POEMA SONHADO – ALHO-PORÓ – por jorge lescano / saõ paulo.sp

ALHO-PORÓ

(poema sonhado)

 

Para Maria Aparecida

In memoriam Marguerite Duras

As folhas

finas

as nervuras

a cor

das folhas.

Verde.

Folhas e folhas

de alho-poró.

O talo:

fino

esbranquiçado.

O bulbo:

arredondado

fiapos ásperos

levemente amarelados:

A verdura.

O vento

nas folhas.

O cheiro

trazido pelo vento

nas folhas finas

da verdura.

O cheiro da verdura.

Na cozinha

O alho-poró

nas mãos

da mulher

que amorosamente

condimenta

a sopa da família.

Eis o poema sonhado nesta manhã nórdica de São Paulo. Quis transcrevê-lo como o recuperei na vigília antes que o dia me tomasse a mente. Com certeza mais tarde escreverei sobre as vertentes que reconheço como origem do sonho porque me apraz investigar essa coisa que alguns chamam de inspiração. Agora, no entanto, preferi referi-lo como eu o traduzia para duas ouvintes.

O engraçado do caso é que eu o traduzia do castelhano para duas mulheres bolivianas que poderiam ler o original. Curioso também que elas tivessem essa nacionalidade, pois não tenho contato com ninguém da Bolívia.

Na leitura onírica havia elementos visuais que embora não correspondam à realidade, a enriqueciam. As folhas sonhadas eram mais largas que as do alho-poró e tinham uma variação de cor que ia do verde escuro ao amarelo, esta variação cromática era observada pelos três personagens e devidamente apreciada. Isto tornava a planta, e o poema, mais sutis. Para ilustrar esta qualidade do sonho deveria aproveitar a imagem da folha de outra planta, com outro formato e outra textura.

Há, na gênese deste sonho, circunstâncias familiares e pessoais que o formaram. Estou trabalhando num relato que trata da tradução e por uma situação dolorosa penso constantemente em minha mulher, da qual estou separado há vinte anos, especialmente na hora em que preparo o modesto jantar na minha mansarda.

Três pessoas se apresentaram à memória para a dedicatória. A primeira é a que está estampada, as outras duas por motivos diversos. Uma é poeta e creio que apreciará esta minha incursão no seu quintal. A outra fez o seu doutorado em letras francesas com tese sobre Marguerite Duras, razão pela qual com ela compartilhei a leitura das obras de nossa amada escritora durante um longo período e que certa vez, para “ilustrar” um evento realizado com textos dela, me telefonou pedindo que localizasse uma receita de sopa de alho- poró em um dos seus livros.

Para que o leitor desta nota não fique em suspense digo que esse texto tem o título de A sopa de alhos-porros e se encontra no livro Outside (São Paulo, Difel, 1983).

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Uma resposta

  1. De funda e vera beleza, ah, tão vera, verdadeira! Do meu universo de parcas, quase nenhumas palavras (e tortuosos silêncios), consigo encontrar estas, para louvar tal rico fruto de sonho e do sonho, caro poeta Jorge Lescano. Epa, rimou!
    Zuleika.

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