M E N I N O C O M G O L E I R O S – por jorge lescano / são paulo.sp

M E N I N O   C O M   G O L E I R O S

 

Eu salvei um pênalti que vai ficar na história de Leticia.

Ernesto Che Guevara: Primeiras viagens.

 

São dois garotos chutando uma bola na pracinha deserta. O homem os observa de vez em quando e volta para seus livros. Está sentado no banco verde e consulta os volumes distraidamente, como quem os conhece demais ou se reservando para estudá-los com atenção em local mais apropriado. Fuma e olha em volta.

A tarde de outono está chegando ao fim. As vozes dos garotos chegam de longe, de uma distância maior que a da realidade da praça, dir-se-ia uma distância temporal.

São dois garotos diferentes. Um tem por volta de dez anos, o outro é menor, seis anos talvez. Este é branco, o outro negro e toma os cuidados de um irmão mais velho. Agora amarra os cadarços dos sapatos do pequeno e voltam a chutar a bola. Fazem comentários. O homem fuma e os contempla por trás dos seus grandes óculos.

O pequeno chutou a bola com força desproporcional ao seu tamanho e ela se elevou carregada pela brisa por cima dos braços esticados do outro, deixando vazias as mãos abertas. O homem vê a bola vir em sua direção. Muito alta, impossível detê-la sentado. O garoto maior que corria para alcançá-la estaca esperando que o homem detenha seu percurso.

O homem parece indeciso da atitude a tomar. Seus livros estão sobre as coxas. A bola se aproxima. Com calma o homem põe os livros de lado e no momento oportuno dá um pulo e segura a bola com as duas mãos. O salto foi lento, preciso, elegante, como de alguém que sabe dominar a situação por experiência. Devolve a bola ao garoto maior que o observa com curiosidade.

— Ô, tio! – diz o garoto recebendo a bola.

Presta-se a virar para continuar com a brincadeira, mas algo parece intrigá-lo. Não sabe como expressar o que sente.

— O senhor, hein, tio! – é o seu comentário cheio de admiração esportiva pela defesa espetacular do homem magro que olha o garoto de uma distância imprecisa, difusa na penumbra de fim de tarde que tanto se parece a uma lembrança.

Antes de chutar a bola para seu companheiro de jogo, ainda com ela nas mãos, o garoto contempla com calma o goleiro improvisado.

— Obrigado! – diz, e chuta em direção do garotinho que espera fazendo pose de goleiro na hora do pênalti.

O crepúsculo invade a praça.

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