Arquivos Mensais: janeiro \28\UTC 2014

O BARCO DA MEMÓRIA – de manoel de andrade – curitiba.pr

O BARCO DA MEMÓRIA

 

                                                                             Manoel de Andrade

 

A infância sempre volta na hora humana do crepúsculo…

Vem de um tempo silenciado,

é um eco que cresce,

um fantasma que ronda e volta comovido,

surge  remando no barco da memória,

abre na alma um sulco imaginário, tão formoso

e aporta para povoar a aldeia melancólica da saudade.

 

Traz consigo os seus inconfessáveis segredos,

as tardes azuis e açucaradas,

a dizer-nos que só se é criança uma vez na vida

e que tudo que lá ficou é  um mágico clarão,

um enigma que arde imperecível,

um nunca mais.

 

Em cada dia houve um tempo…,

um tempo em que o mar banhou minha inocência.

Herdei essa extensão entre o horizonte e o branco cinturão de areia,

herdei do mar essa salgada lembrança,

o mar, sempre o mar, meu mágico recanto,

aquele mar que tanto amei

e onde o coração navegou o meu encanto.

A praia, o território itinerante nos meus passos,

os botos, em cada dia, nadando para o sul,

o voo preguiçoso das gaivotas,

as velas ligeiras ante a paz invencível da paisagem.

o azul e a luz espelhados sobre as águas da manhã,

as canoas trazendo suas translúcidas escamas,

o mantra suave das ondas,

esse rumor ainda presente no caracol dos meus ouvidos.

 

Eu tinha quatro, cinco, seis e sete anos,

a alma banhada, as retinas submersas

e em cada gesto uma sílaba antecipada do meu canto.

Tinha as mãos cheias de caramujos, de conchas,

e a vigiar  meus olhos,  o espanto.

Tinha meus castelos,

a espuma espessa e flutuante

e três castas amantes para brincar.

Tinha os fulgores da aurora, os mistérios constelados,

uma pequenina lagoa

e um canal estreito por onde as tainhas entravam no inverno.

Eu tinha de minha mãe o seu regaço: mel e ternura repartidos.

 

Lembro meu avô cortando lenha, meu retrato mais antigo.

Eu o chamava Pai Trajano.

Um dia ele levou minha pobreza seminua pela mão,

e lá, além da ponte, na loja do Seu Abrão,

vestiu-me uma camisa colorida.

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Não, Drummond, não se dissipa nunca a merencória infância.

 

Curitiba, 26 de janeiro de 2014

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UMA DÉCADA SEM BRIZOLA – por paulo timm / torres.rs

 

 

No dia 21 de junho de 2004 expirava, para surpresa de tantos quantos o conheciam e se impressionavam com sua performance, o Governador Leonel Brizola (1922-2004). Ontem, data de seu natalício, a memória de Brizola foi lembrada com a inauguração de uma estátua em bronze,  em sua homenagem, na Praça da Matriz, lócus privilegiado  da era positivista no Rio Grande do Sul, ao lado do Palácio Piratini.

Quem foi Leonel Brizola e o que representou ele, politicamente, no Estado e no Brasil?

Brizola foi um dos políticos mais importantes do Brasil na segunda metade do século XX. Iniciou sua carreira política no Partido Trabalhista Brasileiro, elegendo-se deputado estadual (RS) no pós-guerra e desde aí teve uma carreira meteórica: Prefeito de Porto Alegre, Governador do Estado RS, com apenas 37 anos, Líder do Movimento Legalidade que impediu o Golpe Militar contra a posse de João Goulart em agosto de 1961, deputado mais votado pelo Rio de Janeiro em 1962, Governador daquele Estado por duas vezes depois de prolongado exílio, já então pelo seu novo Partido – o PDT – e candidato a Presidente da República em 1989.

Brizola foi um dos líderes mais estigmatizados pela ditadura militar que se prolongou de 1964 até 1985. Era apontado como um dos responsáveis pela intensa movimentação política em defesa das Reformas de Base, no período Goulart. Respondeu, no exílio, primeiro com uma tentativa frustrada de resistência armada, logo com a proclamação de “Voto Nulo”, nas eleições de 1970, igualmente pouco produtiva. Este foi, precisamente, o auge dos denominados “Anos de Chumbo” do regime e que coincidia com a colheita de bons frutos eleitorais graças ao “milagre econômico” , tão festejado pela classe média conservadora. Brizola se recolhe, então, a um longo silêncio do qual emergirá em 1977/8, já em meio ao processo de redemocratização, com a proposta de reorganização do trabalhismo como um caminho brasileiro para a construção do socialismo democrático. Em junho de  1979 realiza, com efeito, seu Encontro dos Trabalhistas em Lisboa, com o apoio de Mário Soares, Líder do Partido Socialista Português, editando a histórica “Carta de Lisboa”. Retorna, em dezembro do mesmo ano ao Brasil, sob o amparo da Lei da Anistia de 1979 e se dedica à formação de seu próprio Partido. Tenta, então, refundar o velho PTB, mas o perde para Ivete Vargas, com a provável conivência do Tribunal Superior Eleitoral. Desolado – o dia em que Brizola chorou ao rasgar a sigla PTB ! – parte, então, do zero e cria, em 1980 o Partido Democrático Trabalhista , de caráter social-democrata. Tratava-se , Brizola, de um líder amadurecido e que pretendia encontrar na esquerda européia o apoio indispensável  ao avanço de reformas sociais no Brasil, especialmente uma pretendida revolução na educação: “ A nossa Revolução, dizia, será com a caneta a serviço da consciência dos brasileiros…!”

Aqueles foram anos de redefinições políticas no Brasil, nos estertores do regime autoritário. Brizola evita participar da grande frente sob comando liberal, conhecida como MDB, revitalizado na reforma partidária de 1980, sob a tutela de Ulisses Guimarães,  no PMDB, e denuncia a tese da denominada UNIDADE DAS OPOSIÇÕES, apoiada pelos comunistas de todas as tendências. Defende que o avanço político dependia da capacidade organização autônoma das forças populares. Mas não  consegue empolgar o forte movimento sindical e popular que, irradiando de São Paulo, sob a liderança de Lula, se espalha por todo o país, realimentado pelas lutas por recomposições salariais no contexto de uma conjuntura fortemente inflacionária. Lula rejeita o PTB e se lança, de sua parte, com apoio da Igreja à criação do PT. Isso  dificulta o projeto político de Brizola em direção ao Palácio do Planalto, vindo, como resultado deste isolamento, a perder sua grande oportunidade nas primeiras eleições presidenciais de 1989,  disputada no segundo turno  por Fernando Collor e Lula.

Brizola não foi apenas um grande líder popular, com grande capital eleitoral, mas uma personalidade com fortes traços republicanos, dentro da tradição castilhista rio-grandense, que renovou, aproximando-a do socialismo evolucionário contemporâneo. Mudou também o estilo da política tradicional afeita aos discursos de escadaria, substituindo-a pelas conversas radiofônicas de longo alcance social, nas quais explicava didaticamente suas inclinações.

Com a partida de Brizola, em 2004, o seu Partido – PDT -perdeu o líder e o rumo. O Rio Grande, um dos grandes herdeiros do castilhismo. E o Brasil , perdeu uma grande esperança de renovação pela educação. Ficou a saudade de seu estilo direto, franco e sincero. E o reconhecimento, mesmo de seus adversários, de que ele foi um político , em todos os sentidos, honesto.

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Paulo Timm – Economista, Professor da Universidade de Brasilia, signatário da Carta de Lisboa e fundador do PDT, partido pelo qual disputou os Governos de Goiás (1982) e Distrito Federal (1994)

Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista / leonardo boff – são paulo.sp

23/01/2014

O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.
Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras.
Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:
Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.
Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressupsto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para ve-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.
Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desperezados e mantidos longe, na margem.
Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.