NATUREZAS MORTAS – por jorge lescano / são paulo.sp

N A T U R E Z A S   M O R T A S

© Lescano

Com dezessete anos descobri a pintura surrealista e acreditei que o mundo tinha me dado todas as respostas de uma vez; o surrealismo era o fim de todas as incógnitas surgidas com o aparecimento do homem no planeta. Tal ilusão é perfeitamente compreensível num rapaz tão novo, sem experiência de vida e de artista.

Uma das soluções fáceis era apelar para o aspecto literário da obra visual, e isto se conseguia dando títulos paradoxais ou simplesmente obscuros.

Vem-me à mente o Nu esotérico, quadro nunca pintado pelo meu amigo, o artista colombiano Rodrigo Barrientos, que não era surrealista, mas gostava de brincar com as palavras associadas aleatoriamente às imagens virtuais.

Naquela época longínqua pintei uma mulher sentada numa cadeira em atitude de abandono, como se estivesse muito cansada e/ou angustiada, pois o rosto não era visível e as mãos descansavam lassas sobre as coxas. O resto do quadro – em tons de cinza, como correspondia ao tema – era um ambiente indefinido, sem móveis ou utensílios que permitissem identificá-lo. Poderia ser um quarto de hospital ou uma paisagem desolada, sem linha do horizonte. O título: Natureza morta.

Isto intrigou alguns amigos. Para eles a natureza morta era um gênero tradicional que apresentava a reunião de objetos inanimados. A minha obra era do gênero nu, alegavam. Tive então a oportunidade de exibir o meu recente conhecimento das teorias expostas por André Breton e companhia. Atividade cansativa, porém satisfatória para a vaidade do projeto de artista.

Anos mais tarde, curado da soberba do neófito, conheci a pintura expressionista e a obra de Edward Hopper.

Identifiquei no norte-americano algo do sentimento de minha obra juvenil. Suas mulheres solitárias enclausuradas em ambientes domésticos, em roupas de dormir ou nuas, sentadas, reclinadas, de pé, de frente ou de costas a janelas de luz crua, fazem-me pensar em naturezas mortas: seres de vida suspensa pelo pincel do artista. Algumas parecem esperar algo que as transforme, outras já nada esperam. Estas mulheres são a crônica de vidas frustradas em algo que nunca saberemos, mas que retorna toda vez que contemplamos o quadro. Este fascínio paradoxal se repete nas suas pinturas de casarões solitários em paisagens desoladas. Seus quadros param no limiar da revelação, como todas as grandes obras; exatamente o sentimento procurado pelo surrealismo. Sem a parafernália espalhafatosa de um Salvador Dali, estas obras não pretendem desvelar os mistérios da vida, mas os trazem a tona.

2 Respostas

  1. Creio na Poesia e na intimidade do Artista com a Palavra e as Cores. A propósito, a crônica do Jorge Lescano, me remete a um tempo em que eu, muito jovem ainda, iludido com a força de certas imagens metafóricas, pensava ter achado a essência da Poesia. Achava que na Poesia estava a raiz da criação. Ia ao delírio desafiando o meu amigo Elias Layon. Queria que ele pintasse esses versos: “piscares de louras searas /nutridos de dedos vermelhos / apontam rotas convexas / de tempo em descanso no galho.” Era uma proposta, sim; mas, e daí? O tempo disso tudo passou e eu não tenho o que fazer com os versos do poema que foi escrito há 43 anos! E isso foi ontem.

  2. Belo e fundo texto, caro Jorge Lescano, também pela referência especial ao trabalho de Hopper, um dos pintores com quem mais me identifico. Magistrais os dele, Hopper, registros da solidão nos grandes centros esvaziados de vida, de alma. Dos surrealistas propriamente ditos, prefiro mil vezes Magritte a Dali.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: