Arquivos Mensais: setembro \24\UTC 2014

AMILCAR NEVES FAZ SUA DECLARAÇÃO DE VOTO – ilha de santa catarina/sc

Declaração de voto

Amilcar Neves

Um governo não se faz apenas de erros. Muito menos, somente de acertos. Um governo se faz pelo balanço de iniciativas que deram certo com outras que falharam, pelo somatório dos efeitos de projetos bem-sucedidos com outros que malograram.

Mas um governo se faz, acima de tudo, pelo caminho a que esse balanço, a que esse somatório leva o País e o seu povo. Para cima ou para baixo? Para frente ou para trás? Para a direita ou para a esquerda?

Em Física essa avaliação é muito mais fácil de fazer. Dadas as forças que atuam sobre o fenômeno estudado, cada qual com sua direção, com seu sentido e com sua intensidade, um processo matemático claro, preciso e infalível determina o que se chama de resultante – uma única força, com direção, sentido e intensidade, que tem precisamente o mesmo efeito que todas aquelas forças atuando conjuntamente: para cima ou para baixo, para frente ou para trás, para a direita ou para a esquerda, com maior ou menor ênfase, ou intensidade.

Calculada a resultante de uma proposta de governo, cada qual de nós a aceita ou a repudia. Na segunda hipótese, buscará composição de forças (políticas, sociais, culturais e econômicas) que melhor atendam ao que lhe parece ser um modelo mais adequado de Estado e de País. E vota de acordo com essa convicção.

Muitos votam movidos exclusivamente por interesses escusos, pessoais, corporativos ou inconfessáveis.

Na escolha de um governante não se está cumprindo a eleição de um santo, mas de um ser humano, com tudo que lhe é inerente – com idênticas qualidades e defeitos, aliás, que marcam os santos antes de se santificarem.

Na escolha de um governante não se vota apenas num nome e numa história pessoal, mas no jogo de princípios e interesses de todo o grupo que acompanha e dá suporte ao candidato. Vota-se naquilo que esse grupo já fez, hoje pensa e pretende fazer. É a tal da força resultante na Física.

Ou queremos, por exemplo, um Estado forte e democrático que controle os abusos internos e externos e proteja cada cidadão (Justiça é um dos nomes desse processo) ou consideramos que tudo deve ser entregue ao deus mercado, deixando às corporações empresariais (que adoram governos que lhes repassam fortunas de dinheiro público) a “divisão do bolo” e a promoção financeira e social dos mais bonitos, dos mais fortes, dos mais saudáveis, dos mais inteligentes, dos mais eficientes, dos mais produtivos, dos mais ricos – e cada qual dos demais, se quiser e tiver iniciativa, que busque, por conta e risco próprios, as suas oportunidades.

Com meu irrestrito respeito por todas as pessoas, amigas ou não, que defendem outras resultantes, quero deixar clara a minha preferência, a minha escolha. Antes, devo dizer que não tenho filiação partidária – nunca tive – e isto não se trata de virtude, mas de mera opção pessoal que fiz há meio século.

Não tenho filiação partidária mas tenho filiação ideológica.

Preciso respeitar dezenas de milhões de brasileiros que, neste século, deixaram de ser pobres ou miseráveis e passaram a ter mais dignidade em suas vidas. Preciso considerar dezenas de universidades federais e centenas de cursos técnicos implantados neste século em todos os cantos do Brasil, o que leva milhões de jovens brasileiros, de todas as classes sociais, a serem mais lúcidos e conscientes, a desenharem o seu futuro e o futuro da Nação.

Por isso, como a melhor resultante das forças que acompanham cada candidatura, voto em Dilma Rousseff para mais um mandato na Presidência do Brasil.

Cultura com Dilma

Aproveito a oportunidade para convidar cada pessoa que compartilha essa mesma aspiração por uma resultante marcadamente social do processo eleitoral a comparecer ao ato de apoio da Cultura de Santa Catarina à candidatura Dilma, a realizar-se em Florianópolis nesta terça-feira, 23.09.2014, a partir das 19 horas, no Clube Novo Horizonte, à Avenida Beira-Mar Norte nº 4900, ao lado da sede da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil.


DOM QUIXOTE foi exilado à Campanha para morrer livre entre seus pares – de walmor marcellino / curitiba.pr

DOM Quixote foi exilado à Campanha
para morrer livre entre seus pares

 

A alguma criança.  WALMOR MARCELLINO

À coragem da perseverança na verdade, que se gruda como sombra no corpo enfraquecido e assustado mas desejoso de alguma transparência com os seus. Também infibulada e inquinada de delírio ou transcendência e outros solertes apupos.

Vou contar-te, menino
como o cavaleiro Dom Quixote
defronte gigante e feiticeiro
combinou derribar seu moinho
em galopada ou a trote
enfrentando cada um, primeiro
de frente e pelo lado.

 

Partiu ora a uma justa na Vila Militar:
Sancho desafiara toda a ordem
mas se escudava em Quixote a pelear.

 

Bradavam aos bravos: “Acordem!
que esta batalha vai começar”.
Mas qual! Indiferentes à luta
per meio tamanho egotismo
cada um deles buscava disputa
mais própria ao personalismo.

 

Travou-se ali pugna medonha
descobertos peitos e flancos
em combate, bravura e vergonha
encurralavam a morte aos trancos.

 

Já o estendal da morte impelia retirada;
vão-se em busca de algum sendeiro
a recuperar o ânimo, na voz armada.
Conclama-se rebate, enfim, a todos,
porém Quixote reage altaneiro:
“Hei de vencê-los inda que me custe
a vida de fidalgo cortar o embuste”.

 

Entretanto, a batalha é longa
fervorosa.
Não retrocede, ao tempo avança.
Quixote não abandona a luta, sustém a lança.
Seu cavalo marchador
não come feno há tempo.
Eis ginete de muito valor,
o cavaleiro come alento
seu cavalo come vento.
Se perder a batalha, fica exemplo.

 

Batido por frente e lado
seu poderoso escudo amassado
viseira nos olhos, a lança emperrada
Dom Quixote foi enfim dominado.
A causa ficou perdida, adiada.

 

É. Nem sempre os bravos vencem
mais justa que seja a bandeira
tão alto se põe o alcantil
duma conjura traiçoeira e vil.
Covardia só aos fracos abate
firma-se a coragem na jarreteira,
decisão e empenho no combate.

 

Foi lá por 1900, não me lembro quando
amargurado dessa derrota
fragorosa, com Dulcineia Tobosa
foram com o cavalo Rocinante.
Tu eras bem pequenino
quando Dom Quixote marchou a Cruz Alta
na fronteira do Rio Grande.
Exibia a lança manchada
olhar altivo, ferido mas soberbo
na sua armadura quebrada:
peada a luta, ainda bramia o verbo.

 

Depois, no entrementes:
por baixo do metal desfolhado
sua roupa se condiz rasgada;
só a alma fica ereta, ao lado
aguardando o corpo pra carga.
Esse Quixote intimorato à liça
encolhe-se à arremetida do vento
roupa em frangalhos, couro em treliça;
muito tarde vem o tento:
a lataria não o protege ao tempo.

 

Dulcineia vai, toma-lhe a febre
Sancho à fé alarga a colheita
de leite, carne-de-caça e lebre
em perfumada, boa comida feita.
A resposta é débil, todavia
o olhar mortiço, só às vezes
compadece o sonho, onde havia
de retornar às pugnas mais soezes.
A glória ascende em haustos
naquele solo, de acerba campanha,
onde centauros tiveram dos charruas
coragem e destemor em holocaustos
— a morte ceifa, a vida apanha,
as verdades se fazem nuas.

 

Então, nas coxilhas descampadas
agora sob uma casuarina deitado
o Quixote vê todo o horizonte
por cima das charqueadas.
De cabeça ao braço enfaixado
lamenta e reclama um apronte,
ressonha todavia novas batalhas.
Ó malditas de junho, e minuano
os cúmulos e nimbos voando,
as parcas se vão aprochegando:
entre a manopla e a palma
vem pelas frinchas na armadura,
o ventinho afiado, temprano,
com meio alento, de assacadura
apunhalando o corpo e a alma.

 

Na tepidez do rescaldo, a calma
mas logo a dor desanda, acutilante
a tal desespero se faz hiante
vai-se ligeira a pouca esperança
à boca aberta por indiferença.

 

Combalido, já o herói tosse
à fraqueza que se lhe espalha
na enxerga forrada a palha
faz ali sua derradeira posse.
Quixote sereno, espera a morte
faz de sua lança a bandeira
de espírito alto e indômito;
a maior razão fez altaneira.
Como se fora a outra contenda
levando sua última prebenda:
a coragem da cavalaria.

 

Às vascas diz seu testamento,
e ia embora com tanta pressa,
nem apaziguado nem sereno:
“Logo pensei algum momento:
que bom ir a cavaleiro na eça
que centauro não escolhe o terreno.
Eu não seria Dom Quixote do Templo
se não deixasse um bom exemplo”.

(março 1998)

 

 

A América Latina nos rastros de Manoel de Andrade – entrevista de manoel de andrade / curitiba.pr


Mais do que um poeta, Manoel de Andrade considera que seus livros não são apenas poesia. São, segundo Andrade, “Um documento histórico, porque todos os poemas trazem uma consigna geopolítica de luta e, paradoxalmente, uma mensagem de paz e esperança”.

Levando em conta o histórico do autor, é coerente considerar que um livro de poesia pode representar mais do que uma reunião de poemas. Com a publicação de seus versos, Andrade sofreu perseguição política e enfrentou resistência militar em vários países da América Latina nos anos 1970. Com a publicação de Saudação a Che Guevara o poeta teve que deixar o Brasil.

A luta e a obra de Andrade fizeram com que o autor percorresse 16 países da América Latina. A jornada está agora reunida em seu mais recente livro Nos Rastros da Utopia (2014). Antes, já havia publicado Poemas para a Liberdade (1970) – com tiragem esgotada em diversos países, e Cantares (2007) – seu retorno à poesia.

Em entrevista concedida à revista Ideias, o poeta falou sobre a luta contra a ditadura, contou um pouco da sua obra e relembrou sua jornada pela América Latina, que, para o autor, é o melhor lugar para se viver.

Com a publicação de Cantares (2007), você retomou a publicação de poesia depois de um longo período. Por que este intervalo?

Realmente, foi um longo intervalo. Mais de 30 anos. Algo estranho na vida de um escritor. Meu último poema, da fase latino-americana, chamado Liberdade, foi escrito em 1971, no México. Depois disso, começa um intenso período de viagens com PALESTRAS, conferências e recitais nos Estados Unidos e depois no Equador, no caminho de minha longa volta ao Chile, em dezembro de 1971 e, meses depois, para o Brasil, em meados de 1972.

Somente voltei a escrever poesia em 2002. Ou seja, depois de 31 anos. Por quê? Fortes razões de ordem familiar me fizeram voltar, justamente na época mais perversa do REGIME ditatorial, obrigando-me a entrar no anonimato literário, social e profissional.

A luta contra a ditadura foi um dos motivos por esse intervalo?

De 1972 a 1975, as operações militares para acabar com a Guerrilha do Araguaia, bem como a crueldade com que os DOI-Codi iam aniquilando os quadros da guerrilha urbana, geraram o pânico entre todos aqueles militantes ou intelectuais que haviam se posicionado, na ação ou no ideário, contra a ditadura. As detenções, torturas, execuções e desaparecimentos entraram em sua fase aguda em todo o país.

Alguns meses depois de minha chegada, estava sendo procurado pelo DOPS. Transferi meu registro da OAB para Santa Catarina, com o objetivo de advogar em meu Estado. Mas também lá senti que não poderia assumir publicamente qualquer trabalho. Foi neste contexto que encontrei, em Curitiba, uma forma de trabalhar sem que os agentes da ditadura nunca soubessem onde eu estava. Fui vender a Enciclopédia Delta Larousse, numa atividade itinerante, de cidade em cidade, de Estado em Estado. Tornei-me campeão estadual e nacional de vendas, cheguei ao topo na hierarquia dos títulos, à classe gerencial e palestrante em técnicas de marketing.

De que forma isso mudou o rumo de sua vida?

Tive um grande sucesso financeiro, adquiri bens, casei pela terceira vez, e nesse torvelinho incessante de viver sempre viajando, fui perdendo o interesse, não pela leitura, mas pela literatura em si, esquecendo-me que era poeta, e dos rastros que deixei pelos longos caminhos da América Latina. Em 1987, deixei a Delta Larousse, convidado a criar um setor comercial de uma empresa de medicina de grupo, onde permaneci na área gerencial até o ano passado. Quero também dizer que, apesar do meu desinteresse pela literatura, durante todos esses anos fui um leitor constante da filosofia, da história e das religiões, tornando-me um profundo estudioso do kardecismo e adepto praticante da doutrina espírita.

Como foi o processo de retomada?

Minha retomada à criação poética aconteceu numa misteriosa circunstância. Já expliquei algures que minha volta à poesia deu-se por uma intrigante inspiração das musas. Na campanha eleitoral para governador do Paraná, em 2002, Roberto Requião – velho amigo, colega da Faculdade de Direito e companheiro de ideais na juventude –, foi covardemente acusado de inverdades e calúnias pelos seus inimigos políticos. Indignado, comecei a escrever alguns versos, relembrando o tempo em que saíamos em passeatas de protesto contra a ditadura, dos sonhos de justiça e liberdade que partilhávamos e que ele brilhantemente colocava na sua afiada oratória, e eu no lirismo dos meus versos.

Lembrei-me também do caminho que me indicou, e dos amigos a quem me recomendou, no Paraguai, quando, em março de 1969, tive que sair do Brasil, num dos momentos mais difíceis de minha vida. Todo este gesto solidário se transformou no poema Tributo, tornado público num jornal da época e que consta do meu livro Cantares.Foi com este poema que voltei a escrever poesia, em setembro de 2002, depois de 31 anos de abstinência literária.

Você consegue enxergar uma marca na literatura produzida nesses países? O que caracteriza a poesia latino-americana?

Meu interesse naqueles anos e ainda hoje pela literatura latino-americana sempre foi dirigido para os autores comprometidos, sobretudo com o indigenismo e as lutas sociais, e o que caracteriza essa literatura, na prosa e na poesia, é a denúncia e a resistência.

Este espaço não me permite nominar todos os autores, cujas obras estudei – e tudo isso está amplamente analisado Nos Rastros da Utopia– e que se comprometeram com essas lutas, mas me lembro aqui de Mariano Melgar, Pablo Neruda, Armando Tejada Gómez, Ariel Danton Santibañez Estay, Eliodoro Aillón Terán, Javier Heraud, Cesar Vallejo, Luis Nieto, Leonel Rugama, Tirso Canales, Roque Dalton e Otto René Castillo entre os poetas, e Oscar Soria Gamarra, José María Arguedas, Roa Bastos, Ciro Alegria, Manuel Scorza, Jorge Icaza, Miguel Angel Astúrias e Carlos Fuentes entre os prosadores.

 

Poemas para a liberdade teve grande repercussão, com edições esgotadas em vários países. A que você atribui esse alcance?

Este livro nasceu espontaneamente pelas mãos dos estudantes peruanos de Arequipa, em janeiro de 1970, que propuseram gratuitamente uma edição mimeografada de 1.500 exemplares. Dois meses depois, os estudantes de Cusco lançaram duas edições, respectivamente de 700 e 1.000 exemplares mimeografados e em junho daquele ano, em La Paz, meu livro tem sua primeira edição, de 2.000 exemplares, lançada graficamente, e sem nenhum custo para mim, pelo Comitê Central Revolucionário da Universidad Mayor de San Andrés.

Na verdade, os fatos que levaram à edição boliviana de Poemas para la libertad é uma história espiritualmente misteriosa e inacreditável do ponto de vista editorial e que é contada com todos os seus detalhes no meu livro Nos Rastros da Utopia, envolvendo o jornalista brasileiro Paulo Canabrava Filho, na época militante da ALN – Aliança Renovadora Nacional – e correspondente da France Press, exilado na Bolívia, e o poeta e jornalista boliviano Jorge Suárez.

E as edições em outros países, como aconteceram?

Na Colômbia, a obra foi editada pela Nova Era, cujos 1.500 exemplares se esgotaram em poucas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá; duas edições norte-americanas editadas em 1971, em San Diego, pela Grandma´s Camera; a edição equatoriana editada pela Universidade Central do Equador, em 1971 e, finalmente, em 2009, a edição bilíngue brasileira editada pela Escrituras.

Meus Poemas para lalibertad também tiveram edições parciais na Nicarágua, em plena ditadura de Somoza, editadas pela Universidade de El Salvador e publicados, declamados e debatidos em Tampico, no México, em fevereiro de 1971, durante as comemorações do 37º aniversário de morte de Augusto Cesar Sandino, onde participei, a convite dos sandinistas exilados no México. Dois de seus poemas –Canção para homens sem face e Canção de amor à América – foram publicados pela Revista Civilização Brasileira e o último foi comentado pelo crítico Wilson Martins ao afirmar que “é, com certeza, um dos belos poemas do nosso tempo”.

Quanto ao seu alcance e repercussão, creio que se deve ao caráter libertário dos meus versos, à imagem revolucionária que se criou em torno de minha pessoa como um poeta desterrado e expulso de vários países por minhas convicções políticas, assim como pela minha incansável militância poética, peregrinando ao longo de toda a América Latina, num tempo em que a juventude estava mobilizada ideologicamente e, diferentemente da juventude dos nossos dias, amava realmente a poesia.

Além do sucesso editorial, o livro teve grande influência política. Essa repercussão política já era esperada?

Na década de 70, o continente estava semeado de sonhos e esperanças. A revolução cubana, a imagem heroica do Che, as repercussões das revoltas estudantis de 1968 na França, no Brasil e em quase todo o mundo eram os ingredientes que contagiavam politicamente a juventude. Meu livro não era apenas um livro de poesia. Era um documento histórico, porque todos os seus poemas trazem uma consigna geopolítica de luta e, paradoxalmente, uma mensagem de paz e esperança.

Há um poema chamado Requien a um poeta guerrilheiro, dedicado ao jovem poeta peruano Javier Heraud, assassinado pelo exército em 1965, e que também foi uma das causas da minha expulsão do Peru, em 1969. Depois veio minha expulsão da Colômbia e por aí vai, para dizer que meu livro, muito mais que um livro de poesia, foi um gesto de convocação e resistência, uma trincheira de luta e uma bandeira desfraldada por um mundo melhor, tendo seus versos sido publicados em panfletos, jornais, grandes revistas, cartazes, publicações acadêmicas, livros e antologias, ao lado de Mario Benedetti, Juan Guelmann, Jaime Sabines e outros grandes poetas hispano-americanos.

Há também um poema chamado Saudação a Che Guevara, que foi a causa da minha saída precipitada do Brasil, em 1969. Um outro poema, chamado O guerrilheiro, foi dedicado a Inti Peredo, lugar-tenente de Che Guevara na guerrilha boliviana, escrito em 1969, em Cochabamba, alguns dias depois do seu assassinato por militares em La Paz, e que foi um dos motivos porque fui “convidado” a deixar a Bolívia em 48 horas.

Conte um pouco mais sobreesse episódio de Saudação a Che Guevara.

Este poema foi escrito em outubro de 1968 para comemorar o primeiro ano da morte de Che Guevara. Por iniciativa do livreiro José Ghignone (o Dude) foram mimeografadas 3.000 cópias e distribuídas, pelo pessoal do Partidão, em universidades, centros acadêmicos, sindicatos e organizações de classe. A distribuição foi feita gradativamente entre o fim de outubro e o começo de dezembro, até o dia 13, quando foi publicado o AI-5. E daí tudo mudou. O que fazer se o poema já fora quase totalmente distribuído e pregava a luta armada?

Nos primeiros dias de março de 1969, viajei ao Rio de Janeiro para um encontro com o poeta Moacyr Félix e o editor Ênio Silveira, a fim de entregar os originais para a publicação da série Poesia viva, que a editora Civilização Brasileira estava lançando e para a qual eu fora convidado, depois da boa repercussão que teve meu poema Canção para os homens sem face, recém-publicado no n° 21/22 da Revista Civilização Brasileira.

 Ao voltar para Curitiba, no dia 12 de março, encontrei, no bar Velha Adega alguns amigos e entre estes o escritor e publicitário Jamil Snege e a estudante de sociologia Elci Susko. Ela me relatou, angustiada, que, por duas vezes, fora abordada na Faculdade, levada por agentes de segurança e interrogada pelo delegado regional da Polícia Federal sobre o meu paradeiro.  Ele tinha em seu poder um exemplar do panfleto “Saudação a Che Guevara” onde constava a autoria do poema e me acusava de “comunista”, de “pregar a luta armada” e ser “um inimigo da pátria”.

Naquela época, a dois meses da publicação do AI-5, já havia começado a “caça às bruxas”, no Brasil inteiro. Os suspeitos de subversão eram presos, mantidos incomunicáveis e muitos começaram a sumir. Naquela mesma noite, já em pânico com o relato da Elci e preocupado com minha esposa e minha filha, fui aconselhado pelo Jamil a sair da cidade. No dia seguinte, pela manhã, fui à casa do Requião, e, como já adiantei, ele abriu o caminho para que, no dia 15 de março de 1969, eu rumasse para Assunção recomendado para seus amigos, o pintor e escultor Angel Higinio Iegros Semidei e os irmãos Francisco e Mario Rojas.

O poema repercutiu em outros países também?       

Sim, em fins de setembro de 1969, depois de passar pelo Paraguai, Argentina e Chile, eu já estava em Cochabamba (BOL), como convidado a um Congresso Nacional de Poetas. Um dia, no HOTEL Boston, onde a Comissão do Congresso me hospedou, apareceu um casal pedindo uma cópia do meu poema ao Che, para ser publicado num cartaz, em comemoração ao segundo ano de sua morte.

Este casal era o já então conhecido jornalista chileno Elmo Catalán Avilés (Ricardo) e a jovem boliviana Genny Köller Echallar (Victoria), dois quadros guerrilheiros do ELN (Ejército de Liberación Nacional), como fiquei sabendo, posteriormente, quando  ambos foram assassinados por um militante do próprio ELN (Anibal Crespo Ross), ante a decisão do casal de abandonar a Organização, em razão da GRAVIDEZ de Genny.

O poema foi publicado num grande cartaz ilustrado por Atílio Carrasco, um dos grandes pintores bolivianos, que havia sido aluno do célebre pintor muralista David Alfaro Siqueiros, no México. Como eu já tinha sido interrogado e ameaçado de expulsão do país, pelo delegado da DIC (Diretoria de Investigações Criminais), decidi entrar no anonimato e o cartaz, com a imagem e o poema do Che, foi publicado como Saludo al Che Guevara e assinado como El Poeta. O poema-cartaz, editado pela FUL, (Federación Universitaria Local) de Cochabamba, passou a ser vendido no meio estudantil e distribuído para todas as FUL da Bolívia.

Dias depois, como a polícia política conseguiu descobrir a minha autoria, fui detido e intimado a sair do país em dois dias. Pela segunda vez, meu poema ao Che me obrigava a buscar novos caminhos.

Como você analisa o papel que a literatura teve na luta contra a ditadura?

Ela não teve o papel que deveria ter.  Os comprometimentos foram poucos.  Acho que o teatro foi o grande palco dessa luta e onde se destacaram o Grupo Opinião do Rio de Janeiro e o Teatro de Arena de São Paulo. Lembro-me que, em 1965, o Grupo Opinião chegou a Curitiba com a peça Liberdade, Liberdade, trazendo em seu elenco Jairo Arco e Flecha, Tereza Raquel e Paulo Autran, de quem me tornei amigo.

A peça marcou época no teatro brasileiro e citava textos em prosa e poesia de autores famosos, para protestar contra a repressão imposta pela ditadura. Depois de minha volta ao Brasil me afastei da vida cultural e da literatura, mas percebi que, sobretudo depois do AI-5, a criação literária vivia amordaçada e desiludida de seus próprios objetivos.

Não se editavam muitos romances naquela época e, apesar do meu distanciamento, li algumas obras como Quarup e Bar Don Juan, de Antonio Callado, e Pessach: A Travessia, de Carlos Heitor Cony.

O texto de apresentação do livro Nos rastros da utopia – uma memória crítica da América Latina dos anos 70, apresenta você como um caminhante incansável que fez uma fantástica peregrinação por 16 países da América. Fale um pouco dessa jornada.

É uma jornada que teve a dimensão gráfica de 912 páginas. É difícil resumir em poucas linhas essa imensa aventura. O que posso dizer é que na década de 70 tudo estava no ar e bastava o compromisso de sonhar para que os caminhos se abrissem magicamente. Contudo, nem todas as portas da realidade se abriram aos ideais e nem todos os visionários que lutaram por uma nova sociedade conseguiram sobreviver às suas trincheiras.

Sinto-me um privilegiado por ter trilhado esse venturoso tempo e de poder resgatar num livro essa imensa memória colhida em tantos caminhos, numa profunda identificação com a história e as bandeiras revolucionárias desfraldadas pelo continente.

O meu livro é também uma reflexão sobre os sentimentos e as emoções que marcaram a agenda daqueles anos, dizendo da ventura de ter sido jovem nesse tempo e do desencanto de ver, atualmente,  as utopias desterradas. Falo da trágica herança dos nossos dias, de um mundo sem norte, sem porto e de um tempo marcado pela perplexidade e os pressentimentos. Mas ainda que nesse impasse,  minha alma de poeta não abdica de sonhar, imaginando que a misteriosa dialética do  tempo nos reconduza a um amanhecer, a uma aldeia  de esperança, a um mundo possível e melhor.

Nos anos 70, o que diferenciava o Brasil dos outros países vizinhos?

No plano político não havia grandes diferenças. Eram REGIMES de exceção e não estados de direito. Não falarei da economia, porque essa não é a minha paixão. O único fato que diferenciou o Brasil dos demais foi o regime militar que se instaurou no Peru, em 1968, sob o comando do general Juan Velasco Alvarado, propondo mudanças estruturais, amparo aos oprimidos, reforma agrária e colocando barreiras aos interesses imperialistas. Apesar de militares de tradição conservadora, sonharam com um socialismo nacional e reataram relações diplomáticas com Cuba, com a União Soviética e com a China maoísta.

No entanto, esta bem intencionada revolução dos coronéis não sobreviveu a uma grave doença do seu idealizador, em 1975, e, quando Velasco morreu, em 1977, seu sonho de redenção social do Peru também já estava morto.

Entre as ditaduras militares, a grande diferença foi o golpe e a repressão sanguinária de Pinochet, no Chile, por certo o fato mais marcante dos anos 70, assim como a ditadura argentina, cujas estatísticas da crueldade fizeram seus comparsas parecer santos. Enquanto no Brasil tivemos, segundo os dados da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 475 mortos e desaparecidos, na Argentina estima-se que foram 30.000. Por outro lado, a lamentável diferença que sobreveio com o julgamento da História, é que os nossos vizinhos julgaram e puseram na cadeia os verdugos da repressão e aqui no Brasil eles continuam impunes, ironizando as nossas comissões da verdade.

E qual semelhança havia entre essas nações?

A semelhança é que nos anos 70 todo o sul do continente ostentava também suas ditaduras, coordenadas pelo mesmo imperialismo. Tivemos o Paraguai a partir de 1954, o Brasil em 64, em 71 a Bolívia, o Uruguai e o Chile em 73, e a Argentina em 1976. Em nenhuma havia democracia nem garantias constitucionais. Em todas elas, seus oficiais soletraram o be-a-bá da repressão, nas cartilhas da contrainsurgência da Escola das Américas, mantida pelos norte-americanos no Panamá.

No Brasil, os agentes civis aprenderam muito com as técnicas do suplício ensinadas por Dan Mitrione, o mestre norte-americano da tortura, cuja sinistra carreira foi encerrada pelo Tupamaros em 1970, e cujos ensinamentos foram levados para o Chile pelos torturadores brasileiros. Embora cada ditadura tivesse o seu perfil nacional, a Operação Condor associou a todas no mesmo grau de cumplicidade, nos métodos de crueldade e no planejamento dos assassinatos.  

De lá para cá, o que mudou na América?

Creio que mudou muito. Os EUA já não conseguem violentar nossa liberdade e nem estrangular nossa economia como fez com Cuba. Nossos povos aprenderam a resistir e a decidir nossos destinos. Os movimentos sociais e a consciência política são hoje os agentes da nossa história e isso possibilitou que governos populares ascendessem ao poder no Brasil, Uruguai, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e, recentemente, no Chile. Já não somos vítimas do FMI.

Creio que fatos como a invasão da República Dominicana pelos Estados Unidos, em 1965, bem como sua intervenção direta no golpe militar que derrubou Allende em 1973, são agora improváveis de acontecer.

Para você, o que é a América Latina?

Para mim, diante dessa crise global, creio que a América Latina é ainda o melhor lugar para se viver. Enquanto a Europa parece desagregar-se, abatida pela própria ganância dos seus mercados especulativos, aqui sentimos que estamos nos integrando. Ainda que, no mundo ocidental, vivamos sob a feroz imposição ideológica do neoliberalismo, ensejando uma cultura de consumismo que atinge a todos, creio que aqui ainda não fomos contaminados pela desesperança.

Na verdade, para mim, que sou um poeta, não é com a linguagem geopolítica que posso definir a América Latina. Creio que posso defini-la melhor com os versos de um poema que escrevi, há alguns meses, descrevendo seus encantos e suas lágrimas:

 

AMÉRICA, AMÉRICA

   Manoel de Andrade

 

Trago ainda na alma o mapa dos caminhos…

Meus versos riscam teu dorso para cantar um tempo único e perfumado.

América, América,

ali, entre os ramos e o penhasco, o abismo florescido,

acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.

Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta,

é seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.

 

Canto meu enredo de viandante,

passo a passo rumo ao norte e à alvorada.

Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!

A travessia ao entardecer no Titicaca,

O Illimani batido pelo sol,

e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu!

Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,

e tudo me chega como um recanto do passado…

e se hoje digo amigos e digo hermanos,

ouço nossos passos ecoar pelas vielas seculares de Quito e de La Paz.

 

Ai, América, ainda não disse de ti quanto quisera,

abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me o frescor do rocio,

dá-me a magia e o lirismo…,

que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de encanto?

América, América,

Lembro-me do fulgor do teu rosto renascido da utopia,

tuas bandeiras de sonhos

feitas de plumas e veias transparentes.

Os campos todos semeados

e o porvir tatuado em cada gesto.

Tudo era aroma na gleba cultivada,

nos brotos germinava a esperança

e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.

 

Canto a América que vivi,

entre alegrias e lágrimas, canto o continente ao sul de Anahuác.

Falo de uma América primeira,

asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,

essa América materna,

botânica e mineral,

sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.

Falo de uma só pátria,

a grande pátria de Bolívar,

pilhada e violentada,

submetida pelas garras perversas do Império.

Vi tuas trincheiras abertas

e depois as densas trevas caírem sobre o sul.

Sobreveio o chumbo cruel,

os labirintos da dor e as atrocidades.

Na penumbra gemiam os cravos, gemiam as rosas,

e agonizava a vida ainda em botão.

 

Canto para denunciar a verdade sufocada,

e eis que mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry, Videla, Pinochet

e seus rastros genocidas num tempo silenciado.

Canto para dizer das valas clandestinas,

das ossadas do Atacama

e dos “voos da morte” para o mar,

Meu réquiem para trinta mil argentinos,

meu canto para as “crianças da ditadura”,

para os sobreviventes e suas cicatrizes,

para a viuvez e a orfandade

para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.

 

América, América,

quarenta anos se passaram

e tuas feridas ainda emergem da tragédia!

E aqui declino a “operação” perversa dos “condores”

e os seus generais malditos.

Canto por ti, América,

por tuas aldeias de bravos e por teus calvários,

por teu nevado esplendor tantas vezes torturado,

América de tantos massacres e patíbulos,

ouço-te ainda na voz melancólica dos charangos, quenas e zamponhas,

chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.

Uma América de martírios,

estrangulada em Cajamarca,

esquartejada em Cusco,

sacrificada em La Higuera.

executada em Trelew e El Frontón,

e nos rituais da morte em VILLA Grimaldi e no Dói-Codi.

 

Por tanta dor nessas memórias

eu vos peço perdão pelo meu canto.

Ele é também assim: um áspero clarim no entardecer.

Distante, tão distante,

no tempo e nos andares,

e hoje, em busca de mim mesmo,

ainda abrigo o mesmo combativo coração.

Não sei o que te espera, América,

os anos correram inquietantes e velozes

restando um mundo com seu som intolerável.

 

Busco meu íntimo silêncio,

e, por um momento, digo basta…,

meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do Chile.

Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.

Vou em busca de Arauco,

lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.

Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.

Vou para rever o cone nevado do Antuco

rever o vale e a Cordilheira,

o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.

Vou para relembrar uma baía de barcos,

para construir uma paisagem na alma,

uma tenda de luz para um amigo.

– See more at: http://www.revistaideias.com.br/?/entrevista/1519/a-america-latina-nos-rastros-de-manoel-de-andrade/&PHPSESSID=62e2b0a4c034c0a1ea1e32d76b985341#sthash.vLm3e0uz.dpuf

“Não esperava ver uma mudança radical na Igreja” – por Markus Grill

O teólogo Hans Küng, “reformista crítico”, celebra o papado de Francisco, critica a canonização de João Paulo II e fala de Céu, Inferno, eutanásia, amor carnal…

por Markus Grill — publicado 03/09/2014 05:08
 
 
 
Alberto Pizzoli/AFP

Hans küng lutou durante toda a sua vida pelas reformas hoje avaliadas pelo Vaticano. Nesta entrevista, o teólogo suíço fala sobre as probabilidades de o papa Francisco revolucionar a Igreja, por que João Paulo II não deveria ser canonizado e o que ele espera aprender no Céu.

Küng tem sido uma voz a favor da reforma da IgrejaCatólica há décadas: da infalibilidade papal ao celibato dos padres e à eutanásia. Sua atuação custou-lhe a licença para ensinar teologia católica e levou muitos a considerá-lo um herege. Aos 85 anos, afetado por mal de Parkinson e outras doenças, o suíço vê a Igreja sob Francisco contemplar várias das ideias defendidas por ele faz muito tempo.

Markus Grill: Professor Küng, o senhor irá para o Céu?

Hans Küng: Certamente, espero que sim.

MG: Alguns diriam que o senhor irá para o Inferno, por ser um herege aos olhos da Igreja.

HK: Não sou um herege, mas um teólogo reformista crítico. Diferentemente de muitos de meus detratores, uso como parâmetro o Evangelho, em vez da teologia medieval, a liturgia e a lei da Igreja.

MG: O Inferno existe?

HK: A referência ao Inferno é uma advertência ao fato de um ser humano poder negligenciar completamente seupropósito na vida. Não acredito em um Inferno eterno.

MG: Se o Inferno significa perder seu propósito na vida, deve ser uma noção muito secular.

HK: Os indivíduos criam seu próprio inferno, em guerras, assim como no capitalismo desenfreado.

MG: Em seu ensaio “Fragmento sobre o tema da religião”, Thomas Mann admitiu pensar na morte quase todos os dias. E o senhor?

HK: Na verdade, sempre pensei que morreria jovem, pois acreditava que, diante da minha vida louca, não chegaria aos 50 anos. Hoje estou surpreso por ter 85 e continuar vivo.

MG: O senhor é um homem idoso e doente. Tem perda auditiva aguda, osteoartrite e degeneração macular, que destruirá sua capacidade de ler.

HK: Essa seria a pior coisa, não ser mais capaz de ler.

MG: O senhor foi diagnosticado com doença de Parkinson.

HK: Entretanto, ainda trabalho muito duro todos os dias. Mas interpreto todas essas coisas como sinais de advertência sobre minha morte iminente. Minha caligrafia tem ficado pequena e muitas vezes ilegível, quase como se estivesse prestes a desaparecer. Meus dedos falham. É um fato que minha condição geral deteriorou. Mas eu também combato isso. Nado 15 minutos todos os dias onde moro e faço exercícios de fisioterapia, assim como exercícios para a voz e para os dedos, e me dedico a novas tarefas. Além disso, tomo vários remédios por dia.

MG: O senhor escreveu mais de 60 livros e sempre foi um homem muito produtivo, que gostava de entrar em discussões. Em suas memórias, o senhor avalia se em breve não será nada além de uma sombra de si mesmo.

HK: É claro, os diagnósticos e prognósticos dos médicos são imprecisos. Minha visão, por exemplo, deteriora-se mais lentamente do que o previsto. Dois anos atrás, meu médico disse que eu só conseguiria ler por mais dois anos. E hoje ainda consigo ler. Mas vivo em aviso prévio, e estou preparado para me despedir a qualquer momento.

MG: Seu amigo, o escritor e intelectual Walter Jens, caiu em um estado de demência que rapidamente se deteriorou nove anos atrás. Ele morreu faz pouco tempo.

HK: Eu o visitei várias vezes, inclusive pouco antes de sua morte. Até alguns anos atrás, seu rosto ainda se iluminava quando eu o visitava. Mas nos últimos anos ele não se lembrava mais se tinha me visto na véspera ou um mês antes. No final, não me reconhecia mais. Foi deprimente pensar que Jens, um dos intelectuais mais importantes do pós-Guerra, havia recuado para uma espécie de infância.

MG: A demência também foi dura para Jens, ou apenas para seus parentes e amigos?

HK: No início de sua doença, quando você perguntava como se sentia, ele quase sempre dizia “péssimo” ou “mal”. Ao mesmo tempo, ele passou a apreciar pequenas coisas, como crianças, animais e doces. Eu costumava levar-lhe chocolates. No início ele comia sozinho, mas depois eu tinha de colocá-los em sua boca. Não podemos saber o que Jens experimentou no final. Mas não se pode esperar que eu aceite estar em uma condição semelhante.

MG: Em 1995, o senhor e Jens coescreveram o livro Dying With Dignity (Morrendo com Dignidade). Como cristão, o senhor pode pôr fim à sua própria vida?

HK: Sinto que a vida é um dom de Deus. Mas Deus me tornou responsável por esse dom. O mesmo se aplica à última fase da vida, a morte. O Deus da Bíblia é um Deus de compaixão, e não um déspota cruel que quer ver os seres humanospassarem o maior tempo possível em um inferno de sua própria dor. Em outras palavras, o suicídio assistido pode ser a forma definitiva de ajuda na vida.

MG: A Igreja Católica considera a eutanásia um pecado, uma infração à soberania do criador.

HK: Não apreciei quando o porta-voz do bispo de Rotemburgo declarou que o que eu havia escrito representava os ensinamentos de Küng, e não os ensinamentos da Igreja. Uma hierarquia eclesiástica que errou tanto sobre o controle de natalidade, a pílula e a inseminação artificial não deveria cometer os mesmos erros agora sobre questões relativas ao fim da vida. Nossa situação mudou fundamentalmente no século XXI. A expectativa média de vida cem anos atrás era de 45 anos, e a maioria morria cedo. Hoje tenho 85, mas é uma extensão artificial da minha vida, graças às dez pílulas que tomo diariamente, e graças aos progressos na higiene e na medicina.

MG: O senhor tem medo de uma doença prolongada?

HK: Escrevi instruções cuidadosamente formuladas e recentemente entrei para uma organização de suicídio assistido. Isso não significa que desejo cometer suicídio. Mas, caso minha doença piore, quero ter uma garantia de que posso morrer de maneira digna. Em nenhum lugar a Bíblia diz que um ser humano tem de se manter até o fim ordenado. Ninguém nos diz o que “ordenado” significa.

MG: O senhor tem de ir para outro país para ter acesso ao suicídio assistido.

HK: Sou um cidadão suíço.

MG: Como funciona exatamente? O senhor telefona e diz: estou indo?

HK: Ainda não tenho um mapa do caminho. Mas escrevi minha própria liturgia da morte no último volume de minhas memórias.

MG: Um padre não poderá lhe administrar os últimos ritos.

HK: Terei comigo um amigo que é padre, um de meus alunos.

MG: Em Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, o protagonista se mata por amor. O livro termina com a sentença: “Nenhum padre esteve presente”. Essa é a posição da Igreja.

HK: Eu sempre objetei a que minha posição sobre a morte fosse considerada um protesto contra a autoridade da Igreja. Não quero fornecer regras gerais, e só posso decidir por mim mesmo. Seria ridículo encenar a própria morte como um protesto contra a autoridade da Igreja. O que eu quero, entretanto, é que a questão seja discutida de maneira aberta e amigável.

MG: Mas que ser humano com uma doença incurável desejará impor uma carga a seus parentes quando o suicídio assistido se tornar socialmente aceito?

HK: Existe, é claro, o risco que você descreve. Mas hoje o suicídio assistido ocorre em uma zona cinzenta, pois é proibido. Muitos médicos aumentam a dose de morfina quando chega a hora, e ao fazê-lo correm o risco de ser condenados por um crime. Alguns pacientes, quando não conseguem encontrar esses médicos, saltam da janela do hospital. Isso é intolerável. Não podemos deixar essa questão à discrição de cada médico. Precisamos de um regulamento legal, em parte para proteger os médicos.

MG: Não nos agarramos demais à vida no final, de modo que perdemos o momento certo?

HK: Isso é possível, é claro.

MG: O senhor se agarra à vida?

HK: Eu não me agarro à vida terrena, porque acredito na vida eterna. Essa é a grande distinção entre meu ponto de vista e uma posição puramente secular.

MG: O senhor escreve em suas memórias: “Meu coração dói quando penso em todas as coisas que terei de abandonar”.

HK: É verdade. Não me despeço da vida por ser um misantropo ou por desprezá-la, mas porque, por outros motivos, está na hora de seguir em frente. Estou firmemente convencido de que existe vida após a morte, não em um sentido primitivo, mas como a entrada de minha natureza completamente finita no infinito de Deus, como uma transição para outra realidade além da dimensão do espaço e do tempo que a pura razão não pode afirmar nem negar. É uma questão de razoável confiança. Não tenho evidência matemática e científica disso, mas tenho bons motivos para confiar na mensagem da Bíblia, e acredito em ser recebido por um Deus misericordioso.

MG: O senhor tem um conceito de céu?

HK: A maioria das maneiras de falar sobre o céu são imagens puras que não podem ser tomadas literalmente. Estamos muito distantes das noções de céu no período anterior a Copérnico. No céu, espero, porém, conhecer as respostas para os grandes mistérios do mundo, para perguntas como: Por que uma coisa é uma coisa e não nada? De onde vêm o big-bang e as constantes físicas? Em outras palavras,  há perguntas que nem a astrofísica nem a filosofia responderam. De qualquer modo, falo sobre um estado de paz eterna e felicidade eterna.

MG: Hoje a física pode explicar o cosmo escuro, com seus bilhões de estrelas, muito melhor do que no passado. Isso abalou a sua fé?

HK: Quando consideramos como o universo é enorme e escuro, certamente não facilita as coisas para a fé. Quando Beethoven compôs a Nona Sinfonia, ainda podia esperar que “acima da abóbada de estrelas vivesse um pai amoroso”. Nós, entretanto, temos de aceitar que sabemos pouco. Noventa e cinco por cento do universo é desconhecido para nós, e nada sabemos sobre os 27% de matéria escura ou 68% de energia escura. A física se aproxima cada vez mais da origem, no entanto não consegue explicar a origem em si.

MG: O que acontece atualmente no Vaticano é aquilo pelo qual o senhor passou a vida a lutar: uma liberalização e reforma da Igreja. Isso acontece no momento em que o senhor envelhece e se torna frágil. É uma ironia da história?

HK: A ironia aplica-se mais a meu ex-colega Joseph Ratzinger do que a mim. Eu não esperava ver uma mudança radical na Igreja Católica durante minha vida. Sempre acreditei, e passei a aceitar, que Küng partiria e Ratzinger ficaria. Por isso fiquei tão surpreso ao ver Bento XVI sair e o papa Francisco assumir o cargo em 19 de março de 2013, meu aniversário e dia onomástico de Ratzinger.

MG: Como foi possível que um colégio de cardeais formado por homens conservadores e de modo geral retrógrados elegesse um revolucionário para papa?

HK: Em primeiro lugar, eles nem sabiam o quanto ele é revolucionário. Mas, fora o núcleo duro da Cúria, muitos cardeais sabiam que a Igreja está em uma crise profunda, simbolizada pela corrupção no Vaticano, o encobrimento de casos de abuso e o escândalo do VatiLeaks. Os cardeais muitas vezes foram confrontados com duras críticas de suas congregações nativas.

MG: Um indivíduo pode revolucionar uma instituição como a Igreja Católica?

HK: Sim, se ela receber bons conselhos como papa e tiver uma equipe capaz. Do ponto de vista jurídico, o papa tem mais poder que o presidente dos Estados Unidos.

MG: Mas só dentro da igreja, porque suas decisões não são submetidas à aprovação de um órgão legislativo.

HK: Também não há Suprema Corte. Se quisesse, o papa poderia abolir imediatamente a lei do celibato adotada no século XII.

MG: A Primavera Árabe poderia ser seguida por uma Primavera Católica?

HK: Já está aqui, mas existe o mesmo risco de reveses e movimentos contrários, como houve na Primavera Árabe. Existem grupos poderosos no Vaticano e na Igreja em todo o mundo que gostariam de reverter o tempo. Eles estão preocupados com seus privilégios.

MG: O senhor se incomoda por não poder mais se envolver nesses debates?

HK: Aceito isso calmamente. Para mim é mais importante o papa ler o que eu lhe envio do que me convidar para ir a Roma.

MG: Recentemente, ele lhe escreveu e disse ter gostado de ler os dois livros que o senhor lhe enviou, e que permanece “à sua disposição”.

HK: Recebi recentemente duas cartas manuscritas e muito amigáveis dele. O endereço do remetente nos envelopes dizia apenas “F., Domus Sanctae Marthae, Vaticano”, e ele assinou as cartas “com saudações fraternas”. Até isso é um novo estilo. Em 27 anos, João Paulo II não me considerou digno de uma única resposta.

MG: Com quem Francisco pode ser comparado?

HK: Provavelmente, com João XXIII, mas ele não tem uma de suas fraquezas. João XXIII fez reformas apressadas e sem uma agenda. Ele cometeu sérios erros administrativos.

MG: A questão é se Francisco impressiona apenas com gestos, ou há mais por trás disso.

HK: Os trajes mais simples, as mudanças no protocolo e o tom de voz completamente diferente não são coisas superficiais. Ele introduziu uma mudança de paradigmas. Com esse papa, ressurgiu o caráter de serviço do cargo papal. Ele quer que os padres saiam das igrejas e encontrem os fiéis. Recentemente, enviou aos bispos uma pesquisa para obter as opiniões dos laicos sobre assuntos familiares. Sua primeira viagem o levou aos refugiados em Lampedusa. Tudo isso é um distanciamento da maneira como Bento XVI interpretava o cargo. O apelo por uma Igreja pobre leva a uma maneira de pensar diferente. Com Bento, o extravagante bispo de Limburg provavelmente ainda estaria no cargo.

MG: Mas Francisco confirmou o arcebispo linha-dura Gerhard Ludwig Müller como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o vigilante do Vaticano e policial em questões da doutrina aceita.

HK: Poderia imaginar que Bento fizesse uma forte campanha para manter Müller no cargo. Mas o teste definitivo será se o novo papa continuará a permitir que ele interprete o supervisor da fé e o grande inquisidor.

MG: E a canonização de João Paulo II, que reforçou grupos controversos como o Opus Dei e a Legião de Cristo?

HK: Não posso entender a canonização. Trata-se do papa mais contraditório do século XX. Ele venerava a Virgem Maria, mas negava às mulheres cargos na Igreja. Ele pregava contra a pobreza em massa, no entanto proibia a contracepção. Discuti extensamente 11 dessas enormes contradições no último volume de minhas memórias. Suas palavras divergiam constantemente de seus atos. Ele considerava o padre Marcial Maciel, um dos piores molestadores de meninos e fundador da Legião de Cristo, seu amigo e o defendeu contra todas as críticas.

MG: O senhor perdoa Francisco por essa canonização?

HK: Bento XVI acelerou a canonização de Wojtyla e ignorou todos os períodos de espera requeridos. Deter o processo agora não apenas seria uma afronta a Bento, mas a muitos poloneses. Posso entender que Francisco não queira fazer isso. Ao menos o papa reformista João XXIII também foi canonizado. Devemos pensar se as canonizações, uma invenção medieval, ainda têm sentido hoje.

MG: Há alguma coisa em sua vida que gostaria de desfazer?

HK: Fui muito polêmico às vezes, e gostaria de não ter dito certas coisas. Minha experiência mais drástica foi, porém, a revogação da licença para ensinar como teólogo católico, em 1979. Foi devastador para mim, emocional e fisicamente. Houve um dia em que eu estava deitado neste sofá amarelo e não conseguia ir à reunião de professores marcada para discutir meu caso.

MG: O senhor espera ser reabilitado em vida?

HK: Não. A Conferência Episcopal Alemã poderia iniciar o processo e Roma só teria de concordar. Mas não prevejo ou espero isso. O papa Francisco não deveria pôr em risco outras tarefas importantes ao me reabilitar e aproximar-se demais de mim.

MG: O senhor foi acusado de vaidade durante toda a sua vida. Existe até um capítulo inteiro sobre isso em suas memórias.

HK: Provavelmente, não sou mais vaidoso que a média.

MG: Parte do motivo de sua licenciatura ter sido revogada deveu-se ao fato de o senhor pôr em dúvida a necessidade de celibato dos padres. O senhor acredita que as regras poderão ser modificadas com Francisco?

HK: Não posso realmente imaginar que essa questão continue a ser adiada. A cada dia há menos sacerdotes paroquiais. Não sei como a Igreja poderá oferecer atendimento pastoral na próxima geração. A questão é relevante há algum tempo e os fiéis apoiam amplamente essa reforma.

MG: O senhor vive em celibato?

HK: Não sou casado e não tenho esposa nem filhos.

MG: Há uma mulher em suas memórias a quem o senhor se refere como “minha companheira ideal na vida”.

HK: Sim, no sentido de uma companheira de viagem ideal. Temos propriedades separadas, vivemos em andares separados e temos apartamentos separados. Eu descrevo tudo isso em minhas memórias e o confirmo. Não tenho mais nada a dizer a respeito.

CARTA ABERTA `A PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF – MUITO GRAVE

CARTA ABERTA `A PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF

À Excelentíssima Senhora Presidenta da República

DILMA ROUSSEFF,

Senhora Presidenta,

O general Enzo Peri, comandante do Exército, acaba de afrontar os poderes da República, aos quais deve obediência. O general encaminhou a todas as unidades do Exército uma ordem ilegal, segundo a qual nenhuma delas deve fornecer informações requisitadas por órgãos como o MinistérioPúblico Federal (MPF) ou outros interessados, cabendo exclusivamente ao gabinete do comandante decidir sobre as respostas.

Portanto, o general Enzo está zombando do ordenamento jurídico, que dá ao MPF a prerrogativa de investigar. Pior ainda, Presidenta Dilma.

O general Enzo está zombando dos brasileiros, incluindo a comandante em chefe das Forças Armadas, a Presidenta da República, que sancionou a lei que criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Mas há um agravante nessa história, Presidenta Dilma. É que o general Enzo é reincidente.

Como Vossa Excelência deve recordar, ainda no governo Lula o general foi um dos pivôs de uma grave crise política, em 2009, ao acompanhar o ministro Nelson Jobim, da Defesa, num verdadeiro motim contra o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Jobim e os comandantes militares ameaçaram demitir-se caso o presidente não alterasse o PNDH-3, retirando dele modestos avanços democráticos relacionados à revogação da Lei da Anistia e à investigação dos crimes da Ditadura Militar. Infelizmente, o presidente Lula cedeu à chantagem e preferiu mutilar o PNDH-3.

Já no atual governo, mantido no cargo apesar da rebelião antidemocrática que encabeçou, o general Enzo mantém-se na linha da resistência ativa à CNV e às políticas de direitos humanos da Presidência da República. Deu suporte às seguidas negativas e embaraços criados aos pedidos de documentos feitos pela CNV às Forças Armadas.

Mais recentemente, em gesto que chocou a consciência democrática, ademais de humilhar os familiares das vítimas e os ex-presos políticos, o comandante do Exército passou da resistência dissimulada ao escárnio, ao endossar os debochados resultados da “sindicância” realizada a pedido da CNV a respeito das instalações militares que, sabidamente, notoriamente abrigaram aparatos de tortura e execução de presos políticos durante a Ditadura Militar.

Diante desses fatos, Presidenta Dilma Rousseff, só nos resta exortá-la a demitir o general Enzo Peri, para o bem da democracia e da sociedade brasileira.

Não é admissível que alguns generais continuem asfixiando a democracia brasileira. Não é razoável que chefes militares continuem zombando da luta por memória, verdade e justiça sem que sejam punidos. O que está em jogo é a democracia e o futuro do Brasil!

Presidenta Dilma, reafirme a soberania popular: demita o general Enzo.

Em 28 de agosto de 2014 – 35 anos da votação da anistia

Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça

Coletivo Contra a Tortura

Coletivo Merlino

Coletivo MVJ João Batista Rita de Criciuma – SC

Coletivo pela Educação, Memória e Justiça – RS

Coletivo Político Quem

Comissão da Verdade de Bauru “Irmãos Petit”

Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF)
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos

Comitê Catarinense Pró Memória 

Comitê Popular de Santos por Memória Verdade e Justiça

Comitê Verdade, Memória e Justiça de Pelotas e Região

Fórum de Reparação e Memória do RJ

Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do ES

Grupo Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro – GTNM/RJ

Instituto de Estudos da Violência do Estado – IEVE

Movimento Camponês Popular – MCP

Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) Nacional

Movimento Nacional de Direitos Humanos no Rio Grande do Sul (MNDH-RS)

Movimento Reforma Já

Núcleo de Preservação da Memória Política

Rede Brasil – Memória, Verdade , Justiça

Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

RUMO AO DESCONHECIDO – por André Singer – por andré singer / são paulo.sp

Rumo ao desconhecido, por André Singer

 
 
 
Está na Folha a matéria de André Singer denominada Rumo ao desconhecido. Dê uma olhada.
 
Por André Singer
 
 
Da Folha de S. Paulo
 
Com a ascensão rápida de Marina Silva, confirmada pelo Datafolha e captada pelas pesquisas desta semana, teremos dois meses de alta indeterminação pela frente. As incógnitas que rondam a candidata, neste momento majoritária no segundo turno, tornarão volátil o cenário político e eleitoral até 26 de outubro. Relação com o agronegócio, programa social, base de apoio para governar, há muito em aberto na candidatura pessebista.
 
Ao comprometer-se com a independência do Banco Central (BC), Marina traçou o perfil macroeconômico de um possível governo do PSB. Teremos juros altos, recessão bem mais que técnica, corte de gastos públicos e desemprego. Mas como seria possível encaminhar os problemas da população que tem renda familiar mensal (RFM) entre 2 e 5 salários mínimos e mora em grandes centros urbanos, cujo apoio a ex-senadora precisa consolidar para
vencer?
 
 
 
De acordo com o Ibope, Marina detém 31% das intenções de votos nesse segmento, encontrando-se empatada tecnicamente com Dilma Rousseff (33%). Como a vantagem de Dilma é nítida entre os mais pobres –sobretudo os que recebem até 1 salário mínimo de RFM (46% contra 23% da candidata ambientalista)–, o fiador da possível eleição de Marina será o eleitor de baixa renda que já superou os problemas da sobrevivência imediata, mas continua
às voltas com grandes insatisfações.
 
A lógica eleitoral indica que Marina vai acentuar promessas, como a realizada no debate da Band (26/8), de destinar 10% da receita da União para a saúde. Ocorre que as referidas propostas são incompatíveis com a orientação sinalizada pela independência do BC. É certo que as campanhas adversárias vão apontar a contradição, ainda que isso cause algum problema de definição para elas próprias.
 
Outra via de ataque a Marina diz respeito à “nova política”. A entrevista para o “Jornal Nacional” (27/8) deu o tom do que vem pela frente. A impossibilidade de explicar, ou condenar, o suposto caixa dois envolvido no avião em que Eduardo Campos viajava, deixou Marina com a resposta típica do que ela chama “velha política”: por enquanto nada tenho a declarar e tudo será
investigado. Casos do gênero vão pipocar, pois a candidata está, e estará cada vez mais, aliada a políticos tradicionais.
 
Em que medida o eleitor prestará atenção e perceberá tais incongruências? Concluo, após duas décadas de estudos eleitorais, que, apesar de pouco informado, o cidadão médio capta o “cheiro” do que vem pela frente. O difícil é saber se, na hora H, preferirá correr o risco de decepcionar-se com Marina para tirar o PT do poder, ou se optará pela segurança da situação já conhecida, ainda que não animadora.