SEMANA FARROPILHA ? – por carlos zatti / porto alegre.rs

SEMANA FARROPILHA ?

Carlos Zatti  – set 2013

Foram diversas as causas que motivaram a Revolução Farroupilha, notadamente a elevada carga tributária que centralizava recursos na Capital do Império, sem a contrapartida correspondente.

Mesmo assim, o levante de 20 de setembro de 1835 não foi suficiente para que a Regência reconhecesse a discriminação que fazia à província meridional e, então, a Revolução proclamou a República Rio-Grandense em 11 de setembro de 36, legitimada com base no direito universal dos povos, pelas Câmaras de Vereadores das principais cidades gaúchas da época. E a contenda deixou de ser uma Revolução para ser uma Guerra – Guerra dos Farrapos – pois não era mais uma convulsão interna, dentro do mesmo país, eram exércitos de duas nações peleando cada qual por sua Pátria.

Nos dias atuais, por indução do MTG, os cetegeanos se reúnem no intento de homenagear aqueles heróis que resfolegaram as coxilhas de 1835 a 45, tentando um paralelismo à Semana da Pátria, com sua “Semana Farroupilha”.

Mas a paz de Ponche Verde foi assinada de igual para igual. Podemos até afirmar que o Estado Rio-Grandense voltou ao convívio da Pátria brasiliana sem revogar, ou relegar, sua independência. E se alguém duvida que não se faça de rogado e olhe para a bandeira do Rio Grande do Sul onde lerá em seu dístico: ‘República Rio-Grandense’. Seria ou, é uma república dentro de outra?!

E ainda, nos dias atuais, o poder central continua explorando e discriminado nosso Sul. Mas se foi o gaúcho que colocou os alambrados da invernada lá do fundo e escolheu o lado para fincar seu rancho, pode, muito bem, irmanado com o barriga-verde e o tingüí, mudar a cerca e fincar os palanques mais ao norte.

Como o movimento tradicionalista gaúcho se estriba no passado para montar no presente e construir o futuro, e transplantou simbolicamente o galpão da estância para a cidade para, sob seu teto, irmanar gentes na mesma iguala, palmeando a mesma cuia que corre de mão em mão sem conhecer a hierarquia; local da camaradagem, da honradez e da amizade; local dos causos, da poesia, do civismo e da guitarra campeira…

Mas parece desígnio que cada iniciativa tenha seus percalços, seus altos e baixos e, então, parece que o clarim que os guiava calou. Por que calou, se a tradição é a marcha batida que visa o resgate de valores que são válidos não por serem antigos, mas porque são eternos?  Por que calou, se a tradição é a identidade de um povo? – Porque lhes faltou a essência do porquê da Semana Farroupilha. Faltou-lhes a verdade, a honestidade, a razão. O MTG esqueceu as virtudes e traiu os homenageados, menosprezando o ideário dos heróis de 35, o simbolismo da Semana Farroupilha.

Será porque os brasileiros foram educados no convívio de governantes autoritários?

– Tanto que até o decantado Getúlio Vargas fez jogo duplo para ficar de bem com as potências estrangeiras, deixando a Gestapo nazista atuar dentro do Brasil para caçar adversários, durante a Segunda Guerra Mundial e, ao mesmo tempo, fazendo o jogo dos aliados, policiava e perseguia nossos avós só porque falavam em sua língua natal: alemão, italiano, japonês.

E foi este mesmo Getúlio que, numa iniciativa de mentecapto, mandou queimar todas as bandeiras estaduais (proibiu o estudo das cartilhas regionais nas escolas, que continham nossa história e nossos valores culturais, adotando uma só cartilha para todo o Brasil, além de proibir os hinos estaduais), enfraquecendo a cultura regionalista, com intento de centralizar mais e mais poderes ao estado unitário, num propósito “nacionalista”, ignorando a existência de diversos povos em brasis distintos dentro do estado constituído.

– E os ditadores militares, então, aquela tragédia! Os estudantes aprendendo a aceitar tudo o que os livros oficiais ditavam de nossa História. Mentiras deslavadas que ainda hoje dominam a mente do povo, que nem diz “assim seja” porque só aprendeu dizer “amém”.

Contestando professores mal intencionados ou mal informados metidos a sabichões ao enfatizarem que a Revolução Farroupilha não fora separatista, afirmamos, porque estamos convictos, que a Revolução de 35 foi secessionista. Nossa tese baseia-se nos seguintes fatos/argumentos:

1) Artigas (el protetor de los gauchos), já em 1816 queria formar um país independente composto de Entre Rios, Corrientes, Rio Grande do Sul, Uruguai, Santa Fé e Missiones! Ou seja, um país exclusivamente de gaúchos;

2) Durante a Campanha pela Independência do Uruguai (1825/28), Alexandre Luís de Queirós e Vasconcelos, o “Quebra”, comandando o “Regimento de Libertadores do Rio Grande”, colocou-se abertamente ao lado dos platinos. Tentando revoltar os soldados gaúcho-brasileiros, pregava a separação do Rio Grande, antecipando a revolução farroupilha que, quando eclodiu, em 35, dela participou;

3) O deputado provincial José Mariano alertou ao presidente da existência de um partido que pregava a independência do Rio Grande do Sul, dizendo em seu discurso: “Que muito de propósito as primeiras autoridades têm sem cessar procurado fazer acreditar ao governo central, que um partido aqui existe com fins hostis à integridade do Império. O mais singular, porém, neste negócio, é que… são homens elogiados e quase endeusados como salvadores da província!  Liga com o Estado oriental, independência da província, proclamação da república, etc…”. E conclui dizendo: “O presidente da província dá conta à assembléia da existência de partido que trabalha no pérfido e indecoroso plano de separação desta província…”;

4) Quando Antônio Netto proclamou a independência do Estado Rio-Grandense, nenhum farroupilha foi contra o ato. Todos apoiaram a atitude de Netto porque a separação fazia parte do plano revolucionário e esperavam apenas uma oportunidade, e ela surgiu com a vitória da batalha de Seival. Se alguém discordasse mudaria de lado. – O coronel Bento Manuel mudou de lado três vezes durante os dez anos do conflito;

5) O Convênio de Ponche Verde foi um armistício e não a revogação da independência. O Escudo, o Hino e a Bandeira são ainda hoje símbolos oficiais do Rio Grande do Sul;

6) Além de Caxias aceitar as condições para a paz, nenhum Farrapo depôs ou entregou sua arma ao exército brasileiro.

7) Na “História da Grande Revolução”, Varela diz: “Lucas pertencia ao grêmio dos que, desde 1832, conjuravam em prol de um RioGrande independente e livre”. (vol.5, p.22)

– {O fato da chamada “traição de Canabarro”, que teria desarmado os negros para que Caxias (o capitão de mato e de estrada) massacrasse a todos, em Porongos, merece um estudo maior por parte dos historiadores, até porque Canabarro foi contra a abolição dos escravos, proposta durante a República}.

Então, por ignorância dos dirigentes do MTG ou por maldade sarcástica dos mesmos, na abertura da “Semana Farroupilha” cantam o hino do inimigo, hasteando a bandeira do mesmo (Estado Brasiliano) no mastro de honra, em detrimento à tricolor, num verdadeiro ato de traição ao General Antônio Netto, a Bento Gonçalves, Domingos José de Almeida, Ulhoa Cintra, Onofre Pires, Anita Garibaldi, Corte Real, Teixeira Nunes e seus indômitos lanceiros negros e tantos outros que, apunhalados por tal despropério mal parado e traiçoeiro, devem se revolver em suas tumbas, tal o escárnio mordaz destes pseudo tradicionalistas.

Corrobora, o “tradicionalista” de plantão, segurando a alça do caixão funerário das virtudes cívicas, que foram a glória de nossos antepassados, sepultando-as no cemitério da hipocrisia, tal adepto de uma seita de emasculados que pregam o servilismo envolto na fumaça do incenso bajulatório do centralismo opressor, para enterrar em cova bem funda os últimos lampejos da altivez de um povo viril.

Os desmandos e a corrupção que grassa em Brasília, com a conivência de sulistas, confirmam a assertiva.

Mas quando o Sul for um País Independente, tais injustiças hão de ser reparadas para honra e glória da Nação. O Movimento Farroupilha findou, porém não acabou com o espírito de independência, pelo contrário, se ampliou por toda a Região Sul com a República Juliana, e outros atos de heroísmo, envolvendo também o Paraná que era farroupilha na época mas foi traído pelo Império; mesmo assim, foi marcando território nos movimentos de 1893, 1930 e 61. Não mais os limites tratativos do Brasil, mas as fronteiras demarcadoras das posses da NAÇÃO SULISTA.

 

Carlos Zatti – escritor

Tapejara da Cultura

CTG Porteira Aberta – 1ª RT / MTG–PR.

4 Respostas

  1. Paulo Roberto Bento Bento | Resposta

    FAZ DIAS QUE ESTOU SEM RECEBER “PALAVRAS, TIDAS PALAVRAS”

  2. Paulo Roberto Bento Bento | Resposta

    NÃO ESTOU RECEBENDO “PALAVRAS TODAS PALAVRAS!!!…

  3. Esclarecendo aos que lerem este artigo:
    O MTG é um movimento fascista, racista e dogmatizador. Nasceu e cresceu à sombra dos quartéis durante o governo militar, se infiltra e se promiscui com autoridades de todos os níveis e empresários “nativistas e colaboradores” com toda sorte de favores. Se impõe como único e legítimo representante da cultura de um estado – multirracial e multicultural desde o início da colonização, um dos maiores destinos de africanos – perseguindo e destruindo os representantes das demais, em particular a índia e a africana, a ponto de conceituar o carnaval como “coisa de negros” e a indígena como primitiva e sem importância. Vide a realidade dos negros e índios no RS.
    A maioria das manifestações culturais que divulgam são adaptações ou/e invenções dos seus dirigentes, ás de origem índia, nordestina e europeia, e procuram criar correlatas às de outras regiões como “a missa crioula” correspondente à “missa do vaqueiro” que ocorre no nordeste. Não sou contra, mas a verdade e os créditos devem ser ditos.
    Denuncio aqui o MTG: um movimento facista – enquanto se coloca como superior não sujeito a qualquer crítica de seus postulados – que promove idéias separatistas, a xenofobia, o racismo entre as etnias que formam o RS e o preconceito em relação aos outros estados e a países considerados como inferiores. Promovem verdadeira alienação mental e social de seus membros aqui e nos gaúchos que residem pelo Brasil afora – o gaúcho é o brasileiro que mais emigra – levando-os a um comportamento arrogante e separado das comunidades onde vivem, levando os locais a terem ojeriza de nós.
    Desejo que esses que dizem defender as tradições e culturas gaúchas que procurem conhecer, que pesquisem as verdades dos fatos e não repitam cartilhas editadas por quem os fazem como fonte de lucro.
    O verdadeiro herói do RS é o povo empobrecido, que implorava aos padres que interviessem para acabar com o genocídio e destruição que esses líderes estavam promovendo na então província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Os embates ocorriam entre lideranças locais e não entre forças do império.
    Meu Rio Grande do Sul é brasileiro e continuará sendo. As correntes marítimas que passam aqui vão até o lindo nordeste, o calor do nosso verão vêm dos ventos do centro-oeste. Terra de sambistas, pintores, escritores, personalidades das mais diversas áreas irmanados com tantos outros do meu Brasil. Terra primeiro divulgada pelo cearense José de Alencar. É isto que me faz ter orgulho de ser gaúcho, também ser brasileiro.

  4. História é História: fato ocorrido, testemunhado, documentado. nada do que você escreveu se comprova, e temos provas contrárias. O que você escreveu é a ladainha decorada e recitada pelo MTG e seus seguidores. As causas deste levante, que nunca chegou a ser uma revolução ou guerra, foi motivado pela incontingência dos caudilhos sulistas ao poder constituído na então província, que exigiam maior participação e vantagens na política nacional. Nenhum bem fizeram ou desejavam para o povo, apenas poder. O que fizeram com os negros, com os índios e a concentração de terra e poder não tem semelhante na história do Brasil. Não havia unidade entre os “líderes”, mudavam de lado conforme suas ambições pessoais. Escravocratas, polígamos, latifundiários, grileiros de terras dos mais pobres, sádicos com os pobres que não se submetiam aos seus caprichos, as elites gaúchas tentam tapar o sol com a peneira as perversidades que fizeram com os miseráveis pampeanos que até hoje sofrem as conseqüências do isolamento impostos por esses algozes.
    O RS sempre teve tratamento privilegiado e diferenciado do governo central, os seus governantes não se mostram competentes para bem administrá-lo. Lembremos que no início dos anos 80 quando o Banrisul quebrou, a classe política fez o povo acreditar que o RS quis fazer parte do Brasil e por isso merecia uma indenização, e fez com que o Banco Central injetasse crédito aqui. É, o RS se vendeu, mas hoje a roubalheiro e a imcompetência dos seus governantes fez este “rico estado”, a Europa no Brasil, voltasse à falência.

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