Arquivos Mensais: dezembro \26\UTC 2014

Pobreza nos Estados Unidos atinge 80% da população – por simeon ari / usa

Pobreza nos Estados Unidos atinge 80% da população

Enquanto isso, notícia publicada em um site de notícias especializado em destacar as reportagens que não aparecem na grande mídia estadunidense, oPolitical Blindspot, dá conta de que na maior nação liberal do planeta, a terra das oportunidades, onde qualquer um pode construir sua riqueza, 80% de sua população viveram próximos a pobreza ou abaixo da linha da miséria (só nessa última condição, são 49,7 milhões de pessoas).

A reportagem fala ainda do aumento cada vez maior do abismo que separe ricos e pobres daquela nação e de como o governo estadunidense, em vez de aumentar a rede de proteção social dos 80% da população que sofre com os efeitos da pobreza, está discutindo os cortes dos poucos programas assistenciais que estão ajudando alguns estadunidenses a se manterem pouco acima da linha da pobreza.

Parece que o paraíso dos liberais não é tão maravilhoso assim. Enquanto isso, no Brasil “assistencialista” pós-FHC, mais de 40 milhões de pessoas deixaram a condição de miséria, fizeram girar a economia do país e, ainda por cima, chegaram até mesmo a empreender novos negócios. Será que os Estados Unidos estão precisando de um Bolsa Família, ou melhor, um Purse Family por lá? Será que seus políticos, ou melhor, os Democratas teriam a coragem política necessária para enfrentar essa dura realidade?

Abaixo, uma tradução livre que fiz da reportagem de Simeon Ari para o Political Blindspot.

NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 49,7 MILHÕES DE PESSOAS AGORA SÃO POBRES, E 80% DE TODA A POPULAÇÃO DAQUELE PAÍS ESTÁ BEM PRÓXIMO A ELA
por Simeon Ari | para o Political Blindspot

Foto: Associated Press

Se você vive nos Estados Unidos, há uma boa chance que você esteja agora vivendo na pobreza ou muito próximo a ela. Aproximadamente 50 milhões de estadunidenses, (49,7 milhões), estão vivendo abaixo da linha da pobreza com80% de todos os habitantes dos Estados Unidos vivendo próximo a linha da pobreza ou abaixo dela.

Essa estatística da “quase pobreza” é mais surpreendente do que os 50 milhões de estadunidenses vivendo abaixo da linha da pobreza, pois ela remete a um total de 80% da população lutando contra a falta de emprego, a quase pobreza ou a dependência de programas assistenciais do governo para ajudar a fazer face às despesas.

Em setembro, a Associated Press apontou para o levantamento de dados que falavam de uma lacuna cada vez mais crescente entre ricos e pobres, bem como a perda de empregos bem remunerados na área de manufatura que costumavam fornecer as oportunidades para a “classe trabalhadora” para explicar a crescente tendência em direção à pobreza nos EUA.

Mas os números daqueles que vivem abaixo da linha da pobreza não refletem apenas o número de estadunidenses desempregados. Ao contrário, de acordo com os números de um censo revisado lançado na última quarta-feira, o número – 3 milhões acima daquele imaginado pelas estatísticas oficiais do governo – também são devidos a despesas médicas imprevistas e gastos relacionados com o trabalho.

O novo número é geralmente “considerado mais confiável por cientistas sociais por que ele se baseia no custo de vida, bem como nos efeitos dos auxílios do governo, tais como selos de comida e créditos fiscais,” segundo o relatório da Hope Yen para a Associated Press.

Alguns outros resultados revelaram que os selos de comida (distribuídos pelo governo a pessoas em situação de pobreza) auxiliaram 5 milhões de pessoas para que essas mal pudessem atinger a linha da pobreza. Isso significa que a taxa atual de pobreza é ainda maior do que a anunciada, já que sem tal auxílio, a taxa de pobreza aumentaria de 16 a 17,6 porcento.

Estadunidenses de origens asiática e latina viram um aumento no índice de pobreza, subindo para 27,8 porcento e 16,7 porcento respectivamente, superior aos 25,8 porcento e 11,8 porcento dos números oficiais do governo. Afro-americanos, contudo, viram um decréscimo bem pequeno, de 27,3 porcento para 25,8 porcento que, como documentado pelo estudo, deve-se aos programas assistenciais do governo. O índice de pobreza também aumentou entre os brancos não-hispânicos, de 9,8 porcento para 10,7 porcento.

“A principal razão para a pobreza permanecer tão alta,” disse Sheldon Danziger, um economista da Universidade do Michigan, “é que os benefícios de uma economia crescente não estão mais sendo compartilhada por todos os trabalhadores como eram nos vinte e cinco anos que se seguiram o final da Segunda Guerra Mundial.

“Dado as condições econômicas atuais,” continua, “a pobreza não será substancialmente reduzida a menos que o governo faça mais para auxiliar os trabalhadores pobres.”

Enquanto isso, o governo dos Estados Unidos parece pensar que a resposta é cortar mais daqueles serviços que estão ajudando a manter 80% da população minimamente acima da linha da pobreza, cortaram os selos de comida desde o começo do mês. Democratas e Republicanos estão negociando apenas quanto mais desses programas devem ser cortados, mas nenhum dos partidos estão discutindo que eles sequer deveriam ser tocados.

(Artigo por Simeon Ari; Foto via AP Photo)

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LAVA JATO QUEBROU ESPINHA DORSAL DO CARTEL – por luiz nassif / são paulo.sp

A Terceira Guerra Mundial? por boaventura de souza santos

 

É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade da Europa. O alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia.

Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial, se entendermos por “mundial” uma guerra que tem o seu teatro principal de operações na Europa e se repercute em diferentes partes do mundo. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da Europa. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 de dezembro a Resolução 758 que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação à Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria. Nesta, ao contrário da primeira, a Europa é um participante ativo, ainda que subordinado aos EUA, e assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear. Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear.

Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. O orçamento da Rússia para o próximo ano  foi elaborado com base no preço do petróleo à razão de 100 dólares por barril. A redução do preço combinada com as outras sanções e a desvalorização do rublo agravarão perigosamente o déficit orçamental. Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela, Irã e Equador). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.

O segundo componente é o controle total do governo da Ucrânia de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo do Irã-contra) informa que a nova ministra das finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em fevereiro passado, da secretária de estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland: “Fuck the EU”. O que ela quis dizer foi: “Raios! A Ucrânia é nossa. Pagamos para isso”.

O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitime a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia. Peço aos leitores que imaginem o escândalo mediático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em fevereiro passado e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia. Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?

Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando países da UE membros da NATO podem estar a ser conduzidos, à revelia dos cidadãos, a travar uma guerra contra a Rússia em benefício dos EUA, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas de conforto enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?

As razões da insanidade

Para entender o que se está a passar é preciso ter em conta dois fatos: o declínio dos EUA enquanto país hegemônico; o negócio altamente lucrativo da guerra. O declínio do poder econômico-financeiro é cada vez mais evidente. Depois do 11 de Setembro de 2001, a CIA financiou um projeto chamado “projeto profecia” destinado a prever possíveis novos ataques aos EUA a partir de movimentos financeiros estranhos e de grande envergadura. Sob diferentes formas, esse projeto tem continuado, e um dos seus participantes prevê o próximo crash do sistema financeiro com base nos seguintes sinais: a Rússia e a China, os maiores credores dos EUA, têm vindo a vender os títulos do tesouro e em troca têm vindo a adquirir enormes quantidades de ouro; estranhamente, este títulos têm vindo a ser comprados em grandes quantidades por misteriosos investidores belgas e muito acima da capacidade deste pequeno país (especula-se se o próprio banco de reserva federal não estará envolvido nesta operação); aqueles dois países estão cada vez mais a usar as suas moedas e não os petrodólares nas transações de petróleo (todos se recordam que Saddam e Kadafi  procuraram usar o euro e o preço que pagaram pela ousadia); finalmente, o FMI (o cavalo de Troia) prepara-se para que o dólar deixe de ser nos próximos anos a moeda de reserva e seja substituída por uma moeda global, os SDR (special drawing rights).

Para os autores do projeto profecia, tudo isto indica que um ataque aos EUA está próximo e que para este se defender tem de manter os petrodólares a todo o custo, assegurando o acesso privilegiado ao petróleo e ao gás, tem de conter a China e tem de debilitar a Rússia, idealmente provocando a sua desintegração, tipo Jugoslávia. Curiosamente, os “especialistas” que veêm na venda da dívida uma atitude hostil por parte de potências agressoras são os mesmos que aconselham os investidores norte-americanos a procederem da mesma maneira, isto é, a desfazerem-se dos títulos, a comprar moedas de ouro e a investirem em bens sem os quais os humanos não podem viver: terra, água, alimentos, recursos naturais, energia.

Transformar os sinais óbvios de declínio em previsões de agressão visa justificar a guerra como defesa. Ora a guerra é altamente lucrativa devido à superioridade dos EUA na condução da guerra, no fornecimento de equipamentos e nos trabalhos de reconstrução. E a verdade é que, como escreveu Howard Zinn, os EUA têm estado permanentemente em guerra desde a sua fundação. Acresce que, ao contrário da Europa, a guerra nunca será travada em solo norte-americano, salvo, claro, o caso de guerra nuclear. Em 14 de Outubro de 2014, o New York Times divulgava o relatório da CIA sobre o fornecimento clandestino e ilegal de armas e financiamento de guerras nos últimos 67 anos em muitos países, entre eles, Cuba, Angola e Nicarágua. Esta notícia serviu para que Noam Chomsky dissesse em “The Laura Flanders Show” que aquele documento só podia ter o seguinte título: “Yes, we declare ourselves to be the world´s leading terrorist state. We are proud of it” (“Sim, declaramos que somos o maior estado terrorista do mundo e temos orgulho nisso”).

Um país em declínio tende a tornar-se caótico e errático na sua política internacional. Immanuel Wallerstein refere que os EUA se transformaram num canhão descontrolado (a loose canon), um poder cujas ações são imprevisíveis, incontroláveis e perigosas para ele próprio e para os outros. A consequência mais dramática é que esta irracionalidade se repercute e intensifica na política dos seus aliados. Ao deixar-se envolver na nova guerra fria, a Europa, não só atua contra os seus interesses económicos, como perde a relativa autonomia que tinha construído no plano internacional depois de 1945. A Europa tem todo o interesse em continuar a intensificar as suas relações comerciais com a Rússia e em contar com esta como fornecedora de petróleo e gás. As sanções contra a Rússia podem a vir a afetar mais a Europa que a Rússia. Ao alinhar-se com o militarismo da OTAN onde os EUA têm total preponderância, a Europa põe a economia europeia ao serviço da política geoestratégica dos EUA, torna-se energeticamente mais dependente dos EUA e dos seus estados satélites, perde a oportunidade de se expandir com a entrada da Turquia na União Europeia. E o mais grave é que esta irracionalidade não é o mero resultado de um erro da avaliação dos interesses dos europeus. É muito provavelmente um ato de sabotagem por parte das elites neoconservadoras europeias no sentido de tornar a Europa mais dependente dos EUA, tanto no plano energético e económico, como no plano militar.

Por isso, o aprofundamento do envolvimento na OTAN e o tratado de livre comércio entre a UE e os EUA (parceria transatlântica de investimento e comércio) são os dois lados da mesma moeda.

Pode argumentar-se que a nova guerra fria, tal como a anterior, não conduzirá a um enfrentamento total. Mas não esqueçamos que a primeira guerra mundial foi considerada, quando começou, uma escaramuça que não duraria mais de uns meses. Durou quatro anos e custou entre 9 e 15 milhões de mortos.

Esquina dos Inválidos – por walmor marcelino+ / curitiba

Esquina dos Inválidos

Walmor Marcellino

 

O edifício é ainda imponente. Ergue-se majestoso. Plenipotente à força do passado tenebroso e, ainda, dos seus obscuros desígnios.

Um poder de força real, de bens, de família, de casta, de corporação, de classe. Tudo o que nosso entendimento recusa aceitar, mas que vem do cotidiano, aparentemente inextricável.

Entanto, curvado ao poder como segunda natureza, acostuma-se com o poder. Mas, então, pode servir-se ao poder, ser parte do poder, dispor-se de algum poder. Curvado ao poder, sem eira nem beira, deriva-se para o ilusório esquecimento da apreensão, do temor e da violência.

WALMOR MARCELLINO FOTO 1Ser todavia um poder que decide… a liberdade de pessoas, a vida, a felicidade, a morte de umas tantas pessoas. Ser, talvez, um súcubo, ordenança, um sicário, suplicando compartilhar do mando, exorbitando nas sevícias, inovando as torturas.

O poder é ademais um sinal, uma lembrança, uma imagem. Um símbolo, um estandarte, uma bandeira; em uma casa, uma fortaleza, ab initio ou in fine. Entretanto, são também armas, algemas, grilhões, aguilhões… muitos braços, muitas armas.

São ainda atrações, aparências instigadoras, armadilhas, engodos, camuflagens, fossos, trincheiras. Com muralhas guarnecidas, fortificações arestadas, ameias que vigiam, torres de comando.

Nas despensas, as provisões de boca e de uso, as reservas dos instrumentos de ação, depósitos de armas e munições.

Pairando acima ou abaixo de todas as considerações, o pacto sinistro, o trabalho insano, a dedicação integral, até clandestina ao poder. A área fronteira entre a observância ordenada e a traição.

Todavia, era esse aí principalmente um centro (de extrações, disquisições, rastreações, arrolações, informações e montagens), uma sede; um bureau com seus agentes executivos; e também uma casamata, com gabinete executivo, um estado-maior; e ainda um quartel-general, um comando preocupado.

Num outro ponto de vista, é até mesmo um foro estatuído, legal, institucionalizado, com personalidade própria; todavia situado no limbo da legitimidade, no limiar da Justiça e do Segredo de Lei ou bem às fronteiras do Diabo com seus direitos inquestionáveis.

De onde nascem decisões, diretivas, despachos e execuções — digamos — pré-legais.

Como sói nessas áreas de brumas, ali as engrenagens funcionavam com forte determinação e certa autonomia. Em ambiguidades, alguém sugeria, algures formulavam; outrossim alhures conferem e avaliam. Algum age com relativa independência, outro fás ou nefas…

Em consequentes rotinas, dali é que resultam a intimação, a prisão, a sevícia, a tortura, a morte. Ou o simples desaparecimento dos que não pertencem à nova ordem, à Justiça e ao Direito; sumiço dos que são considerados impedimentos, sem merecimento social algum: marginais, proscritos, inimigos…

Foi, primeiro, edifício feito especialmente para ser sede de Polícia do Distrito Federal (em 5 de novembro de 1911 ¾ e depois acrescido em 1922 de outro L que vedaria os seus pátios internos); durante cinquenta anos (a partir de 1933 até 1983) foi palco da repressão política local, estatal, com perseguições, prisões, torturas e crimes de toda sorte contra suspeitos de ações adversas aos costumes ou subversivas à ideologia do poder.

O ex-Palácio da Polícia, afamado prédio do DOPS ou “da Rua da Relação”, é um dos símbolos da ação, repressão e retaliação do poder burocrático-político contra os políticos contrários, descontentes em geral e simples pessoas desprevenidas.

Ele é ainda sinal de uma força paralegal da repressão de classe, executada por um poder autoconstituído pelas oligarquias e seus prepostos militares e burocráticos. Ou, inversa causa, pelos grupamentos militares reformistas a serviço das novas classes burguesas emergentes — porém nada de radicalidades contundentes e perigosas! Para quem quiser ver, anotar e gravar; e, enfim, fazer história.

 

Bandiera Trouve de Melo agora se dedica a restauração de prédios históricos, como arquiteto e engenheiro. Seis anos são passados do seu longo “internamento” no “prédio da Rua da Relação” e ele, nervoso, caminha quase marchando sonâmbulo pela frente. Depois para, vira-se para Adolfo Susties Pratt — que atualmente dirige o arquivamento e salvaguarda de todo o espólio do DOPS que ali funcionou; de tudo que deixaram, das pastas e seus documentos oficiais restantes, em papéis anotados e marcados — e aí fala inquisitivo, alto:

¾ O que é que você pretende fazer com esses documentos? A que vão servir agora? Uma coisa são os fatos; outra, os relatórios e documentos!… E outra, ainda mais sinistra e infame, é o poder — entreolham-se com incertezas.

Bandiera não está à vontade. Seus olhos vacilam e fogem, nublados pela perturbação nervosa. A voz estava muito presa. Porém conclui:

¾ Não temo fantasmas, só as recordações. É uma coisa resistente, muito forte; e está ali como desativada e adormecida, mas tem ainda quem vele por ela e ameace com seu retorno.

.-.-.-.-.

Não são muitos os que prestam atenção nos contornos peculiares e detalhes de cada lance. A maioria passa rapidamente; apenas um olhar erradio. Talvez seja preciso ter estado ali como aprisionado, submetido e investigado; e continuar vivendo em faltas e ameaças, ainda à sombra de um terror anistiado. Entretanto, também não são muitas as pessoas com acesso livre àquele fantástico laboratório político e a imputar seus agentes.

Ficou preservado, como um monumento à memória e à ordem. Qualquer que tenha sido a decisão e seja a ideia, se observado de um viés alto que ultrapasse o teto na Rua dos Inválidos alcança-se uma enorme bandeira negra com duas tíbias cruzadas sob o barrete frígio da República, em vez da tradicional caveira.

Era, digamos assim, um requinte do poder político.

Fica-se logo sob o impacto daquele nem sempre percebido sinal do crime; sem saber se fora uma criação intencional dos nazistas no governo Felinto Strubing Müller; emblema hasteado ou simples reflexo do que era operado e transformado pela ação de pressurosos delegados e afanados esbirros. Ou, talvez, pelo exercício de cínicos militares e burocratas dos centros de informações do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Os quais selecionavam e mandavam para lá as suas vítimas.

Era muito difícil perceber e mais difícil ver bem, pois a bandeira como que está ali impregnada ou grudada com certas técnicas que a transformaram em fundo.

“[…] Subindo o olhar ao 3º andar, vemos as filigranas desenhadas na platibanda que a coroa encima. Nesta faixa extrema, algumas partes da edificação se afinam como a se desfazerem no ar” ¾ disse um arquiteto ao descrever o prédio. E aí se compreende a supremacia com que foi dotada a edificação; numa ideia de proteção à sociedade e sua função transcendente.

Sabiam os dois, não obstante, que com a institucionalização de um comando especializado no sistema de segurança do poder central seu braço clandestino passara a escolher locais tão escondidos e indevassáveis quanto os empenhos e negócios que vicejam e proliferam naturalmente sob esse poder paralelo. E que acabara por legitimar-se através de atos de força, éditos declaratórios e proclamas de justificação — os atos institucionais e adicionais; os decretos…

Entrementes, as fímbrias, os limites do segredo e da semilegalidade se fixam em escritórios, gabinetes, comandos. Em edifícios de onde emanam comunicados, informações, notas de relações públicas… Tudo caminha conforme o esperado, e o inimigo vai sendo descoberto e eliminado.

Ali poderia ainda ser um local para três pontos de vista, local de tripla memória: arquitetônica para os passantes, política para escritores e técnicos e de poder imperial para quem contou e fez a história concreta. Ali se preserva, e remanesce até os dias que correm, parte do poder tutor da nacionalidade.

Porém, só o percebem e veem aqueles que estão atentos à realidade do poder político e da situação das classes sociais disputantes.

Sobre o prédio do DOPS, na Rua da Relação esquina da Rua dos Inválidos, descreve-o assim um renomado técnico:

O primeiro destaque que se observa no edifício é a conjugação entre o modo de a construção ocupar o terreno ¾ ou seja, sua implantação ¾ e o interesse despertado por seus volumes arquitetônicos. Inicialmente, o edifício era apenas composto por alas em L, coladas às ruas dos Inválidos e da Relação. Em 1922, acrescentou-se um outro L às extremidades, de modo a fechar um quadrilátero cujo pátio interno comunica, ventila e ilumina.

Porém, a denunciada realidade interna é apenas imaginária ou virtual, para efeitos de lei. Afastada do real verdadeiro, longe os testemunhos, longe a prova. Tanto é que os gritos e as confissões, interiores em um caso, e as acusações e denúncias, exteriores em outro, não são suficientemente conhecidos, devidamente assinalados à Justiça e levados em conta histórica. Não cabem nas dissertações acadêmicas, nem em teses universitárias, porque têm o vezo emocional deformante da realidade histórica.

Os comentários aditivos de Susties Pratt, ele estava reconhecendo, eram muito frios, diretos, técnicos, bastante distantes, totalmente impessoais. E Pratt também percebia que Bandiera Trouve retorcia o rosto, incomodado. A cientificidade histórica — se é que se pode falar nisso — e sua técnica ou metodologia expositiva não se casavam com a realidade desfigurada pela paixão, pela contradição e pelo tempo.

Aí, Susties Pratt se foi lembrando de que nos depoimentos à Anistia Internacional ele não citara mais do que uma incompreensível “tortura do ser”: que era saber e ver alguns “seres” torturados, “ser trancado em cela à prova de luz”, “ser empurrado, algemado, jogado”, “ser ameaçado de morte”, “ser privado de tudo”, “ser indormido, insone”, “ser reduzido” a um animal, atormentado até a discinesia. Um “ser” vivenciando o dia todo decisões sobre a vida que lhe podia ser concedida ou a morte atribuída, em que os valores humanos estavam arbitrados pelas bestas do Apocalipse, que o Armagedon nunca poderia retratar.

Bandiera Trouve, no entanto, continuava presente naqueles “vazios técnico-discursivos” de Pratt: o olhar fosco naquele divagar momentâneo a denunciar incômoda memória; esse associacionismo que alguns teimam em perseguir e outros em quebrar. Rapidamente, ele apontou para o prédio sinistro, ressaltando o aspecto físico:

¾ Visto do exterior, o prédio revela que o arquiteto deu valor a procedimentos compositivos consagrados. A localização do acesso na esquina indica também o ponto de vista pelo qual o arquiteto quer que a obra seja vista ¾ destaca o profissional.

Continua:

¾ A esquina oposta à entrada é o lugar de ver, de onde as fachadas simétricas se mostram inteiras, coordenadas pelo arco monumental sob a cúpula e pelo ar de blocos laterais, que rege o ritmo em cada rua.

Como o construtor da exuberante obra civil, do edifício público impregnado de função civilizadora, poderia pensar em disfunção, em degenerescência funcional? Não pensou, nem admitiu o que viria, preso a um paradoxal arquétipo arquitetônico que exprimisse o poder. Jamais considerou tais degenerescências criminosas no poder político. Não pensou no coronel sentado armando um plano de extermínio dos adversários, na eliminação dos descontentes; uma outra arquitetura, outros usos.

— O segundo andar, o mais importante, ostenta vigorosas pilastras limitadas abaixo pelo térreo, tratado como embasamento, e acima, por uma faixa reta ¾ que funciona como um entablamento e apenas se arqueia sobre a varanda da esquina. O terceiro pavimento, mais sóbrio, atua como ático, coroando a construção e permitindo o destaque da cúpula, das cartelas e compoteiras, que necessitam recortar-se imponentes contra o céu.

E é ali que se foram estabelecer os bonzos da burocracia policial do Estado, os chefes do serviço secreto e da contrainformação; com seus outros domesticados gorilas militares à cata de prestígio e promoções.

Susties Pratt logo sublinha algumas frases:

¾ A sensação de poder total deve ser inebriante. Como executivos do terror, chegaram a acreditar que eram mais fortes do que o seu estado-maior e os mandantes políticos. E acreditavam que seu reinado não terminaria nunca; por isso seriam inclementes e depois impunes…

O eixo das elucubrações não agradou Bandiera Trouve. Não admitira entrar no terreno; apenas acedera passar pela frente e conferir alguns aspectos estruturais e artísticos daquele prédio sinistro. Ignorando as provocações de Pratt, prosseguiu:

¾ Examinemos ainda um outro eixo, a hierarquia policial. O Salão Nobre, local de encontro das autoridades, é revelado do exterior por esculturas individualizadas em torno ao arco monumental. À medida que nos afastemos deste ponto, aproximamo-nos das salas dos funcionários de menor poder. Aqui já as janelas são iguais entre si, menores, com ornamento massificado e despersonalizado.

Com o tempo, os fios elétricos profusos, aparelhos de carga em bateria, cadeiras e camas de ferro, as torneiras, e tinas e bacias avulsas, panos, cordas, arames e maças se foram acumulando em despensas e saletas improvisadas, pelos cantos. Todo um instrumental de sujeição e torturas recolhido na imaginação medieval dos burocratas do terror. Um mundo de horrores que foi recriado à imagem e semelhança dos comandantes e agentes operadores de informações e segredos.

— Passemos agora ao interior. Aqui as leituras e interpretações feitas no exterior não têm mais sentido. O que se vai examinar agora são funções, espaços, comunicação, equipamentos, eficiência, objetividade…

Contam-se as vítimas às dezenas, milhares; quem sabe centenas de milhares na extensão de recálculos. A palavra de ordem é a detecção de descontentes, coleta de denúncias e informações contra pessoas, grupos, instituições; averiguação de práticas não aprovadas, confrontação policial com os recalcitrantes. E a inevitável perseguição aos adversários, repressão aos inimigos, liquidação dos cabeças da perversão e subversão.

E para isso montou-se uma engrenagem forte, dura, implacável, que precisa socorrer-se da espionagem, da investigação, da prisão, do sequestro, da extração de segredo sob tortura e da liquidação sumária dos seus piores inimigos. É a própria inteligência do Estado.

Ao entrarem no carro — Susties Pratt tendo de acompanhar a marcha batida de Bandiera Trouve que assumia maior perturbação nervosa —, como que se declarou uma hostilidade entre os dois; um estado de beligerância quando Trouve lhe gritara:

¾ Você preparou tudo isso para me arrancar palavras e confissões. Para me reduzir a depoente. E eu me recuso, está ouvindo? Recuso partilhar dos seus planos! Quaisquer que eles sejam! Seus métodos são muito parecidos com os deles…

 

 

MELODRAMAS – por jorge lescano / são paulo.sp

MELODRAMAS

 

 

I

 

  • Às vezes sinto falta de um ombro para chorar.
  • Pode chorar no meu.
  • Impossível, é por você que quero chorar.

 

II

 

  • Se você me amasse como a moça da novela…
  • Qual novela?
  • Qualquer novela, em todas há uma moça que ama desesperadamente. Eu sim te amo como o rapazola do horário nobre…

 

III

 

 

Primeiro ato:

 A mulher fez um Boletim de Ocorrência na delegacia contra o marido agressor. Deixou claro que estava sendo ameaçada de morte.

            O juiz, conforme manda a lei, estendeu uma ordem que proibia o marido de se aproximar dela a menos de trezentos metros.

 

Segundo ato:

O marido chegou com a arma em punho. A mulher se escudou com a Ordem Judicial. As balas perfuraram o papel, a cabeça e o coração da vítima.

 

Terceiro ato:

O assassino continua foragido.

 

Epílogo:

O crime de homicídio prescreve depois de vinte anos.

 

 

IV

 

A Garotinha. O Estuprador.

 

 

A farsa do impeachment – por ricardo melo

RICARDO MELO

A farsa do impeachment

Oposição esbarra nos limites de esquema de corrupção comprovadamente multipartidário

“Nós vamos perder, mas vamos sangrar estes caras até de madrugada”. A frase de Aécio Neves, reproduzida em reportagem da sempre atenta Daniela Lima, desta Folha, resume melhor que tudo o programa da oposição ao governo Dilma. Não que seja exatamente original, em se tratando do autor. Ele mesmo, durante a campanha eleitoral, soltou outra pérola de nível parecido aos que aceitavam trocar de candidato como se troca de camisa: “suguem mais um pouquinho e depois venham para nós”.

Por trás do palavreado da alcateia a favor do impeachment da presidente reeleita, existe uma verdade irrefutável. As investigações, mesmo atabalhoadas, da Operação Lava Jato, desnudam um esquema de corrupção que não vem de hoje, nem de ontem. E o principal: revelam o modus faciendi de convivência entre a elite empresarial e o Estado brasileiro. Pode parecer paradoxal, mas esta é a chave que torna os pedidos de impedimento uma farsa absoluta.

O Brasil teve um episódio de impeachment, o de Fernando Collor. Pausa para breve volta ao passado. Quem tinha acesso aos humores do tubaronato percebia o andar da carruagem. “Dez por cento tudo bem, mas o PC Farias está pedindo trinta, quarenta. Assim não dá. ” A lamúria era repetida por dez entre dez ricaços que construíram fortuna à sombra de negócios escusos.

Mas não era o suficiente: além de ir com muita sede ao pote e romper o código do pessoal de cima, a turma de Collor era um fracasso completo em termos populares. Confiscou poupança, perdeu da inflação e foi incapaz de promover qualquer progresso. Conseguiu brigar com todo mundo, tanto com os endinheirados que bancaram sua eleição como com os desavisados que viram o “caçador de marajás” ser o maior de todos os marajás. Sua queda era questão de tempo.

O momento agora é distinto. O que está exposto à execração pública não é a ação de uma camarilha isolada. É o envolvimento do “crème de la crème” do empresariado local –e internacional– com práticas de achaque ao Estado. Nem o tucano mais inflamado, no íntimo, acredita que o esquema começou com administrações petistas. O inquérito sobre a bandalheira no sistema de transporte de São Paulo fala por si só. A operação Castelo de Areia, interrompida por chicanas jurídicas, também ilustra a promiscuidade entre os senhores do dinheiro e os negócios de Estado –seja quem for o gerente de plantão.

São estas as relações que vêm sendo escrutinadas. Não à toa pesquisa Datafolha deste domingo traz resultados aparentemente contraditórios: se muita gente acha que Dilma tem culpa no cartório, outros tantos aprovam a sua gestão. Mais: apontam o governo dela como o que mais combate a corrupção, com larga vantagem sobre os antecessores. Sintomático, não?

Alguém poderia achar que o resultado indica que o brasileiro se acostumou com o “rouba mas faz”. Nada disso. A maioria trabalhadora, honesta, que conta os trocados para sustentar a família, não tem nenhum tipo de conivência com roubalheiras. Mas, da mesma forma, não imagina gente como Aécio Neves, José Serra (que declarou em alto e bom som considerar cartel uma coisa normal) ou Fernando Henrique (que conquistou a reeleição na base do dinheiro vivo) no papel de guardiões da honestidade.

Disse um compositor: “Chove lá fora, e aqui tá tanto frio. Me dá vontade de saber. Aonde está você?”. No sábado, durante mais um protesto de gatos pingados em São Paulo a favor da intervenção militar e impeachment, ouviu-se lamento semelhante da boca do mesmo personagem: “Só tem inimigo aqui. Cadê o Aécio, o Caiado? Se eu passo aqui e vejo esse pessoal, acho que é tudo a mesma coisa. Estou pagando de otário”. É Lobão, a vida não é fácil.