CIDADES, passado e presente – por almandrade / salvador.ba

O desaparecimento dos lugares cordiais, moldados por necessidades e desejos, deixou na cidade sinais indeléveis. O fim dos locais de encontro dos habitantes e visitantes, encerrou uma época, uma perspectiva de vida urbana, um tipo de comportamento. A conexão do lugar Almandrade 1com uma função social, uma sociabilidade, é construída e desenvolvida dentro de determinadas circunstâncias, de forma que, sua imagem pode representar o apogeu ou o declínio de uma época.

Sempre que o olhar retrospectivo percorre os quatro cantos de uma cidade, na tentativa de encontrar um passado construído de sonhos, a memória nostálgica não encontra suas referências. É impossível repetir ou viver o tempo que não é mais presente. A memória, às vezes, é uma fixação sem capacidade de distinguir a imaginação da realidade. O que permanece de uma configuração herdada do passado, apesar da aparência de continuidade, mudou, porque também o conhecimento já está fundamentado em outros parâmetros. O saber sobre alguma coisa não é um conjunto de enunciados perfeitos que não possa sofrer acréscimos e transformações. Se o saber não é mais o mesmo, a realidade é outra.

Fachadas com desenhos de outros tempos surpreendem a contemporaneidade da paisagem, deixou na cidade a marca do passado. As contemplações saudosistas são subjetivas, não vêm o lugar concreto, e sim, um modelo ideal de cidade, criado na imaginação e fora do tempo. Em um mesmo lugar se alojam diferentes memórias e através delas afloram muitos passados que multiplicam as suas histórias.

A carência de pensamento limita a percepção. O senso comum se relaciona com o passado através da nostalgia. A recuperação do passado pode significar a reconstrução de um sentido para contemporaneidade e a imaginação do futuro. A relação cidade e memória nos leva a uma viagem na caça de referências, sujeitos ao perigo de nos perdermos em algum fragmento resgatado. O discurso saudosista mostra verdades que contradizem ao que estamos vivenciando na atualidade.

O turista, esse habitante de lugar nenhum, olha a história do alto, vivendo uma experiência como se estivesse no cinema. Vê na cidade suas imagens gerais, mas as particularidades só são percebidas com um olhar mais atendo. Além de ser o lugar onde habita a moderna sociedade de consumo, com algumas imagens que evocam outros momentos da civilização, a cidade guarda segredos. Possivelmente outras cidades habitadas por fortes impérios desapareceram para ceder lugar a esta de agora, na qual estamos vivendo, que jamais serão reconstruídas, nem totalmente recordadas. O tempo vivido na sociedade afetada pela revolução tecnológica, tem o privilégio do instante presente. O trajeto de várias histórias e culturas é a “coisa ausente”, a cidade imaginada que só aparece por trás de um emaranhado de aparências com muitas realidades.

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

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