América, América… – de manoel de andrade / curitiba.pr

 

América, América…

Manoel de Andrade

 

 

 

Trago ainda na alma o mapa dos caminhos…

Meus versos riscam teu dorso para cantar um tempo único e perfumado.

América, América,

ali, entre os ramos e o penhasco, o abismo florescido,

acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.

Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta,

é seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.

 

Canto meu enredo de viandante,

passo a passo rumo ao norte e à alvorada.

Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!

A travessia ao entardecer no Titicaca,

o Illimani batido pelo sol,

e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu!

Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,

e tudo me chega como um recanto do passado…

e se hoje digo amigos e digo hermanos,

ouço nossos passos ecoar pelas vielas seculares de Quito e de La Paz.

 

Ai, América, ainda não disse de ti quanto quisera,

abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me o frescor do rocio,

dá-me a magia e o lirismo…,

que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de encanto?

América, América,

Lembro-me do fulgor do teu rosto renascido da utopia,

tuas bandeiras de sonhos

feitas de plumas e veias transparentes.

Os campos todos semeados

e o porvir tatuado em cada gesto.

Tudo era aroma na gleba cultivada,

nos brotos germinava a esperança

e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.

 

Canto a América que vivi,

entre alegrias e lágrimas, canto o continente ao sul de Anahuác.

Falo de uma América primeira,

asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,

essa América materna,

botânica e mineral,

sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.

Falo de uma só pátria,

a grande pátria de Bolívar,

pilhada e violentada,

submetida pelas garras perversas do Império.

Vi tuas trincheiras abertas

e depois as densas trevas caírem sobre o sul.

Sobreveio o chumbo cruel,

os labirintos da dor e as atrocidades.

Na penumbra gemiam os cravos, gemiam as rosas,

e agonizava a vida ainda em botão.

 

Canto para denunciar a verdade sufocada,

e eis que mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry, Videla, Pinochet

e seus rastros genocidas num tempo silenciado.

Canto para dizer das valas clandestinas,

das ossadas do Atacama

e dos “voos da morte” para o mar,

Meu réquiem para trinta mil argentinos,

meu canto para as “crianças da ditadura”,

para os sobreviventes e suas cicatrizes,

para a viuvez e a orfandade

para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.

 

América, América,

quarenta anos se passaram

e tuas feridas ainda emergem da tragédia!

E aqui declino a “operação” perversa dos “condores”

e os seus generais malditos.

Canto por ti, América,

por tuas aldeias de bravos e por teus calvários,

por teu nevado esplendor tantas vezes torturado,

América de tantos massacres e patíbulos,

ouço-te ainda na voz melancólica dos charangos, quenas e zamponhas,

chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.

Uma América de martírios,

estrangulada em Cajamarca,

esquartejada em Cusco,

sacrificada em La Higuera.

executada em Trelew e El Frontón,

e nos rituais da morte em Villa Grimaldi e no Dói-Codi.

 

Por tanta dor nessas memórias

eu  vos peço perdão pelo meu canto.

Ele é também assim: um áspero clarim no entardecer.

Distante, tão distante,

no tempo e nos andares,

e hoje, em busca de mim mesmo,

ainda abrigo o mesmo combativo coração.

Não sei o que te espera, América,

os anos correram inquietantes e velozes

restando um mundo com seu som intolerável.

 

Busco meu íntimo silêncio,

e, por um momento, digo basta…,

meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do Chile.

Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.

Vou em busca de Arauco,

lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.

Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.

Vou para rever o cone nevado do Antuco

rever o vale e a Cordilheira,

o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.

Vou para relembrar uma baía de barcos,

para construir uma paisagem na alma,

uma tenda de luz para um amigo.

 

 

                                    Curitiba, 22 de dezembro de 2.013

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Uma resposta

  1. Belíssimo, ecumênico canto a alimentar almas cansadas por mortes de múltiplas utopias.Manoel, um Ano Novo de muitas novas canções para ti, assim como para todos os nossos amigos do palavras.
    Abraço grande da Zuleika.

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