25 de maio, 2014 – por jorge lescano / são paulo.sp

25 de maio, 2014

Do outro lado do vidro, batia de leve o chuvisco de inverno. Ele fazia algumas pausas na leitura para apreciar melhor aquele som miúdo, música de câmara se comparado com as tempestades de verão, ribombantes, texturadas por fachos de luz iridescente, raios e trovões numa sinfonia romântica.

Desfrutava a leitura de modo diverso. Não procurava o final do relato, ao contrário, saboreava cada frase como um fruto isolado numa árvore carregada de frutas suculentas, douradas, aromáticas.

O resfriado obrigava-o a permanecer quase imóvel e bem agasalhado. Cobria as pernas com uma manta felpuda e bebia seu chá com prazer ostensivo, como se alguém estivesse presenciando a cena; melhor, como se ele estivesse representando para alguém invisível.

Contra seu hábito, lia um relato atrás de outro, como se todos eles formassem uma história única. Até a monotonia da tarde de domingo contribuía para saturar o clima de paz. Uma paz que raramente sentia.

Sentia-se na sua mítica Noruega, terra de trolls, criaturas dos bosques sombrios, de Ibsen, de Munch, de Grieg…, e de Peer Gynt!

Contemplou a capa do livro onde uma borboleta temporã adejava sutilmente, lembrando uma paixão do autor. Nabokov, apesar de redondamente russonário, era um grande escritor. Reconhecia que as sensações daquele momento eram em grande parte produto dos seus relatos.

Lembrou-se de uma tarde de cinquenta anos antes. Tinha ido visitar de improviso um amigo croata que morava na estação terminal de uma linha férrea. Depois daquela paragem era o deserto. Chovia molemente, Dentro da casa havia um aconchego de cobre salpicado pela luz de uma lamparina. Ele olhou pela pequena janela da sala enfeitada com uma modesta cortina estampada com pequenas flores e viu a chuva caindo no quintal de terra onde algum matinho balançava quando as gotas pousavam nele. Sentiu o calor do ambiente matizado pelo sotaque da mãe do seu amigo, que se afanava para servir chá e bolinhos e vodka.

Estou numa aldeia russa, pensou, numa isbá da estepe.

Um sentimento de gratidão o invadiu.

Bebeu mais um gole de chá, não queria estragar a sua sensação com qualquer comentário.

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