Arquivos Diários: 26 abril, 2013

CARTA DE VESPASIANO AO FILHO TITO / 69 DC – ou a origem dos discursos e práticas dos políticos atuais.

Roma, 22 de junho de 79 d.C.
Tito, meu filho, estou morrendo.
Logo eu serei pó e tu, imperador.
Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa,
afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um
conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns senadores o criticarão, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio?

Num estádio, é claro.

Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum, e sempre que o olharem dirão: “Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou”.

Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão, que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. Vel caeco appareat (Até um cego vê isso).

Portanto, deves construir esse estádio em Roma.

Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo, pão e circo).

Esperarei por ti ao lado de Júpiter.

 

VESPASIANO

A REPÚBLICA SANGRA – por paulo timm / torres.rs

“Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.” Franz Kafka

Tomo o título de um comentário de M.Aurélio Nogueira, num comentário sobre a atual PAULO TIMMconjuntura , feito no FaceBook.
A tensão entre os Poderes Judiciário e Legislativo não chegou ontem, com a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de Emenda – PEC – introduzindo restrições do Legislativo sobre o Supremo Tribunal Federal. Ela percorreu todo o processo dito “Mensalão”, chegou à gravidade no final do ano passado, quando o então Presidente da Câmara ofereceu apoio e “refúgio” a deputados eventualmente condenados naquele processo e, agora, chega ao paroxismo com exaltações de todos os lados. Tomara que não chegue às vias de fato, com sopapos e bofetões visíveis no ar, nos noticiários da noite. Isto seria fatal para nossa ainda jovem democracia. Afinal, ela nasceu mesmo com a Constituição de 88. Não chegou sequer `a beleza dos 35, hoje cantada pelo escritor gaúcho F. Carpinejar em bela crônica inspirada na bela Carla Bruni DEPOIS DOS 35 ANOS  “A cantora e ex-primeira dama da França, Carla Bruni, falou em entrevista para a revista Veja algo que acredito muito. Que depois dos 35 anos, a beleza é resultado da simpatia, da elegância, do pensamento, não mais do corpo e dos traços físicos. A beleza se torna um estado de espírito, um brilho nos olhos, o temperamento. A sensualidade vai decorrer mais da sensibilidade do que da aparência. Uma mulher chata pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher burra pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher egoísta pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher deprimida pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher desagradável pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher oportunista pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher covarde pode ser bonita antes dos 35. Depois, não mais, depois acabou a facilidade. Depois o que ilumina a pele é se ela é amada ou não, se ela ama ou não, se ela é educada ou não, se ela sabe falar ou não. Depois dos 35 anos, a beleza vem do caráter. Do jeito como os problemas são enfrentados, da alegria de acordar e da leveza ao dormir. Depois dos 35 anos, o sexo é o botox que funciona, a amizade é o creme que tira as rugas, o afeto é o protetor solar que protege o rosto. A beleza passa a ser linguagem, bom humor. A beleza passa a ser inteligência, gentileza. Depois dos 35 anos, só a felicidade rejuvenesce.”
Nossa democracia, enfim, é pouco mais do que uma adolescente e já enfrentou desafios dignos de mulher madura: O impeachment de Collor, em 92, a República de Juiz de Fora, sob o comando de Itamar Franco, a vaidade de FHC, que contrariando muitos entendidos, não chegou a salvar seu Governo, apesar do grande feito do Plano Real, que na verdade, lhe foi anterior, a eleição, posse e governo (como dizia Carlos Lacerda, duvidando de JK, nos idos de 55) de um operário do PT, e a eleição, posse e …difícil governo de uma mulher guerrilheira, e uma problematica Comissão da Verdade. Êta mulher…!!! É verdade que todo o processo de construção da democracia no Brasil foi “devidamente” calculado. Jamais saiu dos eixos. Começou com a “ Lenta, Segura e Gradual distensão do Presidente General Ernesto Geisel , sob o crivo do bruxo Golbery do Couto e Silva. Culminou aquela fase, depois de cinco longos anos, nos quais não faltaram mortos sob tortura, com a Anistia controlada de 1979 e uma rigorosa reorganização partidária que acabou ferindo mortalmente Leonel Brizola. Tiraram-lhe o PTB e obrigaram-nos a começar quase do zero. Pagou caro. Talvez com a Presidência, cargo para o qual, até o final de 80 era o mais viável, dentre os quadros da esquerda. Depois de Geisel, para consolidar a obra, sobreveio um velho e cansado General de Informações, mais afeito às estrebarias do que às praças públicas. Ficou longos seis anos. Nem ele agüentava mais: “Me esqueçam”, foram suas palavras ao sair do Palácio do Planalto. Como isso durou tanto? Onze anos…? Nem eu sei. Só sei que ele – Figueiredo, entrou em 79 , arrastou-se em meio à segunda Crise do Petróleo durante aquele ano e mais os anos 80, 81 e 82 e acabou enfrentando galhardamente a posse de Governadores de Oposição pelo país inteiro. Aí “encarou” os comícios das Diretas Já e, com certo enfado, tratou de sepultar a Emenda Dante de Oliveira que as consagrariam ao final de seu mandato, no dia 25 de abril de 1984. Com direito a colocar o General Newton Cruz, do SNI nas ruas de Brasília dando porrada a torto e a direito nos manifestantes. Então sobreveio, o fator alfa: Maluf que viria complicar um pouco os cálculos do “ancien regime”. Ele comprou o colégio eleitoral da ARENA (Partido do Sim, Senhor General) que deveria manter o esquema por mais vinte anos e abortou a eleição indireta pelo PMDB de Tancredo Neves , cuja posse deveria ocorrer em 1985.
Aí o fatídico : Morre Tancredo e assume Sarney, dissidente do regime militar, sob cujo comando terá continuidade a transição, que deveria culminar na eleição direta para Presidente imediatamente, mas que acabou se arrastando até 1989. Cinco anos de Sarney ( 85-86-87 – 88 -89 ) graças à bondade da Constituinte em lhe dar um ano a mais do que o inicialmente previsto. Bom… Nem vou continuar recontando datas. O que desejo, apenas, é mostrar que nosso processo de transição não foi apenas longo. Foi penoso. E extremamente excludente. Ele conseguiu liquidar ao longo desse tempo as grandes lideranças do passado, consolidando um dos objetivos do Golpe de 64: Romper com o passado. Só não conseguiu romper, logicamente, com as conquistas daquele passado, que se incorporaram como feitos civilizatórios na Sociedade e no Estado brasileiros: a regulação do trabalho e do capital, as grandes estatais que operaram como suporte da industrialização, a vontade do Brasil em se modernizar.
Digo isto para reiterar uma coisa óbvia: Não houve uma ruptura no processo de redemocratização do Brasil. Saímos de uma institucionalidade precária, da Constituição militar de 1967 e ingressa no regime Constituinte de 88 sem muitos traumas. Até a Constituinte de 46 havia sido conseqüência de uma ruptura, com a derrubada de Vargas em 1945, além do grande impacto da vitória aliada na II Guerra. A Constituinte de 87/88 teve imensa participação de movimentos sociais, muitos debates internos e grande efervescência política, mas não foi fruto de uma grande vitória popular anterior. Essa, aliás, a nossa diferença com outros processos de abertura no Continente. E nossa crucial diferença, por exemplo, com a Revolução dos Cravos, em Portugal, que soterrou a ditadura salazarista. Aqui, vivenciamos um processo peculiar quase insólito, tipo das Coréias, em 1953: Chegou-se a um armistício de paz não formal, em que os antigos dirigentes recuaram do Poder, sem admitir qualquer culpa, e os “novos” foram ocupando o terreno, meio sem-cerimônia, açodados até pela perspectiva de ocupada da “máquina governamental”. Rigorosamente, até hoje não existe uma análise clara sobre como acabou a ditadura no Brasil. Ela sumiu, enquanto proscênio. Mas seus gerentes continuaram onde sempre estiveram: No Poder…Eles estão no Estado. Na Grande Imprensa. Nos órgãos de classe patronal. Nas Forças Armadas. E sempre que existe uma possibilidade de ruptura maior, a esquerda, seja ela qual for, recua, porque sabe que não tem como enfrentar as adversidades. A esquerda, no Brasil, ficou “hábil”. Hábil em contornar o “Mercado”, como fez Lula na famosa Proclamação que resultaria na manutenção de Henrique Meirelles no Banco Central. Hábil em recuar diante da questão da democratização da Mídia. Hábil em lidar com Chavez e Cristina Kirchner. Hábil até em promover o Brasil como um oásis de prosperidade num mundo em crise. A esquerda brasileira, entretanto, só não foi hábil em manter sua unidade interna. Preferiu, no Poder, ceder à tentação da governabilidade através do “caro”, aqui no seu pior sentido, conceito de Base Aliada. Com isso, vem despedaçando-se aos poucos, não sem proclamar, sempre, o seu direito à verdade como representante de uma Política Econômica e Social avançada em benefício dos mais pobres. Brizola nunca embarcou de bom grado nesta canoa. Engoliu, indigestamente, o “Sapo Barbudo” no segundo turno de 89 e em 94. Desconfiado, afastou-se, até vir a falecer em 2004. O que sobrou do PDT, nas mãos dos dirigentes atuais, nada tem a ver com Brizola, como o PTB de Jefferson nada tem a ver com Vargas e Goulart. Roberto Freire, herdeiro do PCB, perdeu-se no meio do caminho. Heloísa Helena e Marina caíram fora, junto
com outros grandes nomes do PT. Agora chegou a vez da turma do Arraes, com a defecção do seu neto, Governador de Pernambuco, virtual candidato do PSB à Presidência. Só falta, mesmo, agora, uma grande ruptura, de maior vulto , dentro do próprio PT, tal como já se cogita entre dentes, no sul do país… Todo este processo político de consolidação da democracia no Brasil está em jogo na crise atual entre Legislativo e Judiciário. Tanto um como outro destes Poderes são estruturantes do Estado brasileiro. E reforçam sua natureza. O Judiciário, certamente, é mais conservador e republicano, no sentido da valorização da coisa pública. O Legislativo, mais progressistas e democrático, no sentido de atender à demandas populares. O Judiciário, porém, é mais estável e, consequentemente, mais estabilizador do que o Legislativo. A irritação entre esses dois Poderes, aos quais o Executivo olha de camarote, é , portanto, extremamente perigosa à democracia e deve ser cuidadosamente analisada, pois pode acarretar uma grave crise institucional. Lembro, aqui, a propósito , o famoso discurso de Márcio Moreira Alves, na Câmara, em 1968, preâmbulo do AI-5. Mais além de interesses Partidários em jogo na atual crise – e muito menos pessoais -, creio que se deve sopesar melhor as forças reais que atual sobre a conjuntura de forma a evitar atropelos. O medo não deve jamais ser conselheiro nestas horas, mas a prudência, se sabe, é o olho das virtudes e que, se não garante o melhor, evita também o pior. A quem interessa na verdade, colocar lenha na fogueira da crise entre o Judiciário e o Legislativo? Será à democracia brasileira, mesmo!? Leio, por acaso esta passagem, que me parece singular, de Josias Teófico, sobre arte, Publicado na Revista Continente e noSul21 em 20 de outubro de 2012, para ilustrar o que é o Judiciário , como ícone, e o Legislativo como ídolo: No livro O ícone – Uma escola do olhar, Jean-Yves Leloup faz uma distinção entre ídolo e ícone. O primeiro seria qualquer forma de representação religiosa que prende o olhar em si mesmo, pelas formas, cores ou movimentos que chamam a atenção, provocando emoções. O ícone, ao contrário, não tem movimento nem profundidade, as cores e formas obedecem a padrões tradicionais. Nele, a transcendência é o fator essencial, a intenção é mostrar o “Invisível no visível, Presença na aparência”
Recorro à anotação sobre Arte porque a Política tem mais a ver com ela como praxis do que com as ditas Ciências, embora guiada remotamente pelo logos. A esquerda, entretanto, não raramente inverte esta equação. Para os velhos comunistas, a razão histórica da proclamação do socialismo como etapa superior do capitalismo estará , sempre, na vanguarda de sua práxis. O imperativo democrático, no sentido das aspirações populares, é sempre mais importante do que as instituições. Daí seu desprezo, embora sempre oportunamente aproveitados, pelas instituições republicanas, dentre as quais o Judiciário é das mais sólidas.
Todo cuidado, nesta hora, é, portanto pouco… As simplificações abundam na ordem do senso comum com ares de senso crítico, atropelando o bom senso…

Paulo Timm é economista da UNB.

Visita íntima aos anos 70 – por bruno ghetti

Visita íntima aos anos 70

MK2 Productions/Bloomberg

 

Nada foi como antes depois de maio de 1968. Ou talvez seja o contrário: tudo continuou quase igual. Ainda é difícil, 45 anos depois, estabelecer com precisão o saldo dos eventos que levaram às ruas uma juventude que, embalada pela luta por melhoras no sistema educacional francês, acabou achando que poderia mudar o mundo.

Talvez por isso, a ideia de recompor um retrato daquele tempo (e os anos imediatamente seguintes) tem sido tão sedutora à arte. Especialmente ao cinema, que em geral tem abordado o tema em tom saudosista – como “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci -, às vezes beirando a idealização – como “Amantes Constantes”, de Philippe Garrel. O mais recente filme sobre a época, “Depois de Maio”, que estreia neste fim de semana no Brasil, parece, no entanto, feito com a preocupação de evitar cair em uma coisa ou na outra.

Dirigido pelo francês Olivier Assayas (da celebrada série “Carlos”), o filme se passa já no início dos anos 1970. Na ressaca pós-68, quando a juventude francesa começava a se dar conta de que a “revolução” talvez não tivesse tido os resultados esperados, o jovem desenhista Gilles se vê pressionado a decidir entre o engajamento político, diante de patrulhas ideológicas de todos os lados, e as realizações pessoais – dilema, aliás, comum entre a juventude da época. Inclusive o próprio Assayas, que tem no seu protagonista uma espécie de alter ego.

“Não é exatamente um filme autobiográfico. Mas é um filme de geração, que mostra que um indivíduo, por mais particular que seja, não pode se tornar ele mesmo se não passar pelo movimento coletivo da história, que não é apenas a sua”, diz Assayas, em entrevista ao Valor.

Assayas tinha só 13 anos em 1968, mas viveu com intensidade os anos que se seguiram. Já havia sentido por duas vezes necessidade de abordar essa época em suas obras. A primeira foi em 1994, quando dirigiu o ótimo “Água Fria” (primo não muito distante de “Depois de Maio”), sobre dois adolescentes em crise. A outra foi sob forma de ensaio (publicado como livro em 2005), “Une Adolescence dans l’Après-Mai”, que foi como uma matriz do longa.

Andrew Medichini/AP

Assayas: “Não tenho nostalgia daquela época. O peso ideológico que restringia a liberdade de pensamento era enorme”

 

“O ensaio deu forma às minhas ideias sobre aquela época. Foi escrevendo que rememorei a fundo o modo como eu vivenciei aquele tempo, em parte pelo engajamento político, que era compartilhado por todos, de outra parte pela contracultura. Havia uma certa tensão entre essas duas correntes, e minha geração ficou no fogo cruzado entre ambas. Escrevendo, essas coisas voltaram à minha cabeça, e eu pensei que, no cinema, a época nunca tinha sido tratada da forma que eu achava apropriada”, diz o diretor.

“Depois de Maio” mostra uma geração movida por ideais elevados, que discutia temas profundos nos intervalos entre filmes, livros e canções de uma época singularmente fértil no terreno da cultura. Os jovens do filme são fotogênicos e os figurinos e cortes de cabelo setentistas são valorizados por uma direção de fotografia solar. Ainda assim, o tom do filme nunca é de glamourização.

“Não tenho nostalgia daquela época. O peso ideológico que restringia a liberdade de pensamento era enorme. Havia um dogmatismo político que estava muito longe da realidade que vivíamos. Não lastimei quando os anos 70 acabaram, principalmente por essa questão ideológica”, diz Assayas.

“A cultura era mais viva. Mas também havia coisas insuportáveis, como aqueles solos de guitarra que duravam 15 minutos”

Mas ele também via muita coisa bela, como a rejeição ao materialismo e uma grande fé no futuro, coisas que hoje em dia, para ele, parecem ingênuas, mas que na época eram muito valorosas. “A cultura era mais viva. Mas também havia coisas insuportáveis, como aqueles solos de guitarra que duravam 15 minutos, ou os de bateria, que não acabavam nunca [risos]… Fora algumas músicas new age, que eram muito chatas!”

Assayas tem uma obra eclética, com notável habilidade para manejar uma câmera de forma naturalmente fluida. É hoje um dos cineastas franceses mais respeitados fora de seu país, sobretudo no mundo anglo-saxônico, onde passou a ser cultuado após “Irma Vep” (1996), sobre os bastidores da produção de um filme B.

Assim como Léos Carax (“Holy Motors”) e Claire Denis (“Trouble Every Day”), o diretor fez seu primeiro longa (“Désordre”) nos anos 1980, pertencendo à primeira geração do que alguns críticos chamam de “jeune cinéma français” (jovem cinema francês), movimento que se desenharia com mais nitidez na década seguinte (com o surgimento de nomes como Arnaud Desplechin, Xavier Beauvois e Bruno Dumont). São todos donos de obras muito pessoais, netos da nouvelle vague dos anos 1960, mas que foram influenciados sobretudo por nomes como Maurice Pialat, Jean Eustache e Philippe Garrel, da geração posterior à de Jean-Luc Godard e François Truffaut. “Na década de 1980, éramos isolados, tentando fazer um cinema moderno em um contexto que era, antes de mais nada, o fim de uma coisa pós-nouvelle vague. Tínhamos os mesmos valores, mas quando comecei a fazer filmes, tinha a impressão de estar só”, relembra.

Como seu alter ego do filme, Assayas queria ser artista plástico, mas o amor pelo cinema o fez mudar de rumo. Dirigiu seu primeiro curta, “Copyright”, em 1978, chamando a atenção de críticos da prestigiosa revista “Cahiers du Cinéma”, que o convidaram a integrar o expediente da publicação. “Escrevi sobre filmes entre 1980 e 1985, para mim foi uma escola de cinema. Antes, tinha vontade de filmar, mas me sentia meio ignorante sobre o assunto. Na revista, conversei com cineastas, vi filmes de difícil acesso e tive contato com as pessoas que entendiam muito sobre cinema, como [os então editores] Serge Daney e Serge Toubiana.”

Afiado ao analisar os filmes dos outros, Assayas reconhece ser incapaz de julgar os seus: “É impossível. Quando termino um filme, revejo inúmeras vezes para resolver questões técnicas, a ponto de chegar um instante em que não consigo mais vê-lo. Sempre esperei que, com o passar do tempo, pudesse rever meus filmes como se tivessem sido dirigidos por outra pessoa. Mas não consigo: ao ver as cenas, o que me vem à mente são os bastidores de cada cena. Não há distanciamento”.

Por meio de seu cinema, Assayas sempre externou seu interesse pela diversidade de culturas, sobretudo no mundo globalizado pós-internet – em seus filmes, viaja-se bastante e fala-se em várias línguas. O diretor tem particular fascínio pela Ásia (foi inclusive casado com a chinesa Maggie Cheung, sua musa em alguns filmes), mas talvez seu olhar se desloque para outra região do planeta em breve.

“Sempre me interessei pelo presente da história, me chama a atenção que a Europa não seja mais o lugar onde ela ocorre. Por isso filmei na Ásia, onde o mundo se transforma. Mas sempre me interessei pelo Brasil, que tem essa força, é hoje uma potência. Isso pode ser inspirador a um cineasta. Espero realmente poder fazer um filme aí algum dia, digo isso com total sinceridade.”

 

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Por Bruno Ghetti | Para o Valor, de São Paulo

 

LULA, O GRANDE VENCEDOR – por juremir machado da silva /porto alegre.rs

CORREIO DO POVO -ARTIGO – (LULA), O GRANDE VENCEDOR – por Juremir Machado da Silva

ARTIGO - (LULA), O GRANDE VENCEDOR - por Juremir Machado da Silva

 

ANALFABETO É QUEM NÃO TEM O QUE DIZER
No jornal Correio do Povo do dia 25 de abril, o jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, arrebenta com os preconceituosos que não engoliram o fato de Lula ter se tornado colunista do jornal mais influente do mundo, o The New Yor Times. Para Juremir “SABER ESCREVER É MUITO MAIS DO QUE DOMINAR REGRAS GRAMATICAIS. SABER ESCREVER É TER O QUE DIZER E TER UM JEITO PRÓPRIO DE FAZER ISSO…” Lula sabe. Leia, abaixo, a íntegra do texto de Juremir:

O GRANDE VENCEDOR

Minha admiração por vencedores não tem tamanho. Em todas as áreas. Admiro principalmente os que vencem pelas próprias forças contra tudo e todos. Minha admiração por Dunga é incomensurável. Por Felipão também. Já critiquei o atual treinador da Seleção, mas sem perder a admiração. Dunga e Felipão parecem sempre mal-humorados. No caso deles, é qualidade. Vem da sinceridade à flor da pele. Admirei um vencedor até as últimas consequências: o escritor argentino Jorge Luís Borges, que ficou cego. Admiro o mulato Machado de Assis, que se tornou nosso maior escritor. Enfim, admiro os que arrombam a festa. Admiro Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Aprendi a admirar o maior vencedor do Brasil contemporâneo: Lula.
Que trajetória espantosa! O menino retirante de Pernambuco superou todas as expectativas e continua a nos embasbacar. Lula é um gênio da comunicação e da política. Um Pelé da esfera pública. A minha admiração por Lula acaba de dar mais um salto. Ele será colunista do jornal mais prestigioso do mundo: o americano The New York Times. Nem o sofisticado doutor Fernando Henrique Cardoso, que eu saiba, conseguiu tal façanha. Lula terá como colegas gente do quilate de Paul Krugman, prêmio Nobel da economia. É conto de fadas dos bons. O menino pobre, não pela bola, mas pela inteligência política, galga todos os degraus, torna-se presidente do Brasil, fascina boa parte do mundo e torna-se colunista do jornal mais influente da galáxia. Uau!

É para matar de raiva os preconceituosos que o chamam de analfabeto e para fazer explodir de inveja os elitistas. Tenho minhas decepções com Lula e com muitos daqueles que admiro, mas isso não anula o essencial: as razões para continuar admirando. Jamais gostei das alianças de Lula e acho que em alguns momentos ele foi Lulla. Mas que fera política, que inteligência superior, capaz de, independentemente de educação formal, colocá-lo acima dos seus concorrentes num “mercado” altamente competitivo.

Saber escrever é muito mais do que dominar regras de gramática. Saber escrever é ter o que dizer e ter um jeito próprio de fazer isso. Lula é possivelmente o maior comunicador da história do Brasil. Um monstro. Este Brasil teve na sua história três grandes políticos: Getúlio Vargas, João Goulart e Lula. O primeiro, por mudar o Brasil, saiu morto do palácio. O segundo, por colocar o país em risco de uma melhora substancial, especialmente no campo, foi derrubado, enxovalhado e transformado em homem fraco. O terceiro veio do nada e nada temeu: impôs-se como um revolucionário reformista, aceitou jogar o jogo até quando as cartas se embaralham, não morreu, não caiu, fez sua sucessora e agora vai mostrar suas ideias ao mundo nas páginas do The New York Times. É mole? É simulação? É coisa para quem tem bala na agulha, farinha no saco e fala outra linguagem, não a dos bacharéis, mas a dos transformadores do mundo.

Estou tendo um acesso de lulismo? É uma confissão de petismo? Nada disso. Apenas uma maneira de mostrar o quanto admiro os que vencem pelo talento. Poderia dizer o mesmo do conservador Charles de Gaulle. Ou até da recém-falecida Margaret Thatcher. O talento de uns melhora o mundo, o de outros piora.