O ANO DE 1968 E O AI-5 – por manoel de andrade / curitiba.pr

        O ANO DE 1968 E O AI-5

 

                                                                                                                        Manoel de AndradeMANOEL DE ANDRADE - FOTO DELE - IMG_7355

Nos últimos dias de março de 1968 o meio estudantil estava fervendo com a revolta pela morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, ferido mortalmente com um tiro no coração, pela polícia do Rio de Janeiro, no restaurante universitário Calabouço. Entretanto, esse não seria um fato isolado na agenda do movimento estudantil no histórico calendário daquele ano. Na verdade, o ano de 1968, no Brasil e no Mundo, deixou um registro indelével em todos aqueles que aninhavam na alma o sonho de um mundo melhor. No plano internacional, o ano começara com a auspiciosa notícia, em 05 de janeiro, de amplas reformas e a volta da liberdade de expressão na Tchecoslováquia. Procurando distanciar-se do stalinismo e do autoritarismo de Moscou, o político Alexander Dubcek, acenava para seu povo com o tão sonhado socialismo humanitário. Era a chamada Primavera de Praga, cujas flores se abriram deslumbrantes para o país e para o mundo, mas seus frutos não chegariam a amadurecer. Por outro lado, ainda em janeiro, uma importante notícia corre o planeta: as tropas americanas começam a ser batidas no Vietnã pela ofensiva vietcongue, chamando a atenção internacional e do próprio povo norte-americano, que começa a reagir contra a crescente participação militar dos EUA na guerra.

Enquanto isso, também em janeiro, no que tange ao Brasil, é gratificante relembrar que o PC do B — antecipando-se a uma dezena de siglas revolucionárias que no transcorrer do ano iriam recrutar quadros para combater a ditadura  —  já localizava seus primeiros militantes às margens do rio Araguaia, com o objetivo de politizar os trabalhadores da região, para uma guerra revolucionária contra o Regime Militar.

Na agenda de 1968, um fato lamentável enlutou a história do Ocidente: o assassinato, em abril, de Martin Luther King marcava a interrupção do seu acalentado sonho de que brancos e negros se sentassem um dia na mesma mesa da fraternidade e que a sua pátria oprimida pela segregação se transformasse num oásis de liberdade e de justiça. E quando agosto chegou, novamente o luto tingiu nossas bandeiras. Apesar do apoio do presidente Tito da Iugoslávia e Ceaucescu, da Romênia, sete mil e quinhentos tanques e duzentos mil soldados do Pacto de Varsóvia fazem murchar as flores da Primavera de Praga e suas sementes somente germinariam vinte anos depois — quando o estrondo da queda do Muro de Berlim, em 09 de novembro de 1989, ecoou uma semana depois sobre o massacrado sentimento nacional do povo tcheco — florescendo novamente num pacífico levante popular, conhecido como Revolução de Veludo, que traria novamente Dubcek ao poder, agora já sem os sonhos de um mundo socialista, mas de um mundo que ressurgia identificado com os princípios do liberalismo, consolidando  a ganância do capitalismo através da marcha inexorável para a  globalização. À margem desses grandes registros, o ano de 1968 tem outra agenda, onde a contracultura corre paralela com os seus paradigmas equivocados e os fatos políticos noticiam, em junho, o assassinato do senador Robert Kennedy e a eleição de De Gaulle. Em setembro, chega ao fim os 42 anos da violenta ditadura de António de Oliveira Salazar e Richard Nixon é eleito, em novembro, presidente dos Estados Unidos.

No Brasil, o ano de 1968 não terminaria, como bem sentenciou  Zuenir Ventura, ao titular seu livro. O mês de dezembro começa com o teatro Opinião destruído, no Rio de Janeiro, pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e no dia 12, a negação da Câmara dos Deputados para processar o deputado Márcio Moreira Alves, abre a maior crise política da República, depois da Era Vargas. As Forças Armadas e a Polícia Federal entram em prontidão e no dia seguinte é decretado o AI-5, com o fechamento do Congresso, a súbita paralisação da vida nacional e todas as trágicas consequências que sangrariam o país por vinte e um anos.

 

.      Como todos sabem, as novas medidas arracaram as bandeiras de luta das mãos do estudantes e tantas outras foram visivelmente arriadas em 13 de dezembro daquele ano, ante as medidas de repressão sancionadas, que mergulharia o país em mais 17 anos de escuridão.

O AI-5 sufocou os últimos suspiros da democracia. Fechou o Congresso, rasgou a Constituição, amordaçou a imprensa, suspendeu o hábeas corpus, cassou políticos, demitiu funcionários, transferiu e reformou militares, foi enchendo as prisões e esvaziando os horizontes democráticos. Abriu os caminhos do anonimato, os becos da clandestinidade e a via crucis da perseguição, da incomunicabilidade, da tortura, do desaparecimento e da morte. 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           O AI-5 foi o golpe no golpe e deixou os grupos de esquerda de “orelha em pé”. Ainda assim, a liderança sobrevivente da UNE que, em 12 de outubro tinha sofrido um irrecuperável revés, com a prisão de 920 estudantes no seu trigésimo Congresso, na localidade paulista de Ibiúna, resolve fazer, no dia 17 de dezembro, quatro dias depois da vigência do AI-5, uma reunião regional em Curitiba. O local escolhido foi a chamada Chácara do Alemão, no bairro Boqueirão. Os agentes infiltrados no movimento estudantil do Paraná levantaram as informações. O local foi cercado e 42 lideranças foram presas. Entre eles o cearense João de Paula, membro da UNE, que não fora a Ibiúna, Berto Luiz Curvo, presidente da UPE (União Paranaense de Estudantes) e Vitório Sorotiuk, presidente do DCE (Diretório Central dos Estudantes).  O saldo anual do movimento era inquietante e fechava no vermelho.  Milhares de estudantes presos em todo o país e aqui, em Curitiba, amigos e velhos companheiros de luta estudantil foram mantidos incomunicáveis, dos quais cinco seriam condenados a dois anos de prisão e, dez deles, a quatro anos.

O ano terminava nesse impasse, já sem esperanças de reconquistar o estado de direito pelos meios democráticos. O AI-5 fechou todas as saídas pacíficas de mudanças e abriu as portas da clandestinidade e da luta armada. Não restou outro caminho para a militância estudantil fora das organizações revolucionárias que começavam a surgir. No artigo A Passeata dos Cem Mil, publicado neste site em maio de 2008, eu ressaltei que

Seus sonhos de mudar o mundo começaram muito antes, quando em 1961 a UNE fundou o CPC (Centro Popular de Cultura) cujo propósito era despertar pacificamente, com a arte, a consciência política do povo. Sob a direção do dramaturgo Oduvaldo Viana Filho (o Vianinha) foram encenadas dezenas de peças, publicados livros, produzidos filmes e discos e promovidos shows, cursos e debates. Nesta saga cultural sem precedentes da nossa história se engajaram, ao lado de estudantes, artistas e intelectuais, figuras emblemáticas do teatro brasileiro como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.

     Quando as sementes dessa utopia começavam a abrir suas flores e a colher seus frutos com a presença cada vez mais contagiante da população em seus espetáculos, o golpe militar de 64 colocou a UNE na ilegalidade e toda esta fogueira de sonhos e esperanças, cujo imenso clarão iluminou a geração de nossos anos dourados, foi abafada bruscamente pelo manto tenebroso da opressão. Quando no fim de 68 arrancaram das mãos do Movimento Estudantil as suas últimas bandeiras democráticas, não lhes restou outra expressão de bom combate que não fosse a luta armada. O que aconteceu depois todos nós sabemos. Centenas deles foram presos, barbaramente torturados e mortos nas prisões do Regime Militar. Deram a vida para que sobrevivesse um sonho e para que continuassem abertas as trincheiras de luta que  escavaram em nome de um homem novo e de um mundo melhor. Esta é a triste memória que a história recente do país tenta resgatar pelos depoimentos dos que sobreviveram, pela escavação dos cemitérios clandestinos e na voz silenciosa dos desaparecidos. Eu bem quisera enumerar aqui os nomes da bravura. Dos que resistiram até o último golpe e caíram aureolados com a coroa do martírio. Mas todos os seus nomes somente podem ser escritos com a dimensão da palavra: legião.

      Porque sempre faltaria ainda um nome ou um codinome de alguém cujo coração materno poderia  derramar a derradeira lágrima, motivada pelo meu esquecimento”.

(*) Este texto é um fragmento do livro NOS RASTROS DA UTOPIA: Uma memória crítica da América Latina nos anos 70, a ser lançado em 19 março de 2.014, em Curitiba

Uma resposta

  1. Uma palhaçada de bundas moles comunistas! Queria ver esses frouxos viver um dia só numa ditadura comunista!

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