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A FILOSOFIA DO ÓDIO por marco vasques / florianópolis.sc

A FILOSOFIA DO ÓDIO

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [12/05/2014]

Antes que alguém nos acuse de apocalípticos, já vamos explicando que não. Ao contrário, o mundo está até ordenado em demasia e, de alguma maneira, gostaríamos que ele estivesse mais revoltoso, mais radical. Seríamos capaz de desfilar um rosário de motivos pelos quais a revolta se faz urgente. A fome que assola todos os cantos do mundo. A corrupção generalizada e institucionalizada. As guerras criadas e deflagradas nos gabinetes. A presença de uma elite econômica cada vez mais reacionária. O preconceito – o silencioso e o violento.  A falta de políticas públicas efetivas para a saúde e a educação. Enfim, da calçada esburacada do bairro a uma simples compra no supermercado. Sim. Temos mais motivos para irmos ao protesto do que para ficarmos sentados à frente de uma televisão vendo a Copa do Mundo.

No geral, somos absorvidos pela rotina e acabamos amortecidos com tantos afazeres. Trabalho, escola, academia, oficina do carro, filhos, aluguel, plano de saúde, animais, amigos, família, e assim segue a roda viva de sempre. Os dias, os meses, os anos passam e quando nos damos conta, estivemos praticamente toda a vida correndo atrás da vida. No entanto, dispomos de uma infinita maneira de demonstrar nosso desconforto e, digamos assim, nosso ódio com tudo que está posto. O uso do ódio, fruto da indignação, para que haja um efeito real na vida prática, precisa estar pautado pela inteligência e por algum princípio de razão. Mas como assim? Usar o ódio com inteligência? Se podemos usar o amor com inteligência, e, infelizmente, raramente o fizemos, por que não o ódio? Não há nada mais clichê e chavão que afirmar que o ódio é tão humano quando o amor. E é mesmo.

Aqui poderíamos, ainda, abrir categorias de ódio. Do ódio privado, aquele que é gerado por uma insatisfação íntima, por uma inadequação à vida. Sim. Existem pessoas que são inábeis à vida. Ao ódio coletivo, ao ódio das causas comuns, que são muitas. O fato é que nem tudo é tão binário e compartimentado. Nossas emoções oscilam para um lado e outro, quando não para o acúmulo. Porém, um dado sobre o nosso exercício do ódio a ser observado é que ele quase sempre atinge o alvo errado. Os linchamentos de mendigos em praça pública; os assassinatos e esquartejamentos de nossas meninas; os estupros diários sofridos por crianças, adolescentes, jovens e mulheres. A nossa intolerância com quem opta por orientações religiosas e sexuais distintas das nossas são exemplos de que exercemos o imperativo do ódio como método de opressão, não de libertação. Temos que domar a filosofia do ódio para esmagar o uso da força e da violência contra quem já é, constantemente, violentado.

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