Arquivos Mensais: novembro \29\UTC 2014

NUNCA SE ROUBOU TÃO POUCO – por ricardo semler / são paulo.sp

NUNCA SE ROUBOU TÃO POUCO
Ricardo Semler

Não sendo petista, e sim tucano, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país

Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.RICARDO SEMLER

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos “cochons des dix pour cent”, os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.

Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão –cem vezes mais do que o caso Petrobras– pelos empresários?

Virou moda fugir disso tudo para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse?

Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro. Tanto faz o partido.

Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.

Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.

Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.

A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.

O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.

É lógico que a defesa desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui não se volta atrás como país.

A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento.

Boa parte sempre foi gasta com os partidos que se alugam por dinheiro vivo, e votos que são comprados no Congresso há décadas. E são os grandes partidos que os brasileiros reconduzem desde sempre.

Cada um de nós tem um dedão na lama. Afinal, quem de nós não aceitou um pagamento sem recibo para médico, deu uma cervejinha para um guarda ou passou escritura de casa por um valor menor?

Deixemos de cinismo. O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido.

O lodo desse veneno pode ser diluído, sim, com muita determinação e serenidade, e sem arroubos de vergonha ou repugnância cínicas. Não sejamos o volume morto, não permitamos que o barro triunfe novamente. Ninguém precisa ser alertado, cada de nós sabe o que precisa fazer em vez de resmungar.

RICARDO SEMLER, 55, empresário, é sócio da Semco Partners. Foi professor visitante da Harvard Law School e professor de MBA no MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA)

No fio da navalha – por marco aurelio nogueira – são paulo.sp

No fio da navalha

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

 Marco Aurelio Nogueira
Há uma dissonância querendo crescer no Planalto. Ela dá o ar da graça mediante uma velha conhecida das esquerdas no mundo todo.

Pode ser assim apresentada: quanto mais complexas parecem ser as tarefas do governo reeleito, mais deveriam as forças que o apoiam pressioná-lo a ir para a esquerda, ou seja, a radicalizar suas posições, seu discurso, suas políticas e suas alianças. Se o raio de manobra diminuiu, a melhor saída seria “empoderar” o governo pela via do movimento social, libertando-o dos gargalos que lhe impõem o sistema político e a estrutura econômica.

Todos reconhecem, sem exceção, que ficou mais difícil a situação do governo, em que pese Dilma ter vencido as eleições. Há o megaevento da Petrobrás, cujos desdobramentos não se consegue prever, há o rombo nas contas públicas, a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, o crescimento econômico que não desponta e a inflação que persiste, a educação e a saúde a latejar, tudo isto combinado com a presença de uma oposição mais forte e a necessidade que o governo terá de formar nova maioria no Congresso sem se deixar levar pela chantagem excessiva do PMDB e de seus aliados.

O governo estará obrigado a dedicar tempo e atenção à política, negociar mais e melhor, dialogar de verdade, buscar novas fontes de legitimação e recuperar o tempo perdido, fazendo tudo isso com uma marca clara de inovação. Não poderá simplesmente reproduzir o toma-lá-dá-cá que tem prevalecido nas relações entre o Executivo e o Legislativo ou a rotina das políticas assistencialistas dos últimos anos, que deverão ser sustentadas e consolidadas sem que sejam tidas como a única marca registrada da ação governamental. Se o governo forçar a mão, poderá perder parte de seus apoios e comprar briga com o mercado; sua base parlamentar, aliás, que operou em regime de engorda crescente ano após ano, bateu no teto. Se mantiver tudo como está, poderá terminar engessado e frustrar os eleitores que viram na reeleição da presidente a possibilidade de “mudar mais”. Caminhará portanto no fio da navalha.

Um ministério “mais qualificado” é esperado tanto pelo mercado quanto pelo PT, mas por motivos distintos. Ao passo que os operadores econômicos querem uma equipe que estabilize e promova crescimento, o partido quer nomes que agreguem suas correntes e seus militantes, ajudando-os a permanecer no campo da mudança e do reformismo social. O País, por sua vez, espera que a presidente lhe apresente uma agenda para o futuro.

A “reforma política”, que está na ordem do dia, não poderá ser o principal recurso para que se enfrente o furacão que se anuncia. Corrupção casa com financiamento eleitoral, mas tem mil tentáculos. Governos podem funcionar seja qual for o sistema de voto. E uma reforma política, por mais bem sucedida que venha a ser, não produzirá efeitos imediatos nem sobre a dinâmica política, nem sobre a governabilidade, pouco servindo, portanto, para melhorar o desempenho governamental.

O momento indica que o PT deve se reposicionar. Sua direção nacional fala em “construir hegemonia na sociedade”. Se a expressão for bem traduzida, poderá significar que o partido dará maior atenção à elaboração de uma cultura que sirva de parâmetro para a educação política dos brasileiros, podendo até mesmo implicar maior questionamento das ações governamentais. Isto jogaria o PT mais no longo que no curto prazo, mais na guerra de posição que na guerra de movimento. O partido, porém, deseja atuar, “em conjunto com partidos de esquerda”, para desencadear um amplo processo de mobilização social.

Como disse o governador Tarso Genro (RS) – defensor de uma reestruturação profunda do PT –, o partido “deve deixar de ser mero apoiador-espectador, excessivamente preocupado com cargos e espaços na máquina pública, para se tornar um partido apoiador-proponente, disputando os rumos do Governo”. Sua proposta põe em xeque o sistema de alianças em vigor, o que significaria aumentar a distância do PMDB: “O governo da presidenta Dilma deve não só ser defendido da direita tradicional dos tucanos, mas também da direita que integra sua própria base parlamentar”. Cabe ao PT ser “o núcleo de sustentação mais coerente das medidas progressistas e democráticas do segundo governo Dilma”.

Uma “frente de esquerda” voltou assim a frequentar os discursos petistas.

O contraponto tem sido feito pelo ministro Gilberto Carvalho, um dos mais próximos do ex-presidente Lula. Para ele, o momento é de valorizar o diálogo tanto para “reunificar o país” quanto para sanar deficiências que se acumularam. Imprimir outro curso ao governo, corrigir falhas e erros, mas sem implodir a base parlamentar duramente construída, mantendo próximos e unidos todos os partidos que apoiam o governo, sem vetos.

O PT da “frente de esquerda” se distingue do PT do “diálogo” à direita, mas ambos se compõem: o governo governaria com a aliança à direita e o partido o pressionaria pela esquerda, ativando os movimentos sociais, numa espécie de “duplo poder”, o do governo e o do partido.

Diante disso, três questões ficam em aberto.

A primeira é se o diagnóstico acerta ao constatar a existência de forças e movimentos de esquerda para integrar uma frente como a pretendida. Mesmo que existam, elas podem não ter disposição para atuar de modo unitário.

A segunda é se a união destas correntes encontraria respaldo efetivo no PT e ajudaria o governo.

E a terceira tem a ver com o que a “frente de esquerda” fará com os democratas liberais e a esquerda democrática não petista. Se empurrá-los em bloco para a “direita”, estará praticando uma infâmia e turbinando as oposições. O mais razoável seria agregá-los ao “novo ciclo reformista” que se deseja inaugurar em 2015. Para isto, porém, a “frente de esquerda” precisaria ser convertida numa “frente democrática”, proposta para a qual a cultura petista majoritária não se mostra suficientemente preparada.[Publicado em O Estado de S. Paulo, 22/11/2014, p. A2]

 

Financial Times: a extrema-esquerda está certa – por antonio luiz costa / são paulo.sp

Financial Times: a extrema-esquerda está certa

 

Como nos anos 1930, algum tipo de ruptura é inevitável e se não for para a esquerda, pode ser na direção do fascismo ou do fundamentalismo

por Antonio Luiz M. C. Costa  publicado 25/11/2014 11:15, última modificação 25/11/2014 11:38

 

Quando um editor e colunista de primeira linha de um jornal financeiro mundialmente respeitado escreve dá razão à extrema-esquerda, é hora de parar, ler e pensar. Referimo-nos a Wolfgang Münchau, editor associado do Financial Times, no qual mantém uma coluna semanal sobre a economia europeia. O título desta, na edição do domingo, 23 de novembro foi: “a esquerda radical está certa sobre a dívida europeia”.

Refere-se, em especial, ao partido espanhol Podemos, ao grego Syriza e ao alemão Die Linke (“A Esquerda”), as duas primeiras formações novas criadas a partir de núcleos de origem no trotskismo e no movimento “antiglobalização” e o terceiro um descendente direto do Partido Comunista da antiga Alemanha Oriental. E explica: o consenso internacional dos analistas econômicos, não necessariamente de esquerda, é que a Zona do Euro precisa de reestruturação da dívida e investimentos no setor público, mas partidos como esses são os únicos nos quais se pode votar para defender esse programa. Social-democratas e socialistas, uma vez no governo, aceitaram a agenda conservadora de Angela Merkel em todos os seus pontos essenciais.

A coluna analisa com mais detalhe o Podemos, o mais jovem desses partidos e “o que chega mais perto de oferecer um enfoque consistente para uma política econômica pós-crise”. O programa exposto pelo economista Nacho Álvarez, um dos membros da cúpula do partido, baseia-se em renegociação das taxas de juros, períodos de graça, reescalonamento e anulação parcial da dívida, à maneira de alguns países sul-americanos. Ao contrário do “Movimento 5 Estrelas italiano”, cujo objetivo declarado é tirar o país do euro, o Podemos “não é a favor de sair do euro, nem de fazer mais sacrifícios por ele”.

Para Münchau, é uma posição equilibrada, por mais que se queira tachá-la de bolivariana. “A tragédia da Zona do Euro é o senso de resignação com que os partidos do centro-esquerda e centro-direita estão deixando a Europa deslizar para o equivalente econômico de um inverno nuclear. É uma tragédia particular que partidos da ultra-esquerda sejam os únicos a apoiar políticas sensatas como a reestruturação da dívida”.

No atual estado de coisas, o absurdo está em pensar que a dívida é sustentável e o problema se resolverá por si só, como se fosse possível ignorar que o continente caminha para uma longa estagnação que, mais cedo ou mais tarde, tornará impossível cumprir esses compromissos financeiros e pode levar à desintegração política e econômica.

A começar dos anos 1980, se não desde o maio de 1968, tornou-se uma obsessão por parte dos agentes do poder financeiro e político não permitir que movimentos políticos e sociais proponham alternativas reais sem serem ridicularizados. Qualquer tentativa de mudar o mundo deve ser percebida como fantasia ociosa. TINA, “There is no alternative”, era o lema favorito de Margaret Thatcher e desde então o consenso dominante da mídia e da política não fazem mais do que repeti-lo em diferentes formulações.

Acontece que o rumo ao qual conduz o pensamento único no qual se embutiu a ideia de que os interesses do sistema financeiro são supremos e sagrados começa a se tornar visivelmente inviável. É evidentemente insustentável a longo prazo por razões ecológicas, mas antes disso cai na pura impossibilidade de contábil e política de pagar as dívidas públicas e privadas e poupar as instituições financeiras das consequências de seus próprios erros, enquanto se mantém uma grande parte da população desempregada e ameaçada de perder suas moradias e os serviços sociais dos quais depende para sobreviver com dignidade. Como nos anos 1930, algum tipo de ruptura é inevitável e se não for para a esquerda, pode ser na direção do fascismo ou do fundamentalismo.

DILMA ESTÁ DIANTE DA ARMADILHA DE GETÚLIO VARGAS – por breno altman / são paulo.sp

DILMA ESTÁ DIANTE DA ARMADILHA DE GETÚLIO VARGAS

por Breno Altman – Diretor OPERAMUNDI – 25/11/2014

 

O jornalista Paulo Moreira Leite, amigo de longa data e analista dos mais acurados, escreveu há poucos dias artigo muito interessante, intitulado “Dilma tenta evitar armadilha de Jango”.

A premissa é que, ao supostamente convidar Joaquim Levy para ministro da Fazenda, a presidente estaria operando com a maestria que João Goulart deixou pela metade, ao indicar Carvalho Pinto para o posto, em 1963, mas demitindo-o apenas seis meses depois de nomeado.

“Político ligado à UDN e ao grande empresariado paulista, Carvalho Pinto tornou-se uma alternativa de Jango depois que o Plano de Metas do ministro Celso Furtado naufragou por falta de apoio entre deputados e sindicatos”, relembra o articulista. “Trouxe melhoras para a diplomacia brasileira, que viveu um fugaz momento de reaproximação com os Estados Unidos.”

A demissão do ex-governador levou o analista, à guisa de relato factual com nexo de causa e consequência, ao seguinte apontamento: “quatro meses depois da saída de Carvalho Pinto, a máquina do golpe de 64 depunha o presidente.”

A comparação padece de relevantes omissões históricas.

Quem quiser analisar os documentos e livros sobre aquele período, poderá se dar conta de que o ministro foi defenestrado por dupla inutilidade.

Não teve efetivamente serventia, em primeiro lugar, para aplacar a escalada da burguesia paulista, majoritariamente alinhada com a conspiração golpista em curso. As mãos norte-americanas que afagavam Carvalho Pinto já estavam estendidas para os organizadores da sublevação que seria desencadeada em março de 1964.

Na outra ponta, a aplicação de sua política fiscalista, baseada na contenção de créditos e salários, ameaçava degradar o apoio de Jango entre trabalhadores e sindicatos, contingentes fundamentais para qualquer estratégia de resistência.

Política frustrada de Vargas

O presidente tentava, de maneira errática e claudicante, escapar de cenário semelhante ao que levara seu tutor, Getúlio Vargas, a se matar. Procurava manter coesas as forças populares que o apoiavam, mas vacilava diante da preparação para um enfrentamento político-militar, àquela altura, inevitável.

Ex-ministro do Trabalho no segundo governo do caudilho gaúcho (1951-1954), participara de processo no qual, encurralado por maioria conservadora no parlamento, o chefe de Estado sucumbira ao tentar apaziguar seus inimigos às custas de agenda econômica e política de desmobilização que solapavam a base social do trabalhismo.

Jango fora, aliás, vítima da frustrada política praticada por Vargas. Durou sete meses no Ministério e caiu quando dobrou o salario mínimo. Sua cabeça na bandeja foi um dos tributos inúteis para acalmar os lobos famintos que preparavam o bote anticonstitucional.

Chegara ao governo no bojo da deterioração de relações entre Getúlio e a classe operária. A inflação galopante, o arrocho salarial e as restrições orçamentárias, frutos da política fazendária pré-1951 que permanecera intacta, impulsionavam greves e mobilizações proletárias por todo o país.

Goulart foi a tentativa de repactuação entre o presidente e seus eleitores fundamentais, soldada durante o segundo semestre de 1953. As pressões de setores do empresariado, porém, levariam à queda do principal pupilo varguista e à retomada da estratégia de conciliação.

Homem das classes dominantes, apesar de nacionalista, não passava pelo radar de Getúlio transformar os trabalhadores em sujeito político ativo e hegemônico sobre um sistema autônomo de alianças. Acreditava que habilidade política seria instrumento suficiente para dividir os extratos abastados e governar.

Algum ensinamento João Goulart deve ter tirado desta experiência.

O fato é que não esteve mais perto da sobrevivência política porque nomeou Carvalho Pinto ou terminou derrotado porque o demitiu.

Nem sempre existe, na política, espaço ou utilidade para acordos entre campos antagônicos. Perceber essas situações é tão ou mais importante quanto se dar conta de confrontos que tendem a ser fatídicos.

Jango foi mais consequente que Getúlio no esforço para manter a unidade e a mobilização dos segmentos que lhe prestavam solidariedade. Mas ficou no meio do caminho, pois não entendeu ou não quis entender, talvez por sua origem de classe, que era preciso se preparar para um choque frontal contra os grupos reacionários.

Atuou na contramão da campanha pela legalidade que Leonel Brizola comandara em 1961. Após a renúncia de Jânio Quadros e a tentativa militar de impedir a posse do vice-presidente, o então governador gaúcho levantou as tropas da brigada local, armou organizações populares e se insurgiu contra o golpe, irradiando tal exemplo por todo o país.

Goulart, porém, manteve-se preso a determinados paradigmas herdados de Getúlio Vargas.

Lógica de conciliação

Ao contrário do que afirma Paulo Moreira Leite, o erro não morava, naquela específica conjuntura histórica, em um enfrentamento eventualmente precipitado, mas em uma lógica de conciliação, ainda prevalecente, que fragilizava o campo popular e abria espaços para o conservadorismo consolidar posições.

Vargas foi o mentor desta estratégia.

Tinha sido eleito, em 1950, depois da mais impressionante jornada eleitoral da história brasileira. Centenas de milhares compareceram a comícios e passeatas, mobilizados pelo discurso nacionalista e popular do antigo ditador.

Vitorioso na disputa presidencial, não conquistou o controle do parlamento, dominado pela aliança entre UDN e PSD, eixo da administração anterior, de Eurico Gaspar Dutra.

Líder burguês como o argentino Juan Perón, mas sem a audácia política do vizinho, desmobilizou seus seguidores e montou um governo conservador que esvaziou as ruas nas quais sua campanha plantara esperanças.

A Fazenda foi entregue a Horácio Lafer, um grande empresário paulista, expoente das teses mais conservadoras.

O pernambucano João Cleofas, usineiro filiado à UDN, recebeu a pasta da Agricultura.

Outro capitalista, Ricardo Jafet, afilhado do governador paulista Ademar de Barros, ficou com o comando do Banco do Brasil.

O PTB terminou dirigindo exclusivamente o Ministério do Trabalho.

Apesar de algumas conquistas importantes, como a criação da Petrobrás e importantes projetos em infraestrutura e industrialização, Getúlio Vargas viu-se bloqueado pelo próprio gabinete que indicou.

Refém de acordos parlamentares, foi simultânea e progressivamente cercado pelos círculos fascistas das Forças Armadas.

Talvez tenha se dado conta, no outono de seu mandato, que o desgaste de se equilibrar entre politicas conservadoras e progressistas o deixara incapaz de convocar à ação os milhões de pobres da cidade e do campo que o tinham eleito em 1950.

O presidente trabalhista poderia ter feito outras escolhas.

Articulado um ministério, por exemplo, que coligasse o proletariado urbano, o campesinato, porções das camadas médias, setores da burguesia industrial e frações produtivas do capitalismo rural — enfim, o bloco histórico que poderia se consolidar com um programa desenvolvimentista, de fortalecimento da soberania nacional e formação de um mercado interno de massas.

Do alto de seu talento para as negociações, contudo, decidiu chamar representantes de seus oponentes políticos e sociais para ocupar funções de destaque no governo, certo de que era a melhor opção para neutralizá-los.

Terminou isolado e enfraquecido, vítima da sanha dos oligarcas da terra, do dinheiro e da informação, mas também do tabuleiro político que havia desenhado, no qual a intervenção dos trabalhadores e do povo tinha somente papel eleitoral.

Apenas com o suicídio de Getúlio as massas retomaram seu movimento, adiando por dez anos o golpe previsto para 1954 e vedando, por esse interregno, a ascensão ao poder das frações mais conservadoras da burguesia brasileira.

Lições da história

Claro que Paulo Moreira Leite tem razão quando afirma que não se deve “forçar uma comparação para reforçar um argumento político”.

A história serve apenas para extrair lições que eventualmente permitam referências às decisões presentes. Não traz fórmulas ou soluções de uso universal. Tampouco substitui a análise concreta da situação concreta, como diria o velho Lênin.

Mas é evidente, adotadas as devidas cautelas, que o suposto convite a Joaquim Levy e Kátia Abreu não guarda relação com o cerne dos problemas vividos pelo governo João Goulart.

A questão, à época, não era fundamentalmente de aversão a pactos mais amplos, seguidamente estabelecidos, com maior ou menor zelo, mas a resistência do presidente e seus principais parceiros, entre esses o Partido Comunista, em se preparar para uma situação de ruptura, na qual as contradições costumeiramente se resolvem pela vitória da revolução ou da contrarrevolução.

O resultado todos conhecem.

Se algum paralelo cabe com fatos atuais, não se refere à virtude de escapar do presumido motivo que levou à derrocada de Jango, mas ao risco da presidente Dilma Rousseff estar sendo atraída para a armadilha que conduziu Getúlio Vargas a  dramático sacrifício.

Não há registros alvissareiros, vale lembrar, quando se estabelece excessivo distanciamento entre o sentido programático e classista de um determinado processo eleitoral e a natureza do governo constituído depois que as urnas se pronunciaram.

 

DILMA : O AUTO DA COMPADECIDA – paulo timm / porto alegre/rs

DILMA : O AUTO DA COMPADECIDA

Paulo Timm

(…) Ver o mundo em grão de areia

e o céu em uma flor silvestre,

sustentar o infinito na palma da mão

e a eternidade em uma hora.(…)

“Augúrios de Inocência”5

(William Blake  – Poeta inglês , 1757 – 1827)

 Essa mudança de discurso e atitudes de Dilma, bem como suas escolhas para o ministério, lembram a fala do Encourado/Promotor em “O Auto da Compadecida”: É proibido Dilma fazer tudo o que Aecio supostamente faria? “Homem, se é proibido eu não sei. O que eu sei é que você achava que era e depois, de repente, passou a achar que não era.

Alessandro Galvão

A ultima eleição presidencial radicalizou a opinião pública em torno dos rumos da economia brasileira. A Oposição, Aécio à frente, criticou duramente a Política Econômica do Governo, propondo uma maior articulação internacional da economia brasileira com vistas à retomada do crescimento. Dilma, tentando a reeleição, defendeu com unhas e dentes o modelo em curso, calcado no mercado interno, com aumentos
PAULO TIMMreais sistemáticos dos salários, denunciando os críticos como pessimistas incorrigíveis. Comparou-os até com o personagem do Velho do Restelo, que advertia os navegadores portugueses em suas aventuras oceânicas em busca de glórias e riquezas.

Dilma ganhou a eleição,  por pequenas diferença de votos. Desde então, a conjuntura nacional tem se mostrado tensa e insegura.  Nos últimos dias tornou-se preocupante, até porque pressionada pelos vultosos números do “Petrolão”: “Nunca na história deste país…” A impressão é que Dilma está muito isolada em seu labirinto, com problemas junto ao próprio PT, dividido em duas correntes: uma, mais ligada a Lula, verberada por Gilberto Carvalho, defendendo a Governabilidade “democrática” ,com o reforço da Base Aliada, ora apontando para a indicação de um Ministro da Fazenda ortodoxo, na linha William Blake que acreditava que se poderia chegar ao céu pelo caminho do inferno; outra, clamada por revisionistas como Tarso Genro e apoio de Stédile e L.Boff,  propondo a reorientação política do Governo à esquerda, com a re-fundação não só do próprio PT, moralmente abalado,  mas do conjunto das forças de esquerda, no rumo de um choque hegemônico para o avanço do “socialismo”. Este debate interno se reflete na rejeição destes últimos a qualquer tentativa de implantar uma Política Econômica mais tradicional, ao gosto dos tucanos, investidores e grande imprensa.  Mas há divisão, também, no principal aliado, o PMDB. Um desafeto do Palácio do Planalto , deputado deste Partido, está em franca campanha para a Presidência da Câmara dos Deputados. Um perigo!A ofensiva contra Dilma vem também da Mídia, que abre amplos espaços a economistas que contestam cada vez mais o cândido otimismo governista sobre a economia, com centro no descontrole das contas públicas, evidente diante da mensagem do Executivo ao Congresso reconhecendo a deterioração da receita e revisando os rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas há críticas de outra ordem: O Setor Externo, deficitário diante dos maus preços das commodities, está cada vez mais vulnerável, com perda galopante  das reservas internacionais. E as há , também, quanto  ao processo inflacionário, que já estaria beirando os 10% em alguns segmentos como serviços internos, pressionados por salários mais altos,  isso sem levar em conta os preços administrados sob controle do Governo. Enfim… Enorme dor de cabeça para a Presidente.

Tomemos um ponto: a questão da nomeação do Ministro da Fazenda.

No centro dos debates internos e externos ao Governo sobre a indicação das novas autoridades da área econômica está a questão do PIB e DESENVOLVIMENTISMO. . Historicamente os desenvolvimentistas foram os que defenderam a industrialização contra aqueles que insistiam que o Brasil tinha uma “vocação” agrícola que se deveria maximizar. Esquerda x Direita…Depois, a ideia mesma da industrialização se impôs, mesmo durante o regime militar. Era tão poderosa a IDEOLOGIA DESENVOLVIMENTISTA que acabou hegemônica. Depois dos anos 80, sob o CONSENSO DE WASHINGTON, o debate ganhou novos rumos. Os conservadores passaram a defender uma maior articulação do país às cadeias produtivas internacionais, com vistas ao crescimento. Os velhos desenvolvimentistas persistiram na defesa do o mercado interno como suficientemente capaz de impulsionar a economia. Com Lula, em 2003, sem prejuízo do tripé macro-ecnômico da estabilidade financeira, o desenvolvimentismo ganhou força, acrescentado pela política de valorização do salário mínimo e políticas sociais. Deu certo, o país cresceu, houve incorporação de milhões de brasileiros ao mercado e cidadania. Aí veio a Dilma, a conjuntura internacional mudou, a economia começou a falhar e os governistas começaram a dizer que o PIB não era importante: “Trabalhadores não comem PIB”. Então o cenário se complicou muito. E continua difícil, pois não se concebe DESENVOLVIMENTISMO SEM CRESCIMENTO DO PIB. Daí a crise atual da Presidente em seu labirinto. O que deseja, enfim, a Presidente? Assumir que errou nos últimos anos, ao indicar um Ministro da Fazenda oriundo das hostes do PSDB? Ganhar tempo com um passo atrás com vistas a recuperar o fôlego ? Mudar, realmente , o caráter da Política Econômica?