Costumes nacionais – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Costumes nacionais

 

Apenas para registro, antes que me esqueça: o título que o Autor efetivamente deu à crônica de quarta-feira, 30 de janeiro, foi Como dinheiro perdido no bolso de um casaco, e não Com o dinheiro, etc. Mas vamos ao que interessa.

 

Na semana passada, uma onda de indignação, digamos assim (à falta de melhor classificação), varreu este País de Sul Amilcar Nevesa Norte, de Oeste a Este, por conta da candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado. Ficha limpa no Congresso!, era a tônica da campanha. Cada um de nós recebeu pelo menos oito mensagens eletrônicas de repúdio à situação que se punha, com o pedido de subscrição e repasse do protesto ao maior número possível de concidadãos.

 

E qual foi a consequência de tamanha movimentação? Aliás, uma movimentação que não requer das pessoas que se mexam, sequer que levantem seu nobre assento da cadeira em que o instalaram, bastando-lhes apertar um ou outro botão do seu computador, um ou outro ponto da tela do seu celular ultrainteligente. Assim, todos nós pudemos participar de mais um fantástico espasmo da cidadania enquanto aguardamos sequiosos o próximo escândalo que, se Deus quiser, não há de tardar.

 

Sim, mas… e a consequência da mobilização? A de sempre: nada. Nada mudou. Conforme longamente gestado, Renan foi eleito presidente da Casa e, semana que vem, já teremos esquecido quanto nos indignamos com tão profunda sinceridade enquanto ele permanecerá no comando, chefe de um dos três poderes da Nação, por dois longos e recheados anos de, cada um, doze meses inteiros (serão, pois, 24 salários assim usufruídos, fora o resto das vantagens – e resto, aqui, é mera figura de retórica, já que elas se sobrepõem milhares de vezes ao principal; o resto, na verdade, o troco, a esmola é o salário).

 

Todo mundo sabia há muito que Renan seria o presidente, mas, ocupados com a vida, só o percebemos nos derradeiros dias – quando saímos a campo; todo mundo sabe há muito que não é isto que o fará arredar pé da cadeira que enfeixa tantos e tão sedutores poderes, e que ele a ocupará a despeito da nossa cara feia: ele sabe que nós, como povo em geral, o elegemos ou, ao menos, elegemos os que o elegeram.

 

Se Alagoas até mereceria ser expulsa da Federação por votar e revotar em Renan e Collor, poluindo nosso conceito de ética e de higiene dos fichários, nós reelegemos políticos que votam neles para cargos no Congresso. Ainda que refutemos em nome pessoal que eu não, eu não votei nesses caras, o meu candidato, ético, limpo, decente, até honesto!, foi derrotado, isso não exclui nossa responsabilidade de povo que elege essa gente.

 

Daqui a pouco teremos nova jornalista (não mais a Mônica Veloso, já velha demais para isso, manjadíssima), ou outra profissional qualquer, a meter-se na vida de Renan e, depois, nas páginas daPlayboy – não para relatar, indignada, o que viu e soube, mas para mostrar os bens, pagos por empreiteiras ou por desvios de verbas públicas, de que o senador desfrutou, se é que, nas condições dele, desfrutar ainda seja o verbo. Talvez melhor será dizê-lo bens que o alagoano viu e apalpou, embora mais certo mesmo pode ser que seja o que apregoa um amigo:

 

– Comer? Que nada! Aquilo quer é participar: diz que estivemos juntos, eu assumo contrariado e tu me passas 45% do que a Playboy te pagar, cash pra mim.

 

Nossa culpa é não brigar o tempo todo para que o voto seja consciente, ou seja, não brigar o tempo todo por uma educação decente e uma formação cultural que nos honre e eleve.

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