Arquivos Mensais: outubro \24\UTC 2013

MARINA SILVA, O ANJO CAÍDO

Marina Silva bajula a mídia amiga

Altamiro Borges

Marina Silva é só amores com os donos da mídia. Ela é tratada com todo o carinho pelos jornalões, revistonas e emissoras de tevê. Quase todo dia é destaque na velha imprensa. Isto talvez explique a defesa apaixonada que a ex-verde fez da atuação da mídia no país durante o programa Roda Viva, exibido pela TV Cultura nesta segunda-feira (21). “Não acho que deva ter controle porque uma das coisas que ajuda a própria democracia é a liberdade de expressão. Acho que a imprensa dá grande contribuição para várias questões, como na minha área [meio ambiente]”, afirmou a provável vice de Eduardo Campos na campanha presidencial de 2014.
Neste clima de amores, os barões da mídia tendem a reforçar ainda mais o coro para que ela dispute a sucessão pelo PSB – deixando na reserva o governador de Pernambuco. Mas não é só no debate sobre a regulação democrática da mídia – que ela maliciosamente chama de “controle” – que a ex-ministra tem agradado os empresários do setor. A cada dia que passa, Marina Silva explicita a sua completa cedência às teses neoliberais e sua fundamentalista adoração ao “deus-mercado”. No programa Roda Vida, ela voltou a criticar o governo Dilma por ter abrandado o chamado tripé macroeconômico – dos juros elevados, austeridade fiscal e libertinagem cambial.

Mas o conservadorismo da ex-verde não se manifesta apenas na economia. Como ironiza José Carlos Ruy, no sítio Vermelho, no programa da TV Cultura “houve também o lado folclórico, quando ela tratou de homossexualismo, casamento gay, pesquisas com células-tronco, criacionismo… Ela reconheceu que as pessoas devem ter tratamento igual, mas ‘quando se fala em casamento, evoco o sacramento’. Nesta condição, ela não aceita o casamento gay, embora o admita como direito civil. A pérola veio quando falou sobre criacionismo. Não sou criacionista, disse. E declarou acreditar que Deus criou todas as coisas, inclusive a grande contribuição dada por Darwin”.

Para José Carlos Ruy, estudioso da história, “Marina Silva é a recente versão do que há de mais tradicional e conservador na política da classe dominante brasileira. A história tem exemplos desse tipo de ‘novo’; Jânio Quadros, há mais de cinquenta anos, surgiu como uma espécie de alternativa aos partidos e aos políticos; ele bateu de frente com o Congresso Nacional e renunciou melancolicamente sete meses depois de assumir a Presidência da República. Era em tudo parecido com Marina Silva. Na política, rejeitava os partidos e acusava o Congresso Nacional de chantageá-lo (Marina repetiu esse argumento no programa Jô Soares, dia 15, dizendo que Dilma é chantageada pelo Congresso!). Na economia, defendia o mesmo velho e fracassado programa conservador: contenção nos gastos públicos, pagamento de juros, enxugamento da máquina do Estado”.

“No ocaso da ditadura militar, outra versão ‘jovem’, ‘apolítica’ e economicamente conservadora surgiu na figura de Fernando Collor. Durou pouco”, lembra José Carlos Ruy. Isto também ajuda a explicar as juras de amor entre Marina Silva e os barões da mídia. Nos dois casos citados, os tais representantes do “novo” tiveram o apoio da chamada grande imprensa nas suas campanhas presidenciais contra candidatos mais à esquerda. Marina Silva bajula a mídia; e a mídia sabe, sempre, a quem bajular!

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RONDAS DE UM FANTASMA – de zuleika dos reis / são paulo.sp

 

 

                                RONDAS DE UM FANTASMA

                                                                                               Zuleika dos Reis

 

 

Um fantasma de si mesmo

triste fantasma encarnado

em fria tarde, a esmo,

lembrava do próprio rosto

 

que perdera há tanto tempo

e se olhava, descarnado,

nas águas do fundo lago

no centro do bosque em torno.

 

Em verdade, não havia

nem bosque nem lago fundo.

Havia só pensamento

e o coração perplexo

 

de um fantasma encarnado

que perdeu o próprio rosto

no espelho de outro rosto

e agora jaz, descarnado

 

 

 

de si mesmo, há tanto tempo,

no centro do bosque em torno

imagem no fundo lago

que se esvai, só pensamento

 

de um fantasma que não olha

que não vê, que não deseja

bosque, lago, rosto, espelho,

que de mais nada se lembra

 

que do Amor não mais se lembra

triste fantasma perdido

dos rostos que tenha tido

na sina de Amor, medonha

 

mais medonha que se tenha,

pobre fantasma sem rosto

no centro da noite erma

de Lua, estrelas, conforto

 

pobre fantasma sem rosto

sem inveja de algum outro

que alguma vez tenha tido

pobre fantasma tão morto.

 

 

Fantasma, como te entendo

essas rondas, esse círculo.

Também se move, assim lenta,

esta morte em que me vivo

 

esta morte que me move

a mim, diversa de ti,

assim Memória que sofre

só Memória que não morre.

 

Tudo é Presença e morte

na vida que já não vivo

no presente que não vive.

Fantasma, como te entendo!

 

Entendo porque te sou

fantasma, mas, não te sendo:

Memória e Presença vou

vou também esquecimento

 

mas, nunca Esquecimento

que o rosto do meu Amor

luz e sombra, lume, Dor,

na vida erma, O Lamento.

Gal. Amauri Kruel TRAIU JANGO POR 6 MALAS DE DÓLARES em 1964- quem afirma é o Major MOREIRA que presenciou a entrega

 

Major Moreira conta a João Vicente que Kruel aderiu ao Golpe uma hora e meia depois

 

 

João Vicente Goulart, filho de Jango, e Veronica Fialho gravaram em vídeo o depoimento do Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, que testemunhou como o Comandante do II Exército, em São Paulo, Amaury Kruel traiu Jango no Golpe de 1964, por seis malas cheias de dólares, em nota novinhas, sacadas de um banco americano.

Será o Citibank ?

O Boston ?

O Chase, que, no Brasil, operava de mano com a CIA – e a Editora Abril ?

Será o Banco da América, do udenista e Golpista de 64, Herbert Levy, que, depois, deu origem ao Itau-América ?

E o Itau, que, até hoje está onde sempre esteve …

Sempre se suspeitou que a traição de Kruel, amigo e compadre de Jango, tinha cheiro de suborno.

Kruel foi o Pinochet do Jango – por um punhado de dólares.

É o que demonstra esse depoimento histórico do Major Moreira.

Como se sabe, o Historialismo – não é História nem Jornalismo – brasileiro assegura que Jango caiu porque gostava de pernas – de moças e de cavalos.

E que o Golpe foi preventivo, já que Jango ia dar um Golpe.

O “Golpe” do Jango é o Grampo-sem-Áudio – I.

Como se sabe, o Historialismo assegura que Geisel e Golbery deram o Golpe para salvar a Democracia e, depois, resolveram recriá-la.

O depoimento do Major Moreira comprava o que, cada vez fica mais claro.

(Clique aqui para ler sobre o documentário “O Dossiê Jango” e aqui para ler sobre o documentário de Camilo Tavares.)

O papel dos dólares na queda de Jango.

A FIESP – a mesma do PIB da Tortura – foi o trem pagador.

Um desses notáveis historialistas, colonista (*) da Folha (**) e do Globo Overseas, cita neste domingo editorial do New York Times – como se fosse a Bíblia – de 3 de abril de 1964, onde Jango é tratado de “incompetente”e “irresponsável”.

Uma dos indícios da “incompetência” do New York Times, por exemplo, é a cobertura que faz do Brasil.

Parcial, partidária, superficial e pigal (***).

Foi o jornal que disse que o Lula não podia governar porque era um alcoólatra.

O mesmo que assegurou que havia “armas de destruição em massa” no Iraque.

Eis o video com a entrevista, que também será postada no site do Instituto João Goulart:

 

O Conversa Afiada reproduz artigo de Mário Augusto Jakobskind sobre o depoimento:

 

QUANDO DÓLARES FALAM MAIS ALTO

Engana-se quem pensa que já se conhecem todos os fatos relacionados com o golpe civil militar de 1964 que derrubou o Presidente constitucional João Goulart. Nos últimos meses, graças ao trabalho das Comissões da Verdade, sejam estaduais ou a Nacional, muito fato novo vem sendo divulgado.

Mas um fato desta semana, protagonizado por João Vicente Goulart, ao ouvir uma denúncia do então Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, poderá mudar o entendimento de muita gente sobre a ocorrência  mais negativa da história recente brasileira. O alerta tem endereço certo, ou seja, aqueles que ainda imaginam terem os golpistas civis e militares agido por idealismo ou algo do gênero.

O Major farmacêutico em questão, hoje anistiado como Coronel, servia em São Paulo em 31 de março de 1964 sob as ordens do então comandante II Exército, General Amaury Kruel (foto).  Na manhã daquele dia, Kruel dizia em alto e bom som que resistiria aos golpistas, mas em pouco tempo mudou de posição. E qual foi o motivo de o general, que era amigo do Presidente Jango Goulart, ter mudado de posição assim tão de repente, não mais que de repente?

Mineiro de Alvinópolis, Erimá Moreira, hoje com 94 anos, e há muito com o fato ocorrido naquele dia trágico atravessado na garganta, decidiu contar em detalhes o que aconteceu. O militar, que era também proprietário de um laboratório farmacêutico e posteriormente convidado a assumir a direção de um hospital, foi procurado por Kruel no hospital. Naquele encontro, o general garantiu ao major que Jango não seria derrubado e que o II Exército garantiria a vida do Presidente da República.

Pois bem, as 2 da tarde Erimá foi procurado por um emissário de Kruel de nome Ascoli de Oliveira dizendo que o general queria se reunir com um pessoal fora das dependências do II Exército. Erimá indicou então o espaço do laboratório localizado na esquina da Avenida Aclimação, local que hoje é a sede de uma escola particular de São Paulo. Pouco tempo depois apareceu o próprio comandante do II Exército, que antes de se dirigir a uma sala onde receberia os visitantes pediu ao então major que aguardasse a chegada do grupo.

Erimá Moreira ficou aguardando até que apareceram quatro pessoas, um deles o presidente interino da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), de nome Raphael de Souza Noschese, este já conhecido do major. Três dos visitantes carregavam duas maletas grandes cada um. Erimá, por questão de segurança, porque temia que pudessem estar carregando explosivos ou armas, mandou abrir as maletas e viu uma grande quantidade de notas de dólares. Terminada a reunião foi pedida que a equipe do major levasse as maletas até o porta-malas do carro de Amaury Kruel, o que foi feito.

De manhã cedo, por volta das 6,30 da manhã, Erimá Moreira conta que mais ou menos uma hora e meia depois da chegada no laboratório ligou o rádio de pilha para ouvir o discurso do comandante do II Exército. Moreira disse que levou um susto quando ouviu Kruel dizer que se “o Presidente da República não demitisse os comunistas do governo ficaria ao lado da “revolução”.

Erimá Moreira então associou o que tinha acontecido no dia anterior com a mudança de postura do Kruel e falou para si mesmo: “pelo amor de Deus será que ajudei o Kruel a derrubar o Presidente da República?”

Ainda ouvindo o discurso de Kruel, conta Erimá, chegaram uns praças para avisar que tinha uma reunião marcada com o general no QG do II Exército.

Na reunião, vários militares, alguns comandantes de unidades, eram perguntados se apoiavam Kruel. “Eu não aceitei e pedi para ser transferido”.

Indignado, Erimá Moreira dirigiu-se a um coronel do staff do comandante do II Exército para perguntar se o general Kruel não tinha recebido todo aquele dinheiro para garantir a vida do Presidente. “Me transfiram daqui, que com o Kruel no comando eu não fico”.

“Aí então – prossegue Erimá Moreira – me colocaram de férias para eu esfriar a cabeça. Na volta das férias, depois de um mês, fiquei sabendo pelo jornal que o Kruel havia me cassado”.

A partir de então o Major e a família passaram maus momentos com os vizinhos dizendo à minha mulher que era casada com um comunista. “Naquela época, quem fosse preso ou cassado era considerado comunista”.

“Algum tempo depois contei esta história que estou contando agora ao General Carlos Luis Guedes, meu amigo desde quando servimos em unidades militares em São João del Rey. Fiz um relatório por escrito e com firma reconhecida. O General Guedes tirou xerox e levou o relato para a mesa do Kruel. Em menos de 24 horas o Kruel pediu para ira para a Reserva. Fiquei sabendo que com o milhão de dólares que recebeu do governo dos Estados Unidos comprou duas fazendas na Bahia”.

Ao finalizar o relato, o hoje Coronel Erimá Moreira mostrou-se aliviado e ao ser perguntado se autorizava a divulgação desse depoimento, ele respondeu que “não tinha problema nenhum”.

Nesse sentido, sugerimos aos editores de todas as mídias que procurem o Coronel Erimá Pinheiro Moreira para ouvir dele próprio o que foi contado neste espaço. Sugerimos em especial aos editores de O Globo, periódico que recentemente fez uma autocrítica por ter apoiado o golpe de 64, que elaborem matéria com o militar que reside em São Paulo.

DILMA ROUSSEFF – artigo no jornal Estado de São Paulo

Dilma 3
A História recente do Brasil pode ser contada em uma única frase: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da Constituição”. Sintética como um poema haicai, ampla como um sonho, o artigo 1.º, parágrafo 1.º, da nossa Constituição carrega em si séculos de lutas por um país mais democrático, justo e de oportunidades para todos.
A Constituição que expressa a submissão à vontade do povo em sua primeira frase nasceu 25 anos atrás em um dos momentos mais vibrantes da nossa história. Discussões reprimidas por décadas de autoritarismo e violência do Estado afloraram em dois anos de uma Constituinte multifacetária, igual a da nossa sociedade.
Hoje é comum ouvir a crítica de que nossa Constituição é por demais detalhista, mas esse exagero é explicado pelas circunstâncias. Saímos de um momento de represamento das liberdades individuais para um momento único no qual todos os setores da sociedade se empenharam em debater o que se tornaria lei na nossa Carta Magna. Graças ao trabalho de homens e mulheres dignos, gigantes como Ulysses Guimarães, a Constituição foi fruto de um pacto político de inúmeras forças. O texto final é o mais avançado em termos de direitos sociais e de liberdades individuais da nossa história.
É uma Constituição ambiciosa em direitos e deveres. E nessa justa ambição reside a sua perenidade. Assim como os meus antecessores e, tenho certeza, assim como os meus sucessores, considero a Carta de 1988 um guia que aponta a direção para onde o País deve seguir. Um roteiro para um Brasil mais inclusivo, mais democrático e mais desenvolvido.
Programas de inclusão como o Brasil Sem Miséria/Bolsa Família, de afirmação como o ProUni, de universalização como o Luz e o Água para Todos e de melhoria dos serviços de saúde como o Mais Médicos têm suas sementes no artigo 3.º dos Princípios Fundamentais: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: Erradicar a pobreza e a marginalização; reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
E o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa e o Pronatec são programas que almejam cumprir o princípio constitucional de que a educação é “direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
Os programas de inclusão social, o Sistema Único de Saúde, a liberdade de imprensa, a impessoalidade do serviço público são todas conquistas de 1988. Pela primeira vez na história o meio ambiente ganhou um capítulo específico, no qual o poder público e a coletividade receberam “o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Em seu histórico discurso na promulgação da Constituição, Ulysses Guimarães disse que “esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora”. Cada presidente pós-Constituição foi, a seu jeito, o guardião dessa aurora. Uma aurora de um país sedento por mais cidadania, mais democracia, mais inclusão social. Disse o doutor Ulysses no seu discurso: “A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança”. Uma mudança que construímos todos nós, brasileiras e brasileiros, todos os dias.
Artigo de Dilma Rousseff publicado no jornal Estado de São Paulo.
A História recente do Brasil pode ser contada em uma única frase: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da Constituição”. Sintética como um poema haicai, ampla como um sonho, o artigo 1.º, parágrafo 1.º, da nossa Constituição carrega em si séculos de lutas por um país mais democrático, justo e de oportunidades para todos.
A Constituição que expressa a submissão à vontade do povo em sua primeira frase nasceu 25 anos atrás em um dos momentos mais vibrantes da nossa história. Discussões reprimidas por décadas de autoritarismo e violência do Estado afloraram em dois anos de uma Constituinte multifacetária, igual a da nossa sociedade.
Hoje é comum ouvir a crítica de que nossa Constituição é por demais detalhista, mas esse exagero é explicado pelas circunstâncias. Saímos de um momento de represamento das liberdades individuais para um momento único no qual todos os setores da sociedade se empenharam em debater o que se tornaria lei na nossa Carta Magna. Graças ao trabalho de homens e mulheres dignos, gigantes como Ulysses Guimarães, a Constituição foi fruto de um pacto político de inúmeras forças. O texto final é o mais avançado em termos de direitos sociais e de liberdades individuais da nossa história.
É uma Constituição ambiciosa em direitos e deveres. E nessa justa ambição reside a sua perenidade. Assim como os meus antecessores e, tenho certeza, assim como os meus sucessores, considero a Carta de 1988 um guia que aponta a direção para onde o País deve seguir. Um roteiro para um Brasil mais inclusivo, mais democrático e mais desenvolvido.
Programas de inclusão como o Brasil Sem Miséria/Bolsa Família, de afirmação como o ProUni, de universalização como o Luz e o Água para Todos e de melhoria dos serviços de saúde como o Mais Médicos têm suas sementes no artigo 3.º dos Princípios Fundamentais: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: Erradicar a pobreza e a marginalização; reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
E o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa e o Pronatec são programas que almejam cumprir o princípio constitucional de que a educação é “direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
Os programas de inclusão social, o Sistema Único de Saúde, a liberdade de imprensa, a impessoalidade do serviço público são todas conquistas de 1988. Pela primeira vez na história o meio ambiente ganhou um capítulo específico, no qual o poder público e a coletividade receberam “o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Em seu histórico discurso na promulgação da Constituição, Ulysses Guimarães disse que “esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora”. Cada presidente pós-Constituição foi, a seu jeito, o guardião dessa aurora. Uma aurora de um país sedento por mais cidadania, mais democracia, mais inclusão social. Disse o doutor Ulysses no seu discurso: “A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança”. Uma mudança que construímos todos nós, brasileiras e brasileiros, todos os dias.
Artigo de Dilma Rousseff publicado no jornal Estado de São Paulo.

Descolonização mental sul-americana – por cesar fonseca / são paulo.sp

Descolonização mental sul-americana
Dilma Rousseff deu o tom geral da fala mundial de agora em diante relativamente aos Estados Unidos, desbancando sua arrogância, sem limite, de viver bisbilhotando a vida dos outros, impunemente. O silêncio de Obama em não responder aos ataques dela representou confissão de culpa e incompetência de argumentos pois não se pode justificar o injustificável.

A força das palavras da titular do Planalto coloca em cena nova postura sul-americana diante dos Estados Unidos, que, em crise, não podem mais agir unilateralmente nas questões internacionais, obrigando-se a ouvirem os outros, a contragosto.

O bom da crise mundial é isso aí: a pompa e a prepotência são obrigadas a se renderem aos fatos emergentes de uma nova divisão internacional do trabalho que se ergue no rastro da fragilidade do dólar, colocado nas cordas pelo elevado endividamento do colosso americano, responsável por deixar o mercado financeiro com as barbas de molho quanto a um possível estouro das finanças de Tio Sam.

Completamente imbecil o comentário do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) sobre o discurso da presidenta Dilma Rousseff, na ONU, desancando o presidente Barack Obama.

O parlamentar pernambucano sentiu-se agredido pela enérgica crítica da titular do Planalto à espionagem imperialista americana sobre todos os povos, considerando a questão do ângulo da violação dos direitos humanos.

Vasconcelos considerou ridícula a manifestação dilmista, algo que, segundo ele, não engrandeceu o Brasil no cenário internacional.

Completamente enganado.

Tratou-se, evidentemente, do discurso brasileiro mais importante de todos os tempos naquela Casa, justamente, pela coragem, determinação e ousadia da política externa nacional.

A contundência da presidenta chamou a atenção do mundo.

Os dirigentes mundiais, salvo raras exceções, como Putin, da Rússia, haviam se acomodado a um estilo de tratamento na relação com Tio Sam de subordinação as suas ações, indubitavelmente, desrespeitosas, como se fossem algo normal, aceitável.

A humanidade, covardemente, acostumou, desde final da segunda guerra mundial, a reverenciar, com temor, a potência militar norte-americana, âncora do dólar como equivalente geral das trocas internacionais, empenhada em gerar senhoriagem aos cofres do tesouro dos Estados Unidos, em escala monumental, estabelecendo divisão internacional do trabalho, cujas consequências foram o estabelecimento de um imperialismo econômico sem limites.

Diante dessa força, o normal passou a ser a postura do medo respeitoso diante do qual a sujeição política vergonhosa ganhou ares de lei geral.

Não ser reverente aos mandos e desmandos de Tio Sam implicaria, sempre, em risco perigoso.

Os súditos, conforme essa lei do medo, tinham que abaixarem, ajoelharem, pedir benção ao rei.

Resta ao sobrinho de Tio Sam apenas a postura arrogante de insistir em olhar o mundo por cima, achando que os Estados Unidos são excepcionais, quando, na verdade, essa excepcionalidade se tornou expressão da vulgaridade política dada pelo poder do dinheiro que se esfumaça na grande crise capitalista em que os Estados Unidos se posicionam como o grande responsável por levar seus aliados ao fracasso econômico global. A fala de Obama na ONU foi a de um leão que nem ruge mais para assustar os incautos. Confirmação de uma decadência.

A democracia americana, sempre sintonizada nos interesses econômicos dos Estados Unidos, transformar-se-ia, no compasso do dólar todo poderoso, em senha para intervenções políticas capazes de estabelecer o certo e o errado do ponto de vista de Washington, sem maiores discussões.

A expansão da economia de guerra americana, da segunda metade do século 20 em diante, marcada pelos empréstimos internacionais às economias capitalistas periféricas, para abrirem espaço e oportunidades às empresas americanas de bens duráveis, que haviam, em 1929, entrado em crise nos Estados Unidos, sendo necessária seu transplante para a periferia, veio acompanhada de receitas fiscais e monetárias que deveriam ser fielmente cumpridas.

A terapia a ser seguida era dada de fora para dentro conforme as exigências capazes de promover a reprodução do capital de empréstimo norte-americano.

Repetia-se, no século 20, pelos Estados Unidos, com o dólar, a receita do século 19, imposta pela Inglaterra, com a libra.

De início, mediante dívida externa, as economias periféricas foram dinamizadas por esse capital de empréstimo.

Como, no entanto, o capital produz crônica insuficiência de demanda, no seu processo de acumulação, gerando super-riqueza, num polo, e super-pobreza, no polo oposto, os desequilíbrios decorrentes exigiriam, a seguir, renovações dos empréstimos a juros cada vez mais altos, configurando aquilo que Marx já havia dito, que a dívida externa é instrumento de dominação internacional.

As ordens de Washington, para todos, tinham e têm como pressuposto básico a obediência a essa determinação férrea do capitalismo sobreacumulador de riqueza, fixando, para os seus sócios, nas periferias capitalistas, as regras de dominação a serem cumpridas, rigidamente.

A colonização mental das elites, no comando do poder político, foi construída nessa linha de dominação, em termos peremptórios.

A democracia, nesse contexto, é uma aparência para sustentar a liberdade de exploração econômica colonialista.

As contradições do desenvolvimento desse modelo de dominação econômica, a partir de critérios fixados pelo império a serem seguidos pelas colônias, exigiriam o avanço dos aparatos técnicos de controle cada vez mais draconianos.

A espionagem, nesse contexto, utilizada pelos mecanismos sofisticados, dados pelos avanços científicos e tecnológicos, colocados a serviço da produção, da produtividade e da fiscalização, transformar-se-ia, no processo de dominação, algo, perfeitamente, natural.

Sua aceitação jamais poderia ser questionada.

Questionar esse status quo, que se estendeu como prática de vida, na relação entre o dominador e o dominado, no contexto das relações capitalistas, estabelecidas pelos interesses do primeiro sobre o segundo, representaria algo inimaginável.

No entanto, as bases dessa dominação imperialista, ancorada no desenvolvimento contraditório do capitalismo financeiro, essencialmente, especulativo, não seriam eternas, como foram se comprovando as crises de realização do capital.

Quanto mais ele foi se sobreacumulando, especulativamente, mais foi gerando tensões cujos desenlaces violentos, desestruturadores, deu no que deu: bolhas especulativas , explosivas, destrutivas, ao longo do pós guerra, colocando o império de saia cada vez mais justa.

Até que tudo explodiu, na crise de 2007-2008, repetindo, em proporções maiores, o que já havia acontecido no crash de 1929.

O político nordestino pernambucano que cuida de alimentar uma inveja irracional ao ex-presidente Lula e uma raiva incontida à presidenta Dilma raciocinou como as velhas representações da oligarquia nacional que jamais suportaram a possibilidade de os súditos contrariarem os donos da Casa Grande. Pensou pequeno demais ao se sentir agredido por ter Dilma desancado Obama de sua postura imperial, abusiva aos direitos humanos. Jarbas revelou as razões do porque a oposição brasileira tem sido tão medíocre e despreparada ao não perceber que a diplomacia brasileira marcou um dos seus maiores tentos no plano internacional. Uma vergonha o discurso dele no Senado de avaliação de Dilma na ONU. Tremendo decadente.

O poder econômico e militar norte-americano, na crise de 2007-2008, chegou aos seus limites e sua continuidade, por meio do exercício da especulação financeira, tornou-se insustentável, deixando a moeda norte-americana, sob déficits fiscais crescentes e insuportáveis, totalmente, vulnerável.

As guerras, tão necessárias à reprodução do capitalismo americano, não são mais solução, pois passaram a dividir a sociedade americana, como se vê, no momento, o racha entre os dois principais partidos norte-americanos, a propósito do que fazer com o colossal endividamento dos Estados Unidos, que ameaça a sociedade americana de jogá-la na pobreza, irremediável.

Essa fragilidade não permite mais que Washington continue dando as cartas ao seu bel-prazer, na cena internacional, de forma unilateral.
A crise da Síria está aí para comprovar.

O discurso de Obama, ontem, na ONU, refletiu essas circunstâncias extraordinárias.

O leão, agora, apenas, ruge.

Não tem forças para agir sozinho, a fim de justificar suas ações do modo que julga necessário, sem dar satisfações aos outros.

O ataque de Dilma ao modo de ser de Washington, na tentativa de fazer acontecer do jeito que acha mais conveniente, sem levar em conta interesses dos parceiros, repercutiu forte no mundo e criou bases para novas contestações fortes, daqui para frente.

Os incomodados, ou seja, as elites políticas internas, nas periferias capitalistas, não sabem o que fazer.

Jarbas Vasconcelos refletiu esse desespero elitista de forças políticas subordinadas aos interesses de Washington que não conseguem pensar com a própria cabeça.

Sem a cabeça de Washington, para pensar por elas, se perdem, completamente.

O discurso de Dilma, na ONU, é o brado de independência em favor da descolonização mental sul-americana.

Postado em 29/09/2013 ás 11:5

Luiz Ruffato, discurso do escritor na abertura da Feira do Livro de Frankfurt:

Discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt:

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar A Luiz-Rufatto-Adriana-Vichinossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

 

Obra de Alice Munro tem a profundidade universal

Obra de Alice Munro tem a profundidade universal

Publicado às 13.27

A escritora Lídia Jorge considerou, esta quinta-feira, em declarações à agência Lusa, que a escritora canadiana Alice Munro, galardoada com o Prémio Nobel da Literatura 2013, “tem a arte sucinta da cultura anglo-saxónica, mas a profundidade é universal”.

O nome da vencedora do galardão, no valor de oito milhões de coroas suecas (925 mil euros), foi hoje anunciado, em Estocolmo.

Alice_Munro_teikna_av_Andreas_Vartdal_cc-by-sa_)“Estou muito feliz com esta escolha do júri. É uma boa surpresa”, disse Lídia Jorge à Lusa, recordando que esteve há dois anos no Canadá, onde lhe ofereceram livros da autora.

Alice Munro, 82 anos, nasceu em Wingham, no estado de Ontário, no Canadá, foi galardoada com o Man Booker Prize em 2009 e tem sido apontada pela crítica literária como uma mestre do conto contemporâneo.

Lídia Jorge afirmou que a vencedora “é uma autora muito celebrada e uma grande contista”.

“A relação com o seu passado e a criação das personagens deixou-me uma marca, mostrando que ela é uma autora profundamente conhecedora da alma humana”, descreveu a escritora portuguesa.

Nélida Piñon faz críticas veladas a Luiz Ruffato e a Paulo Coelho

Nélida Piñon faz críticas veladas a Luiz Ruffato e a Paulo Coelho

 

CASSIANO ELEK MACHADO
ENVIADO ESPECIAL A FRANKFURT

“Tenho dois princípios. Não falo mal do meu país fora das fronteiras brasileiras. E não critico meus colegas.” Foi desta forma que a escritora Nélida Piñon sintetizou, na manhã desta quarta (9), sua opinião sobre o discurso de Luiz Ruffato, feito na abertura da Feira de Livro de Frankfurt.

Piñon participou, no pavilhão brasileiro do evento alemão, de debate com o escritor Carlos Heitor Cony, colunista da Folha.

O autor de “Quase Memória” evocou o maior autor da língua inglesa para tratar de outro ponto polêmico, as críticas que foram feitas à escolha dos autores da delegação brasileira. “Nos tempos de Shakespeare ninguém dava bola para ele”, comentou Cony.

A colega de mesa, por sua vez, elogiou o time nacional. “A delegação brasileira está muito bem representada. Houve um propósito de escolher autores de vários grupos estéticos e gerações”, disse, e, sem citar nomes, criticou Paulo Coelho. “Há quem queira ser um árbitro estético. Não há árbitros estéticos.”

Ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Piñon homenageou um dos fundadores da casa, Machado de Assis, “um dos grandes nomes da literatura do século 19, que até recentemente ainda era muito pouco conhecido fora do país”.

A atual presidente da ABL, Ana Maria Machado, que também discursou ontem na abertura oficial do evento, aplaudiu. Além dela, outros autores brasileiros, como a historiadora Mary del Priore e o crítico João Cezar de Castro Rocha, escutaram o debate, batizado “As Convergências da Memória”.

“Toda a vida de uma figura de quem não se diz o nome por aqui, que é Hitler, foi produto de sua memória”, disse Cony, que citou ainda Santo Agostinho: “Memória é a caverna da alma”.

“Os homens são basicamente memória”, complementou, antes de falar sobre alguns dos seus heróis da memória literária: Marcel Proust, James Joyce, Machado de Assis.

Nélida Piñon terminou a fala protestando contra o formato do evento.”Não se deveria fazer leituras dos textos”, disse, em referência ao fato de metade do painel com Cony, de duração total de uma hora, ter sido usado para que trechos de suas obras fossem apresentadas em traduções para o alemão. “Não faz sentido trazer figuras como Cony e a minha modesta pessoa para falarmos só uma linha ou outra”.