Arquivos Diários: 1 julho, 2013

MENSAGEM – de manoel de andrade / curitiba.pr

Mensagem

 

                                    Manoel de Andrade

                                           

 

Vós que aguardais a vida no ventre dos  séculos,

vós que sois a gestação da grande raça ainda por vir,

gerações futuras,

hoje é para vós que eu canto

porque hoje nós vivemos num tempo de mártires

granadas desabrochando  velozes

mil panteras famintas rondando nosso ventre

punhais atiçados em todos os punhos.

 

Homens do  futuro

é para vós minha esperança

minha certeza ardente

as rosas rubras dos meus lábios.

Vós que sois as  uvas

e o pão da justiça em nossos sonhos calcinados.

Vós que vireis para justificar o nosso  sangue

e a nossa dor.

 

Vai meu verso, vai…

porque hoje é triste demais cantar nas trevas

cantar com os gritos do meu povo

com o murmúrio dos oprimidos…

e com minha fala feita em prantos,

feita de pássaros torturados,

cantar com os corpos dos que tombam,

e sentir que morro tantas vezes

e saber que tantos já morreram

para que vós  piseis um dia  o chão da liberdade.

 

Vai veleiro, vai…

meus versos transformados num solitário barco

a vos buscar além de muitas luas.

Vou-me daqui

para não ver minha canção murchando.

Vou-me daqui

porque o  poeta tem que mendigar por uma rosa infinita

por um subúrbio qualquer da eternidade.

 

Gerações futuras

Hoje é para vós que eu canto

para um tempo de irmãos e camaradas.

Vou-me  daqui

para morar convosco na imortalidade da vida.

 

Vai veleiro, vai…

e não  encalhes a poesia nas águas rasas destes anos

porque aqui os poetas já não são ouvidos.

Navega em busca dos que virão  ainda,

leva meu sonho pelo imenso mar do tempo,

leva-me para bem longe das minhas lágrimas.

 

 

 

                              Curitiba, novembro de 1968