atacando a cidade de Columbus. Esse incidente piorou a situação dos mexicanos que viviam além da fronteira. A matança assumiu proporções nunca antes igualadas. O então Presidente do México, Venustiano Carranza, acusou formalmente o assassinato frio de 114 mexicanos em território norte-americano. Na Califórnia e no Texas, os linchamentos e assassinatos de mexicanos eram quase diários.  O jornal “New York Times”, com todo o peso de sua importância sobre a opinião pública norte-americana chegou a expressar, no editorial de 18 de novembro de 1922, que “a matança de mexicanos  sem provocação é tão comum, que passa quase inadvertida”. Por sua parte, na cidade do México, o editorial de “El Heraldo”, de 15 de maio de 1922, comentava que “É sumamente indignante que enquanto em nosso país os cidadãos norte-americanos gozam de amplas garantias e quando algo lhes acontece se resolve através dos consulados dos Estados Unidos, nesse país, ao contrário, os mexicanos seguem sendo assassinados sem que as autoridades norte-americanas façam o menor esforço para castigar os culpados.”

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Essa foi, talvez, a época mais difícil para os mexicanos que viviam no outro lado. O Tratado Guadalupe-Hidalgo, que lhes havia assegurado direitos iguais aos dos cidadãos norte-americanos, foi, na verdade, sua sentença de morte física, jurídica, econômica e cultural. Os grandes fazendeiros texanos expulsaram quase toda a população nativa de suas próprias propriedades agrícolas, sob a proibição, com ameaça de morte, de voltar às vizinhaças de suas antigas fazendas. Os mexicanos, abandonados a sua própria sorte, haviam perdido tudo: o solo que pisavam não era mais sua pátria mexicana; haviam perdido a terra herdada de seus antepassados; depois de algumas gerações foram se esquecendo de sua língua e de sua cultura. Com a sua nacionalidade perdida, sem nenhum governo a quem recorrer, os mexicanos dispersados e perseguidos por todo o sudoeste, somente encontraram asilo no orgulho e na dignidade de sua raça.

Em todas as épocas, depois da queda do Império Romano, não se conhece, na história de um povo, um genocídio espiritual tão grande.

Os imigrantes

          Em princípios do século XX a povoação mexicana nos Estados Unidos estava mais ou menos aculturada, porém de 1900 a 1930 mais de um milhão de mexicanos cruzaram as fronteiras do Rio Grande e encontraram trabalho no sudoeste do país, nas grandes plantações norte-americanas de algodão, beterraba e aipo, ou como trabalhadores ferroviários.

Essa imigração massiva de mexicanos veio renovar o velho conflito de culturas. Os novos imigrantes, ao dar-se conta de que estavam sendo estratificados e segregados em relação aos trabalhadores ianques, tentaram rebelar-se. Contudo, essa rebelião ao cabo de 20 anos estava totalmente reprimida. Os mexicanos foram culturalmente derrotados pela segunda vez dentro dos Estados Unidos.

O surgimento da luta sindical

          Apesar de tudo, a rebelião dos trabalhadores mexicanos encontrou sua expressão através da militância sindical. Efetivamente foram os imigrantes os pioneiros da organização sindical no sudoeste dos EE.UU. O primeiro sindicato de trabalhadores mexicanos nesse país foi fundado no sul da Califórnia em 1927, com a formação da Confederação das Uniões Operárias Mexicanas, integrada por 3.000 camponeses organizados em vinte locais de região.

A primeira greve levada a cabo pela União, em 1928, no Vale Imperial, na Califórnia, foi rompida por prisões em massa e deportações. Em 1930, uma greve de 5.000 trabalhadores mexicanos foi novamente esmagada na mesma região. Em 1933, 7.000  camponeses fizeram uma greve no Condado de Los Angeles. Este movimento despertou a atenção e a preocupação dos plantadores e das autoridades sobre a crescente rebeldia dos mexicanos. Neste mesmo ano, outra greve de trabalhadores agrícolas, na Califórnia, protestava “pela discriminação racial, habitações miseráveis e salário baixo”. Em 1936, no sul da California, para romper uma greve de 2.000 trabalhadores mexicanos, a polícia teve que mobilizar cerca de1.500 homens armados. A repressão foi a mais sangrenta até então. Houve vários grevistas mortos e centenas de presos e feridos. Dessa época em diante a história dos trabalhadores mexicanos nos Estados Unidos foi uma sequência  de greves reprimidas com a maior violência. Mas não somente na Califórnia. A repressão foi sofrida pelos mineiros de carvão no Novo México, pelos mineiros de cobre do Arizona e pelos trabalhadores petroleiros do Texas, onde a Companhia tinha duas tarifas de pagamento para o mesmo trabalho: uma tarifa “blanca” para os trabalhadores norte-americanos, e outra “no blanca”, para negros e mexicanos. A diferença era 10 centavos de dólar por hora.

A discriminação racial

          A história do racismo nos Estados Unidos, não está somente relacionada com os 23 milhões de negros, com o milhão e meio de portorriquenhos e outras minorias como os chineses e filipinos.

Os mexicanos, a segunda minoria do país, têm sido sistematicamente discriminados e segregados. No entanto, sempre foi nos Estados de Texas e California  — onde se concentra, proporcionalmente, a maioria da população de origem mexicana — que este fenômeno  tem assumido as dimensões mais insólitas.

Muitos casos famosos, ocorridos principalmente em Los Angeles, mas que não caberia relatar nos limites dessa síntese, ilustrariam a tragédia cotidiana e a humilhação pública da gente mexicana, por um lado e, por outro, o desprezo e o cinismo das autoridades norte-americanas. Na década de 40, en Los Angeles, os mexicanos, além da discriminação, eram perseguidos por bandos ianquis, condenados à prisão por crimes não cometidos, massacrados nas ruas e assassinados friamente ante o olhar impassível de cidadãos norte-americanos.

À parte da violência física, a violência moral era absoluta. Por todos os lugares havia letreiros proibindo a entrada de mexicanos em determinados lugares públicos. Em certas piscinas públicas lia-se: “Quintas-feiras reservado para negros e mexicanos”. Determinados teatros da cidade não permitiam a entrada aos mexicanos ou lhes reservavam sessões especiais. Alguns restaurantes negavam-se, terminantemente, a servi-los e o declaravam com avisos públicos desse tipo: “Proibida a entrada de negros e mexicanos”. Nos cárceres do Texas havia letreiros em que se especificavam dias de visitas especiais “para negros e mexicanos”. Neste mesmo estado havia igrejas católicas que exibiam em seus letreiros: “Não se admite mexicanos”. Em outras igrejas  lia-se: “Para negros e mexicanos”, e em outras estavam pendurados letreiros com a frase: “Igrejas brancas”. Havia no Texas um restaurante com o seguinte letreiro: “Proibida a entrada de negros, mexicanos e cães”. Em muitos cemitérios se negava o direito ao sepultamento. Em outros os cadáveres eram enterrados numa região separada, suficientemente distanciada da terra destinada aos brancos. Nos banheiros de muitos tribunais de “justiça” lia-se na porta: “Para brancos. Proíbe-se a entrada de mexicanos”.

          Proibições desse tipo eram tanto para os mexicanos de nascimento como para os já nascidos nos Estados Unidos.

A discriminação também se fazia nas escolas primárias e secundárias, entre crianças negras e mexicanas. As crianças mexicanas que não sabiam falar bem o inglês, apanhavam, eram colocadas nos últimos lugares ou em salas de aula para retardados mentais.

Seria cansativo relatar todos estes aspectos  da segregação e da discriminação das pessoas morenas no sudoeste dos Estados Unidos. De qualquer forma essa era a situação dos habitantes de origem mexicana nesse país quando, há sete anos atrás, começaram a organizar-se em torno de um movimento social e político.”

Os primeiros passos de oito milhões de excluídos

                   “Publicamos a segunda e última parte da reportagem que o poeta e escritor brasileiro, Manoel de Andrade, escreveu sobre os chicanos. Seu informe, cheio de dados contundentes, de revelações incríveis, foi elaborado especialmente com base na mais feroz exploração do homem pelo homem, que fica  — uma vez mais  — a descoberto. As fotografias que publicamos (de um patetismo estremecedor) foram extraídas da revista “La Raza”, que expressa as aspirações de todos os chicanos.”

          Entre os acontecimentos mais importantes que marcam o início do Movimento Chicano nos Estados Unidos, destacam-se a Greve da Uva, na Califórnia; a Marcha de Delano a Sacramento; A Retirada de Albuquerque; a Greve do Texas e a luta sem trégua de Reyes Tijerina, no Novo México.

A Greve da Uva teve início em 8 de setembro de 1965, em Delano, Califórnia. Esta famosa greve está sendo levada ao cinema, durou oito meses e foi dirigida por César Chávez, atualmente o líder mais importante do Movimento Chicano. Seu êxito se deveu à forma como César Chávez a converteu numa “greve de família”, ou seja, fundamentando a estrutura da união e solidariedade dos grevistas, na sólida estrutura familiar mexicana. A greve logo se tornou em notícia nacional e se difundiu rapidamente por todo o país, obtendo o apoio de muitas organizações civis e eclesiásticas.

O ponto posteriormente culminante da greve foi a Marcha de Delano à Sacramento, capital do Estado da Califórnia. A história quase heroica da Greve e da Marcha, assinalam os primeiros passos de uma minoria de oito milhões de pessoas em busca de um caminho para dar causa ao seu anelo secular de justiça econômica, política, social e cultural, numa luta que, em sua primeira etapa, começou por reivindicar  igualdade de oportunidades e de direitos. Contudo, o valor eminentemente histórico da Greve da Uva e da Marcha a Sacramento, foi haver dado a primeira vitória aos trabalhadores agrícolas mexicanos nos Estados Unidos. Em si mesmo a peregrinação de Delano a Sacramento foi um feito carregado de significação porque era também a primeira vez que o povo de origem mexicana se unia e se solidarizava em torno de um problema comum. Simbolicamente a marcha dos agricultores era também a marcha de um povo que, embora durante 117 anos tivesse sido sacrificado ao longo do vale californiano, marchava agora vitorioso junto com os trabalhadores de sua raça.

Quase ao mesmo tempo em que os trabalhadores da uva na Califórnia marchavam até Sacramento, em Albuquerque, no Estado do Novo México, no dia 28 de março de 1966, sessenta membros da delegação chicana que participavam das audiências públicas da Comissão de Oportunidade de Igualdade e Direitos, retirou-se inteira do recinto da audiência, em sinal de protesto pela falta de atenção e a condescendência com que a estavam levando a cabo. Essa retirada assumiu uma grande importância moral aos olhos das novas gerações de jovens e de alguns líderes que começavam a surgir. A Retirada de Albuquerque teve amplas repercussões nas inúmeras comunidades de língua hispânica do sudoeste. Tal como a Greve de Delano, foi um sinal de que os chicanos já não estavam dispostos a sofrer pacificamente todo tipo de humilhação.

Estes três acontecimentos já haviam inicialmente acendido o espírito de luta e de solidariedade dos chicanos, quando, em 5 de junho de 1967, os camponeses mexicanos do Texas, sob a orientação de Eugene Nelson, convocaram uma greve que também culminou com uma longa marcha desde o Vale do Rio Grande até a capital do Estado. Conta-se que em 4 de setembro do ano seguinte, quando os quarenta cansados componeses, que haviam resistido por três meses a uma peregrinação de 800 quilômetros, entraram na cidade de Austin, foram recebidos com o entusiamo de 8.000 partidários da mesma luta. Conta-se ainda que, além disso, a marcha despertou a solidariedade de todos os habitantes mexicanos do Texas, estimada em quase dois milhões de pessoas.

É muito longa a história das lutas quase heroicas dos trabalhadores mexicanos nos últimos trinta anos nos Estados Unidos. Contudo, nenhum acontecimento qualifica com mais exatidão o surgimento de uma consciência de dignidade e orgulho de um povo e sua determinação de pôr um basta à opressão, como o levantamento dos habitantes do Norte do Novo México sob a direção de Reyes López Tijerina, organizador da Aliança Federal de Mercedes. Sua luta para recuperar as terras usurpadas aos mexicanos começou  já em 1957 e tem sido, em princípio, baseada na legalidade. Apesar disso, por conta das brutais repressões a que foi submetida sua gente, bem como pelas perseguições pessoais que sofreu, obrigaram-no a recorrer à violência para defender os direitos e a honra dos mexicanos. Esteve várias vezes na prisão e atualmente cumpre uma nova sentença.

O Movimento Chicano na atualidade

          Até aqui, fez-se uma tentativa de sintetizar os fatos mais significativos da história dos norte-americanos de origem mexicana, desde a guerra até os últimos anos. Para a elaboração desse trabalho foram utilizados alguns livros e uns quantos documentos.

Contudo, quisera dar uma imagem mais viva e, se possível, analítica do Movimento Chicano. Levado pela curiosidade em conhecer os alcances desse Movimento, estive na Califórnia durantes os meses de abril e maio do ano passado e o que reportarei a seguir baseia-se em contatos que tive com estudantes e dirigentes chicanos, em acontecimentos que me foram relatados e em alguns documentos que me foram facilitados.

 A morte de Rubén Salazar

          De cada 100 habitantes dos EE.UU. 4 são chicanos, e de cada 100 soldados norte-americanos que caem no Vietnã, 20 são de origem mexicana.

A desproporção de chicanos sacrificados na Indochina foi um dos principais motivos que, na manhã de 29 de agosto de 1970, levou às ruas do leste de Los Angeles cerca de 30.000 chicanos que, além disso, protestavam contra um sistema educativo em que 50%  de chicanos se veem obrigados a abandonar seus estudos; pelos baixos salários pagos à gente de origem mexicana; pela falta de oportunidade e a discriminação do trabalho; por falta de representação política; pela violência policial, etc.

A marcha  —  como quase todas as manifestações políticas, culturais e sociais dos chicanos  —  começou em um ambiente de alegria e festa. Os casais levavam consigo os seus filhos. Havia grupos procedentes de Arizona, Novo México, Texas,  Illinois, Utah, de todo o Estado da California desde Sacramento até San Diego, e porto-riquenhos da costa leste.

Quando a imensa multidão chegou ao Parque da Laguna, iniciou-se o programa organizado pelo Comitê de Chicano Moratorium. Cantaram-se canções mexicanas e chicanas e, em seguida, discursariam alguns líderes como César Chávez, Corky González e Rosalio Muñoz.

De repente viu-se a fumaça das primeiras bombas lacrimogênicas. As mulheres com seus filhos começaram a correr, porém de todas as partes do parque surgiam policiais. Meia hora depois um cinturão policial rodeava o parque. Ninguém podia entrar, nem sair. Angel Gilberto Diaz foi o primeiro chicano metralhado quando, ao tratar de afastar-se daquele inferno axfixiante de fumaça, tentou atravessar a barricada levantada pela polícia para que nenhum carro saísse. Enquanto isso o número de policiais aumentava. No início, grupos organizados de chicanos repeliram com garrafas e paus o ataque policial. No entanto, a resistência tornou-se impossível com a chegada de várias unidades do Departamento de Polícia da Divisão Metropolitana, conhecida por suas táticas de brutalidade e treinadas para dominar as manifestações de massa.

O segundo chicano morto foi Lyn Ward, que expirou num hospital, ferido pela explosão de uma granada de gás. Em face do desespero e da confusão, os pais procuravam os filhos, os filhos gritavam pelos pais, senhoras e meninas vomitavam, rostos banhados de sangue, crianças perdidas correndo histericamente pelas ruas, e, no meio desse caos, os policiais golpeando as pessoas sem distinção de idade e sexo. Alguns tentaram encontrar refúgio nas casas vizinhas ao parque, mas os policiais atiravam as bombas de gás dentro das casas, entravam brutalmente nelas e de arrastro retiravam as pessoas.

Algumas horas depois, quando todos os manifestantes se haviam dispersados, e uma grande quantidade de chicanos havia sido aprisionada, o rádio informou sobre a morte de Rubén Salazar, chefe de informação do Canal 34 de televisão e reporter do jornal “Los Angeles Times”. A morte de Rubén Salazar foi uma das maiores perdas do Movimento Chicano. Através dele  a informação do Movimento chegava ao público sob o ponto de vista chicano. Era o único meio com o qual contavam os chicanos para difundir a mensagem do Movimento para as grandes massas. Salazar já havia tido sérios problemas em vista dos artigos e análises que publicara sobre o Movimento Chicano. Com sua morte o Movimento perdia seu meio de difusão mais importante.

Ao entardecer daquele 29 de agosto, o Parque da Laguna estava estranhamente tranquilo. Um cheiro asfixiante flutuava no ar. Garrafas quebradas, comida derramada, cartazes rasgados, barracas parcialmente destruídas e uma imensa manifestação abortada. Seu saldo: centenas de prisioneiros, muitíssimos feridos, três chicanos mortos e mais de um milhão de dólares em danos a propriedades e comércios de um bairro chicano.

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O Movimento Estudantil Chicano

Quase todas as manifestações de protesto dos chicanos depende fundamentalmente da presença estudantil, e a organização mais importante nesse nível chama-se MECHA – Movimento Estudantil Chicano. Está difundida en todas as universidades do sudoeste onde há estudantes chicanos.

A Universidade é a principal trincheira da juventude chicana, e o chicano é sobretudo um jovem. Mas sua luta estudantil é relativamente recente. Cinco anos atrás o número de chicanos matriculados nas universidades da Califórnia era insignificante. Em 1967, dos 25.000 estudantes da Universidade de Berkeley, somente 78 eram chicanos. Nesse mesmo ano, na Universidade da California de Los Angeles, dos 26.000 alunos matriculados, apenas 70 eram de origem mexicana. O último dado é ainda mais significativo, se considerar  que em Los Angeles há mais de um milhão de chicanos residentes.

No entanto, os poucos chicanos que há cinco anos entraram na universidade, começaram uma campanha a fim de criar condições econômicas e psicológicas para facilitar o ingresso de sua gente na universidade. A campanha se fortaleceu com o nascimento do MECHA, em cujas vitórias está a criação, em cada grande universidade do sudoeste, de um Departamento de Estudos Chicanos que conta com subvenção oficial e tem propiciado uma grande quantidade de bolsas de estudos a estudantes de origem mexicana que viviam no campo. Geralmente cada um desses departamentos publica um semanário sobre as atividades locais e generalidades do movimento. Há duas reuniões semanais do MECHA e, além disso, os estudantes, professores e dirigentes chicanos realizam constantemente encontros estaduais e regionais para tratar dos aspectos mais variados com que se organiza o movimento.

À parte do ativismo estudantil, existem outros grupos semiorganizados. Alguns com caráter eminentemente intelectual, como o “Plan Espiritual del Aztlán”, criado em 1969 na Primeira Conferência Nacional de Juventude Chicana, em Denver, Colorado. O Plano mostra o chicano como descendente de uma raça e de uma cultura superior, os antigos mexicanos. Expressa-se com o amor a sua terra perdida. O Aztlán era o nome que os aztecas davam a toda região californiana. O Plano se propõe devolver aos chicanos seu antigo sentido de comunidade, sua língua, sua música, sua arte, etc. Está caracterizado por um radical nacionalismo cultural e, entre outras coisas, propõe a reconquista do território perdido.

Há muitas outras organizações chicanas, tais como: MAPA, MAYO, LA RAZA UNIDA, CRUZADA DE JUSTIÇA, BOINAS CAFÉS, etc. Os Boinas Cafés defendem a luta armada; no entanto, pelo que pude observar, seus militantes carecem de preparação política.

A literatura Chicana

          Dentro da atividade cultural, destaca-se sobretudo o teatro. Tive a oportunidade de assistir ao Segundo Festival de Teatro Chicano, realizado em abril do ano passado em Santa Cruz, Califórnia. Entre os grupos presentes contava-se o Teatro Mestiço, de San Diego; o Teatro do Piolho do Estado de Washington; o grupo de teatro de Santa Bárbara; o grupo de San Francisco; o teatro camponês de San Juan e o teatro camponês de Fresno, dirigido por Luis Valdés, o mais destacado autor e diretor de teatro chicano.

Quase todas as obras teatrais chicanas refletem o problema da discriminação e da segregação racial e o conflito brutal entre as duas culturas: uma esmagadora e outra que apenas sobrevive. As obras de Luis Valdés são, em sua maioría, curtas, cômicas e picantes. Nelas, por um lado, se ridiculariza o norte-americano (el gabacho) e os chicanos ianquizados, e, por outro lado, procura despertar a solidariedade com a causa, o espírito de luta e a união de todos os chicanos.

Em geral, a literatura chicana é ainda muito pequena e lhe falta força como fenômeno cultural. A maioría dos seus escritores escrevem mesclando o inglês com termos e frases em espanhol. Quase se pode dizer que os chicanos têm um idioma próprio.

Entre os poetas destacam-se Alurista, José Montoya, Corky González e outros. Corky González, presidente da Cruzada de Justiça, em Denver, além de poeta e cineasta, é um dos líderes mais brilhantes do Movimento Chicano. É o autor de um longo poema chamado “Yo soy Joaquin”, muito conhecido entre os chicanos.  O poema conta as glórias do povo asteca e mexicano, a perda do território e a tragédia dos chicanos nos Estados Unidos. Joaquin é um homem que perdeu sua terra, agonizou com sua cultura pisoteada e se viu envolvido por uma sociedade estranha; desprezado por ela, explorado por ela, vivendo uma vida absurda e inumana, em um mundo de gentes absurdas e inumanas:

“Yo soy Joaquín,
perdido en un mundo de confusión,
enganchado en el remolino de una
sociedad gringa,
confundido por las reglas,
despreciado por las actitudes,
sofocado por manipulaciones,
y destrozado por la sociedad moderna.

(…)Aqui estoy

ante la corte de la justicia.

Culpable

por toda la gloria de mi Raza

a ser sentenciado a la desesperanza.

(…)Yo soy Joaquín.

Las desigualdades son grandes

pero mi espírito es firme.

Mi fe impenetrable.

Mi sangre pura.

Soy príncipe Azteca y Cristo Cristiano.

YO PERDURARÉ

YO PERDURARÉ.”[1]

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[1] Quando, no início de abril de 1971, estive no Segundo Festival de Teatro Chicano de Santa Cruz, na Califórnia, uma jovem atriz, integrante do Teatro Campesino de Fresno, me deu um livreto com o título  Y soy Joaquin. Eu ainda não conhecia o extenso poema de Corky González e depois de sua leitura perguntei a ela o porquê do nome Joaquin, que era muito comum em Portugal e no Brasil, mas não nos países de língua hispânica. Ela me comentou que se dizia que era uma referência a Joaquin Murrieta, uma figura lendária da Califórnia, que segundo uns era mexicano e segundo outros era chileno. Disse-me que sobre ele se contava muitas histórias durante a corrida do ouro, na Califórnia. Que ele era uma espécie de  herói popular, um Robin Hood, um bandido e patriota que lutou contra a exploração do trabalho nas minas pelos norte-americanos.  Que ele, por ser latino, foi vítima do racismo e da discrimiação por que estavam passando os chicanos e que por isso era um símbolo da luta e resistência contra os ianques.

Na verdade, as façanhas de Joaquin Murrieta deram motivo para muitos poemas e  corridos mexicanos, livros, filmes e até uma peça de teatro da autoria de Pablo Neruda chamada Fulgor y muerte de Joaquín Murieta, publicada em 1967.

NOTA:

Este texto foi escrito e teve sua publicação no Chile em 1972

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