Arquivos Mensais: julho \31\UTC 2013

CADÊ O AMARILDO? CADÊ MARIA DO ROSÁRIO? – por paulo timm / torres.rs

CADÊ O AMARILDO? CADÊ MARIA DO ROSÁRIO?

                        Paulo Timm – Torres, julho 31 – copyleft

Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado

Tiago: 4. 17

 

Há duas semanas o auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza, brasileiro, morador da Rocinha-RJ, foi “detidoparaaveriguações” e ela Polícia Militar do Estado do Rio e sumiu.Ele não pode estar entre os 3,3 milhões de pessoas que saudaram o Papa. Mas, desde então, por todos os cantos do país, com grande impacto na mídia, todos se indagam:

CADÊ O AMARILDO?

O país está inquieto com o desaparecimento do operário nas mãos de órgãos de Segurança. Parece que voltamos PAULO TIMMaos anos de chumbo da ditadura. Ou, quem sabe, nunca saímos realmente dela? Mais precisamente, quem sabe ela sempre existiu para quem é negro, mulato, pobre e  morador de periferia? Ou gay? Lembro, com emoção do dia em que o General Geisel, Presidente da República, demitiu o Comandante do II Exército, em São Paulo,  Gen. Enardo D´Avila ,depois do episódio das torturas e mortes no DOI-CODI. Foi um momento dramático no processo de redemocratização. O país rumava para o Estado de Direito Democrático e se tinha grandes esperanças em que em breve veríamos o fim das arbitrariedades policiais. Com a Nova República em 1985 e com a Constituição de 1988 houve avanços: Os líderes de movimentos políticos e sociais são mais respeitados, apesar da criminalização de manifestações desde o Governo FHC. Mas a truculência nunca arrefeceu. Os métodos, a filosofia de atuação dos órgãos de segurança e a ação da Polícia continuam os mesmos quando tratam com pessoas simples do povo e mesmo com eventuais delinqüentes ou condenados ou simplesmente membros de uma minoria discriminada. No fundo, a questão social ainda é tratada, apesar dos afagos de um governo federal de inspiração popular em suas origens, como caso de Polícia, tal como na Velha República ou no Império. Ou na ditadura. Isso tem que mudar! O povo hoje mais esclarecido, mais consciente de seus direitos já não suporta este tipo de Política e de Polícia. Metade dos eleitores brasileiros já têm secundário ou superior completo, nas grandes metrópoles todos têm acesso à INTERNET e Redes Sociais, um terço dos municípios brasileiros, segundo IDHM recém publicado pelo IPEA/PNUD, é  alto e comparável ao de países desenvolvidos, nossa vida média também é comparável à deles, 73 anos. Estamos vivendo mais, sabendo das coisas e de olhos e ouvidos muito abertos. Por isso queremos saber:

CADÊ O AMARILDO?

Chega a ser comovente, ver e ouvir familiares de sua família dizendo que não querem proteção governamental. Querem é saber do Amarildo. Até porque se dizem protegidos pela comunidade. Que coisa impressionante! Sentem-se protegidos pela comunidade. Então, existe comunidade na Rocinha. E existe consciência e solidariedade na favela. A favela é humana…Isso, acima de tudo, é lindo! Isso é o verdadeiro Brasil! Não o mundo artificial dos Políticos e outras autoridades públicas deste país que continuam a achar que seus cargos lhes conferem privilégios de Príncipes: salários altíssimos, assessorias incontáveis, mordomias, conluios altamente sospechosos  com interesses privados como se vivêssemos nas cortes absolutistas. Pior: eternização na vida pública tansformando de instrumento da sociedade em meio de vida pessoal.

Aí vem o Governador Cabral,  tocado pelas palavras do Papa e pede perdão pelos pecados cometidos. Reconhece que foi soberbo e prepotente.  Agora vai ouvir as ruas: O Museu do Indio será preservado, ao lado do Maracanã. As passagens de ônibus não aumentarão. Eotras cositas más…Tocante! Mas tragicômico. Teve que ter o menor reconhecimento público (12%) e submeter o Brasil aos vexames dos desencontros na vinda do  Papa Francisco para se dar conta de que havia “ algo de podre no Reino da Dinamarca”. A ele meu  veredicto:

                                               FORA CABRAL!

Mas ao longo de todas as manifestações de junho e julho, me ocorre outra indagação:

CADÊ A MARIA DO ROSÁRIO, Ministra dos Direitos Humanos?

A diligente Ministra, tão ciosa de suas responsabilidades na Comissão da Verdade parece achar que os atentados à pessoa humana só aconteceram na ditadura. Será que ela não sabe que não há Governo sem crime? Particularmente em sociedades com elevado passivo social e evidente histórico de violência policial? A OAB e Defensorias Públicas do Rio e São Paulo, até de outras cidades que também têm visto manifestações de rua, não arrefeceram em seu ofício de proteger a cidadania. Mas jamais vi ao lado deles a Ministra. Nem lhe ouvi uma só palavra sobre os exageros do Estado contra manifestantes ou mesmo contra  meros transeuntes, vítimas de balas de borracha e gases  intoxicantes. Isso se chama omissão. A mesma omissão do antigo comandante do II Exército, à época dos generais, que o levou ao desterro:

É evidente que estamos falando de omissão, que nada mais é do que nos silenciar diante de determinadas coisas, ficarmos mudos diante de fatos onde deveríamos nos posicionar, deixar de lado aquilo que não poderia ser deixado.

(O pecado da omissão – http://www.palavrafiel.com.br/?p=3865)

 

Ora direis ouvir estrelas, responderão alguns. Isso é pura poesia teológica. Recorro, então, ao dicionário e ele é ainda mais contundente:

Omissão, no direito, é a conduta pela qual uma pessoa não faz algo a que seria obrigada ou para o que teria condições.

Deduzo, pois, que Maria do Rosário foi e continua sendo OMISSA diante do que vem ocorrendo no país e, principalmente, diante do desaparecimento de Amarildo. Ela deveria ser sempre a primeira voz em defesa dos Direitos Humanos ameaçados. E a primeira a exigir providências, na forma da Lei. Se não o fez e não faz, cabe à Presidente Dilma a responsabilidade de chamá-la ao Ofício. Enquanto isto, nos continuaremos gritando, a plenos pulmões:

                               C A D Ê   O   A M A R I L D O?

E lamentando o fato de que uma área tão delicada quanto Direitos Humanos tenha sido entregue, não a uma lutadora ou  lutador eméritos desta nobre causa, como é Perez Esquivel, como é Paulo Sérgio Pinheiro, como é José Gregori, como foi Dom Paulo Evaristo Arns,  mas a uma militante partidária,  eventualmente respeitável  mas sem vulto, nem desenvoltura  na área. Muito menos independência.  Decididamente, Dilma está só. Muito só!

Senhor, rogai por ela! Por Amarildo! Por todos nós..!!!

PAPA FRANCISCO SOBRE OS “GAYS”

“Se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para julgá-lo?”, diz papa

Foto: ABr

As declarações sobre homossexualidade foram em resposta a recentes revelações de que um assessor próximo seria homossexual e a uma frase atribuída a ele no início de junho, de que havia um “lobby gay” no Vaticano | Foto: ABr

 

A Igreja não pode julgar os gays por sua opção sexual e nem marginalizá-los. A afirmação é do papa Francisco e pode ser considerada a mais ousada declaração de um pontífice sobre homossexualidade. “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu pra julgá-lo”, declarou. “O catecismo da Igreja explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser marginalizados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade”, acrescentou.

As declarações foram dadas em uma entrevista concedida pelo papa aos jornalistas que o acompanharam no avião. As manifestações do papa sobre homossexualidade foram em resposta a recentes revelações de que um assessor próximo seria homossexual e a uma frase atribuída a ele no início de junho, de que havia um “lobby gay” no Vaticano. De acordo com o ele, o problema não é ser gay, mas o lobby em geral.

“Vocês vêm muita coisa escrita sobre o “lobby gay”. Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com um cartão de identidade dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que, quando alguém se encontra com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay de formar um lobby gay, porque nem todos os lobbies são bons. Isso é o que é ruim.”

“O problema não é ter essa tendência [gay]. Devemos ser como irmãos. O problema é o lobby dessa tendência, da tendência de pessoas gananciosas: lobby político, de maçons, tantos lobbies. Esse é o pior problema.”

Francisco também afirmou que, para ele, abusos sexuais contra menores por parte de religiosos não são apenas pecados, mas crimes que devem ser julgados.

Mas se a posição sobre os gays e sobre o abuso sexual pode representar uma mudança, Francisco deixa claro que não haverá uma nova opinião do Vaticano sobre a presença das mulheres na Igreja, sobre o aborto ou sobre o casamento homossexual.

O papa aproveitou a conversa para anunciar que vai exigir transparência e honestidade no Vaticano e garantiu que sua reforma vai continuar. “Esses escândalos fazem muito mal”, disse.

Antes de responder às perguntas, ele elogiou o “grande coração dos brasileiros”, disse que a viagem “fez bem para sua espiritualidade” e ainda disse que a organização do evento foi excelente. “Parecia um cronômetro”.

Com informações da Folha e do Estadão

Jornada Internacional da juventude: celebração e compromisso – por leonardo boff /são paulo.sp

Jornada Internacional da juventude: celebração e compromisso

28/07/2013

No pensamento social e filosófico a questão da  fé não está em alta. Antes pelo contrário, a maioria dos pensadores tributários dos mestres da LEONARDO BOFFsuspeita e filhos da modernidade, colocam a fé sob suspeita, considerada como pensamento arcaico e mítico ou como cosmovisão do povo supersticioso e falto de conhecimento, na contramão do saber científico.

Como quer que interpretemos a fé, o fato é que ela está ai e mobiliza milhões de jovens vindos de todo mundo para a Jornada Mundial da Juventude, além de outros milhares que acorreram para ver o novo Papa Francisco. Suspeito que nenhuma ideologia, causa ou outro tipo de líder que não religioso consiga trazer para as ruas tão numerosa multidão. Pode-se dizer, responsavelmente, que ai vigora alienação e arcaismo?

Tal fato nos leva a refletir sobre a relevância da fé na vida das pessoas. O conhecdido sociólogo Peter Berger mostrou em seu Rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural (1969) a falácia da secularização que pretendeu ter banido do espaço social a religião e o sagrado. Ambos ganharam novas formas mas estiveram sempre ai presentes, porque estão enraizados profundamente nas damandas fundamentais da vida humana.

Imaginar que um dia o ser humano abandone totalmente a fé é tão inverossímil quanto esperar que nós para não ingerirmos alimentos quimicalizados ou transgênicos deixemos uma vez por todas de comer. Quero abordar a fé em seu sentido mais comezinho, para aquém das doutrinas, dogmas e religiões, pois ai aparece em sua densidade humana.

Há um dado pre-reflexo que subjaz à existência de fé: a confiança na bondade fundamental da vida. Por mais absurdos que haja e os há quase em demasia, o ser humano crê que vale mais a pena viver do que morrer. Dou um simples exemplo: a criança acorda sobressaltada em plena noite; grita pela mãe  porque o pesadelo e a escuridão a encheram de medo. A mãe toma-a no colo, no gesto da magna mater, enche-a de carinho e lhe diz: “querida, não tenhas medo; está tudo bem, está tudo em ordem”. A criança, entre soluços, reconquista a confiança e dentro de pouco, adormece tranquila. Estará a mãe enganando a criança? Pois nem tudo está bem. E contudo sentimos que a mãe não mente à criança. Apesar das contradições, há uma confiança de que uma ordem básica perpassa a realidade. Esta  impede que o absurdo tenha a primazia.

Crer é dizer:”sim e amém” à realidade. O filósofo L. Wittgenstein podia dizer em seu Tractatus logico-philosophicus: “Crer é afirmar que a vida tem sentido”. Este é o significado bíblico para fé –he’emin ou amam – que quer dizer: estar seguro e confiante. Daí vem o “amém” que significa:“é isso mesmo”. Ter fé é estar seguro no sentido da vida.

Essa fé é um dado antropológico de base. Nem pensamos nele, porque vivemos dentro dele: vale a pena viver e sacrificar-se para realizar um sentido que valha a pena.

Dizer que este sentido da vida é Deus é o discurso das religiões. Esse sentido pervade a pessoa, a sociedade e o universo, não obstante nossas infindáveis interrogações. Escreveu  o Papa Francisco na encíclica Lumen Fidei:”A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas mas é uma lâmpada que guia nossos passos na noite e isto basta para o caminho”.

Dizer que esse sentido, Deus, se acercou de nós e que assumiu nossa carne quente e mortal em Jesus de Nazaré é a leitura da fé cristã. Em nome desta fé em Jesus morto e ressuscitado, se reuniram esses milhares de jovens e acorreram mais de dois milhões de pessoas em Copacabana.

Entre outros traços do carisma do Papa Francisco é sua fé cristalina que o torna tão despojado, sem medo (o que se opõe à fé não é o ateismo mas o medo) que busca proximidade com as pessoas especialmente com os pobres. Ele inspira o que é próprio da fé: a confiança e o sentimento de segurança. É o arquétipo do pai bom que  mostra direção e confiança.

Fez uma conclamação importante, verdadeira lição para muitos movimentos no Brasil: a fé tem que ter os olhos abertos para as chagas dos pobres, estar perto deles e as mãos operosas para erradicar as causas que produzem esta pobreza.

Na Jornada houve belíssimas celebrações e canções cujo tom era de piedade. Entretanto, não se escutaram as belas canções engajadas das milhares comunidades de base. Não se ouviram também  suas belas canções que falam do clamor das vítimas, dos indígenas e camponeses assassinados e do martírio da  Irmã Dorothy Stang e do Padre Josimo. O Papa Francisco enfatizou uma evangelização que se acerca do povo, na simplicidade e na pobreza. Repetiu muito:”não tenham medo”. O empenho pela justiça social cria conflitos, vítimas e suscita medo, que deve ser vencido pela fé.

Voltemos ao tema da fé humana. Quantos são aqueles que se apresentam como ateus e agnósticos e no entanto possuem essa fé como afirmação do sentido da vida e se empenham para que seja justa e solidária. Talvez não a confessam em termos de Deus e de Jesus Cristo. Não importa. Pois a base subjacente a esta fé em Deus e Cristo está lá presente sem ser dita.

Esta fé básica impõe limites à pós-modernidade vulgar que se desinteressa por uma humanidade melhor e que não tem compromisso com a solidariedade pelo destino trágico dos sofredores. Outros, vendo o fervor da fé dos jovens e a comoção até às lágrimas sentem talvez saudades da fé da infância. E ai podem surgir impulsos que os animam a viver a fé humana fundamental e quem sabe se abrem até à fé num Deus e em Jesus Cristo. É um dom. Mas o dom de uma  conquista. E então um sentido maior se abre para uma vida mais feliz.

HUMILDADE E ALTIVEZ DE DESERTOS – por zuleika dos reis / são paulo.sp

 

                             HUMILDADE E ALTIVEZ DE DESERTOS

                                                                                                 Zuleika dos Reis

 

 

 

Deixai-me, ainda, dizer nesta manhã,

desde o ventre da incomensurável cidade a devorar os filhos

na secura de edifício sem nome

sem biografia

sem história

desde o mais fundo dos ermos

desde a raiz das árvores  secas de inverno

árvores secas em secas alamedas de inverno

desde o fundo da alma em inverno

alma sem sonhos  nem esperanças quaisquer  de outros ciclos

 

 

deixai-me dizer

mais do que dizer, deixai-me  sentir, ainda,

algo, ainda, da humildade e da altivez dos desertos .

 

 

Não de um deserto real

de deserto inventado por sonho

que no universo de mundos pós-tudo

 

 

de almas pós-tudo

de tempos pós-tudo

não mais sequer desertos,  senão em sonhos inventados,

mas o meu, já que nem mais sonhos inventados  consigo,

será deserto meramente pensado

 

 

pensado

areal sem fim e sem começos

sem termos de acordo

sem oásis

ou melhor

 – para quebrar a onipotência das areias infindáveis –

com alguns pequenos e outros grandes oásis de pedras

oásis de pedras reluzentes

de altíssima chama

de duríssimos arco-íris

como nenhuns  outros

pedras como nenhumas outras

onde os pés descansem, fundo,

de todos os repousos

onde o sangue a jorrar

complete o cenário.

 

 

 

 

Altivos e humildes e sangrentos pés

deserto altivo, orgulhoso do seu areal sem fim

e de seus oásis de arco-íris pontiagudos

e de pedras redondamente  a espraiar outros tesouros de ninguém

deserto  a ofertar-se

a este pensamento quase delírio no início da tarde 

deserto-oráculo

amplo e sem muros como um deus  criado

amplo e sem muros.

Um deus criado no tempo deste poema, também ampla voz de nadas.

 

 

Um deus criado neste instante.

 

 

Deserto sem tendas

beduínos

camelos

sem o que quer que seja que configure em algum lugar para alguém deserto plausível

deserto anterior a si mesmo

como se não fora

deserto projetado para alívio

só no exato tempo e espaço desta escrita

que é mesmo uma coisa nenhuma.

 

 

Deserto altivo

deserto humilde

vento a espalhar areias e pedras pelo mundo e por não mundos

 

 

ofuscante céu de quase meio-dia a cegar as palavras

céu de obscuro verão vindo de teu hemisfério, deserto  pensado,

para cegar também cada um dos silêncios.

 

 

Deserto altivo e humilde

janelas de prédios que olham este instante no inverno

sem ver nada e ninguém

 

 

árvores de hirtos galhos

cruzes cegas na ainda manhã

cegas penitentes imóveis

cegas imóveis penitentes erguidas diante do seu deus. 

Diante do seu deus.

 

 

 

 

Poema escrito em 17 de julho de 2013.

PRESENÇA DO PAPA – por paulo timm / torres.rs

PRESENÇA DO PAPA
Paulo Timm – Torres 23 julho – copyleft
Francisco I , Papa há apenas quatro meses, chegou ao Brasil numa mensagem de grande otimismo à juventude.  Seu estilo parece ter agradado: simplicidade. Nas palavras, nos gestos, nos aparatos. Nada de ostentação, o que cai como uma luva na conjuntura nacional, mobilizada precisamente em torno de uma mudança na cultura política do país. PAULO TIMMNisso, Francisco I  tem tudo para se consagrar como um ídolo carismático. Ídolos dificilmente são homens ou mulheres sofisticados, de grande erudição. As grandes massas preferem, sempre, alguém que se confunda com ela e que expresse uma mensagem singela, mais de sentimentos que falam ao coração do que fortes argumentos sustentados pela razão. Cristo mesmo, tinha esse perfil, mas isto ocorre em outros campos da vida social. O ídolo é uma espécie de herói,  sem se deixar envolver pelo excesso de familiaridade, marcado com o carisma como uma espécie de graça divina.
O herói é sempre – ele também – um mediano dotado de superpoderes. É a aplicação (ou o sinal da Graça) do arquétipo do herói a uma pessoa dotada de misteriosas fluxos e comunicações empáticas.
Pela leitura ideológica, o estrelato é uma apropriação pelo sistema produtor das qualidades empáticas e de certos dons gratuitos de atores tomados pela magia do estrelato. Pela leitura psicológica o estrelato é uma relação profunda entre pessoas com um “self” extrovertido capaz de simbolizar valores patentes, latentes , ou jacentes no público. São seres marcados por alguma forma particular de Graça, identificados com o mistério e o sagrado. Daí o carisma, marca peculiar, “graça extraordinária concedido pelo Espírito Santos” segundo a definição do cristianismo
                                                          Arthur da Távola – Talento e Carisma
O Papa Francisco reúne todas essas características. É um homem sem grandes mistérios, de origem definida, de prática sacerdotal  aparentemente inatacável. A tentativa de intrigá-lo com as esquerdas latinoamericanas, em razão de uma suposta omissão durante o regime militar na Argentina, não se confirmaram. Perez Esquive, Nobel da Paz, foi o primeiro a sair em defesa do Papa. Se porventura ele não foi um combatente, nem mesmo resistente como “ As Mães da Praça de Maio, tampouco foi colaborador dos militares. E está se saindo bem nos primeiros pronunciamentos no Brasil :–“ Não trouxe ouro nem prata. Trago Jesus Cristo”. Palavras óbvias, mas, por isso mesmo oportunas e convenientes. O Brasil vive um momento delicado e exige cuidados. Ele demonstra que os tem.  Parece até ter escutado aquele famoso conselho de Jung que recomendava sempre à alma que fala lembrar-se de que falava à outra alma humana. De resto, chega ao Brasil numa nova Era da própria Igreja, já muito distante dos Poderes terrenos e mais aberta  ao diálogo com ideologias de forte caráter social. Não por acaso, registrou a imprensa a afinidade do discurso de Dilma Roussef  com os ideais cristãos, malgrado  o pequeno deslize da sua referência exclusiva à década  petista da inclusão social.
Ao mesmo tempo, estamos recebendo um Papa diplomático. Diante de um discurso meio desleal da presidente Dilma Rousseff, que aproveitou o momento para promover os dez anos de trabalho do PT, o Papa argentino ofereceu uma fala moderada, de extrema simpatia, sem abrir o seu estoque de críticas à sociedade moderna, que cria e abandona excluídos.
Teremos mais seis dias de programação, pelo visto com o mesmo nível de risco na circulação do ilustre visitante, que imagina estar seguro no Brasil, mesmo sendo o Rio de Janeiro uma cidade minada pelo crime organizado e por manifestações a cada momento mais violentas.
Seja o que for, realmente, o primeiro dia do Papa deixou para o mundo uma imagem de um Brasil humano, alegre e até seguro. Rezemos para que permaneça assim.
                              (Jorn. Renato Riella – BSB – FB)
Bem Vindo, pois  Francisco! Que suas palavras alimentem este momento de renovação e esperanças do Brasil!

BOAS-VINDAS AO PAPA CHICO: Frei Betto

BOAS-VINDAS AO PAPA CHICO

18/07/2013

Frei Betto é um dos religiosos (é dominicano) mais comprometidos com as transformações no Brasil. Acompanha os movimentos sociais de base especialmente as Comunidades Eclesiais de Base. Teve o mérito de ter sido um dos implantadores do projeto inicial do LEONARDO BOFFGoverno Lula da Fome Zero acompanhada do projeto Talher dedicado à educação. Junto do pão deveria chegar tambem a instrução. Foi prisioneiro político por 4 anos e escreveu o belíssimo livro Batismo de Sangue, transformado em filme. Essa saudação expressa o sentimento de muitos cristãos comprometidos, especialmente jovens.

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Querido papa Francisco, o povo brasileiro o espera de braços e coração abertos. Graças à sua eleição, o papado adquire agora um rosto mais alegre.

O senhor incutiu em todos nós renovadas esperanças na Igreja Católica ao tomar atitudes mais próximas ao Evangelho de Jesus que às rubricas monárquicas predominantes no Vaticano: uma vez eleito, retornou pessoalmente ao hotel de três estrelas em que se hospedara em Roma, para pagar a conta; no Vaticano, decidiu morar na Casa Santa Marta, alojamento de hóspedes, e não na residência pontifícia, quase um palácio principesco; almoça no refeitório dos funcionários e não admite lugar marcado, variando de mesa e companhias a cada dia; mandou prender o padre diretor do banco do Vaticano, envolvido em falcatrua de 20 milhões de euros.

Em Lampedusa, onde aportam os imigrantes africanos que sobrevivem à travessia marítima (na qual já morreram 20 mil pessoas) e buscam melhores condições de vida na Europa, o senhor criticou a “globalização da indiferença” e aqueles que, no anonimato, movem os índices econômicos e financeiros, condenando multidões ao desemprego e à miséria.

Um Brasil diferente o espera. Como se Deus, para abrilhantar ainda mais a Jornada Mundial da Juventude, tivesse mobilizado os nossos jovens que, nas últimas semanas, inundam nossas ruas, expressando sonhos e reivindicações. Sobretudo, a esperança em um Brasil e um mundo melhores.

É fato que nossas autoridades eclesiásticas e civis não tiveram o cuidado de deixá-lo mais tempo com os jovens. Segundo a programação oficial, o senhor terá mais encontros com aqueles que ora nos governam ou dirigem a Igreja no Brasil do que com aqueles que são alvos e protagonistas dessa jornada.

Enquanto nosso povo vive um momento de democracia direta nas ruas, os organizadores de sua visita cuidam de aprisioná-lo em palácios e salões. Assim como seus discursos sofrem, agora, modificações em Roma para estarem mais afinados com o clamor da juventude brasileira, tomara que o senhor altere aqui o programa que lhe prepararam e dedique mais tempo ao diálogo com os jovens.

Não faz sentido, por exemplo, o senhor benzer, na prefeitura do Rio, as bandeiras dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. São eventos esportivos acima de toda diversidade religiosa, cultural, étnica, nacional e política.

Por que o chefe da Igreja Católica fazer esse gesto simbólico de abençoar bandeiras de dois eventos que nada têm de religioso, embora contenham valores evangélicos por zerar divergências entre nações e promover a paz? Talvez seja o único momento em que atletas da Coreia do Norte e dos EUA se confraternizarão.

Como nos sentiríamos se elas fossem abençoadas por um rabino ou uma autoridade religiosa muçulmana?

Nos pronunciamentos que fará no Brasil, o senhor deixará claro a que veio. Ao ser eleito e proclamado, declarou à multidão reunida na Praça de São Pedro, em Roma, que os cardeais foram buscar um pontífice “no fim do mundo.”

Tomara que o seu pontificado represente também o início de um novo tempo para a Igreja Católica, livre do moralismo, do clericalismo, da desconfiança frente à pós-modernidade.  Uma Igreja que ponha fim ao celibato obrigatório, à proibição de uso de preservativos, à exclusão da mulher do acesso ao sacerdócio.

Igreja que reincorpore os padres casados ao ministério sacerdotal, dialogue sem arrogância com as diferentes tradições religiosas, abra-se aos avanços da ciência, assuma o seu papel profético de, em nome de Jesus, denunciar as causas da miséria, das desigualdades sociais, dos fluxos migratórios, da devastação da natureza.

Os jovens esperam da Igreja uma comunidade alegre, despojada, sem luxos e ostentações, capaz de refletir a face do Jovem de Nazaré, e na qual o amor encontre sempre a sua morada.

Bem-vindo ao Brasil, papa Chico! Se os argentinos merecidamente se orgulham de ter um patrício como sucessor de Pedro, saiba que aqui todos nos contentamos em saber que Deus é brasileiro!

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

A MORTE – de santo agostinho

A MORTE      –    de   santo agostinho

 

 

 

A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.

(Santo Agostinho)

Os jovens, dedos rápidos nos celulares, tomaram as ruas ao redor do mundo. – luis inácio LULA da silva / são paulo.sp

TEXTO DE LULA no “New York Times” on line

Os jovens, dedos rápidos nos celulares, tomaram as ruas ao redor do mundo.

 

Seria mais fácil explicar esses protestos quando ocorrem em países não-democráticos, como no Egito e na Tunísia em 2011, ou em países onde a crise econômica aumentou o número de jovens e trabalhadores desempregados a níveis assustadores, como na Espanha e na Grécia, do que quando surgem em países com governos democráticos populares – como o Brasil, onde nos beneficiamos atualmente de uma das mais baixas taxas de desemprego de nossa História e uma expansão sem paralelo dos direitos econômicos e sociais.
?????????Muitos analistas atribuem os protestos recentes a uma rejeição da política. Eu acho que é precisamente o oposto: eles apontam no sentido de ampliar o alcance da democracia e incentivar as pessoas a tomar parte mais plenamente (da democracia).
Eu só posso falar com autoridade sobre o meu país, Brasil, onde eu acho que as manifestações são em grande parte o resultado de sucessos sociais, econômicos e políticos. Na última década, o Brasil duplicou o número de estudantes universitários, muitos vindos de famílias pobres. Nós reduzimos fortemente a pobreza e a desigualdade. Estas são conquistas importantes; no entanto, é perfeitamente natural que os jovens, especialmente aqueles que obtiveram o que seus pais nunca tiveram, desejem mais.
Esses jovens não viveram a repressão da ditadura militar de 1960 e 1970. Eles não viveram a inflação da década de 1980, quando a primeira coisa que fazíamos quando recebíamos o nosso contracheques era correr para o supermercado e comprar o que fosse possível, antes que os preços subissem novamente no dia seguinte. Eles se lembram muito pouco da década de 1990, quando estagnação e o desemprego deprimiam nosso país. Eles querem mais.
É compreensível que seja assim. Eles querem serviços públicos de melhor qualidade. Milhões de brasileiros, incluindo os da classe média emergente, compraram seu primeiro carro e começaram a viajar de avião. Agora, o transporte público tem que ser eficiente, para tornar a vida nas grandes cidades menos difícil.
As preocupações dos jovens não são apenas materiais. Eles querem mais acesso ao lazer e a atividades culturais. Acima de tudo, eles exigem instituições políticas mais limpas e mais transparentes, sem as distorções do sistema político e eleitoral anacrônico do Brasil, que, recentemente, se mostraram incapazes de se reformar. Não se pode negar a legitimidade dessas demandas, mesmo que seja impossível alcançá-las rapidamente. É necessário, primeiro, encontrar fundos, fixar objetivos e estabelecer prazos.
Democracia não faz acordo com o silencio. Uma sociedade democrática está sempre em fluxo, a debater e definir prioridades e desafios, em constante busca de novas conquistas. Só numa democracia um índio poderia ser eleito presidente da Bolívia, um afro-americano ser eleito presidente dos Estados Unidos. Só numa democracia, pela primeira vez, um metalúrgico e, em seguida, uma mulher poderiam ser eleitos presidente do Brasil.
A História mostra que, quando os partidos políticos são silenciados e as soluções são impostas pela força, os resultados são desastrosos: guerras, ditaduras e a perseguição das minorias. Sem partidos políticos não pode haver nenhuma democracia verdadeira. Mas as pessoas não desejam simplesmente votar a cada quatro anos. Elas querem interação diária com os governos locais e nacionais, e participar da definição de políticas públicas, oferecer opiniões sobre as decisões que as afetam no dia a dia.
Em resumo, elas querem ser ouvidas. Isso é um enorme desafio para os líderes políticos. Isso requer melhores formas de participação, através dos meios de comunicação social, no local de trabalho e nas universidades, para reforçar a interação com trabalhadores e líderes comunitários, mas, também, com os chamados setores desorganizadas, cujos desejos e necessidades não devem ser menos respeitados porque não tem organização.
Diz-se, e com razão, que a sociedade entrou na era digital e a política permaneceu analógica. Se as instituições democráticas utilizassem as novas tecnologias de comunicação como instrumento de diálogo e não, apenas, para propaganda, elas passariam a respirar ar mais fresco. E com isso estariam mais em sintonia com toda a sociedade.
Mesmo o Partido dos Trabalhadores, que eu ajudei a fundar, e que tem contribuído para modernizar e democratizar a política no Brasil, precisa aprofundar a renovação. Precisa recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para novos problemas, e fazer as duas coisas sem tratar os jovens paternalisticamente.
A boa notícia é que os jovens não são conformistas, apáticos ou indiferentes à vida pública. Mesmo aqueles que pensam odiar a política estão começando a participar. Quando eu tinha a idade deles, eu nunca imaginei que iria me tornar um militante político. No entanto, criamos um partido político quando descobrimos que o Congresso Nacional praticamente não tinha representantes da classe trabalhadora. Através da política conseguimos restaurar a democracia, consolidar a estabilidade econômica e criar milhões de empregos.
Claramente ainda há muito a fazer. É uma boa notícia que os nossos os jovens queiram lutar para que a mudança social siga em um ritmo mais intenso.
A outra boa notícia é que o presidenta Dilma Rousseff propôs um plebiscito para promover as reformas políticas tão necessárias. Ela também propôs um compromisso nacional para a Educação, a Saúde e o Transporte Público, em que o Governo Federal dará apoio financeiro e técnico substancial a Estados e Municípios.
Quando falo com jovens líderes no Brasil e em outros lugares eu gosto de dizer: mesmo se você perder a esperança em tudo e em todos, não dê as costas à Política. Participe! Se você não encontrar nos outros o político que você procura, você pode encontrá-lo ou encontrá-la em você mesmo.

Luis Inácio Lula da Silva foi presidente do Brasil e agora trabalha em iniciativas globais, no Instituto Lula.

(Tradução de Murilo Silva e Paulo Henrique Amorim)

Equívocos conceptuais no governo do PT – por leonardo boff / sxão paulo.sp

Equívocos conceptuais no governo do PT

           Estimo que parte das razões que levaram multidões às ruas no mes de junho tem sua origem nos equívocos conceptuais presentes nas políticas públicas do governo do PT. Não conseguindo se desvenciliar das amarras do sistema neoliberal imperante no mundo e LEONARDO BOFFinternalizado, sob pressão, em nosso pais, os governos do PT tiveram que conceder imensos benefícios aos rentistas nacionais para sustentar a política econômica e ainda realizar alguma distribuição de renda, via políticas sociais, aos milhões de filhos  da pobreza.

 

Atlas da exclusão social – os ricos no Brasil(Cortez, 2004) embora seja de alguns anos atrás, mantem sua validade, como o mostrou o pesquisador Marcio Pochmann (O pais dos desiguais,Le Monde Diplomatique, outubro 2007). Passando por todos os ciclos econômicos, o nível de concentração de riqueza, até a financeirização atual, se manteve praticamente inalterado. São 5 mil famílias extensas que detem 45% da renda e da riqueza nacionais. São elas, via  bancos, que emprestam ao governo; segundo os dados de 2013, recebem anualmente 110 bilhões de reais em juros. Para os projetos sociais (bolsa família e outros)  são destinados apenas  cerca de 50 bilhões. São os restos para os considerados o resto.

 

Em razão desta perversa distribuição de renda, comparecemos como um dos países mais desiguais do mundo. Vale dizer, como um dos mais injustos, o que torna nossa democracia extremamente frágil e quase farsesca. O que sustenta a democracia é a igualdade, a equidade e a desmontagem dos privilégios.

 

No Brasil se fez até agora apenas distribuição desigual de renda, mesmo nos governos do PT. Quer dizer, não se mexeu na estrutura da concentração da renda. O que precisamos, urgentemente, se quisermos mudar a face social do Brasil, é introduzir uma redistribuição que implica mexer nos mecanismos de  apropriação de renda. Concretamente significa: tirar de quem  tem demais e repassar para quem tem de menos. Ora, isso nunca foi feito. Os detentores do ter, do poder, do saber e da comunicação social conseguiram sempre impedir esta revolução básica, sem a qual manteremos indefinidamente  vastas porções da população à margem das conquistas modernas. O sistema politico acaba servindo a  seus interesses. Por isso, em seu tempo, repetia com frequência Darcy Ribeiro que nós temos uma das elites mais opulentas, antisociais e conservadoras do mundo.

 

Os grandes projetos governamentais destinam porções significativas do orçamento para os projetos que as beneficiam e as enriquecem ainda mais: estradas, hidrelétricas, portos, aeroportos, incentivos fiscais, empréstimos com juros irrisórios do BNDES. A isso se chama crescimento econômico, medido pelo PIB que deve se equacionar com a inflação, com as taxas de juros e o câmbio. Priviligia-se o agronegócio exportador que traz dólares à agroecologia, à economia familiar e solidária que produzem 60% daquilo que comemos.

 

O que as multidões da rua estão reclamando é: desenvolvimento em primeiro lugar e a seu serviço o crescimento  (PIB). Crescimento é material. Desenvolvimento é humano. Signfica mais educação, mais hospitais de qualidade, mais saneamento básico, melhor transporte coletivo, mais segurança, mais acesso à cultura e ao lazer. Em outras palavras: mais condições de viver minimamente feliz, como humanos e cidadãos e não como meros consumidores passivos de bens postos no mercado.  Em vez de grandes estádios cujas entradas aos jogos são em grande parte proibitivas para o povo, mais hospitais, mais escolas, mais centros técnicos, mais cultura, mais inserção no mundo digital da comunicação.

 

O crescimento deve ser orientado para o desenvolvimento  humano e social. Se não se alinhar a esta lógica, o governo se vê condenado a ser mais o gestor dos negócios do que  o cuidador da vida de seu povo, das condições de sua alegria de viver e de sua admirada criatividade cultural.

 

As ruas estão gritando por um Brasil de gente e não de negócios e de negociatas; por uma sociedade menos malvada devido às desigualdades gritantes; por relações sociais transparentes e menos escusas que escondem a praga da corrupção; por uma democracia onde o povo é chamado a discutir e a decidir junto com seus representantes o que é melhor para o país.

 

Os gritos são por humanidade, por dignidade, por respeito ao tempo de vida das pessoas para que não seja gasto em horas perdidas nos péssimos transportes coletivos mas liberado para o convívio  com a família ou para o lazer. Parecem dizer: “recusamos ser apenas animais famintos que gritam por pão; somos humanos, portadores de espírito e de cordialidade que gritamos por beleza; só unindo pão com beleza viveremos em paz, sem violência, com humor e sentido lúdico e encantado da vida”. O governo precisa dar esta virada.

 

Leonardo Boff é autor de Virtudes por um outro mundo possível (3 vol) Vozes 2006.

13/07/2013

Não caiu a ficha – por cristóvam buarque / brasilia.df

http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2013/02/129_1853-cristovam%20-%202.jpgAs surpreendentes mobilizações dos últimos dias podem ser explicadas em dez letras: “caiu a ficha”. Não se sabe exatamente o que levou a ficha a cair neste exato momento, mas todos os ingredientes já estavam dados. A maior surpresa foi a surpresa.

Caiu a ficha de que o Brasil ficou rico sem caminhar para a justiça: chegou a sexta potência econômica, mas continua um dos últimos na ordem da educação mundial. Também caiu a ficha de que sem educação não há futuro, e de que por isso, 13 anos depois de criada, a Bolsa Família continua necessária, sem abolir sua necessidade.

Caiu a ficha de que em 20 anos de governos socialdemocratas e dez anos do PT no poder ampliamos o consumo privado, mas mantivemos a mesma tragédia nos serviços sociais, nos hospitais públicos e nas escolas públicas. Caiu a ficha de que o aumento no número de automóveis em nada melhora o transporte, ao contrário, piora o tempo de deslocamento e endividamento das famílias. Caiu a ficha de que o PIB não está crescendo e se crescesse não melhoraria o bem estar e a qualidade de vida. Caiu a ficha de que no lugar de metrópoles que nos orgulhem temos “monstrópoles” que nos assustam.

Caiu a ficha do repetido sentimento de que a corrupção não apenas é endêmica, ela é aceita; e os corruptos, quando identificados, não são julgados; e se julgados não são presos; e se presos não devolvem o roubo. E de que os políticos no poder desprezam as repetidas manifestações de vontade popular.

Caiu a ficha de que o povo paga a construção de estádios, mas não pode assistir aos jogos. E de que a Copa não vai trazer benefícios na infraestrutura urbana das cidades-sede como foi prometido. Aos que viajam ao exterior, caiu a ficha da péssima qualidade de nossas estradas, aeroportos e transporte público.

Caiu a ficha de que somos um país em guerra civil, onde 100 mil morrem por ano por assassinato direto ou indireto no trânsito.

Caiu a ficha também de que as mobilizações não precisam mais de partidos que organizem, de jornais que anunciem, de carros de som que conduzam, porque o povo tem o poder de se autoconvocar por meio das mídias sociais. A praça hoje é do tamanho da rede de internet, e é possível sair das ruas sem parar as manifestações e voltar a marchar a qualquer momento. Na prática, caiu a ficha de que é fácil fazer guerrilha-cibernética: cada pessoa é capaz de mobilizar milhares de outras de um dia para o outro em qualquer cidade do país.

Mas, entre os dirigentes nacionais ainda não caiu a ficha de que mais de dois milhões de pessoas nas ruas não se contentam com menos do que uma revolução. Mais de dois milhões não param por apenas 20 centavos nas passagens de ônibus. Eles já ouvem as ruas, mas ainda não entendem o idioma da indignação. Nem caiu a ficha de que só manifestações não bastam. É preciso fazer uma revolução na estrutura, nos métodos e nas organizações da política no Brasil: definir como eleger os políticos, como eles agirão, como fiscalizá-los e puni-los.

Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF

Médicos por aí – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Médicos por aí


Amilcar Neves

Vejamos: é preferível, então, deixar o doente morrer do que ser atendido por um médico de formação arbitrariamente entendida como duvidosa?

 

Se um passageiro sofre um infarto do miocárdio em pleno voo, a primeira medida do comandante da aeronave é exigir a presença de algum médico que se encontre a bordo. Qualquer médico, ou um médico de qualquer especialidade, mesmo que seja um ortopedista, por exemplo, ou um alergista. Por suposto, um médico, qualquer que seja sua especialidade, será sempre mais competente para dar o atendimento de emergência que a situação requer do que um contador ou um geólogo. Parece óbvio.

 

Corporativismos à parte – e o corporativismo, como as paixões clubísticas no futebol e os dogmas intocáveis na religião, é praga que nos embota a clareza de raciocínio e a independência de julgamento -, o que levaria alguém a condenar a contratação de médicos para assistir a populações, geralmente pobres, que se veem desamparadas de cuidados básicos (e constitucionais) com a saúde? Qualquer que seja a idade de cada um de nós, todos estamos cansados de ouvir falar, desde a mais tenra infância, da falta crônica de médicos nas pequenas cidades do interior do Brasil. E isto hoje já não tem a ver nem mesmo com remuneração mensal: a partir do Sistema Único de Saúde, municípios de dois mil habitantes oferecem salários de 12, 15 ou 18 mil reais para o profissional, inclusive o recém-formado, que se disponha a deixar o litoral, a capital, a especialização, a balada, o status para atender seres humanos que necessitam do seu conhecimento, muitas vezes adquirido exatamente em universidades públicas e gratuitas, que indiscutivelmente são as que melhores condições de ensino propiciam ao estudante brasileiro.

 

Será feio ou desonroso ganhar feito um vereador, receber num mês, todo mês, o que um professor do ensino fundamental levará um ano para ganhar, e partir para o sacerdócio preconizado no juramento profissional, pomposamente declamado no dia da formatura, algo como Prometo solenemente dedicar a minha vida a serviço da Humanidade?

 

Ninguém é obrigado a ir viver nos cafundós, e muitos médicos efetivamente não querem nem ouvir falar da hipótese. Disto sabemos todos há muito, independente da idade que tenhamos. No entanto, parece preconceituoso afirmar, a priori, que médicos cubanos, bolivianos, paraguaios ou de onde sejam não estão capacitados a atender, no Brasil, gente, seres humanos, com verminose, bicho-do-pé, terçol ou braço quebrado. A priori porque não se pergunta da faculdade (e da sua grade curricular) nem do nome do profissional (e do seu desempenho escolar), mas simplesmente julga-se o médico pela origem nacional da sua formação, como se não houvesse cursos médicos caça-níqueis de baixíssimo nível no Brasil e em países desenvolvidos, como se no Brasil não morressem pessoas devido a erros médicos primários em exames de videocolonoscopia, por exemplo, ou em cirurgias plásticas. Ou como se, nos grandes centros, especialistas de renome em procriação humana não se valessem da sonolência induzida pela anestesia para se aproveitar sexualmente das suas pacientes de alto poder aquisitivo. Bandido não tem nacionalidade predeterminada.

 

Da mesma forma, parece igualmente lamentável e preconceituoso condenar a intenção de trazer médicos estrangeiros para o atendimento de brasileiros necessitados apenas porque a medida parte de um governo democraticamente eleito que não é aquele dos sonhos do crítico de momento.

POEMA SONHADO – ALHO-PORÓ – por jorge lescano / saõ paulo.sp

ALHO-PORÓ

(poema sonhado)

 

Para Maria Aparecida

In memoriam Marguerite Duras

As folhas

finas

as nervuras

a cor

das folhas.

Verde.

Folhas e folhas

de alho-poró.

O talo:

fino

esbranquiçado.

O bulbo:

arredondado

fiapos ásperos

levemente amarelados:

A verdura.

O vento

nas folhas.

O cheiro

trazido pelo vento

nas folhas finas

da verdura.

O cheiro da verdura.

Na cozinha

O alho-poró

nas mãos

da mulher

que amorosamente

condimenta

a sopa da família.

Eis o poema sonhado nesta manhã nórdica de São Paulo. Quis transcrevê-lo como o recuperei na vigília antes que o dia me tomasse a mente. Com certeza mais tarde escreverei sobre as vertentes que reconheço como origem do sonho porque me apraz investigar essa coisa que alguns chamam de inspiração. Agora, no entanto, preferi referi-lo como eu o traduzia para duas ouvintes.

O engraçado do caso é que eu o traduzia do castelhano para duas mulheres bolivianas que poderiam ler o original. Curioso também que elas tivessem essa nacionalidade, pois não tenho contato com ninguém da Bolívia.

Na leitura onírica havia elementos visuais que embora não correspondam à realidade, a enriqueciam. As folhas sonhadas eram mais largas que as do alho-poró e tinham uma variação de cor que ia do verde escuro ao amarelo, esta variação cromática era observada pelos três personagens e devidamente apreciada. Isto tornava a planta, e o poema, mais sutis. Para ilustrar esta qualidade do sonho deveria aproveitar a imagem da folha de outra planta, com outro formato e outra textura.

Há, na gênese deste sonho, circunstâncias familiares e pessoais que o formaram. Estou trabalhando num relato que trata da tradução e por uma situação dolorosa penso constantemente em minha mulher, da qual estou separado há vinte anos, especialmente na hora em que preparo o modesto jantar na minha mansarda.

Três pessoas se apresentaram à memória para a dedicatória. A primeira é a que está estampada, as outras duas por motivos diversos. Uma é poeta e creio que apreciará esta minha incursão no seu quintal. A outra fez o seu doutorado em letras francesas com tese sobre Marguerite Duras, razão pela qual com ela compartilhei a leitura das obras de nossa amada escritora durante um longo período e que certa vez, para “ilustrar” um evento realizado com textos dela, me telefonou pedindo que localizasse uma receita de sopa de alho- poró em um dos seus livros.

Para que o leitor desta nota não fique em suspense digo que esse texto tem o título de A sopa de alhos-porros e se encontra no livro Outside (São Paulo, Difel, 1983).

Partidos de todo o mundo, uni-vos! – por estevão bosco / brasilia.df

As recentes manifestações parecem ter pegado os partidos brasileiros de saia justa. Ninguém esperava por algo tão rápido, tão grande e com reivindicações tão diversificadas. E isso talvez porque muitos dentre nós cresceram num mundo ainda em boa medida pregado no bairro, na cidade, no telefone. O turismo fácil e de longa distância era algo restrito a poucos afortunados, a informação era centralizada nos jornais impressos e televisivos e incluía em sua maioria temas e problemas nacionais. Poucos estrangeiros, produtos e pessoas, faziam parte do dia a dia. A isso correspondiam evidentemente mobilizações locais, que tratavam de problemas locais, que eventualmente e sob alguns aspectos alcançavam a agenda nacional. Tão evidente quanto isso é o fato de que, naquele tempo recente, havia aqueles que compunham as classes dominantes, que conseguiam com mais frequência que as mobilizações populares fazer dos seus interesses problemas da nação. Depois do último regime ditatorial, finalmente conseguimos estabilizar nas instituições políticas a correlação de forças presentes na sociedade e partidos dos mais variados matizes viram a luz.

Partidos da direita então representaram egressos do establishment da ditadura e alguns partidos de esquerda foram fundados e outros ainda puderam sair nas ruas sem ser ameaçados de morte, pretendendo dar voz, no sistema político, aos interesses da maioria: as classes populares. Mais claramente lá nos 80, essa pluralidade de interesses organizada politicamente fez com que os partidos políticos estivessem mais ou menos vinculados a interesses de classes sociais determinadas. Na medida em que os partidos se constituem enquanto meio para disputar a condução do Estado, para que, através dele, interesses determinados possam se realizar, eles são uma instituição e um símbolo da democracia. Por isso, as manifestações recentes incomodaram, e ao que tudo indica incomodaram mais ainda os partidos de esquerda, porque são eles que historicamente representam as massas contra o establishment, representado pelos partidos de direita.

Tenho visto alguns amigos e colegas militantes de partidos de esquerda indignados com o repúdio aos partidos nas manifestações. Para defender a presença dos partidos, alguns dentre eles têm associado ao fascismo o repúdio aos partidos. Historicamente faz sentido, afinal a primeira coisa que agrupamentos fascistas fizeram ao tomar o Estado foi perseguir os partidos. Isso aconteceu em todo lugar onde houve ditadura (Brasil, Chile, Argentina, Itália, Alemanha, França, etc.). Mas o que justificou o repúdio que vimos no começo das manifestações me pareceu ser completamente diferente do que finalmente vimos acontecer. Inicialmente, repudiou-se o partido político pelo fato de que, na disputa pelo poder estatal, ele tem concentrado o poder. Repudiou-se o partido em nome de mais democracia, por uma descentralização do poder, não em nome de uma idéia “unilateralizadora”, como fizeram os fascistas ao longo da história e, nos últimos dias de manifestação, fizeram nas passeatas em São Paulo agrupamentos de direita e extrema-direita. Concordo com os meus colegas que uma manifestação pública deve se abrir para todos, irrestritamente. O problema é que, para muitos “a-partidários”, o partido se tornou a personificação da democracia restrita que temos hoje. Para outros poucos, o problema é a própria democracia, eles são “anti-partidários”.

Isso significa que boa parte do repúdio aos partidos não era anti-democracia; significa que, para a juventude que está aí, a política não está restrita ao sistema político, ela está no transporte urbano, na qualidade de ensino das escolas, no preço do tomate, do feijão, na divisão sexual dos papéis, na vida cotidiana. Como afirma o sociólogo Ulrich Beck, essa política que surge fora do sistema político, que não está dirigida para a conquista do poder estatal, é uma subpolítica e seus atores se organizam em rede e se mobilizam por afinidades plurais, por gostos e problemas específicos. Daí a diversidade de bandeiras e a ausência e até mesmo a recusa de lideranças. Nesse cenário, o sistema político e o partido perdem a primazia sobre o que é político: tudo tende a se tornar político, a educação dos filhos, o que e onde se come ou deixa de comer, a carreira, casar ou não casar, a divisão das tarefas domésticas, ir de carro, de ônibus ou de bicicleta, ter mais parques na cidade, homeopatia ou alopatia etc.; em suma, o estilo de vida se subpolitiza. Ou ainda: a política se generaliza, atravessa os portões do sistema político. Como formula o mesmo sociólogo, isso corresponde a uma democratização cultural da democracia.

A reação dos partidos de esquerda, ao que por enquanto parece, foi desajeitada, mostrou que eles não entenderam o que está acontecendo. Os de direita calaram-se. Ao invés de se preocupar em defender o sistema partidário, que enquanto modelo de representação política só me parece ter sido questionado por uma minoria de extrema direita, seria mais construtivo e necessário que os partidos se esforçassem em descobrir o que está errado no modo de funcionar do partido e do sistema de representação política e forçar a imaginação para construir novos mecanismos de participação nas decisões políticas, dentro do partido, na condução do governo e, sobretudo, no legislativo. E isso nas três esferas de governo.

Os problemas do partido são grandes: a morosidade e a territorialidade dos procedimentos para a tomada de decisão em sua burocracia interna e no sistema político contrastam com a agilidade e desterritorialidade da internet. O que significam protestos de brasileiros em mais de vinte e cinco cidades pelo mundo? Considerando que também há conexões com a primavera árabe, os occupy’s, indignados, etc., me parece que a tendência tanto criticada por alguns colegas de profissão desde os anos 1990, que aponta para o surgimento de uma sociedade civil global, está pouco a pouco assumindo ares mais palpáveis, mais concretos: uma espécie de rede comunicativa global, que tende a não mais se restringir a organismos multilaterais nem ao mercado. Ao que tudo indica, pouco a pouco toma forma uma “globalização vinda de baixo”, que canaliza localmente movimentações globais e que, nesse sentido, vem contracenar com a “globalização vinda de cima”, do mercado e da diplomacia.

Os partidos, de esquerda e de direita, têm de se adaptar a essas novas condições de integração social. Agora é preciso mais reflexão. Como disse a presidente em seu pronunciamento, de meu lado também espero que as três esferas de governo consigam compreender e agir à altura do que está acontecendo: consolidar uma agenda emergencial e positiva, que desengavete, sobretudo no legislativo, projetos importantes para melhorar a saúde, a escola, o transporte e ampliar a participação civil nas decisões políticas. Somente assim, me parece, a distância que separa a agenda do sistema político da agenda subpolítica da sociedade civil poderá ser combatida. Caso contrário, tendemos a pagar, todos, um preço muito alto: a deslegitimação da democracia. Num sentido prático, o apelo “partidos de todo mundo, uni-vos!” se refere à necessidade de uma dupla abertura do partido: para dentro, deve ampliar os mecanismos de participação direta de seus militantes nas decisões e a participação civil na condução do governo e dos mandatos legislativos; e para fora, deve estabelecer uma frente de diálogo sistemático com partidos estrangeiros, de modo que de seus planos de governo locais e nacionais surja uma “cosmo-politização” capaz de fazer face a problemas globais que demandam articulações trans-locais, que vão da necessidade de regulação de um mercado global que incide localmente às mudanças ambientais globais. Em suma, há uma pergunta de fundo aqui: já que o impulso veio das ruas, não seria minimamente razoável o homem de partido pensar que a reforma política deveria ser acompanhada de uma reforma dos partidos?

A COPA DAS CONFEDERAÇÕES É NOSSA! – por paulo timm / torres.rs

A COPA DAS FEDERAÇÕES É NOSSA!

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Trio Irakitan canta “Touradas em Madrid” (1959)

 

O famoso trio canta um grande sucesso carnavalesco, “Touradas em Madrid”, composta por Braguinha (João de Barro). 

Quem pensou que eu  iria escrever sobre futebol, enganou-se… Não entendo nada da matéria. Pouco vejo. Mas jamais perco os jogos da seleção nas Copas, seja a do Mundo , seja a das Confederaçôes. Ontem, como sempre, vi o jogo, preocupei-me ao verificar a precisão do PAULO TIMMtic-tac espanhol mas , afinal, ali vi, no campo do Maracnã, a essência do Brasil: Energia, Criatividade, Incrível capacidade de sobrevivência e …um pouco de sorte.

Assim é o Brasil: um grande enigma ‘a espera de decifração. Como pudemos sair da virada do século XIX para o XX de pouco mais de dez milhões de habitantes para quase 200 milhões um século depois¿ A resposta não é fácil, mas aponta para o que Darci Ribeiro chamava de “ gentidade em fazimento” , um povo que come farinha de pau, ama loucamente e extravasa sua energia no carnaval, no futebol, nas manifestações religiosas e, de tempos em tempos, em manifestações de caráter político. Neste ano, passado o carnaval, estamos vendo a coincidência deste fenômeno: juntou-se a Copa das Confederações, a vinda do Papa e a explosão das ruas. Ninguém sabe, ainda em tudo isto resultará. Uma coisa é certa: O Brasil existe! E começa a apresentar uma fisionomia de crescente participação popular em todos os níveis da sociedade: gays desinibidos pelas ruas, mulheres na Política, ídolos do futebol com consciência, negros nas Universidades e altos cargos da República, trabalhadores em ação, sendo de ressaltar o fato simbólico de que um operário se tornou Presidente da República e um dos principais líderes do país, jovens estudantes mobilizados a ponto de forçar a UNE à visibilidade, blogs em número crescente inovando no campo do jornalismo cidadão, redes sociais em expansão, como lembra o jornalista Aylé Selassiê :

No Brasil,  as redes reúnem  67 milhões de  internautas, mais de 1/3 da população,  perto de 70% dos eleitores,  conforme a Hello Research, (FSP,14.12.2012).

Cerca de 47% dos internautas são pessoas politizadas.

Alvíssaras!

Contudo, para não frustrar os torcedores, transcrevo o comentário de meu amigo brasileiro, Alessandre Galvão, residente em Covilhã, Portugal, onde nos encontramos, todos os anos, nesta época, renovando laços de  amizade e impressões:

Algumas impressões sobre a CofenCup 2013

Alessandre Galvão – Covilhã, Portugal


O Brasil passou a ter um time titular, um modelo de jogo e uma dinâmica de ataque. Pode-se concordar em maior o menor grau, mas pelo menos há alguma coisa. O Brasil 2013 parece mais com o de 1994 de Parreira que com o de 2002 do próprio Felipão. Uma defesa sólida, com um goleiro que já pouca gente acreditava, dois zagueiros no auge e laterais que sobem menos na seleção que nos seus clubes. Dois volantes, um “cão de guarda” (Mauro Silva/Luís Gustavo) e um “chefe” (Dunga/Paulinho). Temos também o meia de transição que faz o trabalho pesado (Mazinho/Oscar) e o atacante reconvertido em marcador, apoio do lateral ou até ponta (Zinho/Hulk). Tudo isso para os da frente poderem brilhar. Isso funcionou em 94 e falhou em 98. Poderá funcionar novamente em 2014? Dependerá de muitos fatores, mas creio que em termos de entrosamento tudo irá melhorar, então prevejo um Brasil mais forte no ano que vem. E será preciso, pois se vimos que a Itália, França, Inglaterra e Espanha (especialmente essa) não são esse bicho papão todo em Terras de Vera Cruz, os perigos maiores são a eterna rival Argentina e a excelente seleção alemã.

MENSAGEM – de manoel de andrade / curitiba.pr

Mensagem

 

                                    Manoel de Andrade

                                           

 

Vós que aguardais a vida no ventre dos  séculos,

vós que sois a gestação da grande raça ainda por vir,

gerações futuras,

hoje é para vós que eu canto

porque hoje nós vivemos num tempo de mártires

granadas desabrochando  velozes

mil panteras famintas rondando nosso ventre

punhais atiçados em todos os punhos.

 

Homens do  futuro

é para vós minha esperança

minha certeza ardente

as rosas rubras dos meus lábios.

Vós que sois as  uvas

e o pão da justiça em nossos sonhos calcinados.

Vós que vireis para justificar o nosso  sangue

e a nossa dor.

 

Vai meu verso, vai…

porque hoje é triste demais cantar nas trevas

cantar com os gritos do meu povo

com o murmúrio dos oprimidos…

e com minha fala feita em prantos,

feita de pássaros torturados,

cantar com os corpos dos que tombam,

e sentir que morro tantas vezes

e saber que tantos já morreram

para que vós  piseis um dia  o chão da liberdade.

 

Vai veleiro, vai…

meus versos transformados num solitário barco

a vos buscar além de muitas luas.

Vou-me daqui

para não ver minha canção murchando.

Vou-me daqui

porque o  poeta tem que mendigar por uma rosa infinita

por um subúrbio qualquer da eternidade.

 

Gerações futuras

Hoje é para vós que eu canto

para um tempo de irmãos e camaradas.

Vou-me  daqui

para morar convosco na imortalidade da vida.

 

Vai veleiro, vai…

e não  encalhes a poesia nas águas rasas destes anos

porque aqui os poetas já não são ouvidos.

Navega em busca dos que virão  ainda,

leva meu sonho pelo imenso mar do tempo,

leva-me para bem longe das minhas lágrimas.

 

 

 

                              Curitiba, novembro de 1968