HUMILDADE E ALTIVEZ DE DESERTOS – por zuleika dos reis / são paulo.sp

 

                             HUMILDADE E ALTIVEZ DE DESERTOS

                                                                                                 Zuleika dos Reis

 

 

 

Deixai-me, ainda, dizer nesta manhã,

desde o ventre da incomensurável cidade a devorar os filhos

na secura de edifício sem nome

sem biografia

sem história

desde o mais fundo dos ermos

desde a raiz das árvores  secas de inverno

árvores secas em secas alamedas de inverno

desde o fundo da alma em inverno

alma sem sonhos  nem esperanças quaisquer  de outros ciclos

 

 

deixai-me dizer

mais do que dizer, deixai-me  sentir, ainda,

algo, ainda, da humildade e da altivez dos desertos .

 

 

Não de um deserto real

de deserto inventado por sonho

que no universo de mundos pós-tudo

 

 

de almas pós-tudo

de tempos pós-tudo

não mais sequer desertos,  senão em sonhos inventados,

mas o meu, já que nem mais sonhos inventados  consigo,

será deserto meramente pensado

 

 

pensado

areal sem fim e sem começos

sem termos de acordo

sem oásis

ou melhor

 – para quebrar a onipotência das areias infindáveis –

com alguns pequenos e outros grandes oásis de pedras

oásis de pedras reluzentes

de altíssima chama

de duríssimos arco-íris

como nenhuns  outros

pedras como nenhumas outras

onde os pés descansem, fundo,

de todos os repousos

onde o sangue a jorrar

complete o cenário.

 

 

 

 

Altivos e humildes e sangrentos pés

deserto altivo, orgulhoso do seu areal sem fim

e de seus oásis de arco-íris pontiagudos

e de pedras redondamente  a espraiar outros tesouros de ninguém

deserto  a ofertar-se

a este pensamento quase delírio no início da tarde 

deserto-oráculo

amplo e sem muros como um deus  criado

amplo e sem muros.

Um deus criado no tempo deste poema, também ampla voz de nadas.

 

 

Um deus criado neste instante.

 

 

Deserto sem tendas

beduínos

camelos

sem o que quer que seja que configure em algum lugar para alguém deserto plausível

deserto anterior a si mesmo

como se não fora

deserto projetado para alívio

só no exato tempo e espaço desta escrita

que é mesmo uma coisa nenhuma.

 

 

Deserto altivo

deserto humilde

vento a espalhar areias e pedras pelo mundo e por não mundos

 

 

ofuscante céu de quase meio-dia a cegar as palavras

céu de obscuro verão vindo de teu hemisfério, deserto  pensado,

para cegar também cada um dos silêncios.

 

 

Deserto altivo e humilde

janelas de prédios que olham este instante no inverno

sem ver nada e ninguém

 

 

árvores de hirtos galhos

cruzes cegas na ainda manhã

cegas penitentes imóveis

cegas imóveis penitentes erguidas diante do seu deus. 

Diante do seu deus.

 

 

 

 

Poema escrito em 17 de julho de 2013.

6 Respostas

  1. Precioso poema! Puro enlevo, versos para meditar, ler, reler… e amar.

    1. Muito obrigada, Bel querida, de coração.
      Beijo da Zuka.

  2. Meu poema agradece, fundamente, caro j. constantino.

  3. E o verso seco de Zuleika, cortando o frio de São Paulo e essa umidade nauseabunda, como uma navalha. O verso de sílabas que tropeçam, como pés perdidos na solidão desta balbúrbia, de pés que andam nas calçadas destas ruas, como carros que andamparamandam no trânsito. Como quem tenta enxergar numa tempestade de areia no deserto. Entre o nada e seu deus. Entre o nada e sua sombra.

    Abraços,

    J.

  4. Muito, muito obrigada.

  5. Maravilhoso. Intenso e gratificante para a alma.

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