UMA DÉCADA SEM BRIZOLA – por paulo timm / torres.rs

 

 

No dia 21 de junho de 2004 expirava, para surpresa de tantos quantos o conheciam e se impressionavam com sua performance, o Governador Leonel Brizola (1922-2004). Ontem, data de seu natalício, a memória de Brizola foi lembrada com a inauguração de uma estátua em bronze,  em sua homenagem, na Praça da Matriz, lócus privilegiado  da era positivista no Rio Grande do Sul, ao lado do Palácio Piratini.

Quem foi Leonel Brizola e o que representou ele, politicamente, no Estado e no Brasil?

Brizola foi um dos políticos mais importantes do Brasil na segunda metade do século XX. Iniciou sua carreira política no Partido Trabalhista Brasileiro, elegendo-se deputado estadual (RS) no pós-guerra e desde aí teve uma carreira meteórica: Prefeito de Porto Alegre, Governador do Estado RS, com apenas 37 anos, Líder do Movimento Legalidade que impediu o Golpe Militar contra a posse de João Goulart em agosto de 1961, deputado mais votado pelo Rio de Janeiro em 1962, Governador daquele Estado por duas vezes depois de prolongado exílio, já então pelo seu novo Partido – o PDT – e candidato a Presidente da República em 1989.

Brizola foi um dos líderes mais estigmatizados pela ditadura militar que se prolongou de 1964 até 1985. Era apontado como um dos responsáveis pela intensa movimentação política em defesa das Reformas de Base, no período Goulart. Respondeu, no exílio, primeiro com uma tentativa frustrada de resistência armada, logo com a proclamação de “Voto Nulo”, nas eleições de 1970, igualmente pouco produtiva. Este foi, precisamente, o auge dos denominados “Anos de Chumbo” do regime e que coincidia com a colheita de bons frutos eleitorais graças ao “milagre econômico” , tão festejado pela classe média conservadora. Brizola se recolhe, então, a um longo silêncio do qual emergirá em 1977/8, já em meio ao processo de redemocratização, com a proposta de reorganização do trabalhismo como um caminho brasileiro para a construção do socialismo democrático. Em junho de  1979 realiza, com efeito, seu Encontro dos Trabalhistas em Lisboa, com o apoio de Mário Soares, Líder do Partido Socialista Português, editando a histórica “Carta de Lisboa”. Retorna, em dezembro do mesmo ano ao Brasil, sob o amparo da Lei da Anistia de 1979 e se dedica à formação de seu próprio Partido. Tenta, então, refundar o velho PTB, mas o perde para Ivete Vargas, com a provável conivência do Tribunal Superior Eleitoral. Desolado – o dia em que Brizola chorou ao rasgar a sigla PTB ! – parte, então, do zero e cria, em 1980 o Partido Democrático Trabalhista , de caráter social-democrata. Tratava-se , Brizola, de um líder amadurecido e que pretendia encontrar na esquerda européia o apoio indispensável  ao avanço de reformas sociais no Brasil, especialmente uma pretendida revolução na educação: “ A nossa Revolução, dizia, será com a caneta a serviço da consciência dos brasileiros…!”

Aqueles foram anos de redefinições políticas no Brasil, nos estertores do regime autoritário. Brizola evita participar da grande frente sob comando liberal, conhecida como MDB, revitalizado na reforma partidária de 1980, sob a tutela de Ulisses Guimarães,  no PMDB, e denuncia a tese da denominada UNIDADE DAS OPOSIÇÕES, apoiada pelos comunistas de todas as tendências. Defende que o avanço político dependia da capacidade organização autônoma das forças populares. Mas não  consegue empolgar o forte movimento sindical e popular que, irradiando de São Paulo, sob a liderança de Lula, se espalha por todo o país, realimentado pelas lutas por recomposições salariais no contexto de uma conjuntura fortemente inflacionária. Lula rejeita o PTB e se lança, de sua parte, com apoio da Igreja à criação do PT. Isso  dificulta o projeto político de Brizola em direção ao Palácio do Planalto, vindo, como resultado deste isolamento, a perder sua grande oportunidade nas primeiras eleições presidenciais de 1989,  disputada no segundo turno  por Fernando Collor e Lula.

Brizola não foi apenas um grande líder popular, com grande capital eleitoral, mas uma personalidade com fortes traços republicanos, dentro da tradição castilhista rio-grandense, que renovou, aproximando-a do socialismo evolucionário contemporâneo. Mudou também o estilo da política tradicional afeita aos discursos de escadaria, substituindo-a pelas conversas radiofônicas de longo alcance social, nas quais explicava didaticamente suas inclinações.

Com a partida de Brizola, em 2004, o seu Partido – PDT -perdeu o líder e o rumo. O Rio Grande, um dos grandes herdeiros do castilhismo. E o Brasil , perdeu uma grande esperança de renovação pela educação. Ficou a saudade de seu estilo direto, franco e sincero. E o reconhecimento, mesmo de seus adversários, de que ele foi um político , em todos os sentidos, honesto.

.

Paulo Timm – Economista, Professor da Universidade de Brasilia, signatário da Carta de Lisboa e fundador do PDT, partido pelo qual disputou os Governos de Goiás (1982) e Distrito Federal (1994)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: