Slavoj Zizek: “Estou cansado das análises culturais e políticas”

O cansaço do filósofo esloveno

Em conversa com o Jornal do Commercio, o filósofo esloveno diz que procura mostrar agora seu trabalho mais teórico e que o momento é de pensar a crise.

 

“Eu acho que mais do que nunca a ideologia é hoje parte da nossa vida cotidiana”, diz Zizek

Conhecido como polemista e figura midiática, Slavoj Zizek está cansado de falar da cultura pop. Cada vez se vê mais como um filósofo – Zizekainda que um filósofo pouco convencional, de ideias ousadas e quase contraditórias. Em viagem ao Brasil para lançar seu novo livro, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (Boitempo, 656 páginas, R$ 79), trabalho densamente reflexivo, o esloveno falou ao JC por telefone. Zizek faz nesta sexta (15/3) palestra no Recife, às 19h30, no Teatro da UFPE, dentro da estreia do projeto ArtFliporto Apresenta, com ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia).

JC – Seu trabalho passa por diversos campos teóricos, da teoria cultural ao multiculturalismo. O que, para você, o faz tão lido em diversos círculos acadêmicos?
SLAVOJ ZIZEK – Bem, eu conecto algumas semiteorias, como as de Hegel, as de Jacques Lacan e a crítica de Marx da ideologia com elementos da cultura popular, referências ao cinema, entre outros. Eu dei a psicanálise, junto com alguns amigos, uma orientação diferente. Lacan, quando eu e meus amigos começamos a trabalhar, era visto em geral como um psicanalista crítico, um pouco ligado à teoria da cultura, mas não como alguém cujo trabalho cria referências para o campo político. Existe talvez outro aspecto: eu – e é por isso que eu tenho vários opositores – provoco, quebro posições estabelecidas. Por exemplo, você mencionou o multiculturalismo. Eu sou completamente contra o tema do multiculturalismo, do establishment cultural. Eu resisto em absoluto a ser parte do multiculturalismo. Eu disse em um ensaio meu de dez anos atrás: o multiculturalismo é a principal ideologia do capitalismo tardio global. Eu não vejo nada de subversivo no multiculturalismo. Também não sou, definitivamente, parte do que é chamado de análise do discurso ou do desconstrucionismo francês de Michel Foucault e outros. Não! Eu defendo, se você quiser chamar assim, um retorno à grande metafísica. Mas, em algum momento, eu devo desapontá-lo: eu estou ficando um pouco cansado das análises culturais e políticas. Nos últimos anos, eu tenho retornado para o campo da pura filosofia. Estou ficando velho e acho que devo focar no que eu realmente tenho a dizer.

JC – Você se tornou uma figura midiática e já chegaram até a inventar uma amizade entre você e Lady Gaga. Isso atrapalha seu trabalho?
ZIZEK – Aquilo foi uma loucura! Eu simplesmente vivo no meu próprio mundo, sem ser afetado por toda essa estupidez. Eu ignoro isso. Eu sou uma pessoa extremamente solitária. Eu não vou a festas, eu não circulo por lugares. Para lhe dar uma ideia, nessa minha turnê pelo Brasil, sabia que eu não estive com outras pessoas? Não estive em nenhum almoço, jantar, ou evento social. Eu insisti nisto: eu faria palestras, daria, talvez, um número limitado de entrevistas, mas o restante do tempo eu iria ter todo para mim mesmo. Então, isso é absurdo, eu tenho uma vida muito privada.

JC – Você é um pensador que gosta de ir aonde o público está, de dialogar. Qual é o papel de um intelectual hoje?
ZIZEK – Tem algo que gosto de repetir: o grande papel dos intelectuais não é dar respostas. As pessoas me perguntam, por exemplo, sobre a crise ecológica: “O que devemos fazer?”. Eu não sei! A principal tarefa do intelectual público hoje, eu acho, é permitir, ou melhor, possibilitar que as pessoas pensem, fazer com que elas façam as perguntas certas. Eu acho que os problemas que nós temos hoje existem porque nós estamos fazendo as perguntas erradas. Nós entendemos qual é o problema real, mas a forma de formular o problema é falsa. Por exemplo, é só tomar o racismo, o sexismo, todos esses “ismos” populares de hoje. Ao menos no Ocidente, eles são traduzidos como um problema de tolerância, de que nós devemos ser mais tolerantes. Eu sou totalmente contra isso. Acho que isso é uma mistificação. Até escrevi um livro curto, lançado na Europa, com o título Elogio da intolerância. Outro exemplo é a ecologia. Todos nós sabemos que há um problema. Mas eu acho que o modo de formularmos o problema costuma ser errado. Por exemplo, todas essas coisas de que eu não gosto, mesmo em Evo Morales, as celebrações de alguma “Mãe Natureza”, com uma abordagem holística, e a visão de como o capitalismo a destrói e como nós a exploramos em excesso – eu não aceito de forma alguma essa visão. Qualquer celebração da natureza que leve em conta alguma ideia de “sabedoria” é, para mim, totalmente errada. Então, não é que eu ofereça respostas fáceis. Eu só quero que as pessoas vejam os problemas econômicos de hoje. Acho crucial convencer as pessoas de que o problema não são a falta de regulações do mercado, os banqueiros gananciosos ou seja lá o que for. O problema está no sistema. Estamos começando a perceber lentamente que existe algum antagonismo desequilibrado, uma falha de construção, por assim dizer, no nosso capitalismo global.

JC – Como se pode continuar a interpretar o mundo de hoje a partir do marxismo?
ZIZEK – Ok, essa é uma questão bastante complicada, mas a primeira coisa que eu diria é que nós, para continuarmos o trabalho de Marx, devemos realmente começar de novo e voltar nossas ferramentas críticas para o próprio marxismo. Claro que não se pode culpar Marx por Stalin ou coisas do tipo. Contudo, o fato é que a experiência comunista marxista global, a experiência de projetos políticos que foram inspirados pelo marxismo no século 20, é, basicamente, uma experiência catastrófica. E eu acho que nós devemos nos perguntar a seguinte questão: será que Marx foi pouco radical? O meu segundo movimento é, em dado ponto, retornar de Marx a Hegel. Eu acho que Hegel não foi um louco racionalista que pensava que na sua mente e na sua lógica ele podia deduzir tudo. Ele era bastante aberto à contingência da história. Nós precisamos disso. Nós precisamos quebrar essa visão marxista de que a história se move do capitalismo para uma ordem superior, o socialismo ou algo do tipo. A história é aberta, na minha opinião. De forma espontânea, ela provavelmente se move em direção a alguma catástrofe.

JC – E por que Hegel é tão importante para entender o mundo de hoje?
ZIZEK – Eu sou bem mais um pessimista histórico, por assim dizer. Eu penso a alienação não no sentido marxista, mas no sentido da não transparência da história. Você faz algo e o resultado é totalmente diferente do que você esperava; você planeja a libertação e o resultado é o terror e o horror. Eu acho que nós devemos ficar mais conscientes disso, dessa impenetrabilidade da história, de como tudo termina de forma diferente do que esperávamos. Hegel estava profundamente ciente disso. Novamente, toda a história da esquerda radical no século 20 demonstra isso. Olhe para a Revolução Chinesa. A maior revolução comunista terminou fazendo do Partido Comunista Chinês o mais implacável e eficiente regulador do novo sistema capitalista. Nós devemos nos preparar para essas surpresas.

JC – E qual é o papel de Lacan para ajudar a entender Hegel?
ZIZEK – Lacan é para mim especialmente importante. Por um lado, ele me dá conceitos para poder ler Hegel e também para compreender como a ideologia funciona hoje. É fascinante dizer hoje que, com exceção de algum louco fundamentalista religioso, nós não temos mais ideologia, somos todos cínicos pragmáticos. Mas não, eu acho que mais do que nunca a ideologia é hoje parte da nossa vida cotidiana. Na verdade, é uma parte até invisível.

JC – Em tempos pós-modernos, você procura trabalhar com a noção de totalidade, de uma teoria que dá conta de toda a sociedade, não é?
ZIZEK – Sim, eu recuso totalmente essa ideia pós-moderna de que não existem mais grandes narrativas, que tudo são só moléculas dispersas. Em todos os níveis, das teorias e da política, eu acho que nós devemos retornar completamente à ideia da totalidade. Eu rejeito totalmente essa ideia de que, como diz Emmanuel Levinas, a noção filosófica da totalidade prepara o caminho para o totalitarismo político.

JC – Esse é o problema que você vê em movimentos como o Occupy Wall Street e a Primavera Árabe?
ZIZEK – Eu não simplesmente os critico. Por exemplo, eu esperava o que aconteceu no Egito. Contudo, o resultado disso não é simplesmente zero. Ainda que agora nós tenhamos um pacto entre os militares corruptos pró-Estados Unidos e os fundamentalistas muçulmanos, não vamos esquecer que alguma coisa sobrevive dos protestos de dois anos atrás. O que ficou foi principalmente uma mobilização incrível da sociedade civil: mulheres, estudantes, sindicatos, etc. Isso é agora um fator bastante forte na vida política do Egito. E a luta não está terminada. Eu não sou simplesmente um pessimista, mas, se você me perguntar se eu vejo algum lugar a se chegar hoje, um movimento político com que eu me identificaria completamente, não há nada muito grande. O movimento de que mais me aproximo é o da Grécia, o Syrila, coalização radical de esquerda que quase ganhou a última eleição.

JC – E o que você vê de positivo no Syrila?
ZIZEK – É difícil entrar em detalhes, mas é esse o motivo: a esquerda até agora sempre foi cooptada pela divisão entre um realismo comprometido – das reformas, das pequenas mudanças feitas dentro do sistema, da busca por fazer o capitalismo mais socialmente sensível, etc -, e um dogmatismo de princípios, mas que é de fato impotente. Eles de certa forma superam essa cisão. Eles têm atitudes baseadas em princípios, contudo, ao mesmo tempo, são impiedosamente pragmáticos.

JC – Parte da sua notoriedade vem de suas palestras e discursos. Qual pensa que é a função dessas conferências?
ZIZEK – Para mim, conferências e palestras são puramente instrumentais. Eu quero levar as pessoas a lerem meus livros. É isso que é importante. Eu acho que eu não sou sequer muito bom. Nas conferências e, principalmente, nas minha entrevistas, eu apenas digo, de forma simplificada mas ainda confusa, o que está dito de forma bem melhor nos meus livros. Eu olho para isso de uma forma totalmente instrumental. Tudo que eu realmente tenho a dizer está nos meus livros.

JC – A teoria pode ajudar a mudar o mundo?
ZIZEK – Faço minhas obras pelo puro amor à filosofia, não para contribuir para a solução da crise da humanidade ou coisa do tipo. Eu sou, por assim dizer, um autor metafísico bastante tradicional. Eu acredito na teoria que serve unicamente a si mesma; você a faz porque ela é uma bela teoria. Mas penso também que esse tipo de teoria, a longo prazo, fornece os melhores resultados práticos. Quando você quer fazer uma teoria que vai servir imediatamente a um propósito social, ela vira uma teoria ruim que não tem efeito nenhum a longo prazo.

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Do Jornal do Commercio

Diogo Guedes

Uma resposta

  1. Slavoj Zizek, o Grande Idiota comunista da Eslovênia!

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