DILMA : O AUTO DA COMPADECIDA – paulo timm / porto alegre/rs

DILMA : O AUTO DA COMPADECIDA

Paulo Timm

(…) Ver o mundo em grão de areia

e o céu em uma flor silvestre,

sustentar o infinito na palma da mão

e a eternidade em uma hora.(…)

“Augúrios de Inocência”5

(William Blake  – Poeta inglês , 1757 – 1827)

 Essa mudança de discurso e atitudes de Dilma, bem como suas escolhas para o ministério, lembram a fala do Encourado/Promotor em “O Auto da Compadecida”: É proibido Dilma fazer tudo o que Aecio supostamente faria? “Homem, se é proibido eu não sei. O que eu sei é que você achava que era e depois, de repente, passou a achar que não era.

Alessandro Galvão

A ultima eleição presidencial radicalizou a opinião pública em torno dos rumos da economia brasileira. A Oposição, Aécio à frente, criticou duramente a Política Econômica do Governo, propondo uma maior articulação internacional da economia brasileira com vistas à retomada do crescimento. Dilma, tentando a reeleição, defendeu com unhas e dentes o modelo em curso, calcado no mercado interno, com aumentos
PAULO TIMMreais sistemáticos dos salários, denunciando os críticos como pessimistas incorrigíveis. Comparou-os até com o personagem do Velho do Restelo, que advertia os navegadores portugueses em suas aventuras oceânicas em busca de glórias e riquezas.

Dilma ganhou a eleição,  por pequenas diferença de votos. Desde então, a conjuntura nacional tem se mostrado tensa e insegura.  Nos últimos dias tornou-se preocupante, até porque pressionada pelos vultosos números do “Petrolão”: “Nunca na história deste país…” A impressão é que Dilma está muito isolada em seu labirinto, com problemas junto ao próprio PT, dividido em duas correntes: uma, mais ligada a Lula, verberada por Gilberto Carvalho, defendendo a Governabilidade “democrática” ,com o reforço da Base Aliada, ora apontando para a indicação de um Ministro da Fazenda ortodoxo, na linha William Blake que acreditava que se poderia chegar ao céu pelo caminho do inferno; outra, clamada por revisionistas como Tarso Genro e apoio de Stédile e L.Boff,  propondo a reorientação política do Governo à esquerda, com a re-fundação não só do próprio PT, moralmente abalado,  mas do conjunto das forças de esquerda, no rumo de um choque hegemônico para o avanço do “socialismo”. Este debate interno se reflete na rejeição destes últimos a qualquer tentativa de implantar uma Política Econômica mais tradicional, ao gosto dos tucanos, investidores e grande imprensa.  Mas há divisão, também, no principal aliado, o PMDB. Um desafeto do Palácio do Planalto , deputado deste Partido, está em franca campanha para a Presidência da Câmara dos Deputados. Um perigo!A ofensiva contra Dilma vem também da Mídia, que abre amplos espaços a economistas que contestam cada vez mais o cândido otimismo governista sobre a economia, com centro no descontrole das contas públicas, evidente diante da mensagem do Executivo ao Congresso reconhecendo a deterioração da receita e revisando os rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas há críticas de outra ordem: O Setor Externo, deficitário diante dos maus preços das commodities, está cada vez mais vulnerável, com perda galopante  das reservas internacionais. E as há , também, quanto  ao processo inflacionário, que já estaria beirando os 10% em alguns segmentos como serviços internos, pressionados por salários mais altos,  isso sem levar em conta os preços administrados sob controle do Governo. Enfim… Enorme dor de cabeça para a Presidente.

Tomemos um ponto: a questão da nomeação do Ministro da Fazenda.

No centro dos debates internos e externos ao Governo sobre a indicação das novas autoridades da área econômica está a questão do PIB e DESENVOLVIMENTISMO. . Historicamente os desenvolvimentistas foram os que defenderam a industrialização contra aqueles que insistiam que o Brasil tinha uma “vocação” agrícola que se deveria maximizar. Esquerda x Direita…Depois, a ideia mesma da industrialização se impôs, mesmo durante o regime militar. Era tão poderosa a IDEOLOGIA DESENVOLVIMENTISTA que acabou hegemônica. Depois dos anos 80, sob o CONSENSO DE WASHINGTON, o debate ganhou novos rumos. Os conservadores passaram a defender uma maior articulação do país às cadeias produtivas internacionais, com vistas ao crescimento. Os velhos desenvolvimentistas persistiram na defesa do o mercado interno como suficientemente capaz de impulsionar a economia. Com Lula, em 2003, sem prejuízo do tripé macro-ecnômico da estabilidade financeira, o desenvolvimentismo ganhou força, acrescentado pela política de valorização do salário mínimo e políticas sociais. Deu certo, o país cresceu, houve incorporação de milhões de brasileiros ao mercado e cidadania. Aí veio a Dilma, a conjuntura internacional mudou, a economia começou a falhar e os governistas começaram a dizer que o PIB não era importante: “Trabalhadores não comem PIB”. Então o cenário se complicou muito. E continua difícil, pois não se concebe DESENVOLVIMENTISMO SEM CRESCIMENTO DO PIB. Daí a crise atual da Presidente em seu labirinto. O que deseja, enfim, a Presidente? Assumir que errou nos últimos anos, ao indicar um Ministro da Fazenda oriundo das hostes do PSDB? Ganhar tempo com um passo atrás com vistas a recuperar o fôlego ? Mudar, realmente , o caráter da Política Econômica?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: