Arquivos Diários: 25 julho, 2013

HUMILDADE E ALTIVEZ DE DESERTOS – por zuleika dos reis / são paulo.sp

 

                             HUMILDADE E ALTIVEZ DE DESERTOS

                                                                                                 Zuleika dos Reis

 

 

 

Deixai-me, ainda, dizer nesta manhã,

desde o ventre da incomensurável cidade a devorar os filhos

na secura de edifício sem nome

sem biografia

sem história

desde o mais fundo dos ermos

desde a raiz das árvores  secas de inverno

árvores secas em secas alamedas de inverno

desde o fundo da alma em inverno

alma sem sonhos  nem esperanças quaisquer  de outros ciclos

 

 

deixai-me dizer

mais do que dizer, deixai-me  sentir, ainda,

algo, ainda, da humildade e da altivez dos desertos .

 

 

Não de um deserto real

de deserto inventado por sonho

que no universo de mundos pós-tudo

 

 

de almas pós-tudo

de tempos pós-tudo

não mais sequer desertos,  senão em sonhos inventados,

mas o meu, já que nem mais sonhos inventados  consigo,

será deserto meramente pensado

 

 

pensado

areal sem fim e sem começos

sem termos de acordo

sem oásis

ou melhor

 – para quebrar a onipotência das areias infindáveis –

com alguns pequenos e outros grandes oásis de pedras

oásis de pedras reluzentes

de altíssima chama

de duríssimos arco-íris

como nenhuns  outros

pedras como nenhumas outras

onde os pés descansem, fundo,

de todos os repousos

onde o sangue a jorrar

complete o cenário.

 

 

 

 

Altivos e humildes e sangrentos pés

deserto altivo, orgulhoso do seu areal sem fim

e de seus oásis de arco-íris pontiagudos

e de pedras redondamente  a espraiar outros tesouros de ninguém

deserto  a ofertar-se

a este pensamento quase delírio no início da tarde 

deserto-oráculo

amplo e sem muros como um deus  criado

amplo e sem muros.

Um deus criado no tempo deste poema, também ampla voz de nadas.

 

 

Um deus criado neste instante.

 

 

Deserto sem tendas

beduínos

camelos

sem o que quer que seja que configure em algum lugar para alguém deserto plausível

deserto anterior a si mesmo

como se não fora

deserto projetado para alívio

só no exato tempo e espaço desta escrita

que é mesmo uma coisa nenhuma.

 

 

Deserto altivo

deserto humilde

vento a espalhar areias e pedras pelo mundo e por não mundos

 

 

ofuscante céu de quase meio-dia a cegar as palavras

céu de obscuro verão vindo de teu hemisfério, deserto  pensado,

para cegar também cada um dos silêncios.

 

 

Deserto altivo e humilde

janelas de prédios que olham este instante no inverno

sem ver nada e ninguém

 

 

árvores de hirtos galhos

cruzes cegas na ainda manhã

cegas penitentes imóveis

cegas imóveis penitentes erguidas diante do seu deus. 

Diante do seu deus.

 

 

 

 

Poema escrito em 17 de julho de 2013.

PRESENÇA DO PAPA – por paulo timm / torres.rs

PRESENÇA DO PAPA
Paulo Timm – Torres 23 julho – copyleft
Francisco I , Papa há apenas quatro meses, chegou ao Brasil numa mensagem de grande otimismo à juventude.  Seu estilo parece ter agradado: simplicidade. Nas palavras, nos gestos, nos aparatos. Nada de ostentação, o que cai como uma luva na conjuntura nacional, mobilizada precisamente em torno de uma mudança na cultura política do país. PAULO TIMMNisso, Francisco I  tem tudo para se consagrar como um ídolo carismático. Ídolos dificilmente são homens ou mulheres sofisticados, de grande erudição. As grandes massas preferem, sempre, alguém que se confunda com ela e que expresse uma mensagem singela, mais de sentimentos que falam ao coração do que fortes argumentos sustentados pela razão. Cristo mesmo, tinha esse perfil, mas isto ocorre em outros campos da vida social. O ídolo é uma espécie de herói,  sem se deixar envolver pelo excesso de familiaridade, marcado com o carisma como uma espécie de graça divina.
O herói é sempre – ele também – um mediano dotado de superpoderes. É a aplicação (ou o sinal da Graça) do arquétipo do herói a uma pessoa dotada de misteriosas fluxos e comunicações empáticas.
Pela leitura ideológica, o estrelato é uma apropriação pelo sistema produtor das qualidades empáticas e de certos dons gratuitos de atores tomados pela magia do estrelato. Pela leitura psicológica o estrelato é uma relação profunda entre pessoas com um “self” extrovertido capaz de simbolizar valores patentes, latentes , ou jacentes no público. São seres marcados por alguma forma particular de Graça, identificados com o mistério e o sagrado. Daí o carisma, marca peculiar, “graça extraordinária concedido pelo Espírito Santos” segundo a definição do cristianismo
                                                          Arthur da Távola – Talento e Carisma
O Papa Francisco reúne todas essas características. É um homem sem grandes mistérios, de origem definida, de prática sacerdotal  aparentemente inatacável. A tentativa de intrigá-lo com as esquerdas latinoamericanas, em razão de uma suposta omissão durante o regime militar na Argentina, não se confirmaram. Perez Esquive, Nobel da Paz, foi o primeiro a sair em defesa do Papa. Se porventura ele não foi um combatente, nem mesmo resistente como “ As Mães da Praça de Maio, tampouco foi colaborador dos militares. E está se saindo bem nos primeiros pronunciamentos no Brasil :–“ Não trouxe ouro nem prata. Trago Jesus Cristo”. Palavras óbvias, mas, por isso mesmo oportunas e convenientes. O Brasil vive um momento delicado e exige cuidados. Ele demonstra que os tem.  Parece até ter escutado aquele famoso conselho de Jung que recomendava sempre à alma que fala lembrar-se de que falava à outra alma humana. De resto, chega ao Brasil numa nova Era da própria Igreja, já muito distante dos Poderes terrenos e mais aberta  ao diálogo com ideologias de forte caráter social. Não por acaso, registrou a imprensa a afinidade do discurso de Dilma Roussef  com os ideais cristãos, malgrado  o pequeno deslize da sua referência exclusiva à década  petista da inclusão social.
Ao mesmo tempo, estamos recebendo um Papa diplomático. Diante de um discurso meio desleal da presidente Dilma Rousseff, que aproveitou o momento para promover os dez anos de trabalho do PT, o Papa argentino ofereceu uma fala moderada, de extrema simpatia, sem abrir o seu estoque de críticas à sociedade moderna, que cria e abandona excluídos.
Teremos mais seis dias de programação, pelo visto com o mesmo nível de risco na circulação do ilustre visitante, que imagina estar seguro no Brasil, mesmo sendo o Rio de Janeiro uma cidade minada pelo crime organizado e por manifestações a cada momento mais violentas.
Seja o que for, realmente, o primeiro dia do Papa deixou para o mundo uma imagem de um Brasil humano, alegre e até seguro. Rezemos para que permaneça assim.
                              (Jorn. Renato Riella – BSB – FB)
Bem Vindo, pois  Francisco! Que suas palavras alimentem este momento de renovação e esperanças do Brasil!