MARX, FREUD e o MAIO DE 1968 por paulo timm / torres.rs

 Maio de 68 como a porta para a  Sacralização do indivíduo

 

Quando eu era menino,  maio era o Mês das Noivas. Naquele tempo, meados do século passado ( uma  remota antiguidade,  próxima a Ramsés, para os jovens de hoje ou, com melhor vontade, ao tempo em que os cristãos eram devorados por leões famintos no Coliseu) , o  Correio do Povo publicava visíveis anúncios sobre o “Enlace”. Com tal recurso, os noivos passavam a ter um pouco mais de intimidade. PAULO TIMMNada que ultrapassasse um beijo mais ardente com direito à algumas “pegadinhas”. Na verdade, começavam a ser tratados como… indivíduos. Com direito ao prazer…Lembro-me bem de tudo isso porque, “naquele tempo”, minha mãe recortava esses naúncios e me punha a campo para oferecer às famílias da noiva, o sonhado  “enxoval”, que ela preparava artesanalmente. Era ela uma das famosos “Pereiras”, de Santa Maria, célebres pelos bordados. Graças a isto, que  eu obrava meio constrangido, no duplo sentido da palavra, conheci todos os bairros de Porto Alegre. De bonde. Era o melhor do “trabalho”.

Mas há algum tempo a referência às Noivas, em maio,  cedeu lugar às reflexões sobre a Revolta de Paris. Esta começou no dia  2 de maio de 1968 e já produzia embates furiosos no dia 05, com centenas de presos. Daí  se espalharia com rapidez inusitada naquela primavera européia   por todas estações do Globo. O Brasil de 1968 assistiu  o mais “enragé” de todos os  enfrentamentos massivos  contra  a ditadura. O curioso é que aquela  Revolta, tanto lá, como cá,  não clamava por Pão e Terra, mas, principalmente por Liberdade, puxada por estudantes irados mas de feições tão tenras como suas mãos. Eles estavam cansados da cultura do “Mês das Noivas” e queriam livre trânsito nos dormitórios, nas suas casas, nas aulas, no vestir, no andar, no próprio ser,  onde quer que fosse.  “Havia um ar estranho: a revolução inesperada arrastara o adversário, tudo era permitido, a felicidade coletiva era desenfreada.”, segundo um observador, Antonio Negri. O grande filósofo, J.P. Sartre, também tomado de surpresa, dizia , meses depois, não ter compreendido tudo aquilo. Mas associou-se  com entusiasmo juvenil à revolta.”É proibido proibir” reverberava em cartazes  as aulas de Herbert Marcuse,   nos quatro cantos do mundo.

O maio de 68 em Paris durou pouco. Foi políticamente contido. A 30 de maio, o então Presidente De Gaulle convocou eleições para junho, paralelo à promessas de aumentos salarias salariais, desmobilizando os estudantes e docilizando o movimento operário, que a eles se associara. A crise foi controlada. E abriu lugar para a remodelação do “sistema”.

Na verdade, o Maio de 68 foi o vórtice do “Sonho”, que teve antecedentes e conseqüentes. “I have a dream, clamava o Pastor Luther King, à frente da gigantesca manifestação pelos Direitos Civis em Washington, pouco antes. John Lennon foi, entretanto,   um dos  melhores intérpretes daquela fase. Durou pouco. Ele –  a fase e o sonho. Já em 1971, ele sentenciava: “O sonho acabou”. Lennon morreria, vítima de atentado, no fatídico 08 de dezembro de 1980. A ressaca veio com os Governos Tatcher, o Reagonomics e o Consenso de Washington que inaugurariam a Era da Globalização, sob hegemonia exclusiva dos Estados Unidos, e uma verdadeira obsessão pelo indivíduo e seu corpo desejante.  A dura realidade comprovaria que a porta do Inferno estava mais próxima da entrada do Paraíso do que se poderia imaginar. Pior, sem tabuletas indicativas…

Uma das questões suscitadas pelo Movimento se refere à atualidade de Karl Marx, como principal analista crítico de um Modo de Produção estruturado sob a égide do “Capital”e sobre os caminhos do individualismo que viriam a ocupar não só a práxis do mundo contemporâneo, mas  as bases teóricas das Ciências Humanas e da Filosofia  que lhe correspondem.

Há muitos caminhos para discutir tais questões que desembocaram, depois das contorções das epistemologias do processo, da estrutura e da descontrução, na  Teoria da Pós Modernidade. Mas um deles é o da melhor  compreensão do indivíduo , já não mais como abstração iluminista de um sujeito eticamente constituído e capaz de legislar racionalmente sobre  um destino possível , mas como sujeito de prazer. Sacralizado. Trocando em miúdos, a utopia do melhor dos mundos para todos, um projeto coletivo, dado pela razão iluminista, que esteve na base da formulação marxista que empolgou os movimentos populares por décadas, vai cedendo lugar à construção diuturna de um mundo melhor na vida de cada um, a tal ponto de fundá-lo como Projeto.  No fundo, um pessimismo quanto às grandes narrativas de  salvação da humanidade, trocado no varejo pelo direito à  história de cada um : identidade – de gênero, de cor, de etnia, de sexo , de cultura – , base do multiculturalismo atual,  realização profissional , cultura do patrimônio corporal e acesso à sociedade dos objetos.

O individuo nunca teve tanta importância nas sociedades como nos dias de hoje.Entre os povos antigos, pouco valor se dava a pessoa única, a importância do indivíduo estava inserida no grupo que pertencia, apesar das diferenças naturais entre os indivíduos, não havia sequer hipótese de pensar em alguém desvinculado do seu grupo.

http://sociologiajoaogoulart.blogspot.com.br/2013/03/o-individuo-sua-historia-e-sociedade.html

Historicamente, a idéia do indivíduo, como tal, em carne , osso e alma   vinha sendo construída há tempos,  desde os gregos, mas acabou se consubstanciando depois do Maio de 68.

A invenção da alma imortal

Na Grécia, a idéia de alma só apareceu nas festas dionisíacas e celebrações órficas que davam aos participantes momentos de convivência divina no mundo sobrenatural.  Platão aproveita-se desta idéia e cria, sob os olhares críticos de Aristóteles, um conceito de alma como viríamos a conhecer, pela via do cristianismo, que dela se apoderou. Com este conceito o Homem abandona o mundo da natureza e se erige como uma substancia transcendental.

A descoberta do corpo

A  passagem da alma etérea identificadora do humano ao corpo desejante , no sendeiro da individuação foi percebido  muito recentemente. Um pioneiro foi Picco della Mirandola no seu “Discurso Elegantíssimo” no Renascimento italiano. A Revolução Francesa, em 1789,  o consagrou na consigna inscrita na Declaração dos Direitos do Homem que proclamou: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Mas foi Karl  Marx, no Manifesto Comunista, em 1848, abriu os olhos da humanidade para o direito aos corpos mutilados pela exploração capitalista a um mundo alternativo. Mas pensou-os coletivamente, como trabalhadores. Depois dele, Freud foi em busca de fatores orgânicos da alma, reconciliando-a com o corpo. Foi, junto com Marx, como diz um dos grandes filósofos do Século XX, Louis Althusser, os filhos  bastardos do iluminismo, porque capazes de levar a destruição criadora, que lhe é própria, mais a fundo. Ao ponto de ruptura. Outros autores,  mais modestos,   foram, entretanto,  mais adiante na descoberta do Humano  e descobriram, por trás dos trabalhadores, consumidores, cidadãos, ou subjetividades mergulhadas na escuridão  psíquica, todos social ou organicamente instituídos, uma unidade indissolúvel em processos: o indivíduo. Muitos  têm sido os analistas, mas relevam dois autores no Século XX: Norbert Elias (1897/1990), em A Sociedade dos Indivíduos, de 1939  e Luc Ferry (1951/), filsófo francês.

Mas se a Filosofia e a Teoria Social revelam a importância da Sociedade de Indivíduos na Terra dos Homens , os poetas sempre souberam que esse homem  desconhecido existia,. Sigmund Freud, cujo natalício se celebra nestes dias, como também o de Marx, o percebeu. Costumava dizer que em suas peregrinações pela alma humana, sempre encontrava as pegadas de um poeta que por lá já havia passado. Mas Freud teve o mérito de encontrar nesta alma, não a substância metafísica que, primordialmente, havia distinguido o humano do natural, recolocando-a , “naturalmente”, no centro mesmo da condição humana. Com isso , procurou instituir, na Psicanálise, uma Ciência do Homem, capaz de revelar as razões últimas de sua consciência, que esta própria razão desconhece. Talvez até, pela formação médica, tenha exagerado na identificação dos fatores orgânicos condicionantes  desta alma- psiquê, em prejuízo da educação e da cultura, fatores que serão corrigidos por Piaget , Lacan e Habermas oportunamente.

A emergência do indivíduo, portanto, não é apenas um elemento conjuntural da globalização. Ela  tanto está embutida , como possível,  numa sociedade de consumo massas, no Estado Moderno, como está inserida na histórica trajetória do projeto de autonomia humana numa conjuntura em que uma parte significativa, senão maioria da Sociedade, alcançou um nível de instrução, renda e consumo compatíveis com a partilha da sacralização do corpo. Isto, portanto, nada tem a  ver com alienação ou condição de homo sacer, muito embora se possa discutir criticamente o papel da  ideologia , no sentido  marxista, da industria cultural, no sentido da Escola de Frankfurt, e da cultura, no sentido antropológico na constituição de suas idéias e opiniões. Mas no atual estado do processo de comunicação galáctica, isto não tem nenhum caráter de fatalidade. Mas de uma avenida de possibilidades.

Paradoxalmente, o Maio de 68, com seu forte libelo destruidor de velhas barreiras à afirmação do individualismo, revelou-se , com o tempo, numa faca de dois gumes. Revolucionário no método de luta, acabou contribuindo para a entronização de um estilo de vida no mundo ocidental extremamente conservador. Resta  saber, se a liberdade exalada de um corpo agora liberto  será capaz de salvar a humanidade.E aí nada nos apóia, a não  ser uma grande esperança, dando uma reviravolta no espiralado Iluminismo que fundou a Modernidade. Já não é mais a razão a nos amparar no projeto de um mundo mais Justo, mas a própria idéia de Justiça que se converte num leitmotiv da mudança.Voltamos a ser utópicos, utópicos socialistas.

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