Arquivos Mensais: julho \24\UTC 2014

A carta dos soldados israelenses que se recusam a lutar em Gaza

O serviço militar israelense é obrigatório para homens e mulheres. Movimentos de resistência são comuns. O primeiro caso conhecido é de 1954, quando um advogado, Amnon Zichoroni, pediu para ser dispensado por ser pacifista. Em 2004, cinco pessoas foram condenadas a um ano de prisão por não se alistarem.

 

Em março, sessenta jovens entre 16 e 19 anos escreveram um manifesto destinado ao primeiro ministro Binyamin Netanyahu em que diziam  recusar o alistamento pois se opunham à ocupação dos territórios da Palestina.

Agora, são 51 soldados que se levantaram contra as Forças de Defesa, alguns deles na reserva.

Eles escreveram uma carta aberta no Washington Post explicando os motivos. O texto chega no momento em que a violência recrudesce na Faixa de Gaza, com a possibilidade cada vez mais remota de um cessar-fogo nas próximas horas.

Até agora, pelo menos 630 palestinos morreram e 3 mil estão feridos. Mais da metade são civis. Do outro lado, 31 israelenses tombaram, dois deles civis.

A carta é um documento eloquente sobre a tragédia e oferece uma visão da mentalidade das forças armadas israelenses. Para os signatários, o exército usa métodos de regimes opressivos contra a população de Gaza e da Cisjordânia e perpetua as desigualdades na sociedade israelense.

Eis alguns trechos. O original está aqui:

Em Israel, a guerra não é apenas a política por outros meios — ela substitui a política. Israel já não é capaz de pensar em uma solução para um conflito político exceto em termos de força física; não admira que seja propenso a ciclos de violência mortal que nunca terminam. E, quando os canhões disparam, nenhuma crítica pode ser ouvida. 

O exército, uma parte fundamental da vida dos israelenses, também é o poder que governa os palestinos que vivem nos territórios ocupados em 1967. Desde que ele passou a existir em sua estrutura atual, somos controlados por sua linguagem e mentalidade: dividimos o mundo entre o bem e o mal, de acordo com a classificação dos militares.

Os militares têm um papel central em todos os planos de ação e propostas discutidas no debate nacional, o que explica a ausência de qualquer argumento real sobre soluções não-militares para os conflitos de Israel com seus vizinhos. 

Os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza são privados de direitos civis e direitos humanos. Eles vivem sob um sistema legal diferente de seus vizinhos judeus. Isto não é culpa exclusiva dos soldados que operam nesses territórios. Muitos de nós servimos em funções de apoio logístico e burocrático; lá, descobrimos que todo militar ajuda a implementar a opressão aos palestinos. 

Muitos soldados que trabalham longe de posições de combate não resistem porque acham que suas ações, frequentemente rotineiras e banais, não têm relação com os resultados violentos em outros lugares. E as ações que não são banais — por exemplo, decisões sobre a vida ou a morte de palestinos tomadas em escritórios a quilômetros da Faixa de Gaza — são confidenciais, portanto é difícil um debate público sobre elas. Infelizmente, nós nem sempre nos recusamos a cumprir as tarefas que nos foram encarregadas e, desta maneira, contribuímos também para a violência. 

O lugar central do militar na sociedade israelense, e a imagem ideal que ele cria, serve para apagar a cultura e a luta dos mizrachi (judeus cujas famílias são originárias de países árabes), etíopes, palestinos, russos, ultra-ortodoxos, beduínos e mulheres. 

Há muitas razões para as pessoas se recusarem a servir no exército israelense. Mesmo que tenhamos diferenças de formação e motivação, nós escrevemos esta carta. No entanto, contra os ataques a aqueles que resistem ao serviço obrigatório, apoiamos os resistentes: os alunos do ensino médio que escreveram uma declaração de recusa, os ultra ortodoxos que protestam contra a nova lei de conscrição, e todos aqueles cuja consciência, situação pessoal ou econômica não permitem que sirvam. Sob o pretexto de uma conversa sobre a igualdade, essas pessoas são obrigadas a pagar o preço. Não mais.

M E N I N O C O M G O L E I R O S – por jorge lescano / são paulo.sp

M E N I N O   C O M   G O L E I R O S

 

Eu salvei um pênalti que vai ficar na história de Leticia.

Ernesto Che Guevara: Primeiras viagens.

 

São dois garotos chutando uma bola na pracinha deserta. O homem os observa de vez em quando e volta para seus livros. Está sentado no banco verde e consulta os volumes distraidamente, como quem os conhece demais ou se reservando para estudá-los com atenção em local mais apropriado. Fuma e olha em volta.

A tarde de outono está chegando ao fim. As vozes dos garotos chegam de longe, de uma distância maior que a da realidade da praça, dir-se-ia uma distância temporal.

São dois garotos diferentes. Um tem por volta de dez anos, o outro é menor, seis anos talvez. Este é branco, o outro negro e toma os cuidados de um irmão mais velho. Agora amarra os cadarços dos sapatos do pequeno e voltam a chutar a bola. Fazem comentários. O homem fuma e os contempla por trás dos seus grandes óculos.

O pequeno chutou a bola com força desproporcional ao seu tamanho e ela se elevou carregada pela brisa por cima dos braços esticados do outro, deixando vazias as mãos abertas. O homem vê a bola vir em sua direção. Muito alta, impossível detê-la sentado. O garoto maior que corria para alcançá-la estaca esperando que o homem detenha seu percurso.

O homem parece indeciso da atitude a tomar. Seus livros estão sobre as coxas. A bola se aproxima. Com calma o homem põe os livros de lado e no momento oportuno dá um pulo e segura a bola com as duas mãos. O salto foi lento, preciso, elegante, como de alguém que sabe dominar a situação por experiência. Devolve a bola ao garoto maior que o observa com curiosidade.

— Ô, tio! – diz o garoto recebendo a bola.

Presta-se a virar para continuar com a brincadeira, mas algo parece intrigá-lo. Não sabe como expressar o que sente.

— O senhor, hein, tio! – é o seu comentário cheio de admiração esportiva pela defesa espetacular do homem magro que olha o garoto de uma distância imprecisa, difusa na penumbra de fim de tarde que tanto se parece a uma lembrança.

Antes de chutar a bola para seu companheiro de jogo, ainda com ela nas mãos, o garoto contempla com calma o goleiro improvisado.

— Obrigado! – diz, e chuta em direção do garotinho que espera fazendo pose de goleiro na hora do pênalti.

O crepúsculo invade a praça.

A MOLDURA DOS TEMPOS – de manoel de andrade / curitiba.pr

A MOLDURA DOS TEMPOS

 

                                                                                        Manoel de Andrade

 

 

 

 

 

Cada dia é um devir inquietante,

um enredo que anuncia a tempestade

e a bonança…?

ah! a bonança  é um barco num medonho temporal!

 

Uma egrégora maligna comanda o turbilhão,

é a frequência subliminar que domina o mundo,

a combustão da história,

o trágico espasmo da vida,

o tumulto e a fúria linchando as derradeiras utopias.

 

Na moldura dos tempos cada alma revela o seu retrato,

entre a incredulidade dos “sábios”  e a fé de uma criança,

transita a expectativa dos homens…

São dias sem bandeiras,

quando a verdade se envergonha da “justiça”,

as togas e os mandatos acumpliciados na ambição,

os crimes  lavados na corte dos “eleitos”

e os vilões absolvidos nesse palco de trapaças.

Até quando assistiremos a esse fatídico cenário?

Quem apagará as luzes dessa medonha ribalta?

Até quando, Senhor, suportaremos tanta ignomínia?

 

Nessa república de escândalos,

a corrupção gargalha da história.

Nos palanques da ilusão,

máfias partidárias e alianças promíscuas

maquiam seus patéticos contendores.

É um ritual insuportável,

onde o poder trama as suas dinastias,

as ideologias são negociadas

e nas tribunas se mascara a hipocrisia.

Eis o reduto oficial dos futuros saqueadores,

festejando sua agenda eleitoral em sórdidos banquetes,

ante a súplica inconsolável no olhar dos miseráveis.

 

Não quero o esquecimento,

não aceito o silêncio,

sou a acusação e a profecia

vivo num tempo de iniqüidades e presságios,

numa pátria humilhada pela impunidade,

comandada por homens sujos e soturnos

e eis porque hoje meu canto surge assim crispado,

testemunhando o impasse e esperando novos dias.

Sei  que não se engana a posteridade,

que nessa nau dos insensatos toda perfídia será nominada,

todas as máscaras cairão.

 

Sei também que um lento alvorecer anunciará o amanhã,

e que a fé e a decência viverão muito além desse holocausto.

Mas até quando, Senhor, combateremos esse combate?

Há uma “música” sinistra e constante,

martelando, sem limites, em toda parte,

e eu e tantos outros não toleramos essa assuada.

Canto para os homens honrados e para os cultores da beleza

e eis porque vos peço perdão pelo desencanto,

por  vos dar meu verso sombrio e indignado,

e esse febril retrato da esperança.

 

 

Curitiba, 04 de julho de 2014