Autor Arquivo: Equipe Palavreiros da Hora

Estamos almoçando, lanchando e jantando veneno – por renata camargo / são paulo

“Cada brasileiro consome, em média, 5,2 litros de agrotóxicos por ano. Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos!”


Renata Camargo Renata Camargo

O alerta é feito pelo documentário O veneno está na mesa, do renomado cineasta brasileiro Sílvio Tendler. O filme estreou na semana passada, e é um grito necessário para chamar a atenção dos brasileiros sobre a contaminação dos nossos alimentos e os riscos do agrotóxico.

Autor do documentário Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá, e do aclamado Jango, que chegou a ser sucesso de bilheteria durante a campanha das Diretas, Tendler – que, em suas obras, sempre buscou pensar a realidade – aponta que o uso indiscriminado e abusivo de agrotóxicos na produção agrícola brasileira está levando a um cenário desastroso de prejuízos à saúde humana e analisa os interesses por trás desse mercado.

Tendler mostra como o forte lobby do setor rural produtivo, em nome da produtividade agrícola, ultrapassa os limites legais de uso dos defensivos. No documentário, a presidenta da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), senadora Kátia Abreu (DEM-TO), argumenta que o uso do agrotóxico é feito para baixar o preço dos alimentos para o consumidor.

“Essas pessoas se esquecem que elas também comem, e que elas querem comer barato. Se ele tem um bom salário na Anvisa, não é o caso de milhares e milhares de brasileiros que ganham salário mínimo ou que não ganham nada e que, portanto, precisam comer comida com defensivo sim, porque é a única forma de produzir barato. (…) Não compreendo onde essas pessoas querem chegar. Elas querem atingir as pessoas pobres, que não podem pagar comida cara? Ou eles estão revoltados que o Brasil reduziu o preço da comida a não sei quantos por cento? (…) O pior de tudo isso, o mais desonesto dessa luta, é que a bandeira é bonita: é a saúde humana em jogo. A população toda fica a favor deles”, afirma Kátia Abreu, criticando diretor da Anvisa entrevistado na reportagem Brasil Envenenado, do Le Monde Diplomatique, publicada no ano passado.

O mercado brasileiro é o maior consumidor de defensivos agrícolas do mundo, representando 16% da venda mundial, num mercado cujo faturamento é em torno de U$ 8 bilhões. Pesquisa da Anvisa, no Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para) do ano passado, mostrou que 65% dos pimentões fiscalizados possuem vestígios de agrotóxicos acima dos permitidos por lei. O mesmo acontece com o morango, com a uva, a cenoura e outros alimentos.

Os agrotóxicos são responsáveis pela segunda maior causa de intoxicação da população brasileira, além de causadores de problemas hormonais, reprodutivos, câncer e outros males. Nós, brasileiros, estamos engolindo quantidades genocidas de agrotóxicos mesmo sem querer. Portanto, se a bandeira da “saúde humana em jogo” é desonesta, mais desonesto ainda é embutir no discurso da produtividade agrícola a falaciosa preocupação com a população mais pobre.

Assista à íntegra do documentário O veneno está na mesa:

Parte – 1

Parte – 2

Parte – 3

Parte – 4

Imortal chama colega da ABL de “macilento boquirroto”

Uma rixa antiga entre dois integrantes da ABL (Academia Brasileira de Letras) ressuscitou nesta semana com ares de folhetim.

Irritado porque o ex-ministro da Educação Eduardo Portella, 78 anos, conversava durante uma fala sua durante sessão na semana passada, o poeta e tradutor Lêdo Ivo, 87 anos, leu aos acadêmicos na sessão de ontem (quinta-feira, 4/8) um texto desancando o colega, sem no entanto citar o nome dele.

Conhecedores do dia a dia da ABL não têm dúvidas de que o alvo dos ataques é Portella –velho desafeto de Ivo. O professor ex-ministro da Educação (governo Figueiredo) estava no auditório quando foi insultado, mas não se manifestou.

No discurso, Ivo chamou o adversário de “macilento boquirroto”, queixando-se que durante 25 minutos ele emitiu “ganidos, gemidos, vagidos, coaxos, grasnidos, uivos, ladridos, miados, pipilos e arrulhos intoleráveis, senão obscenos”.

Sempre em linguagem cifrada, fez chiste com os cabelos pintados do colega, chamado de “tintureiro de si mesmo” (definição do padre Manuel Bernardes).

“Há velhos que procuram enganar-se a si mesmos, pintando os cabelos, embora as florejantes e fartas cabeleiras antigas já tenham sido devastadas pela sabedoria ou impiedade dos tempo, que as converte em insidiosas relíquias capilares”, escreveu.

“No episódio em pauta”, prossegue “o uso imoderado dessa tintura, ou pintura, para esconder o inescondível e disfarçar o indisfarçável, casa-se com a boquirrotice provocadora.”

“Mas, tintureiro de si mesmo e boquirroto, esse personagem bizarro merece e reclama, de nossa parte, não um ato agressivo ou belicoso, ou alagoano [Ivo nasceu em Alagoas], mas a muda expressão dessa piedade e dessa misericórdia que devem habitar sempre os nossos corações.”

Sobrou também para o presidente da ABL, Marcos Vinicios Vilaça, acusado de ser omisso e leniente no episódio –pois, disse Ivo, teria o dever de impor silêncio ao auditório.

Lêdo Ivo diz que, momentos antes de seu discurso, Vilaça queixara-se dos gastos excessivos com táxi de um dos acadêmicos (não o nomeia), mas, durante a sessão, não deu devida atenção ao episódio.

Leia a seguir a íntegra da carta enviada por Lêdo Ivo aos acadêmicos:

“Sr. Presidente,

Senhoras Acadêmicas,

Senhores Acadêmicos,

Nesta Academia, como em todas as corporações que se regem pelas normas da civilização, da boa educação, da polidez e da conviviabilidade, o silêncio do auditório, durante a fala de um dos seus integrantes, é um princípio pétreo.

Esse princípio, Sr. Presidente, foi vulnerado quinta-feira última, quando eu estava falando sobre Gonçalves de Magalhães.

Durante 25 minutos, este auditório ouviu, ininterruptamente, ganidos, gemidos, vagidos, coaxos, grasnidos, uivos, ladridos, miados, pipilos e arrulhos intoleráveis, senão obscenos, de um macilento boquirroto ostensivamente deliberado a tisnar e perturbar a minha exposição.

Momentos antes, Sr. Presidente, V. Exa. exarava o seu zelo por esta Casa versando sobre a quilometragem exorbitante de um dos táxis que servem aos acadêmicos do plenário e que, em seu alto juízo, golpeava as burras fartas desta Academia, a mais rica do mundo.

Esse zelo, que é louvável, ou extremamente louvável, se cingiu na sessão de 5. feira última, a um inquietante item monetário, e não voltou a florescer quando um dos mais antigos integrantes desta Casa discorria sobre Gonçalves de Magalhães.

Entendo que era dever inarredável de V. Exa. impor então ao auditório o silêncio de praxe, exercendo plenamente a sua Presidência.

Esse entendimento, aliás, não é só meu — mas ainda o de outros companheiros que, finda a sessão, e ao longo da semana, estranharam a omissão, leniência ou tolerância de V. Exa.

Houve até companheiros que me externaram a opinião de que eu deveria ter suspendido a minha palestra, já que ela fluía num ambiente toldado pela enxurrada de grasnidos a que já aludi.

E não posso nem devo esconder que outros confrades, apreciadores das soluções surpreendentes ou belicosas que quebram a monotonia da vida e das instituições me interpelaram, surpresos, desejosos de saber onde estava a minha alagoanidade, que não se manifestara.

A todos esses companheiros fiéis à tradição de urbanidade e conviviabilidade desta Academia, onde estou há 25 anos, expliquei o ter lido o meu texto até o fim.

Deus, em sua infinita generosidade, assegurou-me, aos 87 anos, o timbre de voz de minha juventude.

Não pertenço à raça dos velhos trôpegos que, com voz de falsete, emitem arrulhos indecorosos em ocasiões em que a decência reclama o ritual do silêncio.

Mas a razão decisiva que me levou a não suspender a minha palestra é outra. Além de ter mantido em mim a voz de minha juventude, Deus me aquinhoou com o sentimento da misericórdia –que é a compaixão suscitada pela miséria alheia– e da piedade, que é dó e comiseração.

Confesso, Sr. Presidente, que me confrange o coração assistir ao penoso espetáculo dos que, alcançada a velhice, ostentam em seu trajeto os sinais indeléveis e quase póstumos da decadência física, mental e moral aceleradas, e mesmo amparados por bengalas astutas rastejam nos salões, corredores e auditórios tão lastimosamente, com os olhos mortiços fixados no chão, como se temessem resvalar em uma cova aberta.

Há velhos que não sabem envelhecer e, desprovidos da alegria e do amor à vida, e do emblema do convívio, destilam ódio, inveja e despeito, porejam calúnias e intrigas, bebem o fel do ostracismo e da obscuridade.

Há velhos que procuram enganar-se a si mesmos, pintando os cabelos, embora as florejantes e fartas cabeleiras antigas já tenham sido devastadas pela sabedoria ou impiedade dos tempo, que as converte em insidiosas relíquias capilares.

Esses velhos enganosos e enganados, o padre Manuel Bernardes os estampilha de “tintureiros de si mesmo”.

No episódio em pauta, o uso imoderado dessa tintura, ou pintura, para esconder o inescondível e disfarçar o indisfarçável, casa-se com a boquirrotice provocadora.

Mas, tintureiro de si mesmo e boquirroto, esse personagem bizarro merece e reclama, de nossa parte, não um ato agressivo ou belicoso, ou alagoano, mas a muda expressão dessa piedade e dessa misericórdia que devem habitar sempre os nossos corações.

Encerro esta palesta com um verso de Lucrécio: “É doce envelhecer de alma honesta”.

Deus guarde V. Exa. Senhor Presidente, e os demais integrantes desta Casa.

Tenho dito.”

 

=======

FABIO VICTOR/sp

A PRESIDENTE DILMA FOI MUITO CONDESCENDENTE COM “JHONBIM”, O INÚTIL.

JHONBIM o “soldadinho de chumbo”,  dos americanos, CAIU. As Forças Armadas brasileiras AGRADECEM a PRESIDENTA DILMA pela a atitude de afastar o INÚTIL FARSANTE que se locupletava com “muito prazer” do cargo que ocupava. Foi, realmente, uma perda de tempo a sua permanência.

 

arte de NETTO.

ATELIÊ EDITORIAL convida: Eliete Negreiros lê e canta Paulinho da Viola na Livraria da Vila / são paulo

Ateliê Editorial

SEMANA ANTI NUCLEAR na cidade de RECIFE / pernambuco

Neste mês de agosto ocorrerá em Recife a Semana Anti Nuclear, organizada pelo Movimento Ecossocialista de Pernambuco (www.mespe2011.ning.com) com o apoio da Fundação Lauro Campos, Fundação Heinrich Böll, Greenpeace, Centro Cultural Correios, Simples Consultoria e Articulação Anti Nuclear Brasileira.

Na quarta-feira dia 10, as 19 horas, no Centro Cultural Correios haverá o lançamento da Revista Ecoss de Pernambuco com o tema “Reflexões sobre Energia Nuclear”, reunindo textos de autores do mundo acadêmico, político e de organizações sociais. Em seguida ocorrerá o debate Pernambuco: Energia Nuclear e Desenvolvimento, tendo com debatedores o professor Claudio Ubiratan Gonçalves (UFPE), o professor Heitor Scalambrini Costa (UFPE/Mespe) e Roberto Malvezzi, conhecido como Gogó, militante social e escritor.

As 19:30 horas, da sexta-feira dia 12 de agosto, no teatro Hermílio Borba Filho (Teatro Apolo) será apresentado o espetáculo Poético Musical de Educação Ambiental Bicho Homem, com textos de literatura de cordel e músicas de Allan Sales e Trupe. Na ocasião será lançado o cordel “Não queremos usina nuclear em Pernambuco, no Nordeste e no Brasil”, de autoria de Allan Sales.

Serviço:
Lançamento da Revista Ecos de Pernambuco
Debate Pernambuco: Energia Nuclear e Desenvolvimento
Dia: 10 (quarta-feira)
Mês: agosto de 2011
Hora: 19 horas
Local: Centro Cultural Correios, Av. Marques de Olinda-262 (bairro do Recife)
Fones: 3224-5739/3424-1935

Espetáculo Poético Musical de Educação Ambiental Bicho Homem e
Lançamento do cordel “Não queremos usina nuclear em Pernambuco, no Nordeste e no Brasil”
Dia: 12 (sexta-feira)
Mês: agosto de 2011
Hora: 19:30 horas
Local: Teatro Hermílio Borba Filho (teatro Apolo), Rua do Apolo, 121 (bairro do Recife)
Fone: 3355-3320

Movimento Ecossocialista de Pernambuco
site: www.mespe2011.ning.com
e-mail: mespe2011@gmail.com
Twitter: @mespe2011
Facebook: www.facebook.com/mespe2011

A nova era na roda do chope – por joão ubaldo ribeiro / rio de janeiro

Tou te achando muito quietinho, ultimamente, muito caladinho… Não pode ser só o Botafogo. Todo caladinho, sem dar palpite em nada…

– Não tem nada disso, cara, tu tá querendo é me provocar, eu estou a mesma coisa de sempre. É que aqui nessa mesa só sai besteira e não é sempre que eu estou disposto a dar palpite em besteira.

– Deixa de ser cara de pau, aqui nesta mesa um dos que mais falam é você, os outros tu pode enganar, a mim tu não engana. Responde com toda a honestidade, sem subterfúgio nem meias palavras, é a presidenta, não é? Só dá pra falar bem dela e aí tu cala a boca. Eu te manjo, cara.

– Você quer dizer “a presidente”. Eu me recuso a usar esse barbarismo.

– Já está no dicionário e é como ela prefere, até nisso tu tem má vontade. Mas eu não quero discutir gramática, quero discutir fatos concretos. A faxina que ela está fazendo no Ministério dos Transportes, somente isso.

– Ela demitiu uns caras, eu li.

– Demitiu uns caras? Já rodaram bem uns 20 e você diz “uns caras”? Uma faxina desse porte?

– Não sei o que é que você quer dizer com “desse porte”. Nesse ritmo cata-piolho, ela não dá conta nem de uma ala do ministério antes do fim do mandato. Tinha que fazer era fumigação total e na máquina toda, ministério por ministério, repartição por repartição. O governo ia ficar bastante desfalcado, mas só fumigar é que dá jeito, catar piolho não vai levar a nada.

– É impressionante como os caras como você ficam insatisfeitos, por mais que se faça.

– Já eu acho impressionante como os caras como você ficam satisfeitos, por menos que se faça. Houve as demissões e está tudo bem, não é isso? Ela fez as demissões por quê?

– Ora, por quê. Porque todo mundo sabe que os caras estão envolvidos com os esquemas de corrupção do ministério. Aliás supostamente envolvidos, hoje a gente tem que ter cuidado com o que fala. Sim, os caras são suspeitos disso. E então? Ela foi lá e demitiu.

– Era pra condecorar? Se ela demitiu, foi porque sabia de alguma coisa. Ou de muitas coisas, senão não ia demitir. E aí eles, castigados pela demissão, vão ter que ficar mais ricos montando consultorias, triste exílio para quem trabalhou no governo. Eu tenho a impressão de que até o homem do cafezinho dos palácios vai abrir consultoria para futuros homens do cafezinho, muitos deles ganham bem mais que um professor, você sabia?

– Bem, eu não li nada sobre o assunto, mas é claro que, se houver indícios de irregularidades contra os demitidos, eles serão investigados e…

– …E, se considerados culpados, serão condenados, devolverão o que ganharam ilicitamente e assim por diante. É isso que você quer que eu comente, não é? Não era melhor a gente comentar o enredo completo da Bela Adormecida, não? Ninguém merece. O cara chega aqui no domingo, para beber um chope sossegado com os amigos e esfriar a cabeça e aparece logo um mané que quer ser enrolado novamente e não se cansa nunca de ser enrolado. Vê se te manca, cara, qual é a tua, com esses papos que são sempre a mesma coisa, embora querendo mostrar outra cara. Não mudou nada! Aliás, minto. Manda a honestidade eu reconhecer que ela demite e ele não demitia. Ele deixava estatizado mesmo, ela prefere privatizar. Bonita diferença. Fica tudo como era antes, com essa diferença de estilo, que sem dúvida marcará a história da República: um não demitia, a outra demitia; e ambos permitiam.

– Você está sendo sarcástico, assim não dá para conversar. Você é desses caras que se recusa a ver que as coisas estão melhorando. Isso não é bom, acaba se voltando contra a própria pessoa. Eu não, eu observo tudo com otimismo. Otimismo equilibrado, mas otimismo. Você não tem acompanhado esse movimento da busca da felicidade, tem? Agora tem um movimento da busca da felicidade. Já era estabelecido na Declaração da Independência americana, vai ser estabelecido entre os direitos humanos nas Nações Unidas e na nossa Constituição. De agora em diante, todo ser humano tem direito nato à busca pela felicidade.

– Vai estar na lei?

– No Brasil, provavelmente.

– Ah, então será criada a Agência Nacional da Felicidade, com delegacias em todo o território brasileiro. E aí, depois de muita discussão, se estabelece o Padrão Nacional de Felicidade, em que se tentará enquadrar todos os cidadãos, sem distinção. E fazer o teste da felicidade será como o voto atualmente: é um direito, mas também uma obrigação, todo mundo vai ter que fazer. Quem for reprovado no teste, recebe uma Bolsa Felicidade de seis meses, após o que faz novo teste. Se reprovado outra vez, será incluído no Cadastro Nacional de Brasileiros e Brasileiras Infelizes, tido como doente e obrigado a submeter-se a tratamento em clínicas públicas ou credenciadas. E, enquanto não dispuserem de seus atestados de felicidade, o brasileiro e a brasileira não poderão tirar passaporte, candidatar-se a cargo eletivo, comprar casa própria e assim por diante.

– Você sempre vê tudo dessa maneira descrente e debochada.

– É o hábito, eu moro aqui há mais de 60 anos.

– Mas não vai ser nada como você está pensando.

– Eu sei, vai ser pior. Eu também sou otimista.

S E L E N E – por jorge lescano / são paulo

Navegamos o dia todo. No crepúsculo fomos sobressaltados por vozes que pareciam surgir do fundo do rio. Luzes ao longe: festa em algum clube à beira do Tigre. Nosso destino era outro.

Juanito, meu guia, cansado de remar, dormia na barraca no limite da floresta. Ele confiava em mim, que optara por fazer a primeira guarda, eu confiava na minha arma.

Noite clara; céu liso; estrelas nítidas, distantes.

A água batia na costa embalando o bote. Para um peixe pequeno, a ribanceira seria uma falésia. Meus olhos acompanharam (por quanto tempo?) o vaivém do rio, compreendi que fogo e água são duas faces do mesmo sentimento de nossa espécie.

O vazio.

Esfericidade do planeta na cavidade do espaço. Cada coisa existe isolada sem ofuscar o conjunto. Ausência do tempo: vida quieta em sua essência. Mesmo o  balanço das ondas era (foi) algo estático: moto perpetuo. Sensação brevíssima. Senti o universo sem desviar os olhos da água aos meus pés. Não foi a enumeração sucessiva do inventário, mas o viver a quantidade e a qualidade do todo sem antes nem depois. Apesar dos meus vinte anos poderia ter morrido naquele instante de plenitude. Senti o peso e o volume do revólver na cintura; soube que seria fácil apontá-lo ao coração e soube também que agora (então) teria sido inútil, o tempo havia retornado.

Monotonia das ondas, silêncio da noite.

Solitário nesta ilha ignorada pelos mapas contemplo teu corpo branco no escuro lençol d’água.

Crianças, quantas maravilhas! – por alceu sperança / cascavel.pr

Os mais experimentados astrônomos de todo o mundo, com anos e até décadas de observação do espaço, não haviam percebido a existência daquele objeto espacial.

Essa estrutura celeste passou completamente despercebida por eles, até aparecer uma jovem professora holandesa, motivada a se interessar pela astronomia por ser fã do roqueiro inglês Brian May, do conjunto Queen. Brian May se formou em astronomia e numa entrevista à TV contou porque se interessava tanto pelas coisas do espaço.

Foi assim que a professora Hanny Van Arkel, ao navegar por uma página de astronomia, deparou-se com uma estranha bolha gasosa que não se enquadrava em nenhum dos padrões espaciais estabelecidos. Ao manifestar a estranheza ao organizador da página, ele encaminhou o problema aos astrônomos.

Descobriram que o objeto gasoso verde era realmente único e teria captado energia a partir da luz emitida por um quasar − uma radiação poderosa proveniente de um buraco negro gigante.

Estava assim descoberto um novo objeto cósmico, que, não poderia deixar de ser, recebeu o nome de Objeto da Hanny, em homenagem à sua jovem descobridora, em seu primeiro contato com o universo espacial.

O objeto, segundo os astrônomos, deve fazer parte de uma galáxia que ainda não havia produzido estrelas brilhantes o suficiente para serem vistas da Terra.

Diante disso, podemos concluir que a pesquisa deve ser feita com dedicação por todos, principalmente pelos iniciantes, que têm maior capacidade de concentração e sede de conhecimento que os pesquisadores já calejados.

É espetacular ver que a cada dia mais jovens se destacam num mundo que os adultos e experientes já acreditavam dominar completamente

**

Você acredita em promessas? A maioria da população não acredita muito em promessas de políticos, mas caem como patinhos na propaganda de produtos anunciados na TV.

A empresa de consultoria ambiental TerraChoice fez uma pesquisa com mais de mil produtos nos Estados Unidos e no Canadá para avaliar a veracidade daquilo que estava prometido nos rótulos ou na propaganda.

Por incrível que pareça, dos mil e 18 produtos analisados, apenas um produto (um papel higiênico) cumpriu tudo o que prometia. É triste ver até em países que se dizem desenvolvidos a prática de prejudicar o ser humano e a natureza para ganhar dinheiro.

Há, por exemplo, produtos eletroeletrônicos que realmente apresentam baixo consumo de energia, mas têm altos teores de metais pesados. Há papéis que realmente são reciclados, mas foram branqueados com cloro, altamente nocivo.

Há promessas absurdas, como as seguintes: “livres de substâncias químicas”. Ora, o que é feito sem substância química? “Produto natural”. Mas chumbo também é natural. Nenhum produto, realmente, é “sobrenatural”…

Por isso, é bom não acreditar em promessas. Só mediante uma avaliação criteriosa é possível checar se realmente cumprem o que prometem.

**

Há coisas estranhas e maravilhosas neste mundo de uma natureza tão variada. Estamos acostumados a pensar que as pessoas ficam gripadas por causa do frio. Nesse caso, no Pólo Norte, todos andam gripados, certo?

Errado: é impossível alguém apanhar uma constipação por lá. O vírus da gripe não gosta de ambientes frios demais. Por isso, ninguém pega gripe no Pólo Norte.

Mas não existe na Natureza um pedaço de mundo melhor que o Brasil. A natureza brasileira é rica e deslumbrante. A mais velha árvore do Brasil, por exemplo, é um jequitibá-rosa que fica no Parque Estadual de Vassununga, no Estado de São Paulo, e tem 3 mil e vinte anos.

Um ser vivo com mais de três mil anos em nosso chão é algo absolutamente incrível. No rio Amazonas já foram descobertas até agora mais de 1.500 espécies de peixes – quinze vezes mais do que a soma de todas as espécies dos rios europeus.

Apenas o rio Negro, um dos afluentes do rio Amazonas, possui mais água doce do que toda a Europa.

O Brasil é um país fantástico. Um dia seu povo, e não os interesses estrangeiros, vão governar esta nação tão bela. Teremos ainda mais orgulho do Brasil quando a justiça e os direitos humanos valerem mais que as ambições e a ganância dos destruidores da Natureza.

FUNARTE recebe MANIFESTO DOS TRABALHADORES DA CULTURA / brasilia

Manifesto dos Trabalhadores da Cultura

Trabalhadores da Cultura, é hora de perder a paciência!

O Movimento de Trabalhadores da Cultura, aprofundando e reafirmando as posições defendidas desde 1999, em diversos movimentos como o Arte Contra Bárbarie, torna pública sua indignação e recusa ao tratamento que vem sendo dado à cultura deste país. A arte é um elemento insubstituível para um país por registrar, difundir e refletir o imaginário de seu povo. Cultura é prioridade de Estado, por fundamentar o exercício crítico do ser-humano na construção de uma sociedade mais justa.
A produção artística vive uma situação de estrangulamento que é resultado da mercantilização imposta à cultura e à sociedade brasileiras. O Estado prioriza o capital e os governos municipais, estaduais e federal teimam em privatizar a cultura, a saúde e a educação. É esse discurso que confunde política para a agricultura com dinheiro para o agronegócio; educação pública com transferência de recursos públicos para faculdades privadas; incentivo à cultura com Imposto de Renda doado para o marketing, servindo a propaganda de grandes corporações. Por meio da renúncia fiscal – em leis como a Lei Rouanet – os governos transferiram a administração de dinheiro público destinado à produção cultural, para as mãos das empresas. Dinheiro público, utilizado com critérios de interesses privados. Política que não amplia o acesso aos bens culturais e principalmente não garante a produção continuada de projetos culturais.
Em 2011 a cultura sofreu mais um ataque: um corte de 2/3 de sua verba anual. De 0,2% ou 2,2 bilhões de reais, foi para 0,06% ou 800 milhões de reais do orçamento geral da União em um momento de prosperidade da economia brasileira. Esta regressão implicou na suspensão de todos os editais federais de incentivo à Cultura no país, num processo claro de destruição das poucas conquistas da categoria. Enquanto isso, a renúncia fiscal da Lei Rouanet não sofreu qualquer alteração apesar das inúmeras críticas de toda a sociedade.
          Trabalhadores da Cultura é HORA DE PERDER A PACIÊNCIA: Exigimos dinheiro público para arte pública!
Arte pública é aquela financiada por dinheiro público, oferecida gratuitamente, acessível a amplas camadas da população – arte feita para o povo. Arte pública é aquela que oferece condições para que qualquer trabalhador possa escolhê-la como seu ofício e, escolhendo-a, possa viver dela – arte feita pelo povo.   Por uma arte pública, tanto nós, trabalhadores da cultura, como toda a população em seu direito ao acesso irrestrito aos bens culturais, exigimos programas – e não programa único – estabelecidos em leis com orçamentos próprios. Exigimos programas que estruturem uma política cultural contínua e independente – como é o caso do Prêmio Teatro Brasileiro, um modelo de lei proposto pela categoria após mais de 10 anos de discussões.  Por uma arte pública exigimos Fundos de Cultura, também estabelecidos em lei, com regras e orçamentos próprios a serem obedecidos pelos governos e executados por meio de editais públicos, reelaborados constantemente com a participação da sociedade civil organizada e não dentro dos gabinetes. Por uma arte pública, exigimos a imediata aprovação da PEC 236, que prevê a cultura como direito social, e também imediata aprovação da PEC 150, que garante que o mínimo de 2% ( hoje, 40 bilhões de reais) do orçamento geral da União seja destinado à Cultura, para que assim tenhamos verbas que possibilitem o início de um tratamento devido à cultura brasileira.
Por uma arte pública, exigimos a imediata publicação dos editais de incentivo cultural que foram suspensos, e odescontingenciamento imediato da já pequena verba destinada à Cultura. Por uma arte pública, exigimos o fim da política de privatizações e sucateamentos dos equipamentos culturaiso fim das leis de incentivo fiscalo fim da burocratização dos espaços públicos e das contínuas repressões e proibições que os trabalhadores da cultura têm diariamente sofrido em sua luta pela sobrevivência. Por uma arte pública queremos ter representatividade dentro das comissões dos editais, ter representatividade nas decisões e deliberações sobre a cultura, que estão nas mãos de produtores e dos interesses do mercado.
Por uma arte pública, hoje nos dirigimos a Senhora Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao Senhor Ministro da Fazenda e às Senhoras Ministras do Planejamento e Casa Civil, já que o Ministério da Cultura, devido seu baixo orçamento encontra-se moribundo e impotente. Exigimos a criação de uma política pública e não mercantil de cultura, uma política de investimento direto do Estado, que não pode se restringir às ações e oscilações dos governos de plantão. O Movimento de Trabalhadores da Cultura chama toda a população a se unir a nós nesta luta.

ESPAÇO CULTURAL E GASTRONÔMICO “ALBERTO MASSUDA” apresenta: “TRIO D FAVETTI” / curitiba

Sarney e o torturador, Ustra e o presidente – por luiz cláudio cunha / são paulo

“Acreditando no inacreditável e defendendo o indefensável, José Sarney encontrou, enfim, o roteiro e o personagem que podem levá-lo definitivamente ao brejal da desmemória, da inverdade e da injustiça”

O próximo desatino de José Sarney já tem hora, dia e local definidos: às 14h30 desta quarta-feira, dia 27, no Fórum João Mendes do Tribunal de Justiça de São Paulo, no centro da capital paulista.

Ali, na inesperada condição de testemunha de defesa, o senador Sarney, presidente do Congresso Nacional, vai louvar e enaltecer o maior ícone vivo da repressão mais feroz da mais longa (1964-1985) ditadura da história brasileira — o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra.

É o homem que montou e comandou, na fase mais sangrenta do Governo Médici (1970-1974), o centro de tortura mais notório do regime, o DOI-CODI do II Exército, na rua Tutóia, a cinco quadras do ginásio do Ibirapuera, no coração de São Paulo. Sarney vai tentar livrar Ustra de uma nova condenação como torturador (a primeira foi em 2008), agora acusado pelo assassinato em 1971 do jornalista Luiz Eduardo Merlino, que sucumbiu após quatro dias de tortura brutal no DOI-CODI paulista.

As unidades de Destacamento de Operações de Informações (DOI) do Centro de Operações de Defesa Interna (CODI) instaladas nos principais comandos da força terrestre no país se converteram em sinônimo de morte e terror. Poucos saíam vivos dali. Quem sobrevivia carregava na carne e na memória as marcas do suplício. José Sarney sempre soube disso, na comprometedora condição de um dos caciques nacionais da Arena, o partido inventado pelos militares para apoiar politicamente a ditadura sustentada pelo terror metódico das masmorras de Ustra e seus comparsas.

Sarney será o único civil no banco de defesa, que ele vai dividir com um coronel e três generais da reserva. Serão confrontados, pelo lado da acusação, com o testemunho de cinco ex-presos políticos e ex-militantes — como Merlino — do Partido Operário Comunista (POC), e de dois ex-torturados do DOI-CODI: o ex-ministro de Direitos Humanos do Governo Lula, Paulo Vanucchi, e o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos.

É sempre saudável reavivar a mambembe memória de Sarney para a sórdida natureza do ofício de Ustra e para a macabra sina de seu local de trabalho. No Rio de Janeiro, o DOI-CODI do I Exército operava no sinistro endereço da rua Barão de Mesquita, sob a direção do major Adyr Fiúza de Castro, versão carioca de Ustra. O comandante do I Exército era o general Sylvio Frota, que dizia não tolerar a tortura. Mas, nos 21 meses em que exerceu seu comando, entre julho de 1972 e março de 1974, Frota teve o dissabor de lamentar a morte de 29 presos no seu DOI.

No DOI-CODI paulista — o maior do país, que chegou a ter 400 beleguins selecionados por Ustra na barra mais pesada da PM paulista, da polícia e do Exército —, o ar também era insalubre. Nos 40 meses em que ali reinou sob o codinome de ‘Major Tibiriçá’, Ustra amargou 40 mortes e uma denúncia de tortura a cada 60 horas, segundo a Comissão de Justiça e Paz do cardeal Paulo Evaristo Arns. Em depoimento oficial ao Exército, o major camarada de Sarney contabiliza em São Paulo, no período de 100 meses entre janeiro de 1969 e maio de 1977, a prisão de 2.541 “subversivos” e o fim violento de 51 “terroristas” — como sempre, “mortos em combate” contra as equipes carcará de Ustra.

Luiz Eduardo Merlino, repórter do Jornal da Tarde, entrou como preso no DOI-CODI e, quatro dias depois, estava irremediavelmente morto, antes de completar 23 anos.  Na noite de 15 de julho de 1971, ele dormia na casa da mãe, em Santos, quando foi despertado por três homens em trajes civis, armados com metralhadoras. “Logo estarei de volta”, disse Merlino, tentando tranquilizar a mãe e a irmã. Nunca mais voltou.

Merlino passou a madrugada e o dia seguinte na sala de tortura. Ao lado ficava a solitária, conhecida como “X-Zero”, uma cela quase totalmente escura, com chão de cimento, um colchão manchado de sangue e uma privada turca. O único preso do lugar, Guido Rocha, ouvia os gritos e gemidos de Merlino, submetido a sessões continuadas de tortura pelas três turmas de agentes que se revezavam em turnos de oito horas no DOI-CODI para preservar o ritmo da pancadaria ao longo do dia. Horas depois, arrastado pelos torturadores, ele foi jogado na “X-Zero”. Estava muito machucado, as duas pernas dormentes pelas horas pendurado no pau-de-arara. Para ir à privada, Merlino precisava ser carregado por Guido. Estava tão debilitado que, no lugar da usual acareação com outro preso na sala de tortura ao lado, Merlino teve o ‘privilégio’ de ser acareado na própria “X-Zero”.

Na manhã do dia 17, o enfermeiro da Equipe A de Ustra arrastou uma mesa até o pátio para onde se abriam sete celas. O carcereiro carregou Merlino até a mesa improvisada, onde o enfermeiro, com bata branca, calças e botas militares, colocou-o de bruços para massagear as pernas. Quando lhe tiraram o calção, os presos viram que as nádegas de Merlino estavam esfoladas. Os presos das celas 2 e 3 o ouviram dizer que fora torturado toda a noite e que suas pernas não o obedeciam mais. Um dos detidos, Rui Coelho, seria anos depois vice-diretor da Faculdade de Filosofia da USP. De volta ao “X-Zero”, Merlino foi submetido pelo enfermeiro ao teste de reflexo no joelho e na planta do pé. Nenhum respondeu.

Tudo o que ele comia, vomitava. Havia sangue no vômito. Guido deu uma pêra a Merlino, que lhe fez um apelo: “Chame o enfermeiro, rápido! Eu estou muito mal”, disse Merlino, agora com os braços também dormentes. O companheiro bateu na porta, gritou por socorro.  O enfermeiro voltou, com outras pessoas, identificadas por Guido como torturadores. Merlino foi transferido para o Hospital Geral do Exército. No dia 20, pela manhã, o PM Gabriel contou aos presos do DOI-CODI de Ustra que Merlino morrera na véspera. “Problemas de coração”, disse.  Às 20h daquele mesmo dia, dona Iracema Merlino recebeu um telefonema de um delegado do DOPS com uma versão menos caridosa: seu filho, contou o policial, matou-se ao se jogar embaixo de um carro na BR-116, ao escapar da escolta que o levava a Porto Alegre. O corpo do jornalista foi entregue à família num caixão fechado.

Dois anos depois, ainda preso no DOI-CODI, o historiador Joel Rufino dos Santos ouviu de um de seus torturadores, o agente Oberdan, esta versão: “O Merlino não morreu como vocês pensam. Ele foi para o hospital passando mal. Telefonaram de lá para dizer: ‘Ou cortamos suas pernas ou ele morre’. Fizemos uma votação. Ganhou ‘deixar morrer’. Eu era contra. Estou contando porque sei que vocês eram amigos”.

O laudo do IML, assinado por dois médicos legistas, apontava como causa da morte “anemia aguda traumática por ruptura da artéria ilíaca direita”, e finalizava com uma suposição nada científica: “Segundo consta, foi vítima de atropelamento”. Amigos de Merlino acorreram ao local do suposto atropelamento, e não encontraram nenhum vestígio do acidente. Não houve registro policial, o atropelador não deixou pistas. A censura impediu a notícia da morte de Merlino. Só no dia 26 de agosto de 1971 é que O Estado de S.Paulo conseguiu vencer a barreira, publicando o anúncio fúnebre para a missa de 30⁰ dia na Catedral da Sé. Quase 800 jornalistas compareceram ao culto na Sé, cercada por forte aparato policial, que incluía agentes com metralhadoras infiltrados até no coro da igreja.

Esta é a história que José Sarney vai ouvir no tribunal. A estória que o coronel Ustra contará é a mesma de sempre e foi antecipada por ele, no início do mês, num site de ex-agentes da repressão e nostálgicos da treva, o Ternuma, abreviatura de ‘Terrorismo Nunca Mais’.

Esta é a delirante, cândida versão de Ustra: “Ao voltar [da França, Merlino] foi preso e, depois de interrogatórios, foi transportado em um automóvel para o Rio Grande do Sul, a fim de ali proceder ao reconhecimento de alguns contatos que mantinha com militantes. Na rodovia BR-116, na altura da cidade de Jacupiranga, a equipe de agentes que o transportou parou para um lanche ou um café. Aproveitando uma distração da equipe, Merlino, na tentativa de fuga, lançou-se na frente de um veículo que trafegava pela rodovia. Se bem me lembro, não foi possível a identificação que o atropelou. Faleceu no dia 19/7/1971, às 19h30, na rodovia BR-116, vítima de atropelamento”. Um parágrafo adiante, Ustra concede: “Hoje, quarenta anos depois, se houve ou não tortura, é impossível comprovar”.

Assim, só cuspindo marimbondos de fogo para confiar na versão de uma equipe tão distraída do mais temido DOI-CODI do país e para acreditar na repentina agilidade física de um preso capaz de correr para uma rodovia federal e incapaz de alcançar a privada da masmorra pela paralisia das pernas destroçadas no pau-de-arara.  Nem o imortal José Sarney, autor de 22 livros, três deles romances, conseguiria produzir ficção tão ordinária, tão sórdida, tão indecente.

No Tribunal de Justiça de São Paulo, a partir desta semana, um ex-presidente da República poderá apressar (ou não) o seu melancólico final de carreira. Acreditando no inacreditável e defendendo o indefensável, José Sarney encontrou, enfim, o roteiro e o personagem que podem levá-lo definitivamente ao brejal da desmemória, da inverdade e da injustiça.

Pensando bem — pensando no presidente e no torturador, no ‘coronel’ e no coronel —, Sarney e Ustra bem que se merecem!

O Brasil e os brasileiros é que não mereciam isso.

*Luiz Cláudio Cunha é jornalista

===============================

EM 27/7/2011

Coronel Ustra não comparece ao julgamento do processo em que é acusado de torturar e matar na ditadura

Publicada em 27/07/2011 às 15h21m

Flávio Freire 

 

Manifestantes fazem protesto em frente ao Fórum João Mendes contra os crimes na ditadura. Foto: Marcos Alves

SÃO PAULO – O coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra não compareceu, nesta quarta-feira, ao julgamento do processo em que testemunhas o acusam de torturar e matar, em julho de 1971, o jornalista Luiz Eduardo Merlino. Na época, Ustra comandava o Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Por conta de uma ação movida pela família do jornalista, uma audiência acontece nesta tarde no Fórum João Mendes, no centro da capital paulista.

Apenas um advogado de Ustra acompanha os depoimentos. Do lado de fora, cerca de 30 manifestantes protestam segurando cartazes contra a ditadura e fotos de desaparecidos políticos do período. O ex-secretário de Direitos Humanos da Presidência, Paulo Vannhuci, é uma das testemunhas de acusação. A imprensa foi proibida de acompanhar os depoimentos.

Pouco antes da sessão, a integrante da Comissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos, Maria Amélia Teles, disse que a condenação de Ustra seria também uma “condenação política histórica e moral da Ditadura Militar”. Maria Amélia, torturada durante o regime, também move uma ação contra o coronel.

Além de Vannuchi, também são testemunhas de acusação Laurindo Martins Junqueira, Leane Ferreira de Almeida, Otacílio Guimarães Cecchini, Joel Rufino dos Santos e Leonora Memiccuci de Oliveira.

A defesa arrolou no processo como testemunhas a favor de Ustra o presidente do Senado, José Sarney, e o ex-ministro Jarbas Passarinho. Por meio de assessoria, Sarney informou que não será testemunha de defesa do coronel reformado.

LINKS PATROCINADOS

o globo.

UMA DESCOMPOSTURA EM DIÓGENES – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 Uma descompostura em Diógenes

Útil, a arte não deve ser útil,

são os utensílios que deveriam ter inutilidades.

Que se faça em tudo que é útil,

belas inutilidades.

Um caixa eletrônico aonde o extrato venha dobrado em origamis em forma de peixe

e  talheres com lente de aumento para examinarmos

com mais riqueza de detalhes como é belo o azeite

sobre a salada.

Que façam

estradas com aquelas descidas que causam inércia

e dão um friozinho na barriga

que as crianças gostam tanto .

E os navios cargueiros em formato de patinho de banheira,

ou contêineres em legos gigantes.

Tirem das prisões,

o minimalista reto e objetivo das grades,

que sejam substituídas por grades barrocas e exageradas,

grades cinzeladas, folheadas a ouro,

reproduzindo querubins com safiras nos olhos, grades que elevem.

Porque o útil é uma mentira.

É uma mentira.

A utilidade das fábricas, é uma mentira,

e do aço da máquinas,

das precisas correntes, dos processos, da estrutura das linhas de produção,

é uma mentira a utilidade da automação.

Útil é a água, transformá-la em refrigerante, dar sabores, uma doce inutilidade.

Útil e a água, transformá-la em cerveja, dar-lhe o reconfortante álcool

é uma inutilidade prazerosa.

São inúteis as grandes fábricas de tecidos,

o que move a indústria de roupas não é a utilidade, mas a criativa moda.

E a utilidade das colheitadeiras,

também  é uma mentira.

A utilidade das plantações, dos rebanhos,

a utilidade da soja é uma mentira, a utilidade do trigo é uma mentira.

Útil é o trigo, mas em donuts, em brioches e croissant,

são todos uma gostosa inutilidade.

É uma mentira a utilidade da medicina, uma mentira.

Mas com que coragem

enfrentam com suas insignificantes armas,

seus avanços postergadores, com suas  máquinas

ineficazes, seus pequenos bisturis e analgésicos,

o inevitável.

Como é bonito

ver um corpo  em uma oferenda inversa

e os ritos das operações,dos tratamentos,das quimioterapias,

tentando retirar o homem da morte.

É uma mentira a medicina,

mas como são destemidas,

como são renitentes  e sábias

suas utópicas e caras  tentativas heróicas de vencer  o inevitável

sem nunca ter conseguido, uma só vitória.

É uma mentira a utilidade

das minas de aço, da extração do petróleo,do cobre, do ouro,

todos retirados para fazer mover a magnífica futilidade dos homens.

Sim, Sim.

É a inutilidade que move os trens, os caminhões, os aviões,os navios

que abre novas rodovias,

e nos trazem e levam ao lixo,

os  magníficos eletrodomésticos descartáveis, os lindos sapatos fúteis,

os supermercados cheios de alimentos tão saborosos

com seus indispensáveis

e atávicos sais e calorias,

os computadores

com sua grande quantidade de espaço para a deliciosa pornografia,

sexo virtual e música,

As televisões e seus jogos de futebol e filmes violentos, panis et circus virtuais,

notícias quase sempre irrelevantes e entediantes novelas.

E o concreto,

o concreto

que constrói as casas,os edifícios, os shoppings

todos valorizados se excessivos e luxuosos

e desvalorizados se essencial.

É Verdade,é verdade  existe o útil

Mas o útil é sempre  primitivo e  rude,

existe ou existiu,

é seu pé e sua mão, seus instintos,

a fruta colhida,

a carne crua.

Já a inutilidade foi descoberta junto com fogo, com a primeira semente plantada

com as lanças.

nasceu junto com a inteligência ,

com a  inteligência,

que é a única inutilidade da natureza

e evoluíram juntos

descobriram metais, impérios ,calendários

e foram à lua.

Sim, foram à lua, a mais obscena loucura, a mais linda loucura da humanidade,

que magnífico excesso

bilhões e bilhões para nos trazerem uma dúzia de pedras.

E as religiões desde os primórdios tão desnecessárias e ricas,

com seus sempre poderosos sacerdotes,seus deuses e ritos surreais.

Oh!   A inútil fé, obrigado ,muito obrigado

por decoraram cavernas e fazerem monólitos,

por  construírem  as  ociosas pirâmides

e catedrais com vitrais.

Ah, o inútil, a quem devemos toda a civilização,

Todos os avanços,

dói,mas é

preciso desmascará-lo

quando  pedante e pretensioso,

quando  finge-se necessário,

e  engana os crentes há tantos milênios.

e  se auto-engana há tantos milênios,

que acredita-se imprescindível

e legisla,cria países e exércitos, veste togas e crenças

é cheia de funcionários,de parques industriais, de salas comerciais,

de ritos de poder

mostra-se arrogante

com a leveza delicada da arte,

que é puramente desnecessária,

quando é áspera com o sorriso,com as férias e os jogos eletrônicos.

Mas o inútil, o verdadeiro inútil, como é poderoso,

é mais indispensável que o útil.

Sim.Sim. Mais imprescindível que o útil.

Diógenes!

Diógenes!

Diógenes!

Como  estava enganado Diógenes!

Quando menosprezou o belo, o exuberante inútil

e se voltou para o tão primitivo necessário.

Devia ter acumulado inutilidades,

devia  ter feito muitas inutilidades,

estátuas, por exemplo ou mesmo poemas.

Acharia com mais facilidades os

verdadeiros homens  que com sua ineficaz lanterna.

Porque estátuas,

porque poemas,

são mais eficazes armas que lanternas.

Há em frente aos quadros, em frente aos livros

mais homens bons ,que na frente dos cofres e agências bancárias.

LUCAS PAOLO comenta em “WOODY ALLEN, PARIS E O DILEMA DA CORAGEM – por enio squeff / são paulo”

Comentário:
“A menos que se esteja pessoalmente envolvido nela, a guerra é um estado de espírito contrário ao pensamento”. (Trecho de carte de Debussy a Igor Stravisnki)

Resta refletir o que é estar envolvido em tal situação de guerra. No caso de Borges, talvez mais que suas entrevistas, o “Elogio da Sombra” pode inferir a questão.

Elogio da Sombra – Jorge Luis Borges (trad. josely vianna baptista)

A velhice (este é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal está morto ou quase morto.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são, ainda, a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se desgarrava em subúrbios
rumo à planície incessante,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as apagadas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos de Sur.
Em minha vida as coisas sempre foram excessivas;
Demócrito de Abdera arrancou seus olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece com a eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são o que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria me dar medo,
mas é um deleite, um regresso.
Das gerações dos textos que há na terra
terei lido alguns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Logo saberei quem sou.

Manifesto cultural para o Senhor Prefeito Luciano Ducci – por ana cláudia decker / curitiba

Caríssimo Senhor Prefeito Luciano Ducci:

É com muita tristeza em meu coração que venho pedir um pouco mais de cuidado e atenção com os artistas, músicos curitibanos.

É absolutamente revoltante a forma como somos tratados na “cidade modelo”, acredito que a propaganda que a prefeitura faz em Curitiba seja no mínimo hipócrita.

Uma cidade cujas estatísticas de violência, poluição e abuso de poder estão entre as mais altas no país, não vai ser nunca uma capital modelo para ninguém. Acredito que para ser considerada uma cidade civilizada e moderna a Cultura e a Educação devem vir em primeiríssimo lugar, o que não é ocaso de Curitiba.

Como curitibana, cidadã que paga em dia seus impostos e leva multa no trânsito sem ao menos sair de casa, acho que tenho mais do que direito de questionar a conduta da prefeitura da capital paranaense e me manifesto contra sua atitude, seu abuso de poder em relação a todos os artistas dessa cidade fria e violenta.

Como pode a Guarda Municipal, o DIRETRAN, a Polícia Militar, a Polícia Civil entre outros oficiais, serem tão eficazes no fechamento dos bares e casas de cultura da “cidade modelo?”

É realmente um absurdo ver existe tanta eficiência na interdição de uma casa de tradição como a Sociedade 13 de Maio em pleno domingo, às 3h da manhã, privando os cidadãos curitibanos de se divertirem com música, dança e alegria, tirando, com essa atitude, o emprego de inúmeros e bons músicos. Já não basta o que foi feito com o Beto Batata? Quem mais vocês vão “pegar”??!!

Senhor prefeito, Curitiba é uma vergonha para nós curitibanos, pois enganar aos que estão de fora dizendo-lhes  que esta é uma cidade de primeiro mundo, é fácil, mas só nós que moramos aqui sabemos que tudo isso é uma grande mentira, e isso me faz sentir muita vergonha de ser filha de uma cidade tão bela,  mas com governantes que não passam de “mãe  desnaturada”  para com seus filhos.

Sim, senhor prefeito, somos órfãos, pois mais importante do que fechar as casas noturnas de Curitiba e tirar o emprego de tantos músicos, é olhar para o consumo absurdo de craque no centro da cidade, é arrumar ruas importantes da Capital e completamente esburacadas, símbolos de vergonha para quem mora aqui. Exemplos? R. Visconde do Rio Branco, R. Engenheiro Rebouças, R. Brigadeiro Franco, sem contar as ruas dos bairros mais afastados como o Tarumã,  Parolim, Boqueirão, Mossunguê, além das inúmeras ruas da periferia.

Acho também que é mais do que necessário usar de toda essa eficiência para a violência em nossa cidade que a cada dia cresce mais, as pessoas são assaltadas e agredidas o tempo todo. O trânsito está cada vez pior. E o trem, no meio da cidade modelo, produzindo poluição sonora e ambiental,  infernizando a vida das pessoas que moram próximas à linha férrea, além de atrapalhar mais ainda esse trânsito caótico…

Outro aspecto importante é que quando somos assaltados, agredidos ou algo parecido: não temos nenhuma proteção, às vezes a polícia nem chega ou chega quando a tragédia já aconteceu.

Senhor prefeito, não adianta nada organizar uma “Virada Cultural” uma vez ao ano ou arquitetar projetos pela Fundação Cultural, onde só entra quem faz parte da “panela”.

Nós, músicos, precisamos comer, pagar as contas, cuidar de nossos filhos e necessitamos trabalhar nos bares dessa cidade. Somos nós que levamos um pouco de alegria e diversão para os curitibanos, para os que vem de fora, para os turistas. São os curitibanos que se matam de trabalhar, pagar contas, impostos e tudo o mais para manter essa “cidade modelo” de que tanto o senhor se orgulha.

Por favor, senhor prefeito, chega de hipocrisia, chega de mentira e de tanta falação. Aja de verdade e como político sério nas questões que realmente são fundamentais para nossa civilização. A atitude da Prefeitura é feia, incoerente, vergonhosa para uma cidade que se diz  modelo, capital de primeiro mundo, entre tantas outras mentiras.

O senhor e toda a sua equipe estão tirando o emprego de muitos músicos. E com isso estão tirando a comida das mesas de muitas pessoas, dentre as quais, crianças. Vossa excelência está acabando com a vida cultural da cidade. Nós, músicos, estudamos muito, trabalhamos muito para levar um pouco de Arte às pessoas e em pleno século XXI ainda existem políticos que não nos valorizam.

Curitiba só valoriza seus artistas quando eles saem daqui e vão para outras cidades e lá são reconhecidos e isso, senhor prefeito, é uma VERGONHA para uma cidade que se denomina cultural, moderna, modelo de primeiro mundo. Em cidade de primeiro mundo, senhor prefeito, os artistas são realmente respeitados, principalmente por seus governantes.

Agindo dessa forma, senhor prefeito, o senhor pode até tirar nosso emprego, mas não pode nos calar, pois nós, da classe artística, somos muitos e temos vozes e, mais do que isso:  temos um público imenso ao nosso lado!

Por favor, Senhor Prefeito, faça jus ao nome e à fama que Curitiba tem lá fora, agindo com justiça com os filhos dela, aqui de dentro!!!!!!!!!!

Lamentavelmente,

Ana Cláudia Decker.

A obsessão e o complexo de vira-lata – por celso amorim / são paulo

A elite dos Estados Unidos reconhece a importância do Brasil. Só falta a brasileira


Até os jornais brasileiros tiveram de noticiar. Uma força-tarefa criada pelo Conselho de Relações Exteriores, organização estreitamente ligada ao establishment político/intelectual/empresarial dos Estados Unidos, acaba de publicar um relatório exclusivamente dedicado ao Brasil, -pontuado de elogios e manifestações de respeito e consideração. Fizeram parte da força-tarefa um ex-ministro da Energia, um ex-subsecretário de Estado e personalidades destacadas do mundo acadêmico e empresarial, além de integrantes de think tanks, homens e mulheres de alto conceito, muitos dos quais estiveram em governos norte-americanos, tanto democratas quanto republicanos. O texto do relatório abarca cerca de 80 páginas, se descontarmos as notas biográficas dos integrantes da comissão, o índice, agradecimentos etc. Nelas são analisados vários aspectos da economia, da evolução sociopolítica e do relacionamento externo do Brasil, com natural ênfase nas relações com os EUA. Vou ater-me aqui apenas àqueles aspectos que dizem respeito fundamentalmente ao nosso relacionamento internacional.

Logo na introdução, ao justificar a escolha do Brasil como foco do considerável esforço de pesquisa e reflexão colocado no empreendimento, os autores assinalam: “O Brasil é e será uma força integral na evolução de um mundo multipolar”. E segue, no resumo das conclusões, que vêm detalhadas nos capítulos subsequentes: “A Força Tarefa (em maiúscula no original) recomenda que os responsáveis pelas políticas (policy makers) dos Estados Unidos reconheçam a posição do Brasil como um ator global”. Em virtude da ascensão do Brasil, os autores consideram que é preciso que os EUA alterem sua visão da região como um todo e busquem uma relação conosco que seja “mais ampla e mais madura”. Em recomendação dirigida aos dois países, pregam que a cooperação e “as inevitáveis discordâncias sejam tratadas com respeito e tolerância”. Chegam mesmo a dizer, para provável espanto dos nossos “especialistas” – aqueles que são geralmente convocados pela grande mídia para “explicar” os fracassos da política externa brasileira dos últimos anos – que os EUA deverão ajustar-se (sic) a um Brasil mais afirmativo e independente.

Todos esses raciocínios e constatações desembocam em duas recomendações práticas. Por um lado, o relatório sugere que tanto no Departamento de Estado quanto no poderoso Conselho de Segurança Nacional se proceda a reformas institucionais que deem mais foco ao Brasil, distinguindo-o do contexto regional. Por outro (que surpresa para os céticos de plantão!), a força-tarefa “recomenda que a administração Obama endosse plenamente o Brasil como um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. É curioso notar que mesmo aqueles que expressaram uma opinião discordante e defenderam o apoio morno que Obama estendeu ao Brasil durante sua recente visita sentiram necessidade de justificar essa posição de uma forma peculiar. Talvez de modo não totalmente sincero, mas de qualquer forma significativo (a hipocrisia, segundo a lição de La Rochefoucault, é a homenagem que o vício paga à virtude), alegam que seria necessária uma preparação prévia ao anúncio de apoio tanto junto a países da região quanto junto ao Congresso. Esse argumento foi, aliás, demolido por David Rothkopf na versão eletrônica da revista Foreign Policy um dia depois da divulgação do relatório. E o empenho em não parecerem meros espíritos de porco leva essas vozes discordantes a afirmar que “a ausência de uma preparação prévia adequada pode prejudicar o êxito do apoio norte-americano ao pleito do Brasil de um posto permanente (no Conselho de Segurança)”.

Seguem-se, ao longo do texto, comentários detalhados sobre a atuação do Brasil em foros multilaterais, da OMC à Conferência do Clima, passando pela criação da Unasul, com referências bem embasadas sobre o Ibas, o BRICS, iniciativas em relação à África e aos países árabes. Mesmo em relação ao Oriente Médio, questão em que a força dos lobbies se faz sentir mesmo no mais independente dos think tanks, as reservas quanto à atuação do Brasil são apresentadas do ponto de vista de um suposto interesse em evitar diluir nossas credenciais para negociar outros itens da agenda internacional. Também nesse caso houve uma “opinião discordante”, que defendeu maior proatividade do Brasil na conturbada região.

Em resumo, mesmo assinalando algumas diferenças que o relatório recomenda sejam tratadas com respeito e tolerância, que abismo entre a visão dos insuspeitos membros da comissão do conselho norte-americanos- e aquela defendida por parte da nossa elite, que insiste em ver o Brasil como um país pequeno (ou, no máximo, para usar o conceito empregado por alguns especialistas, “médio”), que não deve se atrever a contrariar a superpotência remanescente ou se meter em assuntos que não são de sua alçada ou estão além da sua capacidade. Como se a Paz mundial não fosse do nosso interesse ou nada pudéssemos fazer para ajudar a mantê-la ou obtê-la.

Celso Amorim

Celso Amorim é ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula. Formado em 1965 pelo Instituto Rio Branco, fez pós-graduação em Relações Internacionais na Academia Diplomática de Viena, em 1967. Entre inúmeros outros cargos públicos, Amorim foi ministro das Relações Exteriores no governo Itamar Franco entre 1993 e 1995. Depois, no governo Fernando Henrique, assumiu a Chefia da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas e em seguida foi o chefe da missão brasileira na Organização Mundial do Comércio. Em 2001, foi embaixador em Londres.

Amy Winehouse entregou hoje as “moedas para o barqueiro” / londres

Como Joplin, Hendrix, Morrison e Cobain, música perde Amy Winehouse aos 27 anos
A cantora britânica Amy Winehouse foi encontrada morta neste sábado (23/07) em sua casa, em Londres. Ainda não foi divulgada a razão oficial de seu falecimento. A notícia foi divulgada inicialmente pelo canal de britânico TV Sky News. Segundo o canal, a polícia confirmou a morte da cantora. As informações são de agências de notícias internacionais. 

Aos 27 anos, Amy repete o histórico de outros grandes astros da música pop e do rock que morreram, coincidentemente, na mesma idade. A este grupo pertencem Jimi Hendrix, Kurt Cobain (líder do Nirvanna), Jim Morrison (vocalista do The Doors), Brian Jones (ex-Rolling Stones) e Janis Joplin.

Efe

A cantora britânica Amy Winehouse, encontrada morta em Londres 

Assim como eles, a cantora tinha um histórico de graves envolvimento com álcool e drogas. Seu maior sucesso, Rehab, trata exatamente de sua relação com entorpecentes.

A polícia londrina informou em comunicado ter recebido uma chamada à casa da cantora por volta das 16h (12h no horário de Brasília), respondendo a um chamado para atender uma mulher desmaiada. Ao chegar à residência, seu corpo foi encontrado no chão. Amy foi declarada morta no local.

A MELHOR CAMPANHA PUBLICITÁRIA DO ANO / jaraguá do sul.sc

.

.

PREFIRO – de omar de la roca / são paulo

Coisas

Não quero me acostumar a certas coisas

a ficar sob constante anestesia.

Não sentir na carne a dor das coisas,

o sabor agridoce da poesia

das coisas.

Coisas demais.

Quero a luminosidade, a luz

e sua súbita cegueira.

Que dure um momento, ou a vida inteira.

Sem me poupar de mim mesmo.

Sem me acostumar com a rotina.

Sem que a violência seja banal, carnal, bem-vinda.

Assumida ou disfarçada, delicada, infinda.

Prefiro a dor da claridade na retina.

Prefiro escolher a cor viva sem ansiedade.

Nada de cantos escondidos, de maldade.

A dor sofrida da solidão.

Que todos saibam que prefiro a luz.

Que as vezes só me resta escolher

Entre a sombra e a escuridão.

Que me protege,

De mim mesmo e dos outros.

Que me sufoca, aperta,seduz.

Na área cinzenta, a qual pertenço,

aspiro ao ar transparente, iluminado.

Roto de cansaço.

Juntando os pedaços,

Ainda íntegro, uma coisa só.

Peregrino de incontáveis sóis,

Que a lua vem iluminar.

Pessoa ou coisa,

Ainda não sei.

Morde e assopra nuclear – por heitor scalabrini costa / pernambuco

Após o trágico acidente nuclear na central japonesa de Fukushima com considerável vazamento de material radioativo, o mundo rediscute os projetos de novas usinas nucleares, e o que fazer com as já existentes. No Brasil, o governo federal age no sentido oposto.

Defensores das usinas nucleares se contradizem, apelando que o momento é de cautela, e que governo vai analisar a entrada de projetos de energia nuclear na discussão do Plano Nacional Energético 2035. Ao mesmo tempo defendem a qualquer custo, que o País não abandone os projetos nucleares com o argumento de não ficar defasado desta tecnologia no futuro, e que a construção de Angra 3 vai continuar, sem alteração do seu cronograma.

Esta nova posição (estratégia?) pode ser considerada mais moderada, se comparar com as declarações do Ministro de Minas e Energia, que chegou a anunciar publicamente que o País teria dezenas de (cerca de 50) usinas nucleares até 2050.

De fato, ocorre que mensagens estão sendo enviadas à sociedade pelo lobby nuclear, no sentido de apontar certo recuo e bom senso, tendo em vista a grandiosidade e as reais conseqüências do acidente nuclear ocorrido no Japão, com enormes prejuízos econômicos, sociais, ambientais. O objetivo é amenizar e mesmo tentar calar o movimento anti nuclear que se organiza e cresce em todo território nacional, se opondo a instalação de novas usinas, defendendo o fechamento das já existentes e a interrupção da construção de Angra 3.

Enquanto ocorrem estas declarações de técnicos funcionários públicos e representantes da indústria nuclear, permanecem as propostas contidas no Plano Nacional de Energia, e definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética, composto por apenas 10 membros. Os dirigentes desse setor continuam priorizando a energia nuclear como fonte energética. Desconsideram todas as potencialidades e vantagens das fontes renováveis de energias abundantes no País, quando não aprovam o Projeto de Lei – PL 630/2003, denominado “Lei das Renováveis”, adormecido nas gavetas do Congresso Nacional. Também pouco se investe na conservação de energia, bastando verificar os orçamentos destinados para o Programa de Conservação de Energia Elétrica (PROCEL) e suas metas pífias.

O discurso oficial atual é para amainar amplos setores da sociedade contrários ao uso da energia nuclear para produção de eletricidade. Enquanto na prática deixa claro que sua política energética prioriza as mega hidroelétricas na região Amazônica, as termoelétricas (com combustíveis fósseis), além das usinas nucleares. Prova cabal desta conduta foi à aprovação pelo BNDES, nos últimos dias de dezembro de 2010, de um financiamento de R$ 6,1 bilhões para a Eletrobrás Termonuclear S/A construir Angra III. Este valor corresponde a 55% do investimento total.

 

Enquanto o Banco abre “as burras” para o setor nuclear, acaba de divulgar na véspera da festa junina de São João a criação de um fundo de investimento de R$ 150 milhões, voltado exclusivamente a empresas que desenvolvem projetos de tecnologias “limpas” e estão em estágio nascente ou inicial de atividades. Ou seja, uma soma 40 vezes inferior a que foi destinada ao setor nuclear.

 

Também recentemente (25/05/2011), o Congresso Nacional aprovou a Medida Provisória – MP 517/2010 editada no final do ano passado, nos últimos dias do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concedeu incentivos fiscais a áreas consideradas estratégicas pelo governo federal, como infra-estrutura, além de tratar de outros assuntos ligados ao setor elétrico.

Um dos assuntos que fez parte do texto da MP foi à criação do Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Usinas Nucleares (Renuclear), concedendo isenção de impostos para usinas atômicas. Segundo a Eletrobras Eletronuclear, o regime reduzirá em R$ 700 milhões o custo de Angra 3 – orçada em R$ 9,9 bilhões. Portanto é o Tesouro Nacional, ou seja, nós os cidadãos e cidadãs que pagamos impostos, que continuamos financiando através do BNDES, e da isenção de impostos, a usina nuclear de Angra 3 e o Programa Nuclear.

 

Logo, a estratégia do governo é clara; enquanto a “poeira radioativa” da catástrofe de Fukushima não assenta, e não sai do foco da mídia nacional e internacional; atua no sentido de realizar um grande esforço de convencimento da população que ele tem cautela quanto aos destinos do projeto nuclear no Brasil. Mas nos bastidores continua priorizando esta tecnologia. Por quê? Sabe lá os motivos. Talvez tenhamos uma resposta perguntando ao “bispo de Itu”, pois os defensores das usinas nucleares continuam “enrolando” a sociedade.

 

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

A bandalheira fardada – por mauricio dias / são paulo

Apesar da faxina que promove em alguns organismos do governo, a presidenta Dilma Rousseff ainda está longe de ter se livrado das dores de cabeça provocadas por denúncias e indícios de corrupção no Departamento de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a árvore das mais frondosas bandalheiras no Ministério.

Na sexta-feira 15, Dilma demitiu José Henrique Sadok de Sá, mais uma cabeça coroada do Dnit. Além de diretor-geral, ele era o substituto imediato do já afastado Luiz Antonio Pagot. Sá foi afastado após denúncia de que a empresa da mulher dele tinha contratos da ordem de 18 milhões de reais com aquele departamento.

A tormenta de Dilma nessa área pode piorar. Sadok de Sá é o fio de uma meada que leva à sempre sensível área militar. Mais precisamente ao Instituto Militar de Engenharia (IME), subordinado ao Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército e considerado um centro de referência do ensino de engenharia nas Américas.

Um Inquérito Policial Militar (IPM), aberto em maio de 2010 na Justiça Militar, no Rio de Janeiro, e concluído agora, denuncia por crime de peculato seis militares do Exército e nove civis “por desvio de recursos públicos em licitações realizadas pelo Instituto Militar de Engenharia, nos anos 2004 e 2005” referentes a convênios celebrados com o Dnit. O prejuízo aos cofres públicos está calculado em 11 milhões de reais.

Um dos vínculos entre os militares (IME) e Sadok de Sá (Dnit) está no fato de Fábia Sadok de Sá, filha do diretor do Dnit, constar como contratada da empresa WMW ANKAR.

Havia oito empresas participantes do esquema. A maioria delas formada por sócios, amigos e parentes.

O nome da WMW ANKAR é de uma evidência gritante. Soma o W de Washington (major Washington Luiz de Paula, um dos denunciados); o M de Marcelo; W de William; o AN de Antonio (sogro de Washington); o KA de Khaterine (esposa de Washington) e o R de Roberto (coronel Paulo Roberto Dias Morales, outro oficial denunciado), registrada em nome de Antonio da Cruz Fonseca (sogro de Washington-), da cunhada dele Edilania Fonseca- Froufe (empregada do Dnit) e de Wilson- Agostinho (pai de William).

Entre setembro de 2004 e julho de 2005, apenas dois meses após ter sido criada, ela teria desviado dos cofres públicos quase 2 milhões de reais (tabela).

Nos depoimentos, militares e civis, irmanados, argumentam que agiram dentro da lei. A denúncia contra eles, no entanto, derruba facilmente a tese, principalmente pela forma com que conduziram a homologação das licitações, a fase de liquidação das despesas e, enfim, o pagamento. Um simples exemplo:

No convite 43/2004, cuja execução seria de até 30 dias, foi pago 90,4% em cinco horas. Tempo decorrido entre a emissão da Nota de Empenho e da Ordem Bancária. O restante em dez dias.

Tudo, como se vê, a tempo e a hora. Uma eficiência que não ocorre em qualquer outro órgão público que não tenha esquemas ilegais alternativos.

Há um fato extremamente relevante na trajetória do processo. Os autos foram enviados à Procuradoria da Justiça Militar “em razão da atribuição específica” desse órgão. Isso ocorre quando a denúncia envolve generais. E há três deles denunciados.

A granada que vai explodir nas mãos do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

Tabuleiro político I

A presidenta Dilma Rousseff partiu para o enfrentamento com o Partido da República (PR), que conta com 41 deputados e 7 senadores no Congresso.

Ela faz um movimento necessário para mudar as regras do jogo sujo, no qual se troca apoio político por benefícios ilegítimos na administração federal.

Essa decisão, corajosa e arriscada, em princípio enfraquece Dilma no Congresso, onde é necessária uma base governista sólida para governar.

FHC e Lula não tiveram tanta ousadia.

Tabuleiro político II

O saldo parece ser o seguinte: Dilma perde força no Congresso, mas ganha força na sociedade. Com isso, tira da oposição a bandeira da ética, perdida em 2005 com o episódio do chamado “mensalão”.

Com isso, os adversários ficam diante do dilema: apoiar a cruzada virtuosa de Dilma ou conquistar
a dissidência punida por ela?

Os tempos são outros, mas não custa lembrar que, em 1964, a oposição ao presidente João Goulart resgatou a bandeira da legalidade perdida quando apoiou a reação contra a posse dele em 1961.

Dilma retoma a bandeira da ética que estava nas mãos da oposição.

Sensibilidade política

O deputado Luciano de Castro, do PR de Roraima, reagiu, assim, às demissões do pessoal
do partido dele no Dnit:

“Atingiram o PR na cabeça e no coração”, reclamou Castro.

Mas o ilustre parlamentar sabe que a parte mais sensível no corpo de alguns políticos não é a cabeça ou o coração. É o bolso.

Eike no pedaço

A Refinaria de Manguinhos que, recentemente, levantou a recuperação judicial, está em negociações com o grupo de Eike Batista.

É negócio para mais de 100 milhões de dólares.

Nos últimos dois meses, as ações da empresa com direito a voto subiram quase 70%.

Onde fica a saída?

De olho no Brasil, o ex-ministro Dias Leite, professor emérito da UFRJ, está debruçado sobre as contradições da economia política com o objetivo de mostrar as dificuldades para se sair do subdesenvolvimento.

Em busca da clareza de linguagem e de conceitos, quer fazer um livro de, no máximo, cem páginas para alcançar um leitor além daquele que gosta de economia.

Dias Leite trabalha duro, mas se permite a pequenas provocações sobre o embate entre economistas
da estabilidade “de curto prazo” e os do desenvolvimento “de longo prazo”.

Ele ironiza: “Separa-os uma medida de tempo que ninguém sabe o que é”.

Eleição carioca I

A oposição carioca ao prefeito Eduardo Paes, do DEM ao PSOL, busca uma solução para disputar com chances a prefeitura do Rio, em 2012.

Os opositores pretendem lançar vários candidatos para tentar levar a disputa para o 2º turno. Paes, do PMDB, deve contar com o apoio do PT que, provavelmente, indicará o candidato a vice-prefeito.

Eleição carioca II

Embora qualquer pesquisa, distante da eleição, seja uma indicação capaz de provocar ilusão antecipada de vitória, o Ibope, em abril, apontava a vitória folgada de Paes (tabela) no primeiro turno.

Ele faz boa administração e recebe reflexo do apoio do governador Sérgio Cabral, bafejado pelo sucesso na luta contra o tráfico.

É preciso considerar que, neste momento, o total de eleitores representa somente 75% do total, porque 25% expressam a intenção de votos brancos e nulos (tabela).

EUA: Saga Kennedy

O canal por assinatura A&E exibe no Brasil, em dublagem, a minissérie The Kennedys. É fruto, mais uma vez, da obsessão dos conservadores americanos de destruir o mito dos Kennedy a partir da seleção do que há de pior na saga da família: sexo e trapaças políticas.

Ganhou forma um roteiro composto de fatos e boatos que não distingue o fim da verdade do começo da ficção e vice-versa.

Segundo especialistas, o contrato de transmissão estava armado com o History Channel, que teria rompido o compromisso ao avaliar os riscos de uma veiculação danosa à sisuda imagem do canal. Sobrou para a A&E, que tem nome na área de entretenimento e não no setor documental.

Há uma grande indignação, principalmente, entre os Kennedys e os intelectuais ligados ao clã Kennedy onde pontifica Ted Sorensen, do staff de JFK na Casa Branca. Eles criaram um website denunciando o ataque. O assunto ganha corpo na internet.

Há avaliações de que a minissérie resulta, também, da explosão de ódio dos direitistas com as mais recentes e desqualificantes reavaliações do governo Ronald Reagan.

Mauricio Dias

Maurício Dias é jornalista, editor especial e colunista da edição impressa de CartaCapital. A versão completa de sua coluna é publicada semanalmente na revista.

Z – por wagner oliveira mello / curitiba

Z

 

Z senta no banco da praça, à distância uma trupe de teatro de rua representa uma comédia num italiano tosco, o povo gargalhante não tem tempo de reparar o seu sapato roto, nem suas roupas desbotadas ou a cicatriz que o faz lembrar-se de tudo aquilo que esqueceu outro dia. Sente fome, Pensa no sanduiche de mortadela com tomate que carrega na mochila, mas prefere fumar um cigarro, embora não faça nem dez minutos que tenha apagado o último. Logo o maço estará vazio mesmo, assim como o seu estomago. Decide alimentar os pombos com suas migalhas. Retira o sanduiche da mochila e lentamente vai esfarelando o pão para em seguida jogá-lo em pequenas quantias no chão.  Sabe-se lá de onde, pouco a pouco vão surgindo mais e mais pombos para a disputa, em instantes Z forma sua própria platéia, que ávida de pão acotovela-se para garantir o melhor lugar. Um verdadeiro espetáculo! Ele se diverte com a disputa instintiva das aves enquanto rumina sua comédia interior. O pão nunca é de graça! “é tudo que eu sempre quis: O direito de peidar, cagar e mijar, um lugar pra dormir e ter dinheiro pra comer. O pão nunca é de graça! Quem somos nós além do por que somos nós?”  Assim a comédia começa, assim ela termina…  E não há milagre nenhum nisso. Milagre? Milagre é o que Z terá de operar amanhã! Ele joga a ultima migalha do seu pão aos pássaros e se levanta; ao fundo as pessoas aplaudem o elenco da comédia enquanto um deles passa o seu chapéu pra receber as ofertas. A noite era fria e granulada de estrelas quando Z entrou no albergue do FAS.

 

RUDI BODANESE e LIRIA PORTO em fotopoema / ilha de santa catarina

A SAÚDE ALÉM DOS PLANOS – por ana castro / salvador.ba


Bastava ter um amigo médico e a gente se sentia protegido. Agora, nem com os planos de saúde mais caros, os idosos conseguem marcar uma consulta médica. Eles são necessários apenas para exames e internação hospitalar.

Geriatras são poucos no Brasil. Especialmente na rede pública. Se o médico é bom, tem agenda cheia, integra equipes de grandes hospitais, lidera pesquisas e dá aulas. Pode dispensar a burocracia dos convênios.

Cuidando de meu pai, do meu padrasto e de minha mãe, descobri como as doenças depois dos 65 são difíceis de diagnosticar. São inúmeras as patologias, como da minha mãe: Alzheimer, diabetes, pressão e colesterol altos, osteoporose, artrose, depressão, entre outras.

Consulta de idoso é demorada mesmo. Como a ida ao pediatra. Exige uma entrevista, a tal anamnse (do grego ana, trazer de novo e mnesis, memória). O médico precisa de técnica e muita paciência para investigar o passado, as cirurgias, uso de medicamentos e rotinas do paciente. Descobri que minha mãe tinha D. A. porque uma atenta geriatra, Sonia Cury, fez as perguntas certas e observou suas reações. E nem era ela a paciente. Estava como acompanhante do marido na consulta.

É mole lembrar que doenças você teve aos 78, 90 anos anos? Na Doença de Alzheimer, então, tudo se complica. Demorei anos para saber que minha mãe havia feito sete implantes dentários. Mas não colocou as próteses, que certamente pagou. Por acaso, descobri numa festa que ela e uma amiga tinham a mesma cardiologista. Marquei consulta para recuperar o histórico. Portadora de um stent, ela havia abandonado o controle da pressão arterial e do colesterol.

Homens retardam ao máximo a ida ao médico. As mulheres é que traduzem os sintomas do marido. Essas, aproveitam a consulta para falar da dores do corpo e da alma. Escondem escapadas da dieta. Confundem receitas, se automedicam e devoram bulas. Durante anos, uma querida empregada colocou diariamente sob a língua um Isordil, usado em emergências cardíacas. Minha tia dividia a dose do remédio caro com o marido: meio comprimido para cada um. Prática conhecida pelas enfermeiras da rede pública. Muitos pacientes alegam que o remédio de uso contínuo precisa durar todo o mês e tomam dia sim, dia não, Aliás, alguém explica como medicamento para tomar todo dia vem em embalagem de 28 comprimidos, quando sete meses têm 31 dias e quatro têm trinta?

Minha mãe chegou a ter cardiologista, endocrinologista, dermatologista, oftalmologista, gastro, proctologista, psicóloga, dentista e fisioterapeuta. Todos particulares. A conta da farmácia, há anos, passa dos R$ 1.200 mensais por 14 remédios, em média. E com descontos! A equipe de enfermagem tem quatro profissionais que cuidam dela 24h por dia, 7 dias por semana, 365 dias por mês. Os gastos até cabiam na aposentadoria confortável dela. Mas consegui reunir o acompanhamento a uma consulta a cada três meses com uma competente geriatra, revisão semestral da endocrinologista, ida quase semanal à dentista e fisio três vezes por semana.

Para controlar tanta informação criei planilhas, formulários, quadros de aviso e um sistema de-mail diário que circula entre a equipe. Registramos tudo: alimentação, pressão, glicemia, banho, higiene bucal e todas as rotinas adotadas. Essas informações têm sido úteis para as médicas adaptarem as dosagens de remédios e recomendarem exames necessários.

Fiz  um histórico para levar às consultas. É uma forma de ajudar o médico, pois o doente de Alzheimer fica ansioso com o interrogatório. Se você cuida da mãe, do pai, ou acompanha a avó na consulta, vá construindo um relatório e compartilhando com a família. Em alguns anos, ninguém mais irá lembrar da alergia do papai a camarão ou que vovô já não tem um rim.

Se fosse depender de convênios médicos, minha mãe jamais teria a qualidade de vida que desfruta. Na verdade, os planos são de doença, porque pouco contribuem para a preservação da saúde. Dão é muita dor de cabeça e nos tiram o sono. Após os 65, a mensalidade chega perto dos R$ 1.000. A minha já está bem salgada. Todo mês, fico em dúvida se pago ou cancelo meu plano. E a cada aniversário, a conta fica mais alta: punição por continuar viva.

ANA CASTRO é jornalista.

JORGE LESCANO em “Sem Título e Sem Título II” / são paulo

(Sem título)

 Vi a entrevista de um ator que, ao falar, lembrava filmes dublados. Seu rosto “original” também parecia estrangeiro.Todo ele dava a sensação de não ser real, antes, um personagem de seriado de televisão.

A segunda vez que o vi, ele andava pela rua como qualquer cidadão. Contudo, eu, que conhecia sua voz, sabia que era diferente das outras pessoas. Tratava-se de um dublador fora do serviço andando como “ele mesmo” (no sentido pessoano).

Depois de alguns anos, passei a vê-lo com bastante freqüência. Ele havia mudado, estava mais magro e mais velho, naturalmente, porém, aquela primeira imagem persistia. Este indivíduo era, de algum modo, o duplo de outros graças à voz que eu guardava na memória.

Somente ao vê-los simultaneamente, um passando ao lado do outro sem se olhar (não se conheciam), entendi que se tratava de duas pessoas diferentes. Por alguma razão desconhecida eu havia incorporado um ao outro, criara uma terceira personagem.

Há décadas não vejo o dublador, embora sua voz continue presente na televisão. O segundo atravessa de vez em quando o meu caminho. Sua presença enganosa me incomoda: cada vez que o vejo sinto a ausência do outro como vítima de um homicídio.

.

(Sem título II)

 A minha memória é fotográfica. Ela ficou mais apurada pelos estudos de pintura que realizei na juventude. Boa memória é qualidade desejável, no entanto, com o passar dos anos, pode nos provocar incômodo.

É comum hoje “reconhecer” na rua pessoas que devo ter visto antes num lugar indefinido. De fato, sei que “conheço” a pessoa, mas sem conseguir situá-la no seu ambiente a sensação é estranha, quase onírica. Conheci quando? Onde?

O “arquivo” mental guarda tais imagens intactas, sem situações adjacentes que ajudem a incorporá-las à memória rotineira, cotidiana.

Conversei com muitas destas pessoas. Guardo delas inclusive a lembrança da voz, o timbre, ritmo, volume. Se conseguisse trazer à tona o assunto conversado certamente completaria o reconhecimento.

Já aconteceu: esta pessoa que me parece lembrança de outra, acaba se revelando lembrança de si mesma. O que tomava por referência ou reprodução era o próprio original.

A esta altura da vida, cada indivíduo é réplica de outro com quem tratei em algum tempo e lugar. Vivo num mundo de simulacros.

Serei eu, também, o duplo de alguém que não conheço?

O MEDO QUE NÃO OUSAVA DIZER O NOME – por timothy garton ash / eua

Do escândalo dos grampos pelos tabloides britânicos surge algo positivo: o bom jornalismo expôs o pior e a maré virou contra Murdoch

O drama da Grã-Bretanha penetrou até na carapaça de egocentrismo americano. O lendário repórter Carl Bernstein o compara a Watergate. Na TV, Hugh Grant conclama os americanos a acordarem para a influência perniciosa de Rupert Murdoch em sua mídia. O senador John D. Rockefeller pede uma investigação das atividades da companhia controladora de Murdoch, News Corp., preocupado com a possibilidade de grampo de telefones americanos. Se for verificado que parentes das vítimas do 11/9 foram visadas, como sugeriu o parlamentar britânico Tom Watson nos questionamentos dessa semana ao premiê na Câmara dos Comuns, esta não será mais apenas uma história estrangeira. Só na Fox News, que pertence a Murdoch, é como se nada disso houvesse realmente acontecido. Um clipe do Fox News Watch mostra os comentaristas brincando com a única história que eles não vão discutir. Vigilância da notícia, com certeza…

Mas o que isso tudo significa? “Uma espécie de primavera britânica está a caminho”, escreve o colunista de mídia David Carr no New York Times. “A democracia, ajudada pela luz do sol, brotou na Grã-Bretanha.” Hipérbole, é claro, mas ele tem alguma razão.

Eu colocaria a coisa da seguinte maneira: a debacle de Murdoch revela uma doença que vem obstruindo lentamente o coração do Estado britânico nos últimos 30 anos. É o enfarte que previne a pessoa que ela está doente, mas também lhe dá a chance de sair mais saudável do que estava. A causa fundamental dessa doença britânica tem sido o poder exacerbado, implacável e fora de controle da mídia; seu principal sintoma é o medo.

A conversa sobre uma primavera britânica por analogia com a árabe é obviamente uma licença poética. Comparada com a maioria dos outros lugares do mundo, a Grã-Bretanha é um país livre. De muitas maneiras, é um país melhor agora do que quando Murdoch comprou The Times (of London, como os jornais americanos sentem necessário acrescentar) em 1981. Mas no alto da vida pública britânica circulam homens e mulheres com pequenos pingentes de medo nos corações, e o medo é inimigo da liberdade.

Esse era um medo que não ousava dizer o seu nome; uma covardia autocomplacente que se ocultava em silêncio, eufemismo e desculpa. Intimamente, políticos, consultores de imagem, relações públicas, figuras públicas e, agora se sabe, até quadros superiores da polícia disseram a si mesmos: não ataque Murdoch. Jamais vá contra os tabloides. Murdoch & Co. usaram intromissões vergonhosas, inescrupulosas e ilegais na privacidade tanto para vender jornais, excitando um público faminto por celebridades com detalhes íntimos, como para angariar influência política.

Mesmo se os tabloides não fossem atrás de você, a ameaça estava sempre presente, contudo. Na Rússia, eles chamam isso de kompromat – material comprometedor, pronto para ser usado se a pessoa sair muito da linha. Agora sabemos que os grampos e os grampeadores não se detiveram diante de ninguém nem de nada. A família real, famílias de soldados britânicos mortos em ação, crianças sequestradas – todos foram alvo de intromissão e exposição.

O poder arrogante da mídia moldou a política britânica de maneiras importantes. Contemplando as ruínas da tentativa bem-intencionada de Tony Blair de resolver a crônica esquizofrenia da Grã-Bretanha sobre seu lugar na União Europeia, tentativa destruída pela imprensa eurocética do país, certa vez concluí que Rupert Murdoch era o segundo homem mais poderoso na Grã-Bretanha. Mas, se a medida final de poder relativo é “quem tem mais medo de quem”, então seria o caso de dizer que Murdoch foi – no sentido estrito, básico – mais poderoso que os últimos três premiês da Grã-Bretanha. Eles tinham mais medo dele do que ele deles.

Considerem as evidências. Blair vira seu antecessor no cargo, John Major, e um líder trabalhista, Neil Kinnock, serem destruídos por uma imprensa hostil. Ele aprendeu a lição. Cortejou o mais que pôde esses barões da imprensa. Só quando estava prestes a deixar o cargo, após dez anos, ousou denunciar a mídia britânica por se comportar “como uma besta feroz”.

Na semana retrasada, soubemos que o sucessor de Blair como primeiro-ministro, Gordon Brown, acredita que registros médicos, bancários e, talvez, fiscais de sua família foram invadidos. Brown conta que foi levado às lágrimas quando Rebekah Wade, então editora do Sun, outro tabloide de Murdoch, lhe telefonou para dizer que o jornal ia revelar que Fraser, filho de Brown de 4 anos, tinha fibrose cística. Apesar disso, alguns anos depois Brown foi ao casamento de Rebekah – que, no momento em que isto é escrito, é Rebekah Brooks, ex-braço direito de Murdoch na News International, o ramo britânico da News Corp. A Feiticeira Morgana do jornalismo britânico era simplesmente poderosa demais para um primeiro-ministro em busca de reeleição esnobar.

David Cameron superou Blair na paparicação aos barões da imprensa em geral e de Murdoch em particular. Pior, ele contratou Andy Coulson, ex-editor do News of the World, como seu assessor de comunicações. Não me lembro de ter encontrado algum jornalista britânico que acreditasse que o ex-editor fosse tão inocentemente desinformado, como alega, sobre o que seus repórteres estavam para fazer. Mas Cameron ignorou todas as advertências.

O mais chocante foi a polícia metropolitana de Londres ter engavetado uma investigação que devia ter feito com o maior empenho. Ela não contou a milhares de pessoas, cujos nomes apareceram nas anotações de um detetive particular usadas pelo News of the World, que seus telefones tinham sido grampeados. Somente uma tenaz reportagem investigativa do Guardian e do New York Times forçou a reabertura da investigação policial.

O primeiro-ministro Cameron agora promete um inquérito público, presidido por um juiz conceituado. Talvez a coisa mais importante que ele terá de determinar é por que a polícia agiu como agiu. De novo, a explicação mais provável se resume a medo. A polícia tinha medo de pôr em risco sua confortável relação com os jornais de Murdoch, que a ajudaram em seus inquéritos e a elogiavam pelos esforços de combate à criminalidade. Alguns policiais eram pagos pela imprensa de Murdoch. Autoridades de peso agora dizem que seus próprios telefones foram grampeados. Na falta de evidências fortes em contrário, a única conclusão razoável é que a polícia temia ser malhada, em vez de incensada, pela besta feroz. De modo que ela também dobrou os joelhos.

Só nos falta descobrir que um juiz conceituado foi espionado, vencido ou intimidado. Seguramente que não, gritamos. Isso não! Mas quantas vezes antes não acreditamos ter chegado ao fundo e depois ouvimos batidas vindas de baixo?

Entretanto, mesmo que surjam revelações ainda piores do passado, o futuro parece mais luminoso. O melhor do jornalismo britânico expôs o pior. No Parlamento, a maré virou. Líderes partidários e parlamentares comuns estão, enfim, reafirmando a supremacia de políticos eleitos sobre barões da mídia não eleitos. A barreira do medo foi vencida.

Desse atoleiro pútrido deveria surgir todo um novo arranjo: no equilíbrio entre política, mídia, polícia e lei; na autorregulação da imprensa; e na prática do jornalismo. O perigo é que, passada a indignação inicial, a Grã-Bretanha novamente se acomode com meias medidas, meio implementadas, como já ocorreu com o impulso de reforma constitucional que decorreu dos escândalo das despesas parlamentares. Por enquanto, porém, uma das crises mais importantes do sistema político britânico em 30 anos criou uma oportunidade. Neste outono, voltarei a uma Grã-Bretanha levemente mais livre.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

TIMOTHY GARTON ASH É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS DA UNIVERSIDADE OXFORD, SÊNIOR FELLOW DA HOOVER INSTITUTION, DA UNIVERSIDADE STANFORD, E AUTOR DE FACTS ARE SUBVERSIVE: POLITICAL WRITING FROM A DECADE WITHOUT A NAME (YALE UNIVERSITY PRESS)

estadão.

A poeta Marilda Confortin entrevista o poeta J B Vidal / ilha de santa catarina

ENTREVISTA PUBLICADA INICIALMENTE NA:

Revista ContemporARTES – semanal

PEQUENA ENTREVISTA COM O POETA JB VIDAL


por Marilda Confortin

.

Conheci João Bosco Vidal em Curitiba, no Café & Cultura, onde nasceu um movimento batizado de “Quinta dos Infernos” que reunia poetas, músicos, jornalistas, artistas plásticos e outros bichos grilos. Tanto o café quanto o movimento foram devorados em menos de três anos pela massa antropofágica curitibana que insiste em contradizer Lavoisier: Aqui, nada se cria, nada se transforma.

Gaucho  de Bagé, administrador por profissão, JB Vidal atuou no meio empresarial, político e artístico cultural da cidade de Curitiba e do estado do Paraná.  Muitos dos poetas jovens que freqüentam a noite curitibana, foram influenciados pelo seu jeito irreverente de ser. Irrequieto, questionador, dono de um texto contundente e de uma língua ferina, sua mãe costumava aconselhar “cuidado com as más companhias, Joãozinho”. Pessoalmente acho que o Vidal  conviveu consigo mesmo por um tempo muito longo e só recentemente compreendeu o que sua mãe dizia.

Tratou de se reinventar. Mudou de residência para Santa Catarina, sem avisar ninguém e agora vive com sua mulher Rosangela numa acolhedora casa em Florianópolis, na praia dos Ingleses, onde tem a piscina mais quente e a cerveja mais gelada do sul do Brasil.

Dedica-se ao seu blog cultural Palavras todas Palavras, escreve diariamente, está com o livro de poesias “Ofertório” no prelo e realiza uma pesquisa sobre personalidades catarinenses que resultará num documentário a  ser lançado ainda este ano.

Estou passando o carnaval em sua casa. Coisa que nunca pensei acontecer. Em outros tempos, já teríamos nos “matado”. Entre uma cerveja e outra, um amigo que chega outro que sai, uma música interpretada pelo violonista GG Felix, Vidal acaricia uma costela que assa na brasa “e não é de boi nelore”, previne ele, enquanto fala sobre as raças de gado mais indicadas para um legítimo churrasco gaucho e conversa sobre literatura, arte, vida.

Pegando emprestado um comentário do amigo escritor Ewaldo Scheleder que disse “ O Vidal está insuportavelmente melhor”, inicio a inquisição perguntando:

M: – Qual foi o motivo dessa transformação?

JB: – Não sei o que ele quis dizer com isso,eu era pior? Sob que ponto de vista? Melhorei, sob que ângulo? Criei barriga? Fiquei careca? me pareceu mais uma piada do que um pensamento filosófico. O homem nasce para evoluir em todos os sentidos. Nasce bebê e torna-se adulto. Nasce totalmente ignorante e torna-se culto. Evidentemente que é uma minoria, na questão do conhecimento…claro! a maioria continua como se fossem bebês, em razão dos sistemas em que vivem, “maria vai com as outras”, vaca de presépio. Arrastam-se pela vida sem saber do que se trata. Votam em ladrões e acham que eles são muito espertos, cultuam a beleza física como se isso fosse levar a algo mais que uma trepada. Enfim, a humanidade é uma lama que só serve ao banho de alguns poucos. Então, essa evolução do homem é que está me reinventando, me refazendo, imagino. Abandonando as carcaças do percurso, me afastando do que ou quem não me acrescenta nada, e aproximando-se mais de mim mesmo, agora, não antes como você afirmou na sua apresentação. Por fim, te digo que não foi a Ilha de Santa Catarina, foi a vida mesmo. Fiz um balanço muito dolorido, por longo tempo, acho que por três anos de crítica e autocrítica, e o resultado foi mais dolorido ainda, aí você tira lições e muda, ao mudar evolui. Nem toda mudança é crescimento, óbvio. Não foi amadurecimento, não, foi constatação da necessidade de dar um salto à frente, ascender na escala, tentar pelo menos. É mais ou menos isso, em resumo, para não ser chato. Aliás, acho que a maioria dos teus leitores, a esta altura, já clicaram noutros links rs rs

M: – Pode até ser, Vidal. Mas não vou fazer apresentação acadêmica dos poetas. Não sou crítica literária e nem escrevo para adoradores de poetas mortos. Escrevo sobre poetas vivos para pessoas que querem saber o que está acontecendo agora, nesse exato momento. Por falar nisso, como está indo o seu livro Ofertório? Conte-nos.

JB:- Esse conjunto de poemas que chamo de OFERTÓRIO, é, bem provável, o início dessa mudança. Marca um período de reflexões sobre o homem e seu mundo atual. E a partir do meu olhar, tento oferecer o que me vai na alma, ou seja ofereço as experiências dos meus sentidos e de alguns sentimentos. Sendo o mais honesto possível, ofereço-me, poeticamente é claro rs rs.

Do livro Ofertório, vou antecipar para os leitores, um poema visceral, sobre o qual o escritor João Batista do Lago teceu uma longa e rica análise:

OFERTÓRIO-DOR
.
a dor que ofereço não foi provocada
nem apascentada por mim e a solidão
veio com a chuva, c’os raios
com os anéis de saturno, na cauda do meteoro
fez poeira de lágrimas
e instalou-se nesta podridão
.
soube então da dor de parir
e parido fui,
da dor da fome e fome senti
da dor do sangue e o sangue correu
em minha’lma gnóstica
a dor assumiu e sobreviveu
.
quero então oferecer
esta dor maior que o corpo
mais que desprezo e humilhação
mais que guerras e exploração
mais que almas aleijadas
mais que humanos em farrapas degradação
.
ofereço a dor do amor que amei
da partida sem adeus
da saudade sem sentir
da espera inquietante
do futuro irrelevante
da ânsia divina de morrer
.
Poema de JB Vidal
.
(…) “em qual casa eles se encarna para construir o equilíbrio para poder deblaterar sua dor? Eis aqui a questão central: antes de ser “jogado no mundo”, somos “abrigados” na “casa”. Ou seja: antes de tudo – de tudo mesmo – somos “encarnados” na mundanidade das casas. Somente a “casa”, e em especial a “casa natal”, nos fornece os elementos essenciais para o processo de aprendizagem e de apreendidade do mundo. Que imagem fenomenal, caro leitor! Ao ponto de me fazer lembrar da Alegoria da Caverna, de Platão (e traçar uma analogia, aqui e agora, sobre isso tornaria este artigo muito extenso). Quem de nós, porventura, por um instante sequer, não já projetou ou projeta a “sua” casa como “campo de concentração de segurança”? Com certeza todos! Mas, qual é a “casa” dos “sujeitos” que falam nas poesias? É a casa primeira: o corpo. É no corpo que habita a poesia. É no corpo que habita o poeta. É no corpo que a poesia é encarnada. É no corpo que o poeta é encarnado.”
Trecho da análise de João Batista do Lago, publicada originalmente no site do poeta Vidal: https://palavrastodaspalavras.wordpress.com

Lá pelos idos de 2004, participei de um encontro de poesias no Uruguai. Levei comigo vários livros e poemas avulsos de escritores brasileiros para distribuir entre os poetas estrangeiros. Um deles foi um folder de poesias do JB Vidal, impresso especialmente para o evento e muito bem ilustrado pelo artista visual RETTA. Foi disputadíssimo. O poema COMA causou arrepios entre os participantes:

COMA

nasço e inauguro em mim a trajetória da morte,
início e fim, siameses do útero à campa,
como fonte, me insurjo, resisto,
consciente de sua presença, prossigo
sepultado vivo na matéria,
com a alma esgarçada na miséria
de um momento que ela mesma desconhece,

.

não há passado para o início não haverá futuro para o fim,

.
o que será dos meus pensares?
da razão? o que ficará dos sentidos?
das agonias, dos sofreres,
dos sentimentos, penso profundos,
o que será dos meus saberes?
não me falem de exemplos,
experiências, conhecimentos,
como óbolos para quem vem a seguir,
para eles há futuro, esquecer
.
não me venham com alegorias cenobitas,
relações de fé-imagem, palavras-reveladoras,
crenças obtusas oferecidas em sacras mansões, não!
.
digam apenas que estou louco,
que me debato em trevas,
que abreviei a trajetória,
que vivo morto por querer viver depois.
.
Poema de JB Vidal
.
M:- Vidal, me conte como foi escrito este poema?
JB:- Teria minha cara Marilda que contar minha vida, o que seria muito monótono e sem graça. Mas, para matar um pouco da curiosidade, foi escrito numa madrugada fria (curitibana) e não levou mais que 3 minutos. Não houve correções. Como nasceu ficou. Para sua composição não houve uma razão explícita.
É… Vidal é assim. Tem hora que não se consegue arrancar mais nenhuma palavra dele, exceto uma frase como essa que define sua personalidade: ”Me odeie e eu respondo. Me ame e eu me calo”.

Já meio incomodado com minha conversa, pergunta se estou com fome, se quero mais uma cerveja, se não quero dar um mergulho, se… Brinca com Lenon – seu enorme cão akita branco e simpático – que se debruça no parapeito da janela da cozinha com as patas uma sobre a outra, igual um bêbado pedindo uma pinga no balcão.

Lanço um osso para o Lenon e arrisco uma pergunta final.

M:- E agora, Vidal? Que tipo de poesia essa nova fase nos reserva? Pode mostrar pelo menos uma?

JB: – Ainda está cedo. Nem sei se já existe uma nova fase e se escrevo sob o império dela, mas realmente tenho escrito muito até porque, agora, tenho todo o tempo disponível para fazê-lo. De qualquer maneira o ambiente da Ilha me entusiasma para novas incursões, como você se referiu estou na fase de pesquisa sobre personalidades catarinenses que tenham sido, realmente, fundamentais para o desenvolvimento político, econômico e cultural do estado a partir de 1960 até os dias atuais. Penso, também, editar e jogar pelas praças e feiras, no chão evidentemente, meus 5 livros de poesia, 3 de contos e crônicas e um romance que pretendo finalizar aqui depois de 4 anos escrevendo…é pouco, mas já dá para os críticos se divertirem e manterem seus salários das editoras que compõem o famigerado “mercado editorial”.

Insisto para que me mostre uma poesia nova. Não mostra. É hora de parar com essa conversa. Convida-me para conhecer a poesia que salta aos olhos nos mares do sul de Florianópolis.

Depois, gentilmente manda-me alguns textos por email, dizendo que achou nossa conversa um tanto pobre. Deixo esses últimos textos aqui para que degustem e espero que discordem dele quanto a pobreza. Oxalá todos os poetas fossem tão ricos quanto você, Vidal.

era o tempo…

era o tempo em que eu voava, de folha para galho, sobre oceanos, rochedos, e os rochedos eram moles, era gelatina os mares, as árvores, eram de papel e o papel não se deixava escrever, a tinta só no mundo, na pata não, meus irmãos corriam, de uma sombra para outra, no solo, e o solo era de nuvens, brancas, e não faziam sombras, as sombras brincavam entre elas, e elas me assustavam quando caiam no precipício, de brincadeira, que susto, e o susto era bom e eu assustava também, e o também, também se repetia, e a repetição era voar no mesmo lugar, brincar na mesma nuvem, e as nuvens subiam e desciam, e descer era subir, subir no mais baixo possível, quando subiam, era descer no mais alto possível, e os que viviam nos mares andavam sobre fogo, e o fogo era bom, bom e frio, e o frio, bem não sei, nunca estive na gelatina, mas não era ruim, segundo sei, e saber era sentir, sentir era mudar de rumo, e o rumo voltava, e eu ia e voltava, quando voltava era outra paisagem, e a paisagem mudava e voltava, e eu ia só para a que mudava, e não era mais, mas não voltava, voltava voando para a frente, e para frente era atrás, e atrás não existia, existia o vento, e o vento era meu, e meu era de ninguém, mas era meu, e eu voava nele, e ele deixava, e eu dominava ele, ele sorria, e sorrir era também chorar, e chorava de alegria, e alegria era tristeza, e a tristeza era boa, porque era boa a gente sofria, e sofrer era ruim, mas o ruim pode ser bom, e o bom pode ser mau, e o mau, não sei nunca fui mau, mas eu voava sobre o mau e o mal, e o mal não existia, como o bem também não, e o não era perfume, e o perfume, bem…o perfume…era eu, e eu era o próximo, e o próximo era todos, e todos brincavam, e brincar era trabalhar, e trabalhar era fazer, e fazer era destruir, e destruir era preto, e preto era verde, e verde não tinha cor, porque a cor era o nada, e o nada era branco e tudo, como esta folha de papel.

ETERNO     

meu corpo no teu
acende a dúvida

ser ou estar

eu!? nós!?
gozo cósmico!?

prazer em deixar-me ir
onde estás ou sejas

sou inteiro em ti

estou metade

PRISIONEIRO

nas mãos
cartas
datas
tempos
épocas
coração rítmico
arritmico
desritmico

meus lábios esmagam versos.

SANTA BOEMIA

Deus!

és o mais sábio dos poetas
pois fizestes morada no cosmos
onde é sempre madrugada!

Poemas de J B Vidal

1 comentários:

Altair disse…
Grandioso feito, dona Marilda! Este JB Vidal é ótimo. Tenho visto-o impressionar profundamente aqueles que ouvem suas declamações, sobretudo os poemas desta peça intitulada “Ofertório”. Já ler seus textos é bem mais raro, o poeta parece um pouco avesso às publicações. Então conseguir esta entrevista, ainda que pequena e de viés, é uma coisa grande! Nunca soube que ele tivesse concedido entrevista a ninguém. Parabéns aos dois, pois!Os poemas são definitivos!Altair de Oliveira.

DOR QUE DÓI MAIS – por martha medeiros / porto alegre

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

CLAREIRAS – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O sol estilhaçou-se em estrelas

     houve um cheiro de cio

naquele início de noite quente, embalsamada.

Os grilos retiniam cios

   pavoneavam suas orgulhosas caudas sonoras.

  E eu

  estava todo concentrado nos meus olhos

    eles escutavam os sons

      e tocavam as bromélias.

Estes meus pássaros castanhos

porque o resto de mim

é casulo.

A única parte visível do meu corpo

        meus braços brancos

                      eram objetos cruzados

por sobre a cerca de velhas tábuas cinzentas.

E acima deles via

os cimos com poucas folhas do outono

    os galhos negros como sombra

transpassados por estrelas

pareciam ter floração de estrelas.

A íris

passeava dos cimos à clareira,

   ia de uma constelação à outra

   (um beija-flor de estrelas).

Aspirava à movimentação silenciosa de

                                      Ursas, Zodíacos, Cruzeiro

quase sem quebrá-la com o mastigar das pálpebras.

Essas imagens eram musicadas por

                                       sentimentos

em uma composição que misturava em meu interior

antagônicas emoções

de paz, angústia, alegria, comunhão e solidão.

Bárbara Heliodora: a função da crítica – entrevista – por ana paula conde

Contra o paternalismo da crítica teatral


“Passar a mão na cabeça não é positivo para o teatro”, afirma a crítica Barbara Heliodora

Barbara Heliodora é considerada uma crítica severa. Para os que a questionam, ela é ferina e até sarcástica; para os que a admiram, ela é uma espécie de guardiã das montagens nacionais. Aos 80 anos, Heliodora divide seus dias entre escrever críticas para o jornal “O Globo”, as viagens para realizar palestras sobre William Shakespeare e a tradução de peças teatrais, a maior parte escritas pelo dramaturgo inglês. “Estou trabalhando agora em ‘Muito barulho por nada’. Ano que vem deve sair o volume com as dez tragédias do autor pela Nova Aguilar”, diz a crítica, que ainda encontrou tempo para escrever um dos capítulos do livro “O teatro no Brasil no século XX”, organizado por Leonel Kaz e ainda sem previsão de lançamento. Desde que começou a exercer a atividade de crítica, em 1958, a qualidade das encenações é o único fator que importa em suas análises. Não interessa se o ator, o diretor e o autor são conceituados. “O crítico não pode viver de fé do ofício. Procuro avaliar cada espetáculo separadamente”, explica Heliodora. “Elogiar uma peça ruim é estimular o ruim a se perpetuar”, diz. Ela nasceu no Rio de Janeiro, em 1923, estudou literatura inglesa na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, e foi professora de teoria teatral na Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), entre 1964 e 1985, período em que esteve afastada da tarefa de escrever críticas para a imprensa. O interesse pela obra Shakespeare começou na infância e a acompanha até hoje. Heliodora é doutora em artes pela Universidade de São Paulo (USP), com a tese “A expressão dramática do homem político em Shakespeare”, lançada, em 1978, pela editora Paz e Terra. Também é de sua autoria o livro “Falando de Shakespeare” (Perspectiva, 1998). A seguir, ela fala sobre o paternalismo da crítica, da falta de espaço para a reflexão na imprensa e indica livros para quem deseja entender mais sobre teatro brasileiro.

A senhora é considerada uma crítica severa. Qual a razão desse rótulo?

Barbara Heliodora: Talvez seja pelo fato de respeitar o teatro, por achar que ninguém tem direito de fazer espetáculos mal acabados. A auto-indulgência é muito negativa. Sempre disse isso, desde que comecei a mexer com teatro. Acho que ver uma coisa ruim e elogiar é estimular o ruim a se perpetuar. Um grupo jovem pode não ficar satisfeito com uma crítica, mas espero que pelo menos seus integrantes pensem: “Espera aí, talvez tenha alguma coisa errada”.Todo mundo fala que só gosto de determinado repertório. Não é verdade. O que gosto é de teatro bem feito. Fazer de qualquer modo é o que não pode acontecer. O problema do Brasil é que em tudo nós precisamos deixar de ser amadores para ser profissionais. Passar a mão na cabeça do que é ruim não é positivo para o teatro.

Em artigo publicado nos “Cadernos de teatro”, editado pelo Tablado, Yan Michalski afirma que, com algumas exceções, a crítica no Brasil sempre foi marcada pelo paternalismo. A senhora acha que é chamada de severa em razão dessa tradição?


Heliodora: Acho que é exatamente isso. No Brasil, dizem que sou severa, mas as pessoas precisam ver como é a crítica no exterior. É de uma severidade de arrasar. Um ator da categoria do Raul Julia, que infelizmente morreu cedo, recebeu a seguinte crítica ao fazer “Othelo”, de Shakespeare: “É preciso que o senhor Júlia e fulano, o outro ator, que agora não lembro o nome, sejam apresentados antes de subirem ao palco”. Lembro de outra crítica a um ator francês famosíssimo que dizia: “Não há nada em cena que seja válido”. Como o Yan disse, a crítica brasileira sempre foi muito paternalista. Tenho a impressão de que pensam assim: “Ah, falar mal prejudica o emprego das pessoas”. Não concordo. O que acaba com os empregos na área são os maus espetáculos. O espectador que paga o que se paga para ir ao teatro e vê uma coisa abominável faz um voto de castidade por pelo menos dois anos. O mau espetáculo é o que afasta o espectador, não a crítica.
A crítica de teatro no Brasil só começa a mudar nos anos 50, com Décio de Almeida Prado e Sabato Magaldi?


Heliodora: Dizem, e ouvi isso mais de uma vez, que até a primeira metade do século passado o crítico era a pessoa responsável por conseguir para o jornal anúncios das companhias teatrais. Como é possível falar mal e depois pedir anúncio? São coisas incompatíveis. Enquanto durou esse esquema, foi impossível escrever de verdade. O grande divisor de águas foi o Décio de Almeida Prado, em São Paulo, que é a referência de todos nós.O Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) foi inaugurado em 1948 e ele estava nessa. Daí em diante, a crítica ganhou vida nova. Logo em seguida, nos anos 50, fundamos o Círculo Independente de Críticos Teatrais (CICT). Isso ocorreu porque a Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT) tinha uma postura muito questionável. Se uma pessoa escrevesse sobre teatro amador no interior do Piauí, já podia ser aceita como membro permanente, mesmo que nunca mais publicasse nada. O CICT foi fundado pelos críticos atuantes. Para fazer parte dele era preciso estar assinando efetivamente uma coluna. Se a pessoa ficasse desempregada podia continuar sócia, mas não podia votar. Criamos também o prêmio Padre Ventura. O Gustavo Dória, o Henrique Oscar e o Paulo Francis faziam parte do CICT. Éramos um grupo pequeno, mas todos nós acreditávamos que a crítica tinha que ser responsável.
Vários jornais acabaram, e o espaço para a reflexão foi reduzido. A senhora sente falta da discussão com outros críticos?


Heliodora: Se tivéssemos mais críticos teríamos outros pontos de vista. Na realidade, acho que o leitor escolhe seu crítico. Quando alguém diz que fulano é ótimo crítico é porque a opinião daquela pessoa coincide com a do leitor. Se tivéssemos mais críticos, o público teria maior escolha.
Cria-se também um debate entre os próprios críticos.


Heliodora: Claro. E o CICT era ótimo. A gente se encontrava, debatia e promovia eventos. Organizamos cursos para formação de platéias no antigo Teatro Maison de France, no Rio, em 1962, na época da Copa do Mundo. Fizemos dois cursos: um sobre história do teatro universal, com mais de 20 conferências, e outro sobre teatro brasileiro. O lugar ficou lotado. Lembro que dei uma palestra sobre a obra de Silveira Sampaio. Não dá para fazer isso sozinha.
Quais os novos dramaturgos brasileiros que a senhora destacaria?
Heliodora: O Mauro Rasi era a maior promessa, mas, infelizmente, morreu cedo. Ele começou no besteirol e foi amadurecendo. Eu não gosto muito de citar nomes, mas acho que há vários autores promissores. O Miguel Falabella é muito talentoso. O Bosco Brasil escreveu um texto magistral, chamado “Novas diretrizes em tempos de paz”, depois escreveu um desastre, ”Corcovado”, e agora fez uma outra bastante interessante. Ele é muito montado em São Paulo. É um autor que tem talento e pode encontrar seu caminho.
É preciso dar mais espaço para os novos autores?


Heliodora: Quanto mais se montar mais eles vão melhorar. Pelo menos é o que se espera. O pintor e o poeta podem ser descobertos um século depois da morte, mas com o autor de teatro é diferente. Ele precisa de um palco, ver sua obra testada, perceber a reação do público. É a única forma de dominar cada vez mais a técnica teatral.

Fora os autores novos, qual dramaturgo brasileiro a senhora acha que deveria ser mais montado?


Heliodora: É uma pena que as peças de Silveira Sampaio sejam tão pouco vistas. O texto dele é de uma originalidade total, mas as raras montagens têm sido desastradas. As pessoas não conseguem perceber o estilo de representação dele.
Por outro lado, há autores que são sempre montados. Nelson Rodrigues é um exemplo. Isso não é empobrecedor?
Heliodora: O Nelson precisava tirar umas férias de vez em quando. Acho que a coisa mais criativa que vi nos últimos anos da obra do Nelson foi “A falecida”, do Gabriel Villela. Ele fez uma montagem maravilhosa, altamente imaginativa. Teve uma outra boa encenação recentemente no teatro Nelson Rodrigues, mas esqueci agora. Montam tanto que a gente acaba esquecendo. Um das melhores montagens que vi de “Beijo no asfalto” foi em 1961, com direção de Fernando Torres, no Teatro dos Sete. Um senhor espetáculo!
O ator Paulo Betti afirmou numa entrevista que considera problemático o crítico ir ao teatro na estréia do espetáculo, quando ele ainda não engrenou. A montagem deve estar pronta no dia da estréia, não?


Heliodora: Essa defesa não é válida. Por que o público pode pagar e o crítico não pode ver? Todo o mundo diz que a peça amadurece com o tempo, mas se ela é ruim pode amadurecer à vontade que não melhora. Se é boa, pode até ficar melhor, mas é boa de saída, não tem essa bobagem. O que me choca é o fato de acharem que podem cobrar entrada, mas o crítico não pode ver. Ou não está pronta, e o público não deve pagar; ou está pronta, e todo mundo pode ver.
Qual é a sua avaliação sobre atores, dramaturgos e diretores que levam a crítica para o lado pessoal?
Heliodora: Minha intenção não é ofender ninguém. Não podem dizer que persigo fulano ou ciclano. Tento avaliar cada trabalho individualmente. Não posso fazer nada se alguns pensam assim, mas não entendo o porquê dessa indignação. É muito chato saber que a pessoa ficou ofendida.
A senhora procura ver todas as peças em cartaz?


Heliodora: Às vezes não há nada para assistir, às vezes há tanta coisa que a gente não sabe para onde se virar. No final, a gente acaba vendo o que pode. As pessoas acham que o crítico gosta de falar mal. Não é verdade. Por que vou querer assistir a espetáculos ruins? Eu adoraria que tudo fosse maravilhoso, mas nem sempre é assim. Por isso, talvez eu prefira ver aquilo que mais promete, o trabalho mais ambicioso. Outra coisa que atrapalha é esse negócio de não ter mais teatro de terça a domingo. Em São Paulo, só há sessões sextas, sábados e domingos. É uma humilhação para o teatro.
A diminuição do número de sessões não seria um dos reflexos da falta de público?


Heliodora: Então tratem de fazer o que é bom para atrair mais gente. O público começou a se afastar do teatro na década de 60, quando havia aquele negócio de agredir a platéia. A censura também foi muito prejudicial. Vários autores interessantes deixaram de escrever porque seus textos não podiam ser apresentados. Os iniciantes não tinham chance de ver suas obras encenadas. Isso foi terrível. Todo o processo do teatro brasileiro recomeçou com o besteirol, que eu achava ótimo, porque era uma coisa imediata. Foi uma maneira muito boa de atrair gente. A partir dessa experiência os autores foram aprendendo e escrevendo coisas mais interessantes.

O preço do ingresso também contribui para afastar o público?
Heliodora: Nunca atribuo isso exatamente ao preço. No tempo em que o ingresso custava oito cruzeiros, e todo mundo dizia que o teatro não tinha público porque era caro, o Chico Anísio fazia um show por dez cruzeiros. Ele ficou quase um ano em cartaz. A questão é o medo de encontrar o ruim.A desigualdade das produções faz as pessoas ficarem meio temerosas. Se elas tivessem certeza que iriam ver algo bom, frequentariam mais o teatro. E o boca-a-boca é fundamental nesse processo. A “Ópera do malandro”, em cartaz no teatro Carlos Gomes, na praça Tiradentes, no Rio, é um bom exemplo. O espetáculo está lotando todos os dias e a temporada foi estendida até junho. Peças boas atraem público.
A senhora gostou da “Ópera do malandro”? Alguns críticos desaprovaram a montagem de Cláudio Botelho e Charles Möeller.

Heliodora: Gostei muito. O texto não tem uma estrutura muito boa, mas as músicas, maravilhosas, são muito bem cantadas no espetáculo. Acho que as pessoas ficam ofendidas com o sucesso dos outros. É claro que não foi a melhor coisa que vi na vida, mas a reação do público era uma coisa fantástica. Disseram que nos domingos de promoção (quando se cobrava R$ 1 pela entrada) foi uma loucura total. O público ficava desatinado de entusiasmo. Isso não é um depoimento a favor do espetáculo?
O sucesso dos programas de venda de ingressos a preços populares não é prova de que muita gente não vai ao teatro por falta de dinheiro?


Heliodora: Depende. O Sesc de São Paulo, por exemplo, promove teatro de graça. Algumas coisas são um sucesso louco, mas já houve ocasiões de o público não comparecer porque a peça era muito chata. O boca-a-boca acabou com a história. O primeiro que foi lá disse: “É um horror. Nem de graça!”. Ninguém tem prazer de ver coisas ruins, nem de graça.
O projeto das lonas culturais da RioArte, espalhadas pelos subúrbios da cidade, é uma forma eficaz de popularizar o teatro?


Heliodora: É preciso levar muita coisa boa para as lonas culturais. Muitas vezes, o público é novo, e se ele começar a ver coisas ruins, não vai acreditar que ir ao teatro seja bom. É preciso respeitar a platéia e deixar de lado essa conversa de que o público não vai entender certas peças. Se a montagem for boa vai entender muito bem. Se for ruim, será ruim em qualquer lugar, na Zona Sul ou na Zona Norte. Uma coisa que faria o maior sucesso em qualquer lona seriam as peças de um ato de Molière. Elas são deliciosas e têm um conteúdo bom. Agora, tem que fazer bem feito, não pode deixar cair na chanchada. Todo mundo precisa lembrar da famosa frase do Charles Chaplin: “Não faça graça quando o material é engraçado”.

Ainda persiste a idéia de que o povo é incapaz de entender determinados autores?

Heliodora: Sim, ela continua a existir. O pior preconceito que já existiu era a esquerda achar que favelado tinha que ver peças sobre favela. De favela eles entendem muito mais do que os autores que escrevem sobre ela. Em vez de estreitar o horizonte do favelado é preciso dar a possibilidade dele experimentar outras coisas, que são perfeitamente capazes de apreciar. Isso é que me dá raiva. É achar que eles não são capazes de entender. O trabalho que Guci Fraga está fazendo com o grupo Nós do Morro, no Vidigal, é fantástico. Eu fui ao teatro deles ver Machado de Assis e foi uma gostosura. Todos na comunidade conhecem agora o autor. É uma coisa de grande mérito. Eles respeitam o público, não oferecem bobagens.

Qual sua opinião sobre o atual sistema de patrocínio. A Lei Rouanet é eficaz?

Heliodora: O esquema deveria ser diferente. Vi recentemente uma peça muito ruim, uma comédia barata, com aquela malícia que beira a obscenidade. Quando olhei o programa estava lá: patrocínio do Ministério da Cultura. Fiquei profundamente chocada e, depois, conversando com um cara da Funarte, perguntei: “Como o governo pode patrocinar uma coisa dessas?”. E o cara me disse assim: “Mas o Ministério da Cultura não pode escolher por qualidade, é inconstitucional”. Quase desmaiei. Espero que ele esteja enganado.

Dizem que não pode haver julgamento de valores. Por que não patrocinar um filme da Xuxa e apoiar uma produção do Nelson Pereira dos Santos?


Heliodora: Acho que não se deve, por princípio, patrocinar nem o filme da Xuxa nem o do Nelson. Todos os roteiros deveriam ser lidos e avaliados, independentemente de quem sejam seus autores. Depois, é claro, seria preciso verificar se as pessoas envolvidas teriam possibilidade de realizar o projeto tecnicamente. Acontece que para captar pela Lei Rouanet basta entrar com os papeizinhos certos. As firmas que dão dinheiro partem do princípio de que, se entrou o seu fulano ou a dona fulana no esquema, o espetáculo vai ser bom. Não há critério por parte dos patrocinadores.As empresas deveriam ter pessoas especializadas, capazes de avaliar os pedidos. O projeto não pode ir para as mãos de quem não entende nada. É preciso estimular o que é bom. Se uma peça é difícil de ser encenada, mas tem categoria, ela deve ser apoiada. Muitas vezes o dinheiro de estatal é usado para oferecer coisas lastimáveis.
A exigência de titulação para professores de teatro prejudica a formação de atores e diretores nas universidades?


Heliodora: Isso é um terror. Lutei muito para a regulamentação da profissão e, hoje em dia, me arrependo de ter feito o teatro entrar para a universidade. As escolas de teatro deveriam ter ficado como conservatório. Assim, poderíamos aproveitar a experiência de atores e diretores. O que pesa atualmente é a titulação. Toda a legislação do MEC é feita para as ciências exatas. Eles não vêem que ensinar arte é diferente. Em razão disso, aulas de interpretação são muitas vezes dadas por gente que nunca pisou no palco. O professor tem o título e nenhuma experiência de interpretação. Isso é muito ruim.
A senhora é uma das maiores estudiosas da obra de Shakespeare no país. Como surgiu essa paixão?


Heliodora: Você já leu? Basta ler para achar maravilhoso. Comecei a aprender inglês no jardim de infância. Quando tinha 12 anos, minha mãe me deu um volume completo de Shakespeare. É claro que não lia quase nada, mas já entendia alguma coisa. Sempre gostei muito de teatro, e para quem gosta de teatro nada melhor do que Shakespeare. Ele, Molière e Tchecov são minha trinca divina.

Mas há preferência pela obra do dramaturgo inglês?
Heliodora: Eu o leio muito mais, mas já li muito Molière também. A diferença é que Molière é bom só na comédia. Shakespeare não tem limite de gênero. Tchecov é diferente de tudo. Suas peças não são grandes tragédias. Ele retrata o desgaste cotidiano, o medo da mudança, as pessoas que não querem, ou não sabem, encarar os fatos. Gosto muito de Brecht, mas ele é diferente, é muito mais preocupado com ideologia. Para mostrar que o capitalista é condenável, ele põe em cena um sujeito horrível, barrigudo, fumando um charuto… Tchecov é diferente. Aquelas pessoas são encantadoras, o que não impede que sejam totalmente condenáveis.
Cerca de 5.000 títulos sobre Shakespeare são publicados a cada ano. Há tanto assim a ser dito sobre ele?


Heliodora: Engraçado, li recentemente o artigo “King Lear: a retrospect, 1980-2000”, publicado por Kiernan Ryan no número 55 do “Shakespeare survey”, uma revista anual sobre a obra do dramaturgo. O autor fala justamente dessa imensa produção sobre Shakespeare. Ele afirma que desde 1980 não se publica nada que valha a pena ler sobre “Rei Lear”. Ou ele aparece como homossexual, ou como esquerdista, ou como feminista… De acordo com o autor, essas posturas momentâneas não trazem nada de novo. Todos querem provar seu ponto de vista, impor sua posição.

As peças de Shakespeare estão servindo como base para todo o tipo de estudo.

Heliodora: Sim. E se a média de títulos continuar sendo essa vai sair muita besteira. Não é possível publicar um tal número de títulos por ano sobre 37 peças. É aquele negócio, a imposição de publicar e publicar acaba resultando num monte de asneiras.

A senhora está traduzindo alguma coisa nesse momento?


Heliodora: Estou traduzindo todas as peças de Shakespeare para a Nova Aguilar. Ano que vem deve sair o volume com as dez tragédias. Agora estou trabalhando em “Muito barulho por nada”. Também escrevi um artigo para um livro chamado “O teatro no Brasil no século XX”, organizado pelo Leonel Kaz. Acabei de entregar à Record o primeiro volume de “As histórias que Shakespeare contou”. São resumos das peças do dramaturgo.

Traduzir peças é mais difícil?


Heliodora: É preciso ter sempre em mente que aquilo foi escrito para o palco. É preciso parar e ouvir. Isso foi, fora tudo mais, uma contribuição fantástica do Nelson Rodrigues para o teatro brasileiro. Antes dele, a maioria dos autores escrevia o português corretamente. O texto no palco soava falso. Ele era ótimo repórter e quando escrevia o público se sentia em casa. A linguagem é fundamental. Agora, o que é maravilhoso em Shakespeare é que ele usa o verso, mas cada personagem fala a sua linguagem.
Quais livros não podem faltar na biblioteca de quem que se interessa por teatro brasileiro?
Heliodora: “O teatro brasileiro moderno”, de Décio de Almeida Prado (Perspectiva, 2001); “Panorama do teatro brasileiro”, de Sabato Malgadi (Difel, 1962); “Moderno teatro brasileiro”, do Gustavo Dória (SNT/MEC, 1975); “Depois do espetáculo”, de Sabato Magaldi (Perspectiva, 2003); e “Cem anos de teatro em São Paulo”, de Maria Thereza Vargas e Magali Sabato (Senac, 2001).

A senhora já teve vontade de escrever uma peça?

Heliodora: Nunca, jamais, em tempo algum. Eu não tenho o menor talento para escrever para teatro. Eu sou crítica, não criadora. Para que eu vou gastar meu tempo e o dos outros com bobagens?

Para terminar, o que é preciso para ser um bom crítico?

Heliodora: Em primeiro lugar, adorar teatro. Senão, a pessoa desiste em duas semanas. O percentual de espetáculos ruins que vejo a cada ano é tão alto que, se eu não adorasse teatro, já teria largado a profissão há muito tempo. Às vezes, é um sacrifício ficar sentada na cadeira, e eu não posso sair no meio do espetáculo, que é o que muitas vezes dá vontade fazer.O segundo ponto é procurar conhecer o máximo que puder, sobre autores e escolas de interpretação, e ir muito ao teatro. Quando estudei literatura inglesa nos Estados Unidos costumava ir aos teatros de Nova York nos fins de semana. Lá também tem coisas ruins, mas assisti a muita coisa boa. Ver Elia Kazan dirigindo é algo que a gente não esquece. Isso tudo faz com que você estabeleça referências. Não quero dizer com isso que o teatro brasileiro tenha que ser igual ao realizado no exterior, mas há um nível de estrutura que a gente reconhece como de excelência.
Ana Paula Conde É jornalista e mestre em ciência política pela Universidade Federal Fluminense.

 

Carlos Eduardo Novaes e o “Minestério da Educassão”

Confeço qui to morrendo de enveja da fessora Heloisa Ramos que escrevinhou um livro cheio de erros de Português e vendeu 485 mil ezemplares para o Minestério da Educassão. Eu dou um duro danado para não tropesssar na Gramática e nunca tive nenhum dos meus 42 livros comprados pelo Pograma Naçional do Livro Didáctico. Vai ver que é por isso: escrevo para quem sabe Portugues!

A fessora se ex-plica dizendo que previlegiou a linguagem horal sobre a escrevida. Só qui no meu modexto entender a linguajem horal é para sair pela boca e não para ser botada no papel. A palavra impreça deve obedecer o que manda a Gramática. Ou então a nossa língua vai virar um vale-tudo sem normas nem regras e agente nem precisamos ir a escola para aprender Português.
A fessora dice também que escreveu desse jeito para subestituir a nossão de “certo e errado” pela de “adequado e inadequado”. Vai ver que quis livrar a cara do Lula que agora vive dando palestas e fala muita coisa inadequada. Só que a Gramatica eziste para encinar agente como falar e escrever corretamente no idioma portugues. A Gramática é uma espéce de Constituissão do edioma pátrio e para ela não existe essa coisa de adequado e inadequado. Ou você segue direitinho a Constituição ou você está fora da lei – como se diz? – magna.
Diante do pobrema um acessor do Minestério declarou que “o ministro Fernando Adade não faz análise dos livros didáticos”. E quem pediu a ele pra fazer? Ele é um homem muito ocupado, mas deve ter alguém que fassa por ele e esse alguém com certesa só conhece a linguajem horal. O asceçor afirmou ainda que o Minestério não é dono da Verdade e o ministro seria um tirano se disseçe o que está certo e o que está errado. Que arjumento absurdo! Ele não tem que dizer nada. Tem é que ficar caladinho por causa que quem dis o que está certo é a Gramática. Até segunda ordem a Gramática é que é a dona da verdade e o Minestério que é da Educassão deve ser o primeiro a respeitar.

SETE CENÁRIOS DO BAILE DE MÁSCARAS – de zuleika dos reis / são paulo


                                             

1.

Se tivesses tido

com as mulheres

comigo

a mesma coragem

com que caminhas

nos outros todos campos

da tua vida

a minha vida

não se teria tornado

esta Mascarada

esta Inexistência.

2.

No baile de máscaras

eu, com a cara limpa,

sou uma aberração.

3.

Vesti também

as máscaras obrigatórias.

Como Fernando Pessoa

na Tabacaria

“Quando quis tirar a máscara

estava pegada à cara.”

 

4.

A velhice

nos chegou a todos

de chofre

no meio do baile.

Fomos para a praça

nesta quarta-feira de cinzas

para sempre.

5.

Em verdade

quem aprendeu com quem

a Mascarada

a Inexistência

o Teatro de Sombras?

6.

No meio da noite

o espelho do sonho

nos assombra a todos

mascarados

a dormir no vestiário.

7.

Assombrada

vagueio pelas salas

na procura inútil

do Mascarado que amo

com a sua eterna fala em meus ouvidos:

“Eu não te conheço.”

WOODY ALLEN, PARIS E O DILEMA DA CORAGEM – por enio squeff / são paulo


No filme “Meia Noite em Paris”, o cineasta Woody Allen põe na boca do ator que interpreta o escritor norte-americano Ernest Hemingway uma série de considerações sobre a coragem que, no fundo, pode ser estendido não apenas aos artistas, mas ao comum dos mortais.

 

No filme “Meia Noite em Paris”, em cartaz em São Paulo, o cineasta Woody Allen põe na boca do ator que interpreta o escritor norte-americano Ernest Hemingway uma série de considerações sobre a coragem que, no fundo, pode ser estendido não apenas aos artistas, mas ao comum dos mortais.

Hemingway (Premio Nobel de 1954), pessoalmente, nunca admitiu que exagerava. Ao contrário do argentino Jorge Luis Borges que passou maior parte da vida entre livros, a inventar – e a inventariar – valentias e histórias fantásticas, Hemingway foi um realista que, não raro, imitou a si mesmo em sua ficção. Era, como Borges, um leitor compulsivo e um estilista severo com seus textos (escoimava-os impiedosamente) – mas, ao relatar combates e guerras, sabia do que falava. Foi soldado condecorado, por valentia, na Primeira Guerra, correspondente na Guerra Civil Espanhola, acompanhou, como jornalista, a Segunda Guerra Mundial e quando se viu tolhido pela velhice precoce com seus achaques inescapáveis – tinha apenas 62 anos – não hesitou em meter uma bala na cabeça. Era dado a depressões mas, enquanto Borges se calou diante do assassínio de mais de 30 mil argentinos pela ditadura militar, Hemingway, denunciou publicamente o senador proto-fascista Joseph McCarthy que, na década de 50, fazia campanha contra os intelectuais de esquerda de seu país, com o apoio da grande mídia. Hemingway fez o que seria, inclusive, inconcebível para o argentino, sempre enfronhado em lutas inventadas de heróis paradoxais: desafiou o senador para um duelo.

Não houve confronto algum. À parte seu oportunismo populista, o senador era um covarde de “pés de barro”. Quando Lillian Hellman, escritora de esquerda, invocou a Constituição americana para se posicionar como bem entendesse, livremente – a própria imprensa conservadora viu-se, de repente, sem argumentos para apoiar McCarthy. Que morreu obscuramente, no esquecimento merecido de seus compatriotas.

No belo filme de Woody Allen a idéia da coragem é apenas uma dentre as muitas que o diretor suscita – mas uma das mais instigantes, é mesmo a questão da valentia. O próprio diretor não regateia suas posições na contramão da “Era Bush”, com alusões diretas ao tempo do ex-presidente americano. No entanto, parece repor o ponto de interrogação a que somos levados nos limites da coragem. Ou da covardia.

A questão não se afigura simples, de fato. Aparentemente, em seu tempo, ninguém mais merecedor do Prêmio Nobel que Jorge Luis Borges. Como se sabe, Borges não foi apenas um escritor de sucesso. Tanto à esquerda quanto à direita, a crítica jamais fez qualquer restrição aos méritos do escritor argentino – talvez um dos mais originais da literatura universal em todos os tempos. Mas ao ser posta em questão a sua eleição para o ambicionado premio, a Academia Sueca – com a pusilanimidade de todas as instituições do gênero – não se atreveu a arrostar a opinião pública mundial. Se Borges não se mostrou intimorato à altura de seus personagens – como conceder-lhe o mais ambicionado galardão literário que, bem ou mal representaria também o humanitarismo contido na literatura? Para muitos, foi a resposta contraditoriamente também medrosa a um desafio talvez maior que se pôs à Academia: o de premiar a grande literatura, a despeito do homem que a fez.

O caso de Borges, realmente, parece conduzir ao que Woody Allen – ele mesmo, na sua filmografia e na sua vida pessoal, insistiu em nunca tergiversar. A vida seria curta demais para os atos vis de complacência ou a covardia perante matanças, como se fizeram nas ditaduras militares da América Latina. Para dizer tudo: Borges, um gênio, não parece ter-se comportado à altura da sua condição de homem; ou mesmo de escritor. Não deixa, porém, de ser um enigma, principalmente para os artistas.

Não que os artistas sejam diferentes do restante dos homens. Cervantes, o grande autor de Dom Quixote, distinguiu-se na batalha de Lepanto contra os turcos. O ferimento que recebeu na ocasião, tornou-o maneta. Sua mão esquerda ficou inutilizada para o resto da vida. Assim também com Lord Byron (George Gordon, 1788-1824) – o grande poeta romântico inglês. Como Hemingway, teve uma vida aventurosa que culminou com a sua morte – de peste – na guerra de independência da Grécia, a favor da qual, aliás, ele aderiu como combatente voluntário. Camões, o português, foi um guerreiro persistente; Puchkin – o mais festejado poeta russo – morreu num duelo. Os exemplos são muitos – mas a covardia, ou a pusilanimidade ( digamos que sejam duas coisas distintas) ainda que pouco mencionadas, também não foram nenhuma raridade entre poetas, músicos e pintores. Cézanne fugiu de Paris quando da guerra franco-prussiana. Com a razão que a história da pintura talvez lhe dê, preferiu não correr riscos de vida. Monet, de sua parte, logrou escafeder-se quando se viu na contingência de ser alistado no exército francês no mesmo período. Assim também anos mais tarde, com o compositor alemão Richard Strauss que só rompeu com o hitlerismo quando muitos dos cometimentos do regime nazista já tinham sido cometidos.

Artistas não parecem, enfim, menos ou mais que homens e mulheres comuns. Quanto a essas, porém, tidas como representantes do “sexo frágil” – a coragem ou mesmo o heroísmo não foram menos freqüentes, porque menos conhecidos. As mulheres submetidas às torturas pelo regime militar brasileiro, mas que nem por isso delataram seus companheiros, são por demais conhecidas para que se façam maiores comentários. Há, porém, os casos anônimos como o que mereceu uma gravura de Goya. Durante a guerra franco-espanhola, uma jovem espanhola, ao ver seu noivo abatido por um tiro, assumiu seu lugar no canhão que ele dirigia, fulminando os franceses atacantes. O título da gravura diz por si, do espanto, não apenas dos espanhóis: “Que coragem!”, assinalou o artista abaixo de seu trabalho.

Na verdade, se a covardia não conviesse mais – a coragem – “Que coragem!” – nem mereceria qualquer menção. Parece não ser ocioso, porém, que se a registre. Como fica do filme de Woody Allen, temos a impressão de que a era do heroísmo é sempre a do passado que idealizamos, nunca do presente que vivemos – o que nos dispensaria do gesto mais digno. Ou mais valente. Mas não é bem assim.

Napoleão Bonaparte, que sabia do que falava, comentava, com seus generais que, de todos os membros da família real austríaca, o mais valente era a rainha. Dizia, derrisoriamente, contrariando, quem sabe, sua experiência com sua mãe – a qual sempre dedicou uma admiração imorredoura, justamente por sua coragem – que a tal dama, “era o único homem da casa “.

Ser homem, finalmente, não parece se constituir na condição para a covardia ou para a coragem.. Como assevera Hemingway na fita de Woody Allen, a possibilidade do medo pode assaltar um homem ( e uma mulher ) em qualquer situação. Mas se persistir durante o ato de fazer amor – então restaria ao candidato a romancista desistir de seu empenho. São palavras fortes, condicionais, que talvez pudessem ser endereçadas a Borges. Seria provável, então, que o grande escritor argentino respondesse, paradoxalmente, que justamente durante o ato de amor, aí mesmo é que lhe dava medo. Não é impossível. Borges gostava de chocar. Sua resposta, porém, não indicaria que seria menos genial por causa disso. Medroso ou não, Borges foi um dos maiores escritores de todos os tempos. Essa a contradição insolúvel dos artistas: eles acedem fazer amor com outros medos do que só o da impotência.

 

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

Todo Mundo devia escrever!* – por joca oeiras / teresina

Com este título, acrescido do esclarecedor subtítulo “a escrita como disciplina do pensamento” adquiri, em Teresina, um livro em formato de bolso e contendo 151 páginas, escrito pelo jornalista e escritor parisiense, de formação filosófica, Georges Picard.
O impulso que me levou a adquirí-lo veio, basicamente, de reflexões que, já há algum tempo, venho fazendo e que, grosso modo, se resumem na constatação de que a escolaridade básica, pelo menos a brasileira, embora afirmem o contrário – isto é, embora digam que almeja ensinar os estudantes a ler e escrever – não contempla, minimamente, a intenção de ensinar a escritura. Impossível esquecer, nesta questão, o exemplo da escrava Esperança Garcia que entrou para a História por ter “sabido escrever” em 1770. uma carta narrando os sofrimentos porque passava nas mãos do feitor da Fazenda Algodões.
Os mais realistas, diante da precariedade do ensino fundamental como um todo, dirão: –Não se trata da escrita, apenas,  mas do ensino como um todo”. Em certo sentido é verdade, mas, não falo, aqui, de resultados,e sim de intenções.  E reafirmo: o Ensino Fundamental brasileiro é estruturalmente não vocacionadopara o aprendizado da escrita, embora afirmem o contrário os documentos oficiais.
Fala-se em “analfabetos funcionais”, isto é, daquelas pessoas que conseguem ler as palavras mas não captar-lhes o sentido. Estes existem, sim, e não são poucos. Mas não é deles que falo e, sim, daqueles que, terminado o ensino fundamental são capazes de ler e entender um texto simples. Mesmo para esta parcela privilegiada do estudantado pergunte quantos escrevem, melhor, quantos consideram que “sabem escrever”.
Claro que não se trata, aqui, de uma tese acadêmica, mas acho, embora possa estar enganado, que os pedagogos quase nada produzem a respeito desta questão. Parece correto, mas não é, absolutamente, colocar no mesmo saco o aprendizado da  leitura  e o da escritura. É significativo: são feitas, anualmente, dezenas de campanhas cujo escopo é “Leia Mais” o tal “incentivo ao hábito da leitura”. Alguém sabe de alguma campanha propondo que se “Escreva mais”. No entanto eu posso afirmar, sem medo de errar: numa sociedade de “escritores”, isto é, numa sociedade que incentive a escrita, a leitura será colocada num patamar privilegiado. É socialmente vergonhoso não saber ler. Já viu alguém envergonhar-se de “não saber” escrever? Já ouvi esta alegação até por parte de professores universitários.
Cria-se, desta forma, uma casta elitista constituída pelos que escrevem (ou “sabem escrever”) enquanto os demais, pobres mortais, não escrevem (ou não “sabem escrever”). E esse fosso, desculpem dizer, é reforçado pelas atitudes dos que “pensam” a educação no país, e, inclusive por isso, só tende a aumentar. Não sou pedagogo mas gostarei muito de ouvir de algum deles uma resposta convincente  a estas minhas inquietações.
Para mim, a gente só aprende a escrever, escrevendo, isto é, colocando no papel, da forma a mais coerente possível, o que se passa em nossa mente.  Não consigo encontrar nos currículos escolares nenhuma estratégia articulada de real incentivo pedagógico ao exercício da escrita.
Quanto ao livro citado no primeiro parágrafo, não é verdade que ele me tenha decepcionado. Ele trata do assunto por outro viés, bastante interessante, até, mas que foge  do objeto das preocupações que externei.
Alguém pode achar que ele é a pedra da minha sopa. Não lhe tiro a razão.
*PICARD, Georges. Todo mundo devia escrever- a escrita como disciplina do pensamento. Trad. MARCIONILO, Marcos. São Paulo. Parábola.

CANTO DE SEREIA – de joão felinto neto / mossoró

 

 

Como um canto de sereia

de belíssima harmonia,

letra correta, verdadeira poesia

e melodia

que eterniza nossa alma.

Por onde anda

a sereia encantada

nas profundezas desse mar de ignorância?

Letra incorreta com falta de concordância

e melodia

que nos faz perder a calma.

Só na lembrança,

o teu canto nos enleva

na emoção que tua voz nos faz sentir

e na saudade, o nosso coração desperta

pra realidade,

não há nada mais pra ouvir.

 

“MEIA NOITE EM PARIS” – por monica benavides / curitiba

 minhas sensações depois de uma dose de Woody Allen na veia (cuidado esse homem vicia…rs)…

 

Cheguei outro dia e havia recebido pelo correio ingressos de cortesia da Livraria Cultura para assistir Meia-noite em Paris (já é a quarta vez que ganho, e continuo afirmando, essa é a melhor livraria do país com o melhor programa de fidelidade), bem mas não é sobre isso que quero comentar, quero expressar o prazer que o filme me proporcionou.

Woody Allen dessa vez leva o público para uma viagem na cidade luz (que clichê adequado), mas não uma viagem no sentido figurado apenas. Quem já foi a Paris, sentirá nos primeiros 5 minutos de filme uma sensação incrível de reconhecimento. Para os que não foram… considerem o ingresso um carimbo no passaporte. A Paris de Allen é realmente uma viagem real e proporciona a sensação da visita.

Eu na minha ignorância de apreciadora e não de crítica formada em Cinema, divido os filmes de Allen em dois tipos: aqueles onde existe uma trama genial com desfecho memorável ( aqui Sofia Getê coloco, como vc bem lembrou, o Match Point, o Scoop, O Sonho de Cassandra, enfim….) e os filmes escritos para expressar e servir de catalisador a neurose de Woody Allen.

Pois bem, se vc gosta, esse filme se enquadra na minha segunda categoria. É um filme escrito pelo Woody Allen onde o protagonista é ou deveria ser o próprio. Como ele não teria idade para o papel, escalou Owen Wilson, que sinceramente me surpreendeu. Não é o próprio Allen mas chegou bem perto e deve ser parabenizado pela excelente imitação do original.

Aqui começam os spoilers, quem não assistiu leia por sua conta e risco. (rs)

O filme antes de mais nada, exige uma cultura ou um conhecimento mínimo sobre o que era a vida artística e cultural da chamada Idade do Ouro, a famosa Paris dos anos 20.

Por exemplo, quem não sabe que a Alice que abre a porta da casa de Gertrude Stein é na verdade sua amante, e que Stein é a maior crítica de arte da época e talvez a maior crítica de arte que já existiu; que Dalí casa com a Gala em Paris e que ele era um grande Surrealista; que Picasso odiava Hemingway, Modigliani, Braque, enfim todo mundo (rs); ou que Buñuel fez um filme chamado “O discreto charme da burguesia”, que ganhou com ele, já no fim da carreira, um Oscar e que no roteiro três amigos se reúnem para jantar e não conseguem mais ir embora pela porta, (a idéia dada pelo protagonista para Buñuel em uma das suas andanças ao passado), perderá alguns insights geniais de Allen. Lógico que entenderá o filme mas não terá o mesmo sabor.

Para mim, o que ficou foi a vontade de chegar em casa e passar essa noite em claro, lendo um conto de Fitzgerald e ouvindo um disco de Cole Porter…

Que sonho, que vertigem… maravilhosa!!! Poder conversar, namorar passar uma noite com o viril e obcecado Hemingway… rs…

Mas como tudo na vida, nada é perfeito. Para mim dois pecados foram cometidos por Titio Allen: o primeiro foi a escolha da Rachel Adams. Gosto muito dela mas, diferente de Wilson, não conseguiu estar a altura de Mia Farrow ou Diane Keaton, mulheres icônicas para um filme do mestre. A outra foi a concessão feita a beleza de Carla Bruni e a facilidade que colocar a namoradinha da França, daria a alguém tão novaiorquino como Allen, ao querer filmar um longa em Paris. Acho que ele não precisava ter se prestado a esse papel nessa altura da carreira. Diria que ela está linda mas… no mínimo medíocre…

De qualquer forma o filme é brilhante e prova que Paris ainda é e sempre será UMA FESTA!!!!! Assistam e me digam o que acharam…

Bjs… até uma próxima….e já fui que o Hemingway me espera nos meus sonhos ou dentro de um carro da década de 20….

Criminosos do poder, alegrai-vos – por wálter maierovitch / são paulo

No século passado, muito se discutiu sobre a prisão preventiva. Pela sua natureza acautelatória, a custódia preventiva não se confunde com a prisão imposta como pena em decisão judicial definitiva. Portanto, ocorre desvirtuamento quando a custódia preventiva é decretada como antecipação da condenação. Por outro lado, a prisão preventiva representa um mal necessário, ou melhor, uma medida de segurança social. A sua imposição, em países civilizados, está condicionada ao princípio da necessidade.

Um exemplo muito usado pelos processualistas europeus ilustra a natureza cautelar da prisão preventiva. É a do suspeito que respondeu ao processo preso e foi absolvido por não ter sido o autor do crime. No curso do processo, no entanto, este suspeito, sentindo-se injuriado, ameaça testemunhas inconformado com os relatos colhidos na fase investigativa. A prisão preventiva, no exemplo, justificava-se pela necessidade.

Sobre reformulações e modernização das medidas de cautela e de contracautela, a legislação brasileiras estava ressentindo-se de mudanças. O nosso Código de Processo Penal é de 1941 e inspirou-se no chamado código de mármore de Mussolini. As emendas nele feitas também envelheceram. Com efeito, acaba de entrar em vigor, depois de dez anos de tramitação no Congresso, uma nova reforma (Lei 12.403/2011) sobre medidas cautelares. Dourou-se a pílula, com novas, modernas e necessárias medidas a substituir o encarceramento provisório desnecessário. Mas, com base numa lógica de ocasião, beneficiou-se a chamada criminalidade dos poderosos (detentores de parcela do poder do Estado) e dos potentes (endinheirados prontos a corromper). Em outras palavras, houve um laxismo em favor do crime organizado elitizado e voltado a dilapidar o patrimônio público.

Uma vez mais, beneficiou os quadrilheiros da elite do crime. Aqueles que já estavam proibidos de ser algemados por direito sumular, pelo qual o Supremo Tribunal Federal, com base em um único julgado, invadiu e subtraiu, ilegitimamente, a competência do Legislativo. Segundo a nova lei, o juiz só pode decretar a prisão preventiva quando ocorre imputação de crime doloso, cuja pena máxima seja superior a quatro anos. Como se percebe, não se rege a decretação da prisão preventiva, como era antes, pelo princípio da necessidade.

Em tempo de criminalidade, interna e transnacional, de poderosos e de potentes, que não atuam de forma escoteira, mas formam quadrilhas ou bandos, essa nova lei era o que faltava para o Brasil tornar-se a capital mundial da insegurança pública.

Por formação de quadrilha ou bando, enquadramento usual para o delegado de polícia representar ou o Ministério Público requerer a prisão preventiva, os poderosos e os potentes podem sossegar. Aguardarão em liberdade a morosa tramitação processual. E a prescrição poderá fechar com chave de ouro a blindagem cautelar.

Para o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, em artigo recente publicado no jornal Folha de S.Paulo, a inovação dos quatro anos “faz todo sentido”, pois “os condenados por esse tempo de prisão não vão presos ao final do processo. Sua pena, pela lei, é substituída por restrições de direito”. Ora, Bastos esquece o consagrado exemplo dos europeus, acima recordado. E confunde pena de prisão com prisão cautelar, cujas naturezas são diversas.

Um quadrilheiro potente ou poderoso, no sistema anterior e substituído, estaria sujeito à prisão preventivamente por corromper testemunhas, por exemplo. No rumoroso caso Daniel Dantas, recentemente anulado em razão da participação de agentes requisitados de um órgão do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (Abin), houve corrupção consumada e induvidosamente provada no curso de apurações. E formou-se uma associação delinquencial, segundo a acusação, para corromper a fim de brecar as investigações. Bastos afirma ainda que o uso da prisão preventiva terá seu uso “limitado aos casos mais sérios”. Os quadrilheiros de alto coturno, ou melhor, as elites criminosas, quer no mundo das empreiteiras, quer no das consultorias, quer do mercado financeiro, também acham que a limitação a casos mais sérios representa o ideal.

Pano rápido. O Brasil vive de ciclos. Quando das tragédias, vale o discurso do endurecimento. Quando aparecem as justas pressões internacionais em face de prisões lotadas e trato desumano, ou quando um figurão é preso preventivamente, passa-se ao laxismo disfarçado. À predadora elite do crime organizado, que já contava com prisão especial, agradecem os quadrilheiros violentos dos morros e favelas, pois ambas as estirpes não poderão mais ser presas preventivamente. A nova lei, frise-se, teve o mérito de criar novas medidas de contracautela, do controle eletrônico à prisão domiciliar, a lembrar o benefício concedido a Dominique Strauss-Kahn, o novo Conde de Monte Cristo entregue à destruição da negra Geni. A qual, embora prostituta, pode ter sido estuprada.

c.c.

O Centésimo Macaco

O macaco japonês Macaca Fuscata vinha sendo observado há mais de trinta anos em estado natural.

Em 1952, os cientistas jogaram batatas-doces cruas nas praias da ilha de Kochima para os macacos.

Eles apreciaram o sabor das batatas-doces, mas acharam desagradável o da areia.

Uma fêmea de um ano e meio, chamada Imo, descobriu que lavar as batatas num rio próximo resolvia o problema. E ensinou o truque à sua mãe.

Seus companheiros também aprenderam a novidade e a ensinaram às respectivas mães.

Aos olhos dos cientistas, essa inovação cultural foi gradualmente assimilada por vários macacos.

Entre 1952 e 1958 todos os macacos jovens aprenderam a lavar a areia das batatas-doces para torná-las mais gostosas.

Só os adultos que imitaram os filhos aprenderam este avanço social.

Outros adultos continuaram comendo batata-doce com areia. Foi então que aconteceu uma coisa surpreendente.

No outono de 1958, na ilha de Kochima, alguns macacos ? não se sabe ao certo quantos ? lavavam suas batatas-doces.

Vamos supor que, um dia, ao nascer do sol, noventa e nove macacos da ilha de Kochima já tivessem aprendido a lavar as batatas-doces. Vamos continuar supondo que, ainda nessa manhã,

Um centésimo macaco tivesse feito uso dessa prática.

Então aconteceu!

Nessa tarde, quase todo o bando já lavava as batatas-doces antes de comer.

O acréscimo de energia desse centésimo macaco rompeu, de alguma forma, uma barreira ideológica!

Mas veja só:
Os cientistas observaram uma coisa deveras surpreendente:

O hábito de lavar as batatas-doces havia atravessado o mar. Bandos de macacos de outras ilhas, além dos grupos do continente, em Takasakiyama, também começaram a lavar suas batatas-doces. Assim, quando um certo número crítico atinge a consciência,

Essa nova consciência pode ser comunicada de uma mente a outra.

O número exato pode variar, mas o Fenômeno do Centésimo Macaco significa que, quando só um número limitado de pessoas conhece um caminho novo, ele permanece como patrimônio da consciência dessas pessoas. Mas há um ponto em que, se mais uma pessoa se sintoniza com a nova percepção, o campo se alarga de modo que essa percepção é captada por quase todos!

Você pode ser o centésimo macaco!

Essa experiência nos proporciona uma reflexão sobre a direção de nossos pensamentos.

De certo modo, já sabemos que para onde vai o nosso pensamento segue a nossa energia.

Grupos pensando e agindo numa mesma freqüência em várias partes do Planeta têm as mesmas sensações e acabam fazendo as mesmas coisas sem nunca terem se comunicado.

Isso vale tanto para aqueles que praticam o bem como para aqueles que usam de suas faculdades para o mal.

O acréscimo de energia, neste caso, pode ser aquela que você está enviando com o seu pensamento sintonizado na freqüência do crime noticiado que gera comoção geral.

Parece coincidência, mas sempre que um crime choca e comove multidões, de imediato outros fatos semelhantes pipocam em diversos lugares.

Será isso o efeito do centésimo macaco às avessas?

Ao invés de indignar-se diante do crime noticiado, direcionando inconscientemente seu pensamento e sua energia para essas pessoas ou grupos que se aproveitam dessa energia toda para materializar mais crimes, neutralize com pensamentos conscientes de amor e perdão.

Mude de canal na TV, vire a página do jornal, saia da freqüência e não alimente ainda mais a insanidade daqueles que tendem para o crime, e, também, daqueles que lucram com as desgraças alheias.

São todos igualmente insanos, tanto aquele que pratica o crime quanto aquele esbraveja palavrões de indignação por horas diante das câmeras, criando comoção e levantando a energia que se materializará nas mãos daquele que está com a arma já engatilhada.

Gerar material para construir um mundo melhor não requer tanto de grandes ações, quanto essencialmente grandes blocos de consciência.

É preciso que mais gente se sintonize na freqüência e coloque aquele acréscimo de energia que pode gerar uma nova consciência em outros grupos, em outras partes do Planeta.

Se cada um de nós dedicarmos alguns minutos todos os dias para meditar, entrando em sintonia com a freqüência do amor, basta para mudar muitas coisas desagradáveis acontecendo em nosso Planeta e criar uma nova consciência.

Seja você também um macaco para o bem!
O centésimo, aquele que faz a diferença.

Paz !

Nota: Para pesquisar o assunto, consulte a

obra do biólogo inglês Rupert Sheldrake sobre campos morfogenéticos

FOI NECESSÁRIO PARA QUE COUBESSE – de jorge lescano / são paulo


folga na repartição e O Poeta folhe

ava seu jornal cotidiano ligeiramen

te enfastiado, como era praxe entr

e os Poetas fin de siècle e de mille

naire, quando nada mais poderia a

contecer e no entanto os encargos soci

ais obrigavam as personalidad

es a. E naquele sofisticado estado

de espírito chegou ao Caderno de V

ariedades. Sentiu um soco no peit

o e o rosto afogueado e tremores n

as pernas e uma repentina dilataçã

o das pupilas e do espaço circunda

nte e que o chão fugia sob seus pé

s, expressões estas caras aO. Ali n

aquele momento prosaico, preto no

branco: seu nome literário, a capa d

o seu livro, o logotipo da editora e u

ma resenha. E no primeiro instante n

ao acertou a. O impacto foi mais con

tundente ao perceber que a assinatu

ra não era a do seu compadre jornali

sta, mas a de um crítico renomado, d

o qual todos queriam uma. E passad

a a surpresa, admitiu que aquilo era

O. E abandonou a mesa da cozinha e foi até a sala e se espalhou no sofá d

e três lugares. Apanhou o Cachimbo d

as Grandes   Cerimônias e o  encheu com seu melhor tabaco e de esguelha contemplava-se no espelho. Foi c

om voz grave que solicitou à esposa que lhe trouxesse os sapatos, pois o

s chinelos. A mulher disse que as sol as dos pés no cocuruto lembravam uma postura ioga, mas ela estava ca

n sada  de saber  que O  Poeta nu

nca. (Amava a Tradição, a Forma, a Pureza e a Higiene na Poesia, dir

ia seu epitáfio.) E disse que seu olhar expressava textualmente (sic) a vontade de ficar de pé sobre aqu

ele pedestal. A fratura o pescoço, co

m seqüelas anatômico-lingüísticas, teria sido a causa mortis, segundo d

eu a entender o. Foi necessário r

etalhá-lo para que coub

PALOMA SAN BASILIO interpreta ” NO LLORES POR MI ARGENTINA” / madri

UM clique no centro do vídeo:

PLÁCIDO DOMINGO interpreta “EL CÓNDOR PASA” / madri

Yaw kuntur (El Cóndor Pasa – Kuntur phawan)
El Cóndor Pasa is a wonderful song from the zarzuela El Cóndor Pasa by the Peruvian composer Daniel Alomía Robles written in 1913 and based on traditional Andean folk tunes.

Guajira Guantanamera – de joseito fernandez e jose marti / havana

GUANTANAMERA Original music by Jose Fernandez Diaz Music adaptation by Pete Seeger & Julian Orbon Lyric adaptation by Julian Orbon, based on a poem by Jose Marti

Estribillo:
Guantanamera,
guajira guantanamera
Guantanamera,
guajira guantanamera

Con los pobres de la tierra
quiero yo mi suerte echar:
el arroyo de la sierra
me complace más que el mar.
Denle al vano el oro tierno
que arde y brilla en el crisol:
A mí denme el bosque eterno
cuando rompe en él el sol.
Estribillo:

Yo quiero salir del mundo
por la puerta natural:
en un carro de hojas verdes
a morir me han de llevar.
No me pongan en lo oscuro
a morir como un traidor:
yo soy bueno y como bueno
moriré de cara al sol.
Estribillo:

Tiene el leopardo un abrigo
en su monte seco y pardo:
yo tengo más que el leopardo
porque tengo un buen amigo.

Estribillo y fin

UM clique no centro do vídeo:

JOHN LENNON in “IMAGINE” / nova iorque

John Lennon and Yoko Ono Playing “Imagine” In Madison Square Garden.

 

UM clique no centro do vídeo:

 

MORRIS ALBERT in FEELINGS / são paulo

MORRIS ALBERT, fez parte de um fenômeno dos anos 70, brasileiros compondo e cantando em inglês usando pseudônimos, foram vários que participaram dessa fase.

UM clique no centro do vídeo:

Liberdade para mentir – por izaías almada / são paulo

A liberdade de opinião e a liberdade de imprensa que se defende no Brasil, essas que continuam a favorecer umas tantas “famiglias”, trazem hipócrita e cinicamente escondidas em sua defesa um único e insofismável propósito: a liberdade para mentir.

 

Naquilo que foi considerada a primeira crise política do governo Dilma Roussef, com o defenestramento de um ministro, muito se discutiu sobre moral e ética. Opiniões, as mais diversas e desencontradas, pipocaram por quase três semanas em jornais, revistas, televisões e boa parte da blogosfera.

Para uma sociedade que, pelo menos na aparência, se mostra paradoxalmente mais preocupada com a corrupção e ao mesmo tempo mais corrupta a cada dia que passa, ativa ou passivamente, não importa, a proporção do debate quase atingiu as raias do paroxismo.

Contudo, e não estamos apontando nenhuma novidade, no quesito corrupção, a volúpia acusatória tem pendido sempre mais para um lado da balança do que para outro, sendo o Partido dos Trabalhadores o alvo preferencial da mídia. Entende-se: é a luta pelo poder político, dirão muitos.

Não só, ouso dizer, é também a luta de classes. E é também o entendimento atual daquilo que muitos brasileiros conhecem ou mesmo aprenderam sobre o pensar e o fazer político. É provável que muitos até já se esqueceram, é verdade, seja pelo vazio de ideias e pela repressão causada pelo golpe de 64, seja pelo canto do cisne das políticas neoliberais dos anos 80/90 ou mesmo do emblemático desaparecimento da União Soviética, onde muitos acreditaram que uma ideologia e um modelo de organização econômico social haviam chegado ao fim.

Lembrei-me, em meio a essas calorosas discussões sobre ética e moral, da leitura que fiz já há alguns bons anos de um livro intitulado “Marxismo e Moral”, de autoria do professor William Ash, norte americano que se mudou para a Inglaterra, cujo original foi publicado na Monthly Review Press em 1964 e editado no Brasil em 1965.

O livro, de linguagem fluente e fácil, procura discutir os conceitos morais dentro das condições materiais em que vivemos em sociedade ou, em outras palavras, o que nos leva a emitir juízos de valores morais numa sociedade capitalista, por exemplo, como essa que nos é dado viver.

Nos quatro longos capítulos em que procura sistematizar o seu pensamento, o autor faz referências a algumas obras e pensamentos de Marx, alguns dos quais nunca é demais lembrar. Por exemplo: “As ideias da classe dominante são, em qualquer época, as ideias predominantes”. Simples e cristalino. Só não entende quem não quer ou não se dá ao trabalho de pensar.

Na atual situação política brasileira, a ética tem sido usada como arma de combate entre adversários políticos de quase todos os partidos, sem exceção, sendo que os representantes desses partidos, seja no âmbito federal, estadual ou mesmo municipal, em sua grande maioria, representam interesses em sua maior parte, da classe dominante, mesmo que seus programas partidários e sua militância, quando ela existe, apontem noutra direção.

Contudo, nessa troca de acusações, muitas delas sem provas, o que tem vergonhosamente caracterizado uma quebra do princípio jurídico da inocência presumida, a quase totalidade da imprensa tem – sempre que pode – tentado fazer a balança pender para um dos lados.

Diz William Ash em sua obra acima citada: “Os moralistas que se identificam com uma classe que tenha desfrutado o poder e é ameaçada pelas bases têm uma compreensível tendência para ressaltar a obediência ou o dever como de primordial significação ética.”

Como já surgem indícios aqui e ali de que se torna cada vez mais tênue a linha que divide situação e a oposição no Brasil atual, pelo menos essa que coloca de um lado partidos como o PT e o PMDB, e de outro legendas como o DEM, o PSDB e o PPS, começa haver um vácuo de representatividade no país. Pergunta-se: obediência a quem? Dever para com quem?

A reforma política adquire cada vez mais importância e urgência, pois o poder político não admite o vácuo. Em momentos de indecisões, recuos ou mesmo de reflexões para novos avanços, há sempre alguém (grupos eu diria) que se aproveita para reconquistar ou manter posições conservadoras ou mesmo inibidoras de políticas econômicas menos ortodoxas. E nisso, contam com o apoio de uma imprensa que defende a sua liberdade ou a liberdade de opinião (a sua) sempre em proveito próprio ou de grupos a quem tradicionalmente se alia.

E nesse jogo de interesses, as ideias predominantes continuam sendo as ideias da classe dominante, dos que detêm o poder econômico, porque a liberdade por esses defendida é a liberdade de continuarem no poder a qualquer custo, mesmo que para isso usem da chantagem, da mentira, dos fatos sem comprovação, da intriga.

Diz William Ash, lembrando Marx mais uma vez: “A ‘livre empresa’, não é senão a liberdade de explorar o trabalho dos outros. Tal como a ‘liberdade de imprensa’ é a liberdade que os capitalistas têm de comprar jornais e jornalistas no interesse de criar uma opinião pública favorável à burguesia”.

Palavras que ainda encontram ressonância nos dias em que vivemos. A burguesia brasileira, que se formou logo ao receber da Coroa portuguesa as capitanias hereditárias, até hoje não as devolveu. E continua a agir como se estivéssemos no século XIX.

Basta acompanhar o que acontece no setor agropecuário, onde a violência tem mão única. Quantos trabalhadores rurais foram assassinados no Brasil nos últimos anos? E quantos donos de terras? Ou acompanhar a vergonhosa defesa do crime de colarinho branco pelo poder judiciário. A justiça brasileira é uma justiça de classe. E quanto à mídia? O que dizer das inúmeras denúncias irresponsáveis ou matérias fabricadas, manipuladas, para servirem a interesses particulares e não aos interesses do país?

A liberdade de opinião e a liberdade de imprensa que se defende no Brasil, essas que continuam a favorecer umas tantas “famiglias”, trazem hipócrita e cinicamente escondidas em sua defesa um único e insofismável propósito: a liberdade para mentir.

 

Escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.

Alimentação e gasolina barateiam, e inflação é a menor em dez meses / brasilia

Inflação oficial do país despenca de maio para junho, graças à queda no preço de alimentos e combustíveis, e termina em 0,15%, o patamar mais baixo desde agosto do ano passado. Os dois grupos de produtos são, porém, os vilões da inflação no ano, que terminou o semestre no nível mais alto desde 2003, 3,87%. Limite máximo aceito pelo governo até dezembro é de 6,5%.

 

A inflação despencou de maio para junho e fechou o mês no patamar mais baixo dos últimos dez, 0,15%, informou nesta quinta-feira (07/07) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que calcula o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em maio, tinha sido de 0,47%.

A remarcação desacelerou de um mês para o outro graças ao barateamento dos alimentos e dos combustíveis. Os dois grupos são, no entanto, os grandes responsáveis pela inflação de 3,87% no acumulado do primeiro semestre, a mais alta desde 2003.

O baixo resultado de junho já era esperado pelo governo e pelo “mercado” que o Banco Central (BC) consulta toda semana sobre uma série de indicadores. Até o fim do ano, a expectativa oficial e do setor privado é de que a inflação mensal se situará em níveis inferiores aos do primeiro semestre.

Para o BC, isso será suficiente para o número final ficar abaixo do limite autoimposto pelo governo, que é de 6,5%. A última previsão do banco, divulgada em seu relatório trimestral de inflação, aponta variação de preços de 5,8% em 2011.

Nos últimos doze meses encerrados em junho, a inflação bateu em 6,71%, o maior valor em seis anos. O índice deve subir pelo menos até setembro, na medida em que os meses de julho e agosto do ano passado, em que a inflação foi quase zero, saírem da conta.

Este cenário preocupa o Banco Central porque se revelará bem no meio de um ciclo de reajustes salariais a ser negociados por diversas categorias de trabalhadores. E os sindicatos vão usar este índice mais elevadio para calcular o aumento que vão pedir.

Nos últimos dias, o presidente do BC, Alexandre Tombini, sugeriu que os trabalhadores não usassem a inflação passada para negociar aumentos, mas que olhassem para a frente.

O presidente da Central Única dos Trabalhadores, Artur Henrique da Silva Santos, acha a proposta “absurda” porque negociação de salário é exatamente para proporcionar ganhos reais com base em inflação passada.

c.maior.

ARTISTA VISUAL faz escultura no grafite (ponta do lápis) – alemanha

A conceituada revista alemã Cicero contratou a artista plástica Ragna Reusch Klinkenberg para esculpir três cabeças de políticos famosos da nossa atualidade. O detalhe importante é que eles foram esculpidos na ponta do grafite de alguns lápis. O resultado é fantástico, confira:

“ESTÂNCIA DA POESIA CRIOULA” a Academia Xucra do Rio Grande, lançou sua “ANTOLOGIA 2011”, está nas livrarias / porto alegre

PELE – de edu hoffmann / curitiba

Pele

 

 

 

 

 

a pele dorme sua derme

a pele colhe a que nos demos

 

igual se fosse vela

que vacila

à sombra dos Anjos

desvendando véus

das faces veladas

 

mas agora, aqui

parece até coisa de novela

nós debaixo desse céu

numa imensa azulada umbrela

 

nosssa mãos

haicai

feito uma luva

 

nossos pelos

a   flor

da pele

 

ESTRELA LEMINSKI lança o livro “POESIAÉNÃO” na livraria Realejo / santos.sp

Hoje não acordei encontado – por omar de la roca / são paulo

 

O despertador me acordou  perverso e pontual as 6 em ponto.”Esta chovendo”.Eu quis ficar mais um pouco.Mas era hora.Levantei,tirei a camiseta fui ao banheiro e voltei ao quarto.A cama piscou um olho para mim e eu cedi.E me estirei seminu sobre ela.Olhei o relógio.Seis e doze.Só mais um minuto.E fechei os olhos.Que que é isso?Pelo menos mais três minutos , penso.E a vida corre pelos meus olhos.De que falarei hoje ? Que palavras irão transbordar sem que eu pense nelas ?Hoje não acordei encontado.Se quiseres vire a folha.Vou te enrolar pelas próximas linhas até chegar ao fim da página.Seis e treze,nem um minuto passou e já estou de pé.Roupa,café,guarda chuva ( com ou sem hífen).Rua.Chuva que insiste em cair mas agora mais fraca.Vou caminhando e pensando.Pena que o Wilson não respondeu ao e mail que enviei.Tentei um caminho engraçado,como eu sou.Como se uma piada pudesse encobrir uma multidão de anos passados em silêncio.Devia ter ido por um caminho mais normal.Perguntar da vida dele, casamento, emprego,filha.Mas sou assim mesmo,precipitado.As vezes tenho ataques de “ como teria sido se…”.Como teria sido se eu escolhesse o azul em vez do vermelho? Na certa não muito diferente,já que descobri que os dois nos decepcionam com a mesma intensidade,de maneiras diferentes.Como teria sido de eu optasse por estudar um pouco mais as cores e percebesse que a cor escolhida tem nuances mais escuras e sombrias do que a cor original? Alias,por que somos forçados a colocar um fatídico X nas opções que fazemos e entregamos ao professor para obter boas notas,sem chance de muda-las depois? Porque não podemos simplesmente marcar com X “todas as opções anteriores estão corretas”?Mas hoje não acordei  encontado.Acordei cheio de interrogações,que vão desfilando elegantes mostrando suas roupas de moda.Algum dia terei as respostas?”Mas isso acontece comigo  todos os dias” você dirá. Na verdade acontece com todos nós,mas não sabemos ou não nos damos conta ou não aceitamos.A dúvida bate na porta e nos mostra o catálogo da vida como poderia ter sido,como uma vendedora da Avon.Se vivi ? “ Confesso que…” Mas não que este é outro conto,outro livro que ainda não li.Mas não acordei encontado.Que bom que a chuva não está forte,tenho o que fazer na rua hoje.Não vou precisar nadar até o metro.E me parece que ,como sempre digo, as lições estão em todos os lugares,basta ter olhos para ver, ao sentar no vagão do metro me vem brilhante a lição do sabão em pó,no quadro a minha frente.” Sua vida não é feita de uma cor só.” Eu que brinco com cores até ter as mãos sujas delas e vou limpando na cortina,no sofá,na calça,aonde der.Não me lembro a marca do sabão.Nem diria se lembrasse.A lição é meio emblemática e extremamente clara.Como o branco.Com uma sacudida o metro sai.Com uma sacudida inicio minha meditação diária.Empurro para o fundo da memória a lição do sabão em pó e a lição da vendedora da Avon.E esqueço tudo.Já tinha pensado em dois contos,que acabaram se fundindo num só.Com a meditação esqueci muita coisa que pensara.Mas precisava ordenar as idéias.Que hoje não acordei encontado.Voltando a cama,que importância tem um minuto,porque não fiquei pelo menos um minuto inteiro ? Num minuto penso num conto.E tenho que correr para segurar seus bracinhos enquanto ensaia uns passos incertos sobre o papel.Um conto.Mas hoje não quero saber de contos,crônicas ou crontos ou formas geométricas.Que hoje não acordei.E não precisa contar que eu te conto,não acordei encontado hoje  cinco vezes.Mas se contares serão seis.Ou sete,que hoje…

Lançamento do livro “Fazer Falar a Pintura” – na UNIVERSIDADE DO PORTO / portugal

“Fazer Falar a Pintura”, o novo livro editado pela U.Porto editorial, organizado por António Quadros Ferreira, será lançado no próximo dia 7 de Julho, na Fundação de Serralves, no Porto. A apresentação da obra será feita por João Fernandes, Director do Museu de Serralves.

 

O livro apresenta testemunhos de 58 professores-pintores de Portugal, Espanha, França e Bélgica, nos quais a produção artística se alia ao discurso na primeira pessoa. Cada autor apresenta uma imagem e um texto que incide sobre a especificidade do objecto da pintura, descrevendo-o. Fazer Falar a Pintura é um projecto de discurso académico sobre a arte, sobre o ensino da arte, sobre a pintura, e o ensino da pintura em particular.

 

A sessão de apresentação realiza-se pelas 18h30, no foyer do auditório da Fundação de Serralves, sita na Rua Dom João de Castro, n.º 210, no Porto. A entrada é livre.

 

O livro está disponível para compra em: http://www.wook.pt/ficha/fazer-falar-a-pintura/a/id/10984463

 

 

U.Porto editorial

Reitoria da Universidade do Porto

Praça Gomes Teixeira, 4099-002 PORTO

Tel.: 220 408 196  Fax: 220 408 186

URL: editorial.up.pt/

Sampa é uma festa (auto)móvel. Sumpa, uma festa junina. – ewaldo schleder / ilha de santa catarina

Sampa é uma festa (auto)móvel.

Sumpa, uma festa junina.

 

Presente célere: passado. Instala-se o inverno, 24 de junho, dia de São João.

Mas faz calor de primavera em São Paulo – posso ficar em casa

de camiseta e bermudas (acostumado com Florianópolis).

Na rua venta um pouco e deixa o sábado especialmente agradável.

Tati descansa de nosso percurso solo: ônibus urbano e demorada espera

pós-aeroporto, depois da viagem tranquila desde Curitiba.

Incongruências no transporte, na interação entre ar e terra =

uma hora de avião + 40 minutos no desembarque e bagagens

+ uma hora e dez de espera do ônibus urbano + 35 minutos

entre aeroporto e Tatuapé + 15 minutos de táxi até a Mooca.

Sampa, sumpa – o que vim fazer aqui?, além de acompanhar a Tati

em sua transição de trabalho daqui a curita.

Moro em floripa e lá eu deveria estar, em minha casa, sossegado.

Arrependimento não se aprende, ouso concluir.

Noutro dia faz frio e chove. Gelam os pés, a alma, as cobertas.

Só Tati, minha namorada, é preciso, somos precisos.

As atrações culturais e boêmias da metrópole não compensam

as aberrações da sub-urbe densa de gente. Os apelos da famosa

movida paulista não valem o impacto poluente

(som, imagem, movimento, detritos) de lata e borracha, do ar chumbado,

proporcional à escala automobilística: e o consumo estimulado

nas classes sócio-econômicas ascendentes, sofisticado nas elites,

consagrado nas camadas compactadas pela vox media, vox populi.

Emergente realidade no País novo-rico e mal-educado;

grande por fora e pequeno por dentro – como a Casa Feres, lá dos pinheirais.

Domingo na paulicéia – a desvairada, a airosa. Garoa. Mudo de assunto, mas nem tanto.

Penso nos brasis: dos pinheiros, das palmeiras, da soja, das matas,

das águas doces e salgadas. A fartura natural incomoda a tecnologia e o capital;

ainda que, respectivamente, a sirva e o sustente. Escassez, finitude, nem pensar.

Aceleramos a demolição: tijolos partidos, madeira aos retalhos, vidros trincados,

 ferros retorcidos, cimento rachado, pedras lascadas, entulhos;

a energia motriz da industrialização a recortar a natureza, a extinguir espécies;

os cálculos estruturais superam a sensibilidade, a sabedoria popular,

o instinto animal dos trópicos. Nada de novo debaixo do sol.

De janeiro a janeiro corre o rio Tietê.

Repartimos o que há no horizonte mais próximo. Buscamos e nos acomodamos,

enfim, aos nossos dois metros quadrados de felicidade. Ou de possibilidade.

De segurança? Locamos e assistimos filmes, lemos livros, revistas e jornais,

Ouvimos músicas. Bebemos. Mastigamos. Ruminamos. Mergulhamos na internet.

Bate o pânico, síndrome planetária.

Tati, paixão hibernal, colo! Teu colo. Sou hóspede da centenária

Mooca (tupi: fazer oca), bairro do clube ítalo-brasileiro Juventus.

Vila adotada por imigrantes lituanos e iuguslavos. Espaço histórico,

do Cine Santo Antonio, anarquista e comunista, berço da pizza tropical.

Pedimos uma de 2 sabores: nota dez. Durmo até achando que aqui mesmo

terminam os descasos brasileiros: a velha, a boa, a cúmplice pizza.

Nostalgia do futuro: – éramos cordiais aqui, Tati, minha paixão transcendental!

Germano Rigotto lança livro na Capital – porto alegre


Convidados do ex-governador Germano Rigotto se enfileiraram por autógrafos no lançamento do livro Para Além do Berço Esplêndido, na Livraria Cultura do Bourbon Country.

Tarso Genro e Olívio Dutra estiveram na sessão de autógrafos da publicação na qual o autor faz uma reflexão sobre os rumos que o Brasil deve seguir para se tornar uma potência.

Legisla, poeta! – por alceu sperança / cascavel

Em meio a tantas angústias causadas pela cascata de crises ou crises em cascata do absurdo sistema que nos rege, há motivos para acreditar que o mundo pode e vai melhorar.

O Equador ofereceu um maravilhoso exemplo ao planeta, ao aprovar por 94 votos a 32, em sua Assembleia Nacional Constituinte, a nova Carta Magna do País, da qual foram riscados alguns princípios neoliberais e inscritos outros, em benefício do ser humano e da natureza.

Com a omissão do presidente da ANC, coube à vice-presidente, Aminta Buenaño, fazer a entrega do texto da Constituição, que foi a referendo popular, como toda boa Carta Magna.

Ela entregou o texto a um grupo de crianças vindas das mais diferentes regiões do País, que receberam também cadernos em branco, lápis e borrachas para escrever neles uma nova história para o Equador, advinda de uma Constituição, finalmente, democrática e popular.

“Nós construímos o caminho, mas vocês darão os primeiros passos”, disse às crianças a congressista Aminta Buenaño, jornalista e escritora. “Nós construímos a moldura, mas vocês têm os pincéis. Escrevemos uma Constituição, mas vocês a tornarão realidade”.

Um trechinho: “A Natureza ou Pachamama, onde se reproduz e realiza vida, tem direito a que se respeite integralmente sua existência, a manutenção e regeneração dos seus ciclos vitais, estrutura, funções e processos evolutivos”. Cáspite! A Natureza passa a ter direitos.

Na capa dos cadernos em branco figura a inscrição: “Escreva aqui a história do novo Equador”. Ingênuo, não é? Em Cuba as crianças vigiam as urnas para que os adultos não as burlem. Quanto abuso do trabalho infantil…

Aminta convocou as crianças a usar os lápis para escrever “a mais bela história do País” e as borrachas para que apaguem “os erros do passado”, tais como “partidocracia, corrupção, ineficiência, desigualdade e a perversa distribuição da riqueza, assim como os erros próprios e alheios”.

As crianças e os jovens, para ela, “são água transparente, fontes cristalinas, esperança, força, vida, coragem, garra e valentia, mas, sobretudo, são promessas de um futuro possível, de um novo País, onde a justiça, a paz e a igualdade sejam possíveis”. “Esta Constituição é de vocês, mas para que vocês a continuem, para que escrevam a poesia da verdade, da justiça, da igualdade”.

Deve fazer bem para a alma de um povo ter uma deputada que escreve poesia enquanto legisla. Por aqui, temos deputada que dança animada quando a corrupção prevalece.

O que houve com o Equador? Houve que o eleito não traiu seus compromissos. Logo no dia da vitória nas eleições presidenciais, Rafael Correa colocou o mandato até diante da possibilidade de ser extinto, ao propor ao povo um plebiscito sobre se queria uma nova Constituição ou preferia manter a velha, com suas regras neoliberais. Em abril de 2007, a população foi às urnas e aprovou a Constituinte com mais de 80 por cento dos votos.

Mas o que diz essa bendita Constituição? Diz que o Equador é um “território de paz” e não permitirá “o estabelecimento de bases militares estrangeiras nem de instalações militares estrangeiras com propósitos militares”.

Diz que as emissoras de rádio e TV terão que cumprir sua finalidade de educação popular. Institui, veja só, “o regime do bem viver”. A soberania alimentar, muito além do BigMac.

A declaração de que o Estado equatoriano é plurinacional, e que também o idioma dos índios vale (ao contrário do nosso pobre Guarani). E que, enfim, somos latino-americanos. Arriba!

EDU HOFFMANN faz poesia para o artista visual HÉLIO LEITES / curitiba

Hélio Leites

Pega o pinhão pra Cristo

e faz da latinha de sardinha

um presépio

faz dos ramos rimas

da colher de pau um remo

que conduz pássaros, peixes

serra-acima

caixinha de fósforo sua alma anima

liliputiando sua imensa ternura

criador, criatura – única pantomima

Hélio faz em seu mundo de miniaturas

o anjo dormir no avesso das coisas

do material inútil nasce a beleza

Helioterapia faz dançar a periquita

na poesia de mais uma Heliogravura

Hélio e a sua sustentável leveza

.

HÉLIO LEITES trabalhando.

.

A CASA

fotos de BRUNA BAZZO.

CARLOS FRANKLIN PAIXÃO DE ARAÚJO, ex-marido de DILMA ROUSSEFF grava revelações para novela / porto alegre

o ex-militante da guerrilha contra a ditadura, ex-dirigente partidário e ex-deputado estadual no Rio Grande do Sul, CARLOS ARAÚJO, meu amigo estimado pessoal há mais de 30 anos, concedeu esta entrevista que vai ao ar no final dos capítulos desta novela e que eu dou publicidade para aqueles que não acompanham como uma singela homenagem ao fraternal amigo.

J B VIDAL

EDITOR 

Em depoimento gravado para Amor e Revolução”Carlos Araújo, ex-marido da presidenta Dilma Rousseff, relata detalhes sobre o roubo do cofre de Adhemar de Barros, as torturas que sofreu, sua tentativa de suicídio e também a prisão de Dilma.

Por conta da riqueza das experiências, o depoimento foi dividido em 5 partes, que vão ao ar entre os dias 04 e 08 de julho, ao final de cada capítulo da novela.

Confira as surpreendentes revelações!

 

Capítulo 65, segunda-feira, 04 de julho

 

Relação de companheirismo com Dilma – “Eu tenho muito orgulho de ser companheiro da Dilma. Sempre nos identificamos. O nosso bom companheirismo persiste até hoje. Eu sempre fui advogado de gente pobre. Sempre fui uma pessoa de esquerda. Com a ditadura não vi outra saída a não ser partir para a luta armada. Formamos uma organização chamada Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), e praticávamos ações de desapropriação de bancos. Buscávamos dinheiro no banco para comprar armas. Também fizemos algumas ações em quartéis para pegar armas. Praticamos ações sociais também: pegávamos caminhões de carne na baixada fluminense e distribuíamos em favelas.”

Capítulo 66, terça-feira, 05 de julho

 

Prisão de Dilma Rousseff –  “A Dilma foi presa em frente ao Jornal O Estado de S. Paulo. Como todos os demais, foi torturada na Oban (Operação Bandeirante). Ela foi condenada por 3 anos e cumpriu toda a pena… A Dilma sente muito orgulho do que fez! Ela não ficou com sequelas. Felizmente. Ela entrou na cadeia nova e saiu nova… Não deixa de ser uma ironia… Eu moro aqui nessa casa na beira do rio em frente à Ilha do Presídio (Porto Alegre), onde fiquei preso por quase um ano.”

Capítulo 67, quarta-feira, 06 de julho

 

Roubo do cofre de Adhemar de Barros – “Conforme aumentava o número de clandestinos, de pessoas procuradas, tínhamos que planejar ações em bancos e pegar dinheiro para sustentar o pessoal. O Adhemar de Barros tinha o monopólio do jogo do bicho no Rio de Janeiro; não era só São Paulo. Tínhamos a informação de que o dinheiro do jogo do bicho era recolhido mensalmente e levado para a casa de Dona Ana Capriglione, no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, e depois mandado para o exterior. Soubemos disso, fomos lá e pegamos o cofre. Naquela época tinha aproximadamente US$ 2 milhões. O mais interessante é que Dona Ana nunca pôde denunciar nenhum companheiro. Ela sempre negava o roubo. Então, ninguém foi denunciado processualmente por essa ação. É como se não tivesse existido. Dona Ana não podia denunciar… Como ela justificaria o dinheiro?”

Capítulo 68, quinta-feira, 07 de julho

 

Tentativa de suicídio  “Fui pego em São Paulo e me levaram para o Dops. Fui torturado violentamente! Durante o processo de tortura tomei uma decisão: a de me matar. Durante um depoimento eu menti, e disse que tinha um encontro marcado com o Lamarca no dia seguinte pela manhã. Escolhi um lugar que era fácil para me matar: uma avenida da Lapa (Bairro de São Paulo) que passava carros em altíssima velocidade. Eu havia decidido me jogar. E foi o que aconteceu comigo: eu me atirei embaixo de uma Kombi e fiquei bastante ferido. Fiquei no hospital, mas depois de um tempo voltei para a tortura na Operação Bandeirante (Oban).”

Capítulo 69, sexta-feira, 08 de julho

 

Dilma não participou de ações armadas – “A Dilma não participou de ação nenhuma. Não existe nenhum processo. Ela não participou de nenhuma ação armada porque não era o setor dela. Ela atuava em outros setores. Nos orgulhamos do que fizemos, mas isso não quer dizer que somos desprovidos de uma visão crítica. Tínhamos uma visão idealista que entrava em choque com a realidade. Mas não renunciamos nada; temos orgulho do que fizemos. Mesmo agindo incorretamente, às vezes.”

EDU HOFFMANN e sua poesia IV / curitiba

Quarto Crescente

 

 

 

ah, minha sinhazinha

como é bom ouvir um blusão

tirando sua blusinha

 

poeta nua

sua boca me kiss

no moon da lua

 

o céu já me dizia

o céu já me falava

que você era o sol

que me faltava

 

 

 

 

 

 

 

  Buenos Aires

 

 

 

 

 

 

seu corpo tango

 

me veio vinho

 

 

 

beijos

 

o coração na boca

 

 

eu nunca assim sabia

 

 

negras meias

 

se despindo inteira

 

 

 

 

 

 

 

Perfume

 

chove chuva de chuveiro

é uma lisonja ensaboar

a quem a mui lejos foi monja

ela me disse que tudo passa

– passe bem de leve a esponja

 

melodias realejo

ambígua língua dançando

distraída no seu umbigo

 

blues no azul do azulejo

 

 

 

 

 

 

 

Gomos

feche os olhos ela me disse

assim assim, no boca-a-boca

e qual dicionário saberia

explicar coisa tão louca ?

eu tateava feito cego

perdido num braile de rimas

ah, música sempre ajuda

sol embaixo lua em cima

dois gomos abertos

suas coxas

afluentes

quentes lágrimas sem culpa

Amélias, Madalenas

quero dos seus travesseiros

que voem

tuas penas

 

A fome e FAO não existem para o conservadorismo – por saul leblon / são paulo


A indisfarçável má vontade da mídia com a vitória brasileira na sucessão da FAO transitou da indiferença inicial para a tentativa de minimizar a própria omissão ao manifestar menosprezo pelo resultado. Ignorada de início, a campanha pela FAO recebeu dos jornalões nativos, com raras exceções, um espaço inferior ao ocupado na imprensa mundial por um tema de importância auto-explicativa dada a sua interrelação com a explosão dos preços da comida e o número de famintos no mundo.

Quando o êxito da diplomacia brasileira se consumou – ancorado, em boa parte, na credibilidade decorrente dos resultados sociais do governo Lula, reconhecimento esse doloroso para a mídia – partiu-se então para tentativas explícitas de desqualificar a escolha do ex-ministro José Graziano da Silva para dirigir o principal organismo voltado à luta contra a fome no mundo.

Omite-se nessa toada de preconceito e preguiça a real dimensão de um deslocamento diplomático importantíssimo, marcado pela rearticulação do G-77, que, afinal deu a vitória a Graziano. O fato é que o grupo dos países pobres e em desenvolvimento (G-77) uniu-se como raras vezes nos últimos anos para viabilizar o resultado que colocou pela primeira vez um brasileiro e um latinoamericano no comando da FAO.

Algo de crucial relevância que escapou ao colunista negligente é que esses países não estavam se opondo apenas aos blindados diplomáticos dos países ricos e protecionistas. Mas, sobretudo, à lógica de uma hegemonia esférica cujo resultado mais reluzente foi o colapso financeiro mundial que gerou 30 milhões de desempregados no planeta e elevou o contingente de famintos a 1 bilhão de pessoas em pleno século 21.

Entre os argumentos arrolados pelos ‘colunismo isento’ para justificar o apequenamento da cobertura listam-se o dito fracasso do Fome Zero e a suposta irrelevância da FAO, fechando-se assim um círculo de ferro no qual se esmaga o protagonista, a instituição e a dinâmica histórica que pode mudá-la.

Duas das mais importantes dificuldades enfrentadas para a implantação do Fome Zero, em 2003, são omitidas por esse raciocínio que mais esconde do que informa.

O Fome Zero, na verdade, enfrentou um cerco brutal dessa mídia que instaurou um ambiente de terceiro turno no país no início do 1º mandato de Lula. Sob o pano de fundo um conservadorismo ferido e virulento, o Fome Zero foi escolhido como alvo preferencial para reverter a derrota da candidatura da direita, recorrendo-se à desqualificação do eleito pelas urnas.

Recorde-se que já durante a campanha, expoentes do tucanato, como o próprio candidato derrotado José Serra, ameaçavam a sociedade com truques correlatos. A ‘argentinização’ do país (leia-se, a mazorca, a desordem’) puniria os eleitores se o escolhido fosse Luiz Inácio Lula da Silva. Era esse o clima. E foi sob esse diapasão que se montou um torniquete político e midiático em torno do Fome Zero.

A própria denominação do principal programa social do novo governo incomodava.

Vamos ser claros: elites, aqui e alhures, jamais aceitaram a existência da fome como expressão da miséria social por elas produzida. Não deixa de ser sintomático, por exemplo, que no seu desdém pela vitória brasileira na FAO, o articulista da Folha, Hélio Schwartsman retome essa negativa classista.

No comentário “FAO e Fome Zero não podem ser chamados de casos de sucesso” (Folha, 28/06), ele sapeca ligeiro: “em 2003 a obesidade já era um problema mais grave que a desnutrição”. Ou seja, o Fome Zero, nome fantasia para uma política de segurança alimentar que o país jamais tivera e que hoje é uma questão prioritária no mundo— errara feio no diagnóstico. A fome era uma ficção esquerdista. O governo devia é ter liberado a lipoaspiração no SUS.

O mesmo articulista que revoga a fome en passant visualizou uma pandemia de gripe suína no país em 2009.

No dia 19 de julho, aquecendo os motores para a nova tentativa de colocar Serra na Presidência , o sábio Schwartsman assinava o texto da manchete da Folha, na 1º página: “Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses”. No título interno: “Gripe pode afetar até 67 milhões de brasileiros em oito semanas”.

O alarmismo progressivo com tema tão delicado de saúde pública foi duramente criticado pela comunidade médica.

O próprio ombudsman da Folha de então, Carlos Eduardo Lins e Silva, questionaria o jornal em comentário corajoso do dia 26 de julho, com o título: “No limite da irresponsabilidade”. Trecho: “‘…A reportagem e principalmente a chamada de capa sobre a gripe A (H1N1) no domingo passado constituem um dos mais graves erros jornalísticos cometidos por este jornal desde que assumi o cargo, em abril de 2008..”.

É do alto desse patrimônio de isenção e rigor jornalístico associado ao elevado senso ético de quem fez da gripe suína uma estratégia de pânico desfrutável pelo ex-ministro da Saúde e então pré-candidato presidencial, José Serra, que se pontifica agora a irrelevância da FAO, do Fome Zero e, naturalmente, da própria fome.

A implicância com a fome não é uma originalidade do pontífice da Barão de Limeira. Quando o médico Josué de Castro (1908-1973) escreveu Geografia da Fome, em 1946, tratando pioneiramente do tema, ele também sofreu pressões para que o título – lançado pela editora O Cruzeiro – fosse substituído por outro mais ameno.

O livro e a militância progressista do autor foram responsáveis pelo exílio que o golpe de 1964 impôs a esse pernambucano ilustre, que por sinal dirigiu a estrutura nascente da FAO e teve duas indicações ao Nobel da Paz. Morreu no exilo, em Paris, em setembro de 1973, depois de ter seu pedido de regresso recusado pelo governo Médici. Não por acaso. O interdito à discussão da fome ganhou selo oficial na ditadura militar, quando a censura vetou inúmeros textos jornalísticos na tentativa de calar a palavra de incisiva contundência.

À censura policial, lembra a pesquisadora Ana Claudia da Silva, em seu artigo “Fome, história de uma cicatriz social”, sobreveio a “higienização ideológica”.

Nos anos 70/80, adotou-se oficialmente o termo médico “desnutrição” para descrever o problema, como se a questão de fundo fosse mais de biologia clínica do que de política econômica.

A resistência das elites em admitir a existência de um Brasil mergulhado até o pescoço na insegurança alimentar não hesitaria ainda em recorrer ao argumento do determinismo biológico.

O estigma de um Jeca Tatu anêmico, permanentemente desleixado, inspirado nas idéias de Gobineau, cuidava de atribuir a penúria do homem do campo a ele mesmo. Soa familiar quando se ouve dizer que o Bolsa Família deixa o pobre preguiçoso, como sentenciam alguns tucanos e democratas.

Para resumir: o problema não está sociedade; a fome não tem origem na história, mas biologia. A circularidade do raciocínio reforça a legitimidade do preconceito ainda latejante. Os famintos, afinal, são a causa da fome.

Em 2003, sessenta e três anos depois do lançamento do livro de Josué de Castro, a palavra maldita continuava a carregar esse fardo de uma potente denúncia contra as elites e sua obra. No caso, aquela legada pelo governo cujo candidato tivera o apoio irrestrito da mídia. E mesmo assim fora rechaçado pela opinião pública majoritária.

Foi nesse ambiente que o Fome Zero cometeu alguns erros graves.

O primeiro deles foi de comunicação. A sociedade não foi informada de sua verdadeira natureza abrangente. Sob o cerco da mídia e da hesitação do governo em desfechar um poderoso mecanismo de comunicação de massa, a política de segurança alimentar foi soterrada pelo debate distorcido de um mata-fome imediatista e amador, como a mídia tentou vendê-lo.

Ao contrário do que se cristalizou como sendo a história contada pelos vencedores, o Fome Zero não foi um truque de improviso na trajetória do PT.

Em outubro de 1991, em plena vigência da vaga neoliberal, o Governo Paralelo do PT –criado para fazer oposição propositiva a Collor – apresentou à sociedade a primeira proposta de uma Política Nacional de Segurança Alimentar para o Brasil.

O trabalho foi coordenado pelo agrônomo José Gomes da Silva, pai do agora eleito diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva.

Retomava-se ali a importância do Estado e do planejamento na superação dos gargalos do desenvolvimento, sendo a fome caracterizada como o núcleo duro de desequilíbrios históricos, que não seriam superados com respostas assistenciais.

Para assegurar a todos os brasileiros o acesso a uma alimentação suficiente, regular e saudável, o país e a política econômica teriam de mudar. Era o que dizia o Fome Zero, ou melhor, a proposta de Política Nacional de Segurança Alimentar do PT em 1991.

O enfoque do Governo Paralelo tinha como pressuposto que a lógica de mercado, vedete absoluta nos círculos oficiais e midiáticos então, era incapaz de vencer os obstáculos como a concentração de renda, os conflitos fundiários e os desequilíbrios regionais.

A fome era o estuário silencioso dessa correnteza profunda.

A politização do tema evidenciava justamente o oposto da abordagem assistencial que tanto se criticaria, indevidamente, no Fome Zero em 2003.

A primeira proposta nacional de segurança alimentar do PT previa políticas que levassem a um crescimento sustentado, com elevação do emprego; gradativo aumento do poder de compra do salário mínimo; um plano nacional de reforma agrária; medidas de fortalecimento da agricultura familiar; política agroindustrial e políticas de comercialização agrícola, com garantia de preços mínimos e a formação de estoques reguladores.

O projeto do Governo Paralelo do PT preconizava, ademais, inúmeras providências operacionais e políticas consolidadas nos últimos anos. Entre elas, a criação de um marco institucional, uma parceria institucionalizada com a sociedade civil por meio da criação de um Conselho de Segurança Alimentar, o Consea.

Tudo isso estava condensado sob o nome fantasia de Fome Zero lançado em 2003, cuja segunda falha, essa de consequências dramáticas, foi subestimar o sucateamento do Estado brasileiro, após oito anos de administração tucana.

A verdade é que a máquina pública em 2003 não dispunha sequer de um cadastro único da população brasileira miserável.

Em que pese um esforço feito pelo Comunidade Solidária ao final do governo FHC, cada ministério – caso da Saúde, por exemplo,ocupado por Serra – tinha seu próprio cadastro. E controlava sua própria contabilidade de ‘gastos’ sociais, a serviço do titular de cada área, não raros com atritos entre eles.

É conhecido o comentário da atual presidenta Dilma Rousseff sobre o desmonte que encontrou no ministério das Minas e Energia, quando assumiu a pasta em 2003: ‘Tinha 20 motoristas; apenas um engenheiro’.

O PT, portanto, negligenciou seu próprio diagnóstico.

Um Estado recém saído de um ciclo neoliberal não poderia ter recursos materiais e humanos para sustentar uma política de segurança alimentar com a abrangência e a profundidade condensadas no Fome Zero, em 2003.

Acrescente-se a isso o cerco da oligarquia conservadora ao programa.

A concepção original do Fome Zero pressuponha a organização dos beneficiários que, progressivamente, assumiriam o seu controle como antídoto ao clientelismo e à manipulação política. Nada mais democrático. Tal horizonte, porém, atiçado pela mídia, assumiu contornos de ‘semente do chavismo’. Excitaria assim os sucos gástricos do anti-comunismo conservador e da resistência oligárquica – inclusive da Igreja Católica – em abdicar da ‘administração de seus pobres’.

Foi essa pá de cal que exigiria um recuo cirúrgico, com fatiamento do Fome Zero em políticas setoriais, cuja unidade estrutural acabaria sendo retomada apenas no segundo mandato de Lula. Ainda assim, foi preciso uma crise mundial igual ou superior a de 1929 para que as políticas sociais desdobradas do plano original – como a recuperação do salário mínimo, o Bolsa Família, o fortalecimento da agricultura familiar, o reforço a merenda escolar etc – ganhassem legitimidade, funcionando como robusto contrapeso de mercado de massa à contração econômica internacional.

Ao final de 2002, após oito anos de FHC, o IBGE havia divulgado uma pesquisa em que apontava a existência de 54 milhões de brasileiros – mais de um terço da população então – vivendo em estado de penúria, com até meio salário mínimo por mês. Havia fome bruta entre eles, por mais que o colunismo da Folha, sabidório, confunda saciamento e obesidade às custas de comida barata (gordura e refrigerantes) com nutrição e ausência de fome. Agora, em junho de 2011, a Fundação Getúlio Vargas acaba de divulgar um estudo que resume o que se passou após a longa caminhada de regeneração do Estado e das políticas públicas afilhadas do primeiro plano de segurança alimentar criado pelo PT, em 1991, base ao Fome Zero.

A renda per capta dos brasileiros mais ricos, informa a FGV, cresceu 10% na última década; a dos mais pobres aumentou 68%. O ganho de renda dos brasileiros mais ricos foi inferior à média registrada nos demais integrantes do Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul). Em contrapartida, o crescimento da renda dos 20% mais pobres só perdeu para a China. No governo Lula, o mercado de consumo incorporou um contingente da ordem de 50 milhões de brasileiros – o equivalente a uma Espanha demográfica.

Foram essas as credenciais que levaram o Brasil e Graziano à direção da FAO. E é a experiência dramática que elas condensam – de erros, acertos e potente sabotagem conservadora – que dão a ele a possibilidade de sacudir a letargia dessa organização, irrelevante, segundo a direita – como irrelevante para ela são todas as instituições que possam se opor à lógica dos livres mercados.

 

VERSOS À BRIZOLA – de ademar adams / cuiabá

Leonel de Moura Brizola,
Legenda do meu Brasil,
Que nunca aceitou canzil,
Nem canga, maneia ou freio,
E agora te homenageio
De coração contristado,
Já que fostes pro outro lado,
Lá pro céu parar rodeio.

Foi prefeito, deputado,
Três vezes governador,
Um tribuno pajador,
Dos que não dão touceira,
E se lutou a vida inteira,
Pelo povo desta terra,
Sua morte não encerra,
A peleia na trincheira.

Enfrentou perseguição,
Da pátria foi exilado,
Por jamais fazer costado,
A patrão de além fronteira,
Pois, sua fé altaneira,
No brio da gente Brasil,
E enfrentou até fuzil
Com tiro de boleadeira.

Ao governar o Rio Grande,
Vejam a visão do Brizola,
Fez mais de seis mil escolas,
Pra ensinar o piazedo,
A aprender desde cedo,
O valor da educação;
E também fez revolução,
Iniciando a reforma agrária,
Contra uma elite, refratária
Que nunca reparte o pão.

Lutava por igualdade,
E tinha razão o paisano,
Que nunca jogou de mano,
C’ o capital estrangeiro,
Ele encampou altaneiro,
A energia e o telefone,
E então marcou seu nome,
De grande herói brasileiro.

Lembremos sessenta e um,
Quando levantou o Rio Grande,
Num grito que se expande,
Pra imensa brasilidade,
E no brado: “legalidade”!
A força da lei garantiu,
E João Goulart assumiu,
Pra nossa felicidade.

Na quartelada sanguinária,
De abril de sessenta e quatro,
A traição falou mais alto:
Derrubaram João Goulart,
Um homem bom, um baluarte,
E que faria a reforma,
Mas rasgaram toda norma,
U’a Milicada sem quilate…

O Brizola tentou resistir,
Foi levantar o Rio Grande,
Mas o Jango não quis sangue,
Tomou o rumo do exílio,
E morreu como andarilho,
Esperando sempre o levante,
Chorando a pátria distante,
Um Brasil fora do trilho.

Quinze anos desterrado,
Mas o Brizola sobreviveu,
Voltou para o povo seu,
Para cumprir o seu destino,
E derrotar o tal malino,
O capital estrangeiro,
Que no solo brasileiro,
Diz a missa e bate o sino.

Por isso lá nas estranja,
Tinham a grande temência,
O Brizola na presidência,
Faria levantar poeira,
E acabar com bandalheira,
Com coragem e qualidade,
Iria gritar: Liberdade!
Para a nação brasileira.

De tudo que produzimos,
O lucro vai pro exterior,
Nosso povo sofredor,
Sem saúde e moradia,
Vive em eterna agonia,
Nesse modelo que estiola,
Que sempre o velho Brizola
Combateu com galhardia.

Na luta pra presidente,
Enfrenou mal o cavalo,
E foi golpeado de estalo,
Para o mal desta nação,
Usaram a televisão,
Pra fazer daquela figura,
O Filhote da Ditadura,
Um presidente ladrão.

A marca de estância velha,
Que colaram no patriota,
Dizendo que era lorota,
A sua forte pregação,
E honesto por religião,
Dizia que todo o mal,
A perda internacional,
Era o câncer da nação.

Mas não parou de pelear,
Mesmo depois dos oitenta,
Ele tinha fogo na venta,
Maragato de qualidade,
Padrão de moralidade,
Neste país que é sem sorte,
E foi-se pra outros norte,
Deixando enorme orfandade.

Foi se encontrar c’o Getúlio,
Com Jango e dona Neusa,
Aquela que foi sua Deusa,
No inverno e no outono;
Mas no pago do eterno sono,
Tem outro encontro de fé,
Para gritar com o Sepé,
Que “esta terra tem dono”!

Ademar Adams – junho 2005

Botões, controles e comandos – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Gabriel não é um cara desta década, a segunda (já!) do século 21. Apesar do seu ano e meio incompleto, Gabriel nasceu na década passada. Há, pois, no mundo, gente muito mais moderna do que ele. Se ele fosse um dispositivo eletrônico qualquer, um sistema ou programa (também chamado software) de computador, um aplicativo dessa coisa antiquíssima e em vias de extinção a que, muito tempo atrás, se deu o nome pomposo e restritivo de telefone celular, sabiamente abreviado, nos dias de glória do dispositivo, para celular, apenas (há hoje muitos equipamentos dessa família que fazem milagres sem conta e maravilhas sem que se as imagine mas, talvez por esquecimento ou distração, não fazem ligações telefônicas ou não são usados para tal fim (na verdade usam o skype e outros recursos virtuais que, além de agregarem imagem em movimento e transferência de quaisquer tipos de arquivo, passam olimpicamente ao largo das velhas, superadas e vetustas companhias telefônicas que, na ânsia de se manterem vivas e rentáveis, autobatizaram-se de operadoras, algo supostamente muito mais nobre e elevado (desde que lucrativo, obviamente) do que uma reles companhia qualquer prestadora de serviços quaisquer.


Então: se o Gabriel, um aninho apenas completado em janeiro passado, já lá tão longe no tempo e nas nossas preocupações (qual era mesmo o nosso grande problema, o nosso enorme desafio, a nossa grandiosa dificuldade, o nosso monumental, insuperável, pesadelo no começo deste ano da graça de 2011 DC?), se ele fosse uma qualquer dessas bugigangas eletrônicas, tecnológicas, inúteis para o progresso humano e social do ser humano e social, ou outro miraculoso dispositivo de extraordinário sucesso relâmpago (um relâmpago é súbito, intenso e fugaz) que certamente surgirá no mercado no intervalo compreendido entre este momento em que escrevo o presente texto (à mão, com caneta e papel, lembram desses arcaicos instrumentos de escrita?, nas cadeiras da Ressacada, apenas para deixar aqui um registro romântico e sentimental) e esse momento em que lês o passado texto (praticamente o mesmo, embora concebido e degustado em situações, condições e estados de espírito totalmente diversos).


Assim: caso o Gabriel fosse qualquer dessas coisas efêmeras cada vez mais, ele já teria que ter sido descartado por obsolescência. No entanto, apesar disso tudo, ele tem a missão de testemunhar o rompimento do século 22.


O que acontece é que o Gabriel já está mesmo superado. Hoje espera-se muito mais, outras habilidades mais condizentes com as exigências e expectativas da vida, dos novos seres humanos, dos modelos-tipo da segunda década do corrente século, o qual corre à velocidade, não dos tempos presentes, mas da angústia existencial, cada vez mais acelerada e desnorteada, da vida pós-moderna, dessa atroz pós-vida.


Desde a mais tenra idade Gabriel foi fissurado por botões, teclas, chaves, interruptores e controles remotos. Desde cedo ele percebeu que, acionando-os, ele muda o mundo em redor: a televisão fica com chuvisco, o computador é instantaneamente desligado no meio de um trabalho importante, o volume do som sobe a alturas insuportáveis.


O que o está tornando obsoleto é o fato de que, numa atitude de resistência, Gabriel está sendo educado a perceber que existem comandos, que estes é que definem as funções dos botões e dos controles, e que os comandos é que devem ser vigiados e usados pelas pessoas. E não ao contrário.


Isto é muito grave.


Exposição “Máquinas” reúne obras de 16 artistas de vários países

A ação integra a programação paralela da Bienal de Curitiba

CURITIBA, 28/06/2011 – Nesta quarta-feira (29), será aberta ao público a exposição “Máquinas”, em Belo Horizonte (MG). O evento faz parte da programação paralela da 6ª VentoSul – Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba. A exposição apresenta obras de 16 artistas de vários países da Europa, Ásia e Américas e, alguns deles também participarão das exposições da Bienal de Curitiba, a partir de setembro. A ação é uma iniciativa do Oi Futuro, em conjunto com Goethe-Institut, com patrocínio da Oi, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura (MG), e conta com apoio do Instituto Paranaense de Arte e da 6ª Bienal de Curitiba.

 

“Máquinas” tem curadoria de Alfons Hug e Alberto Saraiva e co-curadoria de Paz Guevara. As obras expostas são dos artistas: O Grivo (Brasil), Chico Fernandes (Brasil), Roman Signer (Suíça), Ali Kazma (Turquia), Dinh Q. Lê (Vietnã), Laurent Gutiérrez/Valérie Portefaix (França/ Hong Kong), Zhou Tao (China), Michel de Broin (Canadá), Harun Farocki (Alemanha), Desire Machine Collective (Índia), Chen Chieh-Jen (Taiwan), Libia Posada (Colômbia), Lourdes de la Riva (Guatemala), Arirang (Coréia do Norte) e Chris Larson (EUA).

 

A programação geral da Bienal de Curitiba acontece de junho a dezembro de 2011 e inclui projeto educativo, palestras, mesas-redondas, cursos, oficinas, mostra de filmes, performances e interferências urbanas. As exposições na capital paranaense acontecem de 18 de setembro a 20 de novembro em diversos espaços.

 

Serviço

Exposição Máquinas
De 29 de junho a 21 de agosto

De terça a sábado, das 11h às 21h, domingo, das 11h às 19h

Galeria Oi Futuro BH: Av. Afonso Pena 4001 – Mangabeiras

Entrada franca | Classificação etária: Livre

Cadê o pronunciamento de Myrian Rios sobre pedofilia clerical? – por fátima oliveira / são paulo

Missionária da Canção Nova, comunidade católica de renovação
carismática, a atriz e deputada estadual Myrian Rios (PDT-RJ), que é mineira,
primou pela carolice exacerbada. Com seus melhores trejeitos de atriz,
verbalizou: “Não poder discriminar homossexuais é abrir uma porta para a pedofilia” (23.6.2011).

Ela tem todo o direito de professar a sua fé como desejar, desde que não cause danos a outrem e sem esquecer que as experiências do sagrado são diversas – nem todas atentam contra os direitos humanos – e que, em território
brasileiro, nenhuma religião está acima da lei.

A homofóbica deputada propala inverdades e ousa reclamar pelo direito de
discriminar a condição homossexual! Sendo ela de uma facção católica, se
tivesse intenção de combater o crime de pedofilia, seu mandato denunciaria a
pedofilia clerical de sua igreja. Lamento que o partido de Brizola, o PDT,
acolha gente de tal naipe.

É inegável que são ideias incompatíveis com inúmeros estudos
sociológicos, com os saberes das biociências e com a própria vida, que já
demonstraram que homossexualidade é uma coisa e pedofilia é outra e uma não
leva necessariamente à outra! Por que ela tenta embolar o meio de campo?

Não o faz por ignorância, mas por omissão e desfaçatez políticas,
esquecendo-se de que integra um ramo do cristianismo que há séculos imola
sexualmente crianças, jovens e mulheres; e que santifica a maternidade e
sataniza as mulheres. É público que, diante da pedofilia clerical, a omissão do
Vaticano tem sido a regra, pois compactua e dá guarida a um signo maldito da
dupla moral sexual – crimes clericais de natureza sexual, como registrei em “O
Vaticano arde nas labaredas do inferno por causa da pedofilia”: “O furacão da
pedofilia, depois dos Estados Unidos e da Europa, chegou à Alemanha, pátria do
papa, depois na diocese do papa, agora dentro do Vaticano, na Congregação da
Doutrina da Fé, onde o cardeal Joseph Ratzinger foi prefeito – por 24 anos, de
1981 a 2005 -, apontando para a sua responsabilidade direta” (O TEMPO,
30.3.2010).

Em março de 2010, um irmão de Bento XVI, Georg Ratzinger (87 anos),
apareceu como um dos envolvidos no escândalo de pedofilia quando era diretor
musical do colégio interno de Ratisbona (1963-1994). Ele tem negado. Em seu
papado, Bento XVI só se mexeu quando a Igreja Católica começou a perder
patrimônio, vendendo igrejas para pagar indenizações das vítimas, o que o
obrigou, no encontro com bispos irlandeses, a declarar que a pedofilia era
crime hediondo e pecado grave – até então, nem pecado era!

Em 2011, no rastro da notícia de que vítimas belgas de padres pedófilos
processariam o papa, o Vaticano, em carta aos bispos, resume as práticas
adotadas na Alemanha, na Áustria, na Bélgica, nos EUA, na Holanda, na Irlanda,
na Itália e em vários países da América Latina para enfrentar o sangradouro de
dinheiro nos tribunais e recomenda que “os membros do clero suspeitos de
pedofilia sejam entregues às autoridades civis competentes” (15.5.2011).

A assessoria de imprensa do Vaticano anunciou para fevereiro de 2012, em
Roma, uma reunião de bispos e chefes de congregações religiosas para dar uma
“resposta global aos problemas de pedofilia”, segundo as diretrizes de luta
contra a pedofilia formuladas em maio passado pela Congregação da Doutrina da
Fé (13.6.2011). Ou seja, enquanto não meteu a mão no bolso, a Santa Sé não
tomou providências.

Desconheço pronunciamento da deputada a respeito da pedofilia clerical.
Está passando da hora de fazê-lo!

Fátima Oliveira é médica. 

Final de tarde – de tonicato miranda – curitiba

 

para Helena Kolody

 

felizes os que morrem com a tarde

finando seu ciclo de claridade e luz

felizes daqueles diante de um copo

a mirar a própria lágrima derretida

 

felizes os seres estes que mugem

vejo o azul cobalto na flor do maracujá

vejo um prego coberto de ferrugem

e belezas na luz da tarde a soçobrar

 

felizes os que sabem um sopro soprar

beijando no lábio a musa tão querida

ah esta tarde derramando-se na noite

leva-me contigo onde outras tardes há

 

feliz aquele que perdoa sua tristeza

nada mais vejo agora no céu a chorar

a folha da palmeira antes pura beleza

foi a casa sonora de um pio de sabiá

 

não há mais felicidade morando aqui

saudade da janela e de um pé de piqui

arrastando folhas a murmurar: estou aqui

minha cara boba a dizer: eu vi o piqui cantar

 

o cinza já derreteu todas belezas do ar

e a cor é somente luz, já disse Helena

sinto a lavanda dela a pairar no ar, a pairar

e sua alegria dos dentes à mais longa melena

 

feliz você que já partiu, não viu esta tarde

onde me ponho a chorar como chaleira velha

saiba, mesmo cinza a tarde é linda como árvore

qual aquela no terreno ao lado a me namorar

O ANJO VINGADOR DOS POETAS RECUSADOS (fragmentos) – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Sentidos pouco sentindo no
marasmo dos dias thorpes. Sentidos vãos quando tudo está certo equilibrado no
tempo do sem-tempo. Para um herói qualquer dia é dia e a vingança não pode
durar mais q. alguns segundos.

Os
mortos vivos vão saindo das tumbas e vindo pro lado do anjo vingador vindo
trançando figas e coroas de flores os mortos vivos alarmados com algo q. não os
deixa dormir em paz algo q. passa pelo vão das pedras e não é formiga algo como
posso dizer estranho por nascença energia branda q. atormenta até morto
redormido. As almas pusthulentas interagem com algo q. está no ar e vagam os
espaços noturnos: estradas, beira de matas, costeando rios e cercas, sob pontes
e viadutos. O anjo cansa de ver as presenças negras nos mapas q. transita e
chega cumprimentá-las nos encontros acidentais. Ver a morte sempre de perto a
morte transnascida naquelas almas noctívagas refresca o pensamento de quem está
vivo :vivo: vivíssimo cheio de energia boa pra queimar pensamento no pensamento
criação na criação poema no poema prosa na prosa melodia na melodia rosto na
argila Cego
um poeta conta estrelas cego um poeta se avizinha do precipício cego uma alma
geme transmundos na fala. Lingüista algum explica!

A
diferença hoje é escrever com signos bólidos tridimensionais no espaço e não
com frases sentenças empoladas onde os signos da composição ficam entremamente
dependentes uns dos outros. Os signos avançam em todas as direções como vespas
autônomas sem destinação e é só apreende-las no espaço e lhes impor contexto
ludoespacial. Poetas gostam de complicar o simples e simplificar o complexo.
Poetas sabem fazer sopa de signos só pra ver no q. vai dar. Poetas refazer o
benfeito desconstruir reprojetar o estabelecido no tempo como forma de animar a
vida e a arte. Poetas, adoram abrir caroços dos frutos pra ver o q. tem dentro.
Poetas, impor significados às coisas não nascidas. Poetas, criar problemas de
entendimento. Contradição na contradição: existe o mundo do incriado, onde as
coisas ainda não nominadas animam sem rigor ou finalidade a vida. Poetas
mergulham nesses pântanos pra pinçar o q. se pode aproveitar, nominar, e fazer
existir pra todos. Comigo é assim e com meus irmãos deve ser muito pior.

De
tanto andar corpo a corpo com o chão o ser impoverteu-se: melhor dizer q. virou
pó.

Subi
naquela velha caixa de maçãs (não sem antes cortar o pedaço duma pro meu
pássaro yogurt) e proferi palavras de baixo calão enquanto moças brancas de Curitiba papel de
celofane no olhar e sandálias plásticas sorriam sobranceiras minha patética
figura naquele estado digamos assim rifutembho de aprofundamento poético
ficto-ético-esthético-existencial. Sim pois pra dizer o q. diria não dava pra
pensar outra coisa um paraíso na terra com belas polakas e um inpherno no céu
com gente te mandando trabalhar te impondo salário subordinação horário pra
cumprir dependência até pra limpar o cu cheio de limalhas pratas com círculos
preciosos do torno mecânico q. as criou por acidente. Um acidente dos sentidos
mentir q. se é o maior de todos os heróis anti-heróis personas erigidas por mentes prodigiosas. Mentir q. se é o maior
pra si mesmo compor filmes apavorantes com muitos corpos destroçados nos campos
de batalha e beber um vinho tinto suave temperatura ambiente depois do almoço
sobremesa de pêssego com calda e creme de leite uma polaka nua no quarto do
andar de cima de cima da terceira nuvem do viajante cósmico (nua e lúbrica
raspando a língua no batom vermelho dos cantos da boca) o anjo vingador q.
chegou pra vingar as polakas recusadas e amar a todas todas todas mantendo um
polakário particular no sítio das estrelas onde se recolhe trezentos e sessenta
e três dias por ano claro q. pelo menos umas horas se deve descansar nesse
pérphido ofício e périplo desregrado inglório de anjo vingador dos poetas
recusados. Afinal de contas ninguém é de estanho e estranho q. as puthinhas da
quinze deram agora de grudar no celular suas orelhas calejadas de golpes de
pica. Não se fazem mais programas como antigamente trintão por pegada boquet’s
grátis e massagem de língua na glande inflada. Vá pra casa mano, cuidar o filho
teu com a empregada, antes q. descubram tudo. Não deixe o piá passar sede
fome… te vira malandro. O anjo vingador dos poetas recusados tem mais de mil
e quinhentos polakinhos por esse orbe infielíssimo e nunca tu ouvirá reclamação
de um dente por fazer nos pirralhos. O anjo toma conta de tudo, claro q. sob a
regência das centenas de polakas q. compõe seu sórdido (e convenhamos
maravilhoso!?) imaginário. É responsa mano. Responsa, sabe o q. é isso!? Sabe
porra nenhuma, nem lavou o cê-u hoje e tá cheirando a sulampra do mês passado.
Sulampra pra quem não sabe é aquela porrinha de mnerda q. fica grudada nos
pentelhos do cu fazendo o maior estrago sujando a cueca às vezes até a calça e
dando ao agente detonador da nathureza (o trouxão) aquele cheiro característico
de prustifructo singular. AH VÁ TE PHODER ESPECTRO REVERTIGO DE SUPREMA
CUTILEDÔNEA SPRIÊNCIA LÚBRICA NUS TREE LENÇÓIS! Vou dizer e digo blasfemo
ensandeço contra o infinito. É só me tirar uma polaka e veja como fico.

Muitas
almas me freqüentam esplendoríndeas muitas almas muitas vidas de contra-favor
onde estou não fico onde fico não estou transmudo-me entre as raízes retorcidas
da paisagem.

Escrever simples e
complexo escrever erudito e popular escrever pra professores e estudantes
escrever pra poetas e pintores escrever por escrever sem ter q. dizer porque
pra que e pra quem eis a vida do anjo no solitário ofício de lançar palavras ao
espaço seus  signos de artifício o anjo e
sua sanha de desvelar os mundos escondidos do saber as verdades q. estavam ali
na pedra sob as árvores e ninguém imaginava o anjo em prospecções inúteis procurando
dar significado e nominação às coisas não-nascidas q. faz nascer a força um
anjo investido de sóis estranhíssimos nessa terça-feira de tédio e tentações.
Os convites são mais q. sedutores: o diabinho da direita diz q. é pra nadar
desnudo no rio o da esquerda incita a mandar um poema pra gata de olhos
amendoados q. tá na garupa do grandão supertatuado da motocicleta. É sempre
assim correr os riscos das tentações a cada momento e nunca deixar a peteca
cair. Todas as vezes q. sentir prazer escondido renegue-o para o bem da vida.
Prazer tem q. sentir-se às claras de olhos bem abertos e com amor amor amor q.
é tudo q. mais interessa nessa porra de vida onde estamos condenados a sofrer e
ser enganados e nos roubarem a moto e nos despedirem do emprego e nos
atormentarem com propostas indecorosas e nos fazerem crer q. o paraíso é pra lá
do mundo dos vivos e nos torpediarem dia-a-dia com aquela história de camisinha
de evitar a aid’s de evitar as nocivas relações promíscuas. O agiota, fia da
putha, tá pouco interessado em algo fora dos juros sobre juros a receber dos
trouxas, o agiota bancado pela vida q. não quer trabalhar. Tudo q. não presta
no olhar do crúsphito encostado no muro do colégio vendendo drogas aos
pequeninos. Uma mnerda a vida em meio a essa corja sem escrúpulos. Pureza nas
relações pureza na vida longe dos pais difícil acreditar q. alguém entenda o
mundo dos q. estão por vir e já devem estar a caminho. Com teus pais uma vida
grampeada no amor amor sobre todas as coisas vivas e mortas desse mundo. Lá
fora, além do pátio só martírio sacrifício de mano só pra ver a vida gemer. Te
liga transfirmotente em meus delírios de vingador te liga q. uma nuvem de
signos obnubla o quarteirão e são de minha lavra os proliferados vociferinos
contra os pulhas a corja as eminências pardicenthas do mal q. não as vejo mas
sinto de próstata inchada e impotência irreversível sobre aquelas velhas
cadeiras de espaldar.

reflexos nos espelhos
espetacular jogo de luz espelhar na sobrevivência. Os mortos vivos impõem o
contraponto do viver na sua inútil condição de seres nacaráctios. Para um anjo
q. viaja todos os orbes nada surpreende. Fogos de artifício nathurais cobrem de
luz os espaços negros da criação. Entre os raios lanchispantes vivas-almas
conquistam espaços novos nas relações, campos onde progridem os pensamentos
bons. Se há campos de pensamentos bons, há também os dos ruins. E ali onde
maltratam poetas, um dia haverá um circo pra mostrar os pulhas ao público. Os
pulhas q. sempre ficam atrás das cortinas, nos gabinetes dos maus espírithos,
elocubrando perversas ações. Os pulhas e seus patrocinadores não menos pulhas,
sem mulheres e sem amor, sem poesia e sem emoção. Os pulhas, cus de peixes,
frios e resistentes, em suas campanhas de tudo aniquilar, quando se trata de
arte, cultura, criação, talento & ímpeto. A garotinha q. tá fazendo Letras,
não entende ou não quer entender minha sacrossanta indignação. Pobrezinha…
nas mãos de tolos acadêmicos, vai perder parte da visão, parte da vida, parte
do entendimento estético, parte da ideologia poética, parte de parte da parte
da partitura. Para um anjo menina de belas intenções uma ópera se compõe em
poucos dias uma ópera como apoteótica revelação da vida abaixo da razão a vida
do mnerda q. somos sobrevivendo como rato de bueiro barata de pia mosca de
potreiro sempre a entornar o podre o q. fede o q. esterquilina. Um gole de água
tônica q. tem quinino pra tirar esse gosto amargo de mágoa na boca esse gosto
de revolta contra o sistema e a vida dos pothenthori’s com suas mãos pegajosas
de betume derretido acrescido de ranhos sangue veneno de cobra cuspe de sapo e
fezes de lagarto.

Muitas
almas me freqüentam esplendoríndeas muitas almas muitas vidas de contra-favor
onde estou não fico onde fico não estou transmudo-me entre as raízes retorcidas
da paisagem.

Escrever simples e
complexo escrever erudito e popular escrever pra professores e estudantes
escrever pra poetas e pintores escrever por escrever sem ter q. dizer porque
pra que e pra quem eis a vida do anjo no solitário ofício de lançar palavras ao
espaço seus  signos de artifício o anjo e
sua sanha de desvelar os mundos escondidos do saber as verdades q. estavam ali
na pedra sob as árvores e ninguém imaginava o anjo em prospecções inúteis
procurando dar significado e nominação às coisas não-nascidas q. faz nascer a
força um anjo investido de sóis estranhíssimos nessa terça-feira de tédio e
tentações. Os convites são mais q. sedutores: o diabinho da direita diz q. é
pra nadar desnudo no rio o da esquerda incita a mandar um poema pra gata de
olhos amendoados q. tá na garupa do grandão supertatuado da motocicleta. É
sempre assim correr os riscos das tentações a cada momento e nunca deixar a
peteca cair. Todas as vezes q. sentir prazer escondido renegue-o para o bem da
vida. Prazer tem q. sentir-se às claras de olhos bem abertos e com amor amor
amor q. é tudo q. mais interessa nessa porra de vida onde estamos condenados a
sofrer e ser enganados e nos roubarem a moto e nos despedirem do emprego e nos
atormentarem com propostas indecorosas e nos fazerem crer q. o paraíso é pra lá
do mundo dos vivos e nos torpediarem dia-a-dia com aquela história de camisinha
de evitar a aid’s de evitar as nocivas relações promíscuas. O agiota, fia da
putha, tá pouco interessado em algo fora dos juros sobre juros a receber dos
trouxas, o agiota bancado pela vida q. não quer trabalhar. Tudo q. não presta
no olhar do crúsphito encostado no muro do colégio vendendo drogas aos
pequeninos. Uma mnerda a vida em meio a essa corja sem escrúpulos. Pureza nas
relações pureza na vida longe dos pais difícil acreditar q. alguém entenda o
mundo dos q. estão por vir e já devem estar a caminho. Com teus pais uma vida
grampeada no amor amor sobre todas as coisas vivas e mortas desse mundo. Lá
fora, além do pátio só martírio sacrifício de mano só pra ver a vida gemer. Te
liga transfirmotente em meus delírios de vingador te liga q. uma nuvem de
signos obnubla o quarteirão e são de minha lavra os proliferados vociferinos
contra os pulhas a corja as eminências pardicenthas do mal q. não as vejo mas
sinto de próstata inchada e impotência irreversível sobre aquelas velhas
cadeiras de espaldar.

não tem ninguém

nessas miragens

heras sobre as pedras

o sangue dos mártires secou

como secará o meu

em teu amanhã de mentiras

Um
anjo vingador vingar passado presente e futuro do q. ainda nem nasceu nascerá
como é de se nascer apto a consertos. Meu périplo de anjo salvador vingador dos
poetas recusados começa num dia de sol soliníssimo de segunda-feira e passa por
noites de pau d’arcos com Augusto dos Anjos Pedrinho da Mampusheira o rude
Orástino da Silva o lírico Meliandro do Ingá o neobarroco Neco Ripo o sexínio
Ertho Murthis o inventor de linguagens q. criou poemas cut-ups (cutapes em
tupiniquim celerado) transgressoras colagens alla literatura de William Burroughs
Carlo Ferri q. esculpe no gelo seco universos paralelos com imensas naves
torres e ovnis Artur Landis q. apavora na noite com seus poemas sinistros de
supra-realidades, sempre depois da meia-noite nos bares, estrepa-se na Ilha da
Magia daqueles tempos com Cruz e Souza transgride com os loucos letargidos, os
pictóricos desassistidos e atola seu cavalo monet na mnerda da mediocridade. Um
quê de anjo todo mundo tem vingador se revelar consertador das coisas
incompreendidas dos atos pensamentos retornados sem sentido da vida q. alumbrou
ser estenuou no não-viver. Em muitos campos desolados brandi minhas espadas de
lata. Aquela vez q. invadi o Projac da Rede Globo Televisions transvi
tressaltos de desencantos. Minha fúria hostil não encontrou escora no entre
câmeras. Madames atrizes diretores bichas produtores pan-livrertinos &
marqueteiros vendedores de mães evoluíram seus desajustes. Siga bem condoreiro
anjo vingador dos poetas recusados. Sigo tresando nos meus dias negros. Esphias
nas esphias séphias, um galo há de brigar sempre pela mesma franga. Falar nisso
mano, manja a farsa dos dias enuviados com absinto falsificado!? Não erijo
transmundos por brincadeira nomino coisas só pro gasto e tudo tem seu ofício de
permanecer em mim. Te
transfiro um pouco de minha ira santa. Desbancar os bancados q. nos oprimem.
Teu bus de papelão vaga essa cidade neferthímora. Quantas vidas entornadas no
lixo!? Minha poesia nossa vossa adentra as searas sujas da periferia. O anjo
vingador está aqui. Me anuncio implume pássaro no carnaval polako. Já deves
estar putho com essa história forjada de um anjo vingador q. vem da linguagem
para a vida do nojo do signo transfimortente para a morte. Vá te cagar pentelho
espectral de aziagas noites. Nada te devo de meus arroubos operísticos. Um
doido convicto inventar conflitos só por prazer confluir as forças anímicas pra
tomar uma gelada no Bife Sujo. Da última vez o cézinha me trocou um cheque
voador de duzentas pratas q. atravessou três vezes a nado o Iguaçu. Vate
transfivatente dou gorjetas aos meus garçons preferidos. Nas vinhas do amor a
polaka espessa de sexo beija minha boca suja. Beija, suga, embaba de língua,
enosa chiclet’s e drops de hortelã untados de saliva energética. Signos
espérios meu garoto lambem o dizer criptofilho do chão.

A
coisa vinha vindo trinha sido tranha signos símbolos na minha língua grossa de
veios thérvios. A cornucópia do poeta é cheia do líquido precioso dê sua língua
à minha língua seu verbo thurvo a minha thurva esphia. Jesus nega os insensatos
e com toda razão des-razão apruma my verbo novo. A nathura q. louca amamos não
é por acaso também insensata em seus cataústricos!? Um poeta esmerilar os
signos nas amplas pedras do deserto. Como uma bala de fuzil cada nominata
dirigida a um inimigo. Nomeio coisas troisas pfscoisais loisas froixsas nos
meus desígnios. Um doido tirando formigas do formigueiro abandonado o anjo
vingador espalhador de ditos tranfusiados nichos de só-pensar. Elos nos elos
desengonçados. Perdida a febre terçã inicial da palavra e dos atos. Não é assim
q. se fazem heróis. Não é assim q. se fazem anjos vingadores. Um anjo vingador
dos poetas e artistas recusados se faz com ação conflito e solução do enguiço.
Este q. te fala é charlatão malquisto não age nada resolve não interage com o povo
e molesta polakinhas desprevenidas. Me entrelaço nas clareaduras de tua fala e
masco ervas amargas pra dizer-se só excluído recusado pelos editores atropelado
pelos mercadores marcado na volta da paleta pelos trívios políticos. Sou-me
risolentho esthertorante reflexímoro no mar do sonhar o ser sonhado e não deixo
visgo no meu rastro imundo. Tortilhas sonethárias nos jantares sob as
santas-bárbaras do norte do Paraná. Desci dali dos cafezais abandonados rio
Tibagi até o Piquiri e depois angulei ao Iguaçu o rio meu por excelência
agrilhoado em usinas.
Teus grilhões meu rio o anjo vingador romperá com dentes de
aço da terceira dentadura q. lhe deram em vida. Thorpes, essas
ogivas nas balas de hortelã não acalmam ninguém. Meu empresário vendeu um poema
por um prato feito em frente ao Passeio Público poema com gosto de carpa
húngara cravejada de poucas escamas douradas q. me roubou no acerto de contas.
Já viram o anjo vingador acertar suas contas com o empresário de sua poesia
recusada!? Só por deus ainda se fazem homens desse naipe enlevados no ofício de
sobreviver. Tangiro vencer o desvencido. Intenciono renovar o embolorado.
Minhas catanas descida dos triminhões das canas. Minhas armas de verdes hastes
embebidas no líquido espesso da cornucópia do poeta. Bom pra ti meu caro, esse
passeio pela língua do poeta o anjo vingador q. mata o passarinho de seu ofício
pra achar a pedra na vesícula.

Uma cobra escorregar pelo
barranco esgueirar pelos porões dos signos como uma língua extensa transverbal
uma língua eu-lúrica & magistral.

Um
pássaro é um pássaro uma formiga uma formiga um phósphoro um phósphoro uma
chave uma chave uma pedra uma pedra um caminho um des-caminho.

Um
anjo, manja de tudo um pouco e quando nada manja, arrisca. Se é pra vingar o q.
há de ser vingado, todas as armas são válidas, inclusive as do pensamento
enlevado. Poeta não pode ser o mnerda alienadão, q. pega uma receita de bolo e
fica naquela. Poeta q. é poeta arrisca tudo no conhecer em sendo, a fim de
trazer do nada o tudo q. ilumina a vida do poema.

Noutra
vez traveis desveis desci as escadarias da ampla Biblioteca de Alexandria e
naquela época pequenas moedas de lata tinham muito valor. Lascas de minha
espada como dinheiro naquelas soledades do deserto, trocadas por especiarias,
tapetes persas, sândalo, damasco, etc e tal. Com meu cavalo e uma criança li
livros herméticos naqueles templos. Livros costurados à mão. Livros dos
impérios do poder e da emoção. Sabe como se lê um libro hermético mi cidadon?
Cheirando-o. Os signos tem cheiro sim. Aprendi isso com as abelhas em colméias
abandonadas. Meu pai sempre fazia isso também cheirar os livros. Um anjo
vingador tem pai meu amigo pai como cada um de vós tranceiros duma figa. Um pai
progride com seu filho em suas loucuras de criação. Quantas vezes meu pai
imaginou seu louquinho-bom ganhando o mundo fudendo-se como espectro ambulante
alla 4Claudinei Ramos no seu périplo de três dias. Dá nojo enganar
polakinhas a troco de sexo, quando se é gerente de loja de eletrodomésticos em plena Marechal Deodoro,
próximo aos Correios. Um pai um sogro tios tias primos primas e amigos q.
desconsolo nos conhecerem em nossos repentes de imaginação. Um louco-bom
repercute em Santa
Felicidade a noergologia: 5Jacob Bettoni. O anjo
vingador dos poetas recusados o encontra escovando a bela égua alazã quarto de
milha. Ele vem noeticamente e enuncia conceitos revolucionários no paradigma
novo da psicologia. Um louco-bom como um arauto dos novos tempos, peripatético
sempre revoluteando as coisas. Jacob Bettoni me acena com a possibilidade da
protonathural philosophia estética e a noergologia comporem um único bloco
monolítico sapienthi’s pra enfeitiçar almas letargidas nas manhãs de
segundas-feiras ante as chaminés do pólo petroquímico. Um louco-bom sou eu
também poeta coça-saco de a pé e a cavalo, como diz o ditado-deitado paradão
cheio de chatos no acrílico onde o bus sosfrega e não vem. Um anjo vingador não
conhecer limites em sua luta de tudo levantar expandir como ofício de viver e
ser vivido amar e ser amado matar e ser matado. Nas barrancas daquele rio (o
Iguaçu) erigi transmundos só pra ver no que ia dar e deu: uma nau de carbono
luminosa crispou de lux trilux overlux o denso da floresta naquela noite. Tenho
certeza q. tinha gente dentro do tribuliço. Gente com olhos grandes e braços
abertos. Focos concêntricos para um mesmo (alvo) ideal, invisível. Um sinal,
era o sinal. E, o sinal era de signo ingos nigos sonigs perdido no
signário-vida e tive q. sair dali conquistar outros espaços com minha arte
singular de tudo transverter. Vem de príscas eras essa ânsia de inventar o
desinventado e interferir nos espaços sagrados da criação como um mephisto
invasor o anjo autoproclamado de salvador dos artistas recusados. Minha ira
santa enlevar o raso o letargido o transvencido como forma de animar a vida.
Meu castigo a incompreensão dos árvios iletrados dos púrcios néscios soberbos
em seus atóis. Para uma polaka de meu amor consagro essa verve: de primeira
insensata de segunda interferente de terceira auto-flagelada. Não se fazem mais
Cândidos ou o optimismo como antigamente, Dom quixotes, Macunaímas, heróis e
anti-heróis integrais em seus ofícios. Rapsódia nóia. Rapsódia nóia, ver,
sentir… tudo com o espíritho da vingança. A farinha q. o anjo vingador come é
q. traz os espectros sígnicos de sua verve alucinada e o pão q. a mesma amassa
é o pão de sua verdade representação esplendorosa do seu ser escroncho.
Inverossímil a linha de uma vida assim como a vertida agora. Nem um anjo
vingador satisfaz público empresário mecenas mídia loquaz pelo contrário um
louco deambulante pelos signos criar problemas de entendimento perverter as
mentes juvenis alardear significação como farsa às coisas não-nascidas.
Nascimento vida morte de um herói super-convicto q. acredita em correção do tempo
dos atos enfins dos homens para com os homens na história. O SOL eleva-se sobre
todos e distribui na mesma proporção quântica seus favores. O anjo vingador
também delibera e vence contra todos os inimigos comuns. Com esse ofício de
fazer poemas muitas almas penaram nos céus inphernos e purgatórios do Sr.
Dante. Selva selvagem selvagínia não há ninguém a minha espera ninguém nem um
sol de contra-favor a enovelar meu grito. Meu cavalo monet galopa por uma
estrada branca como uma polaka estirada em lençóis verdes uma estrada uma
polaka um oásis de prazer muito prazer na pororoquinha da marthininha muito
prazer lubricidade comesura de olhar uma polaka como uma flor sensual em seus
ofícios de amar amar sobre todas as coisas frias dessa cidade esses pontos de bus
cercados de cadeados invisíveis onde as almas esperam esperam o caixote de
papelão chegar combinado com outros caixotes e a vida repetindo-se sempre no
mesmo ritmo. Ritmo de lesa-vida meu irmão, sentido de pouco sentido, persigos
sobre persigos. Meu cavalo uma cancha reta como um louco evadindo-se do
inpherno de Dante. Atrás de nós as silhuetas dos trúmphicos imperiais do baixo
império/espíritho, almas trivilinas, soltando fogos pelas bocas. Siga comigo
seu verme strúnhio nesse domingo aziago. Vamos ver a fonte de onde vertem as
profícuas almas lângues. O que é uma alma lângue? Não tá viva, não tá morta, é
cruiféiz estaca no descampado da vida. Acabas por saber q. é uma expressão de
linguagem recém-criada como posso te dizer nefhertímora (nojenta, escabrosa,
escorchante). Não sabes com quem falas, pobre parvo espiroguentho. Comigo
aprenderás da vida seus melhores momentos. Q. bela polaka estirada no hall daquele hotel de terceira!? Q.
belas ancas no desperdício dos dias!? Já sei, não me venha com esse blá-blá-blá
de q. futebol é o q. interessa. Futebol antes de tudo e depois. Tá por fora
pica de trapo. Olor de creolina exposta ao sereno. O carinha do tênis, nos
iludindo com sua polpuda conta-bancária, bancado pelos nikteiros. Ora vejamos
pronóbis saturno nublinheski monte nardines pega o curtis o cavalo outro cavalo
como reforço providencial ao meu monet o meu crunspício (aquele q. sofre junto)
e vamos enveredar pro Sul. Farroupilhas hastes naquelas clareaduras de campos,
coxilhas, sangas e restingas. Digo q. mato e limpo o jaracatiá borbhota
sorthinífero no topo da canjarana e limpo com farpa de angico. Rude minha lide
nesses vergéis antigos. Na linha desse dizer muitas palavras se perderam nos
cimos das árvores muitos cascos gastos em cavalgadas inúteis. Esse dizer q.
atravessa eras e repousa no ombro esquerdo do anjo vingador dos poetas
recusados, como uma coruja, pássaro de bom ou mau agouro. Não esqueço nunca
daquela dos trezentos viúvos de polakas, lembra? Ou trezentas polakas viúvas de
defuntos vivos até o embate. A procissão dos mortos vivos reage em meus sonhos
quando estou fraco e cansado. A cabeça em recosto nas barbas de pau sob aquelas
árvores. Fraco e cansado, isso pouco acontece, mas enfrento meio-dormindo a
reação escrota dos mortos-vivos. Comigo é assim e com meu irmão o Birão é muito
pior. No asteróide ASPHIZ 8800 só de passagem quando me viram muitos
esconderam-se nos escombros da velha nave muitos morreram de medo do anjo
vingador q. mata e seca só de olhar. Uma vez uma tribo de Panfluetha’s mistura
de panviados com punhethas adentrou um trigal imenso e com minhas espadas
revistentes desnudei-os de um por um. Nada contra e nada a favor o milho cresce
nos amplos espaços do verso livre. Viu como se sai pela tangente!? O anjo
vingador do futuro guturaaaaaa… seu
grito de guerra com papel celofane na boca e um pente carioca pra
convocar legionários ao bom combate. No bom combate há o imperativo odiar
reconhecer o tranho e o perigo não se pode simplesmente atacar o q. sequer se
conhece ofereça perigo e tal e tal isso da guerra da luta fratricida coisas de
peleja tudo mundo deve saber de cor e salteado. A mesa dos Deonísios e
Philosísifos sentam-se os mnerdas das construções sígnicas. Os mnerdas e seus
afiliados sempre pardos eminentes nos gabinetes dos maus espírithos tramando
despautérios sacrifícios. Flagelos de vozes no degelo. Nada se cria e tudo se
copia na mesmasséia dos profedídithes. Massa mano, essas hastes de boas-falas
q. reverbero no espaço como biscoito protonathural. Não tem meu Sr. não pode
não haverá nunca de acontecer um anjo vingador vingar o já vingado amar o já
amado matar o já matado.

Uma
língua aderida de ciscos signos símbolos sinais pós asteriscos uma língua como
uma esteira luminosa na noite grande uma língua antropomística &
polissimbela.

Anjo
vingador dos poetas recusados venho quente na haste núbila abrir clareiras na
floresta escura para um colóquio estranho. Nem só de colóquios vive o homem e
tranço termos de ficar em tua vida pro que der e vier. Nos amplos horizontes a
escatológica vertigem todos mortos: o padeiro, o açougueiro (q. não perturbará
a mulher de mais ninguém), o vidraceiro, a prostituta, o padre, o militar, o
professor, o dentista (q. virou gangster), a enfermeira, a psicóloga (confusa),
o camelô, o advogado, o servidor público municipal, o político… todos mortos
sobre as folhas da relva ainda úmida do sangue dos poetas recusados todos
mortos e a cornucópia do poeta passando de mão em mão com seu líquido espesso
q. não é sangue e não é mel e não é vinho e não é leite e não é refrigerante e
não é cerveja e não se sabe e nunca se saberá ao certo o q. é q. é. Morta a
vida q. nunca nasceu cresceu expandiu como espera o anjo vingador em
conhecimento artístico reconhecimento do artífice q. faz e projeta e delibera e
inventa reinventa a vida como pode e deve. A cornucópia do poeta é invisível e
vc aí esperando o busão já bebeu desse líquido precioso-néctar meu Sr. meu Sr.
de muitas fábulas invertidas, sem moral e sem história. Vais contar tudo amanhã
ou depois, q. ninguém em sã consistência de gente ficará sem verve pra dizer e
oportunizar a todos sua experiência. No líquido espesso derramado em tua língua
a vida a vida de força de investimento nos atos fatos pensamentos te revelará
meu Sr., a glória de dizer o indizível de vencer o invencível tomará conta de
tua anímica força. Somos mais q. muitos imaginam. Mais q. tantos sonharam,
sonhamos. Muitos anjos vingadores nascidos da cornucópia do poeta do beber o
seu líquido espesso e agir e sonhar e deliberar e construir e reconstruir sobre
o lux owerlux trilux da vida e as trevas da morte. Um pai não procura defeitos
nos seus filhos. Um pai toca com as mãos os seus pupilos rumo ao futuro. Eu o
anjo vingador dos poetas recusados, unjo-te menino de boas falas um caminho muitas
sendas desígnios profícuos em tua vida. Naquele bar de beira de estrada parei
com meu cavalo monet. A moça loira (polaka) como era de ser me enovelou em suas
histórias de ficar. Fiquei. Meu cavalo estercou nas pedras da estalagem antiga.
O curió curioso deu uma cagadinha no ombro da bela e ensaiou três coices pra
cada lado, depois em sanha de urutago urucubou as coisas pro meu lado.
Sacatrapo du carilho pequetito estribilho de grilo, te mato fia da putha com
palito de dente afiado! Pra Curitiba hei de ir, pensei, sonhei, despensei,
ergui acampamento e com polaka e tudo parti. Entre um beijo e outro, costuras
de olhar, pegação, zanzeira com barrotranquira e cipó nas coxas grossas e pólem
viajante nos olhos amendoados. Pinecpecki no profhuri. Vindecthine soporhu
ghudam.

um superpesadelo negro nesta noite fria

como um flagelo demoníaco

suspendi a lança & cortei em cruz

três vezes os strúnhios inimigos

os inimigos não se afastaram

(demônios superconvictos)

mas saí pra fora do lúgubre transe

VASO GREGO de alberto de oliveira / niterói.rj

Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois… Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás-de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

Uma contra-revolução silenciosa em curso na Europa – por thomas coutrot, pierre khalfa, verveine angeli e daniel rallet / frança

A nova Governança Europeia visa colocar sob maior vigilância os orçamentos nacionais para reforçar as sanções contra os estados em déficit excessivo e limitar o crescimento dos gastos públicos. O pacto para o euro visa aumentar a flexibilidade do trabalho para evitar aumentos de salários e reduzir os gastos com a proteção social. A Grécia está no seu terceiro plano no espaço de um ano e viu a sua dívida e o seu déficit crescerem ao ritmo do empobrecimento da população. O mesmo destino aguarda a Irlanda, Portugal e Espanha. O artigo é de Thomas Coutrot, Pierre Khalfa, Verveine Angeli e Daniel Rallet.

Está para ser aprovado no Parlamento Europeu um pacote de seis propostas legislativas para uma nova política econômica da União Europeia. Enquanto isso, os governos europeus subscreveram em março um “pacto para o euro.”

Do que se trata? A nova Governança Europeia visa colocar sob maior vigilância os orçamentos nacionais para reforçar as sanções contra os estados em déficit excessivo e limitar o crescimento dos gastos públicos. Uma medida já tomada completa o dispositivo, o”semestre europeu”, que pretende apresentar ao Conselho e à Comissão os orçamentos dos estados antes mesmo de serem discutidos pelos parlamentos nacionais. O pacto para o euro, seguindo a proposta Merkel-Sarkozy de estabelecer um pacto de competitividade, visa, nomeadamente, aumentar a flexibilidade do trabalho, para evitar aumentos de salários e reduzir os gastos com a proteção social.

Essas medidas são tomadas em nome de um argumento de aparente bom senso. Os Estados não podem pedir ajuda à União se não houver regras. Mas, na ausência de qualquer debate democrático sobre as políticas econômicas a adoptar, as atuais medidas acabam por enfraquecer os parlamentos nacionais em benefício dos Ministérios das Finanças e da tecno-estrutura europeia. E de que ajuda se trata? Os montantes emprestados pela União são obtidos nos mercados a juros relativamente baixos e emprestados aos Estados que estão em dificuldades a taxas de juros muito mais elevadas. É o povo que paga o preço mais alto com a implementação de planos de austeridade drástica, arruinando qualquer hipótese de recuperação económica. Prova disso é o exemplo patético da Grécia, agora no seu terceiro plano no espaço de um ano, que viu a sua dívida e o seu déficit crescerem ao ritmo do empobrecimento da população. Enquanto isso, os bancos podem continuar a refinanciar-se junto do Banco Central Europeu (BCE) com taxas ridículas, e a emprestar aos estados com juros muito mais altos. Assim, em fevereiro, as taxas a dois anos para a Grécia ultrapassaram os 25%. Não são as pessoas que recebem ajuda, são os bancos e os bancos europeus, em particular!

O mesmo destino aguarda agora a Irlanda, Portugal e a Espanha. Mas todos os países europeus são confrontados com o mesmo tratamento. Os governos, o BCE, a Comissão e o Fundo Monetário Internacional (FMI) usam a purga social como os médicos de Molière usavam a sangria. Numa Europa de economias totalmente integradas, onde os clientes de uns são os fornecedores de outros, tais medidas levam a uma lógica recessiva e, portanto, a uma redução das receitas fiscais que vai alimentar ainda mais os défices. Socialmente desastrosas, são economicamente absurdas.

Mas, dizem-nos, não havia outra opção. É preciso “assegurar os mercados.” Reconhecemos aqui o argumento final, o famoso “Tina”, que foi, a seu tempo, empregue por Margaret Thatcher: “There is no alternative.” Na verdade não há alternativa, se continuarmos a submeter-nos aos mercados financeiros. Este é o ponto cardeal e o ponto de partida de qualquer política. Como tal, para a votação do Parlamento Europeu marcada para junho, esperamos que os partidos da esquerda europeia se recusem claramente a votar em propostas com consequências dramáticas para a população.

É possível – e hoje é indispensável – uma verdadeira ruptura: ela vai consistir não em “tranquilizar os mercados”, mas organizar o seu desarmamento sistemático, começando por lhes retirar o primeiro instrumento de chantagem, a possibilidade de especular com as dívidas públicas. Antes da crise, a origem da dívida estava na queda de receitas devida aos benefícios fiscais feitos às famílias mais ricas e às empresas. No momento da crise financeira, os Estados foram forçados a injetar quantidades maciças de liquidez na economia para evitar que o sistema bancário entrasse em colapso e que a recessão se transformasse em depressão. A explosão dos déficits tem, portanto, as suas raízes no comportamento dos operadores financeiros que são a causa da crise.

As dívidas públicas são, em grande parte, ilegítimas e, portanto, uma auditoria pública da dívida permitirá decidir o que será reembolsado ou excluído. O BCE deverá poder, sob supervisão democrática europeia, financiar os déficits públicos conjunturais. Uma reforma fiscal ampla, tanto em nível nacional como europeu, permitirá encontrar espaço de manobra à ação pública. Tais medidas requerem, portanto, vontade política para romper com o domínio dos mercados financeiros sobre a vida econômica e social. Esta vontade política, de momento, não existe. Será preciso impô-la. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, falou de uma “revolução silenciosa” a propósito das medidas tomadas pela União Europeia. Preferimos falar de contra-revolução, mas, ao passo que Durão Barroso rejubila, nós só podemos lamentar o quase-silêncio, especialmente da França, sobre estas questões que são, no entanto, capitais. Como gritam os manifestantes da praça Puerta del Sol: “Não é uma crise, é uma ladroagem.” Essas políticas encostam a União Europeia à parede: está na hora de inventar outra coisa.

(*) Thomas Coutrot, co-presidente da Attac França; Pierre Khalfa co-presidente da fundação Copérnico; Verveine Angeli, sindicalista; Daniel Rallet, sindicalista. Publicado no jornal francês Libération, em 7 de Junho de 2011.

Tradução de Deolinda Peralta.

SERGIO ARCHER comenta em CLAUDIO KAMBÉ – artista visual / itália

COMENTÁRIO:

Sergio R. B. Arche | junho 24, 2011 8:07 am às 8:07 am | Responder | Editar

O Claudio Kambé esta para a arte assim como Albert Einstein esta para a Fisica.
A cidade de Roma tem saudades de vc.

um abraço

.

JUSTIÇA

.

veja neste site a página de KAMBÉ 

Igreja Universal colocará fiéis devedores no SPC e SERASA

do G17

A Igreja Universal vai enviar para o SPC/SERASA os fiéis que estão com o pagamento do dízimo em atraso. A medida tomada pelos bispos com o objetivo de reduzir a inadimplência por parte dos fiéis. O departamento de finanças e arrecadação da Igreja, não informou a quantidade de inadimplentes, mas estimasse que os maus pagadores estão causando um prejuízo mensal de quase 1 bilhão de reais.

Quem estiver devendo o dízimo e não quiser ter o nome incluso no SPC ou SERASA, deve entrar em contato com a Universal para renegociar a dívida, podendo parcelar no cartão de crédito o débito, com uma baixa taxa de juros de 72% ao mês.

Além da inclusão dos devedores no SPC e SERASA, a diretoria financeira pretende também cobrar multa, de rescisão de contrato, caso um fiel troque a Universal por outra igreja.

José da Silva Rodrigues Pimenta Pereira, disse que acha justa a medida da Universal, pois vai fazer com que os fieis sejam pontuais com o dinheiro de Deus. “Eu ganho 500 reais, e pago 200 reais pra Universal, nunca atrasei um pagamento, e tem gente que ganha muito mais que eu e atrasa, não acho justo, a Universal tem que tomar uma medida mesmo”, disse José ao repórter de G17.

.

o deus deles não perdoa! não entrou a grana vai pro spc, pro inferno e pro serasa! gostaria de saber o que deus faz com esse dinheiro, onde gasta, o que consome, onde mora, porque os ladrões da ingenuidade humana, da fé alheia, estes nós sabemos o que fazem com seus bezerros de ouro coletados diversas vezes ao dia nas “centrais do inferno”, em muitas ocasiões exigindo que o “fiel” entregue o dinheiro do pão da familia. lamentável.

A CANÇÃO DO RELÓGIO – de zuleika dos reis / são paulo


                          

Hora vai

Hora vem

ora vais

ora vens.

No vão dos dias

o pêndulo

vai-e-vem

não vais nem vens.

O pêndulo

entre teu vai e teu vem

entre teu não vai e teu não vem.

Os ponteiros do relógio

só vão

nunca vêm.

Viajante só de vai

nunca de vem

o tempo

passa o tempo

o tempo

nem ri de nós

só se esvai

sem saber de ninguém.

O trem que nos leva – de edu hoffmann / curitiba


Antes do pio dos pardais o trem apitava

sua locomotiva puxando VAGÕES VAGÕES VAGÕES VAGÕES … …

que não acabavam mais…

 

o trem cruzava a padre Germano Mayer

fazendo a manhã correr seu trilho, afugentando neblinas.

 

Ôrra meu, são seis horas, me enrosco no cobertor e

re-durmo no aguardo do amadurecer do dia.

 

No café, bolo de fubá mimoso, com bastante manteiga Aviação.

O café com leite, pra variar, pelando de quente. Só depois descascava

mimosa, fazendo companhia ao guapeca que festejava devorando o resto da vina de ontem.

 

Como todo piá pançudo, saía com a gurizada ranhenta, atravessando a quadra depois do sinaleiro, catando bolotas pra atirar com a cetra nos focos dos postes.

 

Sempre guardávamos algumas moedinhas pra comprar dolé.

Depois desse intervalo, íamos jogar betes ou soltar raia, já quase meio-dia, quando o sol já se alaranjava.

 

Tudo isso era louco de bom, quando nossas vidas ainda vestiam calça-curta

e qualquer ki-chute calçava nosso caminhos.

 

A benção, nossa senhora dos Pinhais !

 

Segredo de Estado – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Assim como o Estado é uno e eterno, o Segredo de Estado também o é, ou seja, reveste-se igualmente das propriedades de unicidade e eternidade inerentes ao Estado a que serve e, sendo segredo, deverá estar coberto por sigilo eterno.

 

Nossos contatos e a maior ou menor habilidade que tivermos para manejá-los nos permitirão agregar nosso segredinho particular a esse vastíssimo patrimônio chamado Segredo de Estado, resguardando assim nossa intimidade e nossa privacidade pelos tempos sem fim.

 

Sarney fez assim. Depois de posicionar-se energicamente, nas profundezas do Poder, contra a abertura “indiscriminada” dos arquivos nacionais, mesmo depois de 30 ou 50 anos, o ex-presidente da República, eterno presidente do Senado, veio a público para fazer joguinho de cena. Disse que não tem restrição alguma a que vasculhemos os documentos do seu governo, sua preocupação única dirige-se a questões de soberania nacional, que possam levar embaraço, ressentimento ou rancor aos nossos vizinhos. E foi triunfal: quem quiser saber o que houve em sua gestão, que confira na sua Fundação, no Maranhão, a cópia deles todos, mais de 400 mil documentos, abertos aos interessados.

 

O que ele omitiu (talvez por ser Segredo de Estado), é que existe um papel pregado na porta da instituição que diz exatamente isto: “A Fundação José Sarney comunica ao público que por motivo de restauração do seu acervo, suas atividades estarão suspensas por tempo indeterminado.” Suspensas talvez por 30 ou 50 anos, com direito a renovações perpétuas.

 

Collor é outro que também pressionou com sucesso o governo Federal no mesmo sentido. Ao que eu saiba, o atual senador, futuro presidente do Senado e antigo caçador de marajás, ainda não apresentou suas justificativas. Como se trata, porém, de um inventivo e fecundo ficcionista, logo teremos da parte dele uma saborosa história impessoal sobre sua posição a respeito do assunto.

 

E há, lógico, o caso crônico dos militares (e também dos diplomatas, sejamos justos com a História), que escondem documentos pelo menos desde a Guerra do Paraguai, ainda nos tempos do Império. Sequer a proclamação da República conseguiu romper os véus espessos que velam a participação dos nossos viscondes, condes e duques em intervenções, negócios e negociatas por aí. Dizem que, por questões de território e limites, poderemos ter aborrecimentos sérios com vizinhos como Peru e Bolívia, que se revoltarão contra nós se souberem do conteúdo dos nossos documentos eternamente secretos – o que significa a confissão implícita de que o Brasil (nós) foi desonesto ao tratar dessas questões, apropriando-se imoral e ilegalmente do que não era seu (nosso).

 

Mas, enfim, o nosso inabalável Judiciário está aí para auxiliar os interessados em geral na agregação do seu segredinho privado ao amplo repertório do Segredo de Estado. Na justificativa da sentença que manda retirar de circulação um determinado livro, o meritíssimo juiz do caso ensina com todas as letras: “O fato é que, independente da veracidade das informações e das respectivas fontes, houve excesso por parte dos réus na forma como [Fulano] foi descrito.” E cita uma decisão do Tribunal de Justiça gaúcho: “O dano moral não decorre da veracidade ou não do material divulgado, mas do abuso no exercício da liberdade de expressão”.

 

Desculpem-me, não me atrevo a revelar nome completo do juiz nem número do processo porque isso talvez seja Segredo de Estado, e nessas questões não convém arriscarmo-nos.

 

A história dos círculos nas colheitas (“Crop Circles”)

Os “círculos” nas colheitas, ou “crop circles”, como ficaram conhecidas as manifestações pictóricas ocorridas nos campos de cultivo da Europa e agora também em outros países são um dos mais fascinantes e profundos mistérios da atualidade. Embora sejam relacionados à atividade humana, nenhuma evidência comprovada foi encontrada nos círculos “autênticos”.

Nestes casos, nos círculos, ou em sua proximidade, nunca foram encontrados quaisquer traços ou pistas que indicassem como foram feitos ou por quem. Não há pegadas de pessoas, ou marcas de pneus de veículos, nem sinal de que as plantas em seu interior tenham sido manipuladas por humanos. Simplesmente, os círculos surgem do nada, portando uma mensagem inexplicável e desafiando nossa inteligência e tecnologia.

Duas organizações vêm fazendo estudo do solo dos círculos. Elas são o Center for Crop Circles Studies in England e uma organização conhecida como ADAS Ltd., trabalhando com o Ministério da Agricultura Inglês. Uma das coisas que eles descobriram é que os solos adquirem uma quantidade anormal de hidrogênio após cada formação. O único modo desta quantidade de hidrogênio aparecer assim seria se o solo recebesse uma carga elétrica extremamente forte.

A origem do fenômeno é bem mais complexa. Alguns estudiosos ingleses encontraram na capa de um tablóide londrino, datado de 22 de agosto de 1678, uma narrativa que faz menção à lenda do “Demônio Ceifador”, relatando a existência de misteriosos círculos nas plantações inglesas já naquela época.

Em outros casos, pessoas foram condenadas pela igreja por utilizar grãos provenientes dos círculos pra celebração de rituais de fertilidade. Também foram relatados casos nas décadas de 1930 e 40, alertando sobre o fenômeno.

Com o passar dos anos as figuras foram se tornando cada vez mais complexas, primeiro eram circunferências simples, depois surgiram circunferências duplas, triplas, quádruplas, quíntuplas, círculos com anéis, figuras triangulares, ovais, espirais, etc. e assim o mistério continua, os círculos viraram símbolos e depois figuras complexas e extraordinárias.

Com o aumento na quantidade e complexidade das figuras a cada ano, ficava evidente que aqueles misteriosos desenhos jamais poderiam ser feitos por mãos humanas, pois mesmo que tivesse uma multidão de pessoas desocupadas e interessadas em produzir tal fenômeno não iriam dar conta das centenas de círculos que já viam sendo catalogados em todo o interior da Inglaterra.

Com tal aumento na complexidade dos chamados Círculos Ingleses, ficou descartada a teoria inicial de que os círculos seriam simples marcas de trens de pouso de naves alienígenas. Ufólogos, geólogos, biólogos, matemáticos, físicos, astrônomos e céticos se revezam no mundo inteiro para tentar explicar este fenômeno, alguns com bons argumentos, outros chegam a ser ate ridículos, como a história divulgada pela TV Inglesa no final de 1991, de que dois velhinhos Doug e Dave, teriam feito tais desenhos durante a noite usando a simples técnica de puxar uma tábua amarrada a uma corda por sobre os trigais. Logo os céticos do mundo inteiro deram como encerrado o problema e desvendado o mistério.

Mas o que ocorreu nos anos seguintes foi uma explosão do fenômeno (mais de 3000) por regiões tão distantes e de forma tão acelerada que a dupla de velhinhos já não era capaz de realizá-los, exceto pela imaginação. Quando perguntados sobre as técnicas empregadas, muitas vezes titubeavam e não conseguiam dar explicações consistentes sobre as construções das imagens e muito menos sobre sua execução.

Descartando completamente a hipótese dos céticos sobre a autoria humana das imagens e voltando-se ao fenômeno original, observamos que as formações seguem padrões de geometria euclidiana, com complexas formas e motivos, atualmente com várias manifestações baseadas em geometria fractal e simbologia matemática, rica em mensagens codificadas sobre lavouras de grãos ao redor do mundo.

Mas o que temos de concreto até o momento?

1. Sabemos da pesquisa científica que eles são formados (as genuínas formações) por uma energia capaz de alterar a estrutura molecular da planta sem danificá-la. Além disso, também é capaz de alterar a taxa de crescimento e o seu padrão.

2. A energia envolvida parece ser benigna, mas sua natureza ainda é desconhecida.

3. Algumas formações irradiam uma onda de aproximadamente 5.7 Hz no espectro eletromagnético.

4. Ocorrem às vezes paralelamente ao avistamento de Ovnis.

5. Mesmo após a colheita, a forma dos círculos tem permanecido na terra durante pelo menos seis meses em alguns casos. Isto não pode ser conseguido por “formações na colheita” feitas por humanos.

6. Em algumas das formações, bússolas giram denotando uma anomalia magnética presente.

7. A plantação fora da formação não exibe as mesmas características encontradas dentro do círculo.

8. Não há nenhum nível de consistência. Em algumas formações temos o fator som, as anomalias magnéticas e impressões no solo, mas isto não quer dizer que iremos encontrar as mesmas características na próxima formação. Ainda assim, pode-se mostrar que os novos círculos fazem parte de uma formação genuína.

9. Se nenhum ser humano entrar na formação, a colheita (plantação) continuará crescendo e o fazendeiro não vai perder qualquer grão.

Assim, o que nós temos? Lindos padrões geométricos nos campos que desafiam nossas leis de lógica, da física e argumentos. Mas eles continuam aparecendo pelo mundo afora! Eles parecem ter um profundo efeito espiritual em todos os visitantes ou pesquisadores. Talvez, se nada mais houver, esta seja a razão da sua existência.

Olhando de perto

“Para cada coisa que acredito saber, dou-me conta de nove que ignoro.” (Provérbio Árabe)

Mas o que os cientistas dizem a respeito? Existe algum trabalho sério sendo conduzido neste campo? O que se tem realizado são pesquisas ainda incipientes e nenhuma com respaldo de grandes instituições. Entretanto com a multiplicação do fenômeno acredita-se que mais cientistas voltem os olhos para o fenômeno e tenham iniciativa para realizar estudos aprofundados.

Nos últimos meses, alguns pesquisadores tem se voltado para decifrar os códigos matemáticos impressos nas imagens. O resultado tem sido fascinante. Muitas das imagens produzidas este ano foram relacionadas a eventos astronômicos, como o eclipse de 1º de agosto, onde vemos várias alusões ao alinhamento planetário.

Outra fascinante descoberta foi realizada pelo astrofísico Michael Reed em decifrar uma imagem aparecida em julho deste ano próxima ao castelo Barbury, em Wilts, que continha claramente os dez dígitos do número Pi, a mais ubiqua de todas as constantes matemáticas. Segundo ele, “O pequeno ponto próximo ao centro representa o algarismo decimal, o décimo dígito foi corretamente aproximado, os segmentos angulares representam os dígitos com o salto do raio, de acordo com o valor de cada um, e começando por contar desde o centro, obtém-se exatamente o valor dos dez primeiros dígitos de pi: 3.141592654″

Outro aspecto fascinante das manifestações é a marca deixada nas plantas. As alterações biofísicas são de um grau desconhecido na sua origem, mas algumas simulações demonstraram que a aplicação de alta carga energética pode produzir efeitos semelhantes na estrutura das plantas.

Outros estudos tem sido conduzidos por biofísicos e biólogos moleculares no tocante à estas alterações, bastante peculiares e também impossíveis de serem produzidas por mãos (ou pés) humanos. Alguns estudos comprovaram alterações na parede celular das plantas, bem como alterações cromossômicas e embrionárias nas sementes. Entretanto até o momento nenhum estudo amplo foi publicado.

 

Conforme estas imagens produzidas na Polônia, onde um círculo foi observado em agosto deste ano, as características são semelhantes as demais manifestações, onde as plantas são “dobradas” a mais ou menos 20% da altura, produzindo nódulos no caule com detalhes interessantes, formando um “cotovelo”, que pode ser desenvolvido pela própria planta por pressão de crescimento, porém de forma muito mais lenta do que o ocorrido nas aparições, e nunca na mesma altura da haste e na direção paralela ao solo.

Indo além nas explicações

Testemunhas oculares que presenciaram formações alegam que os desenhos são frutos da manifestação de bolas luminosas, que podem estar agrupadas ou só, onde flutuam sobre as plantações geralmente durante a madrugada. Um vídeo controverso produzido por uma testemunha mostra uma formação em tempo real do círculo pelos ditos ovnis. Numa velocidade surpreendente, o desenho formado pelas plantas dobradas apresenta as mesmas características dos círculos autênticos. Este vídeo esta disponível [ aqui ]. Todavia parece que este é o único material produzido em vídeo até hoje sobre o fenômeno, embora multidões de pesquisadorese curiosos tenham tentado registrar estes eventos. Sempre ocorrem fatos inexplicáveis, como alterações no equipamento, descarga das baterias e até esquecimento de por a fita na câmera (sic).

Partindo do pressuposto de que as formas geométricas são originárias de manifestações energéticas desconhecidas, as bolas de luz ou quaisquer outro objeto voador não identificado traduz nossa total ignorância sobre física, principalmente após um século de descobertas quânticas. Descobiu-se que nosso universo é permeado por uma energia infinitamente maior e desconhecida: a chamada energia negra. De fato, esta energia não é escura, e foi apenas um nome escolhido para representá-la, talvez por ser escura para nosso entendimento.

Segundo a renomada bióloga evolutiva Elisabeth Sahtouris, o universo é permeado por formas de energia criativa, presente em todo o cosmos, que diz ainda: “We must collectively recognize what western science is only now discovering: that humanity and the rest of our living world are embedded within a far greater and fundamentally different reality than is encompassed by our current scientific worldview or paradigm. We are replacing the view of a non-living material/ electromagnetic universe with a greater non-physical reality of conscious intelligence as the never-ending source of scientifically known energy and matter a cosmic source that has been known in many human cultures from ancient times. It is fundamentally conscious and creative, transforming or transmuting into material universes and other creative ventures.”

Talvez estes fenômenos representem uma ótima oportunidade para a humanidade dar um salto significativo em seu desenvolvimento, não apenas pensando em que algo “extraterrestre” seja responsável pela salvação de nosso destino, mas que isto apenas está em nossas mãos, como nunca antes…

Dalmo Dallari: Suprema guarda da Constituição / são paulo

O Supremo Tribunal Federal acaba de tomar duas decisões de grande relevância pelos seus efeitos, mas especialmente importantes porque implicaram a correção de graves desvios de seu relevante papel constitucional e de sua responsabilidade como expressão mais alta do Judiciário brasileiro, padrão de respeito à Constituição e às normas jurídicas vigentes no Brasil. Em sessão de 8 de junho, apreciando, uma vez mais, o caso envolvendo o pedido de extradição do militante político italiano Cesare Battisti, pela maioria absoluta de seus membros, seis votos contra três, o Supremo Tribunal decidiu arquivar um processo de Reclamação que jamais deveria ter sido admitido, por falta absoluta de fundamento legal. A Reclamação é prevista no artigo 156 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, para as hipóteses de questionamento da competência do Supremo Tribunal ou da autoridade de uma decisão sua. Nada disso estava ocorrendo, e a Reclamação foi um artifício utilizado pelos advogados do governo italiano para criar a ilusão de que continuava aberto o caso Battisti e que por isso ele deveria continuar preso. A chicana foi repelida pela maioria dos ministros, e a Reclamação foi arquivada.

Em seguida, na mesma sessão, o Tribunal passou a julgar um pedido de soltura de Battisti, preso em Brasília desde 2007, por determinação do ministro Gilmar Mendes, relator do pedido de extradição formulado pelo governo da Itália. Essa prisão tinha caráter preventivo, visando impedir que Battisti desaparecesse ou fugisse, impedindo a execução da decisão de extraditá-lo, se tal decisão ocorresse. O Supremo Tribunal já havia decidido anteriormente, considerando atendidos os requisitos formais para a extradição mas reconhecendo, expressamente, que, nos termos do que dispõe a Constituição, a decisão final é de competência exclusiva do presidente da República. E Cesare Battisti foi mantido preso, à espera da decisão presidencial.

No dia 31 de dezembro de 2010, o presidente Lula tomou a decisão que lhe competia, negando atendimento ao pedido de extradição, fundamentado em dispositivos constantes da Constituição brasileira e do Tratado de Extradição assinado pelo Brasil e pela Itália. Em ocasião anterior, quando o governo brasileiro concedeu a Battisti o estatuto de refugiado, o que posteriormente foi revogado, membros do governo italiano investiram furiosamente contra o Brasil, tendo um dos ministros declarado à imprensa que o Brasil não é conhecido no mundo por seus juristas, mas “por ser uma república bananeira e por suas dançarinas”. A par disso, como foi noticiado pelo jornal italiano La Reppublica, houve manifestações de rua extremamente radicais, com cartazes afirmando, entre outras coisas, que Battisti deveria ser eliminado por ser um terrorista. Evidentemente, se Battisti fosse entregue agora ao governo italiano, correria o risco de sofrer toda espécie de violências. Sem qualquer sombra de dúvida sofreria discriminações e humilhações, e não haveria o mínimo respeito por seus direitos fundamentais e por sua dignidade humana. Foi isso, basicamente, que serviu de base para a negativa da extradição.

E na sessão de 8 de junho do Supremo Tribunal Federal vários ministros ressaltaram a absoluta falta de fundamento legal para a prisão de Battisti a partir de 1º de janeiro de 2011, quando se tornou pública a decisão presidencial negando a extradição. E seis dos membros do Supremo Tribunal, o que constitui maioria absoluta, votaram pela imediata libertação de Battisti. Mais do que isso, diversos ministros ressaltaram expressamente o acerto daquela decisão, lembrando que por disposição expressa do artigo 1º da Constituição brasileira a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da República e, pelo que determina o artigo 4º, inciso II, em suas relações internacionais, o Brasil rege-se pelo princípio da prevalência dos direitos humanos.  Assim decidindo, a maioria dos membros do Supremo Tribunal deu importante contribuição para recuperar sua imagem de guarda da Constituição, comprometida pelos que, por motivos e interesses que nada têm de jurídicos, comportaram-se como advogados do arbítrio e da ilegalidade.

 

“Fukushima é muito pior do que se imagina” – por dahr jamail

Alerta é de ex-dirigente da indústria nuclear. “Fukushima é a pior catástrofe industrial da história da humanidade”, disse Arnold Gundersen, à rede de televisão Al Jazeera. Cientistas independentes têm monitorado a localização de lugares radioativos perigosos em todo o Japão e seus resultados são desconcertantes. “temos 20 núcleos expostos, os tanques de combustível têm vários núcleos cada um, ou seja, há um potencial para liberar 20 vezes mais radicação do que ocorreu em Chernobyl”, afirma Gundersen. Médicos alertam para possibilidade de chuva radioativa já afetar os Estados Unidos.

Dahr Jamail – Al-Jazeera

“Fukushima é a pior catástrofe industrial da história da humanidade”, disse Arnold Gundersen, ex-executivo da indústria nuclear, à rede de televisão Al Jazeera.

O terremoto de 9 graus que atingiu o Japão no dia 11 de março causou um imenso tsunami que danificou os sistemas de esfriamento da usina nuclear da Tokyo Eletric Power Company (TEPCO), em Fukushima, Japão. Também causou explosões de hidrogênio e fusões de reatores que obrigaram o governo a evacuar moradores em um raio de 20 quilômetros da usina.

Gundersen, operador licenciado de reatores com 39 anos de experiência no desenho de plantas nucleares e na administração e coordenação de projetos em 70 usinas de energia nuclear em todos os Estados Unidos, diz que a planta nuclear de Fukushima tem provavelmente mais núcleos de reatores expostos do que se acredita comumente.

“Fukushima tem três reatores nucleares expostos e quatro núcleos de combustíveis expostos”, afirmou. “Provavelmente, há cerca de 20 núcleos de reatores por causa dos núcleos de combustível e todos necessitam desesperadamente ser esfriados. O problema é que não há meios para esfriá-los efetivamente”.

A TEPCO tem lançado continuamente água sobre vários dos reatores e núcleos de combustível, mas isso tem provocado problemas ainda maiores, como a radiação emitida na atmosfera em forma de vapor e na água do mar, assim como a geração de centenas de milhares de toneladas de água marinha altamente radioativa. “O problema é como manter o reator frio”, diz Gundersen. “Estão lançando água e o problema é o que vão fazer com os dejetos que saem desse sistema, pois eles vão conter plutônio e urânio. Onde vão colocar essa água?”

Apesar da usina ter sido fechada, os produtos da fissão nuclear, como o urânio, seguem gerando calor, o que exige o resfriamento. “Agora os combustíveis são uma massa disforme fundida no fundo do reator”, acrescentou Gundersen. “A TEPCO anunciou que tiveram um“melt trough”, ou seja, uma fusão na qual o combustível derretido passa através do fundo do reator para o meio ambiente. Uma fusão do núcleo (“meltdown”) é quando o combustível fundido cai no fundo do reator, e um “melt trough” significa que ele atravessou várias camadas. Essa massa disforme é incrivelmente radioativa e agora há agua sobre ela. A água absorve enormes quantidades de radiação, o que exige mais água para resfriá-la, o que gera centenas de milhares de água fortemente radioativa”.

Cientistas independentes têm monitorado a localização de lugares radioativos perigosos em todo o Japão e seus resultados são desconcertantes. “temos 20 núcleos expostos, os tanques de combustível têm vários núcleos cada um, ou seja, há um potencial para liberar 20 vezes mais radicação do que ocorreu em Chernobyl”, afirma Gundersen. “Os dados que estou vendo mostram estamos encontrando lugares perigosos mais distantes do que no caso de Chernobyl, e a quantidade de radiação em muitos deles era a quantidade que levou a que algumas áreas fossem declaradas terra arrasada em Chernobyl. Essas áreas se encontram a 60, 70 quilômetros do reator. Não se pode limpar tudo isso. Ainda há javalis radioativos na Alemanha, 30 anos depois de Chernobyil”.

Monitores de radiação para crianças
A Central de Reação de Emergência Nuclear do Japão terminou admitindo no início deste mês que os reatores 1, 2 e 3 da planta de Fukushima sofreram fusões nucleares totais. A TEPCO anunciou que o acidente provavelmente liberou mais material radioativo no entorno do que Chernobyl, convertendo-se no pior acidente nuclear conhecido. Enquanto isso, um assessor de resíduos nucleares do governo japonês informou que é provável que cerca de 966 quilômetros quadrados ao redor da usina – uma área de aproximadamente 17 vezes o tamanho de Manhattan – tenham se tornado inabitáveis.

Nos EUA, a doutora Janette Sherman e o epidemiologista Joseph Mangano publicaram um ensaio assinalando um aumento de 35% na mortalidade infantil em cidades do noroeste (dos EUA), após a fusão nuclear em Fukushima, o que poderia, segundo eles, ser o resultado de chuva radioativa originada da planta nuclear acidentada. As oito cidades incluídas no informe são San Jose, Berkeley, San Francisco, Sacramento, Santa Cruz, Portland, Seattle e Boise, e o período considerado inclui as dez semanas imediatamente posteriores ao desastre.

“Existe – e deve haver – preocupação sobre a exposição de população jovem, e o governo japonês vai entregar monitores de radiação para as crianças”, disse o doutor MV Ramana, físico do Programa sobre Ciência e Segurança Global na Universidade de Princeton, e especialista em temas de segurança nuclear. Ele acredita que a ameaça primordial da radiação segue existindo, sobretudo para residentes que vivem em um raio de 50 quilômetros da usina. “Haverá áreas fora da zona de evacuação obrigatória de 20 quilômetros do governo japonês onde a radiação será maior. De modo que isso poderia significar que haja zonas de evacuação também nestas áreas”.

Gundersen assinala que foi liberada muito mais radiação em Fukushima do que o declarado pelas autoridades japonesas. “Voltaram a calcular a quantidade de radiação liberada, mas as notícias não falam realmente do tema. Os novos cálculos mostram que, na primeira semana depois do acidente, foi liberada de 2 a 3 vezes tanta radiação como a que pensaram que tinha sido liberada nos primeiros 80 dias. Segundo Gundersen, os reatores e núcleos de combustível expostos seguem liberando micra de isótopos de césio, estrôncio e plutônio. São as chamadas “hot particles” (partículas quentes ou partículas perigosas). “Estamos descobrindo partículas perigosas em praticamente todas as partes do Japão, inclusive em Tóquio”, revelou.

“Os cientistas estão encontrando-as por toda parte. Nos últimos 90 dias essas partículas perigosas seguiram caindo e estão se depositando em altas concentrações. Muita gente está as absorvendo pelos filtros de ar dos motores dos automóveis”. Os filtros de ar radioativos em automóveis em Fukushima e Tóquio tornaram-se comuns e Gundersen diz que suas fontes já encontraram filtros de ar radioativos na região de Seattle, nos EUA. As partículas perigosas que contem também podem provocar câncer.

“Elas se fixam nos pulmões ou no trato gastrointestinal e provocam uma irritação constante”, explicou. “Um cigarro não te mata, mas com o tempo acaba fazendo isso. Essas partículas podem causar câncer, mas não podem ser medidas com um contador Geiger. Evidentemente, a população de Fukushima aspirou essas partículas em grandes quantidades. Evidentemente, há pessoas na Costa Oeste superior dos EUA que estão sendo afetadas. Essa região foi bastante afetada (pela radiação) em abril”.

Culpar os EUA?
Como reação à catástrofe de Fukushima, a Alemanha vai eliminar progressivamente todos seus reatores nucleares durante a próxima década. Em um referendo na semana passada, cerca de 95% dos italianos votou a favor de interromper a retomada da energia nuclear em seu país. Uma recente pesquisa realizada no Japão mostra que cerca de três quartos dos entrevistados estão a favor de uma eliminação progressiva da energia nuclear em seu país.

A empresa nuclear Exelon Corporation foi uma das maiores doadoras da campanha eleitoral de Barack Obama e é uma das grandes empregadoras em Illinois, Estado onde Obama foi senador. A Exelon doou até agora mais de US$ 269.000 para suas campanhas políticas. Obama também nomeou o presidente executivo da Exelon, John Rowe, para sua Comissão Faixa Azul sobre o Futuro Nuclear nos EUA.

O doutor Shoji Sawada é um físico teórico de partículas e professor emérito da Universidade Nagoya, no Japão. Os modelos de usinas nucleares no Japão o preocupam, assim como o fato de que a maioria delas foi desenhada nos EUA. “A maioria dos reatores do Japão foram desenhados por empresas que não estavam preocupadas com o efeito de terremotos”, disse Sawada a Al Jazeera. “Penso que este problema se aplica a todas as centrais de energia nuclear em todo o Japão”.

O uso de energia nuclear para produzir eletricidade no Japão é produto da política nuclear dos EUA. O doutor Sawada pensa que essa é uma parte muito importante do problema. “A maioria dos cientistas japoneses naquela época, em meados dos anos cinquenta, considerava que a tecnologia da energia nuclear estava em desenvolvimento ou não suficientemente estabelecida, e que era demasiado cedo para dar-lhe um uso prático”, explicou. “O Conselho de Cientistas do Japão recomendou ao governo japonês que não utilizasse essa tecnologia, mas o governo aceitou o uso de urânio enriquecido para alimentar centrais de energia nuclear e, assim, viu-se submetido à política do governo dos EUA”.

Quando tinha 13 anos, o doutor Sawada viveu o ataque nuclear dos EUA contra o Japão, desde sua casa, situada a apenas 1.400 metros do epicentro da bomba de Hiroshima. “Penso que o acidente de Fukushima levou a povo japonês a abandonar o mito de que as usinas de energia nuclear são seguras”, disse. “Agora, as opiniões do povo japonês mudaram rapidamente. Muito mais da metade da população acredita que o Japão deve voltar-se para a eletricidade natural”.

Um problema de infinitas proporções
O doutor Ramana espera que os reatores e os núcleos de combustível da usina estejam suficientemente frios para um fechamento dentro de dois anos. “Mas será preciso muito tempo antes que o combustível possa ser removido do reator”, acrescentou. “Não há dúvida de que será preciso enfrentar o problema das rachaduras, da estrutura da usina e da radiação na área durante vários anos”. Sawada não é tão claro sobre quanto poderia demorar um fechamento completo, mas disse que o problema serão os efeitos do césio-137 que permanece no solo e a água contaminada ao redor da planta elétrica e debaixo dela. Enfrentar esse problema levará um ano, ou mais.

Gundersen assinalou que as unidades seguem emitindo radiação. “Ainda estão emitindo gases radioativos e uma quantidade enorme de líquido radioativo. Levará pelo menos um ano até que deixe de ferver, e até que isso ocorra, estará produzindo vapor e líquidos radioativos”.

Gundersen está preocupado com possíveis réplicas do terremoto, assim como com o resfriamento de duas das unidades. “A unidade quatro é a mais perigosa e corre o risco de colapsar. Depois do terremoto em Sumatra houve uma réplica de 8,6 uns 90 dias depois, de modo que ainda não estamos a salvo. E estamos em uma situação na qual, se ocorrer algo, não existe ciência para isso, ninguém nunca imaginou que teríamos combustível nuclear quente fora do tanque. Não encontraram ainda uma maneira de esfriar as unidades três e quatro”. A avaliação de Gundersen sobre uma solução para essa crise é sombria:

“As unidades um, dois e três têm dejetos nucleares no fundo, o núcleo fundido, e contém plutônio, que levará algumas centenas de milhares de anos para ser eliminado do entorno. Além disso, terão que entrar com robôs e conseguir coloca-lo em um container para guardá-lo infinitamente, e essa tecnologia não existe. Ninguém sabe como recolher o núcleo fundido do solo, e não existe uma solução atualmente para fazê-lo”.

O doutor Sawada diz que a fissão nuclear gera materiais radioativos para os quais simplesmente não existe conhecimento necessário para nos informar sobre como lidar de modo seguro com esses dejetos radioativos. “Até que saibamos como lidar com segurança com os materiais radioativos gerados por usinas nucleares, deveríamos postergar essas atividades para não causar mais danos às futuras gerações. Fazer outra coisa é simplesmente um ato imoral, e acredito nisso tanto como cientistas quanto como sobrevivente do bombardeio atômico de Hiroshima”.

Gundersem acredita que os especialistas precisarão de pelo menos dez anos para desenhar e implementar o plano. “Assim, daqui a 10 ou 15 anos, a contar de agora, talvez possamos dizer que os reatores foram desmantelados e, neste período, se conseguirá terminar a contaminação da água. Já temos estrôncio 250 vezes acima dos limites permitidos no nível aquífero em Fukushima. Os níveis aquíferos contaminados são incrivelmente difíceis de limpar. Portanto, penso que teremos um aquífero contaminado na área da usina de Fukushima durante muito, muito tempo”.

Desgraçadamente, a história dos desastres nucleares parece respaldar a avaliação de Gundersen. “Com Three Mile Island e Chernobyl, e agora com Fukushima, pode-se precisar o dia e a hora exata em que esses desastres começam, mas nunca quando terminam”.

Tradução: Katarina Peixoto/Carta Maior

AÉCIO NEVES cai do cavalo, quebra a clavícula e cinco costelas. Veja o vídeo da assessoria.

dê UM clique no centro do vídeo:

ICANN aprova criação de novos domínios na internet

20/06/2011 03h02 – Atualizado em 20/06/2011 04h16

Iniciativa permitirá trocar ‘.com’ por domínios genéricos próprios.

Organização começará a aceitar solicitações a partir de janeiro de 2012.


As companhias, cidades e organizações poderão registrar seus próprios domínios genéricos na internet, após a decisão adotada nesta segunda-feira (20) pela ICANN, órgão internacional regulador de endereços na internet. A iniciativa permitirá que os domínios terminem com o nome da companhia ou cidade, por exemplo, em vez de “.com”, “.net” ou “.org”.

Decisão foi tomada durante encontro em Cingapura (Foto: Roslan Rahman/AFP)Decisão foi tomada durante encontro em Cingapura (Foto: Roslan Rahman/AFP)

A decisão, considerada um marco na história da internet, foi anunciada pela ICANN através de um comunicado emitido ao fim da reunião que seu conselho de administração realizou em Cingapura. Durante o encontro, 13 membros votaram a favor da medida, um contra e dois se abstiveram.

“ICANN abriu o sistema de endereços da internet às ilimitadas possibilidades da imaginação humana. Ninguém pode prever onde esta histórica decisão nos levará”, disse o presidente e chefe-executivo da organização, Rod Beckstrom.

A ICANN é a organização responsável internacionalmente por atribuir espaço de direções numéricas de protocolo de internet (IP), identificadores de protocolo e das funções de gestão do sistema de nomes de domínio de primeiro nível genéricos (gTLD) e de códigos de países (ccTLD), assim como da administração do sistema de servidores raiz.

A organização começará a aceitar aplicações de solicitação para os novos domínios gTLD a partir de janeiro de 2012. Até o momento se empregam 22 domínios gTLD e cerca de outros 250 nacionais, como é o caso do ‘.br’ para o Brasil e ‘.uk’ para o Reino Unido.

.

Agencia EFE

DIANTE DA TESTEMUNHA – por zuleika dos reis / são paulo


 

 

É verdade que, todos os dias, Ana fica em frente dele alguns minutos, mas, o tempo urge para o feijão no fogo, o preparo das misturas, o rearranjo dos desarranjos diários, a lavagem das sujeiras que intrépidas se renovam, a supervisão dos exercícios dos filhos, o preparo de suas mochilas, o embarque dos meninos na perua escolar, o elevador que demora, a ladeira para os passos já cansados desde a planície, o ônibus, as esperas no Banco, o pagamento das contas, as compras no supermercado, as multidões nas calçadas, o suor, os faróis sempre muito vermelhos, as buzinas sempre mais barulhentas, as palavras por dentro gastas como as solas dos sapatos, o silêncio cada vez maior diante da TV, das músicas, dos retratos, dos livros, das ideias, do futuro. O silêncio, à mesa, na sala, na cama.

É verdade que Ana jamais fica diante dele o tempo suficiente, mas nem se dá mais conta. Os minutos galopam, a noite todas as noites chega. As novelas sempre adiam para a noite seguinte a cena decisiva na qual a personagem revela ao marido que há outro homem, a cena em que o marido a expulsará de casa ou a perdoará, desde que ela abandone o outro. Depois do jantar, a louça é lavada e os utensílios guardados cada qual em seu respectivo lugar.

A água corre pelo corpo, o corpo se enxuga, veste o roupão. Planejam-se as sequências do dia seguinte. Os corpos se envolvem nos lençóis, as crianças dormem, o sono chega para todos, com os sonhos dos quais Ana jamais se lembra na manhã seguinte.

É verdade que quando Ana olha para ele, os gestos são sempre meio inconscientes, o olhar não se detém e já se lança para o corredor, a mão abre a mesma porta com a mesma chave de todos os dias, os pés repetem os mesmos passos para o sol lá fora, que também caminha com a regularidade cotidiana, assim como a lua e as estrelas. Nenhum cataclismo à vista.

É verdade que houve um tempo em que Ana olhava para ele e havia muito o que ver. Os olhos vivenciavam a transparência, as mãos se erguiam para lhe acariciarem os cabelos, a curva do queixo, a suavidade dos ombros, a sensualidade ereta dos seios. Os sorrisos brilhavam como um Sol. Nesse tempo a vida era um Novo Continente à espera dos navios de sonho que aportavam todas as noites, no eterno presente de palavras sempre renovadas, recém-emergidas do Jardim Primordial.

Ana não se lembra bem da vez primeira em que,  olhando para ele, percebeu a pequenina fenda, quase imperceptível fenda, alteração levíssima a modificar algo na forma e na expressão do olhar, culminando neste rosto de hoje. Irreversível.

EM BUSCA DA MORTE – de alcione boaventura / rio de janeiro

 “Onde estás Oh! Morte, que näo me encontras?

Te busco vezes sem conta e me entregas à sorte.

Mata-me a sede de encontrar-te

antes que me encontre este punhal em minhas mäos,

no impulso violento da razäo

e Deus, por FIM, de mim se afaste.

Onde estás Oh! Morte, que me feres e me assombras

como morta viva em meio as sombras?

Te deleitas em saber que näo sou forte.

Estou faminto de anseios de te ver.

Traga a paz que esta vida näo me deu!

Traga as rosas que os espinhos levo eu;

levo a dor e a amargura de viver.”

Você usa óculos? Eu às vezes uso Ritalina e Rivotril – por carolina mendes / são paulo

É um descolamento de si. Como uma experiência extra corpórea em que você se desprende do seu corpo e observa o mundo de uma distância estéril. Nem é distância na verdade, é de fora. As conversas não te interessam, as pessoas não te interessam e você sofre se obrigando a ter uma vida normal. Mesmo que dentro da sua cabeça exista uma sirene avisando que um tsunami está vindo, você teima e o volume da sirene vai crescendo até ficar ensurdecedor. E aí para.

Começa com uma sensação de inadequação, de incompetência ou inabilidade para lidar com as coisas que aparentemente as outras pessoas tiram de letra. Um incômodo, mas ainda não é nada de grave. E você fica distraído, e negligente. Começa a esquecer compromissos, portas destrancadas, gavetas abertas. Fica desastrado e começa a quebrar mais copos do que jamais quebrou. E esquece as senhas do Gmail que você usa faz anos, todos os dias.

Essas falhas vão minando o dia a dia. Depois vem a sensação de solidão, e a tristeza de não pertencer. Note que isso independe da paciência ou sensibilidade daqueles que te cercam. E você percebe a preocupação, ou irritação ou os transtornos que está causando mas não vê modo de sair disto. Passa a achar que é um traço da sua personalidade, não percebe que você não necessariamente seja assim, mas esteja assim.

Aí a sensibilidade vai ficando mais e mais aguçada, e conforme você se distancia da realidade, vai criando sua percepção pessoal e fragilizada de tudo, passa a interpretar o mundo de acordo com a sua óptica distorcida, e parece que tudo conspira contra você. E nada dá certo e ninguém te entende.

Uma vez dentro da espiral paranoica, o descolamento piora e você perde entre outras coisas a noção temporal. As horas se arrastam, ou escorrem pelos dedos numa velocidade que te deixa ainda mais isolado. Como se você estivesse caindo e ao mesmo tempo que a velocidade da queda faz o ar te sufocar, cada segundo de pensamento parece durar horas. E cada coisa que acontece desencadeia uma montanha de sentimentos. E você fica exausto. Tudo passa a ser uma batalha.

Outra questão temporal é que você perde a noção pontual do momento. Seu passado e seu futuro não existem mais, vira tudo um filme daqueles que você lembra que viu, mas não lembra exatamente quando ou como termina. Tudo que você tem nesse momento da doença, é a sensação de ser um balão solto numa tempestade tropical. Você sabe que não quer cair, mas que não tem mais muito tempo.

Quando eu tinha 22 anos eu fui diagnosticada com TAG — transtorno de ansiedade generalizada. Eu sei que parece algo inventado, mas não é.

Sabe quando você está vivendo um período de estresse? No trabalho ou na vida pessoal, e isso afeta seu sono, seu apetite, sua sensibilidade? E parece que seus instintos ficam aguçados e seu corpo pronto para briga? Como se você estivesse numa selva e visse um leão, seu corpo e sua mente te colocam num estado de atenção redobrado, e potencializa sua percepção. Então, eu estou assim faz 30 anos.

Uma das manifestações do tal TAG é a depressão. Descrevi como a minha depressão começa e evolui. Existe ainda no pacote fobia social, síndrome do pânico, insônia, compulsão por comida, compulsão por sexo, compulsão por álcool. Eu não tive todos esses sintomas, mas vivo com a possibilidade de um dia ter. Porque eu fui diagnosticada. Eu cogito a possibilidade de fraquejar, ou ter uma crise porque eu fui diagnosticada. Mais que uma fraqueza, eu considero uma libertação. Sair do quadradinho de pessoas que bradam: “comigo não”. Comigo tomara que não aconteça de novo, mas pode acontecer.

Tomei uma infinidade de remédios durante alguns anos. Para frear a espiral descendente, ou tirar o nariz da poça de merda em que a doença me enfiou. Invariavelmente, depois de algum tempo os sintomas voltavam, a dose era modificada até que o remédio parava de funcionar. Next! Um comprimido mágico atrás do outro, até eu aprender a perceber a coisa desandando antes de ficar insuportável e gritar por socorro antes de começar a cair.

Uma vez que essa dinâmica pré crise se estabeleceu, eu consegui encontrar estabilidade suficiente para parar com os remédios. É verdade que a insônia aparece de vez em quando, mas tenho autorização e remedinhos para domar a danada quando passa da terceira noite.

Me considero assim, uma doente mental estabilizada e em observação. Hoje eu conheço meus demônios, e vigio eles bem de perto. Convivemos em harmonia, e quando eles falam alto, eu grito mais alto e eles voltam pro cantinho deles.

Tenho visto ultimamente uma onda de opiniões equivocadas a respeito dos chamados tarja preta, de comentários babacas e antagônicos. O povo que acha lindo estar sendo medicado, e o povo que acha que é tudo falta de um tanque de roupa para lavar. Me desculpem mas se você se encaixa em um destes grupos, você é um idiota. Pior: um idiota que deveria ser, mas não está medicado. Ou mal é cuidado, que seja.

E se de fato todo mundo precisa de uma ajuda pontual para lidar com a vida e as pessoas? Muita coisa mudou, os remédios melhoraram e a vida passou a ter um ritmo humanamente insuportável. Não é fácil para ninguém, e toda ajuda é bem vinda. Ajuda, pontual e precisa. Drogas para tratar de um pé quebrado, não uma bengala para vida. A menos que seu caso seja realmente de bengala, aí compre uma bem bonita e use sem vergonha.

Sem alarde e sem coitadismo. Não é bonito ser do clube tarja preta, mas não é nada além ou aquém de ser humano. De ainda sentir e sofrer e reagir e chorar e brigar. Você usa óculos? Eu às vezes uso Ritalina e Rivotril. Tenho bronquite também, e uso Aerolin. A dificuldade é encontrar um médico que tenha competência e sensibilidade para te tratar, da forma que for melhor para você.

Eu sei o eterno nó no peito que eu tinha antes de encontrar um médico que entendesse o que eu tinha, e principalmente me ajudasse a compreender e viver com isso. Nó era no peito e não na garganta. Não chegava na garganta. O mal estar subia do estômago e parava no peito. E a voz não saía e as explicações não eram convincentes para mim ou para os que me cercavam. E eu não conseguia nem chorar mais.

A psiquiatria, que hoje é vista como indústria da depressão, salvou minha vida. Não que eu estivesse a beira da morte, mas me fez voltar a postar os dois pezinhos no chão.

Prazer, meu nome é Carolina e meu diagnóstico final é: sou humana. Tenho angústias, incertezas, inseguranças e uma montanha de emoções intensas. E eu posso cair. Tá no meu diagnóstico: eu posso fraquejar.

Morre aos 64 anos o cantor Ravel irmão de Dom com quem foi injustiçado no período da ditadura. Vítimas das botinas e dos tanques.

Ele fazia dupla com Dom, seu irmão. Ficaram conhecidos com a música Eu te amo meu Brasil

Morreu em São Paulo, aos 64 anos, o cantor e compositor Eduardo Gomes de Faria, o Ravel, da dupla Dom e Ravel. Ele teve um enfarte fulminante na quinta-feira.

O corpo de Ravel está sendo velado no Cemitério do Araçá, na Zona Oeste. O enterro está marcado para o meio-dia.

A dupla Dom e Ravel ficou conhecida na década de 70 pela música Eu te amo meu Brasil. Além disso, também gravaram Obrigado ao homem do campo, Marcas do que se foi, Canção da fraternidade Animais irracionais.

Cantores ficaram conhecidos com a música 'Eu te amo meu Brasil'
Cantores ficaram conhecidos com a música ‘Eu te amo meu Brasil’

DOM e RAVEL foram injustiçados pela esquerda irracional

Dom foi um excelente compositor, suas músicas viraram sucessos em sua maioria. LINDAS LETRAS.
A DITADURA “encampou” a música e a letra de EU TE AMO MEU BRASIL para “virar” fundo de suas propagandas  a REVELIA de Dom e Ravel. A esquerda raivosa acusou-os de colaborarem com a ditadura militar. Os desmentidos não eram divulgados pela imprensa sob o comando da censura porque interessava a manutenção “da imagem dos jovens e sua melodia a serviço da pátria”. Era uma época em que reclamar contra o poder federal poderia dar cadeia imediata. A dupla calou-se. De um lado explorados pela ditadura, de outro difamados pela esquerda. A TV Globo fez a mesma coisa que os milicos com a música MARCAS DO QUE SE FOI, colocou como vinheta musical dos  seus anúncios de Natal e Ano Novo sem dar os devidos créditos da autoria, ficou como composição dos vinheteiros da tv, para quem não sabia e não sabe.
Compuseram e gravaram lindas melodias, como estas:

OBRIGADO AO HOMEM DO CAMPO

.

MARCAS DO QUE SE FOI

.

SÓ O AMOR CONSTRÓI

.

CANÇÃO DA FRATERNIDADE

.

EU TE AMO MEU BRASIL

.

ANIMAIS IRRACIONAIS

.

Dom e Ravel

Dom e Ravel – Os irmãos Eduardo Gomes de Farias, 1947- (Ravel) e Eustáquio Gomes de Farias 21/08/1944 – 10/12/2000, (Dom) nascidos em Itaiçaba, Ceará, mudaram-se, ainda pequenos, para São Paulo, na década de 1950, com os pais e a irmã caçula Eva. Foram criados na periferia de São Paulo, onde foram morar. Eduardo foi apelidado de Ravel por um professor de música, por causa de sua aptidão para a arte.
Ingressando na carreira artística por volta do início dos anos 1960, a dupla, já como Dom & Ravel, lançou em 1969 o primeiro LP, Terra boa, que trazia Você também é responsável, transformada, dois anos depois, pelo ex-ministro da Educação, Jarbas Passarinho, em hino do Mobral, o Movimento Brasileiro de Alfabetização.
Mas seria na virada dos anos 1970 que dupla atingiria seu maior sucesso, através de sua composição Eu te amo meu Brasil, gravada pelo conjunto Os Incríveis. A obra rendeu-lhes, ao mesmo tempo, sucesso e rotulações de bajuladores da direita. Tais críticas ocorreram devido ao caráter ufanista,daquela canção, que foi utilizada, no contexto político daquele momento, em pleno auge da ditadura, pelos governos militares. Somando-se à temática ufanista, também foi sucesso sua composição Obrigado, homem do campo.
O sucesso de Eu te amo meu Brasil teria levado o então governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré, a sugerir ao ex-presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, que a citada canção fosse transformada em hino nacional. Médici nada teria respondido. Mas a notícia teria sido divulgada na imprensa e os artistas começaram a ser apontados como arautos da ditadura. A música, segundo Ravel, foi composta, na verdade, para aproveitar a onda do tricampeonato da seleção de futebol. Todavia, em entrevista de 2001 à Veja, o músico declara:’Mas nossos sobrenomes Gomes de Farias ajudaram a aumentar a confusão’, lembrando a associação que as pessoas faziam com o brigadeiro Eduardo Gomes e o general Cordeiro de Farias. Falava-se, então que os irmãos eram filhos de militares. Na verdade, o pai deles era um pequeno comerciante paraibano e a mãe, uma dona-de-casa cearense.
Em 1971, tiveram a música Praia de Iracema gravada pelo grupo paulista Demônios da Garoa no LP Aguenta a mão , joão, lançado pela Chantecler. Em 1972, a dupla foi selecionada para participar do LP coletânea Os grandes sucessos, lançado pela RCA , com a música Você também é responsável.
Em 1973, Dom & Ravel gravaram Animais irracionais, falando de injustiça social. A direita não gostou e os dois sentiram uma certa má-vontade da mesma ditadura que com eles simpatizara, sendo o disco e a música afastados das rádios.
Em meados dos anos 1970, a dupla se separou, e ambos seguiram carreira solo.
Com a morte do irmão Dom, em dezembro de 2000, vítima de um câncer de estômago, Ravel, com uma vista prejudicada por um acidente, lançou, em 2001, o CD Deus é o juiz, em sua homenagem, com sucessos da dupla. “Eu te amo meu Brasil” não foi selecionada para o disco.
Obra
Eu te amo meu Brasil /Glória aos jovens (Dom) /O caminhante (Dom e Aziz) /Obrigado, homem do campo / Você também é responsável.
.

AÍ TEM… – por martha medeiros / porto alegre

As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava frio como um iglu. Você falava, falava, e ele quieto, monossilábico. Até que você o coloca contra a parede: “O que é que está havendo?”. “Nada, tô na minha, só isso.” Só isso???? Aí tem.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava exaltado demais. Não parava de tagarelar. Um entusiasmo fora do comum. Você pergunta à queima-roupa: “Que alegria é essa?” “Ué, tô feliz, só isso”. Só isso????? Aí tem.

Os tais sinais. Ansiedade fora de hora, mudez estranha, olhar perdido, mudança no jeito de se vestir, olheiras e bocejos de quem dormiu pouco à noite: aí tem. Somos doutoras em traduzir gestos, silêncios e atitudes incomuns. Se ele está calado demais, é porque está pensando na melhor maneira de nos dar uma má notícia. Se está esfuziante demais, é porque andou rolando novidades que você não está sabendo. Se ele está carinhoso demais, é porque não quer que você perceba que está com a cabeça em outra. Se manda flores, é porque está querendo que a gente facilite alguma coisa pra ele. Se vai viajar com os amigos, é porque não nos ama mais. Se parou de fumar, é uma promessa que ele não contou pra você. Enfim, o cara não pode respirar diferente que aí tem.

Às vezes não tem. O cara pode estar calado porque leu um troço que mexeu com ele, ou está falando muito porque o time dele venceu. Pode estar mais carinhoso porque conversou sobre isso na terapia e pode estar mais produzido porque teve um aumento de salário. Por que tudo o que eles fazem tem que ser um recado pra gente?

É uma generalização, mas as mulheres costumam ser mais inseguras que os homens no quesito relacionamento. Qualquer mudança de rota nos deixa em estado de alerta, qualquer outra mulher que cruze o caminho dele pode ser uma concorrente, qualquer rispidez não justificada pode ser um cartão amarelo. O que ele diz importa menos do que sua conduta. Pobres homens. Se não estão babando por nós, se tiram o dia para meditar ou para assistir um jogo de vôlei na tevê sem avisar com duas semanas de antecedência, danou-se: aí tem.

SEPULTAMENTO – de joão felinto neto / mossoró.rn

 

 

Os meus olhos pregados

no infinito

como os pregos nas tábuas

cravejados,

e de pontas viradas,

redobrados,

sustentados e fixos

numa curva.

No aconchego da madeira macia,

minhas costas

nos ossos da bacia

consolam meu corpo

tão curvado.

Pelo tempo que tenho acumulado,

a ferrugem do mundo

me comeu,

e a tampa que pregam

me prendeu

para sempre num rito consumado.

Por debaixo da terra

condenado

a ser parte da mesma

e não ser eu.

Auto retrato – de omar de la roca /são paulo

 

Certa fim de tarde,quando o vento já havia feito a curva e o sol bocejava de sono, reuniram-se no barzinho da esquina. O Sergio, o Omar e o Kevin. Só para facilitar a visualização, o Sergio era alto, com olhos da cor do mar do Nordeste e cabelos já grisalhos. O Kevin tinha cabelos de fogo e olhos da cor do mar da Irlanda,era tão alto quanto o Omar.O Omar tinha olhos escuros e insondáveis como o Mar da Tranquilidade e por pouco não batia a cabeça ao passar pela porta.O Sergio pediu leite já que seu estomago não estava bom. Imaginem a risada dos outros. O Omar queria uma bebida exótica, que não havia no local. Mas ele era assim mesmo, gostava de coisas diferentes e não hesitava em mostrar suas vontades e querer que elas prevalecessem. Mas se contentou com uma dose de arak com água e bastante gelo. Já o Kevin , brincalhão e sacana como ele só, seguia fiel a suas origens e pediu logo uma dose dupla de licor Baileys e uma cerveja Guinness. Pobre dele, se sentia na Irlanda mesmo. Era a defesa dele querer se cercar de coisas da velha Erin. Acabou tomando Caracú e dispensou o licor de ovos que o garçom achou escondido no fundo da estante. Mas riram todos  das escolhas uns dos outros. O Omar começou a falar umas coisas difíceis, com palavras que poucos conheciam. O Sergio quis falar sobre os livros que lia ( de preferência em Inglês,para manter contato com a língua ele dizia, e sempre aprendia alguma palavra ou expressão nova).Mas o Kevin interrompeu para mostrar um par de pernas que passava. Ele não perdia a piada.Na verdade era uma outra defesa dele. Na verdade ele gostava das duas pernas. O Sergio, em voz baixa, quis protestar,mas o Kevin continuava rindo. O Omar achou mais prudente ficar só olhando. O garçom veio perguntar se iriam comer alguma coisa ou se iam ficar só na conversa mole. Kevin parou de rir por um momento e caiu na gargalhada.O Sergio sorriu discreto e o Omar disse que estava com fome. Pediu um kebab,que o bar não tinha e acabou se agradando de um churrasquinho de gato que girava solitário na porta. Sergio pediu uma salada (só tinha alface ), já era de noite e se ele comesse algo pesado iria roncar ainda mais a noite toda. O Kevin queria um frango tandoori com bastante curry,que vira numa revista e achara chique. Mas o bar não tinha e ele pediu frango a passarinho mesmo. Não importava a ninguém se ele roncasse a noite toda com bafo de alho. Bom, com todas as diferenças, se davam bem. Concordavam que a loira da contabilidade era uma gostosa. Que o sistema estava melhor depois da mudança para um escritório na Paulista. O Omar fazia visitas constantes, com sua simpatia inata. O Kevin, se pudesse, encostava o corpo e ficava na Internet o dia todo,com duas paginas abertas no computador, abrindo a página da tabela de Excell assim que alguém se aproximasse.O Sergio mantinha seus registros na mais estrita ordem ,o que ocasionava comentários sobre sua organização.Achavam até estranho.Torciam para  o Timão , que ia ser campeão este ano           ( como sempre ). E combinavam em muitas coisas. Mas tinham também suas diferenças. O Sergio era caladão e sua voz era muito baixa.O Omar falava alto como um italiano e gesticulava também. Já o Kevin falava arrastado, simulando um sotaque inglês que não tinha,mas que só desaparecia quando ele estava nervoso. E todos riam. O Sergio vinha trabalhar de ônibus e metro ( o que exigia uma tremenda condição física ) , o Kevin de moto ( que dirigia como um cachorro louco ) e o Omar morava perto e, ora vinha caminhando ( quando não chovia) ora pegava um ônibus que subia a Consolação ( e pegava um trânsito danado). Um dia, apesar de toda a amizade, brigaram feio. Até hoje não sabem exatamente porque. O Sergio achava que era sobre uma borboleta amarela que passara voando rente e só ele tinha visto.O Kevin achava que era sobre uma diferença de opinião sobre o valor artístico da Spire de Dublin.O Omar achava que era sobre a interpretação de uma pintura renascentista,que haviam visto no MASP numa terça feira que a entrada é grátis. Mas continuavam a se respeitar. Se cumprimentavam, marcavam um almoço ao qual não iam dando as desculpas mais inverossímeis ( palavra que o Omar adorava ), ou esfarrapadas ( coisas do Kevin ) ou a verdade ( que o Sergio cultivava, embora o prejudicasse as vezes). Mas estavam sempre atentos um com o outro. Sempre ouviam a opinião do outro.Mesmo que não seguissem o conselho.Mesmo que achassem ridículo. Mesmo que o fizessem em segredo. O Sergio sentia falta dos dois enquanto ajeitava os óculos e os olhava de esguelha, o Omar só deixava transparecer quando coçava a orelha,num sintoma de Tourette,mas era o mais sensível deles. Já o Kevin era extremamente carente, o que procurava disfarçar fazendo os outros rirem , as vezes com piadas que só ele entendia.As vezes o Sergio e o Omar conversavam sobre o Kevin.Mesmo achando que ele jogava nos dois times, gostavam dele, e o defendiam junto aos outros que queriam tirar sarro.As vezes o Omar e o Kevin conversavam sobre o Sergio,procurando saber o motivo de tanta mutez,mas o defendiam junto aos outros quando queriam chama-lo de gramofone. As vezes o Kevin e o Sergio conversavam, quer dizer, o Kevin falava quase o tempo todo sobre o Omar e seus gostos estranhos.Mas sempre o defendiam junto a aqueles que o chamavam de gringo.Kevin sempre brincava ao passarem por um restaurante japonês dizendo “ Será que o sashimi já esta bem cozido ? E o Omar dizia que peixe cru é coisa de japonês “ E o Sergio, que já experimentara e gostara ria e se perguntava se algum dia eles iriam concordar em comer num restaurante melhorzinho ,aprendendo a experimentar coisas novas. Kevin comia qualquer porcaria. Sergio detestava gordura. Omar preferia assados. Passaram algumas semanas de cara virada. Acharam que deveriam fazer as pazes, afinal nem sabiam o porque da briga. E, por coincidência se encontraram na sala de café.Sergio tomava sem açúcar nem adoçante. Kevin tomava chá bem doce. Omar tomava café com leite e açúcar. E começaram a conversar sobre a loira, pra quebrar o gelo.Marcaram de tomar alguma coisa no barzinho da esquina.A gerência mudara e eles estavam animados para saber se as coisas haviam mesmo mudado. Lá pelas seis e pouco saíram para o bar. O Sergio, com sua mania de organização atrasou um pouco.O Kevin já estava de pasta na mão as cinco e cinquenta e cinco. O Omar não podia sair antes de ir ao banheiro. A chuva tinha passado. Entraram no bar. O garçom era o mesmo. E os recebeu rindo. Mostrou a mesma mesa e eles se sentaram. Ele trouxe a Guinness do Kevin. E a bebida do Omar ( de nome impronunciável ). E o leite de cabra para o Sergio ( que era mais forte ).Os pratos vieram do jeitinho que queriam,sem mesmo terem pedido.A salada do Sergio tinha até endívias que ele adorava.O frango do Kevin veio fervendo e picante de temperos indianos.O Kebab do Omar era de carne de carneiro com tempero suave de hortelã. Estranharam, mas sorriram satisfeitos. Outros pares de pernas, outras músicas, outros perfumes. De repente sorriram e entenderam. E deram as mãos como se fossem os três mosqueteiros separados desde a infância e reunidos como por magia, no bar da esquina.Juraram amizade eterna. Nunca iriam se separar. E nunca mesmo. As vezes os três tinham tonturas, ao mesmo tempo ou dores de cabeça memoráveis ou ficavam resfriados juntos. Como trigêmeos que compartilhassem o mesmo destino.  Sergio sempre oferecia os lenços que comprava. Omar carregava um lenço de tecido perfumado. Kevin assoava num pedaço de papel toalha que surrupiava de todos os banheiros que visitava. E riam. E por muitos anos seguiram com uma amizade de dar inveja aos outros que se aproximavam e queriam participar da sociedade. Sergio dizia que era a sociedade do Trio de um só. Kevin brincava  e chamava de Sociedade do Anel ( com uma dupla referência ao Sr dos anéis e a um Anel que tinha conotações eróticas e os outros dois não gostavam ).Já o Omar referia-se  a uma antiga e inquebrantável  relação cármica ( ele estava lendo Comer Rezar e Amar e , já na parte de Bali tinha ficado influenciado pela sabedoria do guru ) .De qualquer maneira,eram laços que nunca se romperiam. Amigos para sempre. Até que um dia estivessem caminhando juntos pela rua,se apoiando um no outro e um raio de luz os levasse para : o céu , confirmava  Sergio, a Tirnanog pensava Kevin, ao paraíso cogitava Omar.

 

“MILONGA PARA UM POBRE NEGRO” – letra e música de luiz roberto conrad / porto alegre

 

POBRE NEGRO….GESTA DO POBRERIO

      FALAM TANTO EM IGUALDADE

      MAS NAS VEIAS DA VERDADE

      NÃO É ISSO QUE SE VIU….

 

      POBRE NEGRO…..

      CAPITÃO SEM NAVIO

      Á DERIVA PELO MUNDO….

      NO BUCHO, UM BURACO FUNDO….

      A FOME TRAZ O VAZIO.

 

     ” POBRE NEGRO,,,

        VOCÊ PODIA SER EU…

        EU PODIA SER VOCÊ,

        MAS A  VIDA MELHOR ME DEU…

        POBRE NEGRO..,

 

        POBRE NEGRO…

        QUE ENTRE OS SONHOS,,,,SE PERDEU…

        EU PODIA SER  VOCÊ….

        MAS A HISTÓRIA,,,SE INVERTEU.”

 

                                     

 

N O T A S D E C O M P I L A D O R – por jorge lescano / são paulo


¿Cómo explicar la existencia de obras en colaboración?

  Borges afirma que se trata de un prodigio inverso

 al de Jeckyll y Mr. Hyde: dos se convierten en uno.

 El resultado artístico expresa una tercera entidad.

 

El último colaborador, tal vez el decisivo, es el lector. 

Alejandro Dolina

 

 

[…] numa esquina do bairro de Flores, espaço quase mítico apesar de adjacente, no sentido leste-oeste, do meu Floresta.

 

Primeira nota: escrevi a frase de cima antes de ler Crónicas del Angel Gris. Alejandro Dolina, seu autor (vide Nota à nota), era o meu colaborador secreto, presumivelmente anterior e a longa distância. Alternativa mais interessante a meu ver é a de que eu fosse o seu colaborador, deste modo ficaria na posição de duplo, não de original, satisfazendo a minha vocação de Eminência Parda. De todo o caso sobra um aporte à sua Arte en Colaboración: nenhum dos dois sabia nada de nossa parceria.

Na minha história recente (de leitor) a mais notória colaboração deste tipo foi protagonizada – a revelia, poderíamos dizer – pelo escritor argentino Jorge Luis Borges, falecido em 18 de junho de 1986 na terra do lendário Guilherme Tell e seus despojos descansam no cemitério de Painpalais, em Genebra.

 No início da década de 1990 entrou em circulação Instantes, um poema, digamos assim, com a assinatura de Borges. O texto percorreu o mundo com sucesso inédito. O nome deste escritor considerado difícil atingiu todas as camadas sociais dos cinco continentes. Sei de pessoas que diligente e impensadamente dilapidaram seus tostões xerocando o texto e o distribuindo por ruas e vielas dos mais distantes vilarejos deste novo mundo, para não falar das praças e avenidas das grandes metrópoles do velho mundo. Fontes fidedignas noticiam que foi impresso em toalhas de mesa, guardanapos, lenços e outras superfícies portáteis além de ser pregado em cardápios e vitrines para o seu melhor e maior consumo.

 O monstrinho chegou-me às mãos por um conhecido, consuetudinário leitor de poesia. Foram inúteis as minhas arrazoadas argumentações visando demonstrar que a obra não era de autoria do consagrado vate cisplatino, Instantes já se havia incorporado ao repertório das massas. Tal popularidade, aliás, valeu-lhe inclusão na Antologia Apologética do Apócrifo, inédito de minha modesta autoria.  

Das mãos de um poeta de cordel, réu confesso de haver xerocado e distribuído Instantes e conhecedor dos meus pendores de resenhista (valha o neologismo), recebi um recorte do jornal Folha de São Paulo do domingo 17 de dezembro de 1995. O escritor brasileiro Moacyr Scliar, recentemente falecido, retornando do México e baseado em confidências de Maria Kodama, viúva do escritor argentino, revelava a autora do pasticho. Trata-se da norte-americana Nadine Stair. Estampamos-lhe o nome para escárnio público e regozijo dos colecionadores de fiascos literários, antes que para lhe fornecer subsídios para os quinze minutos de fama vaticinados pelo seu compatriota Andy Warhol, fama à qual todo habitante deste planeta em extinção tem direito. Com a melhor boa vontade quero acreditar que a autora teve a generosa intenção de aumentar, se não enriquecer, a obra do festejado bardo portenho doando-lhe fruto de sua seara.

Pareceu-me suspeito tal desprendimento. Acostumados que estamos ao lucro pessoal em toda atividade, como o santo do ditado desconfiamos quando a dádiva é abundosa em demasia. Por que alguém formado na cultura que cunhou a sentença Tempo é dinheiro cederia gratuitamente o árduo produto dos seus neurônios, se não da sua emoção candente, à memória de outrem? Confesso: não via no ato propósito legível.

O surgimento de páginas póstumas sempre me deixa perplexo. Penso no mágico baú de Fernando Pessoa, cornucópia literária que não deixa de expelir textos. O português, ao dotar de vida, pela obra, os heterônimos, povoou o universo com poetas tão reais quanto Ele Mesmo. Se a importância de um escritor é sua obra, eles têm essa consistência acrescida dos dados biográficos fornecidos pelo seu criador; desse modo, hoje que Fernando Pessoa não figura mais entre os vivos, tornou-se igual às suas criaturas. Existem fotografias e documentos escritos que atestam a existência de Fernando Pessoa, dirão os adeptos do inquérito policial, tais documentos apenas se autenticam reciprocamente, respondo. O universo ficcional criado por ele autoriza a dúvida. Como dramaturgo, Pessoa incrustou seus apócrifos na realidade a ponto de competir com Ele Mesmo e nos fazer duvidar de nossa existência. Não custa muito imaginar Fernando Pessoa Ele Mesmo como criação de Álvaro de Campos ou qualquer outra de suas criaturas, ou ainda de um colaborador que por astúcia ou ironia preferiu não deixar rastro. O próprio sobrenome estimula a incredulidade, é sorte grande que ele derive da máscara latina. Se Pessoa for pseudônimo, ele sugeriu os duplos ou estes originaram o pseudônimo? Estas especulações serão ociosas para os que confundem a história com o jornalismo e a chamada ciência histórica, categoria literária enriquecida pelo gênero biografia, porém, Fernando Pessoa era adepto de diversos esoterismos que permitem estas conjecturas. O assunto é tentador, mas excede nosso tema.     

Em agosto de 1999, para comemorar o centenário de nascimento do suposto autor de Instantes, realizaram-se em São Paulo variados eventos. Foi então que tive a oportunidade de conversar rapidamente sobre o assunto com a senhora Maria Kodama. No breve colóquio, a ilustre dama participou-me que no início do infausto acontecimento – a publicação, distribuição e reprodução de Instantes –, ela optou por ignorá-lo. Porém, o jurista que trata dos seus negócios bem como do memorial que eterniza o nome do vate de quem estamos a falar, advertiu-a que a autora da obra aqui focada estaria habilitada, se assim o desejasse, a reivindicar a autoria do poema, por assim dizer, cabendo processo judicial por apropriação indébita de direitos autorais, visto a citada senhora, herdeira do espólio do supracitado Jorge Luis Borges, haver permitido a circulação da referida obra como se de autoria do seu cônjuge fosse, alternativa de todo deplorável para vossa senhoria, como é fácil coligir. Tal o motivo que a decidiu a tornar pública a falácia, esclarecendo-me, de lambuja, sobre o provável objetivo da empreitada.

 Tenho para mim que a colaboradora (ora) explícita enriquece a biografia do autor argentino. Moto-próprio resolveu acrescer menos a obra que o fato à(s) biografia(s) póstuma(s) (como deveria ser toda biografia), tanto as autorizadas quanto as outras. De algum modo este plágio por movimento contrário ilustra a teoria literária de Borges segundo a qual é o leitor quem faz a obra. Opinião mais severa ou mordaz diz que ele foi vítima póstuma do apócrifo, modalidade literária por ele mesmo praticada durante toda a vida. Se não, vejamos um exemplo, apenas um, para não fatigar nosso leitor.

Em ensaio fartamente documentado, como é do seu feitio, o autor de Evaristo Carriego, biografia dúbia deste poeta popular (no sentido político, não comercial, do epíteto) aponta os avatares sofridos pelo livro d’As mil e uma noites, obra mágica para os europeus (não para os árabes, acostumados aos prodígios) mesmo à custa de omissões e acréscimos de relatos dos tradutores (aos quais aplica, com ressalvas, o famigerado trocadilho italiano), circunstância esta que não deixa de aproveitar para impingir ao leitor displicente (categoria que incluiria Tzvetan Todorov, segundo Mariza Werneck in O livro das Noites, apud Júlio Pimentel Pinto: Uma memória do mundo) a portentosa noite 602 em que o rei Shahriar ouve da boca da rainha sua própria história (in Os tradutores d’As Mil e uma noites).

Sempre atribuí o fracasso das minhas pesquisas a respeito à deficiência das edições consultadas, mas não havia tal, Borges inventa sutilmente uma noite a mais, nos revela a mesma Mariza Werneck, ibidem. Se Kafka funda uma Novayorque pelo grafismo em sua Amérika (ortografia mais próxima do som original pré-colombiano: amerik, segundo os estudiosos) e O Marinheiro de Pessoa cria todo um país para sua origem, a noite 602 só passa a existir depois da “citação” de Borges. Deveríamos falar d’ As mil e duas noites? Deixo a solução deste enigma literário aos mestrandos de plantão.

O insigne cego revelava em entrevistas que seus últimos poemas eram escritos em colaboração, se ele os inventava (e voltava à rima para melhor lembrá-los), outro devia redigi-los. Creio que assim deveriam agir os antigos rapsodos. É de se supor que embora clássico, Homero (cego, na língua da Trácia, afirma algum acadêmico) fosse iletrado. Antes de perder totalmente a visão o argentino já havia cometido várias obras em parceria. Três colaboradores vêm-me à memória, sem que esgotem o elenco de parceiros nem a lista de obras: María Esther Vázquez (Literaturas Germánicas Medievales), Margarita Guerrero (El Martín Fierro) e o mais conhecido, Adolfo Bioy Casares (Crônicas de Bustos Domecq). 

Colaboração involuntária notória é Kafka, de Max Brod. Nesta obra, o autor de Os falsários (teatro) narra que só depois de oito anos de convivência e amizade cotidiana o autor da sátira O processo atreveu-se a revelar que escrevia. Na época Max Brod já era um escritor conhecido em Praga, Kafka apenas seu amigo. A celebridade internacional, contudo, só lhe adveio precisamente pela publicação da obra e da biografia daquele escritor oculto por modéstia ou respeito às letras (bem diverso de nós, verbi gratia). Como é de domínio público graças ao biógrafo, o autor d’ O castelo teria escrito dois bilhetes nos quais delegava ao amigo a ingrata tarefa de confiar ao fogo (mais radical que Virgílio, que Gógol, que Artaud, êmulos de Eróstrato) sua Obra (hoje) Completa. Segundo a versão de Brod é possível afirmar que a colaboração do biografado foi totalmente aleatória. Por toda sua vida Kafka teria se limitado a ser somente Franz Kafka.

Não falta quem aventure a hipótese de que Franz Kafka seja heterônimo de Max Brod. Como no caso de Fernando Pessoa, a iconografia de Kafka apenas ilustra a existência de um senhor com certas características atribuídas ao personagem em questão. Acreditamos tratar-se do autor do Informe para uma academia porque a legenda que acompanha a fotografia afirma isto. Não é impossível que o nome corresponda ao do original retratado. Ainda assim, como saber que ele é o autor da obra de Franz Kafka? Talvez não seja excessivo afirmar que Max Brod obteve a permanência nas letras pelo registro explícito da ausência do seu (suposto?) biografado.  

Gustav Janouch, filho de um colega de escritório de Kafka, escreveu o ameno Conversas com Kafka com a colaboração direta do autor de Cartas a Milena, primeira colaboradora do seu correspondente ao traduzir para o tcheco algumas de suas narrativas.

Caso pitoresco do gênero biografia é o do crítico uruguaio Emir Rodriguez Monegal, primeiro biógrafo de Jorge Luís Borges. Monegal faleceu antes de Borges, este paradoxo extra literário remata com humor macabro a biografia do argentino.

Em tempo: a colaboração do personagem tema da biografia é devidamente apontada pelo escritor de Flores.

Citei três autores sobre os quais existe vasta bibliografia que, como a poluição nas cidades, não deixará de crescer enquanto houver mundo. São três colaboradores de multidão de ensaístas, ficcionistas, cronistas e jornalistas dos mais diversos calibres e pontaria, com os quais pego carona para não perder a viagem.

No Brasil, o divertimento policial O mistério dos três MMM foi escrito por dez autores, dentre os quais, salvo lapso de minha memória, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Constata-se aqui que o anonimato nem sempre quer ser preservado.

Creio que estes exemplos ilustram o meu ponto de vista sobre a colaboração narrativa. Deixo de fora a “colaboração” dos editores para melhorar os originais a ser publicados, uma vez que esta participação diz menos à estética que à embalagem. Adequação do produto ao mercado desculpam-se os autores.

 

Nota à nota: Alejandro Dolina, escritor argentino inédito no Brasil (re)criou o bairro portenho de Flores como nação autônoma que cumpre a função narrativa e mítica da aldeia de Tolstoi. Em Arte en Colaboración, Dolina trata, sempre de forma bem humorada, da quase impossibilidade da criação literária em duplas. O texto também aconselha que se pratique a amizade por alguns anos antes de iniciar a colaboração. Isto vale especialmente para a biografia. Kafka, numa espécie de colaboração antecipada com Dolina, que não se esqueceu de relacionar esta categoria, valeu-se cautelosamente do conselho.

 

Nota às duas notas supra: Deseja-se constar que a publicação deste texto, sem pretender criar gêneros literários (nota ao texto inédito, colaboração involuntária), ora que os gêneros agonizam, se não estiverem mortos (tudo acontece tão rápido, sêo Aquiles, é algo que nunca diria o eleata) almeja sim o objetivo de ser auto-suficiente.

 

Nota final: saiba o prezado leitor que a crônica de nossa lavra na qual aproximamos o bairro de Flores, pelo uso poético, aos paulistanos Brás, Bexiga e Barra Funda, permanecerá inédita, trata de fatos excessivamente locais de difícil acesso ao leitor estrangeiro. O texto tem razões que nem Tolstoi compreenderia. E por ser verdade quase tudo o aqui narrado, assino embaixo.

 

O buraco da crise e o mapa do tesouro – por alceu sperança / cascavel.pr

Não são os humanos, como se diz por aí, que destroem a natureza. Os que destroem, na verdade, são desumanos.

A destruição é causada, sempre, por uma estrutura política e social cruel e injusta. Essa estrutura injusta gerou duas novas e terríveis crises.

A primeira delas é a crise imobiliária americana. Muitos americanos perderam as casas nas quais moravam. A segunda grave crise é a crise do preço dos alimentos. É aquilo que nossos avós e pais chamavam de carestia.

Mesmo com essas duas novas grandes crises criadas por essa estrutura desumana de poder, a missão dos homens de bem é fazer do limão, uma limonada. Aproveitar as crises para aprender, crescer, criar um mundo novo, mais justo e humano.

Tomara os governantes mundiais aprendam que a crise do preço dos alimentos pode ser vencida pondo para trabalhar milhares de pessoas que hoje perambulam por aí sem terra nem lar.

Sem repensar todo o sistema produtivo, os preços dos alimentos continuarão em alta. Sem mudar a mentalidade quanto à necessidade de proteger a natureza, e o ser humano, dentro dela, não haverá como produzir alimentos bons e baratos.

Sem mudar, o Brasil continuará alimentando o gado europeu com soja barata e encarecendo o preço do feijão com arroz que nosso povo come.

**

Existe um mapa do tesouro?…

Vivemos um mundo incompreensível. Nunca, antes, existiu um planeta como este de agora. Por não ter havido um anterior, precisamos sempre estudar para aprender como lidar com ele.

Quando vovô nasceu, eram só ele e mais 3 bilhões de pessoas neste planeta. Era um outro mundo. Quando eu nasci, o mundo era o dobro: mais de cinco bilhões de habitantes. É um mundo jamais visto antes.

Somos a geração que mais criou riquezas neste mundo, mas também a que mais gerou lixo. Somos os gênios do milagre, da tecnologia, do avanço, do cartão de crédito, do asfalto, de tudo o que o dinheiro pode comprar.

No entanto, toda a riqueza gerada tem produzido muito mais lixo e coisas inúteis que benefícios. Era esse o tesouro que a gente queria encontrar?

Na verdade, continuamos, ainda, na pré-história da humanidade. Pois não é humano (nem cristão como querem aqueles que se dizem religiosos) haver uma sociedade que enriquece em cima da destruição da vida, deixando na miséria milhões de pessoas.

Um dia, no futuro, com o mesmo esforço produziremos mais riquezas e menos lixo. Finalmente encontraremos o tesouro verdadeiro: uma humanidade feliz num mundo melhor.

Mas existe um mapa do tesouro? Sim, o mapa do verdadeiro tesouro é nossa consciência.

DITADURA REJEITADA, nunca esquecer!

Belo Horizonte, setembro de 1979. O general João Baptista Figueiredo – último presidente do regime militar – fazia uma viagem com cara de campanha.
Tomou cafezinho em um bar no centro, fez discurso. Estava tudo indo conforme o planejado até que uma menina de apenas cinco anos surpreendeu o presidente-general. Ela rejeitou o cumprimento do general.
A foto imediatamente virou símbolo da luta contra a ditadura. Foi publicada em vários jornais e revistas, no Brasil e no exterior.
“Aquilo ali lavou a alma da nação. Pra nós soou como uma vingança nacional”.
“É a magia da criança. Se fosse um adulto não teria, nunca teria o mesmo valor”, diz o ex-secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda.

Urda Alice Klueger, a escritora, foi usada para surrupiar dinheiro do estado. Governador e sua turma seguem fazendo pouco caso da cultura. / ilha de santa catarina

USARAM MEU NOME PARA ROUBAR O SEU DINHEIRO!!!

Ético confrade da Academia Catarinense de Letras (ACL) fez contato comigo a 29 de março deste ano de 2011 d.C., conforme segue abaixo:

Prezada Urda:

1. De 26 de maio a 05 de junho será realizada, em Ribeirão Preto, a 11ª Feira do Livro, sendo, entre outros, homenageado o Estado de Santa Catarina.

2. No dia 28, além de pronunciar palestra sobre “A Literatura Catarinense”, à tarde, após o discurso do Governador Colombo (…)

3. Indiquei o seu nome, a pedido do Secretário de Cultura, para compor uma lista dos escritores convidados (passagem, hotel e comidinha pagos).

4. Gostaria que me confirmasse o convite e eventual aceitação. Em caso positivo, é fundamental a escolha de um dia para lançamento de livros (funcionária da Secretaria de Cultura e Turismo manterá contato para adquiri-los das editoras), sem que haja coincidência.

Abraços,

Dei retorno, disse que ia, e o confrade me retornou dizendo que os organizadores manteriam contato para combinar os detalhes. Ainda bem que tenho uma vida ocupada até demais – já pensou se sou uma velhinha dessas que não têm muito o que fazer, e que talvez fosse fazer vestido novo para o evento, telefonar para os amigos lá da região de Ribeirão Preto marcando encontro, etc.? Minha vida hiper-ocupada não me deu tempo de ficar pensando no assunto, e como nunca ninguém fez o menor contato comigo nem combinou nenhum detalhe, o evento passou batido.

Foi só ontem, dia 07 de junho de 2011 d.C. – portanto, mais de dois meses depois – que comecei a me antenar para o fato de que havia algo errado. Uma ou outra pessoa se comunicou comigo para saber como tinha sido a Feira de Ribeirão Preto, pois tinha lido a respeito da minha ida para lá – ainda bem que existe São Google, infalível informador dos distraídos ou muito ocupados, e foi São Google quem me contou direitinho que eu tinha estado em Ribeirão Preto, na Feira do Livro, bem nos dias em que estava exatamente em Blumenau, cheinha de testemunhas que me viram, falaram comigo ou me visitaram naqueles dias.

Daí pergunto: se eu fui lá, devidamente noticiado pela imprensa do Estado de Santa Catarina, ao mesmo tempo em que estava aqui vendo, sendo vista e interagindo com as gentes daqui, será que sou um caso de dupla personalidade, produto de inexplicável magia ou algo assim? Como é que fui lá e sequer em sonhos consigo recordar tal coisa? Como se explica esta minha capacidade de estar cá e lá ao mesmo tempo? Duma coisa tenho certeza: não saí de Blumenau durante todos os dias da feira e da viagem dos escritores que foram. Como não acredito em alma do outro mundo e minha psicóloga me garante que não tenho dupla personalidade, alguém foi no meu lugar!

Estava certo eu ir? Estava. Sou uma escritora nascida no Estado de Santa Catarina, já publiquei 21 livros e mais umas 600 crônicas, além de artigos acadêmicos e outras e outras coisas – portanto, se Santa Catarina estava sendo homenageada literariamente, era correto eu ter ido representar o meu Estado e o meu povo. Como não fui sequer contatada para combinação de detalhes e depois se noticiou que fui, tal significa que, às custas do rico dinheiro público, alguém foi no meu lugar, e deve ter sido alguém sem o mesmo cacife que eu para representar o Estado, já que se escondeu no anonimato, escudou-se no meu nome para não fazer feio e sabe-se lá o que mais não fez por aí afora às custas do seu imposto, meu caro leitor coestaduano.

Viu só como é que some o suado dinheirinho que você recolhe aos cofres públicos? Sabe-se lá que esbórnias não fez lá em Ribeirão Preto o meu “fantasma”, aquele que era eu sem ser eu, aquele que não era eu, mas disseram que era. Garanto que aquele fantasma não era eu, mas alguém muito sem vergonha na cara que usou meu nome, alguém sem competência para usar a própria identidade para representar Santa Catarina, e que foi fazer turismo às custas do dinheirinho do trabalhador!

Posso ficar quieta? Não posso. Que as autoridades competentes me expliquem como é que o meu nome tem sido usado por aí em vão, para justificar despesinhas e despesonas de seus apaniguados!

Blumenau, 08 de junho de 2011.

 Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia

 

.

leia aqui a indignação do escritor AMILCAR NEVES  sobre o mesmo fato.

 

O Futuro da Internet. Ou breve tentativa de compreender por que a internet deixará de ser internet, como a conhecemos hoje, para ser algo parecido – josé paulo cavalcanti / recife

Um mundo em mudança

O símbolo do herói moderno, para o filósofo italiano Umberto Galimberti (Il Gioco Dele Opinioni), deveria ser Ulisses, Rei de Ítaca, por ter inventado o cavalo de Troia, em cujo ventre, acreditando nos ensinamentos da escola, se esconderam soldados que à noite abriram as portas da cidade. Porque seria Ulisses portador dos valores básicos que se exigiria de uma sociedade moderna, mentira e astúcia. Retraduzindo essas palavras, para dar-lhes mínimos de dignidade, astúcia passa a ser a “capacidade de encontrar o ponto de equilíbrio entre forças contrárias“. Enquanto mentir significa “habitar a distância que separa aparência e realidade”; e, também, “escapar da ingenuidade dos que acreditam que as coisas são, sempre, o que aparentam ser”. Com Ulisses, inaugura-se a dupla consciência da realidade e sua máscara. Em certo sentido, é também o que se passa com a internet, na oposição aparentemente inconciliável entre o hoje e o amanhã. Posto que soluções dadas, atendendo ao que parece indispensável ou razoável no presente, serão capazes de comprometer irreversivelmente o futuro; enquanto a só espera plácida por esse futuro, hoje implausível, pode ser suficiente para degradar o presente a ponto de torná-lo intolerável.

O cenário desse aparente drama é que nos estamos convertendo em uma civilização impressentidamente nova, provavelmente nem pior nem melhor do que as anteriores. Apenas diferente. E talvez ainda não sejamos capazes de compreender, em toda a sua extensão, o “mito da idade da informação”, tão duramente descrito por Bill Mckibben (The Age of Missing Information). São outros os valores, outros os padrões de organização social, outros os processos de transmissão de conhecimento, alterando as bases tradicionais da economia, da religião, da história, da própria cultura. Tudo muda, continuamente. E a questão já nem é saber se as novas tecnologias da informação vão alterar nossa maneira de viver, mas como o farão. Esse desenvolvimento extraordinário se processa em duas dimensões principais. Uma técnica, que corresponde à melhoria crescente na quantidade, na qualidade e na velocidade de transmissão da informação; outra cultural, interferindo em nossos padrões de convivência, produzindo o que François Brune (A Comunicação Social Vítima dos Negociantes) chama de “mercantilização do imaginário”. Nossas cidades, não por acaso, são povoadas por cinderelas suburbanas que sonham, secretamente, com o fausto implausível de uma outra vida que nunca terão. Suspirando escondidas em seus quartos humildes, à espera do príncipe encantado em que se converte diariamente o galã da novela das oito, nas televisões; ou amigos, alguns próximos outros inatingíveis, nos orkuts da vida. Condenadas a viver vidas paralelas, como se a miséria de suas existências exigisse o contraponto desse “Eldorado” a que se chega apenas girando um botão. Ou tocando algumas teclas. Mas um desenvolvimento assim tem também uma terceira dimensão, institucional, menos óbvia e não obstante relevantíssima, com implicação no próprio modelo de organização das sociedades. Tudo conspirando para converter o discurso aparentemente tecnológico, sobre a internet, em uma escolha trágica entre angústias.

Infraestrutura

O jogo da internet se joga, hoje, em três cenários principais: infraestrutura – que corresponde razoavelmente a sua base física, o hardware; serviços – no fundo, softwares que rodam sobre essa base física; e aplicações – que correspondem aos fins determinantes para usar essa infraestrutura e esses serviços. Todos, campos envoltos em contenciosos. Com relação à infraestrutura, consenso único é a manutenção do Protocolo IP, conformando sua estrutura de rede. No fundo, um discurso de governança. Estados Unidos, em posição razoavelmente óbvia, não aceitam qualquer alteração em modelo que vem dando certo – com o controle de todos os endereços hoje existentes, no mundo, por instituição privada, técnica (até agora), o icann (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers). Uma entidade do terceiro setor, com sede em Santa Mônica e tutelada por leis da Califórnia; mas, apesar de não internacional, com um Governnment Advisory Comittee que tem membros de toda a parte (com maioria de não-americanos). Algo como uma Congregatio de Propaganda Fide das comunicações. Em posição diversa, um grupo de países europeus prefere que fique sob domínio da uit da onu, ou qualquer outro organismo internacional específico a ser criado. Esse controle é particularmente importante, por ser finito o número dos endereços; por decorrer sua distribuição de uma demanda mais econômica (privada) que social (pública); e sobretudo por permitir, em tese, interferências políticas – como tirar do ar um endereço específico, ou um conjunto inteiro de endereços (por exemplo, um país).

Serviços

Com relação a esses serviços, a internet sofre antes de tudo pela falta de um modelo básico. Alguns deles utilizam protocolos convalidados pelo W3C (World Wide Web Consortium) – como smtp (Simple Mail Transfer Protocol, que regula e-mails e correios eletrônicos), http (Hipertext Transfer Protocol, que regula páginas) ou https (mais o “s” de Secure), udp (rádios, vídeos), ftp (transferência de arquivos). Enquanto outros consideram serem suficientes protocolos privados (particulares ou estatais), funcionando só entre as partes, que podem vir a ser (ou não) convalidados pelo W3C. Nesse modelo dual, os problemas basicamente decorrem de sua (em princípio) melhor virtude, um amplíssimo grau de liberdade. Sem meios (ou desejos) visíveis de uniformização. O smtp, por exemplo, um protocolo de serviços, permite envio de e-mails como se fossem de um outro endereço, viabilizando spams que já representam 90% do total dessas mensagens.

Pequeno sermão contra os spams

Aqui, vênia para um desabafo. É que, basta passar quinze dias fora, e invariavelmente encontro o computador entulhado com spams de todo o tipo, enviados por quem não conheço e certamente não conhecerei nunca. A maioria, gente que nem existe. Internet é assim. Você pode virar outro, e os outros podem virar qualquer um. Inclusive você. Anderson e Vinicius avisam que “empresário europeu procura pessoas para oportunidade de negócio”; completando a notícia com um código ininteligível, “nrvsxshundgfwflclmfjapeunwxdsgpvvhawm”. Só aceita quem for doido. London Vick oferece financiamento “às mais baixas taxas”; tendo apenas o interessado que dar um pulinho até Miami. Era só o que faltava. Lotogames oferece “lotomania”, com um “bônus de 50%”. É fria. Já o Regions Bank oferece dinheiro e em inglês. Quem quiser ligue, para ver se ele traz. Márcio Teodoro oferece grana extra e pede “clique aqui”. Só por pirraça, não clico. Um cupim que se intitula “O Carteiro”, todo dia, pede para ver “o cartão que preparei para você”. Te enxerga, Carteiro. Martha Cramer envia mensagens enormes, em código. Uma que recebi diz – “Html. Head styletype. text/css. eys bcow. font weignt: bold. body pex-000000 – vlink – 996633 a link”. Se alguém souber do que se trata, por favor me avise. Uma “Equipe Repetetrons” lembra: “O repelyffffeq tron yfffeq tem ondas culturais yffffy 4 nicas, que você fffeajy conhece?”. Conheço não, obrigado. Pessoas que se intitulam “amigos do Rio” oferecem passeios em grupo, já convidando para o primeiro – “procurando a capivara na lagoa”. Coitada dessa pobre capivara, se for encontrada, vai ter que aguentar todos os chatos desse grupo. Robert e Zeff garantem proteção contra spam; quando tudo que quero é proteção contra gente como Robert e Zeff. E Daniela pergunta: “Seus seios te agradam?” Vai te danar, Daniela. Tudo quanto não preciso está na internet. O mesmo ocorre com todos, em toda a parte. Daí já se pronunciando na banalização desses spams, algo como um Correio sem custo dos selos, sua progressiva obsolescência como instrumento de comunicação.

Aplicações

Nesse campo, o que se vê é uma dispersão absoluta; porque as aplicações podem processar-se a partir de práticas regulamentadas ou não, e com diversas instâncias de validação. No Brasil, por exemplo, transferências bancárias se dão sob o amparo do spb (Sistema de Pagamentos Brasileiros), validado pelo Banco Central. Como imposto de renda cumpre as regras da “ReceitaNet”. No futuro, poderemos até votar sem sair de casa, sob supervisão do tse. E as demandas por essas aplicações, inevitavelmente, interferirão na infraestrutura e nos serviços. Nesse campo, (quase) tudo é possível; e por vezes, usando códigos conhecidos (como letras ou palavras), pode-se esconder o sentido real da mensagem, imitando a própria literatura – nos exemplos sendo convocados um repentista (a voz do povo) e um poeta clássico, sem que se saiba exatamente o que querem dizer:

Pra cantar Filosomia
Sobre a vida de Jesus
Canto debaixo da terra
Na Santa Filanlumia
Oceano desdobrado
No véu da Pilogamia.
Zé Limeira (Cantoria)
Tu és o quelso do pental ganírio
Saltando as rimpas do fermim calério,
Carpindo as taipas do furor salírio
Nos rúbios calos do pijóm sidérico.
És o bartólio no bocal empírio
Que ruge e passa no festão sitério
Em ticoteios no partano estírio
Rompendo as gâmbias do hartomogenérico
Teus lindos olhos que têm barlacantes,
São camençúrias que carquejam lantes
Nas duras pélias do pegal balônio.

São carmentórios de um carcê metálio
De lúrias peles, em que buza obálio
Em vertimbáceas do pental perônio.
Luis Lisboa (A uma Deusa)

Regulamentação

Para o filósofo espanhol Ferrater Mora (Dicionário de Filosofia), “o paradoxo fascina porque propõe algo que parece assombroso seja como se diz que é”. E o paradoxo, para a internet, é a pretensão de que deva ser, necessariamente, a única atividade livre desses controles democráticos. Porque relações em comunidade são, sempre, construídas a partir de controles sociais. Temos interferências na vida econômica, com a definição de cada uma das políticas setoriais – de educação, saúde, habitação; em práticas compensatórias; na definição dos preços públicos; na vedação de monopólios e oligopólios. Em todos os setores. No tráfego, por exemplo, só podemos dirigir com carteira de habilitação, o carro deve ser emplacado, o cinto de segurança é obrigatório, o sinal vermelho deve ser respeitado, temos contramão, estacionamento proibido, velocidade máxima permitida, e nunca ninguém pensou que esses limites possam violar a liberdade de locomoção, sagrada na Constituição como direito individual e cláusula pétrea (art. 5°, XV). Sendo mesmo natural que algum tipo de controle social, democrático, se opere também em relação à internet. Um controle que decorrerá de sua inevitável regulamentação.

Problemas próximos

Considerando a variável tempo, podemos dividir os problemas dessa regulamentação em dois grupos. Um primeiro é o daqueles próximos, entre os quais avulta o do direito autoral, dado que resulta serem na internet imprestáveis tanto as legislações nacionais (no Brasil, Lei no 9 610/98), quanto a Convenção de Berna. Em Besason, por exemplo, um cybercafé pôs à disposição de seus frequentadores livro com publicação vedada pela justiça francesa – Le Grand Secret, de Michel Gonod e Claude Gubler, médico particular do presidente Miterrand. E a ordem judicial, que valeu para o livro, não foi capaz de bloquear a internet. Algo assim está acontecendo inclusive agora, no Brasil, com uma biografia não-autorizada do cantor Roberto Carlos. Não obstante tantos problemas, mais evidente deles é o fim (em setembro 2009) da segunda prorrogação de um dos contratos do Departamento de Comércio dos eua com o icann, começado no distante (medido no tempo da internet) 1998 – findando o contrato principal em 2011, bom lembrar. Três variá¬veis são possíveis: mais uma prorrogação, o que provavelmente ocorrerá (em razão da ausência de consenso sobre qualquer alteração); algum tipo de acordo com outros governos, deferindo o serviço a uma entidade multilateral (da qual participariam outros países); ou a transformação da icann em uma grande entidade internacional não-governamental. Sem muitas chances de mudanças sensíveis, nos conceitos atuais do contrato – que, para ser encerrado, precisa de aprovação do Congresso norte-americano. Com todas as implicações de poder que representaria abrir mão do seu controle. Nesse caso, como na regra de São Paulo, melhor mesmo é “esperar contra toda esperança”.

Problemas de longo prazo

Neste segundo grupo, o dos problemas de longo prazo, mais importante é a tentativa de prever o futuro dessa regulamentação – como um silogismo falso, em duas premissas e uma conclusão.
Premissa 1. Hoje, simplesmente, não há como operar regulamentação – por ausência de meios técnicos para estabelecer qualquer controle a partir do atual modelo de formação da rede. Na China, por exemplo, o governo desistiu de suas ambições de intervenção total sobre o conteúdo da rede. Não por deixar de querer, mas sobretudo por não ter como dar efetividade a essa passagem da intenção ao gesto. Países como China e Rússia já dão sinais de que formarão algo como icanns autônomos, subsistemas estruturados dentro do próprio sistema icann. E esse novo modelo de redes nacionais (ou regionais) convivendo com a mundial, tenderá a se multiplicar e ganhar força; a ponto de ser capaz, algum dia, de se conectar entre si, independentemente de uma rede mais ampla. Convertendo sinais gráficos de mandarim, ideogramas, cecedilhas, til e acentos de toda natureza, em códigos que serão capazes de ser reconhecidos por todos os computadores do planeta. Ainda não haverá mudanças expressivas no curto prazo; mas haverá mudanças, com certeza.

Premissa 2. Em visão histórica, é como se houvesse uma norma não-escrita, espécie de determinante dos interesses da coletividade, que inevitavelmente levasse a reproduzir modelos que deram certo. Primeiro leis locais, depois tratados internacionais. No Brasil, já foi inclusive dada a partida nessa volúpia por regulamentação. O Congresso Nacional processa, hoje, 439 projetos de lei sobre internet, dos quais 42 regulando seu uso e seis o seu acesso. Entre eles, uma alteração na Lei dos Partidos Políticos (Lei no 9096/95) com regras que dificilmente serão efetivas, como vedação de propaganda em alguns sites ou proibição de venda de cadastros de endereços eleitorais. Os tratados virão depois. Reproduzindo a premonição do escritor indiano George Orwell (em seu livro 1984), “quem controla o futuro controla o presente, quem controla o passado controla o futuro”.

Em situação similar, começamos regulando títulos de crédito – com os Decretos nos 2 044/1908 e 2 591/1912. Até que veio a Convenção de Genebra, em 19 de março de 1931, no seu próprio Preâmbulo indicando as razões desse acordo: “Desejando evitar as dificuldades originadas pela diversidade de legislação nos vários países em que os cheques circulam, e aumentar assim a segurança das relações do comércio internacional…” Resultado é que acabamos por renunciar a nossa própria legislação (Decretos nos 57 595/1966 e 57 663/1966), em favor da ratificação de tratado sagrando uma Lei uniforme sobre Letras de Câmbio e Nota Promissória. Quando é necessário, vêm as regulamentações. Até nas guerras. Em usos generalizadamente aceitos – como não atirar em oficiais. Ou convenções: 1864 – respeito a feridos protegidos pela Cruz Vermelha (depois, também pelo Crescente Vermelho); 1929 – tratar prisioneiros humanamente e respeitar religiões; 1949 – proibição de usar escudos humanos.

Conclusão.

Tudo nos leva, então, à conclusão de que seguramente a internet vai ser mesmo regulada, em um grande consenso internacional. Quando for outra. Por ser improvável que um modelo como esse, que vem da década de 1960, possa permanecer como foi conformado por muito tempo mais. E não será diferente, nesse campo, porque foi sempre assim em situações similares. A internet vai ser regulada quando estiver pronta para ser regulada. Vai mudar, precisamente, para poder ser regulada. Em outras palavras, vai poder ser regulada porque vai mudar. Ainda mais simplesmente, será regulada porque é indispensável que seja regulada. No futuro, claro, quando estivermos todos mortos, talvez. Provavelmente, deixando de ser a internet como a conhecemos hoje, para ser algo parecido. Mantendo só o nome. Ou nem isso.

Uma visão desalentadora do futuro

Apenas para constar seja aqui dito que, no coração das pessoas, pouco a pouco foi-se dando a tragédia. Acabamos confiando nas máquinas cegamente. Primeiro no computador, claro. Depois na internet. Perdemos a razão crítica. Nos desacostumamos a questionar. Duvidar, para gente demais, acaba sendo heresia. Se Deus é onisciência, o novo deus da gurizada existe mesmo, e seu nome é Google (por enquanto). Segundo uma lenda moderna, máquinas não erram. Problema é que erram, por erro do programador ou por conta própria. Estamos desaprendendo a beleza de errar por nossos próprios erros. Tempos faz pesquisei onde estava a mesa, nos velhos romances; e era, sempre, o lugar mais importante da casa. O centro da vida familiar. Na sala de jantar de outros tempos nos olhávamos de frente, uns para os outros. Depois veio a televisão. A família passou a ficar no sofá, ombro a ombro, com a tela na frente. Depois de olhos nos olhos, orelha a orelha. Passamos a nos falar de lado. Sem mais dar importância ao brilho no rosto das pessoas queridas. Mas, na televisão, a gente ao menos está (quase) sempre acompanhado. Computador, ainda pior, é hábito de quem não gosta de olhar de frente. De quem não gosta de gente. Quantos de nós passamos noites inteiras na companhia dessas máquinas que só respondem o que lhes perguntamos? Sem mais tempo para encontrar os amigos. Para jogar dominó em fins de tarde. Para conversar na calçada. Em Blade Runner uma replicante, Rachel, se apaixona por seu caçador, o também replicante Deckard. Duas máquinas se apaixonando. Estamos começando a viver o mundo terrível do futuro. A democracia da solidão. A conclusão dessa pequena fábula aqui contada, que nem fábula é, será só a de que essa internet de hoje vai mudar. Como também o homem que a digita. Mudarão os dois, pois. Para melhor? Não sei. Ninguém sabe.

José Paulo Cavalcanti filho, 61, é advogado no Recife.

r. interesse nacional

Os BOMBEIROS e seus salários no Brasil – jornalista roberta trindade /rj

 

SALÁRIOS BRUTOS DE BOMBEIROS NO BRASIL:

01º – Brasília – R$ 4.129.73
02º – Sergipe – R$ 3.012.00
03º – Goiás – R$ 2.722.00
04º – Mato Grosso do Sul – R$ 2.176.00
05º – São Paulo – R$ 2.170.00
06º – Paraná – R$ 2.128,00 1
07º – Amapá – R$ 2.070.00
08º – Minas Gerais – R$ 2.041.00
09º – Maranhão– R$ 2.037.39
10º – Bahia – inicial – R$ 1.927.00
11º – Alagoas – R$ 1.818.56
12º – Rio Grande do Norte – R$ 1.815.00
13º – Espírito Santo – R$ 1.801.14
14º – Mato Grosso – R$ 1.779.00
15º – Santa Catarina – R$ 1.600.00
16º – Tocantins – R$ 1.572.00
17º – Amazonas – R$ 1.546.00
18º – Ceará – R$ 1.529,00
19º – Roraima – R$ 1.526.91
20º – Piauí – R$ 1.372.00
21º – Pernambuco – R$ 1.331.00
22º – Acre – R$ 1.299.81
23º – Paraíba – R$ 1.297.88
24º – Rondônia – R$ 1.251.00
25º – Pará – R$ 1.215,00
26º – Rio Grande do Sul – R$ 1.172.00
27º – Rio de Janeiro – R$ 1.134,48 (SEM VALE TRANSPORTE)

os últimos estavam em greve, até ontem, e foram perseguidos, agredidos e presos pela PM/RJ sob o comando do governador sérgio cabral que acha um absurdo as reinvidicações.


SAKURA – de omar de la roca / são paulo

Sakura

O ramo partido

da cerejeira,

aponta a sombra da Lua

no regato adormecido.

O coração, como o ramo partido

Se espelha na árvore nua.

O ramo florido

Da cerejeira,

Pesa no coração do amante

a ter distante a estrela

e não perto, como quisera.

Desperta da quimera o coração

solitário.

A última corda ainda treme,

Cai mais uma folha no vazio.

A paisagem vermelha freme.

Cai a neve alva e branca.

( Chuva mansa cai no mar.

E a maré vira a concha ).

Chovem pétalas de cerejeira

nos pinheiros,nos trigais

no samurai que dança ao vento

na gueixa que  esconde o rosto, ri e vai.

Dure o sonho enquanto durar o momento.

Artista brasileiro, DILAMAR SANTOS, reage contra a posição antinacional dos jornalistas do PIG (Partido da Imprensa Golpista) que estão a soldo do interesse maior que é a tentativa de fragilizar o governo popular – não governado pelas “elites”- e assim, atingir a Presidenta DILMA ROUSSEFF


 ponto final no assunto. O Supremo Tribunal Federal decide  Libertar Cesare Battisti e negar sua extradição para a Itália. O contra-ponto desta decisão foi encontrar na grande imprensa brasileira uma quase que unanimidade na opinião de que nossa justiça está errada! Ver vários jornalistas de uma hora para outra transformarem-se em jurisconsultos de notável saber  e condenarem publicamente o já decidido pela justiça brasileira é dose. Seria hilário se não fosse trágico, Ver Um Boris Casoy, tremendo sua papada de indignação ,a bancada da globo,da record etc, ultrajados por esta decisão, deixando claro sua subserviência a qualquer coisa que venha de fora, babando e fazendo salamaleques para a Itália e sua justiça em detrimento da nossa,e criando um clima de revanchismo tipo ´-pagaremos caro por isto!- é de fazer um Rui Barbosa revirar no túmulo. Este tipo de brasileiro bem que poderia pegar suas malas e ir morar na Itália. Aqui definitivamente não contribuem em nada.

fonte: blog do dilamar.

DILAMAR SANTOS, é artista visual, de grande talento reconhecido internacionalmente, morador da Ilha de Santa Catarina na praia do Campeche (Rio Tavares). Abaixo um dos seus recentes trabalhos em exposição no salão do BRDE  em Florianópolis:

TAINHA – acrilico sobre tela. tam: 1:18 x 0,72

“LAZANHA DA SÔNIA” ! TODO MUNDO LÁ! dia 18/6/11

na PRAIA dos INGLESES em Floripa.

Que desenvolvimento queremos? – heitor scalambrini costa / pernanbuco

No Nordeste, as referências de desenvolvimento apontam para o Sul,
Sudeste. Somos induzidos a pensar que o desenvolvimento está ligado a
eventos como à chegada de novas empresas que vêm aqui se instalar, a
vinda de capitais de fora que para cá se dirigem atraídos por diversos
fatores (recursos naturais, posição geográfica, oferta de mão de obra
barata, incentivos fiscais, frouxidão na aplicação da legislação
ambiental) ou ainda pela realização de grandes investimentos públicos
em obras ou instalações.

Atualmente, o termo desenvolvimento é usado como um sinônimo para
crescimento Mas afinal o que é crescimento? O que é desenvolvimento?

Crescimento e desenvolvimento não é a mesma coisa. Crescer significa
“aumentar naturalmente em tamanho pela adição de material através de
assimilação ou acréscimo”. Desenvolver-se significa “expandir ou
realizar os potenciais de; trazer gradualmente a um estado mais
completo, maior ou “melhor”. Quando algo cresce fica maior. Quando
algo se desenvolve torna-se diferente.

O objetivo prioritário da economia dominante é o crescimento
econômico, cujo critério de avaliação da medida do crescimento de um
país é o PIB (Produto Interno Bruto). Quanto mais produzir, quanto
mais vender, melhor é o país, melhor está sua economia. Crescimento
tornou-se sinônimo de aumento da riqueza. Dizem que precisamos ter
crescimento para sermos ricos o bastante para diminuirmos a pobreza.
Mas o crescimento não é suficiente. Nos Estados Unidos há evidência de
que o crescimento atual os torna mais pobres, aumentando os custos
mais rapidamente do que aumentando os benefícios.

Não devamos nos iludir na crença de que o crescimento é ainda possível
se apenas o rotularmos de “sustentável” ou o colorirmos de “verde”.
Apenas retardaremos a transição inevitável e a tornaremos mais
dolorosa. Crescimento, para que constitua base de um desenvolvimento
sustentável, tem de ser socialmente regulado, com o controle da
população e com a redistribuição da riqueza.

Já o conceito de desenvolvimento sustentável propõe uma maior
igualdade com justiça social e econômica, e com preservação ambiental.
Espera-se que a progressiva busca da igualdade force a ruptura do
atual padrão de consumo e produção capitalista, visto que a
perpetuação deste modelo contemporâneo não é sustentável. Pois, se
caso o padrão de consumo dos países ricos fosse difundido para toda a
humanidade, seria materialmente insustentável e impossível. Este
padrão de consumo para existir, alcançado e propagandeado pela
economia capitalista contemporânea, requer a exclusão e a profunda
desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres.

O progresso desejado não é fazer obras em detrimento de comunidades e
ecossistemas. Há que mudar o paradigma do lucro para a qualidade de
vida da população. Enquanto isso não ocorrer, nossas cidades
continuarão a serem entupidas de carros, pois a indústria automotora
paga substancial tributo ao governo, sem que seja oferecido à
população transporte coletivo de qualidade.

Pernambuco é um exemplo de que estamos caminhando na contra mão de
oferecer melhor qualidade de vida ao seu povo. A opção adotada pelo
atual governo, o chamado “crescimento predatório”, utiliza argumentos
do século passado de que o “novo ciclo de desenvolvimento (?)” é a
“redenção econômica do Estado (?)” exigindo assim “sacrifício
ambiental”.

A mais nova investida contra a natureza é a implantação do Estaleiro
Construcap S.A. Para a implantação desta planta naval, que ira ocupar
40 ha, a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) concedeu a licença
de instalação autorizando a supressão de 28 ha de mangue (berçário
natural de centenas de espécies) na ilha de Tatuoca.  Sendo que as
atividades típicas desse tipo de empreendimento poluem em todas suas
formas, e a mão de obra necessária não é na sua grande maioria,
oriunda da comunidade, e seu entorno, com vêm falando os interessados
e o governador.

Em meio a posições conservadoras e atrasadas frente os desafios
atuais, os atuais dirigentes e gestores públicos do Estado, buscam
justificar o crescimento a qualquer custo, se utilizando do
oportunismo político e uma má fé inquestionável. O discurso do
desenvolvimento econômico nada mais é do que a negação dos direitos
fundamentais da pessoa, do meio ambiente e da natureza. Contra esta
visão devemos sim estar alertas, principalmente para aqueles que se
auto denominam de “novo”, e que dizem que estão trilhando “novos
caminhos”. Na verdade são meros representantes do antigo, do arcaico,
do conservadorismo; e ao mesmo tempo em que desrespeitam a natureza e
o meio ambiente, desmerecem a própria vida.

Logo, a estratégia escolhida ao buscarmos o desenvolvimento mais
humano, precisa responder às necessidades sociais de alimentação,
habitação, vestuário, trabalho, saúde, educação, transporte, cultura,
lazer, segurança. Não basta fazer coleta seletiva de lixo, evitar o
desperdício de água, substituir os carros a gasolina por carros
elétricos. Na verdade, o que é preciso mudar, para interromper a
destruição, é o tipo de desenvolvimento. Também o que não se pode
perder de vista são os limites da natureza e a nossa responsabilidade
em preservá-la para as gerações futuras.

.

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

Escritor AMILCAR NEVES escreve com indignação tratamento recebido pela cultura catarinense: incompetência e desleixo do governador e seus comandados

Livros em Ribeirão

Confesso, antes mesmo de ser torturado: fui semana passada ao interior paulista em viagem inteiramente bancada pelo contribuinte. Quer dizer, quase inteiramente bancada, porque tive que pagar a média com leite e um salgado que foi meu café
da manhã no aeroporto de Viracopos, em Campinas (pois precisei sair de casa, na Ilha, por volta das seis e meia da matina), e desembolsar o custo das 37 horas em que meu carro repousou no estacionamento do aeroporto Hercílio Luz. E sim, claro, não gozei de diárias ou compensações outras.


Não se computa, nessa conta, o investimento feito durante a 11ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto: não há desgraça nem prazer maior para um escritor do que ver-se enfiado no meio de uma feira de livros: ele jamais sairá dali sem uma sacola repleta de livros.


Pois bem: o povo catarinense pagou para que eu fosse a Ribeirão, a mim e a mais oito ou nove escritores da terra, porque Santa Catarina foi o estado homenageado desta edição da Feira (como já havia acontecido em 2009 na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, a maior do País – esta é a segunda). A comunicação da homenagem ocorreu em fevereiro, quando a prefeita ribeirão-pretana reuniu-se aqui com o governador barriga-verde. Na oportunidade, Raimundo Colombo assegurou sua presença na abertura solene do evento.


Correm lendas por aí segundo as quais o nosso governador não consegue dormir em voo. Assim, cada viagem sua ao exterior renderia dois dias de prejuízo ao contribuinte por causa das recuperações governamentais na ida e na volta. Como ele teria chegado em São Paulo de viagem à Europa na manhã da abertura, seu deslocamento a Ribeirão ficaria inviabilizado. O fato é que ele não foi à inauguração da Feira, conforme prometera e agendara, quando daria uma palestra e uma demonstração eloquente de que, finalmente, tínhamos um governador que se interessa por livros e literatura. Não sucedeu assim, e supõe-se que haja justificativas para tal.


Se o governador não foi, decerto iria o vice, substituto legal em seus impedimentos. Mas o vice também não foi. Não indo o vice, terá ido ao menos o secretário de Turismo, Cultura e Esporte. Mas o secretário, solidário ao chefe, igualmente faltou. Sobrou o diretor geral da Secretaria. Este foi, mostrando a que nível está relegada a Cultura em Santa Catarina, mas quem defendeu as cores do Estado, numa palestra brilhante e didática, foi o jornalista Moacir Pereira, autor de diversos livros.


Mas isso não é nada. O estande especial do Estado foi montado pela Santur, do Turismo, que tem vasta experiência em feiras, e o fez muito bem. A FCC, da Cultura, omitiu-se ou foi omitida do evento e o seu presidente apareceu na abertura da Feira, e só. Sequer os livros premiados e publicados pelo Estado no bissexto Concurso Cruz e Sousa estavam disponíveis.


Pior: numa feira de livros, nenhuma obra de autor catarinense pôde ser vendida porque não havia estrutura para isso num estande forrado de belas imagens das atrações turísticas do Estado. Livros, lá, fizeram parte da decoração, como elementos coadjuvantes de uma estante, com suas lombadas viradas para o distinto público.


Com mais de 600 atrações, de palestras literárias e encontros com escritores até apresentações musicais – sem uma única dupla pseudossertaneja que fosse -, não foi programada a participação de catarinense algum nos debates.


É assim que se desperdiçam oportunidades raras, valiosíssimas, e se joga fora o rico dinheirinho do contribuinte.


STJ anula operação da PF e livra Daniel Dantas de condenação

Banqueiro Daniel Dantas foi condenado a 10 anos de prisão.
Segundo ministros, participação da ABIN na operação anulou provas.


Os ministros da 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiram nesta terça-feira (7) anular as provas produzidas na Operação Satiagraha, deflagrada pela Polícia Federal, em julho de 2008.

Cabe recurso à decisão do STJ no Supremo Tribunal Federal. Por meio de sua assessoria, a Polícia Federal informou que não irá se manifestar sobre a decisão do STJ.

Segundo a decisão do STJ, a participação irregular, segundo o entendimento do tribunal, de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) invalidou provas produzidas por meio de quebra de sigilo telefônico e rastreamento de e-mails.

A operação foi base para o processo que condenou o banqueiro Daniel Dantas,

José Serra dá a boa notícia a Daniel Dantas – o banqueiro bandido.

do Opportunity, a dez anos de prisão, por corrupção. Para os ministros, a ilegalidade das provas invalida a ação penal contra Dantas.

Dantas foi condenado, em 2008, pelo então juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, por suposta tentativa de corromper integrantes da PF que atuaram na operação.

O pedido para anulação da operação foi feito pela defesa do banqueiro, alegando que a participação de agentes da Abin foi ilegal e teria comprometido a legitimidade das provas produzidas na operação.

Por três votos a dois, a 5ª Turma entendeu que a investigação foi “maculada” por irregularidades. A tese de Dantas obteve os votos do relator, desembargador Adilson Vieira Macabu, do ministro Napoleão Nunes Maia Filho. Segundo Macabu, as provas “ilegais” contaminaram todo o processo e, portanto, seria anulada a ação penal.

Durante o julgamento, foi citada ainda a suspeita de que a PF tivesse contratado uma espécie de “araponga”, um detetive particular que teria participado das investigações da operação. A prática, segundo os ministros, seria irregular por expor dados sigilosos dos investigados a terceiros.

Para o presidente da turma, ministro Jorge Mussi, não é admissível a participação da Abin em uma investigação na “clandestinidade” e de “forma oculta”. Para ele, seria possível a participação da agência na operação desde que houvesse autorização da Justiça.

“Não é possível que, esse arremedo de prova, colhido de forma impalpável, possa levar a uma condenação. Essa volúpia desenfreada pela produção de provas acaba por ferir de morte a Constituição. É preciso que se dê um basta, colocando freios nisso antes que seja tarde. Coitado do país em que seus filhos vierem a ser condenados com provas colhidas na ilegalidade”, afirmou o ministro Mussi.

Os ministros Gilson Dipp e Laurita Vaz ficaram vencidos ao defender a manutenção das provas. Eles entenderam que não havia, nos autos, fatos para sustentar a participação da Abin nas investigações.

Defesa
De acordo com o advogado de Daniel Dantas, outros inquéritos e ações penais que tiveram como base a Operação Satiagraha poderão ser afetados pela decisão do STJ.

Para isso, os juízes de primeira instância responsáveis pelos processos deverão aplicar o entendimento do tribunal. Para a defesa do banqueiro, Andrei Zenkler, a decisão do STJ reconhece “uma fraude policial”.

“Essa decisão reflete exatamente a fraude policial que montou um cenário fictício de corrupção. O crime não existiu e o STJ reconheceu uma fraude em uma investigação policial”, disse o advogado.

O julgamento do pedido da defesa de Dantas começou em março deste ano. Após o voto do relator, dois pedidos de vista adiaram a decisão. A tese de Dantas foi negada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que não identificou ilegalidades na operação da PF, e ele recorreu ao STJ.
Débora SantosDo G1, em Brasília

foto livre. ilustração do site.

Roberto Sosa: a poesia como arma de resistência em Honduras – giorgio trucchi / tegucigalpa

Os desprovidos, os excluídos e a injustiça social que reina em Honduras foram os elementos fundamentais de sua obra. Na madrugada de 23 de maio, aos 81 anos, faleceu o grande poeta hondurenho Roberto Sosa, o primeiro latino-americano a receber o Prêmio Adonáis de Poesia, concedido anualmente na Espanha, em 1968. Três anos depois, ganhou o Prêmio Casa de las Américas, de Cuba, por sua obra Un mundo para todos dividido. Três dias antes de fechar os olhos para sempre, Sosa soube que receberia mais um reconhecimento: o prêmio espanhol Rafael Alberti pelo conjunto de sua obra.

Wikicommons

“Os pobres são muitos e por isso é impossível esquecê-los”, diz um dos poemas de Sosa 

Foi um dos intelectuais mais importantes dos últimos 60 anos de seu país e da América Latina. “Sosa sempre teve uma visão muito crítica a respeito da impressionante desigualdade de nossa sociedade hondurenha, onde a imensa maioria da população se encontra desprovida e um setor minoritário é proprietário da maior parte da riqueza”, disse ao Opera Mundi a catedrática universitária e ativista das Mujeres en Resistencia de Honduras, Anarella Vélez Osejo.

Uma desigualdade que o poeta viveu na própria carne. Natural de Yoro, norte de Honduras, vindo de uma família de recursos muito escassos, Sosa se manteve a vida inteira com o que ganhava com o trabalho literário. “Sempre esteve ao lado das pessoas à margem da sociedade e esta posição é vista em sua literatura. Entre sua vida e sua obra, nunca houve contradição. Foi uma pessoa coerente com seu afazer literário e seu posicionamento político e social”, afirmou Vélez Osejo.

O S P A P É I S D E A S P E R N – por jorge lescano / são paulo

Há semanas procuro, já sem esperanças, alguns recortes de jornais com entrevistas de Ricardo Piglia. Eles estavam guardados num exemplar de O Laboratório do escritor que emprestei a Lucas Paolo, leitor cuidadoso ao ponto de preferir não levar os recortes por temor a perdê-los. Por algum tempo eles circularam sobre o sofá-cama, o toca-discos quebrado, a escrivaninha lotada de papéis, fitas de vídeo, pacotes de bolachas. Em algum momento devo tê-los guardado para evitar que se extraviassem na confusão de minha mansarda. Eis que é justamente então que os perco de vista. Provavelmente os guardei de forma distraída, sem gravar convenientemente o local que virou esconderijo. Sei que eles se encontram aqui, mas vivo a experiência de procurar uma agulha num monte de feno, e não precisamente parecido aos pintados por Monet.    

O título desta nota reproduz o de um romance de Henry James. A ação do romance se desenrola em Veneza, num palácio mais ou menos decrépito, residência de duas velhas senhoras norte-americanas possuidoras de antigas cartas amorosas do escritor inglês Jeffrey Aspern endereçadas à atual residente do castelo, com quem teria mantido uma relação amorosa em sua longínqua juventude.

O personagem narrador é um editor interessado profissionalmente nesses despojos. Para consegui-los urde o enredo desta obra de James, começando por se estabelecer em alguns cômodos do palácio. A senhorita Bordereau não perde a oportunidade de saquear o bolso do seu hóspede. Após várias tentativas para conseguir informações sobre o paradeiro dos papéis, que incluem a sedução da senhorita Tina, a menos velha das moradoras e sobrinha da antiga (suposta) amante de Aspern, pois segundo confessa não há baixeza que eu não seria capaz de cometer por Jeffrey Aspern, decide apelar para o furto.

Na página 125 o protagonista é surpreendido na alta madrugada pela velha senhorita Bordereau no momento em que vasculha gavetas de um móvel.

– Ah, seu escritor canalha!, diz o texto.

Escritorzinho ditava a minha memória, sem o adjetivo.

Sem o risco nem a humilhação de ser surpreendido como um larápio eu, ao contrário de subtrair cartas, pretendia devolver um livro à prateleira quando senti se abrir uma pequena fenda entre os volumes. Algo bloqueava a penetração do livro que tinha em mãos na fileira excessivamente apertada. Desisti de forçar, afinal um livro é apenas um pequeno volume de folhas de papel, material frágil e sensível

Com algum esforço passei a mão por cima da fileira de livros – a prateleira estava acima da linha dos meus olhos – e senti na ponta dos dedos o corpo mole e previsivelmente retorcido de um volume. Puxeio com cuidado em direção do fundo da estante. Livre da pressão dos outros livros, como alguém que é liberado das águas quando estava prestes a se afogar, senti no pulso a vontade do pequeno objeto de retornar à superfície. Ainda atrás da fileira de livros, nas pontas dos meus dedos, compacto e eu diria com ar triunfal, como um garoto resgatado de um terremoto depois de dias soterrado sob toneladas de entulho, as letras brancas em campo verde, são e salvo, retorna à vida Os papéis de Aspern. Livre da pressão dos outros volumes, as folhas se espreguiçam como um garoto abrindo os braços em gesto de vitória.

Às vezes penso que o djim da minha mansarda troca as coisas de lugar menos por divertimento que para me obrigar a reconhecer a confusão deste espaço. Admito: sua presença não é a causa da desordem. O livro estava numa região de todo inesperada, mesmo num ambiente onde nada tem lugar definido. Por que motivo eu o havia colocado ali? O fato de estar junto com uma obra que trata de vários autores, entre eles Henry James, não me parece satisfatório. Estaria justificado se algum livro dos outros autores estudados nessa obra também estivesse ali, criando assim uma espécie de sistema, não era esta a situação.  

O acaso, ou como se chame tal coincidência de circunstancias, havia-me levado a mexer naquela região densamente povoada e ao mesmo tempo adormecida, pois pouco freqüentada nos últimos tempos.

 

Em Formas breves, outro livro de Piglia, reencontro as reportagens que já considerava perdidas. O caso se resolveu pelo óbvio, pode-se dizer. Também de maneira fortuita e em outra zona do caótico território ressuscita O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes. Tais acontecimentos renovam a minha esperança de rever Formas simples, de autor esquecido e que como Os papéis de Aspern teima em brincar de esconde-esconde no desalinho da biblioteca.

 

OFERENDA – zuleika dos reis / são paulo

 

Falas como sempre da morte falas como sempre

desde os primórdios desde os prenúncios

das tuas falas primeiras e também dela sempre

continuam as palavras quando te calas quando

em mim se calam os sentidos e os silêncios dela

a morte sempre a morte fundamento

da tua linguagem

 

mas a vida a espreitar a espreitar-te sempre

no centro da ponte na ponta da outra ponta

da linguagem.

 

Sonhei quanto sonhei com a tua incoerência

com a tua traição ao tema da tua pena em tua boca

com os desvios de presença da morte sempre jovem

nos mares de navegar sempre este destino

de incessante a cantares. As perdas achados pérolas

as cruzes de a calares no mais fundo o teu pisar

na terra observando dela as pegadas teu mergulho

nas águas conchas desta morte sempre-viva

 

e sempre, a estreitar-te sempre,

a vida-que-não-morre, sempre a vida,

no centro mesmo da amada em teus dizeres

no centro mesmo da amada em teus calares

 

sempre a estreitar-te, no centro

da fonte da vida-linguagem

linhagens…

Edoardo, o Ele de Nós: romance/rapsódia com teor de manifesto épico ou da prática do estilhaço – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Editora 7 LETRAS

2007 – Romance

Flávio Viegas Amoreira

 

Estilhaços de signos. Enigmas num detrator. Edoardo, o Ele de Nós é romance/rapsódia. Fruto verdadeiro de sua época. Manifesto ou quase-manifesto, em vestes de ficção. Flávio V. Amoreira, desvela conflitos. Interioridades que fazem literatura de primeira. Estetização do trágico. O autor, queda-se sujeito/objeto na voragem dos ditos. Ficção-transgênero, compêndio de reflexos dos sentidos. Pouco mais de 80 páginas, bastam pra que o leitor fragmente-se. Fragmentar-se no tempo em que tudo é fugaz. Fragmentar-se para ser tantos outros. Empática entrega. As relações relâmpagos. Amores desnorteados que nascem/morrem. Insigths da des-razão. Não se pode dissociar o poeta do prosador. A prosa ágil, cheia de obtusidades, agudas geografias, explode raras significâncias.

 

1. Numa primeira visão:

 

Rapsódia pura, sem filigranas… Isso é “Edoardo, o ele de nós”.

Ser grafo, mas dotado de vida própria, o personagem Edoardo é filho do acidente… da poesia/literatura ou arte!? Edoardo ama o autor de amor carnal intenso. Um híbrido-prosopoético, este texto, de onde pingam maravilhas imagéticas como: Edoardo concedeu sua rosa: abri intumescido florete. Homoeróticas vertigens, o mar como Signo/Senhor/Supremo da tríade vida/liberdade/escritura. Todo livro escrito é um anjo em nosso ombro apascentando o indizível. Flávio Viegas Amoreira, sem enredo, mas em superdotação semiótica, faz densa e primorosa esta rapsódia contemporânea única.

 

2. Numa segunda visão:

 

Rapsódia ou prosa poética para iniciados?! O personagem Edoardo: ser grafo, filho do acidente… da poesia/literatura ou arte!? Edoardo ama o autor de amor carnal intenso. Ama e dialoga: a vida e as relações. Um texto mágico, de onde pingam maravilhas imagéticas. Edoardo, como o autor, também é refratário ao ócio. Eduardo lê o livro do autor. Homoeróticas visios, o mar como signo forte & topos da escritura. Flávio Viegas Amoreira, em labor semiótico raro, torna densa e única esta rapsódia épica.

A escrita rapsódica é pródiga nas imagens e o autor a trabalha muito bem.

 

3. Numa terceira visão:

 

“Edoardo, o ele de nós” é rapsódia e não. O personagem é de carne, ossos e nervos e não. Um ser grafo ou um signo velado, advindo da própria linguagem!? Edoardo inconstante inconteste: você é onde me retrato. Flávio Viegas Amoreira, artífice-semiota, não poupa imagens fortes. Edoardo sintetiza inúmeras contradições. Edoardo como o autor é refratário ao ócio. Edoardo dá-se consubstancialmente… Ama e agride. Ama e dá sentido à existência. Edoardo exercita percepções livres & expande consciência/conhecimento. Camaleônica, esta escritura que afronta o eu, o ele e o nós da conformação.

Escritura densa, volátil, expansiva. Esse romance estilhaça qualquer razão. Uma prova concreta: a literatura opera o milagre das sãs inaugurações imagéticas. A literatura ousa em seu tempo/espaço. A literatura pode sim nominar o indizível. Além/aquém, e no entorno da filosofia e das ciências, a literatura provoca explosões de conhecimento. E sem mexer uma lupa. Ou melhor, sem romper um nervo do cadáver putrefato da história, ou isolar vírus num laboratório.

Trabalho de rara confluência de signos. O autor carrega de sentido as frases. Frases que em sua maioria formam versos da melhor poesia ou aforismos lapidares. (Gostaria de dizer ao modo de poeta: feitura de eclipsemas que fazem pensar). E nem só do objeto ficcional, o 11 de setembro histórico, que estilhaçou consciências, vive a obra. Há grande investimento na sintaxe diferenciada. Também no léxico, quando neologismos e sobreposições de palavras saltam aos olhos, como insetos luminosos. Essa a alquimia no texto, que faz de Flávio V. Amoreira, o grande autor de sua época. O autor/crítico, antenado com o tudo que nos rodeia. Das intersemióticas relações, e de bibliotecas consumidas, é que o artista se faz. E mais que isso, da Web o cyber-cognocer & plena/imediata comunicação com o mundo. Sempre exigindo-se muito, como se exercitasse um auto-desafio existencial, de busca e apreensão da objetalidade e do conhecimento. Foi-se a era dos autores acomodados no literesco. Fenômeno que ainda se reflete na literatura portuguesa (de Portugal mesmo). Hoje, na dúvida sobre o biotipo do leitor, o autor criativo, busca o máximo que sua pena pode dar, e isso, sempre abrindo canais com o desconhecido. Em variações de postura e conquista de espaços novos ao dizer. O leitor do futuro, que entenderá realmente o autor que fomos no tempo em que vivemos, pode ser uma realidade, ou apenas uma premissa alentadora à criação.

Sinestésica apreensão do indizível. O romance Edoardo, o Ele de Nós, marca um tempo e projeta outro, que é de plena potencialidade da escritura. Flávio V. Amoreira, é sensível antena da raça, e projeta a literatura brasileira, como um desafio aos pares. Um desafio que indica possibilidades novas de exercício do código. O código que não tira, mas acrescenta ao mundo, novos conceitos e conteúdos. Nisso, acompanham todas as mídias, fatores importantes ao resultado-soma da produção.

Entendia que a literatura brasileira ia ficar só naqueles nomes. Sofria, ante a recusa de editar. Desacreditava no processo. Mas agora não. Autores como Flávio V. Amoreira, já passaram por isso, e mostram que ainda é possível se fazer literatura com independência e originalidade nesse país. Literatura que pode ser um guia seguro pra gerações de criadores que hão de vir. Contra todas correntes de negação da arte, poesia e literatura, o produto da criação individual, sobrevive com dignidade no tempo.

 

tentava Arte pela Literatura esse algébrico esporramento de sons tintas gestuália reflexivo oblongo buraco alvo: seria essa minha descoberta do amor pelo entendimento?”

 

Edoardo, o Ele de Nós, representa muito pra literatura contemporânea brasileira. Seus efeitos de romance-rapsódico, estalo de imagens tensas, reflexo de seu tempo, frustra hermetismos por hermetismos e clareia veredas novas na ficção nacional. O livro recém lançadoem São Paulo e Santos, ganha o Brasil, e certamente instigará críticos e criadores. A bem da vida e da arte que se faz com palavras, o novo não é novo apenas porque é de agora aparecido. O novo é novo porque é de acrescento de significação. O novo é novo porque é de construção prodigiosa do pensamento, levando-se em conta labor estético e versatilidade dos meios. Em tempos em que ainda se cultiva o naturo-realismo na ficção, sem vôos de imaginação, e no tranco de pangaré no que se refere à sintaxe, a prosa de Flávio V. Amoreira aparece densa e inovadora. Ousar pelo signo, é mais que simplesmente escrever. É esforço dos sentidos, a parir a obra nova, que como flor-matriz provoca múltiplas interpretações. Tenho lido. Estou lendo. Releio.

 

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 465 outros seguidores