Arquivos Mensais: junho \30\UTC 2013

O BRASIL NÃO SE ENTEDIA (artigo publicado no jornal LE MONDE) – por ministro Marco Aurélio Garcia

Pela primeira vez na história do país, um governo decidiu enfrentar o
problema principal de sua formação social : a desigualdade. Essa
mudança foi realizada – uma façanha, aliás – ao mesmo tempo em que as
Marco-Aurelio-Garcialiberdades democráticas foram aprofundadas. No entanto, é impossível
negar a existência de um mal estar na sociedade brasileira. A
presidenta Dilma Rousseff saudou a « voz das ruas », condenou os
excessos das forças de segurança contra os manifestantes e convocou a
Brasília os principais porta-vozes dos movimentos para um debate
franco.

* * *

Os franceses compreenderam, há 45 anos, que fatos aparentemente
anódinos podem ser a origem de eventos de proporções históricas. Um
acontecimento menor, em Nanterre, foi o estopim que provocou uma das
maiores explosões sociais e políticas da segunda metade do século
passado : o Maio de 68. Não se trata, obviamente, de explicar a
amplitude dessa « deflagração » por seu « detonador », se bem que os
laços entre os dois fenômenos sejam evidentes.

Em São Paulo, há pouco mais de uma semana, o aumento de 20 centavos no
preço da tarifa de ônibus deu origem a uma onda de protestos que se
propagou rapidamente por centenas de cidades brasileiras, para se
tornar no que pode ser considerada a maior mobilização social que o
país conheceu depois do fim da ditadura militar. O que, a primeira
vista, parecia corresponder a uma demanda específica, transformou-se
rapidamente em um movimento no qual convivem inúmeras – e às vezes
contraditórias – reivindicações.

Tudo leva a crer que, apesar da grande transformação econômica e
social que o Brasil viveu nos últimos dez anos, em consequência das
reformas implementadas pelos governos de Lula e de Dilma Rousseff, o
país « se entediou », como disse Pierre Viansson-Ponté a propósito da
França, na véspera do Maio de 68.

O « tédio » brasileiro pode parecer paradoxal. Com efeito, nestes dez
últimos anos, o país retomou o caminho do crescimento, após mais de 30
anos de estagnação. E conseguiu aliar a esse crescimento a saída de
mais de 40 milhões de homens e de mulheres da condição de pobreza, sem
sacrificar para isso o equilíbrio macroeconômico. O Brasil vive hoje
uma situação de quase pleno emprego, com aumento significativo da
renda dos trabalhadores. A vulnerabilidade externa da economia foi
controlada. O país passou de uma situação de devedor a de credor
internacional. Mesmo os problemas conjunturais que a economia
brasileira enfrenta hoje não colocam em questão as perspectivas de seu
desenvolvimento futuro.

Pela primeira vez na história do país, um governo decidiu enfrentar o
problema principal de sua formação social : a desigualdade. Essa
mudança foi realizada – uma façanha, aliás – ao mesmo tempo em que as
liberdades democráticas foram aprofundadas. A presidenta Dilma
Rousseff saudou a « voz das ruas », condenou os excessos das forças de
segurança e convocou a Brasília os principais porta-vozes dos
movimentos para um debate franco. Não estamos, portanto, diante de um
movimento contra o autoritarismo.

No entanto, é impossível negar a existência de um mal estar na
sociedade brasileira, que diz respeito a todas as instituições em seus
diferentes níveis. Esse sentimento decorre de problemas de duas ordens
distintas.

Em primeiro lugar, apesar dos grandes avanços dos últimos dez anos, as
condições de vida de milhões de brasileiros seguem difíceis, incluídos
aí os milhões que viveram recentemente uma ascensão econômica e
social. A democratização do acesso à educação não foi acompanhada em
todo o país por uma melhoria equivalente da qualidade. Nos serviços de
saúde, áreas de excelência convivem com setores extremamente
deficientes. A urbanização acelerado do país, que conta com
aproximadamente 200 milhões de habitantes, colocou em evidência a
situação precária do transporte nas cidades, onde os trabalhadores
perdem horas de sua jornada para sair de suas casas e chegar até o
local de trabalho.

A referência a esses três temas, evocados nos cartazes dos
manifestantes, é pertinente. Ela diz respeito a problemas que fazem
parte do cotidiano de milhões de brasileiros.

A segunda razão desse mal estar brasileiro está ligada à esfera
política. As mudanças econômicas e sociais dos últimos anos não foram
acompanhadas pelas transformações institucionais necessárias dos
poderes do Estado, dos partidos, e também dos meios de comunicação,
fortemente concentrados no Brasil.

Os manifestantes reivindicam serviços públicos de qualidade, fustigam
a burocracia e a corrupção. Mesmo no « país do futebol » os gastos com
a preparação da Copa do Mundo e da Copa das Confederações tornaram-se
alvo das manifestações. Critica-se sua falta de transparência.

Após dois pronunciamentos endereçados à nação, a presidenta da
República retomou a iniciativa política. Para além do desenvolvimento
das políticas públicas atuais, ela sublinhou a necessidade de uma
ampla reforma política. Como em outras partes do mundo, especialmente
na América do Sul, as instituições se revelaram tímidas e
insuficientes face ao alargamento do espaço público e à integração em
seu interior de novos sujeitos políticos.

Uma reforma política é essencial sobretudo no domínio da luta contra a
corrupção, que como é o caso habitualmente na história, é apresentado
por certos setores como o principal problema a resolver. As críticas
formuladas pelos defensores dessa oposição são dirigidas
principalmente às instituições, sem distinção, e aos partidos
políticos em particular.

É bem conhecido que o ataque contra as instituições, em especial
contra os partidos que constituem as bases sociais, reflete duas
orientações. A primeira está ligada a uma regressão autoritária, que
se articula em torno de um « homem providencial », capaz de
implementar uma contra-reforma econômica e social.

A segunda, de natureza democrática, preconiza uma reforma urgente e
profunda das instituições, em especial, dos partidos políticos. Hoje,
uma tal reforma exigiria mudanças na lei eleitoral para corrigir as
graves distorções dos mecanismos de representação, adotando o
princípio do financiamento público das campanhas para eliminar a
influência exercida pelo poder econômico nas eleições. Essa reforma
deveria igualmente elaborar os mecanismos para fortalecer os programas
do partidos, abrindo espaço para uma participação mais importante e
determinante da sociedade na vida política. Neste sentido, a
multiplicidade de mecanismos de controle de políticas públicas pela
sociedade, de instrumentos como o « recall » de eleitos, e as
consultas populares tornam-se pertinentes.

A crise profunda que atravessa o mundo hoje não diz respeito somente à
economia. Os modelos políticos democráticos são, eles também,
confrontados pelo desafio da mudança.

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Manifestações massivas no Brasil têm origem na esquerda – por Roberto Leher

 

 

Qui, 27 de Junho de 2013
 

 

No dia em que mais de dois milhões de pessoas foram às ruas, 20 de junho de 2013, a cobertura das corporações da mídia foi exemplar sobre como os dominantes operam a dominação. A cobertura da GloboNews durou muitas horas, a exemplo do que ocorreu no dia 17 quando as manifestações tornaram-se de fato massivas. A filmagem, nos dois dias, basicamente se limitou a tomadas panorâmicas a partir de helicópteros com aproximações para focalizar um automóvel em chamas ou para acompanhar os chamados vândalos. A selvagem repressão das tropas da polícia treinadas por comandantes que estagiaram no Haiti – impondo um toque de recolher com angustiante semelhança com os do dia do Golpe de Pinochet, em 11 de setembro de 1973 – quase que era celebrado como um ato civilizatório frente à barbárie. As vozes dos manifestantes se restringiram a uns poucos minutos, não mais do que dez, e ainda assim respondiam a indagações sobre generalidades. De tempos em tempos, a voz de um dito especialista procurava explicar o que era de seu óbvio desconhecimento.

 

Na imprensa corporativa escrita, o mesmo aconteceu. Platitudes e falsificações. Nada sobre os movimentos, nenhum aporte histórico, nenhuma empiria, nenhuma análise. Em circulação, opiniões que buscaram “puxar a brasa para as sardinhas da ordem e da reação”, silenciando, por completo, as vozes que reivindicavam consignas radicais no curso das massivas manifestações: “passe livre”, “educação pública não mercantil”, “saúde não é mercadoria”, laicidade versus homofobia, “fora Fifa”, “contra a privatização do Maracanã”, “Fora Eike”, “Não às remoções”, isso sem contar um tratamento crítico à corrupção que ultrapassa a questão moral, por exemplo, em cartazes que associavam o interesse das corporações na especulação imobiliária, os megaeventos e as isenções, repasses e empréstimos bilionários aos investidores operados pelos governos Dilma (PAC/BNDES), Sérgio Cabral e Eduardo Paes (os dois últimos, no Rio de Janeiro), levando milhares de manifestantes a bradar: “Da Copa eu abro mão, mas não da saúde e educação” – públicas. A respeito dessas consignas, não há como lutar contra a mercantilização das citadas questões vitais sem ser anticapitalista!

 

É certo que outros sentidos circularam nas manifestações. E foram justo estes os metonimicamente hiperdimensionados pela mídia que, por meio de insistentes e sistemáticas repetições, tomou a parte pelo todo: (i) consignas nacionalistas “verás que o filho teu não foge à luta” de fato estavam presentes, mas de modo polissêmico. Bandeiras do Brasil podiam refletir o clima da “pátria de chuteiras” propagandeado pelos governos e pela grande mídia (como ocorreu de modo preocupante na Alemanha, por ocasião da última Copa); (ii) contra a corrupção, em geral associada à defesa contra a PEC-37, como se o núcleo temático das forças que convocaram a multidão fosse o natimorto movimento “Cansei”, patrocinado por frações burguesas decadentes e em franco processo de desidratação econômica e política, e (iii) mais complexa e enigmática, as manifestações contra os partidos (e violentamente contra os de esquerda socialista), estimuladas pela mídia, em nome da suposta participação cidadã, reunindo sujeitos que ainda precisam ser melhor caracterizados –  milícias vinculadas aos partidos de direita, aos empresários das empresas de transporte, agentes da repressão infiltrados, grupúsculos neonazistas (com ligação com torcidas organizadas, por exemplo). Um sentimento antipartidário difuso de jovens de classe média ecoou no apoio aos ataques sobre os militantes. Com efeito, os partidos da ordem concorreram para tal sentimento. O infrutífero abaixo-assinado contra Renan Calheiros na presidência do Senado, reunindo mais de 1,2 milhão de assinaturas, o entusiasmo por Joaquim Barbosa no processo de julgamento do chamado “mensalão”, processo de corrupção congruente com o Estado particularista, mas interpretado como uma quebra de confiança na esfera privada, a traição, e o descrédito nas organizações coletivas, engolfadas pela cooptação e pelo transformismo, tornando-as desprovidas de relevância social, concorreram para a difusão desses sentimentos. Na versão da grande mídia, foram os conservadores os verdadeiros responsáveis pelas convocações, eclipsando os sujeitos que, a partir da esquerda, possibilitaram a deflagração do movimento.

 

O presente texto não tem a pretensão de explicar as multitudinárias manifestações. Existe muito a ser investigado, analisado e restará muito a explicar, motivando, por muitas décadas, estudos de diversos prismas. As grandes lutas sociais são assim: surpreendem, desconcertam, mas não são ‘raios em céu azul’ como querem fazer crer as corporações que controlam os principais meios de comunicação, inclusive os principais blogs de apoio ao governo federal.

 

Para compreender o recente movimento de massas no Brasil, é importante distinguir analiticamente duas dimensões do protesto social para, a seguir, pensá-lo como totalidade. Um primeiro plano é a convocatória. Quais os movimentos (e pautas) que tiveram capacidade de, por meio das redes sociais, convocar as manifestações? O pressuposto é que existem sujeitos organizados em torno de um ou de vários movimentos que discutiram e consensuaram a realização das manifestações. O segundo nível é a análise dos que atenderam a convocatória, assumindo-a como sua, empenhando-se em sua divulgação e, sobretudo, tomando a decisão de comparecer. Será que são sujeitos que finalmente despertaram para os problemas e para a importância da manifestação política ou, alternativamente, são sujeitos com diferentes formas de inserção em causas sociais e que, por determinados motivos, como a brutal repressão policial em São Paulo, a ineficácia dos abaixo-assinados via internet e o recrudescimento da inflação real compreenderam que a hora era de ir às ruas?

 

Compreendendo a convocatória

 

Para não incorrer no erro criticado, busco examinar inicialmente os sujeitos que realizaram a convocatória do que pode ser considerado o estopim das manifestações: o abusivo preço das passagens de ônibus, cujo Grito (nos termos de J. Holloway (1)) foi difundido pelo Movimento do Passe Livre (MPL), colocando brevemente em relevo as formas de organização, suas alianças, suas formas de luta, suas consignas e o modo como suas reivindicações são recepcionadas pelos governos. Pretendo, a seguir, esboçar proposições para tornar pensáveis o acolhimento das convocatórias por parte de um imenso contingente que, até o momento, ainda não havia protagonizado um movimento de massas.

 

O estudo, ainda preliminar, é uma má notícia para os “intelectuais” a soldo dos jornalões e das televisões. O exame das lutas no período 2004-2012 registradas no Observatório Social da América Latina (OSAL (2)), infelizmente encerrado em 2013, permite concluir que o movimento que vinha empunhando a luta contra as tarifas extorsivas que serviu de deflagrador das grandes manifestações em curso no país possui origem na esquerda e, mais do que isso, as manifestações não existiriam sem a esquerda. O MPL, embora autônomo frente aos partidos, é de esquerda e interage com os partidos de esquerda (3). Ao longo da década de 2000, empreendeu lutas com sindicatos e movimentos sociais e tem objetivos afins aos que empreendem lutas no mundo do trabalho.

 

Outra má notícia está dirigida aos pós-modernos encantados com as redes e com os novos movimentos sociais. O MPL, desde sua origem, faz lutas “a quente” nas ruas, lutas que frequentemente foram ferozmente reprimidas pelo aparato repressivo.

 

Finalmente, o movimento, ao recusar o vanguardismo e sua expressão organizativa, o substitucionismo, praticados por partidos socialistas, não é antissocialista e, por conseguinte, anticlassista. Ao contrário, compõe uma forma de pensar e praticar a política que há muito está presente nas lutas antissistêmicas latino-americanas, a exemplo dos Zapatistas, do movimento estudantil que promoveu a célebre Ocupação da UNAM (México, 1999) por longos 10 meses, das Lutas da Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca – APPO (2006), das lutas do movimento Pinguim no Chile (2006) e dos levantes da juventude pela educação pública no Chile, em 2012-2013 e as ocupações das reitorias pelos estudantes das universidades federais em 2006, assim como a ocupação da USP em 2007.

 

A matriz político-organizativa das referidas manifestações guarda similaridades com o movimento Zapatista, não devendo ser confundida, entretanto, com as formulações anarquistas (4). Muito de suas formas de agir e pensar foram sistematizadas por John Holloway em seu importante livro Mudar o Mundo sem Tomar o Poder (2002), obra que, mesmo que não seja diretamente indicada como de referência do movimento, influenciou movimentos afins, difundindo um certo modo de fazer política.

 

O MPL vem se configurando como um dos mais imaginativos e interessantes movimentos da juventude. Recusa a tutela externa, faz avaliações de conjuntura próprias (em assembleias livres), mantém uma estrutura organizativa horizontalizada, pratica a rotatividade dos portavozes e representantes, empreende ações diretas e aborda um problema real para os jovens, a mobilidade urbana e o péssimo serviço de transporte, caro e ineficiente, e que toca profundamente os setores da classe trabalhadora mais pauperizados e explorados, que sentem no bolso o saqueio das tarifas exorbitantes. Assim, embora muitos de seus participantes sejam provenientes das classes médias, encontraram um meio de interagir com os trabalhadores mais duramente explorados.

 

Já em junho 2004, antes de sua formalização, demonstrou notável capacidade convocatória em Fortaleza, quando reuniu 5 mil manifestantes contra o aumento de tarifas. A resposta, em Fortaleza, foi a habitual: 15 feridos por balas de borracha e 40 detidos. A intolerância com as bandeiras do MPL deve-se aos laços orgânicos entre as empresas de transporte e os governos. O que pode ser mais pedagógico para ensinar aos jovens do que o modo como os governos saem em defesa das empresas? Em janeiro de 2006, o MPL realizou uma manifestação que mobilizou cerca de 500 pessoas no Distrito Federal (DF) contra o aumento de 20% nas passagens do transporte urbano. O governo mobilizou mil policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), da cavalaria e um helicóptero. O movimento cresceu, estendendo-se por três dias, ampliando o arco de forças na luta, abrangendo movimentos que, em geral, não participavam das lutas estritamente partidárias e sindicais, como, Radicais Livres, Anarcopunk, Hip Hop, Arte e Educação, a Associação de Skatistas do Paranoá, aos quais se somaram movimentos já inseridos em lutas classistas, como o Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), o MST e os Diretórios Centrais de Estudantes (DCEs) da Universidade de Brasília (UNB) e do Centro de Ensino Unificado de Brasília (CEUB).

 

Desde então, as lutas contra os aumentos organizadas pelo MPL se espalharam no país, havendo concentração em Santa Catarina (Joinville e Florianópolis), São Paulo (Campinas e capital), Brasília, Salvador e, por meio de outras formas de organização, em centenas de cidades pelo país.

 

As suas pautas enfatizam temas que sugerem a busca de aliança com os setores da classe mais explorados (passe livre para setores sem renda). Recusando a tese de que o poder está em toda parte e em nenhum lugar, ao gosto dos defensores da Multidão, como Hard e Negri (Império), o MPL identifica os loci do poder político formal, priorizando as suas representações locais (expresso em ocupações de prefeituras e câmaras de vereadores, na defesa da municipalização do transporte coletivo) e nomeia as empresas que exploram o transporte, enfrentando os conluios destas com as prefeituras (defendendo a investigação das contas das empresas de transportes e denunciando as isenções e calotes tributários e os repasses de verbas do poder público).

 

Também distintamente do que apregoam os pós-modernos, o MPL defende as alianças com a classe trabalhadora organizada. Exemplos simbólicos desses gestos precisam ser apontados. Em agosto de 2007, o MPL de São Paulo lançou carta de apoio ao direito de greve dos metroviários, reivindicando transporte público gratuito e de qualidade. Na carta, o movimento apoiou a greve dos metroviários, a legitimidade de suas reivindicações e fez diversas críticas à privatização da Linha 4 e à posição adotada pelo Metrô frente à greve dos trabalhadores: “A administração do Metrô insiste em afirmar que a greve dos metroviários deixa sem transporte milhões de pessoas, quando na verdade o alto preço da tarifa e o limitado sistema metroviário é que exclui grande parte da população do acesso aos trens do Metrô”.

 

O movimento reivindica a história e as lutas dos que resistiram no passado: em 7 de setembro de 2008, o MPL realizou manifestação durante o desfile do Dia da Independência em Joinville, lembrando a época da ditadura militar. Um dos integrantes, o estudante Kleber Tobler, 25 anos, foi preso por usar farda militar e uma máscara de demônio. Em maio de 2010, estiveram à frente do protesto “Churrascão da Gente Diferenciada” contra a desistência do governo do estado de São Paulo de construir uma estação de metrô na avenida Angélica, atendendo aos reclamos dos moradores do bairro da alta classe média que não desejava o metrô: “Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada…”. Demonstrando solidariedade aos sete trabalhadores mortos no desabamento causado por negligência da empresa que fazia a obra da estação da Linha 4-Amarela do Metrô, em Pinheiros, o MPL esteve no protesto junto com o Sindicato dos Metroviários de São Paulo (2010).

 

Igualmente, em junho de 2010, o MPL apoiou a Marcha da Liberdade que reuniu mais de 3 mil pessoas, na capital São Paulo. O protesto foi pela liberdade de expressão e contra a repressão policial, reunindo simpatizantes de diversas causas, como os favoráveis à legalização da maconha, e os defensores dos direitos de gays, lésbicas e transexuais. Para um dos organizadores do movimento, André Takahashi, a marcha conseguiu alcançar seus principais objetivos. “A Marcha da Liberdade já cumpriu o seu papel que é o de começar essa discussão sobre a liberdade de expressão e o uso das armas não letais. O emprego de armamento não letal fere a Constituição quando usado contra pessoas que estão no seu direito de se manifestar”. A Marcha da Liberdade também foi importante para promover a interação entre os diversos movimentos sociais. Segundo militantes do MPL, existe uma “tendência” de que essa troca de experiências e cooperação continue.

 

Em suma, o breve apanhado de algumas das ações políticas do MPL parece confirmar mais a sua proximidade com as lutas latino-americanas das últimas décadas do que com o pós-modernismo e, radicalmente distinto dos novos movimentos sociais que recusam alianças classistas com os movimentos organizados da classe trabalhadora. A recente convocatória do MPL para novas mobilizações na periferia de São Paulo (5), organizada em conjunto com o MTST e outros movimentos, como o Periferia Ativa, corrobora o posicionamento classista do movimento.

 

Argumentar que a convocatória deflagrada pelo MPL – e pelos movimentos que nos últimos cinco anos têm construído a unidade de ação nas lutas pelo passe livre e contra os abusivos aumentos das passagens – tem seu esteio na esquerda, guarda nexos classistas e possui considerável relação com outros movimentos da juventude, sindicatos e movimentos sociais e partidos, não equivale a afirmar que a enorme massa que compareceu aos atos após a feroz repressão policial do governo Alckmin com o aval de Fernando Haddad no ato do dia 13 de junho, ferindo jornalistas, espancando centenas e prendendo 137 pessoas, contou apenas com a presença de apoiadores ativos do MPL. Mas, sem o referido movimento, as convocatórias para os atos que culminaram nas grandes marchas não teriam acontecido no momento.

 

Os que compareceram

 

Os diversos atos e manifestações foram rotulados pela grande mídia como “Rebeldia e Vandalismo”, “Marcha da Insensatez”, “Manifestantes queimam ônibus, depredam bancos e lojas em SP” (O Globo, 12/6/13), “Riscos de novos confrontos: atos do Movimento Passe Livre, que provocaram quebra-quebras no Rio e em SP, serão repetidos hoje” (O Globo, 13/6/13). Contudo, o tom mudou após a feroz repressão, levando um importante colunista da FSP e de O Globo, Elio Gaspari, a publicar artigo com o título: “A PM começou o conflito” (O Globo, 14/06/13), reconhecendo, afinal, que os confrontos foram impulsionados pela selvagem repressão do aparato policial que, como destacado, há anos vinha reprimindo duramente os atos do MPL.

 

A indignação contra a insana repressão – afinal reconhecida pela mídia – repercutiu sobre um público muito maior do que o círculo do MPL. A ele se somou movimentos que já vinham demonstrando iniciativa política, como o movimento LGBT (mas sobretudo o movimento em prol do casamento homoafetivo e contra a eleição do deputado Feliciano à Presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados), os que se manifestaram na rede contra o Código Florestal desde 2011, os militantes empenhados nas lutas contra as remoções em virtude dos negócios imobiliários da Copa, em solidariedade aos Guarani-Kayowa em Mato Grosso do Sul, a enorme greve dos Servidores Públicos Federais em 2012. Especificamente, no Rio de Janeiro, é preciso acrescentar os que lutaram a favor da Aldeia Maracanã, contra os custos abusivos e a privatização do Maracanã, os que apoiaram ativamente a greve dos bombeiros, as dezenas de milhares de pessoas que compareceram à Marcha crítica à Rio + 20, movimentos que, no plano partidário, possibilitaram que o candidato do PSOL, Marcelo Freixo, obtivesse quase um milhão de votos na cidade, campanha protagonizada fundamentalmente por estudantes.

 

Entretanto, não apenas motivações com cariz de esquerda levaram muitos outros milhares às ruas nos dias 17 e 20/6. Qualquer observador pode concluir facilmente que esse enorme contingente é polissêmico, plural, mas dificilmente poderia ser desvinculado de causas e mobilizações que vêm acontecendo nos últimos anos. Proposições potencialmente conservadoras (não pelo mérito da questão, mas pelo enfoque), como o “Fora, Renan” e a comoção do julgamento do dito “mensalão”, tornando o ministro do STF, Joaquim Barbosa, uma espécie de justiceiro em prol da moralidade pública, também demonstraram força e, rapidamente, foram sintetizadas nas consignas “corrupção, PEC-37, antipartidos” pela grande mídia corporativa como as verdadeiras (e essenciais) causas da mobilização que levou mais de meio milhão de pessoas às ruas no dia 20/6 no Rio de Janeiro, manifestações que se espraiaram por todo o país e geraram solidariedade em dezenas de países. Está em aberto a disputa pela imagem das manifestações e, mais do que isso, pelo seu teor!

 

Algumas sínteses

 

A reversão de expectativas otimistas na economia, pressionando o poder de compra da maioria da população, em particular da endividada parcela da classe trabalhadora indevidamente denominada de “classe C”, contribuiu para sincronizar o Brasil na crise mundial do capitalismo.

 

A necessidade de ofensiva dos governos, em especial do Federal, de interceder mais vivamente nos acontecimentos, levou a presidenta Dilma a fazer um pronunciamento em cadeia nacional focalizado nos temas da corrupção, do transporte e vagamente dos direitos sociais à educação e saúde, não sem fazer ameaças aos “baderneiros” e, por silenciar, dando aval ao uso feroz do aparato repressivo, inclusive mobilizando a Força Nacional de Segurança (6). Imediatamente, todos os portavozes do Estado Maior do capital saíram a público para comemorar o estupendo discurso presidencial que, afinal, colocou as coisas em seu devido lugar. Um destes portavozes explicitou o que, afinal, é o fulcro da questão:

 

Para a presidente Dilma, o pior que pode acontecer numa campanha eleitoral antecipada é ser envolvida em uma tentativa de levar para a esquerda radical uma classe média que em alguma medida ela estava conseguindo cooptar (7).

 

Para corroborar a necessidade de união de todos com o Estado Maior do capital, os intelectuais e propagandistas do governo ecoaram a tese do Golpe da Direita que estaria em marcha nas ruas (justificando a tese da união nacional, governos instituídos, empresários, movimentos sociais, centrais sindicais etc., em defesa da democracia), conferindo um poder que os grupelhos fascistas não dispõem. O que faltaria a essa ultra-direita? Em primeiro lugar, lastro em uma classe social fundamental que disponha de relevância econômica. Mas inexistem no Brasil frações burguesas relevantes que estejam fora do bloco de poder gerenciado pelo PT. Outra possibilidade seria que, mesmo sem estar amparado pelo poder econômico do imperialismo, existisse, digamos, uma direita ideológica militante e ativa. O quase desaparecimento do DEM, por meio do deslocamento de suas principais lideranças rumo à base do governo do PT (com a criação do PSD por J. Bornhausen, G. Kassab e Kátia Abreu) não valida tal avaliação. Na Europa, essa direita é nutrida pelo sentimento xenófobo, situação não verificada no país.

 

Assim, o verdadeiro motivo que impulsiona a tal união nacional é o afastamento dos manifestantes das ruas e da agenda da crise capitalista: desemprego, perda de poder aquisitivo, inflação, precarização do serviço público advindo dos sucessivos e bilionários cortes no orçamento do Estado, novas privatizações, leilões de bacias petrolíferas etc.

 

É essa a frente de luta que está colocada diante dos movimentos da classe trabalhadora, como salientou Mattos (8). O desafio é fortalecer o protagonismo dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda, do movimento autonomista classista, da juventude, assegurando ao movimento em curso um teor classista, mas nem por isso submetido ao controle de forças externas ao movimento vivo da classe, à liderança de guias carismáticos, à estruturas de comando verticalizadas etc. O conceito de democracia direta e protagônica, dos mandatos rotativos e revogáveis, forjado na Comuna de Paris, nos sovietes, no poder popular da APPO (Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca), nada tem de incompatível com a construção ativa de consensos capazes de orientar a luta diante das forças poderosas da contrarrevolução.

 

 

Notas:

 

1) . John Holloway Agrietar el capitalism: el hacer contra el trabajo. Bs.As.: Herramienta, 2011.

2) . http://www.clacso.org.ar/institucional/1h.php?idioma=

3) .  Para compreensão do MPL que se aproxima do presente texto, embora com nuances, ver Bruno Paes Manso e Marcelo Godoy, Antiliberal e crítico do marxismo, MPL usa multidão como arma, http://a-voz-das-ruas.blogspot.com.br/2013/06/antiliberal-e-critico-do-marxismo-mpl.html

4) . Carlos Beas Torres, La batalla por Oaxaca. Oaxaca, México: Ed. Yope Power, 2007.

5) Quem não luta pelos trabalhadores, não nos representa. Ato agendado para o dia 25/6/13 no Capão Redondo e no Campo Limpo, Zona Sul, Guaianeses, zona Leste.

6). Edição do dia 20/06/2013 Tropas da Força Nacional reforçarão a segurança de quatro capitais Fortaleza, Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte terão apoio da Força Nacional durante a Copa das Confederações. http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/06/tropas-da-forca-nacional-reforcarao-seguranca-de-quatro-capitais.html

7) Merval Pereira, Buscando Saídas, 22.06.13, http://oglobo.globo.com/blogs/blogdomerval/posts/2013/06/22/buscando-saidas-500899.asp

8) Marcelo Badaró Mattos, A multidão nas ruas: construir a saída de esquerda para a crise política, antes que a reação imprima sua direção. Disponível em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8528:submanchete250613&catid=63:brasil-nas-ruas&Itemid=200

 

Roberto Leher é doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, professor da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do Observatório Social da América Latina – Brasil/ Clacso e do Projeto Outro Brasil (Fundação Rosa Luxemburgo).

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EXTERMINADOR DO FUTURO NÃO É MAIS PURA FICÇÃO

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Skynet: Google e agência de vigilância dos EUA, NSA, adquirem um supercomputador quântico – 512 qubits – para estudar a criação de máquinas com Inteligência Artifical destinadas a espionar e controlar. Será esse o futuro da humanidade?
 
Quinta-feira, 20 de Junho de 2013 – por Mike Adams (Natural News).

A maioria das pessoas não sabe sobre a existência de computadores quânticos nem têm idéia de como eles funcionam. Essas supermáquinas não funcionam com transístores e portas lógicas como a CPU do seu PC, mas atuam por sistemas intrincados de altíssima engenharia, resolvendo problemas computacionais de alta complexidade em poucos minutos. Tecnologia extra-terrena? O que sabe é que eles nem sequer funcionam de uma forma que parece racional para um engenheiro de computação típico. Quase que magicamente, os computadores quânticos, através de expressões logarítmicas, resolvem cálculos e problemas de contorno astronômico em poucos minutos. Os mesmos que levariam centenas de milhares de anos para ser resolvidos por computadores normais hoje disponíveis. Isto porque literalmente operam simultaneamente em várias dimensões.  Mas para que o governo estadunidense, a Google e a NSA precisariam de um monstro desses?  Primeiramente  para espionar. Eles são excelentes decifradores de códigos criptografados. Não haverá mais segredo algum para o governo. Todos os arquivos pessoais e comunicações serão devassáveis. E eles já provaram esse ânimo de quebra de privacidade, conforme recentemente denunciou Edward Snowden, de uma empresa colaboradora da CIA.  O construtor dessa máquina é Eric Ladizinsky, co-fundador e cientista-chefe de uma empresa chamada D-Wave . Ladizinsky é ex-funcionário da Northrop Grumman Space Technology (fabricante de armas de alta tecnologia) e liderou um projeto de investigação sobre computação quântica na DARPA, a mesma empresa que trabalha em projetos robóticos de assalto, patrulhamento e guerra, em substituição a soldados humanos.  Veja emhttp://www.naturalnews.com/040859_Skynet_quantum_computing_D-Wave_Systems.html#ixzz2WmugdKxt

Trenzinho Caipira / Correnteza – tom jobim e luis bonfá

Triturar calçadas ou preservar o mangue / amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

 

Sou realmente um ignorante irretocável em assuntos de administração pública e gestão do meio ambiente. Vejo atitudes, ações, omissões e declarações e não consigo assumir uma posição nem formar um juízo ao menos razoável Amilcar Nevessobre os acontecimentos: tudo pode ser tanto uma coisa como o seu extremo oposto. Não consigo assumir uma posição a não ser levado por uma revista, uma televisão, um pastor ou um líder carismático (especialmente se esse líder pagar o meu sacrossanto salário mensal).

 

A dialética se instala e nada concluo sequer com mediana clareza. De acordo com o Houaiss, noplatonismo a dialética é um “processo de diálogo, debate entre interlocutores comprometidos com a busca da verdade, através do qual a alma se eleva, gradativamente, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias”. O problema em Platão é descobrir quando os interlocutores buscam honestamente a verdade e quando atuam segundo um papel predeterminado, seja político, filosófico ou religioso, mas sempre de olho nalguma vantagem. No fundo, todos queremos ganhar mais dinheiro, independente de quanto tenhamos e de quanto efetivamente necessitemos. Me darei por feliz se conseguir te ludibriar, inclusive intelectualmente.

 

De fato, hoje todos os idealismos estão sepultados, todo mundo esconde um interesse, muitas vezes inconfessável, por detrás das palavras, pensamentos, atos e omissões. Não há para onde correr, seja para o Executivo, o Legislativo, o Judiciário, a Igreja ou o Ministério Público: tudo é relativo e depende de interpretações que hoje são pétreas e amanhã serão reformadas sem qualquer escrúpulo, respeito ou consideração pelos prejudicados. Melhor dizendo: pelos atropelados.

 

Afinal, a vida se faz assim, não é mesmo?, de acertos e erros, de vantagens e prejuízos, de momentos e oportunidades, de ganhos e perdas. Sinto muito. Se faz de trapaças e desonestidades. No fundo, a questão básica é posicionar-se (custe o que custar) como o homem certo na hora certa e no lugar certo; qualquer desvio em uma dessas três circunstâncias levará para o brejo a tua causa (por mais nobre que seja) feito vaca atolada.

 

Vejo, por exemplo, uma gigantesca lagarta e um leve lince a revolver as águas e as margens do Rio do Sertão à saída do bairro Santa Mônica, operação que já realizaram manguezal a dentro pelos baixios pantanosos do Itacorubi. Rio e regatos dragados para cima e para baixo. Humm… Imagino que seja uma operação necessária e, até, indispensável: se as águas não tiverem leito onde rolar, subirão às margens e transbordarão, inundando em volta casas, ruas e lojas (construídas, um dia, sobre o mangue).

 

Lagarta e lince (caterpillar e bobcat, no original), retroescavadeiras de esteira de aço, avançam devastando o caminho que percorrem e empilham, ao lado, o lodo com vegetação retirado das margens e leitos dos córregos. Mas ali vivem jacarés, tartarugas e peixes de 40 centímetros. Fora caranguejos e a fauna miúda. Onde irão parar, durante a operação que ocorre a cada seis meses, esses animais, seus ninhos e seus ovos?

 

Além disso, para chegar ao local de trabalho, ao cruzá-los esse maquinário tritura em diversos locais meios-fios, ciclovia e pista de caminhada, inclusive uma calçada que fora refeita há semanas, depois de passar meses detonada. Não haveria formas de criar alguma passarela móvel, por exemplo, que preservasse os bens públicos?

 

Burro que sou, não encontro respostas. Porém, dialeticamente falando…

Wikileaks: organização financiada pelos EUA treina oposicionistas pelo mundo

DOCUMENTOS SECRETOS
18/06/2012 – 10h00 | Natalia Viana/Agência Pública* | São Paulo

Wikileaks: organização financiada pelos EUA treina oposicionistas pelo mundo

Análise da Canvas sobre a Venezuela, onde a oposição começou a ser treinada em 2005: “Há uma forte tendência presidencialista. Como podemos mudar isso?”

No canto superior do documento, um punho cerrado estampa a marca da organização. No corpo do texto se lê: “Há uma tendência presidencialista forte na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar isso?”. Mais abaixo, o leitor encontra as seguintes frases: “Economia: o petróleo é da Venezuela, não do governo. É o seu dinheiro, é o seu direito… A mensagem precisa ser adaptada para os jovens, não só para estudantes universitários… E as mães, o que querem? Controle da lei, a polícia agindo sob autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso”.

Agência Efe

Análise da Canvas sobre a Venezuela: “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso?”

O texto citado não está em espanhol nem foi escrito por algum membro da oposição venezuelana. O material, em inglês, foi produzido por um grupo de jovens baseados na Sérvia. O documento “Análise da situação na Venezuela, Janeiro de 2010”, feito pela organização Canvas, cuja sede fica em Belgrado, está entre os documentos da empresa de inteligência Stratfor vazados pelo Wikileaks.

O último vazamento do Wikileaks – ao qual a Pública teve acesso – mostra que o fundador desta organização se correspondia sempre com os analistas da Stratfor, empresa que mistura jornalismo, análise política e métodos de espionagem para vender “análise de inteligência” a clientes que incluem corporações como a Lockheed Martin, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical – para quem monitorava as atividades de ambientalistas que se opunham a elas – além da Marinha americana.

O Canvas (sigla em inglês para “centro para conflito e estratégias não-violentas”) foi fundado por dois líderes estudantis da Sérvia, que participaram da queda de Slobodan Milosevic em 2000. Durante dois anos, os estudantes organizaram protestos. Depois, juntaram o cabedal de conhecimento em manuais e começaram a dar aulas a grupos oposicionistas de diversos países sobre como se organizar para derrotar o governo. Foi assim que chegaram à Venezuela, onde começaram a treinar líderes da oposição em 2005. Em seu programa de TV, o presidente Hugo Chávez acusou o grupo de golpista e de estar a serviço dos Estados Unidos. “É o chamado golpe suave”, disse.

Os novos documentos analisados pela Pública mostram que se Chávez não estava totalmente certo – mas também não estava totalmente errado.

O começo, na Sérvia

“Foram dez anos de organização estudantil durante os anos 90”, diz Ivan Marovic, um dos estudantes que participaram dos protestos contra Milosevic. “No final, o apoio do exterior finalmente veio. Seria bobo eu negar isso. Eles tiveram um papel importante na etapa final. Sim, os EUA deram dinheiro, mas todo mundo deu dinheiro: alemães, franceses, espanhóis, italianos. Todos estavam colaborando porque ninguém mais apoiava o Milosevic”, disse ele em entrevista à Pública.

“Dependendo do país, eles doavam de um determinado jeito. Os norte-americanos têm um ‘braço’ formado por ONGs muito ativo no apoio a certos grupos. Ooutros países, como a Espanha, não têm e nos apoiavam através do Ministério do Exterior”.  Entre as ONGs citadas por Marovic estão o NED (National Endowment for Democracy), uma organização financiada pelo Congresso norte-americano, a Freedom  House e o International Republican Institute, ligado ao partido republicano – ambos contam polpudos financiamentos da USAID, a agência de desenvolvimento que capitaneou movimentos golpistas na América Latina nos anos 60, inclusive no Brasil.

Natalia Viana/Agência Pública

Marovij: “É impossível  exportar uma revolução. O mais importante para uma mudança bem-sucedida é ter a maioria do povo ao seu lado”

Todas essas ONGs são velhas conhecidas dos governos latinoamericanos, incluindo os mais recentes. Foi o IRI, por exemplo, que ministrou “cursos de treinamento político” para 600 líderes da oposição haitiana na República Dominicana em 2002 e 2003. O golpe contra Jean-Baptiste Aristide, presidente democraticamente eleito, aconteceu em 2004. Investigado pelo Congresso, o IRI foi acusado de estar por trás de duas organizações que conspiraram para derrubar Aristide.

Na Venezuela, o NED enviou US$ 877 mil para grupos de oposição nos meses anteriores ao golpe de Estado fracassado em 2002, segundo revelou o The New York Times. Na Bolívia, de acordo com documentos do governo norte-americano obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood, parceiro da Pública, a USAID manteve um “Escritório para Iniciativas de Transição”, que investiu US$ 97 milhões em projetos de “descentralização” e “autonomias regionais” desde 2002, fortalecendo os governos estaduais que se opõem a Evo Morales.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas, Srdja Popovic, disse que a organização não recebe fundos governamentais de nenhum país e que seu maior financiador é o empresário sérvio Slobodan Djinovic, que também foi líder estudantil. Porém, um PowerPoint de apresentação da organização, vazado pelo Wikileaks, aponta como parceiros do Canvas o IRI e a Freedom House, que recebem vultosas quantias da USAID.

Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações como a IRI e Freedom House não estão promovendo a democracia. “Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as políticas norte-americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os EUA não gostam”.

Fase dois: da Bolívia ao Egito

Vista através do mesmo PowerPoint de apresentação, a atuação do Canvas impressiona. Entre 2002 e 2009, realizou 106 workshops, alcançando 1800 participantes de 59 países. Nem todos são desafetos dos EUA – o Canvas treinou ativistas por exemplo na Espanha, no Marrocos e no Azerbaijão – mas a lista inclui outros: Cuba, Venezuela, Bolívia, Zimbábue, Bielorrússia, Coreia do Norte, Siria e Irã.

Segundo o próprio Canvas, sua atuação foi importante em todas as chamadas “revoluções coloridas” que se espalharam por ex-países da União Soviética nos anos 2000. O documento aponta como “casos bem sucedidos” a transferência de conhecimento para o movimento Kmara em 2003 na Geórgia, grupo que lançou a Revolução das Rosas e derrubou o presidente; uma ajudinha para a Revolução Laranja, em 2004, na Ucrânia; treinamento de grupos que fizeram a Revolução dos Cedros em 2005, no Líbano; diversos projetos com ONGs no Zimbabue e a coalizão de oposição a Robert Mugabe; treinamento de ativistas do Vietnã, Tibete e Burma, além de projetos na Síria e no Iraque com “grupos pró-democracia”. E, na Bolívia, “preparação das eleições de 2009 com grupos de Santa Cruz” – conhecidos como o mais ferrenho grupo de adversários de Evo Morales.

Até 2009, o principal manual do grupo, “Luta não violenta – 50 pontos cruciais” já havia sido traduzido para 5 línguas, incluindo o árabe e o farsi. Um das ações do Canvas que ganhou maior visibilidade foi o treinamento de uma liderança do movimento 6 de Abril, considerado o embrião da primavera egípcia. O movimento começou a ser organizado pelo Facebook para protestar em solidariedade a trabalhadores têxteis da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo. Foi a primeira vez que a rede social foi usada para este fim no Egito. Em meados de 2009, Mohammed Adel, um dos líderes do 6 de Abril viajou até Belgrado para ser treinado por Popovic.

Nos emails aos analistas da Stratfor, Popovic se gaba de manter relações com os líderes daquele movimento, em especial com Mohammed Adel – que se tornou uma das principais fontes de informação a respeito do levante no Egito em 2011. Na comunicação interna da Stratfor, ele é mencionado sob o codinome RS501.

 

 

 

“Acabamos de falar com alguns dos nossos amigos no Egito e descobrimos algumas coisas”, informa ele no dia 27 de janeiro de 2011. “Amanhã a Irmadade Muçulmana irá levar sua força às ruas, então pode ser ainda mais dramático… Nós obtivemos informações melhores sobre estes grupos e como eles têm se organizado nos últimos dias, mas ainda estamos tentando mapeá-los”.

Documentos da Stratfor

Os documentos vazados pelo Wikileaks mostram que o Canvas age de maneira menos independente do que deseja aparentar. Em pelo menos duas ocasiões, Srdja Popovic contou por email ter participado de reuniões no National Securiy Council, o conselho de segurança do governo norte-americano.

A primeira reunião mencionada aconteceu no dia 18 de dezembro de 2009 e o tema em pauta era Russia e a Geórgia. Na época, integrava o NSC o “grande amigo” de Popovic – nas suas próprias palavras – o conselheiro sênior de Obama para a Rússia, Michael McFaul, que hoje é embaixador americano naquele país.

No mesmo encontro, segundo Popovic relatou mais tarde, tratou-se do financiamento de oposicionistas no Irã através de grupos pró-democracia, tema de especial interesse para ele. “A política para o Irã é feita no NSC por Dennis Ross. Há uma função crescent sobre o Irã no Departamento de Estado sob o Secretário Assistente John Limbert. As verbas para programas pró-democracia no Irã aumentaram de US$ 1,5 milhão em 2004 para US$ 60 milhões em 2008 (…) Depois de 12 de junho de 2009, o NSC decidiu neutralizar os efeitos dos programas existentes, que começaram com Bush. Aparentemente a lógica era que os EUA não queriam ser vistos tentando interferir na política interna do Irã. Os EUA não querem dar ao regime iraniano uma desculpa para rejeitar as negociações sobre o programa nuclear”, reclama o sérvio, para quem o governo Obama estaria agindo como “um elefante numa loja de louça” com a nova política. “Como resultado, o Iran Human Rights Documentation Center, Freedom House, IFES e IRI tiveram seus pedidos de recursos rejeitados”, descreve em um email no início de janeiro de 2010.

A outra reunião de Popovic no NSC teria ocorrido às 17 horas do dia 27 de julho de 2011, conforme Popovic relatou à analista Reva Bhalla. “Esses caras são impressionantes”, comentou, em um email entusiasmado, o analista da Stratfor para o leste europeu, Marko Papic. “Eles abrem uma lojinha em um país e tentam derrubar o governo. Quando bem usados são uma arma mais poderosa que um batalhão de combate da força aérea”.

Marko explica aos seus colegas da Stratfor que o Canvas – nas suas palavras, um grupo tipo “exporte-uma-revolução” –  “ainda depende do financiamento dos EUA e basicamente roda o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles de quem os EUA não gostam)”. O primeiro contato com o líder do grupo, que se tornaria sua fonte contumaz, se deu em 2007. “Desde então eles têm passado inteligência sobre a Venezuela, a Georgia, a Sérvia, etc”.

Em todos os emails, Popovic demonstra grande interesse em trocar informações com a Strtafor, a quem chama de “CIA de Austin”. Para isso, vale-se dos seus contatos entre ativistas em diferentes países. Além de manter relação com uma empresa do mesmo filão idológico, se estabelece uma proveitosa troca de informações. Por exemplo, em maio de 2008 Marko diz a ele que soube que a inteligência chinesa estaria considerando atacar a organização pelo seu trabalho com ativistas tibetanos. “Isso já era esperado”, responde Srdja. Em 23 de maio de 2011, ele pede informações sobre a autonomia regional dos curdos no Iraque.

Venezuela

Um dos temas mais frequentes na conversa com analistas da Stratfor é a Venezuela; Srdja ajuda os analistas a entenderem o que a oposição está pensando. Toda a comunicação, escreve Marko Papic, é feita por um email seguro e criptografado. Além disso, em 2010, o líder do Canvas foi até a sede da Stratfor em Austin para dar um briefing sobre a situação venezuelana.

“Este ano vamos definitivamente aumentar nossas atividades na Venezuela”, explica o sérvio no email de apresentação da sua “Análise da situação na Venezuela”, em 12 de janeiro de 2010. Para as eleições legislativas de setembro daquele ano, relata que “estamos em contato próximo com ativistas e pessoas que estão tentando ajudá-los”, pedindo que o analista não espalhe ou publique esta informação. O documento, enviado por email, seria a “fundação da nossa análise do que planejamos fazer na Venezuela”. No dia seguinte, ele reitera em outro email: “Para explicar o plano de ação que enviamos, é um guia de como fazer uma revolução, obviamente”.

O documento, ao qual a Pública teve acesso, foi escrito no início de 2010 pelo “departamento analítico” da organização e relata, além dos pilares de suporte de Chávez, listando as principais instituições e organizações que servem de respaldo ao governo (entre elas, os militares, polícia, judiciário, setores nacionalizados da economia, professores e o conselho eleitoral), os principais líderes com potencial para formarem uma coalizão eficiente e seus “aliados potenciais” (entre eles, estudantes, a imprensa independente e internacional, sindicatos, a federação venezuelana de professores, o Rotary Club e a igreja católica).

A indicação do Canvas parece, no final, bem acertada. Entre os principais líderes da oposição que teriam capacidade de unificá-la estão Henrique Capriles Radonski, governador do Estado Miranda e candidato de oposição nas eleições presidenciais de outubro pela coalizão MUD (Mesa de Unidade Democrática), além do prefeito do Distrito Metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, e do ex-prefeito do município de Chacao, Leopoldo Lopez Mendoza. Dois líderes estudantis, Alexandra Belandria, do grupo Cambio, e Yon Goicochea, do Movimiento Estudiantil Venezolano, também são listados.

O objetivo da estratégia, relata o documento, é “fornecer a base para um planejamento mais detalhado potencialmente realizado por atores interessados e pelo Canvas”. Esse plano “mais detalhado” seria desenvolvido posteriormente com “partes interessadas”.

Em outro email Popovic explica:“Quando alguém pede a nossa ajuda, como é o caso da Venezuela, nós normalmente perguntamos ‘como você faria?’ (…) Neste caso nós temos três campanhas: unificação da oposição, campanha para a eleição de setembro (…). Em circunstâncias NORMAIS, os ativistas vêm até nós e trabalham exatamente neste tipo de formato em um workshop. Nós apenas os guiamos, e por isso o plano acaba sendo tão eficiente, pois são os ativistas que os criam, é totalmente deles, ou seja, é autêntico. Nós apenas fornecemos as ferramentas”.

Natalia Viana/Agência Pública

Popovic: “A cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda”

Mas, com a Venezuela, a coisa foi diferente, explica Popovic: “No caso da Venezuela, por causa do completo desastre que o lugar está, por causa da suspeita entre grupos de oposição e da desorganização, nós tivemos que fazer esta análise inicial. Se eles irão realizar os próximos passos depende deles, ou seja, se eles vão entender que por causa da falta de UNIDADE eles podem perder a corrida eleitoral antes mesmo que ela comece”.

Aqueles que receberam a análise (como o pessoal da Strartfor, por exemplo) aprenderam que segunda a lógica do Canvas os principais temas a serem explorados em uma campanha de oposição na Venezuela são:

– Crime e falta de segurança: “A situação deteriorou tremendamente e dramaticamente desde 2006. Motivo para mudança”

– Educação: “O governo está tomando conta do sistema educacional: os professores precisam ser atiçados. Eles vão ter que perder seus empregos ou se submeter! Eles precisam ser encorajados e haverá um risco. Nós temos que convencê-los de que os temos como alta esfera da sociedade; eles detêm uma responsabilidade que valorizamos muito. Os professores vão motivar os estudantes. Quem irá influenciá-los? Como nós vamos tocá-los?”

– Jovens: “A mensagem precisa ser dirigida para os jovens em geral, não só para os estudantes universitários”.

-Economia: “O petróleo é da Venezuela, não do governo, é o seu dinheiro, é o seu direito!  Programas de bem-estar social”.

– Mulheres: “O que as mães querem? Controle da lei, a polícia agindo sob as autoridades locais. Nós iremos prover os recursos necessários para isso. Nós não queremos mais brutamontes”.

– Transporte: “Trabalhadores precisam conseguir chegar aos seus empregos. É o seu dinheiro.  Nós precisamos exigir que o governo preste contas, e da maneira que está não conseguimos fazer isso”.

– Governo: “Redistribuição da riqueza, todos devem ter uma oportunidade”.

– “Há uma forte tendência presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar com isso?”

No final do email, Popovic termina com uma crítica grosseira aos venezuelanos que procura articular: “Aliás, a cultura de segurança na Venezuela não existe. Eles são retardados e falam mais que a própria bunda. É uma piada completa”.

Procurado pela Pública, o líder do Canvas negou que a organização elabore análises e planos de ação revolucionária sob encomenda. E foi bem menos entusiasta com relação ao seu “guia” elaborado para a Venezuela.

“Nós ensinamos as pessoas a analisarem e entenderem conflitos não-violentos – e durante o processo de aprendizagem pedimos a estudantes e participantes que utilizem as ferramentas que apresentam no curso. E nós também aprendemos com eles! Depois usamos o trabalho que eles realizaram e combinamos com informações públicas para criar estudos de caso”, afirmou. “E isso é transformado em análises mais longas por dois estagiários. Usamos estas análises nas nossas pesquisas e compartilhamos com estudantes, ativistas, pesquisadores, professores, organizações e jornalistas com os quais cooperamos – que estão interessados em entender o fenômeno do poder popular”.

Questionado, Popovic também respondeu às criticas feitas por Hugo Chávez no seu programa de TV: “É uma fórmula bem conhecida… Por décadas os regimes autoritários de todo o mundo fazem acusações do tipo ‘revoluções exportadas’ como sendo a principal causa dos levantes em seus países. O movimento pró-democracia na Sérvia foi, claro, acusado de ser uma ‘ferramenta dos EUA’ pela TV estatal e por Milosevic, antes dos estudantes derrubarem o seu regime. Isso também aconteceu no Zimbábue, Bielorrúsia, Irã…”

O ex-colega de movimento estudantil, Ivan Marovic – que ainda hoje dá palestras sobre como aconteceu a revolta contra Milosevic – concorda com ele: “É impossível  exportar uma revolução. Eu sempre digo em minhas palestras que a coisa mais importante para uma mudança social bem-sucedida é ter a maioria da população ao seu lado. Se o presidente tem a maioria da população ao lado dele, nada vai acontecer”.

Marovic avalia, no entanto, que houve uma mudança de percepção do “braço de ONGs” dos governos ocidentais, em especial dos EUA, depois do que aconteceu na Sérvia em 2000 e as “revoluções coloridas” que se seguiram no leste europeu. “Um mês depois de derrubarmos o Milosevic, o NYT publicou um artigo dizendo que quem realmente derrubou o Milosevic foi a assistência financeira norte-americana. Eles estão aumentando o seu papel. E agora acreditam que a grana dos EUA pode derrubar um governo. Eles tentaram a mesma coisa na Bielorrúsia, deram um monte de dinheiro para ONGs, e não funcionou”.

O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. É claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolução em um país”. Para ele, não é o dinheiro do governo norte-americano – seja através de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado – que faz a diferença. “A elite venezuelana, por exemplo, não precisa deste dinheiro. O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam são duas coisas: uma é habilidade e o conhecimento necessário em subverter regimes. E a segunda coisa é que esse apoio tem um papel unificador. A oposição pode estar dividida e eles ajudam a oposição a se unificar”.

Para Weisbrot, muitas vezes o patrocínio norte-americano tem uma “influência perniciosa” em movimentos legítimos. “Sempre há grupos lutando pela democracia nestes países, com uma variedade de demandas, como reforma agrária, proteções sociais, empregos… E o que acontece é que eles capitaneiam todo o movimento com muito dinheiro, inspirado pelas políticas que interessam aos EUA. Muitas vezes, os grupos democráticos que recebem o dinheiro acabam caindo em descrédito”.

*Originalmente publicado no site da Agência Pública

Protestos em São Paulo: “França, Alemanha, Portugal e Canadá terão protestos em solidariedade aos manifestantes de SP”

Indignados, brasileiros e estrangeiros declaram apoio ao Movimento Passe Livre e se reúnem na próxima terça

A noite de violência policial no centro de São Paulo nesta quinta-feira (13/06) ecoou ao redor do mundo. Brasileiros, em parceria com nativos de diversos países, prometem para a próxima terça-feira (18) um ato de repúdio à Polícia Militar e de solidariedade aos que sofreram algum tipo de agressão.

Leia também:
Imprensa internacional destaca agressão da polícia a manifestantes em SP

Residentes de França, Alemanha, Portugal e Canadá estão entre os países que estão se organizando por meio do Facebook para uma manifestação chamada “democracia não tem fronteiras”. “Contra precariedade do transporte público e a política repressora do governo, por meio de ações violentas da polícia”, descreve a página oficial do movimento.

Agência Efe

Noite de violência em SP repercute ao redor do mundo

“O povo de São Paulo, Rio e em algumas outras grandes cidades do Brasil tomou as ruas para protestar contra o que era algo aparentemente trivial no início, mas que acabou se tornando uma luta a favor de uma melhor qualidade de vida e igualdade no país”, afirmam os organizadores do evento na Alemanha.

Na França, as críticas são para Geraldo Alckmin, que “parabenizou a polícia por disciplinar os manifestantes”, e o prefeito Fernando Haddad, porque “se recusa a dialogar”.

“Mesmo que tenhamos um oceano de distância, nós, brasileiros no exterior, queremos demonstrar nossa recusa em aceitar a violência militar contra os protestos democráticos no Brasil. Contra a repressão policial contra a barbárie dos governantes”, postaram os organizadores do evento no Facebook

POR QUE O BOLSA FAMÍLIA DESPERTA TANTO ÓDIO DE CLASSE? – por fátima oliveira

Eu não tinha a dimensão do ódio de classe contra o Bolsa Família. Supunha que era apenas uma birra de conservadores contra o PT e quem criticava o Bolsa Família o fazia por rancor de classe a Lula, ou algo do gênero, jamais por ser contra pobre matar a sua fome com dinheiro público.

Idiota ingenuidade a minha! A questão não é de autoria, mas de destinatário! Os críticos esquecem que a fome não é um problema pessoal de quem passa fome, mas um problema político. E Lula assumiu que o Brasil tem o dever de cuidar de sua gente quando ela não dá conta e enquanto não dá conta por si mesma. E Dilma honra o compromisso.

Estou exausta de tanto ouvir que não há mais empregada doméstica, babá, “meninas pra criar”, braços para a lavoura e as lidas das fazendas que não são agronegócios… E que a culpa é do Bolsa Família!

Conheço muita gente que está vendendo casas de campo, médias e pequenas propriedades rurais porque simplesmente não encontra “trabalhadores braçais” nem para capinar um pátio, quanto mais para manter a postos “um moleque de mandados”, como era o costume até há pouco tempo! E o fenômeno é creditado exclusivamente ao Bolsa Família.

Esquecem a penetração massiva do capitalismo no campo que emprega, ainda que pagando uma “merreca”, com garantias trabalhistas, em serviços menos duros do que ficar 24 horas por dia à disposição dos “mandados” da casa-grande, que raramente “assina carteira”. Eis a verdade!

Esquecem que a população rural no Brasil hoje é escassa. Dados do IBGE de setembro de 2012: a população residente rural é 15% da população total do país: 195,24 milhões.

Não há muitos braços disponíveis no campo, muito menos sobrando e clamando por um prato de comida, gente disposta a alugar sua força de trabalho por qualquer tostão, num regime de quase escravidão, além do que há outras ocupações com salários e condições trabalhistas mais atraentes do que capinar, “trabalhar de aluguel”, que em geral nem dá para comprar o “dicumê”. Dados de 2009 já informavam que 44,7% dos moradores na zona rural auferiam renda de atividades não agrícolas!

Basta juntar três pessoas de classe média que as críticas negativas ao Bolsa Família brotam como cogumelos. Após a boataria de 18 de maio, que o Bolsa Família seria extinto, esse assunto se tornou obrigatório. Fazem questão de ignorar que ele é o maior e mais importante programa antipobreza do mundo e foi copiado por 40 países – é uma “transferência condicional de renda” que objetiva combater a pobreza existente e quebrar o seu ciclo.

Atualmente, ajuda 50 milhões de brasileiros: mais de 1/4 do povo! E investe apenas 0,8% do PIB! Sem tal dinheiro, mais de 1/4 da população brasileira ainda estaria passando fome!

Mas há gente sem repertório humanitário, como as que escreveram dois tuítes que recebi: “Nunca vi tanta gente nutrida nas filas dos caixas eletrônicos para receber o Bolsa Família, até parecia fila para fazer cirurgia bariátrica”; e “Eu também nunca havia visto tanta gente rechonchuda reunida para sugar a bolsa-voto!”.

Como disse a minha personagem dona Lô: “Coisa de gente má que nunca soube o que é comer pastel de imaginação; quem pensa assim integra as hostes da campanha Cansei de Sustentar Vagabundo, que circulou nas eleições presidenciais de 2010”. São evidências de que há gente que não se importa e até gosta de viver num mundo em que, como escreveu Josué de Castro, em Geografia da Fome (1984): “Metade da humanidade não come e a outra não dorme com medo da que não come…”.

 

Médica – fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_

“As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis” – por richard j. roberts / new york.usa

“As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis”

O Prémio Nobel da Medicina Richard J. Roberts denuncia a forma como funcionam as grandes farmacêuticas dentro do sistema capitalista, preferindo os benefícios económicos à saúde, e detendo o progresso científico na cura de doenças, porque a cura não é tão rentável quanto a cronicidade.
ARTIGO | 8 JULHO, 2011 – 15:23

Richard J. Roberts: “É habitual que as farmacêuticas estejam interessadas em investigação não para curar, mas sim para tornar crónicas as doenças com medicamentos cronificadores”. Foto de Wally Hartshorn
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Há poucos dias, foi revelado que as grandes empresas farmacêuticas dos EUA gastam centenas de milhões de dólares por ano em pagamentos a médicos que promovam os seus medicamentos. Para complementar, reproduzimos esta entrevista com o Prémio Nobel Richard J. Roberts, que diz que os medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos por empresas farmacêuticas que, em troca, desenvolvem medicamentos cronificadores que sejam consumidos de forma serializada. Isto, diz Roberts, faz também com que alguns medicamentos que poderiam curar uma doença não sejam investigados. E pergunta-se até que ponto é válido e ético que a indústria da saúde se reja pelos mesmos valores e princípios que o mercado capitalista, que chega a assemelhar-se ao da máfia.

A investigação pode ser planejada?

Se eu fosse Ministro da Saúde ou o responsável pelas Ciência e Tecnologia, iria procurar pessoas entusiastas com projectos interessantes; dar-lhes-ia dinheiro para que não tivessem de fazer outra coisa que não fosse investigar e deixá-los-ia trabalhar dez anos para que nos pudessem surpreender.

Parece uma boa política.

Acredita-se que, para ir muito longe, temos de apoiar a pesquisa básica, mas se quisermos resultados mais imediatos e lucrativos, devemos apostar na aplicada …

E não é assim?

Muitas vezes as descobertas mais rentáveis foram feitas a partir de perguntas muito básicas. Assim nasceu a gigantesca e bilionária indústria de biotecnologia dos EUA, para a qual eu trabalho.

Como nasceu?

A biotecnologia surgiu quando pessoas apaixonadas começaram a perguntar-se se poderiam clonar genes e começaram a estudá-los e a tentar purificá-los.

Uma aventura.

Sim, mas ninguém esperava ficar rico com essas questões. Foi difícil conseguir financiamento para investigar as respostas, até que Nixon lançou a guerra contra o cancro em 1971.

Foi cientificamente produtivo?

Permitiu, com uma enorme quantidade de fundos públicos, muita investigação, como a minha, que não trabalha directamente contra o cancro, mas que foi útil para compreender os mecanismos que permitem a vida.

O que descobriu?

Eu e o Phillip Allen Sharp fomos recompensados pela descoberta de introns no DNA eucariótico e o mecanismo de gen splicing (manipulação genética).

Para que serviu?

Essa descoberta ajudou a entender como funciona o DNA e, no entanto, tem apenas uma relação indirecta com o cancro.

Que modelo de investigação lhe parece mais eficaz, o norte-americano ou o europeu?

É óbvio que o dos EUA, em que o capital privado é activo, é muito mais eficiente. Tomemos por exemplo o progresso espectacular da indústria informática, em que o dinheiro privado financia a investigação básica e aplicada. Mas quanto à indústria de saúde… Eu tenho as minhas reservas.

Entendo.

A investigação sobre a saúde humana não pode depender apenas da sua rentabilidade. O que é bom para os dividendos das empresas nem sempre é bom para as pessoas.

Explique.

A indústria farmacêutica quer servir os mercados de capitais …

Como qualquer outra indústria.

É que não é qualquer outra indústria: nós estamos a falar sobre a nossa saúde e as nossas vidas e as dos nossos filhos e as de milhões de seres humanos.

Mas se eles são rentáveis investigarão melhor.

Se só pensar em lucros, deixa de se preocupar com servir os seres humanos.

Por exemplo…

Eu verifiquei a forma como, em alguns casos, os investigadores dependentes de fundos privados descobriram medicamentos muito eficazes que teriam acabado completamente com uma doença …

E por que pararam de investigar?

Porque as empresas farmacêuticas muitas vezes não estão tão interessadas em curar as pessoas como em sacar-lhes dinheiro e, por isso, a investigação, de repente, é desviada para a descoberta de medicamentos que não curam totalmente, mas que tornam crónica a doença e fazem sentir uma melhoria que desaparece quando se deixa de tomar a medicação.

É uma acusação grave.

Mas é habitual que as farmacêuticas estejam interessadas em linhas de investigação não para curar, mas sim para tornar crónicas as doenças com medicamentos cronificadores muito mais rentáveis que os que curam de uma vez por todas. E não tem de fazer mais que seguir a análise financeira da indústria farmacêutica para comprovar o que eu digo.

Há dividendos que matam.

É por isso que lhe dizia que a saúde não pode ser um mercado nem pode ser vista apenas como um meio para ganhar dinheiro. E, por isso, acho que o modelo europeu misto de capitais públicos e privados dificulta esse tipo de abusos.

Um exemplo de tais abusos?

Deixou de se investigar antibióticos por serem demasiado eficazes e curarem completamente. Como não se têm desenvolvido novos antibióticos, os microorganismos infecciosos tornaram-se resistentes e hoje a tuberculose, que foi derrotada na minha infância, está a surgir novamente e, no ano passado, matou um milhão de pessoas.

Não fala sobre o Terceiro Mundo?

Esse é outro capítulo triste: quase não se investigam as doenças do Terceiro Mundo, porque os medicamentos que as combateriam não seriam rentáveis. Mas eu estou a falar sobre o nosso Primeiro Mundo: o medicamento que cura tudo não é rentável e, portanto, não é investigado.

Os políticos não intervêm?

Não tenho ilusões: no nosso sistema, os políticos são meros funcionários dos grandes capitais, que investem o que for preciso para que os seus boys sejam eleitos e, se não forem, compram os eleitos.

Há de tudo.

Ao capital só interessa multiplicar-se. Quase todos os políticos, e eu sei do que falo, dependem descaradamente dessas multinacionais farmacêuticas que financiam as campanhas deles. O resto são palavras…

18 de Junho, 2011

Publicado originalmente no La Vanguardia

Tradução de Ana Bárbara Pedrosa.

A MORADA DO SER – por paulo timm / torres.rs

A MORADA DO SER

Paulo Timm – junho,10-Torres RS 

 

 

 

Palavras sempre sabem o que querem” . (Adriana Falcão , Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento)

Hoje , dia 10 de junho celebra-se o Dia da Língua Portuguesa, data da morte de Luiz de Camões, “Pai da Língua”, autor de “Os Lusíadas”, em 1589. É com a língua que resistimos e existimos como espécie. E que nos diferenciamos na Babel de povos distintos. O próprio português PAULO TIMMdo Brasil, distanciando-se do lusitano,  é um amálgama do poder colonial com  a malemolência tropical, obrigada, por duas vezes, a discriminar o tupi, amplamente falado no território até o final do século XVIII: Pelo Marquês do Pombal, em  17 de agosto de 1758,  e por Dom João VI, em 1808.  A língua é, de resto,  nossa primeira prisão, nas malhas da  razão que a própria razão desconhece; mas é também, nossa única possibilidade de alforria, pelo exercício da liberdade.

Em 1968, por exemplo,  às vésperas do AI-5, uma canção, de Geraldo Vandré, sintetizou este poder da língua, ao ser interpretada nas eliminatórias por ele próprio no III Festival Internacional da Canção, transformando-se no maior hino de repúdio à ditadura militar: “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” ou “Caminhando“. Até hoje, para quem viveu, mesmo de longe, aqueles momentos, não há como sufocar  à forte emoção que evoca e que bem demonstra o importante papel da cultura, em seu vasto espectro, na redemocratização do país, independentemente do grande enigma que Vandré ainda representa em sua poética solidão.(É patética sua fala, mas digna de respeito, tanto pelo personagem humano, como pelo gênio artístico ineludível,  na recente entrevista concedida a Geneton de Moraes Neto, na GloboNews):

 

“Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…(2x)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…(2x)

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora”

 

Lamentavelmente,  os comentaristas da grande mídia obnubilaram a data da língua, preferindo as estatísticas da economia, no melhor estilo da velha tradição,   tão condenada pelos verdes: a maldição do PIB. Mas se a moeda forte nos mercados globais não é o real; se a tecnologia, até mesmo do provecto automóvel  “nacional” , vem de fora; e  se a economia está se desindustrializando, sob o fascínio da exportação de commodities que nos aferra à matriz colonial, tão condenada por Caio Prado Jr., desde seus primeiros escritos econômicos da década de 30 do século passado, o vernáculo é nosso.  Fernando Pessoa, Poeta Maior da língua, ia mais longe. A língua, para ele se confundia com a própria pátria, no melhor estilo heideggeriano, para quem a palavra é a morada do ser:

“As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho – , transmudou-se o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramos ao vento , num delírio passivo de coisa movida.         (…)

Não tenho sentimento político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enjoa independentemente de quem o cuspisse.

 

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da trasliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

 

(Fernando Pessoa –  Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Lisboa, Ática, 1982)

Mauro Santayana, decano do jornalismo brasileiro, não vai tão longe. Mas defende a língua escrita como  fundamento da soberania e tem uma posição de defesa intransigente da pureza do idioma:

“Demolir a linguagem é demolir o homem. Quando se trata de política de Estado, é crime contra o povo.”

(Mauro Santayana, Linguagem e Soberania – www.maurosantayana.com)

Mais do que         morada, pátria e essência da soberania de um povo:  A linguagem escrita é um momento do processo civilizatório que potencia a comunicação humana elevando-a culturalmente. A importância da Grécia Antiga consistiu precisamente no fato de que foi a simplificação da sua escrita , de base fonética, mais avançada do que as paralelas,   que proporcionou uma  inédita sinergia  da inteligência da época naquela região, culminando no requinte do helenismo.   E, mesmo sucumbindo ao poder de Roma, foi esta cultura que forjou os valores fundamentais da cultura ocidental, demonstrando o poder da palavra trasliterada na “última flor do Lácio”:

Língua portuguesa

Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

            ( “Poesias”, Livraria Francisco Alves – Rio de Janeiro, 1964, pág. 262)

 

É pelas palavras escritas e pela língua falada que nos identificamos como um povo no seu cotidiano. Por elas  nos eternizaremos como cultura, sendo, portanto nossa maior riqueza, aquela que se projeta como mito. Podemos não comer palavras, no sentido literal, nem chegar com elas, literalmente, às estrelas. Para tanto, farse-ão indispensáveis a boa matemática, a física e a tecnologia. Mas pela palavra dizemos do nosso espanto e descobrimos o logon da  fina teia de Ariadne. E pela palavra cantamos nossos sentimentos, suportando a dor e revalorizando a existência. E quando a palavra corta, abre-se o silêncio que grita:

“A última palavra é a palavra do poeta; a última palavra é a que fica.
A última palavra de Hamlet:
O resto é silêncio.
A última palavra de Júlio César:
Até tu, Brutus?
A última palavra de Jesus Cristo:
Meu pai, meu pai, por que me abandonaste?
A última palavra de Goethe:
Mais luz!
A última palavra de Booth, assassino de Lincoln:
Inútil, inútil…
E a última palavra de Prometeu:
Resisto!”

(José Antonio Küller  – Liberdade, Liberdade – http://josekuller.wordpress.com/3-liberdade-liberdade/)

FECHAR PLAYBOY AMANHÃ – 10.6.2013 – É DECISÃO DOS IRMÃOS CIVITA

FECHAR PLAYBOY AMANHÃ É DECISÃO DOS IRMÃOS CIVITA

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247 exclusivo: emblema do Grupo Abril, revista Playboy estará entre as publicações a serem “descontinuadas” pela editora; circula há 35 anos; lista completa sai nesta segunda-feira 10; feminina Contigo será vendida à Editora Caras; mensal masculina virou máquina de dar prejuízos; cachês milionários, como o que foi pago para a atriz Flavia Alessandra (acima), não garantiram mais vendas; circulação que já superou 1,2 milhão está abaixo dos 150 mil exemplares; público adolescente migrou para a internet na troca de ensaios estáticos por cenas mais quentes e com movimento na rede; Gianca e Titi Civita não manterão as aparências

9 DE JUNHO DE 2013 ÀS 15:44

247 – Bastaram cinco minutos no ar para chegar a 247 a confirmação do fechamento da certamente mais festejada revista do País, a Playboy. A decisão dos irmãos Giancarlo, o Gianca, e Vitor Civita Neto, o Titi, foi a de incluir a publicação na lista das revistas que serão “descontinuadas” pelo Grupo Abril. A revista Contigo será vendida para a Editora Caras. O rol completo de títulos a serem fechados promete ser divulgado nesta segunda-feira 10 pela editora. A Abril publica atualmente 52 títulos.

Abaixo, notícia de 247 a respeito:

247 – Cortar até mil funcionários, economizar R$ 100 milhões dentro de um faturamento, no ano passado, superior a R$ 2,8 bilhões e superar a ausência de Roberto Civita. Tudo isso não parece estar tirando o sono dos irmãos Giancarlo, o Gianca, e Victor Civita Neto, o Titi, os novos maiorais do Grupo Abril. Afinal, na semana passada eles já começaram as demissões por cerca de 70 jornalistas que ocupavam cargos de direção nas muitas superintendências da editora. O que está efetivamente preocupando a dupla é outra decisão a ser tomada: a de fechar ou manter aberta a revista Playboy. A lista das revistas que serão “descontinuadas” pela Abril sai nesta segunda-feira 10.

Um dos emblemas da Abril, que publica a revista fundada por Hugh Heffner desde o final da década de 1970, a Playboy virou uma máquina de dar prejuízos. A circulação da mensal sofreu o maior tombo entre todas as fortes quedas verificadas na editora, com suas vendas reduzidas em 38, 52%, caindo de 221,7 mil exemplares para 136,3 mil exemplares vendidos no último mês. O preço de capa, hoje superior a R$ 10, se deprecia rapidamente, com exemplares de apenas quatros meses atrás podendo ser comprados em bancas que os guardam por menos da metade do preço, como revela o pesquisador Leandro Mendes em seu blog Revista que Amamos. Como a Playboy não tem as chamadas matérias quentes, mas ancora-se em fotos de mulheres famosas nuas, essa depreciação é um dos elementos que acentua a queda da circulação. Por que, afinal, comprar caro hoje o que se pode pagar barato logo em seguida?

O dilema da Playboy, no entanto, é ainda mais profundo. Nascida com o apoio de um grande público adolescente, a revista ressente-se hoje da migração desse público para a internet, onde a oferta de fotos – e vídeos – sensuais, com mulheres de sonhos, é ampla e franca. Por que comprar uma revista de papel, com ensaios estáticos, se uma busca no google pode oferecer muito mais diversão a custo zero, é outra pergunta que, ao que parece, os leitores da revista estão se fazendo.

Há mais. Para manter um time de estrelas em suas capas, como a atriz Flavia Alessandra, entre outras, a Playboy, mesmo sem concorrentes para seu antigo padrão de beletrismo, hoje aviltado, usou contra si própria sua fórmula de glamour. Isto é: passou a oferecer cachês altíssimos, que muitas vezes envolveram a concessão de participação de até 50% no valor da capa da publicação para suas estrelas, além de um pagamento fixo. Essas remunerações chegaram, muitas vezes, a mais de um milhão de reais a cada mulher. No entanto, apesar de tanto dinheiro envolvido, muitas capas encalharam, como a da, digamos, intelectual Fernanda Young, a que se comentou na ocasião da publicação.

Pagando caro e, mesmo assim, sem garantia de vendas, a Playboy passou a ter seu número de páginas reduzido. Os ensaios comprados da revista americana, que contribuíram para o sucesso da revista, desapareceram de suas páginas. As famosas entrevistas, onde se encontravam revelações inéditas de personagens famosos, perderam a ‘pegada’, recaindo sob o leito do tradicionalismo. Os antigos famosos diretores de redação foram substuídos, com o passar dos anos, por jovens quadros de carreira da Abril. A qualidade da publicação, é claro, se ressentiu.

Manter, pelas aparências, ou fechar, em razão da contabilidade, a Playboy é a decisão mais difícil da nova dupla de mandatários do Grupo Abril, onde a morte de Roberto Civita resultou não na ascensão de quadros de carreira, mas simplesmente na passagem de comando para seus filhos homens. O que eles fizerem será informado ao mercado como a decisão mais correta. Lá dentro, sim, mas aqui fora a ótica é outra.

Agonizando, Abril, dona da Veja, corta pessoal e mais 10 revistas

Agonizando, Abril, dona da Veja, corta pessoal e mais 10 revistas

 

Sob nova direção, o Grupo Abril começou às 16h00 da sexta-feira 7 o mais profundo processo de corte de pessoal, extinção de títulos e enxugamento de custos de sua história; as demissões começaram pelo meio da pirâmide de produção, entre os diretores de núcleos; foi dispensado, entre outros, o diretor Claudio Ferreira, responsável durante os últimos anos pela área comercial da revista Veja; presidente Giancarlo Civita não esperou nem a missa de sétimo dia de Roberto Civita para executar as medidas que seu pai se recusava a tomar.

Sob nova direção, o Grupo Abril começou às 16h00 da sexta-feira 7 o mais profundo processo de corte de pessoal, extinção de títulos e enxugamento de custos de sua história; as demissões começaram pelo meio da pirâmide de produção, entre os diretores de núcleos; foi dispensado, entre outros, o diretor Claudio Ferreira, responsável durante os últimos anos pela área comercial da revista Veja; presidente Giancarlo Civita não esperou nem a missa de sétimo dia de Roberto Civita para executar as medidas que seu pai se recusava a tomar.

Antes mesmo de ser rezada a missa de sétimo dia pela morte de Roberto Civita, que presidiu o Grupo Abril, a empresa iniciou, às 16 horas desta sexta-feira 7, talvez o maior e mais duro corte de funcionários, extinção de títulos e enxugamento de despesas de sua história. Sob a presidência de Giancarlo Civita, as medidas duras que seu pai não queria tomar começaram a ser executadas em relação a uma série de diretores de núcleos da organização, entre eles Claudio Ferreira, responsável por vários anos pela área comercial da revista Veja. 

Dos 52 títulos de revistas da Abril, pelo menos dez deverão ser extintos. O processo de cortes deve prosseguir na próxima semana. Rumores dão conta da necessidade de redução de R$ 100 milhões em despesas anuais, o que implicaria numa redução de cerca de 10% do quadro funcional. Isso representaria cerca de mil demissões.

Abaixo, reportagem a respeito publicada pelo Portal Imprensa:

Editora Abril demite Diretores de Núcleo; até dez títulos podem ser fechados

Após semanas de boatos e informações prevendo uma demissão em massa no Grupo Abril, a empresa iniciou, na tarde desta sexta (7/6), um processo de reestruturação que envolve desligamentos e fechamento de títulos.

Segundo IMPRENSA apurou, os cortes começaram pelos diretores de núcleo que passaram a ser chamados por volta de 16h.

Entre os demitidos estão Alfredo Ogawa, diretor de serviços editoriais da Abril Mídia; Brenda Fucuta, diretora superintendente da extinta UN Segmentada I; Claudio Ferreira, diretor comercial de administração da Unidade de Negócios Veja; Daniel Gomes, diretor de planejamento Estratégico e Novos Negócios; Kaike Nanne, diretor do Núcleo Comportamento; Márcia Neder, diretora do Núcleo Moda e Beleza e Paula Traldi, diretora de Recursos Humanos da ex-Abril Mídia.

Está prevista para a próxima semana a divulgação de quais revistas serão descontinuadas e o quanto esses cancelamentos afetarão o quadro de funcionários. Fala-se na redução de até mil vagas.

IMPRENSA contatou a assessoria de imprensa do Grupo Abril e aguarda pronunciamento oficial da empresa sobre os cortes.

Reestruturação do grupo

Com as mudanças, o Grupo Abril passa a ter uma nova estrutura e a junção das unidades de negócios que estavam ligadas à Abril Mídia. Elas serão cinco: Unidade de Negócios Veja, UN Exame, UN Abril Segmentadas, UN Negócios Digitais e UN de Negócios de Assinaturas.

A UN Veja será comandada por Thais Chedes Soares que acumula o cargo de diretora geral de publicidade; a UN Exame será comandada por Claudia Vassallo; a UN Abril Segmentadas será dirigida por Helena Bagnoli no comando geral e Claudia Giudice como diretora superintendente.

Já a UN de Novos Negócios Digitais terá Manoel Lemos como titular e reúne as operações Alphabase, iba, Elemidia, E-commerce e um Fundo de Investimento em Empresas de Tecnologia. A UN de Negócios de assinatura continua sob a liderança de Fernando Costa.

Foi criada uma assessoria editorial à presidência que será ocupada por Edla Müller que seguirá com o trabalho realizado por Thomas Souto Corrêa. Também foi criada uma vice-presidência de operações e gestão que será comandada por Marcelo Bonini.

Resultados positivos

A reestruturação da companhia acontece dois meses depois do anúncio da divulgação de receita líquida de R$ 2,98 bilhões, alcançados em 2012. Já a receita publicitária da empresa foi de R$ 1,03 bilhão no período.

Giancarlo Civita, que à época da divulgação dos resultados estava no cargo de vice-presidente do Conselho de Administração da companhia, destacou que “mesmo em ano de cenário econômico complicado mantivemos firme a missão de difundir cultura, educação e entretenimento”.

A parte digital da empresa também apresentou números satisfatórios. Os sites da Abril atingiram 59 milhões de internautas no ano passado. O Exame.com teve crescimento de 86% e chegou a 53 milhões de pageviews. Em 2012, a Abril S.A. ainda comprou a participação dos minoritários na Elemidia e passou a ter 100% do negócio.

Recentemente, a empresa fez vários investimentos e aquisições por meio da Abril Educação que já conta com marcas como Ática e Scipione, Anglo, Ser, Maxi, pH e GEO, os sistemas Anglo Vestibulares e o Curso e Colégio pH.

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do Brasil 247

AÉCIO NEVES: MP QUEBRA BLINDAGEM E INSTAURA PROCESSO

Publicado em 06/06/2013

O período investigado pelo MPE é de 2003 a 2010, período em que o senador ocupou o cargo de governador.

MG: MINISTÉRIO PÚBLICO QUEBRA BLINDAGEM E INSTAURA PROCESSO CONTRA AÉCIO NEVES

Os deputados federais mineiros Margarida Salomão (PT) e Padre João (PT) avaliaram positivamente nesta quarta-feira (5) a decisão do Ministério Público Estadual (MPE) de Minas Gerais de instaurar inquérito civil para apurar fatos envolvendo repasses de verbas publicitárias do governo do estado para a Rádio Arco-Íris (Jovem Pan BH).

A empresa de comunicação tem como sócios o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e sua irmã Andrea Neves. O período investigado pelo MPE é de 2003 a 2010, período em que o senador ocupou o cargo de governador.

A Rádio São João Del Rei S/A e a Editora Gazeta de São João Del Rei Ltda, que também receberam recursos públicos durante a gestão de Aécio Neves no governo de Minas, serão investigadas. Essas empresas pertencem a Andrea Neves, atualmente presidente do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas).

“As forças democráticas do Estado comemoram essa ação do MPE como uma vitória.  Embora o Ministério Público esteja cumprindo o seu AÉCIO NEVESdever, esse ato constitui uma quebra, uma ruptura da blindagem, que tanto Aécio como sua irmã Andrea têm desfrutado”, disse a deputada Margarida Salomão. De acordo com Margarida, do ponto de vista institucional, ocorre um “eco” que reflete as preocupações do povo mineiro. “Estamos convencidos de que a Justiça mineira vai cumprir o seu dever”, enfatizou Margarida Salomão.

Ainda segundo a deputada, a movimentação do Ministério Público cria expectativa na sociedade de elucidação dos fatos que envolvem a figura de um ex-governador, hoje senador, e da irmã dele, então gestora de Comunicação Social do Governo. “Ela (Andrea) é quem definia para onde iam as verbas publicitárias. Aqui nós temos uma relação incestuosa do público com o privado. A rádio recebeu recursos públicos (alega o senador que de forma legal) e os destinou para, entre outras coisas, comprar um Land Rover que o ex-governador fazia uso privado. Essas coisas têm causado indignação na opinião pública mineira”, salientou a petista.

Indiferença – Para o deputado Padre João, a Justiça mineira começa a acordar diante de tantas denúncias que envolvem Aécio Neves e membros da família dele. “O Ministério Público tem um papel importante, no entanto, eles ficaram indiferentes durante quase 10 anos em relação ao desvio do dinheiro público praticado na gestão tucana. Nós acreditamos nesse despertar do MP. Espero que ele cumpra, de fato, o papel a ele delegado. O povo não pode ser punido com a má destinação ou desvio de recursos público”, observou .

O parlamentar petista relatou que, à época, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais tentou instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o caso, mas, segundo ele, foi barrada pelos defensores do governo tucano de Aécio Neves. “Minas é um estado governado por Lei Delegada, aniquilando o Poder Legislativo. Houve tentativa de CPI que foi impedida. Cabe ao MP e ao Judiciário ir a fundo na investigação, levantar todos os valores e punir, não só o senador, mas os responsáveis que ilegalmente receberam dinheiro público”, defendeu o deputado Padre João.

Os fatos – A parceria comercial entre Aécio e a Rádio Arco-Íris só foi descoberta porque o senador foi parado em operação policial na cidade do Rio de Janeiro, em abril do ano passado, e teve a carteira de habilitação (vencida) apreendida ao recusar o teste do bafômetro. O senador era o condutor de um veículo Land Rover, de propriedade da Rádio Arco-Íris (Jovem Pan FM-BH), emissora que recebe regularmente recursos públicos do Estado de Minas Gerais.

Benildes Rodrigues

CHARLES BAUDELAIRE (1821 – 1867) – por danilo corci / milão.it

 

O homem que mudou a literatura moderna. Definir o francês Charles Baudelaire somente desta maneira não seria correto. Ficaria muito aquém de sua verdadeira importância. Tradutor, poeta, crítico de arte e literato, Baudelaire foi o ponto alto do século 19 nas letras.

Charles foi o único filho de Joseph-François Baudelaire e de sua jovem segunda esposa, Caroline Archimbaut Defayis. Seu pai havia sido ordenado como padre quando neófito, mas largou o ministério durante a revolução francesa. Trabalhou como tutor dos filhos do duque de Choiseul-Praslin, o que lhe proporcionou um certo status. Ganhou dinheiro e respeito e aos 68 anos se casou com Caroline, então com 26. Vivendo num orfanato e já passada da idade de se casar, ela acabou por não ter opção. Em 1819, se casaram. Charles-Pierre Baudelaire veio ao mundo um ano e meio depois, em 9 de Abril de 1821.

Seu pai era um admirador das artes. Pintava e escrevia poesias. E insistiu para que o filho seguisse o caminho. Baudelaire, anos mais tarde, se referiu à sofreguidão do pai como “o culto das imagens”. Mas a convivência entre ambos durou pouco. Em fevereiro de 1827, Joseph-baudelairefotFrançois Baudelaire faleceu. O jovem Charles e sua mãe tiveram que se mudar para o subúrbio de Paris para não terem problemas financeiros. Em um de seus textos de 1861, Charles escreveu para a mãe: “Eu estive sempre vivo em você. Você foi totalmente minha”. Este tempo de convivência terminou quando Caroline se casou com o soldado Jacques Aupick, que conseguiu se tornar general e mais tarde serviu como embaixador francês para o Império Otomano e para Espanha, antes de se tornar senador do Segundo Império.

A vida acadêmica de Baudelaire começou no Collège Royal em Lyon, quando Aupick levou a família inteira ao assumir um cargo na cidade. Mais tarde, ele foi matriculado no Liceu Louis Le Grand, quando retornaram a Paris em 1836. Foi justamente ai que Baudelaire começou a se mostrar um pequeno gênio. Escrevia poemas, que eram execrados por seus professores, que acham que seus textos eram um exemplo de devassidão precoce, afeições que não eram normais em sua idade. A melancolia também dava sinais no jovem Charles. Aos poucos, ele se convenceu de ser um solitário por natureza. Em abril de 1839, acabou expulso da escola por seus atos de indisciplina constantes.

Mais tarde, ele se tornou aluno da Escola de Droit. Na verdade, Charles estava vivendo de maneira livre. Fez os seus primeiros contatos com o universo da literatura e contraiu uma doença venérea que o consumiu durante a vida inteira. Tentando salvar seu enteado do caminho libertino, Aupick o enviou para uma viagem à Índia, em 1841, uma forte inspiração para sua imaginação, e que trouxe imagens exóticas ao seu trabalho. Baudelaire retornou a França em 1842.

Neste mesmo ano, ele recebeu sua herança. Mas como dândi que era, consumiu rapidamente a pequena fortuna. Gastou em roupas, livros, quadros, comidas, vinhos, haxixe e ópio. Os dois últimos, um vício adquirido após consumir pela primeira vez entre 1843 e 1845, em seu apartamento no Hotel Pimodan. Pouco depois deste seu retorno, ele conheceu Jeanne Duval, a mulher que marcou definitivamente a sua vida. A mestiça primeiro se tornou sua amante e mais tarde, controlou sua vida financeira. Ela ira ser a inspiração para as poesias mais angustiadas e sensuais que o poeta escreveu. Seu perfume e o seus longos cabelos negros foram o mote da poesia erótica “La Chevelure”.

Charles Baudelaire continuou levando sua vida extravagante e em dois anos dilapidou todo o seu dinheiro. Também se tornou presa de agiotas e bandidos. Neste período, acumulou dívidas que o assombraram para o resto da vida. Em setembro de 1844, sua família entrou na justiça para impedi-lo de mexer no pouco dinheiro da herança que ainda sobrava. Baudelaire perdeu e acabou recebendo somas anuais, que mal dava para manter o seu estilo de vida e muito menos para pagar o que devia. Isto o levou a uma dependência brutal de sua mãe e ao ódio de seu padrasto. Seu temperamento isolacionista e desesperador, fruto de sua adolescência conturbada e que ele apelidou de “spleen” retornou e se tornou cada vez mais freqüente.

Após a sua volta a França, ele decidiu se tornar um poeta, a qualquer custo. De 1842 a 1846, ele compôs que mais tarde foram compilados na edição de “Flores do Mal” (1857). Baudelaire evitou publicar todos estes poemas separadamente, o que sugere que ele realmente tenha arquitetado em sua mente uma coleção coerente, governada por uma temática própria. Em outubro de 1845, compilou “As Lésbicas” e em 1848, “Limbo”, obras que representam a agitação e a melancolia da juventude moderna. Nenhuma das duas coleções de poemas foram lançadas em livros e Baudelaire só foi aceito no circuito cultural de Paris porque também era crítico de arte, trabalho que exerceu por um bom tempo.

Inspirado pelo exemplo do pintor Eugène Delacroix, ele elaborou uma teoria da pintura moderna, convocando os pintores a celebrarem e expressarem o “heroísmo da vida moderna”. O mês de janeiro de 1847 foi importante para Baudelaire. Ele escreveu a novela “La Fanfarlo”, cujo o herói, ou melhor, anti-herói, Samuel Cramer, um alter-ego do autor, oscila desesperado entre o desejo pela maternal e respeitável Madame de Cosmelly e o erótico pela atriz e dançarina Fanfarlo. Com este texto, Baudelaire começava a chamar a atenção, mesmo que timidamente.

Este anonimato acabou-se em fevereiro de 1848, quando participou de manifestações para a derrubada do Rei Luís Felipe e para a instalação da Segunda República. Consta que comandou um violento ataque contra o general Aupick, seu padrasto, então diretor da Escola Politécnica. Este acontecimento leva vários especialistas a minimizarem a participação do do poeta burguês nesta revolução, já que seus motivos não seriam sociais e políticos mas sim pessoais, que ainda não havia publicado nada. Porém, estudos recentes assumem uma veia política brutal em Baudelaire, em especial sua associação com o anarquista-socialista Pierre-Joseph Proudhon. Sua participação na revolta de proletários em junho de 1848 é comprovada e também na resistência contra os militares de Napoleão 3º, em dezembro de 1851. Logo após este episódio, o poeta declarou encerrado seu interesse em política e voltou toda a sua atenção para seus escritos.

Em 1847, ele descobriu um escritor norte-americano obscuro: Edgar Allan Poe. Impressionado pelo que leu e pelas similaridades entre os escritos de Poe com seu próprio pensamento e temperamento, Baudelaire decidiu levar a cabo a tradução completa das obras do norte-americano, trabalho este que lhe tomou boa parte do resto de sua vida. A tradução do conto “Mesmeric Revelation” foi publicado em julho de 1848 e depois, outras traduções apareceram em jornais e revistas antes de serem compiladas no livro “Histórias Extraordinárias” (1856) e “Novas Histórias Extraordinárias” (1857), todas precedidas por introduções críticas feitas por Charles Baudelaire. Depois se seguiu “As Aventuras de Arthur Gordon Pym” (1857), “Eureka” (1864) e Histórias Grotescas” (1865). Como tradução, estes trabalhos foram clássicos da prosa francesa, e o exemplo de Poe deu a Baudelaire uma confiança em sua própria teoria estética e ideais para a poesia. O poeta também começou a estudar o trabalho do teórico conservador Joseph de Maistre, que, junto com Poe, incentivaram seu pensamento a ir numa direção antinaturalista e anti-humanista.

Do meio de 1850, ele iria se pronunciar arrependido de ser um católico romano, apesar de manter sua obsessão pelo pecado original e pelo demônio. Tudo isto sem a fé no amor e perdão de Deus, e sua crença em Cristo se rebaixou tanto a ponto de praticamente não existir mais.

Entre 1852 e 1854, ele dedicou vários poemas à Apollonie Sabatier, sua musa e amante apesar da reputação de cortesã da alta-classe. Em 1854, Baudelaire manteve um caso com a atriz Marie Daubrun. Ao mesmo tempo, sua fama como o tradutor de Poe aumentava. O fato de ser crítico de arte permitiu que publicasse algum de seus poemas. Em junho de 1855, a Revue des Deux Mondes publicou uma sequência de 18 de seus poemas, com o título de “As Flores do Mal” (“Le Fleurs du Mal”). Os poemas, que ele escolheu pela originalidade e pelo tema, lhe trouxeram notoriedade. No ano seguinte, Baudelaire fechou um contrato com o editor Poulet-Malassis para uma coleção completa de poemas sob o título prévio.

Quando a primeira edição do livro foi publicado em junho de 1857, 13 dos 100 poemas foram imediatamente acusados de ofensas à religião e à moral pública. Um julgamento foi feito no dia 20 de agosto de 1857 e 6 poemas foram condenados a serem retirados da publicação sob a acusação de serem obscenos demais. Baudelaire foi multado em 300 francos (mais tarde, reduzido a 50 francos). Em 1866, na Bélgica, os seis poemas foram republicados sobre o título de “Les Èpaves”. A proibição dos poemas só foram retirados da França em 1949. Como toda polêmica sempre é benéfica, “As Flores do Mal” se tornou um marco por sua obscenidade, morbidez e devassidão. A lenda de Baudelaire como um poeta maldito, dissidente e pornográfico nasceu.

Porém, as vendagens não foram nada boas. Baudelaire nutria uma expectativa gigantesca pelo sucesso, o que não aconteceu e imediatamente se tornou amargo. Os anos que vieram transformaram Baudelaire numa personalidade soturna, assombrado pelo sentimento de fracasso, desilusão e desespero. Após a condenação de seu livro, ele se juntou com Apollonie Sabatier e a deixou em 1859 para retomar seu relacionamento com Marie Daubrun, novamente infeliz e fracassado. Apesar de ter escrito alguns de seus melhores trabalhos nestes anos, poucos foram publicados em livro. Após a publicação de experimentos de prosa em verso, ele se concentrou numa segunda edição de “As Flores do Mal”.

Em 1859, enquanto vivia novamente com sua mãe, perto do rio Sena, onde ela se mantinha reclusa após a morte de Aupick em 1857, Baudelaire produziu uma série de obras-primas da poesia, começando com “Le Voyage” em janeiro e culminando no que é considerado seu melhor poema, “Le Cygne”, em dezembro. Ao mesmo tempo, compôs dois de seus mais provocativos ensaios de crítica de arte: “Salon de 1859” e “Os Pintores da Vida Moderna”. Este último, inspirado por Constantin Guys, é visto como uma declaração profética dos elementos do Impressionismo, uma década antes do surgimento da escola.

Em 1860, publicou “Os Paraísos Artificiais”, uma tradução de partes do ensaio de “Confissões de um Inglês Comedor de Ópio”, de Thomas De Quincey, acompanhado por sua pesquisa e análise das drogas. Em fevereiro de 1861, uma segunda edição, maior e ampliada, de “As Flores do Mal” foi publicada por Poulet-Malassis. Ao mesmo tempo, publicou ensaios críticos sobre Theophile Gautier (1859), Richard Wagner (1861), Victor Hugo e outros poetas contemporâneos (1862), e Delacroix (1863). Estes textos seriam compilados em “A Arte Romântica”, em 1869. Os fragmentos de sua autobiografia entitulada “Fusèes”e “Mon Coeur Mis à Nu” também foram lançados entre 1850 e 1860. É também desta época seu ensaio onde afirma que a fotografia era um engodo, que aquela nova forma nunca seria arte. Mais tarde, o poeta se arrependeu e voltou atrás em suas declarações e chegou a ser retratado por Félix Nadar.

Em 1861, Baudelaire tentou se eleger à Academia Francesa mas foi fragorosamente derrotado Em 1862, Poulet-Malassis faliu e ele foi implicado na falência, o que piorou sua condição financeira. Seus limites mentais e físicos atingiram o topo. Ele definiu aquele momento como “o vento das asas da imbecilidade que passou por minha vida”. Abandonando a poesia, ele foi fundo na prosa em versos. Uma sequência de 20 de seus trabalhos foi publicada em 1862. Em abril de 1864, ele deixou Paris para se instalar em Bruxelas, onde tentaria persuadir um editor belga a publicar suas obras completas. Lá ficou, amargurado e empobrecido até 1866, quando após um ataque epilético na Igreja de Saint-Loup at Namur, sua vida mudou. Baudelaire teve uma lesão cerebral que lhe ocasionou afasia (perda da capacidade de compreensão e de expressão pela palavra escrita ou pela sinalização, assim como pela fala) e paralisia. O dândi nunca mais se recuperou. Retornou a Paris no dia 2 de julho, onde ficou em uma enfermaria até sua morte. Em 31 de agosto de 1867, aos 46 anos, Charles Baudelaire morreu nos braços de sua mãe.

Quando a morte o visitou, Baudelaire ainda mantinha vários de seus trabalhos não publicados e os que já haviam saído estavam fora de circulação. Mas isto rapidamente mudou. Os líderes do movimento Simbolista compareceram ao seu funeral e já se designavam como seus fiéis seguidores. Menos de 50 anos após a sua morte, Baudelaire ganhou a fama que nunca teve em vida: havia se tornado o maior nome da poesia francesa do século 19.

Conhecido por sua controvérsia e seus textos obscuros, Baudelaire foi o poeta da civilização moderna, onde suas obras parecem clamar pelo século 20 ao invés de seus contemporâneos. Em sua poesia introspectivaele se revelou como um lutador a procura de deus, sem crenças religiosas, procurando em cada manifestação da vida os elementos da verdade, de uma folha de uma árvore ou até mesmo no franzir das sobrancelhas de uma prostituta. Sua recusa em admitir restrições de escolha de temas em sua poesia o coloca num patamar de desbravador de novos caminhos para os rumos da literatura mundial.

Fontes: – Enciclopédia Britannica – Site da Universidade de Londres