Médicos por aí – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Médicos por aí


Amilcar Neves

Vejamos: é preferível, então, deixar o doente morrer do que ser atendido por um médico de formação arbitrariamente entendida como duvidosa?

 

Se um passageiro sofre um infarto do miocárdio em pleno voo, a primeira medida do comandante da aeronave é exigir a presença de algum médico que se encontre a bordo. Qualquer médico, ou um médico de qualquer especialidade, mesmo que seja um ortopedista, por exemplo, ou um alergista. Por suposto, um médico, qualquer que seja sua especialidade, será sempre mais competente para dar o atendimento de emergência que a situação requer do que um contador ou um geólogo. Parece óbvio.

 

Corporativismos à parte – e o corporativismo, como as paixões clubísticas no futebol e os dogmas intocáveis na religião, é praga que nos embota a clareza de raciocínio e a independência de julgamento -, o que levaria alguém a condenar a contratação de médicos para assistir a populações, geralmente pobres, que se veem desamparadas de cuidados básicos (e constitucionais) com a saúde? Qualquer que seja a idade de cada um de nós, todos estamos cansados de ouvir falar, desde a mais tenra infância, da falta crônica de médicos nas pequenas cidades do interior do Brasil. E isto hoje já não tem a ver nem mesmo com remuneração mensal: a partir do Sistema Único de Saúde, municípios de dois mil habitantes oferecem salários de 12, 15 ou 18 mil reais para o profissional, inclusive o recém-formado, que se disponha a deixar o litoral, a capital, a especialização, a balada, o status para atender seres humanos que necessitam do seu conhecimento, muitas vezes adquirido exatamente em universidades públicas e gratuitas, que indiscutivelmente são as que melhores condições de ensino propiciam ao estudante brasileiro.

 

Será feio ou desonroso ganhar feito um vereador, receber num mês, todo mês, o que um professor do ensino fundamental levará um ano para ganhar, e partir para o sacerdócio preconizado no juramento profissional, pomposamente declamado no dia da formatura, algo como Prometo solenemente dedicar a minha vida a serviço da Humanidade?

 

Ninguém é obrigado a ir viver nos cafundós, e muitos médicos efetivamente não querem nem ouvir falar da hipótese. Disto sabemos todos há muito, independente da idade que tenhamos. No entanto, parece preconceituoso afirmar, a priori, que médicos cubanos, bolivianos, paraguaios ou de onde sejam não estão capacitados a atender, no Brasil, gente, seres humanos, com verminose, bicho-do-pé, terçol ou braço quebrado. A priori porque não se pergunta da faculdade (e da sua grade curricular) nem do nome do profissional (e do seu desempenho escolar), mas simplesmente julga-se o médico pela origem nacional da sua formação, como se não houvesse cursos médicos caça-níqueis de baixíssimo nível no Brasil e em países desenvolvidos, como se no Brasil não morressem pessoas devido a erros médicos primários em exames de videocolonoscopia, por exemplo, ou em cirurgias plásticas. Ou como se, nos grandes centros, especialistas de renome em procriação humana não se valessem da sonolência induzida pela anestesia para se aproveitar sexualmente das suas pacientes de alto poder aquisitivo. Bandido não tem nacionalidade predeterminada.

 

Da mesma forma, parece igualmente lamentável e preconceituoso condenar a intenção de trazer médicos estrangeiros para o atendimento de brasileiros necessitados apenas porque a medida parte de um governo democraticamente eleito que não é aquele dos sonhos do crítico de momento.

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