Arquivos Mensais: dezembro \31\UTC 2013

2014! O QUE ESPERAR? – por anthony leahy

2014! O QUE ESPERAR?

Já estamos entrando em 2014 e como foi rápido! 2000 era tão distante e misterioso e já estamos em 2014!  E, diferentemente do preconizado pelas obras de ficção científica, em vez de tele-transportes e veículos voadores pessoais; em vez de maquinas do tempo e contatos com outros mundos; em vez da estabilidade gerada em laboratórios no Admirável (?!) Mundo Novo de Huxley; temos a Guerra, a Fome, a Indiferença, a Intolerância … e horrores velhos conhecidos da Humanidade.

Em 2013, acompanhamos, perplexos e passivos, a toda hora e em cada noticiário, o ódio e o seu filho primogênito, o terror! Vimos o orgulho aconselhando-se com a inveja, e esta se associando à perfídia! E as três, juntos, tecendo as rédeas da intriga e gerando mais ódio. Vimos o interesse deformando a verdade, torcendo as consciências e a covardia amordaçando as almas. Vimos o rancor gerando cólera; a cólera gerando violência; e a violência humilhando, escarnecendo e matando.
A Humanidade, paradoxalmente, faz a guerra em nome da paz; mata e persegue em nome de Deuses de amor, perdão, vida e compaixão; cria a tecnologia da comunicação e esquece-se de comunicar-se (“É terrível verificar que nossa tecnologia é maior que nossa humanidade.” já dizia Einstein.). Diminuímos as distâncias e nunca estivemos tão afastados …
E o que esperar de 2014? Temos que tomar consciência de que os tempos vindouros serão esculpidos pela nossa vontade e atitude!  Somos nós que daremos, desde o 1º segundo, a fisionomia do novo ano. Ele é o nosso “ALTER-EGO”, o nosso espelho, a nossa própria personalidade na expressão dos acontecimentos, bons ou maus, que suscitaremos no mundo. Nada podemos esperar dele, visto que é ele que espera e depende de nós…
Lembremo-nos que, ofendendo ao nosso próximo, ofendemos a própria essência humana de que somos participantes. Portanto, todo crime contra um só homem é crime contra toda humanidade. E não existe crime maior e mais covarde do que a indiferença e omissão!  Que nenhum homem se diga digno e justo enquanto existirem pessoas morrendo de fome gritando de dor …
Espero que em 2014 consigamos esculpir a silhueta de um novo futuro, mais humanizado e digno, com menos discursos e mais atitudes. Um futuro plural, onde a palavra-chave seja a tolerância e que consigamos gerar unidade na diversidade.
Que em 2014 possamos, juntos, festejar, entre livros e amigos, a construção desta nova humanidade!

América, América… – de manoel de andrade / curitiba.pr

 

América, América…

Manoel de Andrade

 

 

 

Trago ainda na alma o mapa dos caminhos…

Meus versos riscam teu dorso para cantar um tempo único e perfumado.

América, América,

ali, entre os ramos e o penhasco, o abismo florescido,

acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.

Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta,

é seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.

 

Canto meu enredo de viandante,

passo a passo rumo ao norte e à alvorada.

Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!

A travessia ao entardecer no Titicaca,

o Illimani batido pelo sol,

e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu!

Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,

e tudo me chega como um recanto do passado…

e se hoje digo amigos e digo hermanos,

ouço nossos passos ecoar pelas vielas seculares de Quito e de La Paz.

 

Ai, América, ainda não disse de ti quanto quisera,

abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me o frescor do rocio,

dá-me a magia e o lirismo…,

que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de encanto?

América, América,

Lembro-me do fulgor do teu rosto renascido da utopia,

tuas bandeiras de sonhos

feitas de plumas e veias transparentes.

Os campos todos semeados

e o porvir tatuado em cada gesto.

Tudo era aroma na gleba cultivada,

nos brotos germinava a esperança

e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.

 

Canto a América que vivi,

entre alegrias e lágrimas, canto o continente ao sul de Anahuác.

Falo de uma América primeira,

asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,

essa América materna,

botânica e mineral,

sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.

Falo de uma só pátria,

a grande pátria de Bolívar,

pilhada e violentada,

submetida pelas garras perversas do Império.

Vi tuas trincheiras abertas

e depois as densas trevas caírem sobre o sul.

Sobreveio o chumbo cruel,

os labirintos da dor e as atrocidades.

Na penumbra gemiam os cravos, gemiam as rosas,

e agonizava a vida ainda em botão.

 

Canto para denunciar a verdade sufocada,

e eis que mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry, Videla, Pinochet

e seus rastros genocidas num tempo silenciado.

Canto para dizer das valas clandestinas,

das ossadas do Atacama

e dos “voos da morte” para o mar,

Meu réquiem para trinta mil argentinos,

meu canto para as “crianças da ditadura”,

para os sobreviventes e suas cicatrizes,

para a viuvez e a orfandade

para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.

 

América, América,

quarenta anos se passaram

e tuas feridas ainda emergem da tragédia!

E aqui declino a “operação” perversa dos “condores”

e os seus generais malditos.

Canto por ti, América,

por tuas aldeias de bravos e por teus calvários,

por teu nevado esplendor tantas vezes torturado,

América de tantos massacres e patíbulos,

ouço-te ainda na voz melancólica dos charangos, quenas e zamponhas,

chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.

Uma América de martírios,

estrangulada em Cajamarca,

esquartejada em Cusco,

sacrificada em La Higuera.

executada em Trelew e El Frontón,

e nos rituais da morte em Villa Grimaldi e no Dói-Codi.

 

Por tanta dor nessas memórias

eu  vos peço perdão pelo meu canto.

Ele é também assim: um áspero clarim no entardecer.

Distante, tão distante,

no tempo e nos andares,

e hoje, em busca de mim mesmo,

ainda abrigo o mesmo combativo coração.

Não sei o que te espera, América,

os anos correram inquietantes e velozes

restando um mundo com seu som intolerável.

 

Busco meu íntimo silêncio,

e, por um momento, digo basta…,

meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do Chile.

Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.

Vou em busca de Arauco,

lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.

Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.

Vou para rever o cone nevado do Antuco

rever o vale e a Cordilheira,

o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.

Vou para relembrar uma baía de barcos,

para construir uma paisagem na alma,

uma tenda de luz para um amigo.

 

 

                                    Curitiba, 22 de dezembro de 2.013

NATAL: SUAVE MILAGRE – de eça de queiroz / portugal

“Nesse tempo Jesus ainda não saíra da Galiléia, das margens do lago de Genesaré; mas a nova dos Seus milagres chegara já a Siquém, cidade rica, entre vinhedos, no país de Samaria.
a jesus-nascimento
“Ora, junto a Siquém, num casebre, vivia uma viúva desgraçada entre todas, que tinha um filho doente com as febres. O chão miserável não estava caiado, nem nele havia enxerga. Na lâmpada de barro vermelho secara o azeite. O grão faltava na arca, o ruído dormente do moinho doméstico cessara, e esta era em Israel a evidência cruel de infinita miséria.

“A pobre mãe, sentada a um canto, chorava. E, estendida sobre os joelhos, embrulhada em farrapos, pálida e tremendo, a criança pedia-lhe, numa voz débil como um suspiro, que lhe fosse chamar esse Rabi da Galiléia, de quem ouvira falar junto ao poço de Jacó, que amava as crianças, que nutria as multidões e curava todos os males humanos com a carícia das Suas mãos. E a mãe dizia, chorando:

“— Como queres tu, meu filho, que eu te deixe e vá procurar o Rabi da Galiléia? Obed é rico e tem servos, eu os vi passar, e embalde buscaram Jesus por arraiais e cidades, desde Corazim até o país de Moab. Septimus é forte, tem soldados, e também os vi passar, e perguntavam por Jesus sem O acharem, desde o Hebron até o mar. Como queres tu que eu te deixe? Jesus está longe, e nossa dor está conosco. E sem dúvida o Rabi, que lê nas Sinagogas novas, não escuta as queixas de uma mãe de Samaria, que só sabe ir orar, como outrora, no alto do monte Garizim.

“A criança, com os olhos cerrados, pálida e como morta, murmurou o nome de Jesus, e a mãe, chorando, continuou:

“— De que servirá, meu filho, partir e ir procurá-Lo? Longas são as estradas da Síria, curta é a piedade dos homens. Vendo-me tão pobre e tão só, os cães viriam ladrar-me à porta dos casais. Decerto Jesus morreu e com Ele morreu, uma vez mais, toda a esperança dos tristes.

“Pálida e desfalecida, a criança murmurou de novo:

“— Mamãe, eu queria ver Jesus da Galiléia!

“E logo, abrindo devagar a porta, Jesus, sorrindo, disse-lhe:

“— Aqui estou!”

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA – de zuleika dos reis / são paulo

                              A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA

                                                                                                             Zuleika dos Reis

O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar  de que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do imediato real, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

Por que no meio da dor os negros, dançam, cantam e riem? – por leonardo boff / são paulo.sp

 
 Milhares de pessoa em toda a Africa do Sul misturam choro com dança, festa com lamentos pela morte de Nelson Mandela. É a forma como realizam culturalmente o rito de passagem da vida deste lado para a vida do outro lado, onde estão os anciãos, os sábios e os LEONARDO BOFFguardiães do povo, de seus ritos e das normas éticas. Lá está agora Mandela de forma invisível mas plenamente presente acompanhando o povo que ele tanto ajudou a se libertar. Momentos como estes nos fazem recordar de nossa mais alta ancestralidade humana. Todos temos nossas raízes na Africa, embora a grande maioria o desconheça ou não lhe dê importância. Mas é decisivo que nos reapropriemos de nossas origens, pois elas, de um modo ou de outro, na forma de informação, estão inscritas no nosso código genético e espiritual. Refiro-me aqui tópicos de um texto que há tempos escrevi sob o título:”somos todos africanos” atualizado face à situação atual mudada. De saída importa denunciar a tragédia africana: é o continente mais esquecido e vandalizado das políticas mundiais. Somente suas terras contam. São compradas pelos grandes conglomerados mundiais e pela China para organizar imensas plantações de grãos que devem garantir a alimentação, não da Africa, mas de seus países ou negociadas no mercado especulativo. As famosas “land grabbing” possuem, juntas, a extensão de uma França inteira. Hoje a Africa é uma espécie de espelho retrovisor de como nós humanos pudemos no passado e podemos hoje ainda ser desumanos e terríveis. A atual neo-colonização é mais perversa que a dos séculos passados. Sem olvidar esta tragédia, concentremo-nos na herança africana que se esconde em nós. Hoje é consenso entre os paleontólogos e antropólogos que a aventura da hominização se iniciou na África, cerca de sete milhões de anos atrás. Ela se acelerou passando pelo homo habilis, erectus, neanderthalense até chegar ao homo sapiens cerca de noventa mil anos atrás. Depois de ficar 4,4 milhões de anos em solo africano este se propagou para a Ásia, há sessenta mil anos; para a Europa, há quarenta mil anos; e para as Américas há trinta mil anos. Quer dizer, grande parte da vida humana foi vivida na África, hoje esquecida e desprezada. A África além de ser o lugar geográfico de nossas origens, comparece como o arquétipo primal: o conjunto das marcas, impressas na alma de todo ser humano. Foi na África que este elaborou suas primeiras sensações, onde se articularam as crescentes conexões neurais (cerebralização), brilharam os primeiros pensamentos, irrompeu a criatividade e emergiu a complexidade social que permitiu o surgimento da linguagem e da cultura. O espírito da África, está presente em todos nós. Identifico três eixos principais do espírito da África que podem nos inspirar na superação da crise sistêmica que nos assola. O primeiro é o amor à Mãe Terra, a Mama Africa. Espalhando-se pelos vastos espaços africanos, nossos ancestrais entraram em profunda comunhão com a Terra, sentindo a interconexão que todas as coisas guardam entre si, as águas, as montanhas, os animais, as florestas e as energias cósmicas. Sentiam-se parte desse todo. Precisamos nos reapropriar deste espírito da Terra para salvar Gaia, nossa Mãe e única Casa Comum. O segundo eixo é a matriz relacional (relational matrix no dizer dos antropólogos). Os africanos usam a palavra ubuntu que significa:”eu sou o que sou porque pertenço à comunidade” ou “eu sou o que sou através de você e você é você através de mim”. Todos precisamos uns dos outros; somos interdependentes. O que a física quântica e a nova cosmologia dizem acerca de interconexão de todos com todos é uma evidência para o espírito africano. À essa comunidade pertencem os mortos como Mandela. Eles não vão ao céu, pois o céu não é um lugar geográfico, mas um modo de ser deste nosso mundo. Os mortos continuam no meio do povo como conselheiros e guardiães das tradições sagradas. O terceiro eixo são os rituais e celebrações. Ficamos admirados que se dedique um dia inteiro de orações por Mandela com missas e ritos. Eles sentem Deus na pele, nós ocidentais na cabeça. Por isso dançam e mexem todo o corpo enquanto nós ficamos frios e duros como um cabo de vassoura. Experiências importantes da vida pessoal, social e sazonal são celebrados com ritos, danças, músicas e apresentações de máscaras. Estas representam as energias que podem ser benéficas ou maléficas. É nos rituais que ambas se equilibram e se festeja a primazia do sentido sobre o absurdo. Notoriamente é pelas festas e ritos que a sociedade refaz suas relações e reforça a coesão social. Ademais nem tudo é trabalho e luta. Há a celebração da vida, o resgate das memórias coletivas e a recordação das vitórias sobre ameaças vividas. Apraz-me trazer o testemunho pessoal de um dos nossos mais brilhantes jornalistas, Washington Novaes:”Há alguns anos, na África do Sul, impressionei-me ao ver que bastava se reunirem três ou quatro negros para começarem a cantar e a dançar, com um largo sorriso.Um dia, perguntei a um jovem motorista de táxi:”Seu povo sofreu e ainda sofre muito. Mas basta se juntarem umas poucas pessoas e vocês estão dançando, cantando, rindo. De onde vem tanta força?” E ele: “Com o sofrimento, nós aprendemos que a nossa alegria não pode depender de nada fora de nós. Ela tem de ser só nossa, estar dentro de nós.” Nossa população afrodescendente nos dá a mesma amostra de alegria que nenhum capitalismo e consumismo pode oferecer..
 Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
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Divulgado anteriormente na página de Rodolpho Luiz Dalla Bernardina no facebook.

Contra a imbecilidade do atual anticomunismo – por leonardo boff / são paulo.sp

Contra a imbecilidade do atual anticomunismo

17/12/2013
 LEONARDO BOFF

Mauro Santayana é um dos jornalistas mais eruditos do jornalismo brasileiro. Sempre comprometido com causas humanitárias, contundente e dotado de um estilo de grande elegância. Somos colegas como colunistas do Jornal do Brasil-on line. Recentemente, no dia 17/12/2013, publicou um artigo sob o título HAMEUS PAPAM  com o qual me identifiquei imediantamente. Sofro ataques imbecis de que sou comunista e marxista, como se para um teólogo com 50 anos de atividade, fosse uma banalidade fazer esta acusação. Sou cristão, teólogo e escritor. Marx nunca foi pai nem padrinho da Teologia da Libertação que ajudei a formular. O atual anticomunismo  revela a anemia de espírito e a pobreza de pensamento  que  estão prevalecendo como disfarce para esconder o desastre que significa a economia de mercado, altamente predadora da natureza e agressora de todo tipo de direitos humanos e agora numa crise da qual não sabem como sair. Há tempos o Zürcher Zeitung, o maior jornal suiço e pouco depois o Times diziam que o autor mais lido hoje é Marx. Não só por estudiosos, mas por banqueiros e financistas conscientes que querem saber por que seu sistema foi a falência e por que tem tantas dificuldades em sair dele, se é que encontram uma saída que não signifique mais sacrificio para a natureza (injustiça ecológica) e para a humanidade já sofredora (injustiça social). Hoje mais e mais se percebe que este sistema é anti-vida, anti-democracia e anti-Terra. Se não cuidarmos poderá nos levar a um abismo fatal. É uma reflexão que faço contra meus acusadores gratuitos e faltos de razão. Penso às vezes que Einstein tinha razão quando disse:”Existem dois infinitos:um do universo e outro dos estultos; do primeiro tenho dúvidas, do segundo, absoluta certeza”. Estimo que muitos dos anticomunistas atuais se inscrevem nesse segundo infinito. É fácil serrar árvore caída e convardia chutar cachorro morto. Pensemos, antes, no presente com sentido de responsabilidade, unidos face a um feixe de crises que nos poderá levar a uma tragédia ecológico-social. Como fazer tudo para evitá-la e garantir um futuro comum para todos, inclusive para a nossa civilização e para nossa Casa Comum. Essa é a questão maior a ser pensada e sobre ela inaugurar práticas salvadoras e não distrair-se com discutir um comunismo inexistente, morto e sepultado. LBoff

Bachelet impõe esmagadora vitória sobre a direita latino-americana

Bachelet impõe esmagadora vitória sobre a direita latino-americana

Enviado por  on 16/12/2013 – 9:43 am

Os significados desta vitória certamente irão se refletir no resto do continente. Bachelet representa a esquerda anti-ditadura que hoje governa maior parte da América do Sul.

A socialista terá de reduzir o grande fosso social nas áreas da saúde, educação e participação das mulheres no mercado de trabalho

FRANCISCO PEREGIL, Santiago de Chile 15 DEZ 

 

Venceu a favorita. A socialista Michelle Bachelet, pediatra de 62 anos, separada e com três filhos, presidente do Chile entre 2006 e 2010, voltará novamente a pisar no Palácio de la Moneda como chefe de Estado. E o fará com a honra de ter vencido com a porcentagem de votos mais alta conseguida por um presidente desde o retorno da democracia. A filha do general Alberto Bachelet, morto depois de torturado pelo regime de Augusto Pinochet (1973-1990), candidata da formação de centro-esquerda Nova Maioria, se impôs à economista conservadora Evelyn Matthey, de 60 anos, filha do general pinochetista Fernando Matthey, por 62% a 37,5%, já tendo sido apuradas 96% das urnas.

A vitória perdeu brilho por causa da elevada abstenção registrada nas primeiras eleições presidenciais realizadas sob a lei do voto voluntário. A abstenção ficou em cerca de 60%, 10 pontos acima da constatada no primeiro turno, em 17 de novembro, que já tinha sido elevada.

De acordo com o que determina a Constituição, Bachelet só assumirá o cargo em 11 de março, quando prestará juramento. A partir de então deverá enfrentar o grande desafio da luta contra a desigualdade. Durante os 20 anos em que governou a centro-esquerda e os quatro da direita, nenhum dos presidentes cumpriu a promessa de reformar o sistema educacional, a grande fábrica das desigualdades. Mas em 2011 os estudantes saíram às ruas e depois disso as ruas não pararam de expressar sua indignação. Agora, serão as ruas que examinarão Bachelet.

A imagem que muitos chilenos têm de si mesmos na América Latina é a de melhor aluno, o menino obediente que se esforça para tirar as melhores notas. É só ver o modo como a grande companhia aérea do país, a Lan, organiza as filas nos aeroportos para se dar conta de que durante os últimos anos muitas coisas foram feiras de forma ordenada e meticulosa. Os passageiros das filas 1 a 8 ficam numa ala e os da 8 à 13, em outra. Ninguém fura a fila. E é só ver esse grande monumento ao capitalismo que é o shopping Costanera Center, em Santiago, para perceber que no país o dinheiro está girando. Com seus seis andares e 60 restaurantes, forma parte de um complexo imobiliário que inclui o arranha-céu mais alto da América Latina: 300 metros com 60 andares e 24 elevadores, nos quais se trafega a 6,6 metros por segundo. De algum modo tinha que ser perceptível que o PIB cresceu desde 2010 a um ritmo de 5,5%, 1 ponto acima da média da América Latina, e que o desemprego é só de 5,7%.

Mas os 300 metros da Gran Torre Santiago não podem ocultar o esgotamento de um sistema onde somente os mais ricos conseguem uma educação suficientemente boa para passar nas provas de ingresso nas duas grandes universidades públicas (que também são pagas). O restante dos chilenos se vê obrigado a se endividar para estudar em universidades privadas, na maioria com péssimo nível docente, e seus diplomas de licenciatura não têm prestígio algum. É como se o melhor aluno tivesse passado, ano após ano, sem aprender a dividir. Sem que haja o interesse necessário por conseguir uma melhor divisão da riqueza.

O economista da Fundação Sol Marcos Kremerman apresenta vários dados: ”Os 5% mais ricos da população ganham 257 vezes mais do que os 5% mais pobres. Um estudo feito no início de 2013 pela Universidade do Chile demonstra que o 1% mais rico concentra 31% da renda. Nos Estados Unidos, o 1% fica com 21%, na Alemanha, com 12%. E o lugar onde mais se percebe a desigualdade é na classe trabalhadora: 50% dos trabalhadores ganham menos de 251.000 pesos chilenos (345 euros). A distância entre um diretor geral e um trabalhador com o menor salário supera cem vezes. Isso tem a ver com as instituições existentes no Chile, que foram criadas durante a ditadura.”

A ativista chilena Roxana Miranda, de 46 anos, se candidatou à Presidência no primeiro turno por um partido que se chama precisamente Igualdade. Durante um debate televisionado perguntou aos outros candidatos se sabiam como as mulheres de seu município, a comuna de San Bernardo, na periferia de Santiago, resolviam os problemas dentários. Muitos chilenos ficaram surpresos ao saber que o fazem com uma pasta à base do cravo que se usa como tempero na comida, porque não têm dinheiro para ir ao dentista. Várias entidades de odontologistas confirmaram as palavras de Miranda.

“Na vida cotidiana sempre se tem de pedir fiado, dinheiro não chega para pagar a luz e a água”, disse Miranda. “Temos que decidir entre os filhos qual tem melhor cabeça e, assim, investimos na educação de um deles. As pessoas se endividam com os créditos hipotecários. Os bancos fizeram negócios até com a moradia social. Há apartamentos de 36 metros quadrados que estão sendo pagos em 20 e 30 anos com taxas de juros de 12% e até de 16%.”

E, no entanto, os grandes shoppings como o Costanera Center estão sempre lotados. “Porque as pessoas curam suas depressões no shopping, fazem sua vida endividando-se. Porque todas essas desigualdades se disfarçam com um televisor de plasma. Mas um shopping não pode ser preenchido com um país inteiro. Há milhões de pessoas que só tratam de sobreviver, de chegar ao fim do mês.”

Além de todas as promessas firmadas, a nova presidente terá de ir pagando outra antiga dívida com seu próprio gênero. Apesar de ter no segundo turno duas candidatas presidenciais mulheres, o Chile é um dos países com maios discriminação trabalhista por questão de sexo. AS mulheres recebem 30% menos que os homens. A organização Comunidade Mulher garante que só 3% dos diretores de empresa no Chile São mulheres. Restam quatro anos pela frente. E muito trabalha por fazer.

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– Michelle Bachelet durante a votação. / J. SAENZ (AP)

Ando devagar porque já tive pressa… texto espírita sobre a canção TOCANDO EM FRENTE de almir sater

Ando devagar porque já tive pressa

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa de ter tantas coisas, de
chegar a tantos lugares, pressa do ter, do parecer.

Mas hoje ando a passo lento, pois já entendo que a vida é uma busca de
si mesmo, do ser: ser melhor, ser amável, ser amigo, ser sensível, ser
compassivo, ser caridoso…

Hoje compreendo que é preciso paz para poder sorrir, pois o sorriso
verdadeiro, a felicidade autêntica, vem da paz de espírito, a paz de
consciência, de quem segue o caminho do bem a todo custo.

Entendo também que as chuvas são bem-vindas, e que sem elas não há
floradas, pois é preciso chuva para florir.

A dor nos esculpe a alma, quando bem entendida, quando bem absorvida
nos passos diários da lida.

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa do sucesso a qualquer
custo, pressa de ser popular, de ser o primeiro, de agradar a todos…

Mas hoje ando tranquilo, percebendo mais as manhas e as manhãs, o
sabor das massas e das maçãs, absorvendo a vida em toda sua plenitude.

O viver pode ser o mesmo, as circunstâncias podem permanecer
inalteradas, mas minhas lentes são outras. Enxergo tudo de outra
forma.

E o mais importante de tudo: descobri que para cumprir a vida, para
cumprir meu papel, minha missão aqui, preciso compreender minha
própria marcha.

Sêneca, antigo sábio, afirmou que nenhum vento é a favor para quem não
sabe para onde ir. Então, compreender a marcha é fundamental.
Precisamos saber para onde estamos indo, precisamos saber o que é
nossa marcha, nossa vida.

Só então posso ir tocando em frente, com simplicidade e devoção, com
alegria e coração.

Pois todos temos talento, todos carregamos o dom de ser capaz e ser feliz.

A felicidade não é para poucos, não, é para todos. E cada um a vai
encontrando no seu tempo, no seu momento, da sua forma.

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa de partir, já quis
desistir de tudo, em alguns momentos, mas hoje ando como que em câmera
lenta, com a coragem de quem quer ficar e ver tudo até o fim.

Carrego esse sorriso porque já chorei demais, mas isso não quer dizer
que não voltarei a derramar alguma gota dos olhos. Significa apenas
que os sorrisos serão a regra. A lágrima, exceção.

Ando devagar no passo curto dos meus filhos, pois se resolver andar
acelerado, os deixarei para trás.

Ando devagar para perceber o sabiá cantador, pois se torno minha vida
uma bomba-relógio, passo a não perceber a vida que passa ao largo de
meus passos, e assim, os sabiás passam a não existir mais.

Ando devagar para ainda conseguir olhar onde piso, e não esmagar nada,
nem ninguém com minha desatenção ou deselegância.

Ando devagar para pensar um tanto mais antes de agir, para escolher as
palavras certas, para digerir uma ideia nova, para escolher um
caminho, para silenciar a mim mesmo por alguns instantes.

Ando devagar… Porque já tive pressa.

* * *

A vida é especialmente rica para que se passe por ela, às pressas, sem
atentar para os detalhes.

O mundo é pleno de belezas para que se o percorra aos saltos, sem nos
determos a descobrir as belezas das flores, o segredo das matas, o
encanto das fontes.

Pensemos nisso!

Redação do Momento Espírita, com base na
canção Tocando em frente, de Almir Sater.
Em 28.11.2013.

O general ignorante e o silêncio geral – por luiz claudio cunha / brasilia.df

JANGO E A HISTÓRIA

O general ignorante e o silêncio geral

Por Luiz Cláudio Cunha em 12/12/2013 na edição 776

 

No feérico firmamento da insensatez nacional, a frase mais boçal dos últimos tempos coube a um general de quatro estrelas. No limite da irresponsabilidade, na fronteira da grosseria, no limiar da insubordinação, o general Carlos Bolívar Goellner, 63 anos, atravessou as cerimônias oficiais da semana passada em São Borja (RS) em homenagem ao ex-presidente João Goulart (1919-1976). Supremo comandante do Comando Militar do Sul (CMS), maior guarnição do Exército no país, o general intrometeu-se dando botinadas no enterro com honras militares prestadas a Jango, sepultado pela segunda vez em sua terra natal na mesma data – 6 de dezembro – em que morreu na Argentina, em 1976, ainda no exílio forçado a que o levou o golpe de 1964.

O repórter Carlos Rollsing, do jornal Zero Hora, que cobria a cerimônia, perguntou com argúcia à máxima autoridade que representava o Exército na cerimônia se a sua presença ali representava uma retratação histórica diante do presidente reverenciado. Para surpresa do repórter e de todos à sua volta, o comandante militar do Sul vestiu a esfarrapada farda de combate de meio século atrás e trovejou com inusitada deselegância:

– Nenhuma retratação. Nenhum erro histórico [a reparar]. A história não comete erros. A história é história – espumou o general Goellner.

Mais atento aos petardos da história que o general, o repórter lembrou que o primeiro sepultamento de Jango, em dezembro de 1976, foi realizado às pressas, para atender aos temores do regime militar. A passagem do carro funerário que atravessou a ponte que liga a cidade argentina de Paso de Los Libres à brasileira Uruguaiana, na fronteira, foi duramente negociada entre o coronel da guarnição local e o líder do oposicionista MDB da época, deputado estadual Pedro Simon, hoje senador. Seguindo ordens de Brasília procedentes do Palácio do Planalto de Geisel, o coronel determinara que o esquife de Jango fosse transportado em alta velocidade, para evitar a saudação popular à beira da estrada, e que o cortejo acelerado não parasse nem para reabastecer. Assim foi vencida, em menos de duas horas e meia, a distância de 190 km da rodovia RS-472 que liga Uruguaiana a São Borja, cidade natal e destino derradeiro do ex-presidente.

O repórter de Zero Hora lembrou ao general Goellner que, naquele ritmo acelerado, o primeiro sepultamento de Jango em 1976 não teve, como agora, as honras de chefe de Estado, já que a ditadura não permitiu nem o hasteamento a meio mastro da bandeira nacional. O general não se rendeu:

– Ele não foi enterrado como cidadão comum. Ele nunca deixou de ser presidente. Estamos prestando as honras regulamentares, nada mais do que isso. Não tem nenhuma outra ilação além disso, nem a favor nem contra – esclareceu o militar, com uma frieza glacial que destoava da cálida recepção da cidade ao seu presidente morto.

Rombudo, Goellner descartou a generosa hipótese levantada pelo repórter de que a presença do comandante, ali, poderia representar uma nova era de compreensão histórica para a corporação.

– As instituições não mudam na História. Não há nenhuma modificação em relação ao Exército – resistiu bravamente o general, com os dois coturnos solidamente plantados na intransigência e no imobilismo. O apagão temporal de Goellner impediu que ele recordasse o gesto eloquente de um mês antes, que prova a dramática e inspiradora mudança experimentada pelas Forças Armadas brasileiras, o Exército incluído, com o advento da democracia revogada pelos militares com a deposição de Jango. Em 14 de novembro, Jango voltou a Brasília, de onde fora escorraçado pelas armas em 1964, recebendo as tardias honras militares na presença de três ex-presidentes da República (Lula, Sarney e Collor) e da atual, Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira que pegou em armas contra a ditadura e foi por ela presa e torturada. Na terceira fila de cadeiras reservadas às autoridades no hangar da Base Aérea de Brasília sentaram-se lado a lado os três comandantes militares – o brigadeiro Juniti Saito, o almirante Júlio Soares de Moura Neto e o general Enzo Martins Peri, subordinado de Dilma e chefe de Goellner.

Na segunda fila, na cadeira logo à frente do general, estava sentado o seu colega de ministério, Fernando Pimentel, titular da pasta do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. No início da década de 1970, o Exército que Peri hoje comanda prendeu e torturou Pimentel, um jovem de 19 anos que militou sucessivamente nos grupos de ação armada Colina, VPR e VAR-Palmares, onde lutava ao lado da guerrilheira Dilma Rousseff, atual comandante-em-chefe das Forças Armadas. Nessa condição, todos os generais da democracia – incluindo Peri e Goellner – batem agora continência para a atual presidente da República, por dever constitucional e subordinação aos rígidos regimentos militares. Se o obtuso comandante militar do Sul ignora tudo isso como uma saudável modificação do Exército é porque não entende o que é História e não compreende o que é sua própria corporação.

Manda e obedece

Em São Borja, em dezembro, o general Goellner, distribuiu grosserias. Um mês antes, em Brasília, Dilma, sua comandante-em-chefe, colocou flores sobre o caixão de Jango, ao lado da viúva, Maria Teresa, num ato de emoção e elegância que resume as mudanças históricas que os antolhos do comandante do Sul não conseguem perceber, após tanto tempo. Bastaria prestar atenção às três mensagens eloquentes que a antenada Dilma transmitiu pelo Twitter, momentos antes de receber os restos de Jango em Brasília: “Uma democracia que se consolida com este gesto histórico. Essa cerimônia que o Estado brasileiro promove hoje com a memória de João Goulart é uma afirmação da nossa democracia. Este é um gesto do Estado brasileiro para homenagear o ex-presidente João Goulart e sua memória”, lembrou a presidente.

Ainda em São Borja, a fala mal-educada do general foi contestada por quatro políticos civis, procurados imediatamente pelo atento repórter de Zero Hora. Autores da resolução do Congresso que há duas semanas anulou a farsa parlamentar de abril de 1964, declarando vaga a presidência quando Jango ainda estava em Porto Alegre, os senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Pedro Simon (PMDB-RS) sacaram da ironia. “O que se faz aqui é a correção de um grave erro histórico. A História é um trem alegre que atropela todo aquele que a negue”, disparou Randolfe. “Faz bem o comandante em dizer isso. Ele acerta em citar o regulamento. A presidente manda e ele obedece”, reforçou Simon, falando ao lado do general, que ouviu tudo e não disse nada.

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro, nascido em São Borja como Jango, foi ainda mais ferino: “Acho muito bom quando os militares falam só sobre regimento. Fez muito bem o comandante, cujo nome eu não sei. Militar é para falar sobre regulamento, regimento, essas coisas. Política é para o povo falar e para os líderes políticos. Do ponto de vista do regimento, é um ato formal. Do ponto de vista do Brasil, é um grande acontecimento, cívico e emotivo”.

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, que ali representava a Presidência da República, insinuou uma transgressão disciplinar, a ser considerada pelos comandantes do general: “Os militares respondem, pela hierarquia, a seus superiores. Certamente, as declarações dessa pessoa, pelas funções importantes que exerce, deverão ser analisadas pelos seus superiores”.

Foi eloquente a troca de guarda nas homenagens de Brasília e de São Borja. Na capital, pelotões de honra das três Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – prestaram honras de chefe de Estado a Jango, na presença de seus comandantes e da presidente Dilma Rousseff. Na cidade natal de Jango, cerraram fileiras nas homenagens ao ex-presidente só os soldados da Brigada Militar, a força pública estadual, com uma tropa de 25 mil efetivos, a metade da guarnição militar do Sul comandada por Goellner.

Apesar da presença do general, o Exército manteve-se ostensivamente ausente e distante em São Borja. O silêncio mais eloquente, porém, foi o da imprensa brasileira, que não repercutiu a áspera declaração do general. Nenhum grande veículo de Rio e São Paulo, nenhuma rede de TV, nenhum portal na internet, nenhum editorial, nenhum blog sujinho ou limpinho deu importância ao que disse Goellner, que não é um militar qualquer.

Gaúcho como Jango, mas nascido em Santa Maria, Goellner comanda a maior concentração de tropas do Exército brasileiro, mais de 50 mil homens, um quarto do efetivo total do país. No Comando Militar do Sul, antes conhecido como III Exército, Goellner chefia 18 oficiais-generais, 160 organizações militares, 20 Tiros de Guerra, 100% da artilharia autopropulsada, 75% da artilharia geral e 90% dos 1.645 tanques de guerra de toda a força terrestre brasileira – incluindo os blindados alemães Leopard, os americanos Patton e M-113 e os brasileiros Urutu e Cascavel.

General na gangorra

A silente imprensa brasileira perdeu a chance de contar que o palavroso Goellner é muito mais do que o general com maior poder de fogo do Exército brasileiro. Ele também é, ou era, uma estrela em ascensão no opaco firmamento militar. Até o desastrado bombardeio verbal de São Borja, Goellner era cotado como o provável sucessor de Enzo Peri no Comando do Exército. Os antecedentes até recomendavam o seu nome. Goellner, nome recentíssimo no Alto Comando do Exército, ganhou sua quarta estrela em março de 2011, concedida justamente por Dilma em sua primeira promoção de generais, três meses após assumir a presidência.

Goellner formou-se cadete em Campinas, ingressando no Exército em 1967, três anos após o golpe, e tornou-se aspirante a oficial da Infantaria pela Academia Militar de Agulhas Negras em dezembro de 1972, quando o general Médici cuspia ferro e fogo na fase mais sangrenta da ditadura. Até pela tenra idade, Goellner passou incólume pelos porões da repressão e pelos horrores da ditadura que começou com a deposição de Jango, que o general ainda hoje não considera um “erro histórico”, passível de qualquer retratação.

O surto de amnésia do general impediu que ele lembrasse episódios marcantes que comprovam clamorosos erros da História – que até as O Globo assumiu, em setembro passado, ao expressar um inesperado mea culpa pelo equivocado apoio ao golpe militar de 1964. O distraído Goellner erra ao dizer que a História, como construção coletiva do homem, não comete erros. A humanidade acerta o passo, e o general deveria fazer o mesmo, quando reconhece erros brutais que ainda hoje envergonham o mundo civilizado. Erros que gritam na consciência de todos, como a escravidão (abolida só no final do século 19 no Brasil, o último país escravocrata do mundo), a exploração colonialista, a nada santa Inquisição da igreja católica, o nazifascismo, a morte em escala industrial do Holocausto, os conflitos regionais, as duas guerras mundiais, os horrores dos gulags do stalinismo, a segregação do apartheid na África e nos Estados Unidos, a perseguição do macarthismo, a truculência das ditaduras do Cone Sul, a repressão coordenada da Operação Condor, a tortura e a censura – alguns desses erros, para espanto do general, cometidos com a efetiva participação de militares do Exército brasileiro, para horror de Goellner.

O próprio Exército de Goellner errou e acertou, na gangorra da História. Sustentou a ditadura do Estado Novo getulista, flertou com o III Reich que embevecia o ministro da Guerra (Eurico Gaspar Dutra) e o chefe do Estado-Maior do Exército (Góis Monteiro) de Getúlio Vargas, cerrou fileiras com os Aliados na jornada italiana da FEB na guerra contra o nazifascismo, impediu a quartelada de 1955 que tentava barrar a posse do presidente eleito Juscelino Kubitscheck. Até o III Exército que Goellner hoje comanda, com outro nome, teve seus altos e baixos. Acertou ao apoiar o povo gaúcho e o governador Leonel Brizola, em 1961, na Campanha da Legalidade em defesa do mandato de João Goulart. Errou, três anos depois, ao se engajar na conspiração golpista que derrubou o mesmo Jango cuja posse tinha assegurado. Fica provado, assim, que a História comete erros – e o general Goellner, também.

A fala desastrada no enterro de São Borja pode ter sepultado, de vez, as chances do general de chegar ao topo da carreira como comandante do Exército. Mas isso é pouco para a afronta praticada por Goellner, que passou batida pelo silêncio obsequioso a quem ele deve satisfação e subordinação. Ninguém em Brasília contestou o general – seja pela inoportunidade, seja pela grosseria, seja pelo imperdoável deslize histórico. Nem o comandante do Exército, general Enzo Peri, seu chefe imediato. Nem o ministro da Defesa, Celso Amorim, chefe dos dois. Nem a presidente Dilma Rousseff, chefe suprema dos três. Todos se calaram, talvez pela conveniência de engolir o desaforo para evitar maiores sobressaltos políticos, especialmente num período pré-eleitoral que não recomenda marolas, especialmente em torno dos quartéis.

O Palácio do Planalto pode ter desistido de puxar as orelhas do general, ostensivamente, para puxar discretamente o tapete de Goellner como futuro comandante da força terrestre. O chilique autoritário do general passou ileso, também, pelo crivo de instituições e entidades comprometidas com a defesa da verdade, dos direitos humanos e da democracia, como o Congresso Nacional, a OAB, a ABI, a Fenaj e até a Comissão Nacional da Verdade. Ninguém pareceu se incomodar com os disparates pronunciados em São Borja pelo comandante do sul.

Corações e mentes

O episódio envolvendo o general mais poderoso do Exército brasileiro, contudo, revelou a dificuldade que os militares brasileiros têm, em plena democracia, para digerir o passado e aceitar as circunstâncias ainda constrangedoras de uma ditadura distante que não exerceram, mas que protegem com um insensato sentimento corporativo. Goellner, um general de ficha limpa diante dos abusos do regime que ele viu nascer antes de completar 14 anos e que viu morrer aos 35, é mais um dos chefes militares entrincheirados na defesa incongruente de um regime de força carcomido pelo tempo e emparedado pela democracia. Os generais, antes apenas incomodados, agora se mostram ostensivamente irritados com a cobrança por verdade e justiça, como revela a irada reação do comandante militar do Sul.

Um exemplo gritante dessa hostilidade surgiu no início de dezembro, com um depoimento reservado de 92 minutos prestado em 12 de novembro à Comissão Nacional da Verdade (CNV), no Rio de Janeiro, pelo general de brigada (reserva) Álvaro de Souza Pinheiro, 69 anos, nascido em Cuiabá (MT) e veterano dos combates à Guerrilha do Araguaia, no início da década de 1970. O texto foi recuperado pelo experiente repórter Vasconcelos Quadros, do portal iG. Antes de depor, o general expôs seu compromisso, com uma elegância peculiar, numa mensagem distribuída aos “companheiros leais”, dizendo-se preparado:

“Preparado para dizer a estes comunistas de merda, em alto e bom tom, seguro e muito firme, que orgulho-me profundamente de ter integrando as Forças Especiais do Exército Brasileiro, participado decisivamente do combate contra a subversão e o terrorismo no Brasil. E, afirmar-lhes, olho no olho, que esta Comissão que, pela sua parcialidade, nada tem de Verdade; que ela é, verdadeiramente, da Infâmia, Calúnia e Difamação. Nesse contexto, não lhe reconheço nenhuma legitimidade para questionar-me em qualquer tema, razão pela qual nada mais terei a declarar.”

Embora desdenhando da CNV, o general Pinheiro admitiu que os guerrilheiros mortos na selva foram identificados e enterrados em locais conhecidos, mas se recusou a dar qualquer informação: “Não vou confirmar nada a comissão nenhuma. Nem o papa me obrigaria”, disse o general, escancarando o pacto de silêncio da caserna que está acima das questões de Estado. “ rindo. Não tenho nenhum interesse nisso. O que me interessa é que o Exército resolveu o problema grave de um foco terrorista num ambiente de selva”, respondeu, resumindo a dificuldade da Comissão da Verdade em resgatar o passado de violência da ditadura.

Quando entrou na mata para combater a guerrilha, Pinheiro era primeiro-tenente e lá combateu num total de 247 dias. Levou um tiro na clavícula, disparado pelo guerrilheiro Bergson Gurjão Faria, morto dias depois pela equipe de Pinheiro no Araguaia. Os restos de Bergson foram identificados em 2009.

À Comissão da Verdade, o general Pinheiro explicitou a posição contrária dos militares ao conhecimento da verdade: “Não falta radical tresloucado que queira acertar contas do passado. Mas não é qualquer vagabundo que vai me pegar, nem a investida de policiais do governo”, disse Pinheiro, no tom desafiador que lembra o general do Sul. A diferença é que o general Pinheiro esteve no Araguaia e tem o que esconder. O general Goellner, não.

É ilusão imaginar que Pinheiro seja peça de museu, escondido em casa e camuflado com o pijama e as pantufas confortáveis da reserva. O general está ativo, circulante e muito, muito ouvido. Em abril passado, deu instrução sobre “Operações de Informação” aos oficiais do 2º ano do curso de Comando e Estado-Maior (Ccem) na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. É a escola que prepara os corações e mentes dos capitães e majores que, promovidos a coronéis, vão integrar os grandes comandos do país. Em maio, estava no Sul, na jurisdição do general Goellner, falando aos oficiais, subtenentes e sargentos do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado de São Leopoldo, na Grande Porto Alegre, sobre “Operações contra Forças Irregulares e Terrorismo”.

Com o sucesso de público e crítica do general da reserva Pinheiro nos quartéis de um Brasil democrático há 28 anos, é mais fácil entender porque o general da ativa Goellner ainda acredita que a História não comete erros. Na página do batalhão de São Leopoldo, o general Pinheiro é apresentado como “um dos maiores especialistas em operações de combate ao terrorismo”.

Um ex-capitão do 1º Batalhão de Forças Especiais, Dalton Roberto de Melo Franco, contudo, apresenta uma nova faceta de Pinheiro, com quem serviu quando ele ainda era coronel, em 1989. No ano anterior, os metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) iniciaram uma greve e ocuparam a usina no dia 7 de novembro. Dois dias depois, com autorização do presidente José Sarney, o Exército invadiu o local.

No tiroteio, morreram três operários e 46 ficaram feridos. Em 1989, no 1º de Maio, um memorial projetado por Oscar Niemeyer foi inaugurado na praça em homenagem aos três mortos.

Algumas horas depois, na madrugada do dia 2, uma bomba derrubou o monumento, que ficou tombado para frente, preso apenas pelo ferro da armação. Na ocasião, Niemeyer fez questão de reinaugurar o monumento mantendo as marcas da violência, apenas erguendo o que foi derrubado, na intenção de preservar o atentado para sempre na memória.

Dez anos depois, em março de 1999, o ex-capitão Dalton deu uma bombástica entrevista ao Jornal do Brasil,dizendo ter sido punido e expulso do Exército porque se recusou a participar do atentado contra o memorial. Ele disse ter integrado um grupo de oficiais das Forças Especiais infiltrado na CSN para vigiar os líderes da greve. O ex-capitão disse ao JB ter recebido uma ordem de seu chefe no destacamento, o então coronel Álvaro de Souza Pinheiro, para explodir o monumento. Dalton pediu a ordem por escrito e foi excluído da operação. “A dinamite foi dada pelos bicheiros do Rio e tirada de pedreiras da Baixada Fluminense. Eles ajudaram a montar um paiol com munição que depois seria usada em várias operações irregulares”, disse o capitão Dalton ao Jornal do Brasil.

O ex-coronel Pinheiro, hoje general, agora ri porque o Exército resolveu “o problema grave de um foco terrorista num ambiente de selva”. Sobre os focos urbanos em Volta Redonda, ele nada fala, até porque o silêncio é um dogma quase divino. Pinheiro, acintoso, avisa que não confirmará nada a nenhuma comissão, nem que o papa obrigue. Goellner, presunçoso, continua acreditando que a História não comete erros.

Os dois generais, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, representam as duas faces do mesmo problema. Um não diz o que sabe. O outro não sabe o que diz.

Por omissão ou precipitação, um e outro acabam cometendo um erro continuado que recai sobre o Exército e frustra o país, cada vez menos paciente com a boçalidade, cada vez mais necessitado da verdade.

O ANO DE 1968 E O AI-5 – por manoel de andrade / curitiba.pr

        O ANO DE 1968 E O AI-5

 

                                                                                                                        Manoel de AndradeMANOEL DE ANDRADE - FOTO DELE - IMG_7355

Nos últimos dias de março de 1968 o meio estudantil estava fervendo com a revolta pela morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, ferido mortalmente com um tiro no coração, pela polícia do Rio de Janeiro, no restaurante universitário Calabouço. Entretanto, esse não seria um fato isolado na agenda do movimento estudantil no histórico calendário daquele ano. Na verdade, o ano de 1968, no Brasil e no Mundo, deixou um registro indelével em todos aqueles que aninhavam na alma o sonho de um mundo melhor. No plano internacional, o ano começara com a auspiciosa notícia, em 05 de janeiro, de amplas reformas e a volta da liberdade de expressão na Tchecoslováquia. Procurando distanciar-se do stalinismo e do autoritarismo de Moscou, o político Alexander Dubcek, acenava para seu povo com o tão sonhado socialismo humanitário. Era a chamada Primavera de Praga, cujas flores se abriram deslumbrantes para o país e para o mundo, mas seus frutos não chegariam a amadurecer. Por outro lado, ainda em janeiro, uma importante notícia corre o planeta: as tropas americanas começam a ser batidas no Vietnã pela ofensiva vietcongue, chamando a atenção internacional e do próprio povo norte-americano, que começa a reagir contra a crescente participação militar dos EUA na guerra.

Enquanto isso, também em janeiro, no que tange ao Brasil, é gratificante relembrar que o PC do B — antecipando-se a uma dezena de siglas revolucionárias que no transcorrer do ano iriam recrutar quadros para combater a ditadura  —  já localizava seus primeiros militantes às margens do rio Araguaia, com o objetivo de politizar os trabalhadores da região, para uma guerra revolucionária contra o Regime Militar.

Na agenda de 1968, um fato lamentável enlutou a história do Ocidente: o assassinato, em abril, de Martin Luther King marcava a interrupção do seu acalentado sonho de que brancos e negros se sentassem um dia na mesma mesa da fraternidade e que a sua pátria oprimida pela segregação se transformasse num oásis de liberdade e de justiça. E quando agosto chegou, novamente o luto tingiu nossas bandeiras. Apesar do apoio do presidente Tito da Iugoslávia e Ceaucescu, da Romênia, sete mil e quinhentos tanques e duzentos mil soldados do Pacto de Varsóvia fazem murchar as flores da Primavera de Praga e suas sementes somente germinariam vinte anos depois — quando o estrondo da queda do Muro de Berlim, em 09 de novembro de 1989, ecoou uma semana depois sobre o massacrado sentimento nacional do povo tcheco — florescendo novamente num pacífico levante popular, conhecido como Revolução de Veludo, que traria novamente Dubcek ao poder, agora já sem os sonhos de um mundo socialista, mas de um mundo que ressurgia identificado com os princípios do liberalismo, consolidando  a ganância do capitalismo através da marcha inexorável para a  globalização. À margem desses grandes registros, o ano de 1968 tem outra agenda, onde a contracultura corre paralela com os seus paradigmas equivocados e os fatos políticos noticiam, em junho, o assassinato do senador Robert Kennedy e a eleição de De Gaulle. Em setembro, chega ao fim os 42 anos da violenta ditadura de António de Oliveira Salazar e Richard Nixon é eleito, em novembro, presidente dos Estados Unidos.

No Brasil, o ano de 1968 não terminaria, como bem sentenciou  Zuenir Ventura, ao titular seu livro. O mês de dezembro começa com o teatro Opinião destruído, no Rio de Janeiro, pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e no dia 12, a negação da Câmara dos Deputados para processar o deputado Márcio Moreira Alves, abre a maior crise política da República, depois da Era Vargas. As Forças Armadas e a Polícia Federal entram em prontidão e no dia seguinte é decretado o AI-5, com o fechamento do Congresso, a súbita paralisação da vida nacional e todas as trágicas consequências que sangrariam o país por vinte e um anos.

 

.      Como todos sabem, as novas medidas arracaram as bandeiras de luta das mãos do estudantes e tantas outras foram visivelmente arriadas em 13 de dezembro daquele ano, ante as medidas de repressão sancionadas, que mergulharia o país em mais 17 anos de escuridão.

O AI-5 sufocou os últimos suspiros da democracia. Fechou o Congresso, rasgou a Constituição, amordaçou a imprensa, suspendeu o hábeas corpus, cassou políticos, demitiu funcionários, transferiu e reformou militares, foi enchendo as prisões e esvaziando os horizontes democráticos. Abriu os caminhos do anonimato, os becos da clandestinidade e a via crucis da perseguição, da incomunicabilidade, da tortura, do desaparecimento e da morte. 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           O AI-5 foi o golpe no golpe e deixou os grupos de esquerda de “orelha em pé”. Ainda assim, a liderança sobrevivente da UNE que, em 12 de outubro tinha sofrido um irrecuperável revés, com a prisão de 920 estudantes no seu trigésimo Congresso, na localidade paulista de Ibiúna, resolve fazer, no dia 17 de dezembro, quatro dias depois da vigência do AI-5, uma reunião regional em Curitiba. O local escolhido foi a chamada Chácara do Alemão, no bairro Boqueirão. Os agentes infiltrados no movimento estudantil do Paraná levantaram as informações. O local foi cercado e 42 lideranças foram presas. Entre eles o cearense João de Paula, membro da UNE, que não fora a Ibiúna, Berto Luiz Curvo, presidente da UPE (União Paranaense de Estudantes) e Vitório Sorotiuk, presidente do DCE (Diretório Central dos Estudantes).  O saldo anual do movimento era inquietante e fechava no vermelho.  Milhares de estudantes presos em todo o país e aqui, em Curitiba, amigos e velhos companheiros de luta estudantil foram mantidos incomunicáveis, dos quais cinco seriam condenados a dois anos de prisão e, dez deles, a quatro anos.

O ano terminava nesse impasse, já sem esperanças de reconquistar o estado de direito pelos meios democráticos. O AI-5 fechou todas as saídas pacíficas de mudanças e abriu as portas da clandestinidade e da luta armada. Não restou outro caminho para a militância estudantil fora das organizações revolucionárias que começavam a surgir. No artigo A Passeata dos Cem Mil, publicado neste site em maio de 2008, eu ressaltei que

Seus sonhos de mudar o mundo começaram muito antes, quando em 1961 a UNE fundou o CPC (Centro Popular de Cultura) cujo propósito era despertar pacificamente, com a arte, a consciência política do povo. Sob a direção do dramaturgo Oduvaldo Viana Filho (o Vianinha) foram encenadas dezenas de peças, publicados livros, produzidos filmes e discos e promovidos shows, cursos e debates. Nesta saga cultural sem precedentes da nossa história se engajaram, ao lado de estudantes, artistas e intelectuais, figuras emblemáticas do teatro brasileiro como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.

     Quando as sementes dessa utopia começavam a abrir suas flores e a colher seus frutos com a presença cada vez mais contagiante da população em seus espetáculos, o golpe militar de 64 colocou a UNE na ilegalidade e toda esta fogueira de sonhos e esperanças, cujo imenso clarão iluminou a geração de nossos anos dourados, foi abafada bruscamente pelo manto tenebroso da opressão. Quando no fim de 68 arrancaram das mãos do Movimento Estudantil as suas últimas bandeiras democráticas, não lhes restou outra expressão de bom combate que não fosse a luta armada. O que aconteceu depois todos nós sabemos. Centenas deles foram presos, barbaramente torturados e mortos nas prisões do Regime Militar. Deram a vida para que sobrevivesse um sonho e para que continuassem abertas as trincheiras de luta que  escavaram em nome de um homem novo e de um mundo melhor. Esta é a triste memória que a história recente do país tenta resgatar pelos depoimentos dos que sobreviveram, pela escavação dos cemitérios clandestinos e na voz silenciosa dos desaparecidos. Eu bem quisera enumerar aqui os nomes da bravura. Dos que resistiram até o último golpe e caíram aureolados com a coroa do martírio. Mas todos os seus nomes somente podem ser escritos com a dimensão da palavra: legião.

      Porque sempre faltaria ainda um nome ou um codinome de alguém cujo coração materno poderia  derramar a derradeira lágrima, motivada pelo meu esquecimento”.

(*) Este texto é um fragmento do livro NOS RASTROS DA UTOPIA: Uma memória crítica da América Latina nos anos 70, a ser lançado em 19 março de 2.014, em Curitiba

A agonia do colesterol – por drauzio varela – são paulo/sp

A agonia do colesterol

Drauzio Varella

Nunca me convenci de que essa obsessão para abaixar o colesterol às custas de remédio aumentasse a longevidade de pessoas saudáveis.

Essa crença –que fez das estatinas o maior sucesso comercial da história da medicina– tomou conta da cardiologia a partir de dois estudos observacionais: Seven Cities e Framingham, iniciados nos anos 1950.

Considerados tendenciosos por vários especialistas, o Seven Cities pretendeu demonstrar que os ataques cardíacos estariam ligados ao consumo de gordura animal, enquanto o Framingham concluiu que eles guardariam relação direta com o colesterol.

A partir dos anos 1980, o aparecimento das estatinas (drogas que reduzem os níveis de colesterol) abafou as vozes discordantes, e a classe médica foi tomada por um furor anticolesterol que contagiou a população. Hoje, todos se preocupam com os alimentos gordurosos e tratam com intimidade o “bom” (HDL) e o “mau” colesterol (LDL).

As diretrizes americanas publicadas em 2001 recomendavam manter o LDL abaixo de cem a qualquer preço. Ainda que fosse preciso quadruplicar a dose de estatina ou combiná-la com outras drogas, sem nenhuma evidência científica que justificasse tal conduta.

Apenas nos Estados Unidos, esse alvo absolutamente arbitrário fez o número de usuários de estatinas saltar de 13 milhões para 36 milhões. Nenhum estudo posterior, patrocinado ou não pela indústria, conseguiu demonstrar que essa estratégia fez cair a mortalidade por doença cardiovascular.

Cardiologistas radicais foram mais longe: o LDL deveria ser mantido abaixo de 70, alvo inacessível a mortais como você e eu. Seríamos tantos os candidatos ao tratamento, que sairia mais barato acrescentar estatina ao suprimento de água domiciliar, conforme sugeriu um eminente professor americano.

Pois bem. Depois de cinco anos de análises dos estudos mais recentes, a American Heart Association e a American College of Cardiology, entidades sem fins lucrativos, mas que recebem auxílios generosos da indústria farmacêutica, atualizaram as diretrizes de 2001.

Pasme, leitor de inteligência mediana como eu. Segundo elas, os níveis de colesterol não interessam mais.

Portanto, se seu LDL é alto não fique aflito para reduzi-lo: o risco de sofrer ataque cardíaco ou derrame cerebral não será modificado. Em português mais claro, esqueça tudo o que foi dito nos últimos 30 anos.

A indústria não sofrerá prejuízos, no entanto: as estatinas devem até ampliar sua participação no mercado. Agora serão prescritas para a multidão daqueles com mais de 7,5% de chance de sofrer ataque cardíaco ou derrame cerebral nos dez anos seguintes, risco calculado a partir de uma fórmula nova que já recebe críticas dos especialistas.

Se reduzir os níveis de colesterol não confere proteção, por que insistir nas estatinas? Porque elas têm ações anti-inflamatórias e estabilizadoras das placas de aterosclerose, que podem dificultar o desprendimento de coágulos capazes de obstruir artérias menores.

O argumento é consistente, mas qual o custo-benefício?

Recém-publicado no “British Medical Journal”, um artigo baseado nos mesmos estudos avaliados pelas diretrizes mostrou que naqueles com menos de 20% de risco em dez anos as estatinas não reduzem o número de mortes nem de eventos mais graves. Nesse grupo seria necessário tratar 140 pessoas para evitar um caso de infarto do miocárdio ou de derrame cerebral não fatais.

Ou seja, 139 tomarão inutilmente medicamentos caros que em até 20% dos casos podem provocar dores musculares, problemas gastrointestinais, distúrbios de sono e de memória e disfunção erétil.

A indicação de estatina no diabetes e para quem já sofreu ataque cardíaco, por enquanto, resiste às críticas.

Se você, leitor com boa saúde, toma remédio para o colesterol, converse com seu médico, mas esteja certo de que ele conhece a literatura e leu com espírito crítico as 32 páginas das novas diretrizes citadas nesta coluna.

Preste atenção: mais de 80% dos ataques cardíacos ocorrem por conta do cigarro, vida sedentária, obesidade, pressão alta e diabetes. Imaginar ser possível evitá-los sentado na poltrona, às custas de uma pílula para abaixar o colesterol, é pensamento mágico.

drauzio varellaDrauzio Varella é médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro “Estação Carandiru” (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de “Ilustrada”.

Os 10% mais ricos concentram 42% da renda no país, indica IBGE

Por Diogo Martins | Valor

Marcelo Camargo/ABr

RIO  –  Os 10% mais pobres da população brasileira detinham apenas 1,1% da renda total do país, ao passo que os 10% mais ricos possuíam 41,9% do rendimento nacional em 2012. É o que aponta a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2012, a SIS apurou que, entre 2004 e 2012, houve melhora na distribuição de renda no período, “mas não suficiente para alterar substancialmente o quadro de desigualdades de renda do país”. Em 2004, a disparidade era maior, com os 10% mais ricos concentrando 45,3% da renda do país e os 10% mais pobres com apenas 0,9%. Na escala mais alta, entretanto, nada mudou. Em 2004, 13% da renda do país estava na mão do 1% mais rico. Em 2012, essa parcela da população detinha 12,9% da renda. A apropriação de renda pelas camadas mais pobres “permanece extremamente desigual”, afirmam os especialistas do IBGE no estudo.

Segundo o levantamento, considerando o rendimento mensal familiar per capita, no grupo que agrega a população 10% mais pobre estão 14,1% do contingente de pretos e pardos e 5,3% dos brancos.

As posições se invertem quando se trata do grupo formado pelos 10% dos brasileiros mais ricos, onde estão 15,9% da população branca e 4,8% dos pardos.

O Índice de Gini – indicador utilizado para mensurar a desigualdade de rendimentos e que varia de zero a um, sendo “um” o valor de máxima desigualdade – ficou em 0,507 no país em 2012. O índice não apresentou variação frente a 2011, mas ficou mais baixo que o 0,556 de 2004. Assim, o índice mostra leve redução da desigualdade.

A SIS também observou que 6,4% das famílias tinham até um quarto de salário mínimo per capita de rendimento familiar. Já 14,6% das famílias estavam na faixa de um quarto a meio salário mínimo per capita.

Em dez anos aumentou a participação das transferências de renda governamentais – chamadas de outras fontes – nos rendimentos dos mais pobres. Entre 2002 e 2012, a participação do rendimento de outras fontes no total de rendimento para o grupo de até um quarto de salário mínimo passou de 14,3% para 36,3%, enquanto para as famílias com rendimento per capita de mais de um quarto a meio salário mínimo per capita passou de 6,5% para 12,9%.

 

Shopping Vitória: corpos negros no lugar errado – por douglas belchior / vitória-es

jovens-no-chão-presos-em-Vitória

Sábado, 30 de novembro, fim de tarde. Várias viaturas da Polícia Militar, Rotam e Batalhão de Missões Especiais cercaram o Shopping Vitória, na Enseada do Suá, no Espírito Santo. Missão: proteger lojistas e consumidores ameaçados por uma gente preta, pobre e funkeira que, “soube-se depois”, não ocuparam o shopping para consumir ou saquear, mas para se proteger da violência da tropa da PM que acabara de encerrar a força o baile Funk que acontecia no Pier ao lado.

Amedrontados, lojistas e consumidores chamaram a polícia e o que se viu foram cenas clássicas de racismo: Nenhum registro de violência, depredação ou qualquer tipo de crime.  Absolutamente nada além da presença física. Nada além do corpo negro, em quantidade e forma inaceitável para aquele lugar, território de gente branca, de fala contida, de roupa adequada.

E a fila indiana; e as mãos na cabeça; e o corpo sem roupa, como que a explicitar cicatrizes nas costas ou marcas de ferro-em-brasa, para que assim não se questione a captura.

A narrativa de Mirts Sants, ativista do movimento negro do Espírito Santos nos leva até a cena:

“Em Vitória, a Polícia Militar invadiu um pier onde estava sendo realizado um baile funk, alegando que estaria havendo briga entre grupos. Umas dezenas de jovens fugiram, amedrontados, e se refugiaram num shopping próximo. 

Foi a vez, entretanto, de os frequentadores do shopping entrarem em pânico, vendo seu ‘fetiche de segurança’ ameaçado por “indesejáveis, vestidos como num baile funk, de tez escura e fragilizando o limite das vitrines que separam os consumidores de seus desejos”. Resultado: chamaram a PM, acusando os jovens de quererem fazer um arrastão.

A Polícia chegou rapidamente e saiu prendendo todo e qualquer jovem que se enquadrasse no ‘padrão funk’. Fez com que descessem em fila indiana e depois os expôs à execração pública, sentados no chão com as mãos na cabeça. E isso tudo apesar de negar que tenha havido qualquer arrastão, “exceto na versão alarmista dos frequentadores”.

Se chegou a haver algo parecido com uma tentativa de ‘arrastão’ ao que parece é impossível saber. Para alguns dentre os presentes, a negativa da PM teve como motivo “preservar a reputação do shopping como templo de segurança”. Se assim foi, a foto acima, com os jovens sentados no chão sob vigilância, e o vídeo abaixo, mostrando-os sendo forçados a descer em fila indiana sob a mira da Polícia, se tornam ainda mais graves como exemplos de arbítrio, violência e desrespeito aos direitos humanos.  E isso só se torna pior quando acontece ainda sob os aplausos dos ‘consumidores’…”