Esquina dos Inválidos – por walmor marcelino+ / curitiba

Esquina dos Inválidos

Walmor Marcellino

 

O edifício é ainda imponente. Ergue-se majestoso. Plenipotente à força do passado tenebroso e, ainda, dos seus obscuros desígnios.

Um poder de força real, de bens, de família, de casta, de corporação, de classe. Tudo o que nosso entendimento recusa aceitar, mas que vem do cotidiano, aparentemente inextricável.

Entanto, curvado ao poder como segunda natureza, acostuma-se com o poder. Mas, então, pode servir-se ao poder, ser parte do poder, dispor-se de algum poder. Curvado ao poder, sem eira nem beira, deriva-se para o ilusório esquecimento da apreensão, do temor e da violência.

WALMOR MARCELLINO FOTO 1Ser todavia um poder que decide… a liberdade de pessoas, a vida, a felicidade, a morte de umas tantas pessoas. Ser, talvez, um súcubo, ordenança, um sicário, suplicando compartilhar do mando, exorbitando nas sevícias, inovando as torturas.

O poder é ademais um sinal, uma lembrança, uma imagem. Um símbolo, um estandarte, uma bandeira; em uma casa, uma fortaleza, ab initio ou in fine. Entretanto, são também armas, algemas, grilhões, aguilhões… muitos braços, muitas armas.

São ainda atrações, aparências instigadoras, armadilhas, engodos, camuflagens, fossos, trincheiras. Com muralhas guarnecidas, fortificações arestadas, ameias que vigiam, torres de comando.

Nas despensas, as provisões de boca e de uso, as reservas dos instrumentos de ação, depósitos de armas e munições.

Pairando acima ou abaixo de todas as considerações, o pacto sinistro, o trabalho insano, a dedicação integral, até clandestina ao poder. A área fronteira entre a observância ordenada e a traição.

Todavia, era esse aí principalmente um centro (de extrações, disquisições, rastreações, arrolações, informações e montagens), uma sede; um bureau com seus agentes executivos; e também uma casamata, com gabinete executivo, um estado-maior; e ainda um quartel-general, um comando preocupado.

Num outro ponto de vista, é até mesmo um foro estatuído, legal, institucionalizado, com personalidade própria; todavia situado no limbo da legitimidade, no limiar da Justiça e do Segredo de Lei ou bem às fronteiras do Diabo com seus direitos inquestionáveis.

De onde nascem decisões, diretivas, despachos e execuções — digamos — pré-legais.

Como sói nessas áreas de brumas, ali as engrenagens funcionavam com forte determinação e certa autonomia. Em ambiguidades, alguém sugeria, algures formulavam; outrossim alhures conferem e avaliam. Algum age com relativa independência, outro fás ou nefas…

Em consequentes rotinas, dali é que resultam a intimação, a prisão, a sevícia, a tortura, a morte. Ou o simples desaparecimento dos que não pertencem à nova ordem, à Justiça e ao Direito; sumiço dos que são considerados impedimentos, sem merecimento social algum: marginais, proscritos, inimigos…

Foi, primeiro, edifício feito especialmente para ser sede de Polícia do Distrito Federal (em 5 de novembro de 1911 ¾ e depois acrescido em 1922 de outro L que vedaria os seus pátios internos); durante cinquenta anos (a partir de 1933 até 1983) foi palco da repressão política local, estatal, com perseguições, prisões, torturas e crimes de toda sorte contra suspeitos de ações adversas aos costumes ou subversivas à ideologia do poder.

O ex-Palácio da Polícia, afamado prédio do DOPS ou “da Rua da Relação”, é um dos símbolos da ação, repressão e retaliação do poder burocrático-político contra os políticos contrários, descontentes em geral e simples pessoas desprevenidas.

Ele é ainda sinal de uma força paralegal da repressão de classe, executada por um poder autoconstituído pelas oligarquias e seus prepostos militares e burocráticos. Ou, inversa causa, pelos grupamentos militares reformistas a serviço das novas classes burguesas emergentes — porém nada de radicalidades contundentes e perigosas! Para quem quiser ver, anotar e gravar; e, enfim, fazer história.

 

Bandiera Trouve de Melo agora se dedica a restauração de prédios históricos, como arquiteto e engenheiro. Seis anos são passados do seu longo “internamento” no “prédio da Rua da Relação” e ele, nervoso, caminha quase marchando sonâmbulo pela frente. Depois para, vira-se para Adolfo Susties Pratt — que atualmente dirige o arquivamento e salvaguarda de todo o espólio do DOPS que ali funcionou; de tudo que deixaram, das pastas e seus documentos oficiais restantes, em papéis anotados e marcados — e aí fala inquisitivo, alto:

¾ O que é que você pretende fazer com esses documentos? A que vão servir agora? Uma coisa são os fatos; outra, os relatórios e documentos!… E outra, ainda mais sinistra e infame, é o poder — entreolham-se com incertezas.

Bandiera não está à vontade. Seus olhos vacilam e fogem, nublados pela perturbação nervosa. A voz estava muito presa. Porém conclui:

¾ Não temo fantasmas, só as recordações. É uma coisa resistente, muito forte; e está ali como desativada e adormecida, mas tem ainda quem vele por ela e ameace com seu retorno.

.-.-.-.-.

Não são muitos os que prestam atenção nos contornos peculiares e detalhes de cada lance. A maioria passa rapidamente; apenas um olhar erradio. Talvez seja preciso ter estado ali como aprisionado, submetido e investigado; e continuar vivendo em faltas e ameaças, ainda à sombra de um terror anistiado. Entretanto, também não são muitas as pessoas com acesso livre àquele fantástico laboratório político e a imputar seus agentes.

Ficou preservado, como um monumento à memória e à ordem. Qualquer que tenha sido a decisão e seja a ideia, se observado de um viés alto que ultrapasse o teto na Rua dos Inválidos alcança-se uma enorme bandeira negra com duas tíbias cruzadas sob o barrete frígio da República, em vez da tradicional caveira.

Era, digamos assim, um requinte do poder político.

Fica-se logo sob o impacto daquele nem sempre percebido sinal do crime; sem saber se fora uma criação intencional dos nazistas no governo Felinto Strubing Müller; emblema hasteado ou simples reflexo do que era operado e transformado pela ação de pressurosos delegados e afanados esbirros. Ou, talvez, pelo exercício de cínicos militares e burocratas dos centros de informações do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Os quais selecionavam e mandavam para lá as suas vítimas.

Era muito difícil perceber e mais difícil ver bem, pois a bandeira como que está ali impregnada ou grudada com certas técnicas que a transformaram em fundo.

“[…] Subindo o olhar ao 3º andar, vemos as filigranas desenhadas na platibanda que a coroa encima. Nesta faixa extrema, algumas partes da edificação se afinam como a se desfazerem no ar” ¾ disse um arquiteto ao descrever o prédio. E aí se compreende a supremacia com que foi dotada a edificação; numa ideia de proteção à sociedade e sua função transcendente.

Sabiam os dois, não obstante, que com a institucionalização de um comando especializado no sistema de segurança do poder central seu braço clandestino passara a escolher locais tão escondidos e indevassáveis quanto os empenhos e negócios que vicejam e proliferam naturalmente sob esse poder paralelo. E que acabara por legitimar-se através de atos de força, éditos declaratórios e proclamas de justificação — os atos institucionais e adicionais; os decretos…

Entrementes, as fímbrias, os limites do segredo e da semilegalidade se fixam em escritórios, gabinetes, comandos. Em edifícios de onde emanam comunicados, informações, notas de relações públicas… Tudo caminha conforme o esperado, e o inimigo vai sendo descoberto e eliminado.

Ali poderia ainda ser um local para três pontos de vista, local de tripla memória: arquitetônica para os passantes, política para escritores e técnicos e de poder imperial para quem contou e fez a história concreta. Ali se preserva, e remanesce até os dias que correm, parte do poder tutor da nacionalidade.

Porém, só o percebem e veem aqueles que estão atentos à realidade do poder político e da situação das classes sociais disputantes.

Sobre o prédio do DOPS, na Rua da Relação esquina da Rua dos Inválidos, descreve-o assim um renomado técnico:

O primeiro destaque que se observa no edifício é a conjugação entre o modo de a construção ocupar o terreno ¾ ou seja, sua implantação ¾ e o interesse despertado por seus volumes arquitetônicos. Inicialmente, o edifício era apenas composto por alas em L, coladas às ruas dos Inválidos e da Relação. Em 1922, acrescentou-se um outro L às extremidades, de modo a fechar um quadrilátero cujo pátio interno comunica, ventila e ilumina.

Porém, a denunciada realidade interna é apenas imaginária ou virtual, para efeitos de lei. Afastada do real verdadeiro, longe os testemunhos, longe a prova. Tanto é que os gritos e as confissões, interiores em um caso, e as acusações e denúncias, exteriores em outro, não são suficientemente conhecidos, devidamente assinalados à Justiça e levados em conta histórica. Não cabem nas dissertações acadêmicas, nem em teses universitárias, porque têm o vezo emocional deformante da realidade histórica.

Os comentários aditivos de Susties Pratt, ele estava reconhecendo, eram muito frios, diretos, técnicos, bastante distantes, totalmente impessoais. E Pratt também percebia que Bandiera Trouve retorcia o rosto, incomodado. A cientificidade histórica — se é que se pode falar nisso — e sua técnica ou metodologia expositiva não se casavam com a realidade desfigurada pela paixão, pela contradição e pelo tempo.

Aí, Susties Pratt se foi lembrando de que nos depoimentos à Anistia Internacional ele não citara mais do que uma incompreensível “tortura do ser”: que era saber e ver alguns “seres” torturados, “ser trancado em cela à prova de luz”, “ser empurrado, algemado, jogado”, “ser ameaçado de morte”, “ser privado de tudo”, “ser indormido, insone”, “ser reduzido” a um animal, atormentado até a discinesia. Um “ser” vivenciando o dia todo decisões sobre a vida que lhe podia ser concedida ou a morte atribuída, em que os valores humanos estavam arbitrados pelas bestas do Apocalipse, que o Armagedon nunca poderia retratar.

Bandiera Trouve, no entanto, continuava presente naqueles “vazios técnico-discursivos” de Pratt: o olhar fosco naquele divagar momentâneo a denunciar incômoda memória; esse associacionismo que alguns teimam em perseguir e outros em quebrar. Rapidamente, ele apontou para o prédio sinistro, ressaltando o aspecto físico:

¾ Visto do exterior, o prédio revela que o arquiteto deu valor a procedimentos compositivos consagrados. A localização do acesso na esquina indica também o ponto de vista pelo qual o arquiteto quer que a obra seja vista ¾ destaca o profissional.

Continua:

¾ A esquina oposta à entrada é o lugar de ver, de onde as fachadas simétricas se mostram inteiras, coordenadas pelo arco monumental sob a cúpula e pelo ar de blocos laterais, que rege o ritmo em cada rua.

Como o construtor da exuberante obra civil, do edifício público impregnado de função civilizadora, poderia pensar em disfunção, em degenerescência funcional? Não pensou, nem admitiu o que viria, preso a um paradoxal arquétipo arquitetônico que exprimisse o poder. Jamais considerou tais degenerescências criminosas no poder político. Não pensou no coronel sentado armando um plano de extermínio dos adversários, na eliminação dos descontentes; uma outra arquitetura, outros usos.

— O segundo andar, o mais importante, ostenta vigorosas pilastras limitadas abaixo pelo térreo, tratado como embasamento, e acima, por uma faixa reta ¾ que funciona como um entablamento e apenas se arqueia sobre a varanda da esquina. O terceiro pavimento, mais sóbrio, atua como ático, coroando a construção e permitindo o destaque da cúpula, das cartelas e compoteiras, que necessitam recortar-se imponentes contra o céu.

E é ali que se foram estabelecer os bonzos da burocracia policial do Estado, os chefes do serviço secreto e da contrainformação; com seus outros domesticados gorilas militares à cata de prestígio e promoções.

Susties Pratt logo sublinha algumas frases:

¾ A sensação de poder total deve ser inebriante. Como executivos do terror, chegaram a acreditar que eram mais fortes do que o seu estado-maior e os mandantes políticos. E acreditavam que seu reinado não terminaria nunca; por isso seriam inclementes e depois impunes…

O eixo das elucubrações não agradou Bandiera Trouve. Não admitira entrar no terreno; apenas acedera passar pela frente e conferir alguns aspectos estruturais e artísticos daquele prédio sinistro. Ignorando as provocações de Pratt, prosseguiu:

¾ Examinemos ainda um outro eixo, a hierarquia policial. O Salão Nobre, local de encontro das autoridades, é revelado do exterior por esculturas individualizadas em torno ao arco monumental. À medida que nos afastemos deste ponto, aproximamo-nos das salas dos funcionários de menor poder. Aqui já as janelas são iguais entre si, menores, com ornamento massificado e despersonalizado.

Com o tempo, os fios elétricos profusos, aparelhos de carga em bateria, cadeiras e camas de ferro, as torneiras, e tinas e bacias avulsas, panos, cordas, arames e maças se foram acumulando em despensas e saletas improvisadas, pelos cantos. Todo um instrumental de sujeição e torturas recolhido na imaginação medieval dos burocratas do terror. Um mundo de horrores que foi recriado à imagem e semelhança dos comandantes e agentes operadores de informações e segredos.

— Passemos agora ao interior. Aqui as leituras e interpretações feitas no exterior não têm mais sentido. O que se vai examinar agora são funções, espaços, comunicação, equipamentos, eficiência, objetividade…

Contam-se as vítimas às dezenas, milhares; quem sabe centenas de milhares na extensão de recálculos. A palavra de ordem é a detecção de descontentes, coleta de denúncias e informações contra pessoas, grupos, instituições; averiguação de práticas não aprovadas, confrontação policial com os recalcitrantes. E a inevitável perseguição aos adversários, repressão aos inimigos, liquidação dos cabeças da perversão e subversão.

E para isso montou-se uma engrenagem forte, dura, implacável, que precisa socorrer-se da espionagem, da investigação, da prisão, do sequestro, da extração de segredo sob tortura e da liquidação sumária dos seus piores inimigos. É a própria inteligência do Estado.

Ao entrarem no carro — Susties Pratt tendo de acompanhar a marcha batida de Bandiera Trouve que assumia maior perturbação nervosa —, como que se declarou uma hostilidade entre os dois; um estado de beligerância quando Trouve lhe gritara:

¾ Você preparou tudo isso para me arrancar palavras e confissões. Para me reduzir a depoente. E eu me recuso, está ouvindo? Recuso partilhar dos seus planos! Quaisquer que eles sejam! Seus métodos são muito parecidos com os deles…

 

 

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