Documentário ‘Carne, osso’ relata o assustador trabalho nos frigoríficos

FILME PRODUZIDO PELA ONG REPÓRTER BRASIL PODE SER VISTO NO FESTIVAL É TUDO VERDADE, ABERTO EM SÃO PAULO E NO RIO DE JANEIRO

Documentário ‘Carne, osso’ relata o assustador trabalho nos frigoríficos

Linha de produção exige movimentos repetitivos que tem consequências drásticas para os trabalhadores (Foto: Divulgação)

São Paulo – Seis segundos para desossar uma peça de frango. Mais de três mil peças por hora em cada esteira. 18 movimentos a cada 15 segundos. Uma carga de trabalho três vezes superior à recomendada como limite. Três vezes mais chances de desenvolver transtornos mentais. O documentário Carne, osso revela que a cadeia produtiva da carne no Brasil é repleta de desrespeitos à legislação trabalhista e um cotidiano de sofrimento, depressão e riscos.

As primeiras imagens da produção da ONG Repórter Brasilsugerem que trabalhar em um frigorífico não é “apenas” chato e massante. A trilha sonora escolhida para demonstrá-lo, por sinal, cumpre perfeitamente o papel ao usar sons repetitivos em uma longa sequência.

Os primeiros depoimentos colhidos, por outro lado, mostram que ficar em uma esteira cortando pedaços de frango, boi ou porco é muito mais arriscado do que imagina quem recebe um bife no prato em um grande centro urbano. Jovens trabalhadores de baixa escolaridade das regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil ficam expostos a condições de trabalho que são, no mínimo, assustadoras. Cortes profundos provocados pela lâmina afiada não são incomuns.

“Bota a faca no meio dos dedos dela para trabalhar”, disse um gerente de uma indústria do setor aos colegas de Valdirene, a uma funcionária de uma empresa de Forquilinha (SC), a 210 quilômetros da capital, já não conseguia mexer a mão. Ela relata que foram onze anos até chegar a esse ponto. Como não poderia correr o risco de perder o emprego, Valdirene aguentava a dor e precisava da ajuda diária do marido para esticar os dedos. Músculos e tendões atrofiaram-se pelos esforços repetitivos do trabalho de cortar frangos durante dez, doze, ou até catorze horas diárias.

Hoje sem o movimento das mãos, com menos de 40 anos de idade, ela se arrepende de ter “dado o sangue pela empresa” e lamenta ter se oposto à ação de um sindicato local que pedia melhores condições de trabalho. A vida profissional no setor é curta, revela o documentário. No geral, menos de dez anos de movimentos repetitivos diários são suficientes para acabar com a possibilidade de seguir atuando – nesta ou em qualquer área.

Carne, osso soa como um Tempos modernos da realidade dos frigoríficos que chega com boas credenciais ao festival de documentários É Tudo Verdade deste ano, aberto em São Paulo e no Rio de Janeiro. O filme de Charles Chaplin, de 1936, lançava mão de ironia e sarcasmo para denunciar as más condições do trabalho fabril no início do século XX. O documentário de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros é farto em tristes histórias sobre as condições do trabalho fabril no século XXI.

Assista a trechos do filme Carne, osso

Os funcionários do setor conhecem o médico local pelo nome de “Doutor Diclofenaco”, uma referência ao remédio receitado invariavelmente a quem se queixa de dor. “Precisava dormir com a mão amarrada na cama de tanta dor que sentia”, relata uma outra ex-trabalhadora do setor, igualmente impossibilitada de trabalhar.

O retrato apresentado no longa-metragem é de empresas que parecem não se importar com o cenário. Donas de uma fatia superior a US$ 10 bilhões na balança de exportações brasileira, são indicadas por diversos entrevistados como as grandes responsáveis pela maior parte das ações trabalhistas nas varas das regiões em que atuam – são 750 mil trabalhadores em toda a cadeia produtiva.

Um analista do mundo trabalhista lembra que a contribuição que, por mais impostos que paguem, essas corporações ficam devendo ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Boa parte dos trabalhadores ingressa, cedo ou tarde, na lista de brasileiros obrigados a se afastar do trabalho, temporária ou permanentemente, dependentes da assistência previdenciária. “Qual o verdadeiro déficit da Previdência?”, indaga.

O documentário é rico em explicações sobre o porquê de um trabalho tão esgotante. “Quanto mais tu dava conta, mais queriam”, pontua uma ex-funcionária sobre as metas impostas pelos empregadores. “Tomar show” é o jargão do meio que explica que um trabalhador não deu conta dessa meta. Quando isso ocorre, ele recebe uma cota extra de atividades e muitas vezes vara a madrugada na esteira de corte.

Ir ao banheiro tampouco é uma tarefa simples: é necessário pedir autorização do encarregado de controlar a produção e, segundo os relatos, urinar mais de duas vezes ao dia resulta em uma séria advertência. Por tudo isso,Carne, osso não é fácil de digerir, mas se faz fundamental.

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