Arquivos Diários: 3 maio, 2013

O TAC. De novo?! – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Os abris não têm sido benevolentes com o Teatro Álvaro de Carvalho, o nosso TAC. Nosso porque é um bem público, um patrimônio da Amilcar Nevessociedade – e uma bela edificação tombada, um dos poucos resquícios arquitetônicos do século XIX que sobraram na Ilha de Santa Catarina. O resto foi abaixo.

 

Em abril de 2007 o TAC estava na linha de tiro para ser privatizado. Não só o Teatro como a Biblioteca Pública do Estado e dois museus, todos administrados pelo governo estadual, que tem a obrigação legal de mantê-los e fazê-los funcionar. Dispunha de pessoal e orçamento para isso, mas o governador achava que a iniciativa privada tudo resolve melhor e mais eficientemente do que a administração pública. Na verdade, desejava fazer caixa com a venda do terreno da Biblioteca e com o repasse do prédio do Teatro.

 

Notável humorista e exímio nomenclador, Luiz Henrique da Silveira iniciava seu segundo mandato em 2007. Quatro anos antes, para o órgão estadual que “cuidaria” da Cultura deu o nome de Secretaria de Organização do Lazer (o lazer, então, andava que era uma esculhambação só), para a qual forjou a criativa sigla SOL, e propôs a extinção da Fundação Catarinense de Cultura. Não conseguiu matar a FCC e, em 2005, mudou o nome da pasta para Secretaria de Cultura, Turismo e Esporte, à qual atribuiu o mesmo SOL como sigla. Tudo a ver. Quando teve a brilhante ideia de suprimir das obrigações estaduais a Biblioteca, o Teatro e os museus (também não conseguiu matá-los, apesar de lutar bravamente cortando-lhes os repasses de verbas e não repondo o pessoal que saía), renomeou o órgão como Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte, uma mudança fundamental refletida já na sigla que lhe conferiu: SOL.

 

A maior piada de LHS foi criar 36 secretarias regionais, idealizadas para abafar ou cooptar lideranças que surgissem em qualquer ponto do Estado, chamando-as “de desenvolvimento”. Outra, recente, foi publicar sexta-feira neste DC o artigo A Capela Sistina, a Torre Eiffel e a Ponta do Coral, onde afirma que a Ilha perderá seu “novo ícone” se continuar opondo-se à construção de um hotel privado, ao estilo Dubai, na Ponta do Coral; esqueceu que o ícone já existe, chama-se Ponte Hercílio Luz e, durante suas duas gestões, ele não a recuperou nem como ponte, nem como monumento. A Ponte só não caiu porque não quis.

 

Agora, neste novo abril, o TAC volta a ser ameaçado. Vazou, e a imprensa local tem publicado, que há um acerto costurado com o SESC para repassar-lhe o Teatro. Gente da SOL e gente da Fecomércio, a federação dos sindicatos patronais dos comerciantes, que administra o SESC, desconversa dizendo que ainda não se chegou aos detalhes operacionais do acordo. Apesar disso, confirma-se que a assinatura do repasse se dará no próximo dia 8 de maio. Onde? No próprio TAC, é claro, de carona em solenidade de lançamento de editais para a Cultura. Era para ser surpresa.

 

Fala-se desde um comodato de 45 anos até algum compartilhamento de pauta durante 100 ou 200 semanas. Pelo uso do bem público, a entidade do Comércio faria reformas necessárias no prédio. Como de hábito, aqui fora ninguém sabe de nada: nem o respeitável público, nem os nobres artistas.

 

Além de se alinhavar essas coisas a portas fechadas, o que é muito feio, o pior é que se ignora a existência de um Plano Estadual de Cultura em gestação (a despeito do governo atual), que deveria orientar esse tipo de iniciativa. Mas seria no mínimo ingenuidade acreditar, aqui, em planos e em Cultura.

NATUREZAS MORTAS – por jorge lescano / são paulo.sp

N A T U R E Z A S   M O R T A S

© Lescano

Com dezessete anos descobri a pintura surrealista e acreditei que o mundo tinha me dado todas as respostas de uma vez; o surrealismo era o fim de todas as incógnitas surgidas com o aparecimento do homem no planeta. Tal ilusão é perfeitamente compreensível num rapaz tão novo, sem experiência de vida e de artista.

Uma das soluções fáceis era apelar para o aspecto literário da obra visual, e isto se conseguia dando títulos paradoxais ou simplesmente obscuros.

Vem-me à mente o Nu esotérico, quadro nunca pintado pelo meu amigo, o artista colombiano Rodrigo Barrientos, que não era surrealista, mas gostava de brincar com as palavras associadas aleatoriamente às imagens virtuais.

Naquela época longínqua pintei uma mulher sentada numa cadeira em atitude de abandono, como se estivesse muito cansada e/ou angustiada, pois o rosto não era visível e as mãos descansavam lassas sobre as coxas. O resto do quadro – em tons de cinza, como correspondia ao tema – era um ambiente indefinido, sem móveis ou utensílios que permitissem identificá-lo. Poderia ser um quarto de hospital ou uma paisagem desolada, sem linha do horizonte. O título: Natureza morta.

Isto intrigou alguns amigos. Para eles a natureza morta era um gênero tradicional que apresentava a reunião de objetos inanimados. A minha obra era do gênero nu, alegavam. Tive então a oportunidade de exibir o meu recente conhecimento das teorias expostas por André Breton e companhia. Atividade cansativa, porém satisfatória para a vaidade do projeto de artista.

Anos mais tarde, curado da soberba do neófito, conheci a pintura expressionista e a obra de Edward Hopper.

Identifiquei no norte-americano algo do sentimento de minha obra juvenil. Suas mulheres solitárias enclausuradas em ambientes domésticos, em roupas de dormir ou nuas, sentadas, reclinadas, de pé, de frente ou de costas a janelas de luz crua, fazem-me pensar em naturezas mortas: seres de vida suspensa pelo pincel do artista. Algumas parecem esperar algo que as transforme, outras já nada esperam. Estas mulheres são a crônica de vidas frustradas em algo que nunca saberemos, mas que retorna toda vez que contemplamos o quadro. Este fascínio paradoxal se repete nas suas pinturas de casarões solitários em paisagens desoladas. Seus quadros param no limiar da revelação, como todas as grandes obras; exatamente o sentimento procurado pelo surrealismo. Sem a parafernália espalhafatosa de um Salvador Dali, estas obras não pretendem desvelar os mistérios da vida, mas os trazem a tona.