DOM QUIXOTE foi exilado à Campanha para morrer livre entre seus pares – de walmor marcellino / curitiba.pr

DOM Quixote foi exilado à Campanha
para morrer livre entre seus pares

 

A alguma criança.  WALMOR MARCELLINO

À coragem da perseverança na verdade, que se gruda como sombra no corpo enfraquecido e assustado mas desejoso de alguma transparência com os seus. Também infibulada e inquinada de delírio ou transcendência e outros solertes apupos.

Vou contar-te, menino
como o cavaleiro Dom Quixote
defronte gigante e feiticeiro
combinou derribar seu moinho
em galopada ou a trote
enfrentando cada um, primeiro
de frente e pelo lado.

 

Partiu ora a uma justa na Vila Militar:
Sancho desafiara toda a ordem
mas se escudava em Quixote a pelear.

 

Bradavam aos bravos: “Acordem!
que esta batalha vai começar”.
Mas qual! Indiferentes à luta
per meio tamanho egotismo
cada um deles buscava disputa
mais própria ao personalismo.

 

Travou-se ali pugna medonha
descobertos peitos e flancos
em combate, bravura e vergonha
encurralavam a morte aos trancos.

 

Já o estendal da morte impelia retirada;
vão-se em busca de algum sendeiro
a recuperar o ânimo, na voz armada.
Conclama-se rebate, enfim, a todos,
porém Quixote reage altaneiro:
“Hei de vencê-los inda que me custe
a vida de fidalgo cortar o embuste”.

 

Entretanto, a batalha é longa
fervorosa.
Não retrocede, ao tempo avança.
Quixote não abandona a luta, sustém a lança.
Seu cavalo marchador
não come feno há tempo.
Eis ginete de muito valor,
o cavaleiro come alento
seu cavalo come vento.
Se perder a batalha, fica exemplo.

 

Batido por frente e lado
seu poderoso escudo amassado
viseira nos olhos, a lança emperrada
Dom Quixote foi enfim dominado.
A causa ficou perdida, adiada.

 

É. Nem sempre os bravos vencem
mais justa que seja a bandeira
tão alto se põe o alcantil
duma conjura traiçoeira e vil.
Covardia só aos fracos abate
firma-se a coragem na jarreteira,
decisão e empenho no combate.

 

Foi lá por 1900, não me lembro quando
amargurado dessa derrota
fragorosa, com Dulcineia Tobosa
foram com o cavalo Rocinante.
Tu eras bem pequenino
quando Dom Quixote marchou a Cruz Alta
na fronteira do Rio Grande.
Exibia a lança manchada
olhar altivo, ferido mas soberbo
na sua armadura quebrada:
peada a luta, ainda bramia o verbo.

 

Depois, no entrementes:
por baixo do metal desfolhado
sua roupa se condiz rasgada;
só a alma fica ereta, ao lado
aguardando o corpo pra carga.
Esse Quixote intimorato à liça
encolhe-se à arremetida do vento
roupa em frangalhos, couro em treliça;
muito tarde vem o tento:
a lataria não o protege ao tempo.

 

Dulcineia vai, toma-lhe a febre
Sancho à fé alarga a colheita
de leite, carne-de-caça e lebre
em perfumada, boa comida feita.
A resposta é débil, todavia
o olhar mortiço, só às vezes
compadece o sonho, onde havia
de retornar às pugnas mais soezes.
A glória ascende em haustos
naquele solo, de acerba campanha,
onde centauros tiveram dos charruas
coragem e destemor em holocaustos
— a morte ceifa, a vida apanha,
as verdades se fazem nuas.

 

Então, nas coxilhas descampadas
agora sob uma casuarina deitado
o Quixote vê todo o horizonte
por cima das charqueadas.
De cabeça ao braço enfaixado
lamenta e reclama um apronte,
ressonha todavia novas batalhas.
Ó malditas de junho, e minuano
os cúmulos e nimbos voando,
as parcas se vão aprochegando:
entre a manopla e a palma
vem pelas frinchas na armadura,
o ventinho afiado, temprano,
com meio alento, de assacadura
apunhalando o corpo e a alma.

 

Na tepidez do rescaldo, a calma
mas logo a dor desanda, acutilante
a tal desespero se faz hiante
vai-se ligeira a pouca esperança
à boca aberta por indiferença.

 

Combalido, já o herói tosse
à fraqueza que se lhe espalha
na enxerga forrada a palha
faz ali sua derradeira posse.
Quixote sereno, espera a morte
faz de sua lança a bandeira
de espírito alto e indômito;
a maior razão fez altaneira.
Como se fora a outra contenda
levando sua última prebenda:
a coragem da cavalaria.

 

Às vascas diz seu testamento,
e ia embora com tanta pressa,
nem apaziguado nem sereno:
“Logo pensei algum momento:
que bom ir a cavaleiro na eça
que centauro não escolhe o terreno.
Eu não seria Dom Quixote do Templo
se não deixasse um bom exemplo”.

(março 1998)

 

 

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