Desconectado – por amilcar neves / ilhe de santa catarina.sc

Desconectado

 

Confesso-vos, com um orgulho que não consigo bem dissimular, que desde sexta-feira ando desligado do mundo. Quero dizer, desde sexta, quando enfrentei com o Tibi Laus uma maratona das 14 às 2
Amilcar Nevesmanhã, mal parando para um lanche à noite, em respeito ao dinheiro público vindo de um contrato temporário assinado com o Ministério da Cultura, até esta segunda de Carnaval, oportunidade em que vos escrevo esta crônica de Cinzas.

 

Desliguei-me para poder escrever, ou para tentar escrever uma novela, tarefa que não se mostra (que nunca se mostrou) nada fácil. Não, a dificuldade anotada aí atrás não se trata das dores e dos bloqueios inerentes ao ato de escrever, a dificuldade é desligar mesmo. Imbuído dessa determinação há precisamente uma semana, quando, no dia 4, dei início ao texto, isso não me impediu de ver-me forçado a passar uma tarde inteira em profícua e agradável conversa no bairro da Barra do Aririú, na Palhoça, e a noite do mesmo dia entre pizzas e novas conversas igualmente instrutivas na Pedra Branca, da mesma Palhoça. Ou seja: o difícil não é escrever, mas arranjar o tempo e o necessário retiro para tanto, especialmente quando se projeta uma obra de fôlego apenas um pouquinho maior do que a crônica ou o conto, como a novela.

 

E antes que dois ou três me perguntem, como sempre fazem, se é na Globo e em qual horário vai passar, quero deixar solenemente claro que novela é um gênero literário, enquanto a telenovela é coisa completamente diferente e não tem nada a ver com literatura. Não estamos aqui falando de dinheiro, embora minha intenção mais secreta seja dar à luz o meu primeiro best seller, vocês verão (nem que seja no verão europeu, digamos assim).

 

Quando vos digo que me desliguei do mundo vos digo que não acessei internet, não liguei televisão, não ouvi rádio, não fui à Ressacada (mesmo porque o Avaí não joga neste imenso feriadão), não telefonei nem fui telefonado, não teclei um enter que fosse no celular (que, aliás, ridiculamente ultrapassado que é, de avançado apenas recebe e envia mensagens de texto – e nem isso com ele eu fiz -, não tem nada disso de entrar em redes sociais e páginas eletrônicas). Pra vos ser bem sincero, embora correndo o risco enorme de passar por descarado mentiroso, sequer liguei meu computador, sequer na sua função mais prosaica de máquina de escrever, posto que tudo que escrevi escrevi à mão, letra por letra desenhada no papel, consumindo na tarefa três canetas importadas de ponta em esfera metálica e tinta líquida ou gelatinosa.

 

No entanto, saí para a minha caminhada habitual nesta segunda de manhã, coisa que não fazia desde quarta a fim de deixar um pouquinho mais de tempo para a novela, e fui abordado apenas por um ciclista com cara de universitário que disse desconhecer o lugar e queria saber como chegar na Penitenciária. Ignoro se levaria na mochila às costas algum sortimento de celulares, baterias e carregadores, artefatos tão úteis para mandar tocar fogo em ônibus e carros estacionados na sede do governo estadual.

 

Ao chegar, a Vitória me aborda:

 

– O Papa, soubeste?

 

– Não, não soube nada. Morreu, é isso? De qualquer forma, ele foi eleito para durar dois ou três anos e passou muito do prazo.

 

– Não, vai renunciar. No dia 28.

 

– Meu Deus! – exclamei. – E se calha de ele morrer dia 27, como fica a situação?

 

De qualquer forma, mesmo desconectado parece-me que sou talvez o primeiro cronista semanal a registrar a renúncia papal. O mundo, definitivamente, não nos deixa em paz.

2 Respostas

  1. HABEMUS PAPAM
    Francisco (Xico ou Pancho) é o novo Papa.
    Vide currículo deste Santo Padre (sic), especialmente sua benevolente relação com a última ditadura militar na Argentina que deixou um saldo de trinta mil (30.000) mortos e desaparecidos além de milhares de crianças sequestradas e tire as suas conclusões. Jesus, o pobre cristo, não tem nada a ver com isso.
    Esta eleição dá como resultado: Argentina 2 X Brasil 0. Primeiro Messi, agora Jorge Mario (meu xará, Aleluia!), marcaram para os cisplatinos. A brava gente brasileira não deve perder a esperança de descontar no próximo Oscar e não seria impossível o empate com algum mago ou bispo ganhando o Nobel de literatura. Ninguém perde por esperar. A esperança é a última que morre.
    Moral da história: nas competições internacionais os favoritos nem sempre são os premiados. Não esqueça: todo prêmio é por bom comportamento. Por tudo isto, exulto:
    HABEMUS PAPAM, YEAH!

  2. Desconectado… Parabéns, pela Ação Heroica. Pena que, obrigatoriamente, durou pouco tempo. Tudo dura muito pouco em tempos pós-modernos. Saudade (sem “romantismos”), dos tempos de Odisseu. Conheço também um outro heroi, anônimo, sem muito direito a tais Feitos.
    Abraço da Zuleika.

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