MENSAGEM – de manoel de andrade / curitiba.pr

Mensagem

 

                                    Manoel de Andrade

                                           

 

Vós que aguardais a vida no ventre dos  séculos,

vós que sois a gestação da grande raça ainda por vir,

gerações futuras,

hoje é para vós que eu canto

porque hoje nós vivemos num tempo de mártires

granadas desabrochando  velozes

mil panteras famintas rondando nosso ventre

punhais atiçados em todos os punhos.

 

Homens do  futuro

é para vós minha esperança

minha certeza ardente

as rosas rubras dos meus lábios.

Vós que sois as  uvas

e o pão da justiça em nossos sonhos calcinados.

Vós que vireis para justificar o nosso  sangue

e a nossa dor.

 

Vai meu verso, vai…

porque hoje é triste demais cantar nas trevas

cantar com os gritos do meu povo

com o murmúrio dos oprimidos…

e com minha fala feita em prantos,

feita de pássaros torturados,

cantar com os corpos dos que tombam,

e sentir que morro tantas vezes

e saber que tantos já morreram

para que vós  piseis um dia  o chão da liberdade.

 

Vai veleiro, vai…

meus versos transformados num solitário barco

a vos buscar além de muitas luas.

Vou-me daqui

para não ver minha canção murchando.

Vou-me daqui

porque o  poeta tem que mendigar por uma rosa infinita

por um subúrbio qualquer da eternidade.

 

Gerações futuras

Hoje é para vós que eu canto

para um tempo de irmãos e camaradas.

Vou-me  daqui

para morar convosco na imortalidade da vida.

 

Vai veleiro, vai…

e não  encalhes a poesia nas águas rasas destes anos

porque aqui os poetas já não são ouvidos.

Navega em busca dos que virão  ainda,

leva meu sonho pelo imenso mar do tempo,

leva-me para bem longe das minhas lágrimas.

 

 

 

                              Curitiba, novembro de 1968

 

Anúncios

3 Respostas

  1. Maria Aparecida de jesus | Responder

    Que página fantástica…

  2. Gostei muito de me deparar com este poema. E com este poeta. Pesquisei por aí e encontrei outras coisas muito boas.

    Embora poeticamente eu não dialogue muito com o “pessimismo” e a transferência das transformações para o “futuro”, consigo captar os porquês do eu lírico e do poeta, que conviviam com um período histórico tenebroso de nosso país.

    Deste poema, os versos que mais me atraíram foram “e não encalhes a poesia nas águas rasas destes anos/ porque aqui os poetas já não são ouvidos”. E acredito que neste período pós-moderno de nossa época, de minha geração, tenho uma sensação semelhante. Principalmente quando a voz do poeta não se restringe a si próprio e seu umbigo, mas preocupa-se com seu tempo.

    Obrigado por partilhá-lo conosco. Voltarei para outras visitas.

    Abraço,

    J.

  3. GRANDE MANOEL DE ANDRADE, SEUS VERSOS DE 1968 SÃO TÃO ATUAIS QUANTO AS PALAVRAS DO EVANGELHO DE CRISTO, POR MAIS O TEMPO PASSE , ELES SE ENCAIXAM EM CADA MOMENTO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE , NÃO IMPORTANDO A MODERNIDADE CIENTÍFICA EM QUE SE ENCONTRA. É SEMPRE IMPORTANTE LER E PENSAR NOVAMENTE A RESPEITO, PARA NÃO ESQUECERMOS NOSSO COMPROMISSO COM O AMOR E O BEM.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: