Autor Arquivo: Equipe Palavreiros da Hora

2057. UMA CRÔNICA MARCIANA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

“Vem cá Brasília, deixa eu ler tua mão menina, 
tem grande destino reservado pra você”.
Adaptação do samba do Zé Catimba (carnaval de 1974)

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Logo que cheguei a Marte em 2055 tive que responder a uma pergunta que me deixou encafifado: onde anda o Edgar? Perguntou-me um escritor marciano. Não dei muito papo, porque escritores, sabem como são, gostam de conversar fiado e metem o focinho em tudo, preferi marcar um café mais tarde no meu bangalô. Diz ele que vai processar o Edgar, como nunca li o tal Edgar, pensei, por que será? Deve ter sido briguinha de intelectuais ou alguma criticazinha a Marte. Os marcianos são tão bairristas quanto os brasilienses, eles acham Marte o suprassumo do Sistema Solar, eu acho isto aqui uma merda, sem falar que não tem praia, se bem que, como trabalho pro Itamarati, moro perto do Mare Sirenum (um lago artificial criado pras elites daqui), bem próximo ao “Monte Olimpo”, com seus 26 km de altura. Em Marte é assim, ou você está por cima, nos píncaros, é um DAS-8, ou vai morar nas ‘Fossas Marianas’, para além da “Cratera do Schiaparelli”, na periferia da periferia, e leva horas no metrô para chegar ao batente. Nos últimos anos, dizem que Marte mudou, falam em tempestades solares, mau-olhado, macumba, poluição. Há os que culpam os alienígenas, dizem que tudo começou a dar errado depois que nós chegamos, que Marte era uma tranquilidade, um sossego, com os alienígenas veio a violência, a poluição, os ventos mudaram de direção, e os morros começaram a desmoronar na periferia, é claro. O “trágico acidente”, como diz o telão, foi para os lados da “Terra de Malboro”, onde a poeira vermelha sobe em redemoinhos gigantes, porque em Marte tudo é gigantesco, tudo é super, tudo é mais bonito, mais espetacular, mais trágico. O acidente foi por volta de meia noite, acordando muitos moradores de seus sonhos freudianos, os desejos reprimidos de sempre: ganhar na loteca, comprar uma TV de 50 polegadas, conseguir um emprego no governo, desfilar na Unidos do Cruzeiro, e ir pro céu. Muitos foram nessa. Confesso que me adaptei em Marte melhor do que esperava, não é dos piores lugares em que estive. Primeiro, fui mandado pra Amazônia, era como se fosse Marte, antes dos americanos baixarem lá (vazia, calor infernal, sem falar nas doenças). O pior era a distância do Rio, que, naquela época, era o centro do meu universo. Depois fui pra Brasília nos inícios, aí era Marte mesmo, sentia falta de ar, meu nariz sangrava, faltava tudo, a poeira vermelha cobria até a Esplanada dos Ministérios. Faltava até mulher, que no Brazyl (agora com z e y, é a nova nomenclatura, fazer o quê) havia em profusão nas praias lotadas, depois inventaram essa de mulheres trabalharem para adquirir liberdade, e agora estamos nesse impasse, elas querem voltar pra casa e querem liberdade. Aqui em Marte raramente são vistas, e quando aparecem, são como os pardais, andam em bandos, chilreando e com o dedinho iluminado, sinal que estão na fase fértil. Outro dia, pensando em encontrar uma marciana mulata e tentando matar a curiosidade sobre a fisiologia sexual delas, dei uma volta pelos subúrbios, fui conhecer a “Terra de Marlboro”, queria ver os tais redemoinhos gigantescos, peguei um carro-voador blindado, com dois robôs, vi muitos homens armados, usando aquelas máscaras do Darth Vader, dando bascolejo, sem mais nem menos deitavam os suspeitos no chão, pisavam nos ovos dos caras com aquelas botas pesadas, metiam a porrada e os transeuntes aplaudiam. Este passeio pelos subúrbios de Marte me deixou muito triste, tive que tomar um rivotril que trouxe do Brazyl, é recomendado pra tristeza e amargura. É que a pobreza me deixa amargurado, é a coisa de que mais tenho medo: voltar a ficar pobre, sem dinheiro, vocês podem imaginar, Nelson Rodrigues já dizia: “dinheiro compra até amor verdadeiro”. E compra mesmo, até em Marte. Paramos numa esquina barulhenta e poeirenta, e logo me apareceu um menino com uma telinha, onde a cada toque se via uma marciana, algumas belíssimas. Quanto é? Ele abriu a mão de treze dedos. Treze? Fez uns sinais dando a entender que eu poderia negociar direto com ela. Hoje não, tomei o comprimido pra ficar alegre, mas o meu tesão foi pro brejo, efeito colateral e, depois, meu motorista disse que estava escurecendo e que seria perigoso continuar naquela área.
Próximo a minha casa, nas margens do Mare Sirenun, reencontrei o escritor, disse chamar-se Lorquas Ptomel, pedi à robozinha (coisa linda, só vendo), pra servir um café, estava um tanto curioso para conhecer a cultura local. Ele era o rei das perguntas chatas: perguntou-me pelo Ray, eu nem consegui dizer que ele morreu em 2012, insistiu com a pergunta sobre o Edgar, pensei que ele queria saber alguma coisa do Tarzan ou então estava falando do outro Burroughs, filho do inventor da máquina de escrever (acho que vocês não sabem o que é), mas não, me disse que o cara escreveu vários livros sobre Marte. Fingi que já sabia, fiquei saboreando o café e apreciando a bunda da robô, nem ouvia as abobrinhas que o marciano falava, com aquele ar entediado, comum aos escritores, sejam de Marte ou de Brasília. Botei a vassoura atrás da porta e aguardei (é o verbo mais usado por aqui). Assim que o escritor marciano deu a entender que ia embora, pensei: hoje eu pego essa robô de qualquer maneira. Vocês não fazem ideia do que seja fazer amor com uma robô, sim, porque com ela eu fiz amor e não sexo, é como se tivesse voltado aos inícios dos anos 70 do Brazyl. Não fazem ideia do que seja fazer amor olhando pro céu estrelado de Marte, sem nenhuma nuvem, nada, céu azulíssimo. Agora começo a entender porque os dois Impérios que mandam na Terra gastaram bilhões de dólares e outros tantos de Yuanes pra se estabelecer aqui. Só fazer amor em Marte com a Seane (coisa mais linda) já teria valido a pena. Lembram-se da Rachael, do Blade Runner, é a cara e o corpo dela, só que “com uns quilinhos a mais” como ela me disse, quando a escolhi na tela da minha sala, olhando-me com aquele olhar marrom-claro e os cabelos presos na nuca. Quando ela levanta a cabeleira negra liberando a nuca, é o céu, o céu de Marte. Depois de uma noite de sono, que há muito não tinha tido, sem ter nem porquê, meu pensamentos voaram pro Brazyl, tenho essas recaídas, dizem que a palavra só existe na língua marciana: saudade. Nessas horas, sempre lembro de uma frase do Gregório de Matos (não deve haver mais vestígios nem no Google): “Que me quer o Brasil, que me persegue?” Parece papo do Lorquaz Ptomel, o escritor marciano, mas a frase me empurra para o passado distante, mesmo que eu não queira ir. Acordei tarde, botei meus óculos protetores, sapatos de chumbo, pra me segurar no chão, olhei pela janela e quem estava na porta pra me importunar? O Ptomel, com aquela cara de interrogador, querendo saber como era Brasília. Pensei: porra, esse cara vai infernizar minha vida por aqui, logo agora que a minha robozinha está no período fértil. Vou contar logo o básico e ver se me livro deste chato.
Houve uma época em que se imaginou que seríamos um Império grandioso: “O Império do Meio do Mato.” Lá se vão cem anos, foi no reinado de Ramsés de Oliveira e Marte ainda era chamado de Planeta Vermelho e só existia nos sonhos do Schiaparelli (deve ter no Google) e nas histórias do Bradbury, que não tenho saco pra ler, detesto ficção científica. Para entender o presente, e o que vim fazer em Marte, é preciso dar uma olhada no passado. Infelizmente, é o passado que cria o futuro, se o passado foi uma merda, porque o futuro seria diferente? Está nos livros de história, tudo começou com o príncipe Ramsés, que subiu no Morro do Cruzeiro e disse com a pompa de sempre: “daqui, deste curral, que será o palco das grandes decisões nacionais, fica criada esta ilha chamada Brasília, onde, como disse Dom Bosco, correrá muita grana e muito mel”. Desculpe Ptomel, mas li a frase antes de derrubarem a Rodoviária, não me lembro com exatidão. Chamou então o grande arquiteto do universo (Deus), e disse-lhe ao pé do ouvido: “Oscar, quero uma cidade bem egípcia, muitas pirâmides, muitos palácios e o Rio Nilo em volta, não importa quanto vai custar”. Está claro nos textos bíblicos que ele se referia ao grande Oscar Niemeyer, que hoje está com 200 anos, completamente lúcido. Oscar convocou seu compadre, o resto, todo o mundo sabe: ele fez uns rabiscos e um pouco de literatura. Alguns criadores de caso avisaram: “isto vai dar merda”. Os empreiteiros e fazendeiros berraram bem alto, cada qual defendendo seus pastos. Ramsés não quis nem saber, pediu grana emprestada aos gringos pela tabela Price, os gringos achavam que valia o risco, queriam ordem no seu quintal, pensavam que poderíamos ser um grande “mercado” para seus produtos. Ramsés chamou os pelegos-chefes do IAPI, IAPETEC, IAPC e outros IAPs e exigiu a grana acumulada na CAIXA para pagar a aposentadoria dos trabalhadores. Não, príncipe, é para o nosso futuro, disseram os pelegos. Ramsés retrucou na bucha: o futuro é agora, lasca o pau e manda rodar a manivela. Por essas e outras é que chamam a cidade de “O Túmulo do Faraó”. O problema é que o príncipe que sucedeu Ramsés, um magrelo apelidado “Vassourada”, um dia acordou de ressaca e cismou que não ia morar mais no Palácio da Alvorada, reclamava daquele silêncio de túmulo e do frio cortante do cerrado. Dizia que mandava menos que o prefeito de São Paulo e tinha razão, como alguém ia comandar um continente de dentro de um palácio a beira do Lago Paranoá, sem o Google, sem Facebook, sem o MSN e sem o Badoo? Era o problema de sempre, as legiões não o levavam a sério. Resultado: foi varrido do poder. Renunciado. Um espanto, nunca se soube de alguém que tivesse renunciado a nada em Brasília, no máximo o sujeito pede licença sem vencimentos. Enquanto rolavam essas complicações nos altos escalões, o povo (sempre mal informado, só viam o programa do Chacrinha e ouviam o futebol), chegava aos borbotões, em busca da grana e do melado, mal sabiam que a grana tinha dono e o melado estava sendo disputado em recinto fechado, no Palácio das Duas Tigelas, também conhecido como Vinte e Oito, em homenagem aos 28 que caíram lá de cima na sua construção (alguns, de vez em quando, saem da tumba e desempatam a votação). Os gringos, que já andavam ressabiados por causa dos cubanos, a essas alturas começaram a desconfiar que não receberiam a grana, e que aqui dentro, caberiam umas seiscentas Cubas. Se uma, comandada por um lunático, já dava um trabalho danado, calcule seiscentas. Então chamaram os militares. Estávamos na época do “nacional-devedorismo” (devo, não nego, pagarei quando puder), doutrina criada pelos militares nos anos 40 do século passado. A proposta era crescer endividando-se, como faz o povo até hoje no Ponto Frio e nas Casas Bahia, confiando que amanhã vai estar tudo muito mais caro. A ideia era construir uma cidade que fosse o contrário da bagunça brasileira. Tudo certinho, organizado (cada coisa em seu lugar, um lugar para cada coisa). Só que a bagunça brasileira também foi planejada, não se cria uma esculhambação como o Rio, Salvador, São Paulo, Recife, Belém, de uma hora pra outra, são coisas planejadas, de séculos. No final do mandato, Ramsés fez uma viagem (ele gostava muito de viajar) pra Paris. Os milicos entraram e trataram de consolidar a cidade, afinal iam morar nela por muitos anos. Logo notaram que O Vassourada nada tinha feito e Jango, como percebeu Glauber Rocha, era um fazendeiro-poeta, mais fazendeiro que poeta, queria mudar o imutável sem sair da fazenda. A capital cresceu mais do que qualquer outra cidade em todos os tempos, os súditos do príncipe Ziror, que governou a cidade nos começos, passaram de 140 mil almas, em 1970, para mais de 10 milhões. O problema é que as cidades tem o péssimo hábito de mudar o tempo todo. São como caleidoscópios (uma metaforazinha que o Lorquas Ptomel gosta, ele adora também o verso do poeta Saint-John Perse: “As cidades crescem, enquanto as mulheres sonham”), diz ele que os sonhos femininos são confusos. Pensei: este Ptomel parece misógino, acostumou-se mal com a obediência das robôs, vive no passado distante, talvez pra se proteger, quem sabe, ou talvez porque os marcianos são assim mesmo, quando ficam velhos. Os marcianos são pessimistas, só falam em problemas, o Ptomel chegou ao ponto de me dizer que problema algum tem solução definitiva, diz ele que apenas mudam a forma. Ele falando estas abobrinhas e eu pensando na minha robô (coisa mais linda), depois que ela dorme fico observando Brasília aqui de cima, o mais interessante é que ela dorme com os olhos abertos. O Ptomel quer saber quais são nossos problemas. Sei lá, a minha robozinha deitada me esperando e eu tendo que falar de problemas em Brasília, quero lá saber daquela politicagem, esse Ptomel tem cada uma. Acho que o problema principal de que acusam o príncipe Ziror é a “Grande Muralha Medieval”, construída em 2030, para controlar a entrada dos bárbaros. É que não só os DAS estão dentro da Muralha, mas também os hospitais, cinemas, teatros, universidade, restaurantes, lago, zoológico e até o melhor cemitério. Até o samba está do lado de dentro. De vez em quando, alguém pula a “Muralha”, geralmente no Natal e Carnaval, mas logo as legiões do príncipe Ziror III tratam de expulsá-los. Apesar dos contratempos, tudo ia bem, mas como diz um ditado marciano: “depois da tempestade, sempre vem outra”. O horóscopo do príncipe Ziror III dizia que Netuno estava na sua casa e que sua eleição estava garantida, aí, não mais que de repente, os centuriões do Rei Lulácio, também chamado “Sapo Barbudo”, o matador de andróides, mandaram prender o príncipe Ziror III, período que ficou conhecido como “Arrudaço”. Daí pra frente, as coisas se acalmaram e a vida continuou como sempre foi, Marte brilhando no firmamento, Vênus tranquila desfilando sua beleza e minha robozinha dormindo de olhos e pernas abertos. Confirmando o ditado marciano, aconteceu o improvável, a inflação voltou com tudo, pegou a Rainha Dilma com as calças na mão, não teve jeito, a Rainha, apelidada de “a imutável”, jogou nas telas o plano “Real Novo 2.0-Turbo Flex”. Isto foi bem antes da Copa do Mundo de 2052. Brasília sediou uma das chaves, construíram um estádio pra um milhão de torcedores. O Rei Lulácio VI, que voltou a governar, deu o pontapé inicial, errou a bola, mas acertou no discurso, dizendo ser candidato a Imperador de Marte. Já me cadastrei (em Marte você não faz nada sem se cadastrar), pra votar. Mas vocês devem estar perguntando: por que fui transferido pra Marte? Simples, é que morri, e pra lá vão os espíritos superiores. Ou não leram o livro do Ramatis, o escritor preferido do Lorquas Ptomel, meu vizinho?

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Ministros do Supremo Tribunal planejaram o “julgamento” do chamado mensalão para coincindir com as eleições de 2012 para verem LULA e a esquerda derrotados! FRUSTRADOS, VÃO RELAXAR NA EUROPA COM O NOSSO DINHEIRO!

Ministros do STJ vão à Europa de primeira classe

FREDERICO VASCONCELOS

DE SÃO PAULO

Ministros do Superior Tribunal de Justiça e presidentes de Tribunais Regionais Federais embarcam neste fim de semana para uma visita a tribunais da Alemanha. Viajarão em primeira classe e terão todas as despesas pagas pelo erário, com diárias antecipadas em dólar.

Sorteados para participar da mesma comitiva, dez juízes federais pagarão do próprio bolso os gastos com transporte aéreo, hospedagem e alimentação.

A viagem, de 27 a 31 de outubro, integra programa de intercâmbio criado pela Corregedoria da Justiça Federal em 2010 –na gestão de Francisco Falcão, atual corregedor nacional de Justiça.

Seu sucessor, ministro João Otávio de Noronha, disponibilizou dez vagas para a Ajufe (Associação de Juízes Federais do Brasil), que custeará só as despesas de transporte terrestre –ônibus em Berlim, Leipzig e Munique.

Alguns magistrados veem a extensão do convite aos juízes como uma forma de diluir a imagem de um “tour” internacional patrocinado com recursos públicos.

Além de Noronha, viajarão como convidados os ministros do STJ Isabel Gallotti e Sidnei Beneti, os membros efetivos do Conselho da Justiça Federal, os presidentes dos tribunais regionais federais das 2ª, 3ª, 4ª e 5ª Regiões e o da Ajufe, Nino Toldo.

“Trata-se de evento oficial nas universidades e tribunais alemães, conforme termo de cooperação, e não se concebe como, em visita oficial, os ministros tenham que ir do próprio bolso”, afirma Márcio Mafra, juiz auxiliar do CJF, coordenador da missão.

Um bilhete ida e volta para a Alemanha, em primeira classe, saía ontem por US$ 10.939 (R$ 22.173) no site da Decolar.com.

No programa do intercâmbio, não há reciprocidade em termos de custos. Professores e magistrados alemães que participaram de seminários em Recife, Florianópolis e São Paulo tiveram as despesas pagas pela Justiça Federal. Em São Paulo, o seminário foi organizado pela Fundação Álvares Penteado, com patrocínio do Banco do Brasil e do governo federal.

A “2ª Visita a Tribunais Superiores da Alemanha” é promovida pelo Instituto de Direito Processual Civil Alemão e Comparado da Universidade Albert-Ludwig, de Friburgo. Será assinada a prorrogação de acordo de cooperação entre o Conselho da Justiça Federal e as Universidades de Berlim e de Friburgo.

O presidente da Ajufe, Nino Toldo, diz que um dos objetivos da entidade é “incentivar o estudo do direito, por meio de cursos, convênios e viagens, com entidades afins, no país e no exterior”.

Por dispositivo estatutário, as despesas de passagens aéreas e hospedagem do presidente da Ajufe são pagas pela entidade. Sua assessoria relata que Toldo viajará à Alemanha na classe econômica.

O TRF da 3ª Região informa que as despesas se enquadram no Plano Nacional de Aperfeiçoamento de Pesquisa para Juízes Federais.

foto da internet.

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COMENTÁRIOS NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO:

  1. antonio andrade (24)
    em 28/10/2012 às 07h41

    Pode parecer piada, mas, no Brasil, a Monarquia foi substituída pelo Judiciário. Alguém se arriscaria a desafiar Vossas Excelências, os magistrados?

    O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

  2. Leopoldo de Dorinha (609)
    em 28/10/2012 às 08h38

    Quanto mais subdesenvolvido o país, maior a necessidade de delegações pomposas, viagens de 1ª classe etc.

    Faz parte da mentalidade nacional. Pois onde já se viu uma autoridade dessas se misturar com a ralé na classe econômica?

    Ah! Mas a viagem é longa! Não interessa, é longa para todos.

    Não existe princípio da igualdade no Brasil.

    Outro exemplo, embaixadores europeus viajam de classe econômica; embaixadores brasileiros (e de outros países subdesenvolvidos e pobres) viajam de 1ª classe…

    O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

  3. VICENTE DE PAULA VILELA (1)
    em 28/10/2012 às 11h08

    Eu acho que não pode! Fere os princípios básicos da ética no trato do dinheiro público! Tem alguém mais necessitado desses recursos, ainda que considerem poucos!

    Recuem, Excelências!

    “….O sonho de Joaquim Barbosa e a obsessão em demonstrar que incorporou, na íntegra, as bases ideológicas conservadoras daquele tribunal e dos setores da sociedade que ainda detém o “poder por trás do poder” está levando-o a atropelar regras básicas do direito, em consonância com os demais ministros, comprometidos com a manutenção de uma sociedade excludente, onde a Justiça é aplicada de maneira discricionária.”  Prof. RAMATIS JACINO  (USP)

OS LIVROS PERDIDOS – por paulo timm / portugal.pt

Desde a Bíblia Sagrada perdem-se muitos livros levando consigo idéias que jamais serão recuperadas

Diz a letra de um velho samba  que  “Quem acha vive se perdendo…”  (Feitio de Oração, Noel Rosa –http://letras.terra.com.br/noel-rosa-musicas/535516/), numa evocação de profunda filosofia que, no Brasil, só a música popular parece alcançar. Há anos, procuro, sem êxito, uma crônica de Lara Rezende ou Paulo Mendes Campos, não lembro bem – (perdi…!),  tratando exatamente desta relação – Música Popular / Filosofia-, que li há décadas e que guardei apenas como vaga lembrança. Um autor contemporâneo, Hugo Allan Matos, também acredita nisso. O próprio Noel Rosa acabou escrevendo uma de suas músicas com teste título – “Filosofia”,http://letras.terra.com.br/noel-rosa-musicas/125751/ – abrindo caminho para esta tese.    Com efeito, a vida é um imenso labirinto cuja graça consiste, precisamente, em transitar , sem que saiba ao certo, sequer, se há saídas…

Mas e quem perde? O que acontece…? Haverá saídas para as perdas? Aparentemente, não. A perda é sempre algo irreversível, principalmente quando se perde o tempo, as idéias, ou o próprio juízo sobre elas. Mas a perda é sempre inevitável e, curiosamente humana. O homem vive e sobrevive através das perdas. Perde o útero materno, perde o seio da mãe, perde a própria memória que vai se transformando numa névoa do passado. Afinal, perde a juventude, perde a saúde, vai-se a própria vida. Perde-se o homem de si mesmo e gasta grande parte de sua vida tentando se reencontrar…A perda, enfim, é um tema tão comovente que já foi objeto de um interessante livro – “Perdas Necessárias”, de autoria de Judith Viorst, da Editora Melhoramentos.  Ele pode ter influenciado o título de uma canção bem popular do Pe. Fábio de Melo: “Perdas Necessárias” – http://letras.cifras.com.br/fabio-de-melo/perdas-necessarias .

 Inúmeras fábulas já trataram, também, do dilema da perda. Mas não vou falar aqui, nem da perda como processo, nem de fábulas. Quero falar sobre fatos: A perda de livros, ao longo da História Humana, mais das vezes devorados pelas chamas do ódio e da intolerância, senão mera, crassa ignorância e até a inteligência em suas manifestações de vanguarda tecnológica. Um autor, por exemplo, Robert Darnton – “A questão dos livros”, Cia das Letras -,  fez, recentemente, uma denúncia contra a destruição de coleções de jornais promovidos por bibliotecas  dos Estados Unidos, em nome da preservação.

Darnton reafirma a durabilidade dos códices, falando criticamente do livro de Baker e de como ele apresentou essa caça ao papel nas bibliotecas. Ocorrida com mais freqüência nos anos 80, bibliotecários americanos começaram a implantar a preservação de periódicos antigos em microfilmagem, danificando e, literalmente, jogando no lixo jornais e revistas antigas que são o material básico para um estudo histórico – mas não o mais importante, ressalta o autor.

(http://blog.meiapalavra.com.br/2010/11/22/a-questao-dos-livros-robert-darnton/)

Diante disso, fico me imaginando quantos livros, teses acadêmicas, bibliotecas  inteiras não se perderão diante da febre digitalizadora que nos assola? Ontem,  foram as micro-filmadoras as algozes destruidoras de toneladas de jornais; hoje, os scanners e e-books, apesar de que Darnton os tenha defendido arduamente em seuProjeto Gutenberg-e, desenvolvido entre 2000 e 2006.

O projeto consistia na publicação de monografias no formato e-book como forma de facilitar a entrada de jovens pesquisadores de História na carreira acadêmica. Darnton faz todo um histórico sobre a crise da publicação de monografias, fruto de uma reação em cadeia que começou com o aumento do preço de periódicos que obrigou as bibliotecas a fazerem cortes em suas verbas. (…) Um outro objetivo do Gutenberg-e, segundo Darnton, era afirmar a seriedade dos e-books, tratá-los com o mesmo respeito de um livro publicado fisicamente.

(http://blog.meiapalavra.com.br/2010/11/22/a-questao-dos-livros-robert-darnton/)

Poucos sabem, entretanto,  que este meio eletrônico é extremamente frágil e suscetível de apagões sob certas descargas eletromagnética .  Grandes acervos de imagens, por exemplo, têm sido melhor conservados em fitas de vídeo e não em CDs, como, por exemplo, o da Rede Globo. Uma tempestade solar mais forte, um raio inconveniente, uma cápsula perdida de Césio 137, tal como ocorreu em Goiânia, anos atrás, e puffff…Lá se vão nossos belos arquivos digitais…Acho, aliás, que foi Einstein quem disse certa vez:

“Não sei como será a III Grande Guerra, mas estou seguro de que a IV será com pedras…”

A verdade é que não há garantias contra as perdas…Pois assim foi com a própria Bíblia, a qual  teria, ao longo dos séculos e milênios, perdido grande  parte de suas narrativas e profecias. Segundo consta, há centenas de seus livros que se perderam e que dificilmente serão reencontrados. Alguns foram consumidos pelo tempo, outros foram suprimidos por conterem, à luz das autoridades da Igreja, em cada tempo, revelações que não se coadunavam com seus ensinamentos. Eis, segundo um estudioso – um roteiro dessas perdas, para os interessados: http://www.gnosisonline.org/teologia-gnostica/livros-apocrifos-mencionados-na-biblia-mas-perdidos/

Mas não foram só os livros sagrados, apenas, que desapareceram. Uma inusitada crônica de Sérgio Faraco – Livros Perdidos in Gregos e Gringos, Ed.Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998 –  , notável contista gaúcho, nos dá conta de outras perdas irreparáveis. Dou-lhe a palavra, por sábia e insubstituível  :

Livros Perdidos

(…)

A história da humanidade está repleta de notícias de aniquilações do conhecimento compendiado,, e os soldados, sobretudo os romanos, tiveram um papel de proa nessa cruzada bárbara. Na tomada de Cartago, incendiaram a cidade e se acharam no dever de fazer o mesmo , com sua biblioteca, que ardeu 17 dias para que se consumissem seus 500.000 volumes. Os mesmos romanos, na campanha de Julio Cesar no Egito, puseram fogo a Biblioteca de Alexandria, varrendo da história 700.000 textos e as velhas paredes que tinham visto Euclides escrever seus Elementos de Geometria, Erastótenes calcular a circunferência da Terra e o médico Herófilo produzir uma obra pioneira no campo de anatomia.

Bastam essas perdas para que exista em nossa trajetória cultural uma intermitência que mil anos não hão de recompor. E no entanto são apenas dois entre muitos outros casos de destruição selvagem, como o da coleção de Pisístrato em Atenas (da qual se salvaram as rapsódias de Homero), dos papiros do Templo de Ptah em Mênfis, dos milhares de pergaminhos do Colégio de Druídas em Bribactis (hoje Autun, França) , dos 300.000 livros queimados por Léo Isauro em Constantinopla e dos códices maias no México por Diego de Landa.

E não se diga que os tempos eram outros e eram ásperos. O homem que destrói livros pertence, geralmente, à mesma ordem de cultura daquele que os constrói.

Nada do que se perdeu será recobrado  e para maior desgraça nossa, dos nossos filhos, dos homens do milênio vindouro, houve momentos em que, como no romance de Umberto Eco (O nome da Rosa) , como na luta de Guilherme e Jorge, por um triz deixamos de recuperar valiosas obras que já eram dadas por perdidas.

Conta o inglês Andrew Thomas – e isto não é ficção – que certa vez houve um grande indêndio no harém de um sultão do Império Otomano. Um jovem secretário da Missão Francesa viu saqueadores invadirem o palácio para roubar objetos de valor , e uma dramática coincidência o levou a esbarrar num homem que fugia sobraçando um monumental cartapácio. Era a História de Roma, de Tito Livio , até então desaparecida. O funcionário interceptou o ladrão  e ofereceu-lhe considerável soma em troca da preciosidade. O turco aceitou, mas o francês – que fatalidade! – só dispunha de escassas moedas na algibeira. Aflito sugeriu que o pagamento fosse feito em sua residência e ainda discutiam quando vieram abaixo as traves do palácio em chamas. A multidão recuou em pânico e separou os dois homens, que não mais puderam reencontrar-se.

O volume abarcava sete séculos e meio da história romana, e de seus 142 livros chegaram até nós, por outros caminhos, apenas 35.

Outro autor, cuja própria vida também parece envolta em perdas, Stuart Kelly Kelly   dedicou-se, ao tema dos livros perdidos e escreveu um verdadeiro clássico: “O Livro dos livros perdidos” – Ed. Record. Nele descobrimos coisas incríveis: Como se perderam as obras completas de Ésquilo, na destruição da Biblioteca de Alexandria. Isso porque havia um único exemplar do livro, vendido por atenienses a Ptolomeu do Egito, como condição  do estranho negócio. Ou sobre o descuidado amigo que extraviou um caderno de anotações de Rimbaud. Ou ainda o mistério envolvendo “Cardenio” , de Shakespeare. Um livro, enfim, divertido,  escrito com bom humor, capaz de suscitar a curiosidade sobre o tempo, a literatura, as perdas irreversíveis, e as pessoas que estiveram por trás de tudo isto.

O livro mereceu várias  e interessantes resenhas e comentários  no Brasil. Eis uma delas:

Em O livro dos livros perdidos, Stuart Kelly revela trabalhos desaparecidos de autores famosos e conta fascinantes histórias reais por trás de livros que não foram publicados por terem sido destruídos, extraviados, interrompidos pela morte do autor ou simplesmente nunca começados. O que realmente aconteceu com o segundo romance de Sylvia Plath? E qual seria o monstruoso segredo contido nas memórias de Lord Byron que levou seu editor a queimar o manuscrito? Essas são algumas das perguntas respondidas por Kelly nesta pesquisa fascinante.

http://www.janeaustenbrasil.com.br/2009/11/o-livro-dos-livros-perdidos.html

Fica aqui, pois, meu registro em homenagem a estas páginas perdidas de letras imemoriais e seus descobridores. Poetas, escritores, cronistas são bibliófilos incansáveis. Amam livros.  Têm com eles uma relação muito especial, afetiva mesmo. Encontram um prazer indizível em contemplar suas prateleiras repletas de exemplares com formas,  capas e cores tão diferentes. Exaltam-se ao escolher dentre elas um título cativante, dentro do qual assinalaram uma passagem cativante, que voltam a ler de tempos em tempos com o mesmo sentimento da primeira vez. Sublimam-se citações, versos, parágrafos de beleza ímpar de Shakespeare (“O resto é silêncio”) de Tolstoi (“Cada família infeliz tem seu jeito próprio de ser infeliz”), de Guimarães Rosa (“Viver é muito perigoso”), de Paulo Leminski (“Por um lindésimo de segundo”). Eternas fontes de inspiração vital . Porventura reencontrados por escavadores de livros perdidos como capítulos re-velados da geologia humana.

Darcy Ribeiro: intelectual longe das convenções – por eduardo portella / são paulo.sp

Nascido há 90 anos em Montes Claros (MG) o antropólogo foi comprometido com a busca do ‘ser brasileiro’

 

Exemplos tirados da história recente para se opor à ideia comum de 'cordialidade' - Wilson Pedrosa/Estadão
Wilson Pedrosa/Estadão
Exemplos tirados da história recente para se opor à ideia comum de ‘cordialidade’

Certa vez escreveu, com aquela pulsação vital que era bem sua:

“Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei uma universidade séria, não consegui. Mas meus fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

São palavras nunca de um conformista, porém de um indignado, se recolhemos hoje os ecos da Plaza Mayor, de Madri. Indignado com a “situação calamitosa” (são palavras suas) da rede escolar pública, oscilando entre a magnitude e a precariedade.

As suas memoráveis memórias, Aos Trancos e Barrancos, se mantêm à distância do ajuste de contas e da queima de arquivos, marcas obsessivas do nosso memorialismo hegemônico. Em Darcy o que é bem visível são os movimentos crispados da história, movida pela memória viva, sanguínea, enérgica, porém imune ao ressentimento e à miséria humana.

Os caprichos do destino, em dias remotos de uma “Abertura” para inglês ver, me concederam a honra e felicidade de anistiar Darcy Ribeiro. Participei de uma guerra sem quartel. A chamada comunidade de informação, desinformada por vocação e vontade, não se conformou. Solicitaram que desanistiasse. Resisti. Foi uma das poucas batalhas que consegui vencer. Ela e os seus protagonistas desapareceram. Darcy continua vivo.

Talvez possamos tomar O Povo Brasileiro (1995) como o seu livro mais emblemático da formação e do sentido do Brasil. É o corolário de um esforço que vem de longe, infatigável e coerente, destinado a reconhecer a heroicidade anônima de mulatos e caboclos, de “mamelucos-brasilíndios”, pela nossa parte mitigada, filhos de negros e índios, sequestrados prematuramente em nome da civilização. Esse livro foi preparado por cinco antecessores muito bem acolhidos em várias geografias: O Processo Civilizatório, As Américas e a Civilização, O Dilema da América Latina, Os Brasileiros: Teoria do Brasil e Os Índios e a Civilização. Deve ser considerado o corolário porque arremata e leva às últimas consequências, sob a forma de uma insólita crítica da razão apropriativa, as mazelas dos poderes concentracionários ao longo de sucessivas hipotecas históricas. A essas obras se juntam outras, como A Universidade Necessária, proposta pedagógica que reoxigenou o ensino universitário na América Latina.

Darcy Ribeiro percorre, atentamente, o interminável caminho da exclusão. Acompanha toda a movimentação humana, e inumana, que impulsiona os deslocamentos populacionais, as ocupações territoriais, as desfigurações culturais, conduzidos pela exploração, o arbítrio, a violência. Ele observa de perto, certamente a contragosto, a desindianização e a desafricanização. Mas não deixa de saudar, compreensivamente, a emergência de tipos inesperados como o crioulo, o caboclo, o sertanejo, o caipira. Entre os brasilíndios, os afro-brasileiros, os neobrasileiros, os brasileiros, Darcy indaga, o tempo todo, pelo ser brasileiro. Sem fechar a questão, é claro.

O Povo Brasileiro adquire, logo de início, o jeito de um diálogo, não sei se confortável, mas em qualquer caso amistoso, entre o político e o cientista Darcy Ribeiro. O primeiro, terrivelmente veraz, deixa de lado as conveniências da frieza expositiva, ou do distanciamento crítico, para assumir, de corpo e alma, a paixão. Talvez até para desmentir o boato de que a paixão é inimiga da razão. O segundo reconstitui e descreve, com precisão, a história dos vencidos, mas sem deixar de matizar o desempenho dos vencedores. O cientista reconstrói o passado; o político traz o passado para o presente. O livro se mantém muito fiel a Darcy. Decifra enigmas que ficaram para trás, porém com mais liberdade; imune às pressões ideológicas. Até porque Darcy Ribeiro nunca foi bem tratado nem pela esquerda predatória nem pela direita alucinatória – ambas predominantes, e tão afins. O que ele quer é viver, abertamente, declaradamente, o sonho precoce de “uma teoria geral, cuja luz nos tornasse explicáveis em seus próprios termos, fundada em nossa experiência histórica”. São suas palavras.

O itinerário de O Povo Brasileiro cobre um período extenso, que vai desde as determinações iniciais da Revolução Mercantil até a industrialização e a urbanização da modernidade tardia, no seio das quais as relações de trabalho nunca deixaram de ser mais ou menos aviltantes. Antes mais do que menos. O cativeiro dos índios e a sujeição dos negros, comprados e coisificados, distribuídos no litoral e progressivamente no interior, tornaram-se, com o passar dos tempos, a nódoa maior do nosso trajeto “civilizatório”. Não somente: também o lugar tenso, em que o extermínio e a gestação, gravados contraditoriamente nas cores da pele, foi abrindo passagem para o advento do novo. Os escravos índios e negros, subjugados até a crueldade, resistiam culturalmente. Não raro, politicamente. Jamais economicamente ou tecnicamente. Aí as armas eram extremamente desiguais.

Mas o livro de Darcy Ribeiro evita permanecer sob as ordens da memória, e acatar obedientemente os desígnios da tradição patrimonial, certamente tombada e cuidadosamente guardada, debaixo de sete chaves, nas gavetas de alguma Torre famosa. Se assim fosse, não seria Darcy, nem estaríamos falando de um livro-vida. Ele reconstitui, calorosamente, todo o processo da construção do homem tropical lusofalante, recorrendo aos documentos fornecidos pela Coroa e pela Igreja, e desde o momento em que se alternam, harmoniosamente, a razão de Estado e a ratio studiorum. E já nesse amanhecer era possível perceber, no espelho enviesado da colonização, não por acaso contemporâneo do maneirismo, as impurezas da razão. Mas o autor imprevisível, vez por outra reaproxima a generosidade da raiva, absorvendo as contradições do percurso. Nessa hora, os portugueses são distinguidos com um ou outro reconhecimento, do tipo: “O engenho açucareiro, primeira forma de grande empresa agroindustrial exportadora, foi, há um tempo, o instrumento de viabilização do empreendimento colonial português e a matriz do primeiro modo de ser dos brasileiros”. Esses instantes de armistício, vale lembrar, ocorrem sem muita insistência. Darcy prefere exaltar o reverso da medalha. O índio e o negro, pelo menos na cena colonial, e na reviravolta proposta pelo autor de O Povo Brasileiro, foram atores muito mais criativos do que poderia imaginar a montagem importada.

Darcy Ribeiro está empenhado em denunciar o dispositivo da exclusão. Ele fotografa os mecanismos de dominação em movimento, contesta a unidade forjada pela violência, e se espanta ao constatar a síndrome da feitoria perturbando a produção qualitativa da sociedade. Chega aos nossos dias, à mundialização de mão única, ao descalabro da cidade e, por consequência, do que deveria ser a vida urbana na comunidade de cidadãos.

Ao deparar-se com “o povo-massa, sofrido e perplexo”, o otimismo constitutivo, talvez até biogenético, de Darcy Ribeiro, parece experimentar ligeiro abalo. O radical esforço reflexivo de O Povo Brasileiro é confrontado com duas legendas dificilmente conciliáveis: a do “povo-nação” e de “povo-massa”. Tudo dependerá, sou levado a supor, da consistência do povo, ou da taxa de povo introjetada na massa, ou da nossa capacidade de, através da educação, desmassificar a massa. Darcy nos conduz para um debate que, pelo menos até aqui, continua em aberto. No primeiro movimento, ele se choca com a voracidade mundializadora; no segundo, abriga uma cisão interna que, justamente por causa da globalização e de seus correlatos comunicativos, tende a incompatibilizar povo e massa. É forte a tendência para admitir que perdemos as chances, os prazos históricos, para a realização da categoria povo, tal como emergiu e se plenificou em algumas de nossas matrizes ocidentais. Não é menos plausível a conclusão de que só nos resta a opção de reencaminhar singularmente esse fenômeno desconcertante a que batizamos com o nome de massa. Nesta hipótese, a massa, que seria o povo sem rosto, fatalmente anônimo, teria de ser reprogramada, pelos instrumentos insubstituíveis da cultura, da educação, da ciência, da comunicação.

Darcy Ribeiro permanece esperançoso, confiante no povo novo, e investe todas as suas energias vitais e intelectuais – e nele as duas coisas se confundem – na “vontade de felicidade” do povo brasileiro, na “Nação Latino-Americana sonhada por Bolívar”. A impressão de resvalar no psicologismo, apostando todas as suas economias na “felicidade” possível, logo se recupera no questionamento da cordialidade inata que, em dias mais radiosos, chegou a embalar o sono, e talvez o sonho, das aspirações nacionais. Darcy guardou, da história e de episódios recentes, exemplos sucessivos de ausência total de cordialidade. Uma conclusão alternativa, sem maiores compromissos, merece ser lançada: inexiste povo vocacionalmente avesso à felicidade, e congenitamente destinado à cordialidade? Não creio. O que existe é o caminhar do caminho. E ninguém melhor do que Darcy sabe de cor e de coração a cartografia dessa viagem.

O olhar interpretativo de Darcy Ribeiro, no seu afã de dar conta da complexidade, inscrita visceralmente na formação e no sentido do Brasil, recorreu à cooperação interdisciplinar. O seu saber, fortemente empírico, se relaciona com o seu viver. Nem por isso ele cede ao narcisismo biográfico. As pequenas digressões autobiográficas são logo abandonadas, ou porque se reconhecem públicas e notórias, ou porque não têm dúvidas quanto ao descrédito que envolve hoje os gêneros pessoais, submersos nas fantasias de memórias e diários pós-fabricados. Em Darcy, a vida o ajuda a ver. Daí que o seu livro contenha uma vibração existencial pouco frequente.

Em O Povo Brasileiro, a fluência narrativa com que as situações se encadeiam nos propicia a descrição precisa e sentida, do desenrolar sinuoso, da corrida de obstáculos, do infindável passar a limpo que, ainda hoje, interdita o trânsito, paralisa a circulação cidadã.

A qualidade do texto, nesta obra, se une e facilita a vida do trabalho crítico deliberadamente enraizado. O enraizado aqui tem o uso específico que lhe confere o próprio Darcy, sempre e sobretudo quando se abre para a ambicionada “nova romanidade”. Mesmo fazendo ficção, em Maíra ou em Migo, por exemplo, o escritor interpela, pergunta incessantemente pela nossa gente, sua identidade e sua diferença. E ninguém como ele conseguiu transformar, sob os auspícios da linguagem, a esperança em realidade – descobrindo Brasis, inventando mundos.

Nos campos da Educação e da Cultura as suas impressões digitais permanecem como indicações de caminho: o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, juntamente com Anísio Teixeira, o Ministério da Educação altivo, a Universidade de Brasília, os 500 Cieps implantados no Rio de Janeiro, a Universidade Estadual do Norte Fluminense, o Sambódromo, a Lei de Diretrizes e Bases, marcos da ação integrada de educação, ciência, cultura, a serviço da transformação social.

Assim como há os Darcys do Brasil, existem também os Brasis de Darcy. É uma constelação solidária e, apesar de todos os pesares, e de todos os maus-tratos, confiante.

 

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EDUARDO PORTELLA, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (CADEIRA 27), É

ESCRITOR E PROFESSOR. FUNDOU E DIRIGE,

DESDE 1962, A REVISTA TEMPO BRASILEIRO

TOMBINI, UM GAÚCHO NO MINISTÉRIO DA FAZENDA? – paulo timm / portugal.pt

 

Poucos sabem, mas Getúlio Vargas foi o último Ministro da Fazenda gaúcho, nos estertores  da República Velha. Eleito deputado federal em 1922, ele acabou ocupando  este Ministério no Governo Washington Luiz . Agora, outro gaúcho, embora  mais de nascimento do que de alma,  filho de pais gaúchos que moraram no Chile na década de 70, parece que vai emplacar de novo: O  economista   Alexandre Antônio Tombini (Porto Alegre, 9 de dezembro de 1963), atual  presidente do Banco Central do Brasil.

Desde que foi sabatinado  pelo Senado, cumprindo exigência para assumir o Banco Central, Tombini mostrou um perfil distinto de seu antecessor, Henrique Meirelles. Ele tem sólida formação profissional e é servidor público de carreira, alinhado com uma visão firme no papel do Banco Central no controle da inflação , mas menos ortodoxa.

Com efeito, em sua gestão, em fina sintonia com a Presidente Dilma, Tombini vem conseguindo baixar os juros SELIC e reduzir o peso da dívida pública com relação ao PIB. Operando de modo inovador, desde o início de 2012, passou a atuar politicamente para reduzir aos poucos a taxa básica de juros SELIC e do Sistema Caixa e Banco do Brasil – trazendo todo o mercado financeiro para novos patamares- e ,também, a controlar a taxa de câmbio, a partir de abril, cuja valorização colocava em apuros a indústria nacional e exportadores.

O remanejamento na Fazenda se impões por duas razões:

Primeira, o Ministro Guido Mantega está há muito tempo à frente da Pasta e isto causa inevitáveis desgastes. Particularmente neste último ano,  Mantega acabou respondendo quase que pessoalmente pelo desafios propostos pelo Governo no sentido de baixar os juros e administrar o câmbio. Em alguns casos chegou a peitar os Bancos, custando-lhe severas críticas. Paradoxalmente, Mantega sai pelas mesmas razões que sobe Tombini, com a vantagem de que este não se expôs.

A outra razão, porém, é mais profunda: O marasmo da economia brasileira que não mostrou nenhum vigor no segundo trimestre deste ano e tudo indica que não será superior a 1% no terceiro.  E este é uma responsabilidade precípua da Fazenda que náo consegue alavancar os Investimentos necessários ao crescimento do PIB. Pior, diante da recorrência do fracasso nas políticas adotadas pela recuperar a economia, o Ministro reitera um ar de exagerada confiança em números melhores que nunca se comprovam. Passa, então, ao mercado e à opinião pública, uma imagem de manipulação de expectativas através de bravatas, além das consideradas como mera servidão do cargo. Seria a hora, portanto, de mudar para criar um novo clima de retomada do PAC e de novos projetos de investimentos, capaz de romper a onde de pessimismo que tomou conta do empresariado. Armínio Fraga, ex-Presidente do Banco Central no Governo FHC, em longa entrevista à Folha nesta semana certifica o pessimismo, mas vai além da crítica de humores ou de gestão. Para ele Investimento não se reanima. O que  há, diz ele, é  uma retração mesmo do empresariado em razão de uma guinada esquerdizante da Política Econômica.

Ressalte-se na entrevista de Armínio Fraga um conjunto crítico de caráter conservador que bem poderia estar na base da plataforma da Oposição no Brasil, mas não é o que se vê no processo eleitoral, tomado de um desvario moralista como há muito se via no Brasil.

A verdade, portanto, é que a economia não vai bem e “onde não tem pão não tem união”. Se  Dilma não acertar o rumo rapidamente, corre sérios riscos de perder a base aliada antes mesmo de 2014. Com Tombini, que  está mais próximo dela e que é um de seus delfins , frequentando com assiduidade as reuniões do Planalto, a Presidente  reforça seu comando e  tenta  impor sua marca com um novo estilo de aproximação com os empresários.

Mas, mesmo com a nova energia de um nome novo na Fazenda, o horizonte para a retomada do crescimento da economia brasileira não é nada promissor. Todas as estimativas para a o desempenho da economia mundial são pessimistas, há o risco da desaceleração mais acentuada ainda do crescimento chinês, já no limite de uma estratégia de esforços múltiplos de investimentos em cadeia e o mercado interno brasileiro não está respondendo aos incentivos com a elasticidade desejada.

 

PAULO TIMM, economista,  é professor aposentado da UNB.

Cidades privadas em Honduras: e se essa moda pega? – por raquel rolnik

Na prática, o governo está entregando estas áreas para empresas transnacionais estrangeiras que nelas deverão construir “cidades modelo”

Na semana passada, o governo de Honduras assinou um acordo com uma empresa dos EUA para iniciar a construção das chamadas Regiões Especiais de Desenvolvimento. Na prática, o governo está entregando estas áreas para empresas transnacionais estrangeiras que nelas deverão construir “cidades modelo”, ou “charter cities”.

Trata-se de áreas “recortadas” do espaço institucional e político do país, convertidas em uma espécie de território autônomo — com economia, leis e governo próprios — totalmente implementado e gerido por corporações privadas. Idealizado por um pesquisador norte-americano, este modelo de cidade foi recusado por muitos países, inclusive pelo Brasil — Ufa! — antes de ser aceito em Honduras, através de uma mudança da Constituição aprovada em janeiro deste ano.

Organizações da sociedade civil, incluindo grupos indígenas cujos territórios podem estar inseridos nas zonas “liberadas”, vêm criticando o projeto, que consideram catastrófico, e já acionaram a Suprema Corte de Honduras, alegando inconstitucionalidade.

Versão extrema de um liberalismo anti-Estado e pró-mercado, o fato é que este modelo, na verdade, exacerba uma lógica privatista de organização da cidade, já presente em várias partes do Brasil e do mundo, como é o caso dos condomínios fechados, das leis de exceção vigentes sobre áreas onde se realizam megaeventos esportivos, dos modelos de concessões urbanísticas, entre outros exemplos possíveis.

A ilusão de uma sociedade sem Estado, teoricamente livre da burocracia, da corrupção e do abuso de poder, é na verdade a ditadura do consumo e do poder absoluto do lucro sobre a vida dos cidadãos. Imagina se essa moda pega…

Raquel é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

Vocês estão vendo isso com preocupação? Eu acho que esse será um interessantíssimo estudo de caso. Existem certas coisas que só se comprova testando e francamente não é sempre que se pode testar uma teoria de forma tão completa quanto esta.

Acho que vale a pena ver o que vai acontecer. E se for um sucesso? E se for um fracasso? Estou curioso pra daqui a 10 anos ver se essas cidades prosperaram e tiveram melhorias da vida de sua população ou se o mercado causou o inverso..mais miséria em troca do lucro das empresas.

Acho que devem considerar essa experiência pelo que ela é…uma experiência. E guardar esse tubo de ensaio para que no futuro tenhamos ainda mais argumentos contra ou a favor da teoria por trás desta experiência.

CHIMARRÃO – de vitor ramil e joão da cunha vargas / porto alegre/rs

Chimarrão

Velho porongo crioulo te conheci no galpão
Trazendo meu chimarrão com cheirinho de fumaça
Bebida amarga da raça que adoça o meu coração.
Bomba de prata cravada junto ao açude do pago
Quanta china ou índio vago dá água ao seu pensamento
De alegria, sofrimento, de desengano ou afago.

Te vejo na lata de erva, toda coberta de poeira,
Na mão da china faceira ou derredor do fogão,
Debruçado num tição ou recostado à chaleira.

Me acotovelo no joelho, me sento sobre o garrão
Ao pé do fogo de chão vou repassando a memória
E não encontro na história quem te inventou, chimarrrão.

Foi índio do pelo duro quando pisou neste pago,
Louco pra tomar um trago, trazia seca a garganta,
Provando a folha da planta, foi quem te fez mate amargo.

Foste bebida selvagem e hoje és tradição,
E só tu, meu chimarrão, que o gaucho não despreza
Porque és o livro de reza que rezo junto ao fogão.

Embora frio ou lavado ou que teu topete desande
Minha alegria se expande ao ver-te assim, meu troféu,
Quem te inventou foi pro céu e te deixou pro Rio Grande.

 

O FUTURO NAS CIDADES – são paulo.br – paris.fr

Marc Giget antecipa as mudanças previstas para as cidades

Casas tecnológicas, alimentos saudáveis e meios de transporte mais limpos e velozes devem fazer parte do cenário da vida urbana a partir de 2030

Casas altamente tecnológicas, mais verticalizadas, com amplo espaço em ambientes comuns como salas e cozinhas e ao mesmo tempo espaço destinado ao uso pessoal como um casulo; meios de transporte mais velozes, mais limpos e específicos para cada tipo de translado (curta ou longa distância); alimentação mais saudável e voltada para frutas, verduras e legumes. Estas devem ser algumas características da vida nas cidades daqui a 20 anos, de acordo com pesquisas de universidades de várias países. O tema foi detalhado pelo diretor do Instituto Europeu de Estratégias Criativas, da França, Marc Giget, na palestra “A Vida nas Cidades a partir de 2030”, realizada por iniciativa da Fiep, na noite da última segunda-feira (22), em Curitiba.

Formado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e doutor em Economia Internacional pela Universidade de Paris, desde que criou o Instituto Europeu de Estratégias Criativas, Giget se dedica a pesquisas ligadas à inovação e durante a palestra trouxe à discussão vários prognósticos do futuro.

“Não há nenhuma grande revolução à primeira vista, mas são mudanças significativas, muitas já em curso, que farão total diferença na nossa forma de enxergar o mundo e dialogar com ele”, enfatiza Giget. Por isso, a necessidade de se fazer uma reflexão diante de um futuro não tão distante. Citando Leonardo da Vinci ‘não antecipar é gemer’, o cientista social reitera a importância de antecipar o futuro como forma de prever futuros problemas e já buscar as soluções para eles.

A grande mudança em relação às casas e domicílios é o desenvolvimento sustentável, já em prática em muitas cidades do mundo. Não se pensa em mudanças radicais já que as pessoas são apegadas as suas casas. Vemos uma volta às casas com átrio como na Antiga Mesopotâmia ou Grécia Antiga, em que a natureza entra em casa, trazendo luz e calor. Com inverno e chuva seria um problema, aí é que entra a tecnologia para isolamento térmico entre outras modernidades. “O futuro não é a negação do passado é a retomada dos objetivos técnicos, de conforto e segurança alinhados às novas possibilidades”, enfatiza.

Giget também mostrou como deverá ser o desenho das cidades no futuro. Já existe pesquisa do Instituto Europeu de Estratégias Criativas que mostram que os novos edifícios serão energeticamente autônomos e neutros em emissões de gás carbônico. “Chamadas de Cidades – Colina, as novas cidades serão menos horizontalizadas e mais verticalizadas, ocupando menos perímetro urbano. Essa economia de espaço vai trazer a aproximação das pessoas, não só fisicamente, mas no modo de organização social, com um fortalecimento das redes e da vida em comunidade”.

 

Alimentação – Dentro os tantos assuntos abordados, comida é um tema que chama muito atenção. Atualmente vive-se um medo eminente da falta dela para todos. Para Giget, em nível global não há grandes riscos de faltar alimento, pois além de novos tipos de alimentos, haverá uma grande revolução verde, voltada para frutas, verduras e legumes mais saudáveis, com menor quantidade de sal e açúcar. “No futuro vamos comer as mesmas coisas que hoje, só que os nutrientes dos alimentos estarão potencializados pelas pesquisas que a biologia molecular tem nos trazido. E podemos ter alimentos mais atrativos para crianças, por exemplo, um vegetal em formato de pirulito ou algo do gênero”, ressalta.

O pesquisador mostrou vários protótipos de novos veículos, demonstrou como serão as aulas no futuro com processo educativo mais atrativo e interativo, a mudança da ideia de televisão trazendo obras de museus para dentro de casa, maior exploração do universo ao alcance de todos e não apenas de cientistas. Também apresentou a futura forma de comunicação inter-culturalmente com um equipamento de tradução simultânea quebrando a distância cultural da língua em tempo real; a medicina que terá as funções de salvamento, controle e monitoramento com as novas técnicas preventivas, entre outras possibilidades.

Planejamento – “As tecnologias estão avançando a passos cada vez mais velozes e qualitativos e as relações que se faz entre essas novas tecnologias e a novas potencialidades é o encontrar o que as pessoas realmente desejam para o futuro”, daí a necessidade de se fazer um retroplanejamento. “Se no futuro queremos que haja pouco consumo de energia, com base nas novas tecnologias já podemos estudar e definir como alcançar esse baixo consumo nos próximos anos”, afirma.

Para fazer esse retroplanejamento, Giget explica que é imprescindível a reflexão coletiva de todos os setores da sociedade. Segundo ele, os pesquisadores podem apontar como já foi no passado e como está sendo feito no presente; empresas e empresários que lidam diretamente com os produtos reais, podem dizer o que funciona e o que não funciona; os adolescentes podem apontar em que tipo de mundo querem viver; os idosos que não serão impactados diretamente mas pensam em seus descendentes e, por isso, possuem visão filosófica e otimista; e também as crianças que ainda não têm nenhuma preocupação quanto ao futuro e, por isso mesmo, pensam em soluções criativas e animadas. “A oportunidade de um diálogo com todos os tipos de pessoas é o que nos trará respostas para o mundo daqui a 20 e 30 anos”, acredita Giget.

O cientista social também abordou a necessidade do ‘reencantamento do mundo’ preconizado por Max Weber para que questões psicológicas, sociológicas e tecnológicas tenham valor agregado e estejam disponíveis para todas as pessoas. “Quando olhamos para o passado, vimos que o essencial não muda. Mozart nasceu em 1756 e ainda continua sendo o número 1 da música clássica; a Torre Eiffel foi construída em 1889 e continua sendo um dos pontos turísticos mais visitados em todo o mundo; as sandálias Havaianas foram lançadas em 1962 e continuam líder de mercado e devem acompanhar até 2030 ou 2040”.

A palestra foi uma iniciativa do Sistema Fiep, como parte do programa Cidades Inovadoras que engloba um conjunto de ações de curto, médio e longo prazos voltadas ao desenvolvimento local em Curitiba, região metropolitana e interior do Paraná.

PÁSSARO AZUL – de bukowski / eua

CHARLES BUKOWSKI.

 

Pássaro Azul

 

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,

e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

 

O JULGAMENTO DO “MENSALÃO” MUDOU O PAÍS? – por cynara menezes / são paulo.sp

Ministros do Supremo, 380 milhões de olhos vos contemplam

Em agosto deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello concedeu liminar suspendendo o júri popular que finalmente faria Justiça ao “caso Nicole”. O empresário Pablo Russel Rocha é acusado de, em 1998, ter arrastado com sua caminhonete, até a morte, a garota de programa Selma Artigas da Silva, então com 22 anos, em Ribeirão Preto. A jovem era conhecida como Nicole.

Grávida, Nicole teve uma discussão com Pablo. A acusação diz que ele a prendeu ao cinto de segurança e a arrastou pela rua. Pablo, que responde pelo crime em liberdade, diz “não ter percebido” que a moça estava presa ao cinto e nem ter ouvido os gritos da moça porque “o som da Pajero estava muito alto”. O corpo de Nicole foi encontrado, totalmente desfigurado, do outro lado da cidade. Com a suspensão, a família de Selma/Nicole vai esperar não se sabe quantos anos mais pelo julgamento do acusado.

Na segunda-feira 22 de outubro, o mesmo ministro Celso de Mello condenaria os petistas Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino pelo crime de formação de quadrilha. Já os havia condenado por corrupção ativa. “Eu nunca vi algo tão claro”, disse ele, sobre a culpabilidade dos réus.

Em novembro de 2011, o ministro do STF Marco Aurélio Mello concedeu habeas corpus ao empresário Alfeu Crozado Mozaquatro, de São José do Rio Preto (SP), acusado de liderar a “máfia do boi”, mega-esquema de sonegação fiscal no setor de frigoríficos desvendado pela Polícia Federal. De acordo com a Receita Federal, o esquema foi responsável pela sonegação de mais de 1 bilhão e meio de reais em impostos. Relator do processo, Marco Aurélio alegou haver “excesso” de imputações aos réus.

Na segunda-feira 22 de outubro, o mesmo ministro Marco Aurélio Mello condenaria os petistas Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino pelo crime de “formação de quadrilha”. Já os havia condenado por “corrupção ativa”. O esquema do chamado “mensalão” envolveria a quantia de 150 milhões de reais. “Houve a formação de uma quadrilha das mais complexas.  Os integrantes estariam a lembrar a máfia italiana”, disse Marco Aurélio.

Em julho de 2008, o ministro do STF Gilmar Mendes concedeu dois habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, sua irmã Verônica e mais nove pessoas presas na operação Satiagraha da PF, entre elas o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (que morreu em 2009). A Satiagraha investigava justamente desdobramentos do chamado mensalão, mas, para Mendes, a prisão era “desnecessária”.

Segundo o MPF (Ministério Público Federal), o grupo de Dantas teria cometido o crime de evasão de divisas, por meio do Opportunity Fund, uma offshore nas ilhas Cayman que movimentou entre 1992 e 2004 quase 2 bilhões de reais. O grupo também era acusado de formação de quadrilha e gestão fraudulenta.

Na segunda-feira 22 de outubro o mesmo ministro Gilmar Mendes que livrou o banqueiro Daniel Dantas da cadeia enviou para a prisão a banqueira Kátia Rabello, presidente do banco Rural, por formação de quadrilha. Já a havia condenado por gestão fraudulenta, evasão e lavagem de dinheiro. “Sem dúvida, entrelaçaram-se interesses. Houve a formação de uma engrenagem ilícita que atendeu a todos”, disse Gilmar.

O final do julgamento do mensalão multiplica por 25 – o número de condenados – a responsabilidade futura do STF. É inegavelmente salutar que, pela primeira vez na história do País, um grupo de políticos e banqueiros tenha sido condenado por corrupção. Mas, a partir de agora, os olhos da Nação estarão voltados para cada um dos ministros do Supremo para exigir idêntico rigor, para que a Justiça se multiplique e de fato valha para todos.

Estamos fartos da impunidade, sim. E também estamos fartos dos habeas corpus e liminares concedidos por alguns ministros em decisão monocrática, em geral nos finais de semana ou em férias, quando o plenário não pode ser reunido. Não se pode esquecer que o Supremo que agora condena os petistas pelo “mensalão” é o mesmo Supremo que tomou decisões progressistas importantes, como a liberação do aborto de anencéfalos e da união civil homossexual e a aprovação das cotas para afro-descendentes nas universidades. Estas foram, porém, decisões do colegiado. Separadamente, saltam aos olhos decisões injustas como as que expus acima.

Se há, como defendem alguns ministros, uma evolução no pensamento do STF como um todo, que isto também se reflita nas posições tomadas individualmente por seus membros. Não se pode, diante das câmeras de tevê, anunciar com toda a pompa a condenação e a prisão de poderosos e, à sorrelfa, na calada da noite, soltar outros. Cada vez que um poderoso for libertado por um habeas corpus inexplicável, ou que uma liminar sem pé nem cabeça for concedida por um ministro do Supremo para adiar o julgamento de gente rica, estará demonstrado que o mensalão não foi um divisor de águas coisa nenhuma.

Daqui para a frente, os ministros do Supremo Tribunal Federal têm, mais do que nunca, a obrigação de serem fiéis a si próprios e ao que demarcaram neste julgamento. Nós, cidadãos, estaremos atentos às contradições. Elas serão denunciadas, ainda que ignoradas pela grande mídia.

A Justiça pode ser cega. Mas nós, brasileiros, temos milhões de olhos. E estaremos vigiando.

CAETANO E A VANGUARDA DO ATRASO

“ACM é lindo” e “Lula é analfabeto”. Duas sentenças definitivas de Caetano. Em meio ao desalento, eu canto meu lamento. Triste Bahia

 

ACM é lindo” e “Lula é analfabeto” são sentenças “definitivas” atribuídas ao filho famoso de Dona Canô e Seu Zeca, Caetano Veloso. Chega-me pelos jornais a notícia de que o provecto tropicalista, compositor de algumas das grandes e inesquecíveis canções da nossa MPB, emprestou seu apoio e prestígio à candidatura de ACM Neto – “quem lê tanta notícia?”.

É um direito dele o de apoiar quem bem entender e quiser – advertiria você, leitor mais crítico e atento. Deploro o seu apoio a um homem público que representa o retrocesso, o atraso, mas… É verdade, ele tem o direito de escolher, apoiar e votar em quem quiser. Porém, o digno de nota, e de minha “curiosidade”, é que esse Caetano é o mesmo que apoiou a candidatura de Marcelo Freixo do PSol, no Rio de Janeiro. É, também, o mesmo Caetano que disse, num discurso inflamado na década de 1960, que a juventude “não entendia nada”. Eu também não entendo nada. Alguém por acaso entende?

Fica a impressão que o compositor tem alguma “bronca” com o PT ou com um (in)certo e tão propalado “lulismo”. A ponto de transitar, sem pudor ou constrangimento algum, da extrema-esquerda à extrema-direita. Com essa sua aparente incongruência, Caetano parece nos dizer enfaticamente e com exagero barroco, como é de seu feitio: “Tudo, menos apoiar um candidato do PT! Eu detesto Lula e o PT!”.

ACM era lindo? Hoje se sabe que a “boniteza” não era exatamente o principal predicado deste falecido oligarca baiano – pelo menos não era algo assim, digamos, relevante a se assinalar/asseverar na atuação política daquele homem público, e não era algo que afetasse assim, diretamente, o destino do povo da Bahia. Mas Caetano é surpreendente. Caetano “é um gênio”. Então, está tudo certo.

Lula era um analfabeto? À época presidente, Luiz Inácio Lula da Silva não era, obviamente, um “analfabeto”. Era um homem que não teve o devido acesso ao estudo, como a maioria dos brasileiros de sua época – incluindo-se aí, claro, os baianos. Mas isso não o impediu de realizar um grande governo. Aliás, Lula, no começo de sua carreira de sindicalista, por ser nordestino, mas não por ser supostamente “iletrado”, era conhecido no meio sindical paulista como “baiano”. Caetano exprime aí, sem querer, numa espécie de ato-falho, uma característica de boa parte de nossa elite: pensar que apenas aos mais letrados é dado o direito de ter certo protagonismo na vida política do país. Isso é um preconceito de classe, um equívoco que Caetano, na condição de “vanguarda” [um homem à frente de seu povo], tinha obrigação de aclarar. E o fez – mas por linhas tortas.

Enquanto os homens exercem seus podres poderes…”

A Bahia, governada por Antônio Carlos Magalhães ou correligionários, por mais de duas décadas, ainda hoje é um dos estados brasileiros que têm uma das maiores dívidas sociais para com o seu povo – seguido bem de perto pelo Piauí, Alagoas e Maranhão, salvo engano. E essa “dívida” que o estado tem para com o seu povo não é consequência – pelo menos não exatamente – da “beleza” de ACM.

O patriarca dos Magalhães foi um dos mais nefandos e autoritários oligarcas desse país. Boa parte do atraso e pobreza porque passa hoje a Bahia deve-se às políticas públicas equivocadas (ou à faltas destas) implantadas (ou não) por esse “coronel” de triste memória e/ou pelo seu grupo político. Esse “sinhozinho”, denunciam seus opositores, juntamente com seus asseclas e correligionários, pilhou o estado em benefício próprio; subornou e corrompeu a Justiça; erigiu monumentos à memória dos seus à custa do erário; perseguiu, prendeu e mandou matar seus desafetos. ACM governava com a burra numa mão e a chibata na outra. A esse grupo político e a esse modo de governar convencionou-se nominar “carlismo”. Triste Bahia. Triste memória.

Parecia viver-se hoje outros tempos. Louvava-se o fato de que o “carlismo” estava morto e enterrado na Bahia. Porém, nos mesmos dias que correm hoje, dias em que novos políticos, homens e mulheres de variadas agremiações partidárias do campo das esquerdas, se esforçam por construir um novo Brasil, eis que aparecem os herdeiros do “carlismo” (a velha arena, PDS, PFL e, hoje, DEM) pretendendo, novamente, empunhar a burra e a chibata e subjugar o povo de Salvador e depois, provavelmente, o povo da Bahia.

Quando você for convidado pra subir no adro/da Fundação Casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos/dando porrada na nuca de malandros pretos/de ladrões mulatos e outros quase brancos/Tratados como pretos/ só para mostrar aos outros quase pretos/(E são quase todos pretos)/E aos quase brancos, pobres como pretos/Como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos, quase pretos, de tão pobres são tratados/ E não importa se os olhos do mundo inteiro/Possam estar  voltados para o largo/Onde os escravos eram castigados(…).”

Essa canção nos remete aos tempos do “carlismo” em Salvador e na Bahia. É difícil  acreditar que o autor dessa doída poesia agora associa-se à vanguarda do atraso.

Em meio ao desalento, eu canto meu lamento. Triste Bahia.

[Em tempo: Gilberto Gil emprestou seu apoio a Pelegrino. Gil, portanto, segue “louvando o que bem merece, deixando o ruim de lado”.]

N.A.: Foram citados no artigo, como excertos, trechos de duas músicas de Caetano Veloso: “Podres Poderes” e “Haiti”.

 

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LULA MIRANDA.

Conheçam a Venezuela – por maximilien arveláiz / brasilia.df

A mídia brasileira não admite a nossa plena democracia, apoia a oposição e ataca Chávez com adjetivos elitistas de quem não conhece o país, como ‘populista’

 

Quando amanheceu o dia 8 de outubro, os venezuelanos puderam se sentir orgulhosos. Nosso sistema eleitoral, automatizado e seguro, foi respeitado por governo e oposição, acompanhado por entidades e personalidades internacionais e considerado o melhor do mundo pelo ex-presidente americano Jimmy Carter.

Nossa população, numa demonstração de consciência e politização, compareceu em massa às urnas desde a madrugada até que votasse a última pessoa na fila, já de noite. Alcançamos mais de 80% de participação do eleitorado em um país onde o voto não é obrigatório. Não se pode ignorar: a Venezuela é exemplo de democracia para o mundo.

Diante de tudo isso, constrange a forma com que os meios de comunicação internacionais, dentre os quais os brasileiros têm relevância, custam a enxergar a existência de uma democracia consolidada na Venezuela.

Seja por puro desconhecimento da realidade do nosso país, seja em união a uma campanha internacional contra os avanços da revolução bolivariana, a mídia privada brasileira fez uma cobertura desequilibrada do processo eleitoral no país.

É claro que utilizo aqui o recurso da generalização. Mas, numa leitura rápida das notícias, salta aos olhos o apoio deliberado da mídia pela oposição e a tentativa sistemática de deslegitimar o processo revolucionário em curso na Venezuela.

Grande parte das reportagens e editoriais priorizou ressaltar as críticas ao governo Chávez, deu exagerada importância a uma minoria de pesquisas que apontavam o empate ou a vitória de Henrique Capriles e ainda alardeou um caos político que viria da não aceitação do resultado das urnas por parte do governo, supostamente, “ditatorial” de Chávez.

Ainda mais graves foram as teses que tentavam buscar explicações para os mais de 8 milhões de votos a favor da reeleição de Hugo Chávez, como se não fosse nada menos do que natural a vitória do candidato que proporcionou uma série de mudanças positivas na vida dos venezuelanos, tendo reduzido à metade a pobreza extrema nos últimos 13 anos.

O favoritismo de Chávez foi creditado primeiro a um “populismo” do presidente “caudilho” e depois ao suposto uso da máquina pública e abuso de tempo de propaganda televisa. Tal análise, elitista e preconceituosa, pressupõe que a população, passiva e despolitizada, troca votos por casas, comidas e eletrodomésticos -o que é facilmente desconstruído com uma visita ao país.

Mais do que comparecer às urnas toda vez sempre (entre eleições e referendos, já aconteceram 16 pleitos desde que Chávez chegou ao poder), os venezuelanos, incentivados pelo presidente Chávez, constroem a cada dia mecanismos de participação direta na vida política do país.

O mais importante deles são os Consejos Comunales, microgovernos construídos no interior das comunidades, compostos e geridos por moradores. Se há um povo despolitizado e passivo, não é o nosso.

A liberdade de expressão, imprescindível na democracia, também é facilmente constatável. Os principais jornais da Venezuela hoje, o “El Nacional”, o “El Universal” e o “Últimas Noticias”, são claramente simpáticos à oposição e circulam sem qualquer censura ou boicote. Quadro similar se dá na TV e no rádio.

O que não foi divulgado em quase nenhum meio de comunicação internacional é que Capriles, cuja família é dona de uma cadeia de comunicação, teve, segundo estudo do Centro de Análise e Estudos Estratégicos Aluvión, mais tempo de propaganda eleitoral na televisão privada do que Hugo Chávez. A propaganda do presidente ocupou apenas 12% do tempo nos meios privados. A do candidato da oposição, 88%.

Vencer o desconhecimento sobre o que ocorre na Venezuela é hoje nosso maior desafio. Por isso, transmito o convite feito pelo presidente Hugo Chávez em coletiva de imprensa aos meios de comunicação nacionais e internacionais logo depois de votar: “Aos que queiram ver uma democracia pujante, sólida e madura, venham à Venezuela”. Torço para que venham livres de preconceitos e dispostos a enxergar as verdadeiras razões pelas quais Hugo Chávez foi reeleito com 55,25% dos votos.

MAXIMILIEN ARVELÁIZ, 39, é embaixador da República Bolivariana da Venezuela no Brasil

O diabo no caminho de Mick Jagger / biografias por Philip Norman

Sexo, drogas e rock and roll. A biografia Mick Jagger (Companhia das Letras, 624 págs., R$ 49,50, nas livrarias dia 25) não deixa muito espaço para outros assuntos além desses três no dossiê sobre o vocalista dos Rolling Stones.

E são duas centenas de páginas a mais que a biografia de seu grupo musical, publicada há quase 30 anos pelo mesmo autor, Symphony for the Devil: The Rolling Stones Story (1983), escrita pelo jornalista inglês Philip Norman, autor de biografias de John Lennon e Elton John.

Não se pode dizer que Mick Jagger seja o que se convencionou chamar de uma biografia chapa branca, até porque o ícone do rock surge no livro como um superstar arrogante, sovina, narcisista e predador – enfim, um Casanova pouco preocupado com suas presas sexuais, aí incluídos mulheres e homens (David Bowie, entre eles).

No momento em que os Rolling Stones comemoram 50 anos anunciando um retorno aos palcos e Mick chega aos 70 com quatro casamentos e sete filhos, não é uma biografia recomendável para novos fãs. Os antigos já sabem o que esperar.

O jornalista Philip Norman é um produto dos anos 1960. Adora rememorar a vida louca da swinging London, as orgias e os banquetes regados a álcool e alucinógenos. Conheceu Jagger numa entrevista, em 1965, dois anos antes de o cantor ser preso por porte de drogas e quatro antes do trágico concerto dos Rolling Stones em Altamont, na Califórnia, quando um jovem negro foi morto a facadas por membros da gangue Hell’s Angels, contratados para a segurança do show americano.

Quanto às drogas, há uma novidade: Norman diz que o fornecedor de ácido lisérgico (LSD) aos Stones era um agente do FBI recrutado para um programa de contrainteligência (Cointelpro) que investigava “subversivos” (comunistas, feministas, negros militantes e simpatizantes).

FOTO: REUTERS/Suzanne Plunkett

Em 1967, o Cointelpro de J. Edgar Hoover mudou o foco para os roqueiros – especialmente os ingleses – que, na sua visão, “corrompiam” a juventude americana. Os serviços secretos ingleses teriam auxiliado o FBI na missão.

A batida que levou Mick Jagger e sua namorada Marianne Faithfull presos, em 1967, se deu graças a David Jove, que morreu em 2004, aos 64 anos. Ele usava, então, um sobrenome falso, Snyderman, e tinha também os Beatles na mira. Se condenados, eles não poderiam entrar nos EUA.

Quanto ao trágico episódio de Altamont, é fato que, na época, Jagger foi criticado na mídia como irresponsável por ter organizado o concerto e atribuído aos Hell’s Angels a segurança do show. Durante a apresentação de Under My Thumb, um garoto de apenas 18 anos, Meredith Hunter, foi assassinado em frente do palco.

Norman tenta livrar a barra de Jagger, escrevendo que os diabólicos Hell’s Angels foram, na verdade, contratados pelos músicos do grupo Grateful Dead. Em várias outras passagens, o jornalista toma partido do biografado, que, no entanto, não colaborou com o livro.

Mesmo Marianne Faithfull, citada a todo momento, é lembrada por meio da autobiografia, Faithfull, e não por longos depoimentos pessoais. E ela teria muito a dizer, especialmente sobre a adesão de Jagger ao satanismo (eles acabaram queimado toda a biblioteca “satânica” do vocalista, mas o biógrafo não revela as circunstâncias).

Curiosamente, Norman culpa Satã por todo o mal que perseguiu os amigos de Jagger e os coadjuvantes de seus filmes. Mais uma vez, o biógrafo reprisa a velha história do cantor de blues Robert Johnson, que teria feito um pacto como o demônio para obter sucesso (ouça Me and the Devil Blues para atestar se isso é verdade).

A seu modo, Norman insinua que Jagger leu O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgákov, e ficou tão impressionado com a história que, influenciado por Marianne, compôs Sympathy for the Devil. Em síntese, Bulgákov fala que o grande triunfo de Satã foi o de colocar Pôncio Pilatos no caminho de Jesus, recusando salvá-lo da cruz.

FOTO: REUTERS/David Callow

Jagger atualiza o baile organizado pelo diabo, no livro do russo, e fala de algumas celebridades históricas que herdaram o bastão de Pilatos: Hitler é o protagonista da canção de Jagger, mas há lugar para os bolcheviques que mataram a família real russa e os assassinos de vários membros da família Kennedy.

Jagger queria transpor O Mestre e Margarida para as telas. Ele, naturalmente, faria o papel de Satã. Desde que estreou como ator em Performance, de Nicholas Roeg, tinha obsessão de interpretar um anti-herói no cinema. Chegou, no máximo, a fazer o papel de um conhecido bandido australiano em Ned Kelly, dirigido por Tony Richardson.

Desde que compôs Sympathy for the Devil, garante o biógrafo, Jagger passou a se interessar muito por satanismo e magia negra, especialmente pela obra do bruxo Aleister Crowley, que escandalizou a Inglaterra no começo do século passado ao defender a feitiçaria. Verdade ou não, uma das namoradas de Jagger, a atriz alemã Anita Pallenberg, era bruxa, segundo o biógrafo.

Jagger pode não ser, mas aceitou atuar num filme maldito de Kenneth Anger, Lucifer Rising, ao lado de garotos nus submetidos a cenas de sadomasoquismo (incluindo mutilação). Detalhe: Anger tinha o nome Lúcifer tatuado no peito e acreditava ser a reencarnação de Aleister Crowley.

Anita Pallenberg, coadjuvante de Jagger em Performance, ficou viciada em heroína, que, segundo Norman, “viria a lhe devastar o rosto e o corpo perfeitos”. James Fox, que vinha de um sucesso de crítica, O Criado, dirigido por Joseph Losey, fez Performance e perdeu o pai, ficou desorientado, vagando meses pela América do Sul e abandonando a carreira no auge – só retornaria a ela anos depois.

Jagger escapou ileso da maldição de Performance e das filmagens de Fitzcarraldo (ele desistiu do filme de Herzog, cuja produção registrou todo o tipo de tragédia), mas ficou conhecido como o rei da uruca nos sets. Nenhum de seus grandes projetos no cinema deu certo.

Ele, porém, ainda tem uma carta na mão: quer revisitar o próprio passado num filme que o músico deve produzir e estrelar chamado Tabloid, retrato do magnata de imprensa Rupert Murdoch, dono do tabloide dominical News of the World, que queria destruir Jagger, acusando-o de porte de drogas, em 1967 (quando o jornal pertencia a outros).

Por direito, diz o biógrafo, os escândalos protagonizados por Jagger nos anos 1960 deveriam ter sido esquecidos décadas atrás. O cantor, diz ele, poderia ter desenvolvido uma carreira paralela nas telas tão bem-sucedida quanto a de Elvis Presley. Ou ser um político, usando sua rebeldia. Ou um poeta, como Leonard Cohen. Então, por que não foi?

Porque Mick encarna o paradoxo do vencedor supremo, segundo Norman, “para quem as colossais realizações parecem não significar nada”. É um extrovertido, mas prefere a discrição, resume. Mick, em sua definição, é amoroso, atencioso com as mulheres, mas nem tanto com os homens.

O biógrafo conta que a atração sexual do primeiro empresário dos Stones, Andrew Oldham, por Jagger foi logo percebida pela namorada Marianne Faithfull. Oldham é apontado como o homem que colocou os Stones na estrada, graças ao talento empresarial (ele trabalhou com Mary Quant, a inventora da minissaia) e sua determinação de fazer dos garotos do grupo os antípodas dos Beatles. Se eles eram certinhos, então os Stones seriam diabólicos, segundo a lógica de Oldham.

Jagger, esperto, seguiu o conselho à risca. Os primeiros álbuns dos Stones trazem referências explícitas ao diabo, presente nas capas dos discos, nas letras das músicas e, quem sabe, por trás da figura do biografado.

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Antonio Gonçalves Filho

CORA CORALINA, IN “LUCROS E PERDAS”

“Revendo o passado,
balanceando a vida…
No acervo do perdido,
no tanto do ganhado
está escriturando:
“- Perdas e danos, meus acertos.

– Lucros, meus erros.
Daí a falta de sinceridade nos meus versos.”

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 Cora Coralina, in “Lucros e perdas”, Meu livro de Cordel.

Graciliano Ramos, livro reúne 81 textos inéditos – por luís antonio giron / são paulo.sp

 

“Garrancho – Achados inéditos de Graciliano Ramos” traz escritos de todas as fases do autor de “Vidas secas”

O escritor Graciliano Ramos, em foto de 1972, e a capa do livro "Garrancho - Achados inéditos de Graciliano Ramos" (Foto: Acervo Editora Globo e divulgação/Editora Record)O escritor Graciliano Ramos, em foto de 1972, e a capa do livro “Garrancho –
Achados inéditos de Graciliano Ramos”
(Foto: Acervo Editora Globo e divulgação/Editora Record)

Pesquisar textos desconhecidos de autores consagrados em revistas antigas e arquivos virou uma atividade reconhecida – e em plena moda. As efemérides dão a deixa para buscar novidades. Neste anos, saíram inéditos de contos e diários de Lúcio Cardoso e crônicas de Nelson Rodrigues, autores cujos centenários foram comemorados recentemente. Os 120 anos do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), bem como os 60 anos de sua morte ano que vem, servem como ocasião para lançamento do livro Garrancho – Achados inéditos de Graciliano Ramos (editora Record, 378 páginas, R$ 49,90). O volume é o resultado de uma longa pesquisa de Thiago Mio Salla, doutorando em Letras pela Universidade de São Paulo.

Salla reuniu 81 textos de todas as fases da carreira de Ramos, desde os três primeiros artigos no jornal Parayba do Sul, em 1915, um conto juvenil do mesmo ano, “O ladrão”, até panfletos e ensaios no fim da carreira, depois de sua entrada no Partido Comunista Brasileiro. Isso passando pela coluna Garranchos nos ano 1920, que ele assinou no jornal Palmeiras dos Índios, que editava em sua cidade natal, o período de militância jornalística em Maceió nos anos 1930 e os textos escritos durante sua prisão em Ilha Grande.

Segundo Salla, o volume, apesar de heterogênero, ajuda a conhecer melhor Graciliano, em cada fase de sua vida. “Cada uma, a seu modo, permite iluminar facetas pouco conhecidas ou, até então, obscuras do autor de Vidas secas, fornecendo mais subsídios para a fundamentação, pelo leitor, de certos elementos concernentes a sua poética, além de ampliar as possibilidades de leitura e compreensão do papel desempenhado tanto pelo homem quanto pelo artista Graciliano Ramos”, afirma Salla.

Graciliano foi um dos maiores estilistas do português brasileiro moderno. Seu estilo conciso, tão presente em sua ficção, se faz presente nos textos de ocasião. Mesmo nos textos de formação, como o conto “O ladrão” é claro e cheio de ação, o verbo suplantando os adjetivos, como demonstra esta passagem: “O homem chegou sorrateiramente à esquina, olhou desconfiado os arredores e entrou na única loja que por ali havia aberto àquela hora da noite”. A descoberta deGarranchos é um momento histórico na literatura brasileira.

Obras do acervo do Museu do Louvre chegam ao Masp – por antonio gonçalves filho / são paulo.sp

Mostra ‘Luzes do Norte’ abriu nesta sexta-feira, 19, com 61 desenhos e gravuras de 23 artistas

Detalhe da obra 'Frederico Duque de Saxe', de Brosset - Divulgação
Divulgação
Detalhe da obra ‘Frederico Duque de Saxe’, de Brosset

Especialmente concebida para o Brasil, a exposição Luzes do Norte, com curadoria do francês Pascal Torres, que será aberta nesta sexta-feira, 19, no Masp, reúne 61 desenhos e gravuras de 23 artistas da coleção doada pelo barão de Rothschild, em 1935, ao Museu do Louvre. São obras-primas do Renascimento alemão criadas por Altdorfer, Cranach, Dürer e Holbein, entre outros grandes artistas atuantes nos séculos 15 e 16. Dürer (1471-1528) é a grande atração da mostra, representado por 11 gravuras que recorrem, em igual proporção, a temas religiosos e profanos. Foi o curioso Dürer, aliás, que introduziu os ideais do Renascimento italiano no norte da Europa. É dele o ícone da exposição, a xilogravura (impressa após sua morte) de um rinoceronte monocromático cujo verde faz lembrar a cor dos filmes do russo Sokurov.

Dürer, ao que se sabe, jamais viu um rinoceronte. Nasceu e morreu em Nuremberg e visitou a Itália duas vezes, a primeira aos 23 anos e a segunda, aos 30 anos. Influenciado pela cultura humanista dos renascentistas italianos – especialmente os artistas de Veneza -, Dürer reforçou seu interesse pela perspectiva, proporções harmoniosas e temas inauditos. Foi, aliás, um artista estrangeiro que forneceu ao alemão o esboço do rinoceronte que passou por Lisboa por volta de 1515. Dürer foi pioneiro na ilustração de livros, habilidoso tanto na técnica do retrato (há dois deles na mostra) como em paisagens, animais e temas sacros (destaca-se uma xilogravura da Santíssima Trindade).

A rigor, não houve propriamente um Renascimento alemão. Artistas como Dürer ou Hans Holbein (1497-1543) tiveram, sim, contato com a arte que se praticava em outros países, mas o híbrido que cruzou os Alpes era uma mistura do estilo renascentista italiano com o gótico alemão. Dürer reúne o melhor da tradição medieval e uma vocação humanista traduzida em seu interesse pelo passado e mitos clássicos. Holbein, que aos 19 anos morava em Basel, na fronteira com a França, era um cosmopolita, combinando a monumentalidade do Norte com o requinte da cultura francesa. Dele pode ser vista uma têmpera sobre madeira que retrata o poeta inglês Henry Howard, conde de Surrey, pintada um ano antes da morte do artista e pertencente ao acervo do Masp. Este e o retrato de um jovem aristocrata realizado em 1539 por Lucas Cranach (1472-1553), também da coleção do museu, são os únicos óleos presentes na mostra do Louvre.

Cranach é lembrado pelas imagens que deixou de Martinho Lutero. Um dos amigos mais próximos do pastor reformista, impressiona seu retrato do religioso com o hábito de frei agostiniano (antes de ser excomungado pelo papa). Mesmo apoiando algumas reformas propostas pelo amigo e ilustrando a Bíblia que Lutero traduziu para o alemão, em 1522, Cranach continuou a desenhar nus baseados nos mitos gregos e pintar altares devocionais católicos. Fez largo uso dessa iconografia, como mostram duas xilogravuras da exposição, uma dedicada a São Cristóvão (também retratado por Altdorfer) e outra ao repouso da Sagrada Família em Fuga para o Egito.

A combinação das tradições do gótico alemão com as influências do Alto Renascimento italiano resultou num estilo formal em que a interação da figura com a paisagem caracterizou o trabalho de um grupo de artistas alemães e austríacos conhecido como a Escola do Danúbio. Albrecht Altdorfer (1480-1538) é o representante maior dessa transição do medieval para a modernidade – e a prova disso é um desenho (na exposição) que mostra uma mulher passando a cavalo pela porta de uma cidade. No entanto, o exemplo supremo das paisagens irreais construídas por Altdorfer está em A Natividade, desenho em tinta preta sobre base de guache branco que retrata o nascimento de Jesus, concedendo particular atenção ao ambiente que o cerca. A natureza deixa de ser cenário para ser protagonista em Altdorfer.

O antecessor de todos, Martin Schongauer (1450-1491), mestre do buril que inventou algumas técnicas depois aperfeiçoadas por Dürer, também está na exposição com quatro obras. Uma delas, Cristo Aparecendo a Maria Madalena, deve ter impressionado muito os renascentistas e maneiristas italianos. Tanto que Vasari afirmou ter Michelangelo copiado gravuras do genial alemão.

GRACILIANO RAMOS, livro reúne 81 textos inéditos – por luis antônio giron /são paulo.sp

 

“Garrancho – Achados inéditos de Graciliano Ramos” traz escritos de todas as fases do autor de “Vidas secas”.

           

O escritor Graciliano Ramos, em foto de 1972, e a capa do livro "Garrancho - Achados inéditos de Graciliano Ramos" (Foto: Acervo Editora Globo e divulgação/Editora Record)
O escritor Graciliano Ramos, em foto de 1972, e a capa do livro “Garrancho –
Achados inéditos de Graciliano Ramos”
(Foto: Acervo Editora Globo e divulgação/Editora Record)

Pesquisar textos desconhecidos de autores consagrados em revistas antigas e arquivos virou uma atividade reconhecida – e em plena moda. As efemérides dão a deixa para buscar novidades. Neste anos, saíram inéditos de contos e diários de Lúcio Cardoso e crônicas de Nelson Rodrigues, autores cujos centenários foram comemorados recentemente. Os 120 anos do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), bem como os 60 anos de sua morte ano que vem, servem como ocasião para lançamento do livro Garrancho – Achados inéditos de Graciliano Ramos (editora Record, 378 páginas, R$ 49,90). O volume é o resultado de uma longa pesquisa de Thiago Mio Salla, doutorando em Letras pela Universidade de São Paulo.

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Salla reuniu 81 textos de todas as fases da carreira de Ramos, desde os três primeiros artigos no jornal Parayba do Sul, em 1915, um conto juvenil do mesmo ano, “O ladrão”, até panfletos e ensaios no fim da carreira, depois de sua entrada no Partido Comunista Brasileiro. Isso passando pela coluna Garranchos nos ano 1920, que ele assinou no jornal Palmeiras dos Índios, que editava em sua cidade natal, o período de militância jornalística em Maceió nos anos 1930 e os textos escritos durante sua prisão em Ilha Grande.

+Leia o primeiro texto publicado de Graciliano Ramos, no jornal Parayba do Sul, em 1915

Segundo Salla, o volume, apesar de heterogênero, ajuda a conhecer melhor Graciliano, em cada fase de sua vida. “Cada uma, a seu modo, permite iluminar facetas pouco conhecidas ou, até então, obscuras do autor de Vidas secas, fornecendo mais subsídios para a fundamentação, pelo leitor, de certos elementos concernentes a sua poética, além de ampliar as possibilidades de leitura e compreensão do papel desempenhado tanto pelo homem quanto pelo artista Graciliano Ramos”, afirma Salla.

Graciliano foi um dos maiores estilistas do português brasileiro moderno. Seu estilo conciso, tão presente em sua ficção, se faz presente nos textos de ocasião. Mesmo nos textos de formação, como o conto “O ladrão” é claro e cheio de ação, o verbo suplantando os adjetivos, como demonstra esta passagem: “O homem chegou sorrateiramente à esquina, olhou desconfiado os arredores e entrou na única loja que por ali havia aberto àquela hora da noite”. A descoberta deGarranchos é um momento histórico na literatura brasileira.

ORDÁLIO DE VERÃO,segundo o poetinha – de paulo timm / portugal.pt

Ordálio de verão, segundo o poetinha

 

                                   I

 

Meninas sozinhas, perdidas no mundo

e dentro de si., sufocantes.

Pés de açucena, mãos despataladas ainda  em botão.

Aurigas imortais ,

Cariátides suplicantes  

Púcaros de bacilos

Sob templos de lues irisadas de vergonha.

 

No  anúncio de  siringes lúgubres

Um abismo hiante:

Social?

Tropical?

Existencial e antropofágico.

Procelas devastadoras em verões sufocantes:

Suplícios, doestos,

Nas vascas de uma  agonia itinerante

 

Tantos cheiros, tantos…

Fragrância fria , distante

E que cores?

Lâmpadas também frias de uma luz cortante

Mas que peso! Que pressa!

Bebi de copo vazio e casto

E me sinto com gosto de lua minguante.

 

II

 

As estações chuvosas são assim.

Vê-se tudo pela janela.

Como esperas de dentista.

Sempre atento ao pior.

`As cinco da manhã , pior ainda:

A  angústia se veste de branco e fica como louca,

Doidona!

Sentada, em pe; sentada.., em pé…

Trocando pernas como quem dança um tango.

Espiando o perigo

De onde ele vem mesmo , menina?

Vai pra casa!

Mas minha fadiga encontra seu termo

E meu desejo de evasão se esvai , desejante,

Acovardado pelo enlevo que lhe consome.

O que mais precisa um homem senão

Deste lirismo  indizível da beleza

Cínica da madrugada?

Toda  desiludida de romance… .

                                           III

 

Releio Vinicius, meu grande poeta

Devorador de palavras difíceis e ternas

E sucumbo ao seu verso

Seu poema maior.

Como resistir?

Ao poeta?

Ao seu verso?

Ao poeta que vive como poeta e ainda por cima

Faz versos?

Como não lê-lo?

Como não segui-lo?

Como não plagiá-lo sem qualquer pudor?

Pelo pudor que não é, dá-se!

Como o tempo frágil

Nas mãos do filósofo que ele soube ser.

  

                                          Paulo Timm- Olhos d Água/GO , fevereiro de 2008

FAMÍLIA DE JANGO MOVE AÇÃO CONTRA ESTADOS UNIDOS

Justiça brasileira tenta evitar que Washington responda judicialmente pela “reparação civil” dos danos decorrentes do golpe de 1964.

Quando faltam menos de um ano e meio para que o golpe civil militar de abril de 64 complete 50 anos, a Justiça brasileira está para decidir uma ação da família do presidente deposto João Goulart, co­nhecido como Jango, que poderá resultar na co­locação dos Estados Unidos no banco dos réus. 0 tema é complexo e se arrasta desde 2002 nas mais variadas instâncias da Justiça e foi iniciada pelo ad­vogado José Roberto Rutkoski e agora está a car­go de Trajano Ribeiro e Daniel Renout da Cunha.


Para se entender melhor os meandros da ação, é necessário que os interessados conheçam os porme­nores de uma linguagem jurídica complexa em que se destacam termos como “atos de gestão e de im­pério” por parte do governo estadunidense.

A história da ação começa em 2002, depois de uma entrevista do ex-embaixador Lincoln Gordon, ao lançar em São Paulo e no Rio de Janei­ro o seu livro Brasil Segunda Chance: A Cami­nho do Primeiro Mundo, admitindo o patrocínio oculto da quebra da ordem constitucional me­diante exemplos como o fato de que a CIA dis­pôs 5 milhões de dólares, a partir de 1962, com o financiamento de candidatos ao Congresso que desfraldassem a bandeira do anticomunismo e combatessem também o nacionalismo.
Era o tempo do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e do Instituto de Pesqui­sas Econômicas e Sociais (1PES), que tinha como um dos principais coordenadores o então Coro­nel Golbery do Couto e Silva, um dos principais mentores do golpe de 64.

Com esta admissão, os filhos de Jango, João Vicente e Denise Goulart, bem como a viúva, Ma­ria Tereza, tomaram a iniciativa de processar pela Justiça brasileira o Estado norte-americano como um dos responsáveis pelo golpe que afastou do poder o presidente da República.

SOBERANIA NACIONAL
Inicialmente, segundo explicou João Vicente, o objetivo da ação não visava propriamente indeniza­ção, apenas uma ação afirmativa. 0 pedido sempre foi de indenização, mas não tinha nenhum valor fi­xado porque era uma reação política e de defesa da soberania, mas a Justiça, mais precisamente a 10a Vara Federal do Rio de Janeiro, exigiu que fosse fixado o valor das perdas que a família teve em decorrência do afastamento forçado de Jango da Presidência e posteriormente o exílio no Uruguay.
Foi realizada uma parícia para apurar o valor da evolução patrimonial. Com base na declaração do Im­posto de Renda de 1963 do presidente deposto, a qual foi somada uma quantia referente aos danos mo­rais e o valor da repara­ção, acabou sendo estipu­lada em cerca de 4 bilhões de reais.
A 10a Vara Federal jul­gou extinto o feito com fundamento na impossi­bilidade jurídica do pedi­do com base na imunida­de absoluta de jurisdição do Estado estrangeiro cujo recurso acabou sendo en­caminhado para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde, apesar das sucessi­vas negativas da maioria dos Ministros, os advoga­dos ainda tentam colocar o Estado norte-americano no banco dos réus.
No terreno jurídico, segue sendo travada uma batalha complexa e que para entendê-la é necessá­rio também analisar os meandros da política exter­na estadunidense atual e do período da Guerra Fria.

0 financiamento pela CIA da campanha para a derrubada de Jango, que não se limitou na ver­dade aos cofres do IBAD ou do IPES, foi inspira­da no que aconteceu na Itália logo após o fim da II Guerra Mundial. Preocupados com a possibili­dade de uma vitória eleitoral do então poderoso eleitoralmente Partido Comunista Italiano (PCI), a CIA e demais organismos do Estado norte-ame­ricano despejaram milhões de dólares para bene­ficiar, sobretudo partidos como o da Democra­cia Cristã e demais opositores do PCI. A ofensiva anticomunista deu certo e impediu a vitória dos comunistas, então agrupados unitariamente em um partido forte sob a liderança da figura legen­dária do secretário geral Palmiro Togliatti.
Em uma reunião realizada a 30 de julho de 1962 entre o então Presidente John Kennedy e o embaixador Lincoln Gordon, o assessor presiden­cial Richard Goodwin aventou a possibilidade de que “talvez devêssemos pensar em golpe num fu­turo próximo (no Brasil)”.
Na mesma entrevista sobre os gastos da CIA com o esquema de desestabilização do governo constitucional brasileiro, embora confirmando o que disse Goodwin, Gordon procurou mini­mizar o fato declarando que a opinião do as­sessor não foi considerada naquele momento, o que na prática não se confirma pelo teor dos documentos secretos desclassificados em 2004 pelo Departamento de Estado norte-americano.
Segundo o próprio Lincoln Gordon, foram gas­tos pela CIA 5 milhões de reais, o equivalentehoje a cerca de 50 milhões de dólares ou 100 milhões de reais.

MAIOR TEMOR
Na verdade, temendo que no Brasil se consoli­dasse um governo nacionalista, Kennedy chegou a dizer que o número de comunistas no Brasil é irre­levante na cena política e que esse fato serviria ape­nas para atacar o governo de Jango.

Kennedy temia eventuais ameaças aos interes­ses de empresas norte-americanas, sobretudo com a possibilidade, já então concreta, da aprovação da lei de remessa de lucros. Ele não pensou duas vezes em executar o que pouco tempo antes o Conselho de Segurança Nacional estadunidense sob o governo de seu antecessor, o Presidente Dwight Eisenhower, aprovou, ou seja, a resolução sobre as “covers ac- tions” (ações encobertas) contra a ordem jurídica de outros países: “as operações deviam ser secretas e permitir que o governo pudesse negar, com foros de plausibilidade, sua participação nas mesmas”.
Kennedy, portanto, seguindo essa prédica, não poupou esforços no sentido de que em algum mo­mento ocorresse a derrubada de Jango, o que hoje é confirmado com a leitura de uma série de docu­mentos do Departamento de Estado liberados para consulta. Lyndon Johnson, o sucessor de Kennedy, simplesmente levou adiante a política adotada pelo Presidente assassinado em novembro de 1963.
Na petição apresentada pelos advogados da família Goulart à Justiça brasileira, é lembrado o fato de que vários embaixadores estaduniden­ses (no começo da década de 60) queixaram-se de terem sido usados para dissimular atividades de espionagem, mas a CIA sempre insistiu que a cobertura das embaixadas é essencial a seu tra­balho, porque inclusive sem a imunidade de que gozam as propriedade diplomáticas, os códigos, ar­quivos e comunicações da central de inteligência estadunidense não estariam em segurança.
Foi lembrado também que o atrito entre fun­cionários do serviço exterior e os agentes da CIA tornou-se tão agudo ao fim do governo de Dwight Eisenhower que o então presidente ex­pediu uma ordem executiva, em novembro de 1960, onde afirmava: “Os chefes de missões diplo­máticas dos Estados Unidos no exterior, como re­presentantes do Presidente e agindo em seu nome, deverão possuir e exercer, na medida em que permi­tam as leis e de acordo com as instruções que o Pre­sidente venha promulgar, a responsabilidade dire­ta pela coordenação e supervisão das atividades das várias agências que sirvam nos diferentes países”.
E tão logo foi empossado, lembram os advoga­dos Trajano Ribeiro e Daniel Renout da Cunha, John Kennedy apressou-se em reafirmar os poderes do Departamento de Estado e dos embaixadores. Os embaixadores que eventualmente não aceitassem a determinação ou simplesmente apenas a questio­nassem foram removidos e substituídos.

A partir de então, e sem que fossem cance­ladas até hoje as determinações, as embaixa­das estadunidenses se tomaram uma espécie de linha auxiliar da CIA.
Os advogados da família Goulart apresenta­ram na Justiça brasileira a tese segundo a qual a intervenção norte-americana no Brasil com a li­beração de verbas aos golpistas de 64 e a presen­ça de uma esquadra naval norte-americana nas costas brasileiras para, em caso de necessidade, apoiar a ação de derrubada do Presidente brasi­leiro, foi um “ato de gestão”.
Ou seja, o governo estadunidense (Poder Exe­cutivo) agiu sem consultar o Congresso (Poder Le­gislativo). Para entender melhor, foi uma ação di­ferente da empreendida em 2003 contra o Iraque, quando para aprovar a ação militar houve consen­timento do Senado, caracterizando-se como “ato de império”. Não vem ao caso se a decisão do Se­nado ocorreu com base na mentira segundo a qual o Iraque possuía armas de destruição em massa, o que ficou comprovado não existiram.
No caso do golpe de 64, ao intervir da forma como interveio, o governo dos Estados Unidos, se­gundo os advogados Trajano Ribeiro e Renoult da Cunha, simplesmente violou a Constituição norte-americana ao ferir a carta de princípios da Organi­zação dos Estados Americanos (OEA), que impede a intervenção direta ou indireta de um estado es­trangeiro sobre a ordem interna de um aliado dos EUA. Um ato ilícito sob o ponto de vista da Consti­tuição norte-americana, portanto, não pode ser um ato de império.


                                                      Operação “Brother Sam” na costa brasileira em 1964.

NEGATIVAS DA JUSTIÇA

Mas a Justiça brasileira entendeu que a ação dos EUA foi um “ato de império”, inviabilizando a con­tinuação do processo contra o Estado estrangeiro em território nacional, o que em linguagem jurídica é considerado “imunidade absoluta de Jurisdição”.
As sucessivas negativas de recursos que impe­dem de colocar no banco dos réus do Brasil os Es­tados Unidos, tanto da parte da 10a Vara Federal do Rio de Janeiro, como do STJ, inclusive a de impedir que a ação seja encaminhada para decisão do STF, colocam em dúvida se a Justiça brasileira tem mes­mo interesse em defender a soberania nacional ou se sente atemorizada com a solicitação de julgar o Estado norte-americano em território nacional.

Reforça essa tese o fato de o Ministro do STJ, Félix Fischer ter decidido a ação sem permitir que um recurso extraordinário pudesse seguir para o STF sob a alegação de que uma petição não tinha sido apresentada em tempo hábil.
Mas os advogados comprovaram, mediante do­cumento fornecido pelos Correios, que informaram que o documento original havia chegado no prazo ao STJ, não tendo sido juntado a tempo por falha administrativa do órgão judiciário. Isto é, o próprio STJ extraviou o documento em questão, resta saber se deliberadamente ou não. Os advogados alegam que esta questão foi ultrapassada quando o ministro João Otávio de Noronha consagrou o entendimento de que mesmo que os originais do agravo tivessem sido apresentados dentro do prazo “ratificavam-se os fundamentos da decisão que negou seguimen­to a ação rescisória”. Ação que combate o entendi­mento equivocado de que os Estados Unidos praticaram ato de Império, quando a jurisdição brasileira é competente para julgar atos de gestão.


FAVORECIMENTO

Além disso, o que é ainda mais grave, os mi­nistros do STJ, com exceção de Nancy Andrighi e Humberto Gomes de Barros, concederam ao réu (EUA) a prerrogativa, não solicitada, por sinal, de aceitar ou não abrir mão da “imuni­dade de jurisdição”,
Trocando em miúdos, facilitaram o lado dos Es­tados Unidos, que com a decisão fizeram a pergunta que favoreceu ao réu, dando margem à hipótese de que os ministros queriam se livrar, para eles, do fardo de julgar o mérito da ação interposta pela família de João Goulart. Pior, acabaram por declarar de ma­neira ilegal que os Estados Unidos violaram a Car­ta da OEA sem que tivesse direito de se manifestar.
Com isso, fica reforçada a dúvida que os minis­tros do STJ pouco se importam se está em jogo ver­dadeiramente a soberania nacional.
Em razão da dificuldade encontrada para dar se­guimento à ação, não se exclui a possibilidade de a família Goulart fazer o mesmo que fez a família de Jacobo Arbenz, o presidente deposto da Guatema­la, em 1954. Os Arbenz deram entrada, e ganharam, em ação na Justiça dos EUA apresentando o Esta­do norte-americano como um dos responsáveis pelo golpe patrocinado pela CIA. Não foi divulgado o valor que os EUA pagaram pelos danos causa­dos à família Arbenz, mas a decisão cria juris­prudência e, caso os Goulart entrem com ação, obterão resultado favorável ao pleito.
Para João Vicente, no entanto, o ingresso da ação na Justiça brasileira é um recurso importan­te no sentido da afirmação e defesa da soberania nacional, que, no entender dele, foi aviltada com o golpe que derrubou o presidente João Goulart. João Vicente se baseia no fato de que a jurisdi­ção se exerce nos mesmos limites da soberania e o dano foi praticado em território brasileiro. Daí a competência territorial para julgar o pedido de reparação.
A renúncia de jurisdição e competência para julgar o pedido da família Goulart, sem que os Estados Unidos tivessem solicitado formalmente a imunidade de jurisdição, é, sem dúvida, uma renúncia de soberania.
Não se exclui também a possibilidade, segundo admitiu João Vicente Goulart, se a justiça negar totalmente a ação, de a família levar para o julgamento do Tribunal de Haia. “Lamentavelmente, o Brasil terá de ser réu pelo fato de a justiça negar a uma família o direito de julgar em território nacional o país responsável por uma ilegalidade que levou o país a uma longa escura noite de 21 anos”, observou João Vicente Goulart.
Por estas e muitas outras ao longo dos anos, está na hora do Poder Judiciário brasileiro ser passado a limpo, inclusive sepultar os vícios adquiridos ao longo de 21 anos de ditadura e que continuam vigentes.

 

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Mario Augusto Jacobskind, Caros Amigos

Notas zero de jurado definem categoria romance no Jabuti – maria fernanda rodrigues / são paulo.sp

Um dos 3 jurados deu 0 a escritores consagrados e permitiu a vitória de Oscar Nakasato, por ‘Nihonjin’

18 de outubro de 2012 | 21h 16
Maria Fernanda Rodrigues – O Estado de S. Paulo

Em 2010, Oscar Nakasato, então professor de literatura do ensino médio em Apucarana, no Paraná, tirou o romance Nihonjin da gaveta e o inscreveu no 1.º Prêmio Benvirá. Era seu primeiro original. O júri, composto por José Luiz Goldfarb, Nelson de Oliveira e Ana Maria Martins, escolheu a obra por unanimidade e, como prêmio, o professor ganhou R$ 30 mil. O livro, sobre a imigração japonesa, foi editado pela Benvirá, da Saraiva, em 2011. Nesta quinta-feira, 18, Nihonjin foi considerado pelo Prêmio Jabuti como o melhor romance de 2011, desbancando obras como Infâmia, de Ana Maria Machado.

Nakasato desbancou obras como 'Infâmia', de Ana Maria Machado - Reprodução
Reprodução
Nakasato desbancou obras como ‘Infâmia’, de Ana Maria Machado

A nota de um dos três jurados – seu nome só será divulgado na cerimônia em 28 de novembro – foi responsável pela definição do vencedor. Autora de mais de uma centena de livros e presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, por exemplo, recebeu zero em dois critérios: construção de personagem e enredo. Outros concorrentes também tiveram notas baixíssimas, como Julián Fuks, que foi finalista do São Paulo de Literatura e está no páreo pelo Portugal Telecom. E Wilson Bueno, prêmio APCA de romance em 2011 por Mano, a Noite Está Velha, que também concorria ao Jabuti.

“Dar um zero a uma autora já consagrada é pesado e exagerado, mas é um direito do jurado. As regras deste ano abriram margam para que uma nota tivesse peso decisivo e o jurado percebeu a influência da matemática”, disse José Luiz Goldfarb, curador do tradicional prêmio.

Este ano, os membros do júri puderam dar de 0 a 10 às obras concorrentes. Antes, a pontuação ia de 8 a 10 e era possível usar notas decimais, o que tornava a disputa mais equilibrada. Para a próxima edição, Goldfarb já pensa em mudanças – deve eliminar a nota mais baixa e incluir uma quarta pessoa na comissão formada, no caso da categoria romance, por jornalistas e críticos literários. “Agora, não há o que fazer porque o regulamento é claro e seu voto deve ser respeitado.” Segundo o curador, o tal jurado já participou de outras edições do prêmio.

Na conturbada apuração, Naqueles Morros, Depois da Chuva, de Edival Lourenço, ficou em segundo lugar e O Estranho No Corredor, de Chico Lopes, em terceiro. Nakasato e os vencedores das outras 28 categorias ganham a estatueta do Jabuti, R$ 3.500 e chance de concorrer ao prêmio melhor livro do ano, no valor de R$ 30 mil, a ser anunciado na cerimônia. Os segundos e terceiros colocados levam apenas a estatueta.

Esta, porém, não foi a única surpresa da lista, divulgada pela organização. Na categoria conto, Sidney Costa, com seu O Destino das Metáforas, venceu Dalton Trevisan, considerado um dos melhores contistas do País e que concorria com O Anão e A Ninfeta. Na terceira posição ficou Sérgio Sant’Anna, com O Livro de Praga.

Maria Lúcia Dal Farra venceu em poesia com Alumbramentos. Depois vieram Vesúvio, de Zulmira Ribeiro Tavares, e Roça Barroca, de Josely Vianna Baptista.

O Jabuti premia cada uma das etapas da produção de um livro – seja ele de ficção ou técnico. Capa e tradução são algumas das categorias. O Estado e o Direito Depois da crise, de José Eduardo Faria, editorialista do Estado, ficou em 2.º lugar entre os livros de direito.

Escárnio – por saul leblon / são paulo.sp

 

18/10/2012

A maior rede de televisão do país contrata uma pesquisa sobre a disputa eleitoral em São Paulo; omite o resultado esfericamente desfavorável a seu candidato, no telejornal de maior audiência.
O relator de um julgamento polêmico contra o maior partido de esquerda da América Latina estabelece um calendário desfrutável e acopla os trabalhos ao processo eleitoral em curso; na véspera do primeiro turno oferece as cabeças de algumas das principais lideranças partidárias à boca de urna; agora, alega consulta médica –na Alemanha– para acelerar o anúncio das penas, 48 horas antes do 2º turno.

O candidato do conservadorismo em baixa nas pesquisas age com deselegância contra jornalistas, dispara ofensas no ar e boicota desairosamente os que não seguem a pauta de sua conveniência.

Os editoriais e colunistas da indignação seletiva emudecem miseravelmente.

Reunida no país, a 68º assembleia geral da SIP, diretório interamericano da mídia conservadora, emite um balanço no qual denuncia ‘ o cerco à liberdade de imprensa’ por parte de governos latino-americanos (leia editorial de Carta Maior, nesta pag).

O alvo principal da SIP é a Lei dos Meios da Argentina, na qual a radiodiodifusão é definida como atividade a serviço do direito à informação e não um simples negócio, portanto, imiscível com a natureza do monopólio que aborta a pluralidade e o discernimento crítico daí decorrente.

A lei argentina coíbe expressamente qualquer forma de pressão ou punição a empresas ou instituições em função de sua opinião ou linha editorial, desde que pautadas pelo respeito ao estado de direito democrático e pela observação dos direitos humanos.

A lei argentina diz que o Estado tem o direito e o dever de exercer seu papel soberano que garanta a diversidade cultural e o pluralismo das comunicações.

A lei argentina diz que isso requer a igualdade de gênero e igualdade de oportunidade no acesso e participação de todos os setores na titularidade e na gestão dos serviços de radiodifusão.

Literalmente, a lei argentina tipifica a mídia estatal como veículos públicos e não governamentais que devem prover uma ampla variedade de informação noticiosa, cultural e educativa; seu espírito pode ser resumido numa fase:

‘Se poucos controlam a informação, não é possível a democracia’.

A ONU reconheceu a legislação argentina é avakiada como modelar pela ONU. Frank La Rue, relator especial das Nações Unidas para a Liberdade de Opinião e de Expressão, não apenas a elogia como pretende divugá-la como uma referência para o fortalecimento da democracia e da diversidade da informação em outros países (leia reportagem nesta pág).

Sugestivamente, o ponto de vista da ONU não mereceu uma única linha de referência nos veículos que endossam o diagnóstico da SIP; os mesmos que silenciam diante do comportamento belicoso do candidato conservador contra jornalistas; que fecham os olhos ante a seletiva forma de divulgar pesquisas eleitorais; e que aplaudem -induzem?– a desconcertante alternância de rigor e omissão, a depender da coloração partidária, que empurra a suprema corte do país para além da fronteira que separa a legítima opinião política de um togado, de um cabo eleitoral de toga.

Lula articulista do jornal norte-americano “The New York Times”, será?

Um novo articulista é esperadíssimo pelo “The New York Times”. Convidado antes da descoberta do câncer na laringe para escrever para o jornal americano, o ex-presidente Lula teria adiado a proposta para depois das eleições municipais.

“Ele vem conversando, não bateu o martelo ainda, mas deve acontecer. Teremos algo concreto ainda este ano”, disse um auxiliar do ex-presidente. Ainda não está definido quem escreveria os textos em inglês.

IstoÉ.

FERNANDO KOPROSKI convida: curitiba.pr

 

ATIRAR EM MEU PRIMO VLADE – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

 

Não. Não posso fazer isso, pensei. Não posso, atirar em meu primo Vlade, de jeito algum.Os maus pensamentos que me tomavam naqueles minutos foram pouco a pouco evanescendo em nada e voltei ao normal. Ainda trazia às mãos a arma carregada. Meu primo egresso de certa Casa de Orates recém tinha fugido e perambulou pela BR 277, adentrou bares sujos, capões de mato, como um perseguido da polícia, um cão, um lobo feroz, um monstro evadido das profundas da Terra, até chegar em nossa casa. A mãe (minha mulher a anja) atendeu o tranhinho, como mãe, amiga do ser reverbelíneo. Acelerou acelerado o desgringonado do bem. Louqueou, sofregou na dor e na compulsão ao desconhecido. Atirar em meu primo, eu não, não… não posso fazer isso. Mas cheguei a pensar no retorno do vingadorzinho não se sabe do que, iria ele se vingar, meu primo não veio me visitar nas casas de insanos, nas criptas do reencontro do ser com o ser remixado, transmixado, acelerado que se venceu, transvenceu em mente/corpo. Poderia haver pensado isso o meu primo Vlade, e fiquei de campana ao seu retorno. Poderia pensar o tranhinho, agora vou lá, escapei das amarras, das sessões de choque, dos empurrões, do gesto brusco do são para o insano e vou me vingar matando meu primo esse poeta de merda, abduzido, poeta iludido e doido e anjo vingador dos poetas recusados. Pra mim é fácil, pensar pensou o tranhinho e vinha olhos arregalados passos longos pra encurtar distância de lá pra cá da fronteira do sul para o sul do sul onde lido com meus cavalinhos de pouca venda e muito comer. Tinha pressa o meu primo Vlade… pressa em resolver tudo. Ele sabe onde me encontrar. Sabe. No trabalho sabe, no Nosso Bar, do Altomir Kurek, sabe, na beira do rio Iguaçu, sabe, no mato, sabe, nas estradas sabe, na fazenda sabe. Meu primo retornado pra se vingar do que nunca lhe fiz transfiz refiz deliberei não resolvi atendi o tranhinho bom mas acelerado nos princípios meios e fins base de lítio na pegada diária que nunca termina como é de terminar sarar acalmar desacelerar o bólido atentadinho. Meu primo vindo obssessivamente pra se vingar de mim o poeta que não deu certo o poeta iludido que tanto tentou não conseguiu ganhar a mídia e notoriedade no seu tempo transtempo finistempo destempos. O poeta arrogante megalômano que sempre quis ser mais do que realmente é projetou ousou realizou. Meu primo vindo de arma em punho tenso determinado a findar a vida de seu primo o poeta amargurado o poeta de não ser não conseguir resolver os problemas sérios do mundo o poeta participante o poeta sem-terras daquela vez transvez revez o poeta atentado que acredita piamente em seres extraterrestres e que já foi abduzido o poeta messiânico que foi um dia salvador dos mundos o poeta contraditório nos ditos o poeta construtor de estéticas e filosofias que não grassaram entre os ímpios. Meu primo assassino de primo vindo com uma ideia de só matar seu primo poeta liquidar a besta das palavras não assimiladas pelos puros não entendidas pelos gramáticos não amada pelos simples não estudada pelos estudiosos o poeta da vida nova da palavra o poeta da esteira lúmina da poesia crispado de cipós-açus e veios vias vasos meios de conhecer outros mundos no cimo das árvores. O poeta que transitou nas redes sociais, amou, sonhou, iludiu e desnorteou tanta gente. O poeta que se fastou dos amigos, dos parentes, das belas mulheres que amou e se desvencilhou da aventura de viver presente, visível no seu mundo que não é o seu mundo terreno. O poeta que partiu pra outas esferas, orbes, conquistas de espaços e conteúdos, línguas, linguagens e pensamentos. Meu primo enlevado em Deus onipotente sempiterno portando armas de grosso calibre e vindo pra matar liquidar matar transferir o importuno poeta de sua vida… vida fodida vida enganadora e tranceira. Vencida a dor da vertigem a dor da descoberta da estranha doideira de meu primo soltei a arma sobre a penteadeira do quarto e espiei pela janela a mãe tratando em fala o primo reverbelíneo transurtadino ambos de pé próximo à garagem do carro, o primo recém-vindo olhos parados andar nas nuvens flutuante primo do planeta Terra egresso agora de outras esferas patrocínios chancelas. Cósmico meu primo, o acompanhei desde quando apertou a campainha pela primeira vez. Como disse: estava de campana, já o esperando. Palavra de mãe, palavra de provecção gestão dos símbolos organização dos curtos circuitos a mãe pondo o primo assassino de poeta nos trilhos o primo obsecado com a ideia de morte do primo primo poeta e salvador da vida poética recusada da Terra das Galáxias do Cosmos e mais se fosse possível. Deixa o primo viver. Deixa o primo padecer. Deixa o primo ir levando a vida nesses universos vida-morte que a poesia o leva. Atirar em meu primo Vlade, precipitar a reação à ação do mesmo, não posso não poderei… desde criancinha dos Campos do Senhor do Sul é que o acompanhei na sua vida de mãe pra vó e vó pro mundo e do mundo pra mulher e filhos e divórcio e separação e dor e incompreensão e revisão da vida que ficou pra trás repete-se transtorna o dia e sacrifica o futuro. Meu primo assassino de primo poeta assassino de poesia assassino de palavra assassino de lesma desenhando em tijolos assassino de sóis noturnos e luas do dia meu primo encafifado de ódio meu primo relimpando a Terra em suas vinganças em primeiro é o primo poeta e filósofo protonathural que deve ir em primeiro é o poeta que deve adentrar a noite grande em primeiro é a vida latente do que mexe com as palavras mexe dorme acorda trabalha encanta e tiraniza a vida dos sons e dos significados… o poeta o ser repulsivo o ser escroto da esfera o poeta o sobrado do charco o recusado da matéria e da glória da vida. O poeta que quer revolucionar subverter transverter criar problemas de entendimento. Meu primo Vlade vindo fazer a limpeza a faxina da Terra e primeiro sim… começar com seu primo o imundo o deslocado o agressivo o grosso o letargido o monstrengo insensível o transignificado que não pode ser lido aberto em luz desvelado clareado. Seu primo o sacrificado na tela clara do futuro que pouco ou tanto lhe diz. Meu primo de arma em punho arma armas calibres grossos gatilhos acionados até os estampidos ruidosos que põem fim à vida. Meu primo Vlade vindo vingar o desvingado o que não morre suspende-se para o infinito o que persegue monadas em trânsito comunica-se com o desconhecido e falseia verdades de se viver passíveis de serem salvas do mal. Meu primo contra tudo que reside na palavra tudo que mexe com sílabas metáforas semas semantemas versos semioses de ditos e imagens. Meu primo botando fogo em Roma fogo nos livros fogo nas imagens não nascidas fogo na usina produtora dos signos. Assim foi que imaginei me armei e me defendi disparando vários projéteis contra meu primo Vlade atirando e não acertanto atirando pra defender a mãe de um ataque repentino atirando pra se proteger atirando pra livrar a vida da palavra a vida da poesia da vida da carne da vida da vida transnacida da vida repartida que não encontra guarida nessa vida. Adeus, meu primo Vlade. Foi. Fui. Tamo indo. Já fomos!

 

 

 

 

(Um conto de jAiRo pEreIrA,

do livro inédito OWERLUX)

 

Argentina condena ex-militares à prisão perpétua por crimes durante a ditadura

15/10/2012 – 23h27

Da BBC Brasil

OS DITADORES:

 

Brasília – Um tribunal da Argentina condenou hoje (15) à prisão perpétua três ex-oficiais da Marinha por executar 16 presos políticos há quatro décadas.

Os prisioneiros – parte de um grupo rebelde que escapou da prisão – foram executados em 1972 na Base Naval de Trelew, apesar de dispor de proteção legal.

Os juízes responsáveis pelo caso caracterizaram as circunstâncias das mortes como crimes contra a humanidade.

Os advogados dos réus alegaram que vão recorrer da sentença.

Vem aí o banco do futuro – por ethevaldo siqueira / são paulo.sp

Embora muitos usuários não percebam, os bancos brasileiros estão entre os mais avançados do mundo, do ponto de vista tecnológico. É claro que, mesmo com toda essa modernização, o atendimento da maioria das agências bancárias do País ainda está aquém dos melhores padrões. Nosso objetivo nesta coluna, entretanto, é focalizar unicamente a evolução tecnológica do setor.

 

O processo de informatização e modernização dos bancos brasileiros começou praticamente nos anos 1970, como parte de uma estratégia de defesa contra a inflação, só parcialmente vencida em 1994, com o Plano Real. Por mais de três décadas, a desvalorização da moeda resistiu a todos os planos, cinco diferentes padrões monetários e outras medidas paliativas.

A adoção crescente de novas tecnologias acabou trazendo ainda duas vantagens preciosas: a elevação da produtividade e a criação de facilidades para os usuários. Isso explica por que os bancos brasileiros ao longo dos últimos 30 anos sempre ultrapassaram os europeus e norte-americanos quanto ao padrão de serviços cotidianos. Se o leitor brasileiro teve contato com bancos estrangeiros naquele período deve ter notado claramente o diferencial tecnológico em favor dos bancos brasileiros.

A partir dos anos 1990, a expansão das comunicações e o uso crescente de novas tecnologias permitiram a integração dos serviços bancários neste país continental com área superior a 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Munido de um cartão magnético, qualquer usuário passou a acessar sua conta de depósito, verificar saldos, solicitar serviços ou sacar dinheiro em caixas eletrônicos, em qualquer ponto do País. Em pouco tempo, passamos a achar tudo isso muito natural e rotineiro.

Na última década, com a internet e as tecnologias de identificação e de segurança embutida em chips, os bancos brasileiros continuaram a evoluir de forma extraordinária. Na verdade, as redes digitais e, em especial, a internet, estão revolucionando os serviços e o padrão de atendimento dos maiores bancos brasileiros, do Banco do Brasil aos principais bancos privados, como Itaú, Bradesco, Santander, HSBC e outros.

O banco de 2022. Mas, como será o banco da próxima década? O brasileiro Jean Paul Jacob, professor na Universidade de Berkeley, cientista emérito da IBM propõe que o banco do futuro seja uma espécie de butique. Outros visionários sugerem que o banco seja uma empresa virtual com a oferta predominante da computação em nuvem, do home ou mobile banking ou mesmo um shopping digital, que ofereça não apenas serviços financeiros mas, também, centenas de produtos e serviços, como planos de saúde, turismo, educação, empreendedorismo e entretenimento.

Com base nessas ideias, antecipemos um pouco do que poderá ser o banco de 2022, época em que a maioria das agências utilizará ferramentas digitais extraordinárias, apoiadas numa infraestrutura de banda larga totalmente dedicada aos serviços econômico-financeiros, com a velocidade de 1 Gigabit por segundo (Gbps).

O poder digital. Com a ampliação do home banking e do mobile banking, a tendência irreversível é a redução do número de pessoas que se dirige às agências bancárias. “Atualmente, mais 90% de nossas transações bancárias são feitas via canais digitais” – lembra Luca Cavalcanti, diretor do Bradesco. Esse porcentual de digitalização era impensável há 20 anos. E é provável que, em poucos anos, os clientes não precisem mais ir fisicamente às agências convencionais, em especial, para fazer coisas corriqueiras como descontar um cheque, pagar uma conta ou sacar pequenas quantias de dinheiro.

Em cinco anos, assistiremos, sem dúvida, à explosão dos serviços de mobile-banking. Com isso, o papel da maioria das agências tende a mudar. Elas deverão voltar-se, principalmente, para o atendimento a clientes interessados em conhecer os novos serviços, discutir financiamentos de longo prazo, aplicações e novas opções tecnológicas para seus dispositivos portáteis – os sucessores dos atuais smartphones e tablets.

Um exemplo. Mais do que projetos experimentais ou conceituais, já existem bons exemplos de agências bancárias brasileiras que passam a utilizar os recursos da mobilidade nos smartphones e tablets, da computação em nuvem, mesas com telas de toque, sistemas de identificação biométrica (com a palma da mão, a íris, a voz, a fisionomia e outros).

Um dos melhores exemplos que eu conheço e que sugiro ao leitor, sem qualquer sentido publicitário, é visitar a agência-conceito Next, do Bradesco, no Shopping Iguatemi JK, em São Paulo. Lá, você é recebido por um robô, apenas para simbolizar a tecnologia do futuro. Pode ter contato com os recursos e aplicativos dos diversos smartphones e tablets, sistemas biométricos e com os principais sistemas operacionais: iOS, da Appe; Android; Windows Phone; e Blackberry.

Tudo no projeto Next foi pensado para oferecer o máximo de conforto, interfaces amigáveis, segurança e funcionalidade com o uso de tecnologias de ponta. O visitante pode ir até o andar superior, ver os caixas eletrônicos do futuro, as mesas sensíveis ao toque, com a simulação de financiamentos de curto e longo prazos de casa, carro, bolsas de estudo, sistemas de saúde e outros.

E tudo sem uma única folha de papel.

 

 

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agencia E.

Para BERNARDO QUEIROZ de ANDRADE – de almandrade / salvador.ba

(para Bernardo Queiroz de Andrade de  4 anos)

1-

De olhos bem abertos
atentos
para ver
pela primeira vez
o mundo
a mãe
a vida
a luz.
O espetáculo
do seu próprio
nascimento.

Almandrade

—–
2-

Uma criança
e um rosto alegre
brincadeira e sonho
talvez eu
não seja
segredo
o menino distante
os olhos
descobrindo
as mãos
inventando
saudade e tempo
o futuro espera
e revela.

Almandrade
—–
3-

A CRIANÇA E A JANELA

De uma pequena fresta
da  esquadria
a imaginação infantil
não avista
descobre
o mar
horizonte comprometido
com a ingenuidade.
O que é visto
ganha um nome
olha o desconhecido
é o mundo
com seus pássaros.

Almandrade

“Divulguem a teoria política do Supremo” – por wanderley guilherme dos santos / sãopaulo.sp

Licitamente derrotados, os conservadores e reacionários encontraram no STF o aval da revanche. O Legislativo está ameaçado pelo ressentimento senil da aposentadoria alheia. Em óbvia transgressão de competências, decisões penais lunáticas estupram a lógica, abolem o universo da contingência e fabricam novelas de horror para justificar o abuso de impor formas de organização política, violando o que a Constituição assegura. Declaram criminosa a decisão constituinte que consagra a liberdade de estruturação partidária.

Diante de um Legislativo pusilânime, Odoricos Paraguassú sem voto revelam em dialeto de péssimo gosto e falsa cultura a raiva com que se vingam, intérpretes dos que pensam como eles, das sucessivas derrotas democráticas e do sucesso inaugural dos governos enraizados nas populações pobres ou solidárias destes. Usando de dogmática impune, celebram a recém descoberta da integridade de notório negocista, confesso sequestrador de recursos destinados a seu partido, avaliam as coalizões eleitorais ou parlamentares como operações de Fernandinhos Beira-mar, assemelhadas às de outros traficantes e assassinos e suas quadrilhas.

Os quase quarenta milhões de brasileiros arrancados à miséria são, segundo estes analfabetos funcionais em doutrina democrática, filhos da podridão, rebentos do submundo contaminado pelo vírus da tolerância doutrinária e pela insolência de submeter interesses partidariamente sectários ao serviço maior do bem público. Bastardos igualmente os universitários do Pró-Uni, aqueles que pela primeira vez se beneficiaram com os serviços de saúde, as mulheres ora começando a ser abrigadas por instituições de governo para proteção eficaz, os desvalidos que passaram a receber, ademais do retórico manual de pescaria, o anzol, a vara e a isca.

Excomungados os que conheceram luz elétrica pela primeira vez, os empregados e empregadas que aceitaram colocações dignas no mercado formal de trabalho, com carteira assinada e previdência social assegurada. Estigmatizados aqueles que ascenderam na escala de renda, comparsas na distribuição do butim resultante de políticas negociadas por famigerados proxenetas da pobreza.

Degradados, senão drogados, os vitimados pelas doenças, dependentes das drogas medicinais gratuitas distribuídas por bordéis dissimulados em farmácias populares. Pretexto para usurpação de poder como se eleições fossem, maldigam-se as centenas de conferências locais e regionais de que participaram milhões de brasileiros e de brasileiras para discussão da agenda pública por aqueles de cujos problemas juízes anencéfalos sequer conhecem a existência.

O Legislativo está seriamente ameaçado pelo ressentimento senil da aposentadoria alheia. Em óbvia transgressão de competências, decisões penais lunáticas estupram a lógica, abolem o universo da contingência e fabricam novelas de horror para justificar o abuso de impor formas de organização política, violando o que a Constituição assegura aos que sob ela vivem. Declaram criminosa a decisão constituinte que consagra a liberdade de estruturação partidária. Vingam-se da brilhante estratégia política de José Dirceu, seus companheiros de direção partidária e do presidente Lula da Silva, que rompeu o isolamento ideológico-messiânico do Partido dos Trabalhadores e encetou com sucesso a transformação do partido de aristocracias sindicais em foco de atração de todos os segmentos desafortunados do país.

Licitamente derrotados, os conservadores e reacionários encontraram no Supremo Tribunal Federal o aval da revanche. O intérprete, contudo, como é comum em instituições transtornadas, virou o avesso do avesso, experimentou o prazer de supliciar e detonou as barreiras da conveniência. Ou o Legislativo reage ou representará o papel que sempre coube aos judiciários durante ditaduras: acoelhar-se.

Imprensa independente, analistas, professores universitários e blogueiros: comuniquem-se com seus colegas e amigos no Brasil e no exterior, traduzam se necessário e divulguem o discurso do ministro-presidente Carlos Ayres de Britto sobre a política, presidencialismo, coalizões e tudo mais que se considerou autorizado a fazer. Divulguem. Divulguem. Se possível, imprimam e distribuam democráticamente. É a fama que merece.

Os vencedores – por mino carta / são paulo.sp

É da percepção até do mundo mineral que Dilma Rousseff, Lula e a base governista são os vencedores deste primeiro turno das eleições municipais, e que a mídia nativa, além de mentir, omitir e inventar, consegue também ser patética. As lucubrações dos comentaristas no vídeo da noite de domingo último evocaram os melhores programas humorísticos do passado com suas tentativas de explicar o inexplicável.

No palanque. Para Haddad, daqui para a prefeitura. Foto: Nelson Almeida/AFP

E o mundo mineral sabe que a eleição de Lula em 2002 abriu uma nova temporada na política brasileira ao abalar os alicerces da casa-grande. Nesta moldura há de ser analisado o que aconteceu nos últimos dez anos e o que acontece neste exato instante. Inclusive o fato de que o PSB consiga resultados extraordinários em todo o País. Ocorre que Lula abriu as cancelas da fazenda e Dilma dá perfeita continuidade ao governo do antecessor.

Está claro, na minha visão, que na aliança governista o PMDB destoa e creio não ser necessário esclarecer por quê. Em todo caso, para usar terminologias dos dias de hoje, o governo de Dilma Rousseff poderia ser definido como de centro-esquerda, o que no Brasil assume significados mais profundos que em outros países. E a respeito, desta vez, esclareço. Este tempero de esquerda, esta alteração nítida nos rumos da política social e econômica e da política exterior é francamente subversiva segundo a casa-grande, inexistente em outros cantos, e como tal tem de ser enfrentada.

Toma-me o irresistível
 impulso de mencionar o Instituto Millenium. Tem o poder de recuar aos tempos do Ibad, que nos primeiros anos da década de 60 do século passado tramou decisivamente a favor do golpe. Precisamos falar mais do Instituto Millenium, mostrar a que vem com este seu sombrio nome nostradâmico. Para ele confluem polpudas contribuições de empresários graúdos, bem como o apoio das Organizações Globo e da Editora Abril. O conúbio assusta, mesmo porque sabemos que se recomenda neutralizar a lâmpada skuromatic e, ao apagá-la de vez, produzir a luz ao meio-dia, como convém.

Estranhas contradições vicejam no Millenium, promovidas pelos prestimosos emolumentos (mensalões) até de notáveis dispostos a se dizerem democratas convictos, amigões de Dilma e Lula. Espanto? Ou serei eu um ingênuo? Às vezes meus críticos botões me asseguram que sou mesmo. Não me iludo, porém, quanto ao significado dos resultados eleitorais. Falam por si, embora editorialistas, articulistas, colunistas não concordem.

Em São Paulo, digamos, praça onde Lula foi determinante, embora tenha entrado tarde na arena, e onde Dilma deu o arremate. Eu não hesito em vaticinar a vitória final de Fernando Haddad. Sei que com isso alimento os rancores de José Serra, e dele permito-me dizer algo, em ótima fé e boa consciência. Do ponto de vista ideológico, Serra já foi muito mais sincero do que Fernando Henrique Cardoso. Há uma diferença sensível, creio eu, nos temperamentos. FHC é um bon vivant, Serra um sofrido. FHC pode negar a si mesmo. “Esqueçam o que eu disse”, recordam? Serra, por injunção avassaladora nascida nas entranhas, tem de se explicar a si próprio o tempo inteiro.

Acredito na boa-fé
 do candidato tucano à prefeitura paulistana. Vítima de suas ambições mooquenses (da Mooca), por amarguras e decepções frequentes e até por dissabores buscados e cultivados, José Serra tornou-se intérprete do pior reacionarismo da extrema-direita brasileira, feroz sempre que esteja com as costas protegidas, pronta ao engodo e à mentira em nome do êxito da casta.

E aí está, já exposto na fala de Serra, o argumento do “mensalão”. CartaCapital está à vontade neste campo: sempre deixou claro desejar justiça, agora e sempre, além e aquém do processo em curso. É evidente que na conta da casa-grande o julgamento atual encerra o assunto.

Enganam-se. As urnas mostram que o País espera por mudanças e pouco, ou nada, se interessa pelo “mensalão”. Que se desate este nó, mas que se desatem todos os demais. Creio que os barões midiáticos deveriam cogitar da aposentadoria dos seus analistas. E que o Instituto Millenium desista de se dedicar à arqueologia.

Omar e o Bolo de Côco – por omar de la roca / são paulo.sp

 

” Quando cheguei na cozinha, ao contagem regressiva estava e dez e descendo rápido.Fiquei olhando para o relógio imaginando coisas sabendo que  eu não ia sair dali. Quatro,três, dois, um…Um apito,e a água para o meu chá estava quente.”  Disse Omar rindo. Mas é preciso deixar bem claro que entre ler e ouvir ele contando havia uma grande diferença. Ele fazia questão de interpretar cada palavra. Estava sério ao entrar na cozinha, de olhos arregalados ao ver o relógio contando para baixo, a cara de espanto sem saber o que fazer e o sorriso ao retirar o copo plástico de água quente de dentro do microondas e colocar um saquinho de chá dentro. Era sua veia artística que as vezes falava alto.Ele era reservado e normalmente quieto.Mas não dispensava um brincadeira de vez em quando.O problema é que gostava de brincadeiras inteligentes e piadas que fizessem as pessoas pensarem.Mas as vezes as pessoas queriam o riso fácil,debochado com preguiça de fazer a associação correta. E as vezes era uma piada particular que só ele entendia e ria sem que ninguém entendesse o porque. Agora ia fazer uma verdadeira preleção sobre o chá. Era um chá,ou melhor uma tisana, palavra antiga que quer dizer uma infusão de ervas,já que não havia sabor de chá  que  folha de chá propriamente dita, estava ausente.Ou tisana. Como outros muitos rótulos, dava-se um nome inapropriado para algumas coisas. Era uma mistura importada de alcaçuz, menta e limão, muito saborosa que dispensava açúcar,e como Omar estava com o nível alto e precisava se conter para não sair devorando tudo que fosse doce que cruzasse seu caminho.E que apesar de ser importado custava tanto quanto um bom chá nacional. E o custo benefício era compensador. A caixa com 25 custava em torno de 8 reais.Quando achava,  e num supermercado só, comprava duas. O açúcar era um caso sério. Com freqüência, ao começar a comer já estava pensando na sobremesa. Ansiedade, stress, ele sabia o que isso tudo era. De uns tempos para cá estava tendo uns apagões e consultou um neuro que pediu exames e receitou tarja preta. Ele ficou surpreso ao comprar o produto já que não sabia que tinha tal tarja. E surpreendeu-se com os progressos da medicina já que o remédio o fazia sentir-se bem. Sono ele já tinha bastante, um pouco mais, tudo bem. Mas vamos lá, preciso estar bem mesmo que tenha que tomá-lo,pensou antes de iniciar o tratamento. Era tido como o mais sério dos três. Persignava-se três vezes ao passar por toda e  qualquer igreja, mas não entrava nelas. Só se fosse para rezar para São Jorge, o que fazia em qualquer lugar. No fundo era corinthiano mas não confessava esta paixão a ninguém dizendo que não gostava de futebol. Com certeza abominava a bagunça que faziam em seu bairro quando o timão ganhava . Dizia que fitas pornô eram indecentes. Mas assistia a um DVD escondido  em casa, nas raras vezes em que ficava sozinho e podia se            “ divertir “ . Nesse ponto era parecido dom Kevin, mas a diferença entre os pornôs… bom, é melhor deixar pra lá qual era . Gostava de música clássica e de pintura. Mas também só podia ouvir quando estava sozinho já que apenas ele gostava. Pintura a óleo estava sujeito a fazer sujeira já que ele não era tão cuidadoso assim e as vezes limpava a ponta do dedo na barra da cortina da sala, e produziam um cheiro forte,que ele camuflava misturando terebintina com secante de cobalto. E a cachorrinha estava sempre por perto pronta para pular no colo dele ou dentro da caixa de tintas. Conseguir pintar era uma ginástica. Mas o relaxava e nestes tempos nos quais ele estava, precisava disto. Mas  duas coisa fazia questão absoluta de esconder de todos. Era um incorrigível romântico. Acreditava em finais felizes. Emocionava-se ao ver um filme quando os personagens finalmente de entendiam. E detestava injustiças  Assistiu A Beira do Abismo e no fim,quando o herói afronta o bandido , ficara tão descontrolado que quase rasgou a perna da calça de tanto puxá-la de nervoso. E tinha certo talento para poesia erótica. Nestes dias estava pensando e começara a escrever uma

Escrevi  lentamente todos os meus versos de amor com a ponta do dedo em tuas costas nuas. E quando passava da cintura você ria e apertava o corpo contra o colchão. E eu apagava tudo e escrevia outra e mais outra só para ver a tua reação. Uma vez pedi que escrevesses nas minhas costas. Mas escrevias rápido e eu não conseguia ler. E você perguntou se eu queria que você desenhasse. Beijei a tua nuca.  Pensei na tua idéia, pedi que deitasses e comecei a desenhar com alguns fios de teu cabelo, enfiando na orelha de vez em quando para que não dormisses. Você disse  rindo que desenhos eróticos não valiam. E eu apaguei tudo. E comecei a desenhar uma flor com um longo caule que descia pelas tuas coxas.. Mas você não queria que eu terminasse o caule. Em determinado ponto você não deixou mais que eu continuasse. Tudo bem, eu disse, vou apagar tudo. E você disse tudo não apenas o caule. Escrevi outro poema que começava com“ Teus olhos brilham como o reflexo das estrelas na espuma do mar,e me encaram como  o  vento de calmaria,” . Teus olhos se nublaram e você disse que você não era tudo aquilo.Que você se sentia como Lady de Shallot, condenada a ver o mundo através do reflexo de um espelho,que refletia outro e mais outro até não distinguir mais realidade de fantasia.Beijei tuas espáduas.E quebrei os espelhos que refletiam o salgueiro no lago. Com jeito te deitei de costas e você meio que escondeu os seios com as mãos. Eu disse que queria escrever naquela folha também mas você resistia. Fui passando o dedo até onde alcançava, até você relaxar e segurar minha mão e escrever com ela a palavra que você queria, aonde você queria. E eu me deixei guiar.Já conhecia as rimas todas. Fui escrevendo, um pouco aqui, um pouco ali . Até que a página ficou inteira, a estória fazia sentido e eu podia continuar apenas passando o dedo em tuas costas enquanto cochilavas. E eu prestava atenção na chuva que caia. Aquela chuva  que você tanto esperava,.mas que agora não vias em teu sono. Aquela chuva que me trazia lembranças de outras chuvas, outras épocas. Épocas de águas mágicas caindo das  folhas em nossos corpos abraçados,respingando nos cabelos,nos ombros,no peito, ventre chegando aos pés nus que brincavam nas poças.

Omar olhou o relógio.Ouviu um rebuliço na cozinha.Era aniversário da loira da contabilidade e o pessoal tinha comprado um bolo para comemorar. Um bolo branco coberto com fitas de côco. “ Que pena, ia gostar mais se fosse de chocolate… “ . Mas levantou-se depressa , afinal, açúcar era açúcar !!! E, com certeza, repetiu mais de uma vez. Com dois copos de Coca Zero.

Poeta GILDA E. KLUPPEL homenageia HELENA KOLODY no mes de seu aniversário de nascimento.

Na Janela com Helena

 

 

 

 

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De olhos azuis

Helena ucraniana

Helena de luz

plena em frases curtas

rasgando o tédio do frio

Helena de cabelos brancos

neblina ao amanhecer

Helena curitibana

pelas entranhas da cidade

da janela para a praça

sonhava poemas

entre suas estrelas

traçadas em vidraças

compostas por gotas de orvalho

pintadas em muros

presenciou tantas mudanças

dos bondes elétricos

aos ônibus vermelhos

estações em cilindros de plástico

os arranha-céus cada vez mais altos

escondendo as torres da Catedral

e as carroças de Santa Felicidade

ainda trepidavam em suas lembranças

o tempo passa, Helena fica

nas palavras chamadas de pássaros

formaram em Curitiba

o ninho para seus versos.

A EUROPA E A DÍVIDA – por paulo timm / portugal.pt

 

Em Portugal, acompanho diariamente a evolução das reações populares frente à crise econômica em toda a Europa. Preocupante!

Tudo começou, em 2008,  quando estourou a bolha imobiliária nos Estados Unidos. País de economia e instituições sólidas, com uma moeda mais forte do que sua própria economia – o dólar -, de emissão fácil pelo Tesouro Americano e circulação no mundo inteiro, os americanos vão levando a crise de barriga. Mesmo insatisfeitos, parece que vão reeleger Obama para mais quatro anos. E continuar entulhando o mundo de dólares fáceis…É o tal “tsuname” monetário do qual tanto fala a Presidente Dilma e sobre o qual voltou em seu discurso na Abertura da Assembléia Geral da ONU nesta semana.

A União Europeia- EU – , com seus 27 países independentes e com estruturas econômicas e tamanhos  muito  diferentes, vem sofrendo mais.   É mais difícil de administrar a crise sem unidade política efetiva e centralização do Poder. No fundo, a União Europeia ainda é um Projeto. Tem um mercado de 500 milhões de consumidores, mas sua moeda, o euro, comum a 17 países, convive com outras 10, de países que a rejeitaram, como a Inglaterra. Fez também esta região um grande esforço de equalização interna  de infraestrutua física e social, nos últimos 20 anos, com o objetivo de facilitar a unificação de direitos e a circulação de mercadorias. É impressionante verificar o Portugal de hoje, com o país que conheci em 1979. As estradas e as pontes são simplesmente impressionantes. E são exatamente esses países menores e que se incorporaram à União Europeia os que mais sofrem com a crise. E que, à falta de mecanismos de Política Monetária soberana, com economias mais frágeis, mais afundam. Já se diz que a Grécia sairá do bloco até o final do ano.  Endividados, enfim, seus Governos são obrigados pela chamada Troika, as três instituições que lhes socorrem impondo condições – O Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a União Europeia , à severas medidas de austeridade. Governos de esquerda e de direita se sucedem a cada ano, sem conseguir resultados palpáveis. A eleição de um Presidente Socialista na França, recentemente, vem trazendo alguma esperança de um modelo alternativo para enfrentar a crise, mas ainda não há certeza absoluta se vai dar certo.

Enquanto isso, as manifestações vão às ruas contra a austeridade que corta benefícios sociais, diminui o valor de aposentadorias e pensões e eleva os impostos.

Dia 15 de setembro Madrid e Lisboa presenciaram mobilizações gigantescas. Na Grécia elas são quase diárias. Em Barcelona, capital catalã, soma-se o repúdio às medidas do Governo de Madrid, um forte sentimento de independência da região.

Ontem de novo, pelo que nos conta a  Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, um Movimento que pretende questionar as dívidas governamentais ,  a economista brasileira Maria Lucia Fattorelli,  quem se encontra na Espanha, participando de eventos com os grupos de Auditoria Cidadã da Dívida europeus:

 Os jornais noticiam as grandes manifestações ocorridas na Espanha e na Grécia, contra severos cortes de gastos na previdência, salários dos servidores públicos e outros programas sociais. Tais cortes servem para permitir o pagamento de questionáveis dívidas, feitas para o salvamento de bancos falidos. Na Espanha, os manifestantes cercaram o Congresso, exigindo a rejeição do pacote, onde 64 pessoas ficaram feridas e 35 foram presas. Na Grécia, onde os trabalhadores fazem uma greve-geral, 70 mil pessoas foram em passeata ao Parlamento, e também ocorreram violentos confrontos com a polícia.

Em Portugal, a crise traz de volta o fantasma da emigração, reverberando novos acordes de melancolia no fado tradicional. Mais de 70.000 jovens saem anualmente do país em busca de oportunidades. Só que eles não são mais como os patrícios pobres do norte do país que emigraram em massa no século passado para Europa e Brasil. São engenheiros, administradores, médicos, cérebros , enfim, que drenam uma energia vital para a renovação da vida portuguesa. Uma catástrofe. E os que não saem, acicatados por uma taxa de desemprego média de 16% mas que chega a 30% entre eles,  retornam para as casas de suas famílias no interior, esvaziando as cidades maiores, levando o pequeno comércio à falência e produzindo uma sensação de frustração muito grande da população com o processo de integração europeia.  

Tínhamos começado este século sob os auspícios do coroamento de um projeto de modernização do mundo que parecia triunfante, sob hegemonia liberal americana. Em menos de cinco anos tudo parece miragem. O castelo está desmoronando a olhos vistos. Em outros tempos, uma Revolução Social seriam inevitável. Hoje, todo mundo sabe o que não quer, mas, exceção aos fundamentalistas religiosos ou ideológicos, ninguém sabe o que quer. O povo enraivecido, os governos titubeantes, a inteligência, perplexa…

 

Morre poeta peruano Antonio Cisneros

Cisneros era considerado um dos mais importantes poetas da América Latina

06/10/2012 | 14:10 | AFP

O poeta peruano Antonio Cisneros, vencedor do Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda 2010 e uma das mais importantes vozes de língua espanhola dos últimos anos, faleceu neste sábado em Lima aos 69 anos em consequência de um câncer pulmonar, informaram seus familiares.

Cisneros era considerado um dos mais importantes poetas da América Latina e sua obra também foi reconhecida com o prêmio Poeta do Mundo Latino Víctor Sandoval no México, com o prêmio Gabriela Mistral da OEA e com o prêmio Rubén Darío na Nicarágua, entre outros.

O poema “Canto ceremonial contra un oso hormiguero”, com o qual obteve em 1968 o prêmio Casa de Las Américas, o catapultou ao pódio latino-americano das letras, a partir do qual conquistou um reconhecimento internacional.

Uma de suas filhas informou à AFP que Cisneros morreu ao amanhecer na casa onde vivia em Lima, rodeado por seus três filhos e por sua esposa.

A espetacularização e a ideologização do Judiciário – por leonardo boff / são paulo.sp

A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa.

 

É com muita tristeza que escrevo este artigo no final da tarde desta quarta-feira, após acompanhar as falas dos ministros do Superemo Tribunal Federal. Para não me aborrecer com e-mails rancorosos vou logo dizendo que não estou defendendo a corrupção de políticos do PT e da base aliada, objeto da Ação Penal 470 sob julgamento no STF. Se malfeitos foram comprovados, eles merecem as penas cominadas pelo Código Penal. O rigor da lei se aplica a todos.

Outra coisa, entretanto, é a espetacularização do julgamento transmitido pela TV. Ai é ineludível a feira das vaidades e o vezo ideológico que perpassa a maioria dos discursos.

Desde A Ideologia Alemã, de Marx/Engels (1846), até o Conhecimento e Interesse, de J. Habermas (1968 e 1973), sabemos que por detrás de todo conhecimento e de toda prática humana age uma ideologia latente. Resumidamente, podemos dizer que a ideologia é o discurso do interesse. E todo conhecimento, mesmo o que pretende ser o mais objetivo possível, vem impregnado de interesses.

Pois, assim é a condição humana. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. E todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Isso é inescapável. Cabe analisar política e eticamente o tipo de interesse, a quem beneficia e a que grupos serve e que projeto de Brasil tem em mente. Como entra o povo nisso tudo? Ele continua invisível e até desprezível?

A ideologia pertence ao mundo do escondido e do implícito. Mas há vários métodos que foram desenvolvidos, coisa que exercitei anos a fio com meus alunos de epistemologia em Petrópolis, para desmascarar a ideologia. O mais simples e direto é observar a adjetivação ou a qualificação que se aplica aos conceitos básicos do discurso, especialmente, das condenações.

Em alguns discursos, como os do ministro Celso de Mello, o ideológico é gritante, até no tom da voz utilizada. Cito apenas algumas qualificações ouvidas no plenário: o mensalão seria “um projeto ideológico-partidário de inspiração patrimonialista”, um “assalto criminoso à administração pública”, “uma quadrilha de ladrões de beira de estrada” e um “bando criminoso”. Tem-se a impressão de que as lideranças do PT e até ministros não faziam outra coisa que arquitetar roubos e aliciamento de deputados, em vez de se ocuparem com os problemas de um país tão complexo como o Brasil.

Qual o interesse, escondido por detrás de doutas argumentações jurídicas? Como já foi apontado por analistas renomados do calibre de Wanderley Guilherme dos Santos, revela-se aí certo preconceito contra políticos vindos do campo popular. Mais ainda: visa-se a aniquilar toda a possível credibilidade do PT, como partido que vem de fora da tradição elitista de nossa política; procura-se indiretamente atingir seu líder carismático maior, Lula, sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro e o primeiro presidente operário, com uma inteligência assombrosa e habilidade política inegável.

A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Seu destino e condenação é a Planície. No Planalto poderia penetrar como faxineiro e limpador dos banheiros. Mas nunca como presidente.

Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa. Dificilmente, se tolera que através do PT os lascados e invisíveis começaram a discutir política e a sonhar com a reinvenção de um Brasil diferente. Tolera-se um pobre ignorante e mantido politicamente na ignorância. Tem-se verdadeiro pavor de um pobre que pensa e que fala. Pois, Lula e outros líderes populares ou convertidos à causa popular como João Pedro Stedile, começaram a falar e a implementar políticas sociais que permitiram uma Argentina inteira ser inserida na sociedade dos cidadãos.

Essa causa não pode estar sob juízo. Ela representa o sonho maior dos que foram sempre destituídos. A Justiça precisa tomar a sério esse anseio a preço de se desmoralizar, consagrando um status quo que nos faz passar internacionalmente vergonha. Justiça é sempre a justa medida, o equilíbrio entre o mais e o menos, a virtude que perpassa todas as virtudes (“a luminossísima estrela matutina” de Aristóteles). Estimo que o STF não conseguiu manter a justa medida. Ele deve honrar essa justiça-mor que encerra todas as virtudes da polis, da sociedade organizada. Então, sim, se fará justiça neste país.

 

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

HOMENAGEM FINAL à GAUCHADA PELAS COMEMORAÇÕES DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

Uma cortesia dos Torpedos ao facebook.

Pois é meus amigos, temos que aceitar a situação, o mundo não é mais de professores, muito menos dos políticos, e olha que eles se esforçam. E muito menos de escritores, filósofos ou de artistas plásticos ou de músicos ou poetas. De economistas, de sociólogos, antropólogos? Nem pensar. Já foi tempo em que até arquitetos ficavam famosos, cansei de dar entrevistas no Correio e na Tv, nos anos 70 e 80. Isso tudo já era. O mundo agora é dos jogadores de futebol, dos cantores populares, dos atores de Tv e das chamadas celebridades, uma profissão nova que circula por aí e acumula funções com as outras, inclusive com a mais antiga de todas. Pra vocês verem, até uns programinhas bem discretos sobre literatura que havia na Tv a cabo, de repente foram tomados pelos Caetanos, Gils e Chicos e Martinhos, etc. É a Tv em busca de audiência. Até o Paulo Coelho, que veio da canção popular (fazia letras pras maluquices do Raulzito), e diz ter sido escritor, está tendo que dizer umas coisas de quando ele se internava no Pinel, pra tentar atrair o olhar da mídia.

Então, nesta última homenagem, me desculpem os gaúchos mais letrados, mas vou ter que apelar. Vou falar um pouco de um grande cantor popular do Rio Grande. Vou logo avisando: não é o Lupicínio, muito menos Kleiton e Kleidir, que têm sotaque dos Beatles, que, como vocês sabem, iniciaram o processo de aveadagem do rock, com aquelas franjinhas e terninhos abichalados, cantando, “deu pra ti, baixo astral, Ciao”. Devem ser de Pelotas, não sei não.
O cara a que me refiro, começou com um “tiro ao alvo” em Passo Fundo, tinha um programa de rádio por lá, foi passear em Porto Alegre, voltou, vendeu o “tiro ao alvo”, gravou “Coração de Luto” que o pessoal mais refinado, fã dos Beatles e do Michael Jackson, chamava pejorativamente de “churrasco de mãe”. Teixeirinha comprou uma produtora de cinema, e fez doze filmes, felizmente ainda não vi nenhum. Bem, Teixeirinha foi o sujeito que mais vendeu discos no Brasil, e quiçá no mundo, vendeu mais do que o Michael e a Madona. Falam em 120 milhões de cópias, sabem como são os gaúchos. Pois é, entre ele e o Michael e a Madona, fico com Teixeirinha. Quer dizer, sugiro que a gauchada fiquem com Teixeirinha, porque eu fico mesmo é com a Angelina Jolie.

 

Helena Kolody: Biblioteca Pública promove atividades pelos 100 anos

Biblioteca Pública do Paraná (BPP) promove, de segunda (8) a quinta-feira (11), a Semana Helena Kolody 100 anos, com atividades grátis para celebrar o centenário do nascimento da autora, comemorado em 12 de outubro. No hall térreo e nas escadarias do prédio, até o dia 26, estarão expostas fotografias, poemas e depoimentos da autora. Durante toda a semana, o elenco do Grupo Delírio Cia de Teatro fará leituras de poemas da autora em diversas salas da biblioteca, em horários variados.

Serviço: Semana Helena Kolody 100 anos. De 8 a 11 de outubro. Diversas atividades com entrada franca. Biblioteca Pública do Paraná – Rua Cândido Lopes, 133. Curitiba. Horário: 2.ª a 6.ª, das 8h30 às 20 horas. Sábado, das 8h30 às 13 horas. Mais informações: (41) 3221-4900 ou

EM TEMPO DE ELEIÇÕES – por paulo timm / portugal.pt

 

Em tempo de eleições, candidatos e eleitores ficam de olho nas pesquisas eleitorais. Elas reinam   soberanas nas campanhas. Depois são esquecidas, como são esquecidos os números da própria eleição.  Lá ficam eles arquivados nos sites da Justiça Eleitoral, como meras estatísticas, desprovidas de encanto. Mas agora é campanha e pesquisa eleitorais…

Muitos têm se debruçado ao estudo da importância das pesquisas eleitorais. Um sociólogo francês , Patrick Champagne, costumava  dizer que  estávamos diante de  grave inversão no processo político, como se fosse o rabo a abanar o cachorro e não vice-versa:  “ As pesquisas de opinião passaram a ser divulgadas como se fossem a própria opinião pública e substituíram a opinião qualitativa dos acadêmicos” (Cesar Maia,Newsletter). Os próprios analistas políticos, de formação jornalística, senhores das colunas nobres em todos os níveis da imprensa, do nacional ao local, desaparecem nesse processo e acabam rendendo-se à análise dos números das pesquisas. Muitos acabam chegando à conclusão de que, no futuro, nem haverá mais necessidade de se fazer eleições diretas, secretas e universais. Basta aplicar pesquisas, cada vez mais refinadas. Será..? Não acredito. De qualquer forma é importante se discutir um pouco sobre como se forma a opinião pública sobre um candidato. Mais do isso: Como se forma o estado de espírito do eleitor no processo eleitoral?

O ponto de partida é a cultura política e a confiança nas instituições a ela associadas: Partidos, Congresso e Camaras legislativas , políticos etc.

Uma cultura política não se constrói de uma hora para outra. Ela responde pelo longo processo através do qual os mecanismos de poder se constituem, ou seja, da forma como uma comunidade se organiza para formular , implantar a Lei e produzir resultados sociais comuns. Outro sociólogo, alemão, Max Weber, muito mais agudo no estudo dos sistemas de dominação política do que seu conterrâneo mais famoso – Karl Marx – , nos deixou o entendimento deste processo, que vai do  encantamento com o líder carismático ao desencanto racional, embora institucionalizado ,  do Estado Moderno. Permeando este trânsito, as próprias transformações de uma sociedade tradicional, pouco desenvolvida em termos de produtividade econômica e complexidade social, rumo à modernidade. Ou seja, a cultura política numa sociedade tribal  será inevitavelmente diferente da política numa sociedade industrial pós-moderna, onde aliás, se incorpora à agenda dos espetáculos.

Mas tanto numa sociedade tradicional como numa sociedade contemporânea a Política terá seus valores, seus rituais, seus mecanismos de realimentação e até mudança. Mesmo nos modelos hierárquicos de inspiração divina, por exemplo, como as monarquias chinesas antigas, os Reis eram obrigados a interpretar os desígnios insondáveis à luz das necessidades terrenas, sob pena de serem sumariamente destituídos diante de catástrofes e grandes dificuldades sociais. A flexibilidade para a destituição do líder diante da frustração dos liderados é, aliás, uma das chaves principais na construção de uma vontade popular no processo político, sendo uma das vantagens apontadas pelos parlamentaristas sobre os presidencialistas.  A rotatividade, enfim, dos representantes dos eleitores, é também um indicador da permeabilidade do sistema político à novos agentes no processo político, sejam por classes , gênero ou idade. Um sistema político que eterniza, por exemplo, grandes proprietários que se profissionalizam e se encastelam em posições políticas, impedindo a renovação de lideranças, será, fatalmente, fadado ao fechamento de seus horizontes de mudança.

Tudo isto se reflete, por fim, nos índices de confiança nas instituições políticas de um país.

As pesquisas, no Brasil, a este respeito são preocupantes. Há um descrédito muito grande das instituições políticas e este descrédito pode levar ao desinteresse da cidadania pelas eleições e pelo futuro da coisa pública. Basta, aliás, consultar as Redes Sociais e se perceberá o que estou dizendo. Políticos e instituições como Congresso Nacional e até o Judiciário são verdadeiramente achincalhados. Veja-se, pois, o último resultado de uma Pesquisa Datafolha, divulgada pela Folha de Sáo Paulo no último dia 12 e que evidencia o descrédito da opinião pública sobre o Congresso e os Partidos Políticos:

Pela ordem: Confia Muito x Confia um Pouco x NãoConfia.

a) Presidência da Republica 33% x 52% x 15%

b)Imprensa: 31% x 51% x 18%

c) Supremo Tribunal Federal 16% x 51% x 32%

d) Congresso Nacional 8% x 40% x 52%

e) PartidosPolíticos 7% x 41% x 52%.

Preocupante…

 

 

“Um País justo e desenvolvido” – por Dilma Rousseff / brasilia.df

Presidenta Dilma Rousseff.

O Brasil de 2030 estará entre os países mais desenvolvidos e mais democráticos do mundo. Será mais justo e menos desigual, como nunca antes em sua história. 

Na última década, adotamos um modelo de desenvolvimento baseado no crescimento, na estabilidade e na inclusão social. Hoje somos a sexta economia mundial e estamos nos tornando um país de classe média, oferecendo oportunidades para todos os brasileiros. O Brasil de 2030 será a tradução de todo esse esforço que temos feito.

Não haverá pessoas vivendo em extrema pobreza no Brasil de 2030. Desde 2003 perseguimos radicalmente esse objetivo. Por meio do crescimento consistente da economia, da geração de empregos e de instrumentos efetivos de distribuição de renda, estamos chegando lá. Começamos com o Bolsa Família, no governo Lula, que abriu caminho para o Brasil sem Miséria. Elevamos 40 milhões de pessoas à classe média e continuamos, a cada dia, superando metas e desafios para garantir a inclusão dos que ainda vivem na extrema pobreza.

O Brasil de 2030 será um país que cuida de todas as suas crianças. Para isso, demos um grande passo com a criação do Brasil Carinhoso, que complementa a renda das famílias que tenham crianças até 6 anos de idade e uma renda menor que 70 reais per capita.

O Brasil de 2030 será também o país que garante acesso à creche, à educação em tempo integral, à formação técnica e superior a todos os brasileiros. Certamente, farão parte desse futuro os estudantes brasileiros que, por meio do programa Ciência sem Fronteiras, terão ampliado seus conhecimentos nas melhores universidades do mundo.

No Brasil de 2030, qualquer cidadão terá acesso a bons serviços e a um atendimento ágil na rede pública de saúde. Com mais recursos e investimentos numa gestão eficiente, estamos aprimorando e fortalecendo o SUS, um dos maiores sistemas públicos de atendimento universalizado do mundo.

Daqui a 18 anos, o Brasil será um país inovador e tecnologicamente desenvolvido, e também o país do pleno emprego e do empreendedorismo.

Manterá o ritmo de sua evolução nesta primeira década do século, quando foram criados mais de 19 milhões de empregos e formalizados mais de 2 milhões de microempreendedores.

Conseguimos antever também um Brasil mais moderno e competitivo na área de infraestrutura, na qual estamos investindo fortemente. O Plano de Investimento em Logística nas áreas de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos dará ao Brasil uma infraestrutura compatível com o seu tamanho e com as necessidades de sua população. Sem abrir mão de seu papel de planejamento e fiscalização, o Estado continuará, em parceria com a iniciativa privada, executando as medidas necessárias para sustentar o crescimento da economia, do emprego e da renda de todos os brasileiros.

O Brasil de 2030 estará colhendo os frutos da opção pela sustentabilidade. Crescer, incluir, proteger e preservar continuará sendo a base de nosso modelo de desenvolvimento. Ainda seremos um país com grandes reservas naturais, que explora racionalmente a sua biodiversidade e tem a matriz energética mais limpa e eficiente do mundo. Ao mesmo tempo, nas próximas décadas, o Brasil alimentará o mundo como maior produtor agropecuário do planeta.

Mantido o ritmo do nosso crescimento, a pujança da nossa democracia e a constante evolução social e econômica do nosso povo – e não vejo motivo para que essa trajetória venha a ser interrompida -, tenho certeza de que no Brasil de 2030 viverão os filhos da igualdade, da inclusão e da justiça social. Uma geração preparada para assumir as rédeas do seu país e viver os benefícios de uma era de prosperidade.

E assim que vejo o país do meu neto. Olho para o Gabriel com um misto natural de curiosidade e preocupação, como acontece com todos os avós. E toda vez que tento imaginá-lo com 20 anos, iniciando a sua vida adulta, começando a lutar para construir sua história pessoal, sou otimista. Eu o vejo, como a milhões de jovens de sua geração, vivendo bem em um Brasil feliz, generoso e justo com todos os seus cidadãos e cidadãs. Um Brasil orgulhoso de ser o que é: um grande país.

Catarinense de 19 anos se destaca com texto montado pelo Club Noir – curitiba.pr

“A obra de Martina Sohn Fischer avança em direções até agora não trilhadas pela dramaturgia, ampliando a experiência estética do nosso tempo, através da invenção de outras linguagens, isto é: de outras formas de vida.”

Crítica: “Aqui” é um acontecimento extraordinário na dramaturgia

Receber um elogio desses de um dos mais importantes diretores teatrais do Brasil atualmente, Roberto Alvim, não é pouca coisa. Ainda mais para quem tem apenas 19 anos e, até um ano e meio atrás, levava uma vida tranquila em uma cidade do interior de Santa Catarina.

Nascida em Porto União, descendente de família alemã, Fischer viu muita coisa mudar em sua vida após se transferir para Curitiba em 2011 e, principalmente, ter sua peça “Aqui” montada neste ano pelo Club Noir (grupo de Alvim e Juliana Galdino) –como parte da Mostra Brasileira de Dramaturgia Contemporânea.

“Bah, foi lindo demais. Tudo isso aconteceu muito rápido e, quando o Roberto me deu a notícia de que tinham selecionado o meu texto, foi realmente uma surpresa!”, escreve ela em entrevista feita através do Facebook, ao qual está sempre conectada.

Guilherme Pupo/Folhapress
A dramaturga Martina Sohn Fischer em sua casa em Curitiba
A dramaturga Martina Sohn Fischer em sua casa em Curitiba

INFÂNCIA

Revezando seu tempo entre a vida em casa, a escola, as brincadeiras nas ruas e as leituras por todos os cantos, Fischer conta que cresceu tomando gosto por manipular as palavras, o que relaciona com o próprio modo de vida que levava no interior.

“Sempre fui uma criança muito livre. Lembro que, desde que comecei a escrever, o que eu mais gostava era de ter essa liberdade. Essa mesma liberdade infantil, de inventar coisas e viver nelas.”

A escrita, naquele momento, surgiu ainda sem relação direta com a dramaturgia, já que a maior escola era a literatura, não o teatro. “Eu até frequentei algumas aulas de atuação, mas nunca levei jeito para a coisa”, conta.

Na leitura, por outro lado, Fischer partiu logo cedo dos livros de Júlio Verne e dos romances policiais para seguir pelos mundos de Bukowski, Jack Kerouac, John Fante, Faulkner e Kafka.

Foi em 2010, através de um projeto oferecido por sua escola, que acabou caindo “por total acaso” em um núcleo de dramaturgia desenvolvido na cidade vizinha (União da Vitória), onde assistiu a uma palestra de Roberto Alvim.

Quando se mudou para Curitiba, em 2011, Fischer passou a frequentar o curso quinzenal que o diretor ministra na cidade. Em contato cada vez maior com o mundo teatral –e com as obras de Heiner Müller, Strindberg, Sarah Kane, Beckett etc.–, a nova dramaturga começou a “parir” suas primeiras peças, entre elas “Aqui”.

PERDER O CONTROLE

“Eu sentava para escrever e eu era mil coisas, menos a Martina”, conta. “Começo a escrever por pulsões desconhecidas e, quando vejo, sinto que sou parasita da obra. Eu peço mais a ela e ela me dá. Esse tipo de relação é uma loucura, perder o controle da própria obra é uma experiência que também está ligada com a liberdade.”

Questionada sobre o temor de perder algo dessa liberdade após o reconhecimento precoce e com a expectativa que pode se criar em torno de seu nome, Fischer responde:

“A responsabilidade é da obra, então, depois de terminada, eu só tenho que continuar escrevendo. E as obras se criam sozinhas, só preciso parir. Não que seja fácil! Mas esse ‘fazimento’ acontece em um lugar desconhecido, onde não é nem possível pensar na recepção que a obra vai ter, ela simplesmente se dá, é imprevisível e instável.”

Preocupação maior, por enquanto, é se preparar para prestar o vestibular no fim do ano, para entrar no curso de filosofia na Universidade Federal do Paraná.

 

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MARCOS GRINSPUM FERRAZ
COLABORAÇÃO DE

ERIC HOBSBAWN, UM DOS MAIORES HISTORIADORES DO SÉCULO XX, MORRE AOS 95

Mente brilhante e autor do clássico “A era dos extremos”, ele foi um dos principais observadores do século XX; sua morte foi anunciada nesta manhã em Londres, pela filha Julia

1 DE OUTUBRO DE 2012 ÀS 07:40

247 – Acaba de ser anunciada a morte de Eric Hobsbawn, um dos maiores historidadores de todos os tempos, autor do clássico “A era dos extremos”.Marxista, Hobsbawn influenciou uma longa geração de historiadores e políticos e teve sua morte anunciada nesta manhã pela filha Julia, em Londres.

De acordo com o também historiador Nial Ferguson, os livros de Hobsbawn são o melhor ponto de partida para qualquer pessoa disposta a conhecer o que foi o século XX, marcado por guerras e revoluções.

Nascido em Alexandria, no Egito, e filho de uma família judia, ele foi criado em Viena e Berlim e se mudou para Londres em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder. Desde 1978, ele era membro da British Academy.

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Veja os livros de Eric Hobsbawm publicados no Brasil

01 de outubro de 2012 

Eric Hobsbawn, um dos maiores historiadores do último século, em foto de 2008. Foto: EFE
Eric Hobsbawn, um dos maiores historiadores do último século, em foto de 2008
Foto: EFE

Falecido nesta segunda-feira em Londres aos 95 anos, o historiador britânicos Eric Hobsbawm é referência unânime para o estudo da história moderna e o marxismo. Confira abaixo algumas suas obras publicadas no Brasil:

A era das revoluções – 1789-1848 (2009, Paz e Terra)

A era do capital – 1848-1875 (2009, Paz e Terra)

A era dos impérios – 1875-1914 (2009, Paz e Terra)

A era dos extremos – O breve século XX (1995, Cia. das Letras)

História do marxismo – 12 volumes (1985-1989, Paz e Terra)

Estratégias para uma esquerda racional – Escritos políticos – 1977-1988 (1991, Paz e Terra)

A revolução francesa (1996, Paz e Terra)

História social do jazz (1990, Paz e Terra)

Ecos da Marselhesa – Dois séculos reveem a Revolução Francesa (1996, Cia. das Letras)

Pessoas extraordinárias – Resistência, rebelião e jazz (1998, Paz e Terra)

Sobre história (1998, Cia. das Letras)

Mundos do trabalho (2000, Paz e Terra)

O novo século – Entrevista a Antonio Polito (2000) – também em edição de bolso (2009, Cia. das Letras)

Tempos interessantes – Uma vida no século XX (2002, Cia. das Letras)

Revolucionários – Ensaios contemporâneos (2003, Paz e Terra)

A transição do feudalismo para o capitalismo – Um debate (com outros autores) (2004, Paz e Terra)

Depois da queda – O fracasso do comunismo e o futuro do socialismo (com outros autores) (2005, Paz e Terra)

Globalização, democracia e terrorismo (2007, Cia. das Letras)

A invenção das tradições (2008, Paz e Terra)

Nações e nacionalismo desde 1780 (2008, Paz e Terra)

Da revolução industrial inglesa ao imperialismo (2009, Forense Universitária)

Bandidos (2010, Paz e Terra)

Os trabalhadores – Estudos sobre a história do proletariado (2010, Paz e Terra)

Como mudar o mundo – Marx e o marxismo 1840-2011 (2011, Cia. das Letras)

AO PÉ do TÚMULO – auta de souza / natal.rn

Ao Pé do Túmulo 

 

 

 

 

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós… Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais…

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais”.

TÔ NEM AÍ PRO PORTUGUÊS ! – por renoir pereira da silva

Aquela Feijoada Baiana estava cheirosa, aquele feijão estava gostoso, aquele feijão estava charmoso, aquele feijão estava uma uva. Não era qualquer feijão. Aquele feijão tinha cheiro de quê? Aquele feijão é para quem gostava de feijão, é para convencer quem não gostava. A feijoada passou, mas na memória ficou. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Um bocadinho mais. Não coma quaisquer feijões, coma com folhas de coroas olímpicas. O Manuel pôs só cinco folhinhas? Um bocadinho mais. Aquele feijão estava um arco-íris, em cores, aquele feijão estava a cores. O pessoal comeu bem, à custa do trabalho do Manuel, que além de cozinheiro é um belo advogado, que ganhou um bom dinheiro com as custas de um processo e pagou a bebida. Só 700g de charque? Eu disse “um bocadinho mais”. Ai! Que saudade da feijoada, saudades da cenoura e da linguiça e do último prato. 200g de toucinho salgado? Hum! Um bocadinho mais. Eu, que voltei a estudar, pedi um prato de Phaseolus vulgaris, Manuel se confundiu, depois de eu explicar, todo mundo riu. 500g de carne bovina? Um bocadinho mais. Em vez de uma cabeça de alho amassado, foi posta inteira, ele disse que é melhor. Mas só uma cabeça? Ao invés de cair os preços, com a chegada da safra, os preços aumentaram. Bela desculpa para o pão duro, que é o Manuel. Manuel escreveu para mim: “Minha namorada, que mora em Joinville, virá amanhã”. Sábio Manuel, que pôs “que mora em Joinville” entre vírgulas, caso ao contrário ele teria várias namoradas, e só viria aquela que mora em Joinville, ai ele se complicaria. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Depois não reclama. Perguntei: Posso vir aqui pegar mais, Manuel? E ele disse: se eu vir tu não pagarás. Sem ele ver… mais do mesmo. 400g de rabo de porco? Olha! 300g de orelha de porco? Mais pares. 600g de pernil de porco? Logo pernil. 600g pé de porco? Mais pares. 600g de costela de porco defumada? Logo costela. Vai faltar porco. Numa provável sobra fiquei rodeando. Numa eventual mudança do mau humor do cozinheiro, eu pensava em pegar mais. Que feijão! Manuel prefere fazê-lo a comê-lo. Vai entendê-lo. Eu, já prefiro comê-lo que fazê-lo. Manuel pediu-me para ser discreto, agir com discreção, ir devagar, mas sou indiscreto, agi naturalmente, com discrição. Era um prato atrás do outro. Nem dei bola para o Manuel. A bagunça? Não foi culpa minha. Foram eles quem fez. Eu nem havia saído da mesa, ainda. 400g de paio? Um bocadinho mais. 200g de tomate picado? Depois não reclama. 250g de cebola picada? Põe 500g. São indescritíveis os cheiros por que tive de cheirar. Por que aquele feijão é tão cheiroso? Aquele feijão é tão gostoso por quê? Até ali, ninguém sabia o porquê daquele gosto. Eu fui perguntar àquele homem o motivo do feijão ser tão gostoso. Manuel não revelou o porquê. Ninguém sabia por que ele não explicou. Ninguém sabia porque ele não explicou. Chamaram-me. Hum! Não fui porque estava comendo. A minha tia não veio, porque estava doente, e, como ela come três pratos, mas três sobraram, e sobraram para mim. Eu toda hora ia aonde a feijoada estava e ficava ali onde a feijoada estava. E ficava ali à-toa. Dito assim parece à toa. 5 ramos de hortelã? Um bocadinho mais. 2 colheres de coentro picado? Põe três. Aquele era o feijão ao qual me refiro. A feijoada do Manuel. A todo poderosa feijoada dele tem feitiço, aquilo não era panela, era um caldeirão. Aquele é o feijão que eu gosto. Manuel é o cozinheiro de quem lhes falo. Ele é brabo, pois tem brabeza. Ele é bravo, pois tem bravura. Manuel, quem faz um ótimo feijão. 10g de pimenta do reino moída? Põe 15g. A féria do final do dia, ou seja, o acumulado no final do dia foi um cansaço enorme do Manuel. Ele já estava pensando nas férias. 4 colheres de extrato de tomate? Que estranho!Mas põe seis. O sal é a gosto. Há bastantes razões para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Há razões bastante irresistíveis para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Meu caro leitor, a feijoada de sua mãe não chega perto da feijoada daquele cara. A dele seguem anexas linguiças temperadas, seguem anexos segredos, seguem, em axexo, as especiarias do gajo. Após muita insistência, Manuel explicou como se faz: deixe as carnes de molho de um dia para o outro, trocando a água para retirar o sal. Refogue as carnes no toucinho, acrescentando o feijão e a água necessária. Tempere com tomate, cebola, alho, hortelã, pimenta do reino, extrato de tomate e louro. Retire as carnes que forem amolecendo até que o feijão fique cozido. Faltou feijoada, eu bem disse. Comi tanto, que fui processado por Manuel a limpar as panelas. Limpei só uma e fui embora. Tô nem ai pro português.

LULA – antonio delfim netto / são paulo.sp

Desde a Constituição de 1988, as instituições vêm se fortalecendo e o poder incumbente tem, com maior ou menor disposição, obedecido aos objetivos nela implícitos: primeiro, a construção de uma República onde todos, inclusive ele, são sujeitos à mesma lei sob o controle do Supremo Tribunal Federal; segundo, a construção de uma sociedade democrática com eleições livres e à prova de fraudes; terceiro, a construção de uma sociedade em que a igualdade de oportunidades deve ser crescente, por meio de um acesso universal e não oneroso de todo cidadão à educação e à saúde, independentemente de sua origem, cor, credo ou renda.
Vivemos um momento em que se acirram as legítimas disputas para estabelecer a distribuição do poder entre as várias organizações partidárias e que é propício aos excessos verbais, às promessas irresponsáveis e à agressão selvagem.
Afrouxam-se e liquefazem-se os compromissos com a moralidade pública, revelados no universo da “mídia”. Esta também, legitimamente, assume o partido que melhor reflete sua “visão do mundo”.
A situação é, agora, mais crítica porque a campanha eleitoral se processa ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal Federal julga um intrincado processo que envolve o PT e, em breve, vai fazê-lo em outro, da mesma natureza, que envolve o PSDB.
O que alguma mídia parece ignorar é que o uso abusivo do seu poder é corrosivo e ameaçador à necessária e fundamental liberdade de opinião assegurada no artigo 220 da Constituição, onde se afirma que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.
Primeiro, porque o parágrafo 5º do mesmo dispositivo previne que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. E, segundo, porque no art. 224 a Constituição fecha o ciclo: “Para os efeitos do disposto nesse capítulo, o Congresso Nacional instituirá, como seu órgão auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei”. Dois dispositivos suficientemente vagos que podem acabar criando problemas muito delicados no futuro.
Um exemplo daquele abuso é a procura maliciosa de alguns deles de, no calor da disputa eleitoral, tentar destruir, com aleivosias genéricas, a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ignorando o grande avanço social e econômico por ele produzido com a inserção social, o fortalecimento das instituições, a redução das desigualdades e a superação dos constrangimentos externos que sempre prejudicaram o nosso desenvolvimento.
agencia folha.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA -HOMENAGEM NÚMERO 2 – à GAUCHADA e ALAGOANOS, PERNAMBUCANOS, BAIANOS E PARAENSES – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

 

Uma “nova” interpretação para a Revolução Farroupilha, menos Marx e mais Weber e Freire.

Quando penso no Rio Grande do Sul, por incrível que pareça, penso em Alagoas. Destes dois lugares, aparentemente tão díspares, saíram os homens que moldaram o Brasil moderno. Para os menos informados, basta lembrar Floriano, Hermes da Fonseca, Getúlio e Prestes, mas, se preferirem podem ficar com Corisco (que Glauber imortalizou no seu “Deus e o Diabo…”) e um certo Capitão Rodrigo Cambará(que Érico Veríssimo tornou real). Há alguma dúvida sobre os homens citados, ou preciso explicar? Podem não gostar deles, mas isso é outra história. Há dúvidas sobre a importância de Prestes? Sem a chamada “Intentona” o Brasil seria outro, porque a partir dali o exército mudou, e o exército talvez seja a mais importante das nossas instituições, qualquer tre-le-lé: chama o exército. Quando digo aparentemente dispares, me referindo a Alagoas e Rio Grande, é porque há algo em comum de grande importância: são lugares de gente áspera, basta ler os dois grandes escritores representativos destes lugares. Se vissem um gaúcho cavalgando em alta velocidade tentando capturar uma rês, como eu vi certa vez em Dom Pedrito, ou um boiadeiro alagoano rasgando a caatinga, na tentativa de garantir sua “carne de sol” cotidiana, como vi em Palmeiras dos Índios, iriam entender bem o que estou dizendo. Parece que estou ouvindo alguém dizer: “não é mais assim”. Entendo.
Dizem que a Revolução Farroupilha tem a ver com Carne de Sol, ou de Charque. Eu, como baiano não aceito uma explicação simplista desta, isso é reduzir a heroica Guerra do Farrapos a “pó de traque”. Não aceito. Seria reduzir o Rio Grande a um digamos, Goiás, que alguém divide ao meio e ninguém fala nada. Primeiro porque nunca acho que as coisas são simples e se forem, trato de torná-las complicadas. Quem me explicou há muito tempo, em 1985, como funcionava a produção e exportação de charque, foi o Roberto Cavalcanti, até então imaginava que a carne de sol era coisa nascida e criada no Nordeste e sequer supunha que um nordestino transferiu a tecnologia para os gaúchos que passaram a dominar a produção. Nunca soube que exportavam charque há tanto tempo e pra tão longe, e que o produto representava tanto para a economia do Rio Grande. Pois bem, é comum que os historiadores afirmem, com certa convicção, que a causa da revolução farroupilha foi a entrada do charque argentino e Uruguaio no Brasil, tirando o mercado dos estancieiros gaúchos, e que a revolução interessava apenas aos estancieiros. É uma explicação excessivamente materialista, coisa do pessoal que reza pela bíblia marxista, e não condiz com as tradições gaúchas, nem baianas, nem pernambucanas, vou explicar por quê.
Quem dera que as coisas fossem assim tão simples. Se assim fosse, a Revolução dos Farrapos não teria levado 10 anos, não teria mobilizado tanta gente e tampouco alcançaria a extensão territorial que alcançou. Ocorre que a Região Sul do Brasil sempre foi instável sob o ponto de vista político e militar, devido a muitos fatores, entre os quais, a formação política do Rio Grande (que só recentemente, com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, tornou-se um estado da Federação, de fato), a questão do Uruguai (criação da Província Cisplatina que mexeu com o Rio Grande), a Guerra do Paraguai, que contou com 1/4 de soldados do Rio Grande e portanto mobilizou militarmente o Estado, isto sem mencionar os problemas do Brasil com a Argentina, que é um país instável e beligerante desde sua criação. Vou contar um segredinho pra vocês: quando estive na ESG em 85, soube que a ordem de Guerra nº 1 do Brasil era contra a Argentina. Sabem o que isso significava? Nosso principal inimigo não eram os ingleses ou americanos como os intelectuais marxistas achavam, eram os argentinos e isso implicava que nossa “máquina de guerra” estava virada para o Sul o tempo todo, pra invadir a Argentina. Daí veio o Mercosul que matou vários coelhos(melhorou a economia do Sul, integrou a Argentina, etc.) e antes, veio Itaipu que nos vinculou ao Paraguai para o bem ou para o mal, mais para o bem. E, devido às circunstâncias, nós deveríamos pagar muito bem ao Paraguai pela energia, porque como todos sabemos desde o Beira-Rio até o Maracanã, não dá pra confiar nos portenhos.
Daí quando o Grêmio ou Internacional joga contra o Penarol ou o Boca, o pau quebra. Por que? São povos belicosos. Coloque no caldeirão: cavalos (a verdadeira felicidade está no coração das mulheres e no lombo dos cavalos, sei que a maioria dos meus leitores jamais montou, a não ser nos parquinhos, portanto, não têm a menor ideia), sangue espanhol, distância de centros civilizados, desleixo do governo central, clima hostil (frio infernal e calor infernal), deixe cozinhar ao sol e veja o resultado. Mas ainda não chegamos na questão central das causas da Guerra dos Farrapos, e ela pode ser resumida numa palavra, e que palavra, vão saber daqui a pouco.
Em 1985, fui assistir uma palestra do Gilberto Freire na casa dele em Apipucos, no Recife, onde tomei um licor de pitanga do quintal. Estava arrastando os pés, mas lúcido como sempre. Anotei várias coisas, uma delas nunca tinha cogitado. Ele disse textualmente: “Nordeste faz fronteira com a África”. Fronteira? Pois é, recente, lendo os livros do Costa e Silva é que fui entender bem, mas já desconfiava (“eu quase não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”). Pois é, meus amigos, FRONTEIRA é uma palavra muito complexa. Na Fronteira (como vocês devem ter notado no texto anterior que publiquei aqui), você tem que estar preparado pra o que der e vier. E lá no Sul são três. Por isso, os gaúchos, assim como os nordestinos, assim como os paraenses, são tão briguentos, ou melhor, beligerantes. Se não tem ninguém pra brigar, brigam contra eles mesmos. Lembrem-se da Revolução Federalista, foram mais de 10 mil mortos, isso no final do século XIX.
Todos sabemos que o Rio Grande sempre teve uma tradição separatista, que diferentemente dos pernambucanos, baianos, maranhenses e paraenses, era mais fácil de ser insuflada, seja pela geografia, pela cultura, e até pela língua (lembrei do Dicionário Farroupilha do Vidal) e sobretudo pela beligerância e também, porque não, pelo caráter fanfarrão, que depois, a migração europeia tratou de acalmar. Lembro sempre da história do gaúcho que se afogava no Guaíba e berrou: “sai da frente Guaíba, senão te engulo todo”.
Voltando à Guerra dos Farrapos, seria mais pertinente dizer que houve um conjunto de causas, não saberia dizer qual a mais importante (ou estrutural, concedendo alguma coisa à Marx), contudo é bom considerar que o Brasil viveu o “período regencial”, quando o poder central estava enfraquecido e o exército fraturado por facções, dai a ocorrência, não somente da Revolução Farroupilha, mas também da Sabinada, Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Malês, etc. Vejam que, quando o país se reorganizou, Caxias foi lá e acabou com o bafafá. É, meus amigos, quando até baiano faz revolução é porque a coisa estava esculhambada, mas isso não é novidade.

A REPETIÇÃO DA HISTÓRIA – por luis nassif e COMENTÁRIO de paulo timm / são paulo.sp e portugal.pt

São significativas as semelhanças entre os tempos atuais e o período pré-64, que levou à queda de Jango e ao início do regime militar e mesmo o período 1954, que levou ao suicídio de Getúlio Vargas.

Os tempos são outros, é verdade, e há pelo menos duas diferenças fundamentais descartando a possibilidade de um mesmo desfecho: uma  economia sob controle e uma presidência exercida na sua plenitude, sem vácuo de poder.

***

Tirando essas diferenças, a dança é a mesma.

A falta de perspectivas da oposição em assumir o poder, ou em desenvolver um discurso propositivo, leva-a a explorar caminhos não-eleitorais.

Parte-se, então, para duas estratégias de desestabilização  – ambas em pacto com a chamada grande mídia.

Uma, a demonização dos personagens políticos. Antes do seu suicídio, Vargas foi submetido a uma campanha implacável, inclusive com ataques à sua honra pessoal – que, depois, revelaram-se falsos.

No quadro atual, sem espaço para criticar a presidente Dilma Rousseff, a mídia – especialmente a revista Veja – move uma campanha implacável contra Lula. Chegou  ao cúmulo de ameaçar com uma entrevista supostamente gravada (e não divulgada) de Marcos Valério, como se Valério tivesse qualquer credibilidade.

Surpreendente foi a participação de FHC, em artigo no Estadão, sustentando que o julgamento do “mensalão” marca uma nova era na política. Até agora, o único caso documentado de compra de votos foi no episódio da votação da emenda da reeleição – que beneficiou o próprio FHC.

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A segunda estratégia tem sido a de levantar o fantasma da guerra fria. Mesmo sabendo que Jango jamais foi comunista (aliás, o personagem que mais admirava era o presidente norte-americano John Kennedy) durante meses e meses levantou-se o “perigo vermelho” como ameaça.

Grande intelectual, oposicionista, membro da banda de música da UDN, em 1963 Afonso Arino escreveu um artigo descrevendo o momento. Nele, mencionava o anacronismo de (em 1963!) se falar de guerra fria, logo depois de Kennedy e Kruschev terem apertado as mãos. E dizia que, mesmo sendo anacronismo, esse tipo de campanha acabaria levando à queda do governo pelo meio militar, devido à falta de pulso de Jango, na condução do governo.

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O modelo de atuação da velha mídia é o mesmo de 1964, com a diferença de que hoje em dia não há vácuo de poder, como com Jango.

Primeiro, buscam-se personalidades, pessoas que detenham algum ativo público (como jornalistas, intelectuais, artistas etc.). Depois, abre-se a demanda por comentaristas ferozes. Para se habilitar à visibilidade ofertada, os candidatos precisam se superar na ferocidade dos ataques.

Poetas esquecidos, críticos de música, acadêmicos atrás de visibilidade, jornalistas, empenham-se em uma batalha similar às arenas romanas, onde a vitória não será do mais analítico, ponderado, sábio, mas do que souber melhor agredir o inimigo. É a grande noite do cachorro louco, uma selvageria sem paralelo nas últimas duas décadas.

Com sua postura de não se restringir ao julgamento do “mensalão” em si, mas permitir provocações à presidente da República e a partidos, o STF não cumpre seu papel.

Aliás, o STF do pós-golpe foi muito mais democrático do que o atual Supremo.

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COMENTÁRIO:  de PAULO TIMM

O artigo é digno de reflexão. Afinal, vive-se uma espécie de SETEMBRO NEGRO, com sinais de tensões políticas e “irritação” conjuntural, agudizadas, quer pela crise econômica internacional, com reflexos na perda de dinamismo da nossa economia interna, quer pela crise política deflagrada, sem entrar no mérito, pelo julgamento do “Mensalão”.

Tenho vários reparos a fazer ao texto do NASSIF.

Acho que em 64 não havia nenhum vácuo de poder. Isso foi desculpa dos golpistas para derrubarem o Governo Goulart . E, independentemente do que Afonso Arinos dizia, estávamos, sim no Auge da Guerra Fria. Recém saídos da Crise dos Mísseis em Cuba. O golpe de 64 tinha apoio efetivo dos Estados Unidos. Hoje, a Guerra é Cambial, como diz nosso Ministro MANTEGA. E, embora os Estados Unidos estejam reagindo ao nosso suposto protecionismo, nada indica que estará financiando a derrubada de Dilma Roussef.

Isso significa, pois, que a atual CRISE tem origem interna.

E, à diferença de 1954 e 1964, tem um caráter não de LUTAS DE CLASSES, mas da consequência de elas se terem deslocado do campo POLITICO ( praças e Congresso) , para o INSTITUCIONAL (Justiça) . Aliás, uma consequência do que se tem denominado JUDICIALIZAÇÃO da LUTA DE CLASSES, ou LUTA POLÍTICA. Um grande perigo.

Getúlio, severamente combatido pela Imprensa que o acusava de estar mergulhado num MAR DE LAMA, refugiou-se no suicídio e deixou uma CARTA TESTAMENTO que entrou para a História como o testemunho das causas reais da crise: a defesa da economia nacional com respeito à soberania e direitos dos trabalhadores. Jango, reflugiou-se no exílio e deixou à História sua presença altiva no Comício da Central do Brasil no dia 13 de março, quando promulgou a REFORMA AGRÁRIA, no contexto das Reformar de Base, plataforma de seu Governo. Nos dois casos, o que estava em jogo náo era nem um Presidente, muito menos seus aliados, nem um Partido, mas uma Instituição: a Presidência da Republica.

Nos dois casos, contrariamente ao que afirma NASSIF havia Governos democraticamente eleitos, institucionalmente funcionando, sem qualquer vazio de Poder, nem ambiguidades. O que sim, havia, era uma forte Oposição aos respectivos Governos no Congresso Nacional, o que hoje não existe, em função, até, da habilidade da CONCERTAÇAO da Governabilidade pela cúpula dos Partidos. Nos casos de JANGO, VARGAS e DILMA é certo, porém, que a grande imprensa OPERA COMO PARTIDO POLÍTICO jogando pesado a favor do conservadorismo. . O próprio NASSIF , entretanto, ressalta a diferença: O alvo, agora, náo é nem a Presidente, nem seu Governo. O alvo agora é o PT, portanto, o jogo não tem caráter propriamente GOLPISTA, mas político. Pretende debilitar o PT, atingir algumas de suas mais importantes figuras e o próprio LULA, que , aliás, încovenientemente, a meu juízo, procura se defender em campo aberto, coordenando o apoio de setores da sociedade não em apoio ao Governo, que náo está em causa, mas a acusados em um processo em curso. Tem todo o direito, mas é um jogo extremamente perigoso porque cria, sim, uma fratura na autoridade da Presidente da República. Fica evidente que há um PODER FORMAL no Planalto, com grande prestígio de Opiniáo Pública e respeitabilidade da Imprensa e até Oposiçao e OUTRO PODER, DE FATO, no Ex-Presidente, já visivelmente desgastado, seja pela doença, seja pelo afastamento do Poder, seja até pela própria insistência em se manter no HIT PARADE, seja, enfim, pelo efeito da mídia. Isto, sim, cria um vazio de Poder que o autor náo assinala.

O cachorro louco de agosto, parece, pois, que continua solto pelas veredas de setembro. Esperemos outubro…

 

Para que escrever poesia? Para quem? – LES MURRAY

Reprodução/Internet/Rogério Galindo.
Reprodução/Internet / Les Murray.
Les Murray.

O blog traduz mais um poema de Les Murray, torcendo para na semana que vem ele ser anunciado como o vencedor do Nobel…

O instrumento

Quem lê poesia? Não nossos intelectuais;
eles querem controlá-la. Não os amantes, não os combativos,
não os examinadores. Eles também roçam-na em busca de bouquets
e trunfos mágicos. Não os alunos pobres
que peidam furtivamente enquanto criam imunidade contra ela.

A poesia é lida pelos amantes da poesia
e ouvida por mais uns que eles levam ao café
ou à biblioteca local para uma leitura bifocal.
Os amantes de poesia podem somar um milhão
no planeta todo. Menos do que os jogadores de skat.

O que lhes dá prazer é um roçar nunca-assassino
destilado, principalmente versado, e suspenso em êxtase
calmo na superfície de papel. O resto da poesia
de que isso uma vez já foi parte ainda domina
os continentes, como sempre fez. Mas sob a condição hoje

de que seu nome nunca seja dito: construções, poesia selvagem,
o oposto mas também o secreto do racional.
E quem lê isso? Ah, os amantes, os alunos,
debatedores, generais, mafiosos, todos leem:
Porsche, plástica, Gaia, Bacana, patriarcal.

Entre as estrofes selvagens há muitas que exigem tua carne
para incorporá-las. Só a arte completa
livre de obediência a seu tempo pode te fazer dar piruetas
ao longo e através dos poemas maiores em que você está.
Estar fora de toda poesia é um vazio inalcançável.

Por que escrever poesia? Pelo estranho desemprego.
Pelas dores de cabeça indolores, que devem ser aproveitadas para atacar
por meio de seu braço que escreve no momento acumulado.
Pelos ajustes posteriores, alinhando facetas em um verbo
antes que o transe te deixe. Para trabalhar sempre além

de sua própria inteligência. Para não precisar se erguer
e trair os pobres para fazê-lo. Por uma fama não-devoradora.
Pouca coisa na política lembra isso: talvez
os colonizadores australianos reinventando o falso
e muito adotado voto secreto, no qual a deflação podia se esconder

e, como um portador do bem-estar, envergonhar as Revoluções da vala-comum.
Tão cortada a machado, tão cônsul-ar.
Foi essa uma brilhante vitória mundial da covardia moral?
Respirar em ritmo de sonho quando acordado e longe da cama
revela o dom. Ser trágico com um livro na sua cabeça.

hoje completa três anos que nosso amigo, filósofo, ideólogo, jornalista, poeta e escritor WALMOR MARCELLINO deixou de conviver conosco.

colaborador assíduo deste sitio com seus textos críticos, substantivos , contundentes e se por melhor pudéssemos afirmar os seus POEMAS atraíram milhares de leitores que até hoje lhe visitam. como lembranças de WALMOR postamos, abaixo, um texto que refere-se a uma eleição dado ao momento e um de seus poemas.

VAMOS ASSIM, rapaziada

Manipulei um convite de contribuição no valor de R$1.000,00 (ao dia 2 de setembro, às 19h30min, no Buffet du Batel) para participação no “Jantar dos Amigos do Beto” e compreendi como o “trabalho continua” com a Coligação Curitiba, sob entusiasmo de quem teve registrados 70% nas pesquisas de “intenção de voto”, e que procura perder pouco dessa “fofura” até as eleições. Para quem está habituado a ver uma “fezinha” de R$10,00 a R$50,00 em colaboração para algum candidato sinistróide, essa “espontaneidade” de milão dá coceiras.

Mais ainda sabendo que se trata de um plus arrecadante de um amplo grupo de amigos de prefeito, em que empreiteiros de obras e empresários notáveis “por sua contribuição à nunca suficientemente louvada democracia representativa” já definiram participações (de pars, partis, a parte) muito mais significativas na campanha ‑ e que a escória “socialista de gaveta” do PSB, do PDT e do PPS se tem alinhado pela direita e agora faz seu pule no capão mais habilitado ‑ enquanto suas lideranças já dividiram os bônus do processo eleitoral. Aqui me quedo abismado.

Entretanto, não devemos ficar discutindo fundos e apoios políticos, e sim a forma e o estilo, que são o busílis ideológico-político. Claro está que as eleições não são lugar específico para assertivas ideológicas e pregações de doutrina, já que o “anuente” se submete a regras de disputa de funções político-administrativas, para as quais, pensa-se, terá alguma contribuição objetiva além de retórica. Quando muito, poderá vincular suas propostas objetivas a uma visão político-administrativa e urbanística.

Além do discurso verde do PV e do discurso vermelho do PSOL-PSTU-PCB, que no geral  só convocam atenção dos próprios simpatizantes, e de que Fábio Camargo é um livre-atirador a serviço da candidatura Beto Richa (e de seu próprio prestigiamento, é óbvio), a candidatura Gleise Hoffmann estranhamente afirma “eles estão cansados e pouco criativos”: como elogios à privatização das áreas municipais e à criação do sistema de transporte para a Volvo, para o “pool”empresas de transporte coletivo e para fabricantes de equipamentos urbanos; e também aos urbanistas e arquitetos associados na cópia de obras existentes no exterior ‑ sempre, lembremos, com aviso para os amigos do IPPUC e do prefeito de quais áreas urbanas irão valorizar ‑. Tudo como se fosse um fulgurante sistema de planejamento urbano em declínio!

A sua vez, bem articulado em sugestões democráticas e de repercussão pública, o candidato do PMDB consegue fazer propostas incisivas e razoáveis, mas que não conseguirão ultrapassar o nível de falas ocasionais. Simplesmente porque o processo eleitoral entre nós começaria logo após as eleições, com necessária formatação de críticas passo a passo e extrapolação delas como constante informação pública. Todavia, o contexto de delirantes e espaventados que o cerca diminui a credibilidade do ex-reitor da UFPR.

 Poemática

Ao inventor do quadrado de quatro pontas

José Luiz Gaspar

Xamãs tupiniquins alvoroçados

‑ cada qual com seu fado ‑

vão denotando como que se faz

‑ um pouco na frente, outro atrás ‑

espetar pelo ramos as rosas

‑ galhofando-as nas glosas ‑

de raspar seu lápis na lousa

‑ para extrair enfim outra coisa.

Apenas um som não faz sentido

seu sentido é que procura o som.

como criança brinca de bandido

enquanto o ególatra tasca seu tom.

Todas palavras gozam à ideofrenia

arritimando-se pelos batecuns,

sempre desiguais como um +um.

O coração despulsa nessa sangria

ensandecido numa feroz dislalia

em que coaxaria refaz sua cultura.

Aí, a bilurribina exsuda acumputura;

a pele triscada, um calor à mente

e no verbo um som intermitente:

Batecum! Batecum, mais um.

PARA A GAUCHADA NA SEMANA FARROUPILHA – HOMENAGEM 1 – TRECHO DO ROMANCE “ENCAIXOTANDO BRASÍLIA” – por abelardo barbosa brandão / brasilia.df

…Boato do dia: “Pimenta fugiu”. “Vamos ver, se ele conseguir, quem sabe, nós fazemos o mesmo”, disse o Gaúcho esfregando as mãos. Pelo que vi no mapa, vai virar almoço de onça, isto se não morrer afogado, pegar malária ou outra doença pior, comentei pessimista como sempre. De boatos em boatos íamos levando a vida. Continuamos com nosso joguinho de vôlei de manhã, à tarde consertávamos as casas, o muro e limpávamos o Igarapé da Bosta. O Gaúcho, como “comandante dos presos”, dirigia as operações. Quando chegava no dístico “Aqui Defendemos a Fronteira do Brasil”, eu costumava fazer uma piadinha, quase sempre sobre a capacidade daquela meia dúzia de soldados que tomavam conta da prisão, serem capazes de defender alguma fronteira. O Gaúcho retrucava professoral: “É simbólico, igual quando a gente faz uma cerca na fazenda, avisando ao vizinho: daqui para dentro a terra é minha”. É preciso ver se o vizinho vai respeitar, pensei na Segunda Guerra, todos fizeram suas cerquinhas, os alemães vieram com tanques e aviões e passaram por cima de tudo. “Vizinhos sempre se respeitam”, disse o Gaúcho, pensando em fazendeiros.

Estava arrumando um telhado, do alto da escada avistei um grupo de índios trazendo um homem numa rede. Era o Pimenta. O indivíduo ficou magro, magérrimo, em menos de um mês a Terçã deixou-o irreconhecível, do rosto redondo sobrou uma cara esquelética assustadora, amarela. Tudo nele ficou amarelo, a pele, os lábios, o branco dos olhos, as unhas, tudo. Quando o vi de perto pensei que já estava morto, mas os índios faziam sinais dizendo que não. Os Juminás viviam numa aldeia ali perto e encontraram o Pimenta a uns oitenta quilômetros ao Norte, próximo de um lugar chamado Ponta dos Índios, perto do Cabo Orange. Ia na direção do mar, devia ter um plano, não sei se contaria, era calado, quieto. No momento não conseguia falar nada, mesmo que quisesse. O comandante mandou os cozinheiros arranjarem comida, montaram um prataço de quatro andares: o primeiro andar só com feijão enlatado, o segundo, inhame com linguiça de lata, o terceiro de farinha derramando pelas bordas, e lá no alto, como se fosse o atrativo principal, uma banana cozida, gentileza do cozinheiro. Imaginei que aquela comidaria ia acabar de matá-lo, mas não, quando viu a comida ficou mais animado, mas não conseguiu engolir três colheradas, só comeu a banana. “Dê-lhe água, muita água, está desidratado”, recomendou o enfermeiro, ao mesmo tempo enfiou-lhe dois comprimidos de Aralen na boca. Deixamos que tentasse comer em paz, depois iríamos ver se dizia algo de útil para uma fuga mais concatenada. O Periquito, como o Gaúcho chamava o comandante, botou-lhe uma semana atrás das grades e mandou aumentar a comida e o Aralen. Quando saiu, pouco falava, mesmo diante da insistência do Gaúcho. “Por que foste na direção Norte, rapaz?” Insistiu o Gaúcho. “Não sei, Queria chegar no mar, no Atlântico. É muito longe, só andava de dia, orientado pelo sol, não levei bússola. Ainda bem que os índios apareceram, senão morria de fome e da malária.”
O Gaúcho tentava conversar com os índios, saber mais sobre a região, difícil, não falava a língua deles e depois havia um problema sério, falavam sem parar, todos de uma vez, acho que gostavam do som de suas próprias vozes. Não eram como nós, que esperamos o outro acabar e respondemos. Não, eles falavam, falavam e falavam, às vezes todos juntos uma confusão danada. A chamada da manhã era a melhor parte do dia, repetindo o próprio nome, como se estivesse reconhecendo a veracidade da situação. “É. Sou eu mesmo e estou aqui, vivo”. Em três meses, tínhamos pintado as casas e consertado as instalações de água e luz. Começamos a construir uma fossa enorme, na tentativa de salvar o Igarapé da Bosta que agora era chamado Igarapé do Lacerda, homenagem ao governador do Rio. O comandante mandou, e a maioria de nós tratamos de cumprir, não tinha queixa dele, diferente do Gaúcho, que o considerava, no mínimo um reacionário e de vez em quando comentava entre brincalhão e irônico: “Bem que podíamos tomar este quartel vagabundo, botamos o Papagaio na gaiola e nos declaramos rebelados”. Não é Papagaio, é Periquito. E fazer o quê depois, embrenhar-se na mata por mais de quatrocentos quilômetros e pedir asilo ao Governo da Guiana? Do jeito que são as coisas por lá, mandariam nos fuzilar na hora, só para ficar com as armas e as botas. “Papagaio ou Periquito, que diferença faz”. Pra você nenhuma, só entende de cavalos. “Companheiro, podemos tentar sair por mar, teve um francês que fugiu de uma prisão na Guiana e ninguém sabe como, chegou na França, o nome me escapa agora, mas é chamado de borboleta em francês, li algo sobre ele, pena não ter trazido o livro, ia facilitar”. Você deve ter lido algum romance francês, isso sim, vai ver o cara saiu borboleteando mar adentro até chegar em Paris, depois deu uma volta em torno da Torre Eiffel, tipo Santos Dumont. “Tchê, tu és muito jovem, não sabe nada, é inculto como uma boceta, age por impulso. Já percebi que estás querendo dizer que nosso pai da aviação era viado. Quando sairmos daqui vou te levar na Livraria Civilização Brasileira do meu amigo Ênio da Silveira, o livro está na prateleira, aí tu vais ver”.
Com o tempo fiquei amigo do Gaúcho, sentávamos juntos no almoço, jantar e café da manhã e passei até a responder seu “buenos dias garoto” com outro “buenos dias, tchê”. Até hoje, passados mais de quarenta anos, ainda respondo cumprimentos matutinos com um “buenos dias” para espantar o mau humor, e não há como deixar de lembrar do Gaúcho. Dizia ter quarenta anos (quase o dobro da minha idade), baixinho, pernas curtas, cabelo avermelhado cortado rente, voz ranheta e a calça sempre abaixo da linha da cintura, querendo cair, mas suspensa de vez em quando em um movimento automático. Do que sente mais falta? “Primeiro, da mulher e da filharada, segundo, do frio que permitia lagartear de manhã, em terceiro lugar, do chimarrão. Do meu cavalo não vou sentir tanta falta, por aqui tem uns pangarés, mas vi também um Frontino e um Gateado muito bonito. Bem que tentava substituir sua bebida predileta, produzindo um chá forte de mate queimado, que conseguia às escondidas com o cozinheiro. O frio podia esquecer, estávamos em cima da linha do Equador, o calor era alarmante, só diminuía quando desabava o temporal. Nem sei como fiquei amigo do Gaúcho, éramos tão diferentes, além de que eu detestava o frio, gostava de café e não era chegado a cavalos, preferia gatos com sua costumeira independência. Ele poderia passar horas, como às vezes passava, falando de cavalos. “Você sabe tchê, que existem mais de cinqüenta cores de cavalos? Alazão, Argel, Arminado, Estrelado, Prateado, Quatralvo…
Ele tinha uma expressão favorita: “a concha é uma adaptação ao animal que vive nela”. Eu insistia que era o inverso e argumentava que a selva não era um mundo adaptado aos índios, eles é que se adaptaram a selva. Ele contra argumentava explicando que na selva viviam milhares de animais e “eles é que fizeram da selva, a selva. Sem pessoas ou animais não há selva. Assim como sem o ser humano não há terra”. Íamos nos infiltrando por discussões intermináveis, resultante da falta do que fazer. Algumas sobre prisão, é claro. Eu insistia que todos ali, incluído o comandante, estavam tão presos quanto nós, com a diferença que podiam comunicar-se com as famílias ou até trazê-las. Retrucava didaticamente, para que eu pudesse entender, que a liberdade não era um substantivo concreto, mas abstrato, que nossos guardas tinham a perspectiva e a sensação que estavam livres, nós não, isto é que fazia a diferença. Na dúvida, consultávamos os livros dele: Kant, Hegel e até Aristóteles, que nunca consegui compreender. “Marx não tem, os militares confiscaram”. Ainda bem, só serve para iludir os meninos. O Gaúcho discordava irritado e bramia todas aquelas frases prontas do Manifesto Comunista, do tipo “vós não tendes nada a perder além de teus grilhões”, referindo-se aos pobres. Eu sabia, por experiência própria, que era o contrário: os pobres têm tão pouco, que quando perdem, perdem tudo, acho que por isso, as revoluções sempre veem de cima, dos que tem a perder. Argumentar contra Marx era bobagem. Para o Gaúcho, ele se assemelhava a Deus, estava muito acima de qualquer mortal, e não sei como depois de passar por tantas revistas, conseguiu chegar ao Oiapoque com uma pequena foto de seu ídolo…. Era um sujeito culto e de posição ideológica inflexível, acreditava que a solução para o Brasil era uma revolução que implantasse aqui o Marxismo-Leninismo. Hoje isto pode parecer a muita gente uma heresia, mas aqueles eram tempos de mudanças, tudo parecia possível aos olhos de pessoas como o Gaúcho… “Conheces alguma coisa da história do Brasil, tchê?”
Bem, mais ou menos, Pedro Álvares Cabral, Tiradentes, Pedro I, Princesa Isabel, Floriano Peixoto. “Não! Estou falando da história recente, não dessas pessoas que a gente nem sabe direito se existiram mesmo, da história como um conjunto de fatos articulados com causas e efeitos”. Nunca pensei muito nisso, só sei que somos um país explorado, primeiro por Portugal, depois pelos ingleses e agora, os americanos. “É, mas não se esqueça que começamos nossa caminhada como um país que produzia o que se toma depois da sobremesa, uma semente que era posta ao sol para secar, depois torrada, depois esmigalhada, depois virava pó e levada a água fervente resultava num líquido feio e amargo que só descia garganta abaixo se botássemos açúcar. Então trocávamos essa semente seca e queimada por outros produtos, e assim íamos avançando, mas como queríamos tomar café, começamos a produzir o açúcar, como era muito amargo mesmo assim, começamos a produzir leite. A partir desse produtozinho vagabundo conseguimos criar uma nação. Para que isso fosse possível, tivemos uma política construída por algumas pessoas de visão. Anote aí na tua cabeça oca, o nome dessa política é o nacional-desenvolvimentismo”.
Tá, mas e os ciclos do açúcar, do ouro?
“Não interessa agora, já passou, já era, agora o que interessa é como sair do líquido preto e feio e produzir outras coisas, além de dar empregos, saúde e educação para o povo. O nacional-desenvolvimentismo vinha tentando manter alguma independência e promover o desenvolvimento com a grana do próprio governo, ou seja, dos impostos que arrancam de todos nós. Só que essa política está esgotada, entende tchê, esgotada. Temos que partir para uma atitude mais ousada, nos libertarmos por completo dos gringos, adotar outro regime político, fazer uma ruptura com o passado anacrônico, modernizar o Brasil”.

A RECUPERAÇÃO MORAL – por mauro santayana / brasilia.df

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse em São Paulo, em um  encontro com artistas e intelectuais, que esse é o momento de “recuperação moral” da política brasileira. Ele pode ter razão, e a terá ainda mais se, depois do escrutínio judicial da Ação 470, o exame de outras ações pendentes no STF e nos tribunais dos Estados, abrir o véu que cobre o período de 1995 a 2003. Seria importante saber como se deu a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, uma empresa construída por mineiros. E seria também importante verificar, em sua intimidade, o processo de privatização da Telebrás e suas subsidiárias.

Estamos submetidos a um péssimo serviço, quase todo ele explorado por empresas estrangeiras. Segundo o PROCON, as reclamações contra os serviços telefônicos celulares batem o recorde naquele órgão. Enquanto isso, algumas empresas, como a Telefônica, continuam se valendo do nosso dinheiro, via BNDES, para financiar sua expansão no país, enquanto os lucros são enviados a Madri, e usados para a compra de empresas no resto do mundo.

Será, da mesma forma, necessária à recuperação moral da política brasileira saber quais foram as razões daquela medida, e como se desenvolveu o processo do Proer e da transferência de ativos nacionais  aos bancos estrangeiros, alguns deles envolvidos em negócios repulsivos, como a lavagem de dinheiro do narcotráfico.

Quem fala em recuperação moral estuprou a Constituição da República com a emenda da reeleição, recomendada pelo Consenso de Washington, uma vez que aos donos do mundo interessava a continuidade governamental nos países periféricos, necessária à queda das barreiras nacionais e à brutal globalização da economia, com os efeitos nefastos para os nossos países. Seria, assim, também importante, no processo histórico da “recuperação moral”, saber se houve ou não houve compra de votos para a aprovação do segundo mandato de Fernando Henrique, como se denunciou na época, e com algumas confissões conhecidas.

Tivemos oito anos sem  crescimento do ensino universitário público no Brasil, enquanto se multiplicaram os centros privados de ensino superior, que formam, todos os anos, bacharéis analfabetos, médicos açougueiros, sociólogos inúteis.

Para essa “recuperação moral” conviria ao ex-presidente explicar por que, no apagar das luzes de seu governo, recebeu, para um jantar a dois, o banqueiro Daniel Dantas, acusado de desviar dinheiro de seu fundo de investimentos para os paraísos fiscais, violando a legislação brasileira. Seria também importante reexaminar a súbita prosperidade dos jovens gênios que serviram à famosa “equipe econômica” em seus dois mandatos.

Se a “recuperação moral” for mesmo para valer, o ex-presidente não tem como eludir às suas responsabilidades. Para começar, se alguém se habilitar a investigar – e julgar ! – basta o seu diálogo gravado com o pessoal do BNDES no caso da privatização das telefônicas.

INEDITORIAL – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Gaúcho que é gaúcho é assim:  maula, mas sensível à poesia, hiperbólico mas llano,  como o pampa que lhe faz morada. Mesmo que pareça para muitos,  “Para Nada”, como vaticinou Ascenso Ferreira em seus versos satíricos. O gaúcho é grande:

 

“Eu sou maior do que História Grega, Eu sou gaúcho e me basta…”

 

Por via das dúvidas, estamos no dia 20 de setembro, data máxima do civismo rio-grandense. Haverá, além do Acampamento Farroupilha, no Parque da Harmonia, em Porto Alegre,  muita cavalgada pelo interior, muita discurseira, tanto de palanque , quanto de beira de chão, e fortes doses de folclore. Alguns, como o cientísta politico Dilan Camargo, ridicularização mais um vez os feitos de 35;  Juremir Machado reiterará seu ceticismo diante de qualquer Revolução, Farrapa ou não;  um ou outro historiador lembrará Bento Gonçalves. Mas, curiosamente, há pouco debate sério sobre o 20 de setembro.

 

Ah que falta faz o Décio Freitas! Ele alíás, sentenciou : “A historiografia dos Farrapos não é crítica. Há uma massa enorme de documentos que nunca foi utilizada pelos historiadores. Por quê? Porque os historiadores têm medo de mexer em verdades estabelecidas” – DÉCIO FREITAS, NA APLAUSO 46 (2003) . Nos falta também o Joaquim Felizardo, tanto ou mais iridescente do que o Décio, mas também fumante inveterado e senhor de papos homéricos. Resta-nos, pois, na data, o regozijo com o folclore, farto por todo o Rio Grande e até na China, com a proliferação de CTGs, ficando a lacuna da reflexão.

 

Por certo, náo é este o lugar para teses aprofundadas. Mas pior é a omissão.

 

Comecemos por separar o que é tradição – e aí se enquadra o movimento propriamente chamado de “Tradicionalista”, cuja maior expressão sáo exatamente os CTGs, do que é cultura riograndense, aí situando a questão do separatismo .

 

Há uma confusão muito grande entre o FOLCLORE gaucho, que acabou se concentrando na valorização da Revolução Farroupilha e a questão do sentimento separatista do gaucho.

O folclore é e sempre será RETROSPECTIVO  e nisso ele cumpre – e cumpriu-  importantes papeis. Não fora ele, nós seríamos identificados, no sul, como fazem os australianos, pelo canguru, ou canadenses, por uma árvore. Os paranaenses, aqui ao lado padecem do mesmo estigma. São simbolizados por um pinheiro… O folclore, principalmente depois dos grandes esforços de Paixão Cortes , deu-nos uma expressão antropológica. Forçou a barra. Mas reconstruiu um modelo típico ideal do gaúcho – não o inventou – e o propôs como paradigma no meio de um processo da formação multicultural, que a geografia e a economia só  acentuaram entre 1824 e meados do século XX.  . Funcionou! Aí está. Não foi imposto por nenhum Partido Político ou Igreja sectária. Rebrotou naturalmente do ventre do pampa para a sociedade gaúcha como um Manifesto. E se instalou definitivamente como um dado da cultura.

 

Eu tive minha infância em Santa Maria entre 1945 e 1955, vindo depois para Porto Alegre, filho de um militar de origem alemã e uma prendada professora. Todos de cultura eminente urbana. Nunca montei num cavalo- as tentativas de meu avô, fazendeiro em Tupanciretá, foram desastrosas…- nem me adentrei nas profundezas do sertão pampeano. Sou, rigorosamente, um europeu: branco, supereducado, louco por livros e cinema, socialista. Nem sequer chimarrão se via nas nossas tertúlias portoalegrinas nos anos 60. Às vezes pintava um João, asmático e gauchesco,  de cuia na mão nas rodas da Livraria do Arnaldo,  na Praça da Alfândega. Mas era raro. Mesmo os que chegavam do interior e ganhavam alguma projeção, como um dos melhores tribunos daquela época, vindo de Quaraí, onde fez política, logo se socializavam na cultura eminente urbana de Porto Alegre. E víamos, sempre, a movimentação tradicionalista, cujo epicentro era exatamente no “Julinho”, onde eu estudei e de onde provinha grande parte da elite da época, com distanciamente e até preconceito. – “Era a indiada”, como se dizia. Hoje, malgrado a globalização, o gauchismo foi entronizado pelas elites como um dado da cultura riograndense. E basta ir à Redenção para ver a infinidade de gente de cuia na mão. Até bombacha…Vitória do “tradicionalismo”…

 

Mas é claro que o tradicionalismo, para se firmar, apoiou-se mais no feito da Revolução Farroupilha, que pouco conhece em profundidade, sendo até suspeito para fazê-lo porque o toma como ato de fé ,  do que no próprio folclore. Acabou nesta sobrevalorização do 20 de Setembro, quando, se tivesse sido mais cuidadoso com a História,  teria valorizado mais o 11 de setembro, data da fundação da República Riograndense. A tarefa, porém, de pesquisa cuidadosa no terreno sobre música, danças, indumentária e estilos de vida antigas , são dignas de um prêmio de Antropologia. Eles não revelaram apenas formas de uma outra era, mas a própria alma de um povo rústico em sua formação.

 

Outra confusão do tradicionalismo foi misturar folclore com ideologia. Antes de 64 o Movimento era francamente “trabalhista”e deixou não raros registros desse alinhamento em suas canções. Depois… Melhor nem falar…

 

Mas voltemos ao  separatismo, muitas vezes suscitado no 20 de Setembro.

 

Se ele ocorreu no passado, ou não, cabe aos historiadores comprová-lo. O que é certo é que , quando a Independencia foi feita, em 1822, o Rio Grande era uma vastidão incerta, com uma população muito pequena e, certamente, poucas convicções nativistas. O resto do Brasil, nesta época, com mais de três séculos de vida, já tinha desenvolvido seus próprios interesses, contrários ao domínio colonial, do qual padeciam severas discriminações. O Rio Grande, porém, ocupado por militares portugueses retirados do serviço militar, com epicentro (deslocado) ainda na cidade de Rio Grande, estava longe de participar ativamente, como Minas, Rio de Janeiro e o Nordeste todo, do estado de espírito que levou à Independência. Desconheço como se deu, ela, aqui no Rio Grande, e estranho que, tal como houve  em outros pontos do país, a guarnição lusitana não tenha tomado os brios de quem lhe pagava os soldos…: a Coroa Portuguesa.

 

De qualquer forma, o SEPARATISMO no Rio Grande, se tem um olho no passado, o outro será sempre  PROSPECTIVO, embora , inevitavelmente recorra ao FOLCLORE como justificação e propaganda. . Assim fazem aqui na Europa catalães, bascos , escoceses e todos os demais povos que se separaram , não sem dores, da antiga YUGOSLAVIA.  E também os que se separaram da Uniáo Soviética. Um olho no padre, outro na missa. Porque o projeto POLITICO de emancipação é eminentemente  IDEOLÓGICO, e deve nutrir –se de sólidas  razões para a construção de um futuro independente  melhor.

 

Discutir o separatismo não é também mover uma guerra pela independência do Rio Grande do Sul, tout court. Trata-se, na verdade, de se discutir o federalismo no Brasil. E se ele , tal como está implantado, é bom ou mau para os gaúchos. Nessa discussão, temos que entrar com argumentos e determinação. Não será um convite para um jantar, nem um piquenique, ao qual levamos sanduíches. Trata-se de levantar argumentos e entrar de sola para rediscutir várias questões do federalismo no Brasil: a representação parlamentar no Congresso Nacional, o sistema tributário, o regime de subsídios ao capital e ao trabalho, segundo as regiões do país, os critérios de redistribuição do produto da arrecadação da União no Estado, os meios de comunicação e a industrial cultural, a importância dos resultados na educação , o balanço de produtos estratégicos , como petróleo e outros do subsolo, etc. Daí poderá até haver uma nova concertação federal. Mas se não houver conserto (…) a atual deve ser veemente combatida, nem que seja através de uma luta pela autonomia riograndense. Vivo , aliás, em Portugal, um país “pequeno, mas muito grande”, como lembra José Saramago , em “Viagem a Portugal” e com uma qualidade de vida exemplar, apesar da Crise.  Pois bem, o Rio Grande é até maior do que Portugal, em população, em diversidade geográfica, em PIB industrial , em tecnologia e até em exportações. Só não é  maior em glórias, apesar do Movimento Tradicionalista…

A data do 20 de setembro, portanto, deve nos resgatar parte destas glórias do passado, mas deve, sobretudo, lançar-nos com o olhar para o futuro de forma a nos perguntarmos: O que queremos do Rio Grande. Um Novo Nordeste, como profetizou em série de reportagens memoráveis Franklinde Oliveira, nos anos 1960, mercê da perda de substância no processo econômico em curso no país? Ou ficar a Pátria Livre, e morrer … pelo Rio Grande, senão independente, autônomo.

Por que a reeleição de FHC nunca chegou ao STF? – por laurez cerqueira / são paulo.sp

A campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso é considerada por especialistas a mais cara da história do país e nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pela Folha de S. Paulo, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos Deputados, por R$ 200 mil cada um.

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Quem não sabe como são feitas as salsichas, as leis e as eleições? A novidade é que parte do Ministério Público e parte do Supremo Tribunal Federal resolveram julgar o “caixa dois”, feito para as eleições municipais de 2004, curvando-se à versão sobre o “mensalão” criada por Roberto Jefferson, pela oposição e por parte da imprensa que sempre tratou o PT como um intruso na política brasileira. Um precedente perigoso que coloca o STF acima dos demais poderes da República. O alvo é o PT. Destruir o PT.

Afinal, a elite não acreditava que os de baixo fossem capazes de se organizar num partido politico de massa para fazer a luta social e eleitoral no país das desigualdades. Naquela eleição, em 2004, apesar de tudo, a esquerda cresceu eleitoralmente e em seguida reelegeu Lula.

Agora, como num delírio narcísico diante do espelho (câmeras de tv, internet) ministros do STF, enrolados nas suas capas pretas, parecem fazer o jogo de setores da imprensa, que querem fazer valer a todo custo a versão do “Mensalão” e patrocinam um triste espetáculo. A hipocrisia, o cinismo, aparecem reluzentes nas faces de alguns inquisidores como se o financiamento de campanhas eleitorais por meio de “caixa dois” fosse uma invenção do PT. As câmeras têm revelado com riqueza de detalhes aspectos sombrios do caráter de personagens centrais do julgamento no STF.

As investigações foram cirúrgicas e não foram além da superfície do sereno mar que encobre o financiamento das campanhas eleitorais de todos os partidos políticos.
 Não há nenhum questionamento sobre os demais partidos, como se os de oposição (PSDB, DEM, PPS) tivessem financiado as eleições de 2004 na mais perfeita ordem.

Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) calcularam que nas eleições municipais de 2004 cerca de 400 mil políticos empregaram algo em torno de 12 milhões a 16 milhões de trabalhadores, para disputar 55 mil vagas de vereador e 5.600 cargos de prefeito no país.

A infra-estrutura das campanhas eleitorais municipais de 2004 – propaganda dos candidatos veiculada pelos mais variados meios de comunicação – comícios, shows, alugueis, equipamentos de comitês eleitorais, assessores, enfim, custou cerca de 5 bilhões de reais. O total gasto atingiu a cifra de 41 reais por eleitor. 
Especialistas estimam que, por baixo, mais da metade do dinheiro envolvido em campanhas não aparece nas prestações de contas.

Cerca de 70% a 80% das despesas dos candidatos não foram registradas como manda a lei. O que daria em média geral 1 real para o caixa oficial e 3 reais para o caixa dois. Quem adota o caixa dois costuma dizer que as contribuições sem registro são feitas a pedido dos contribuintes que não querem se expor como se o problema fosse a Lei Eleitoral.

O professor David Samuels, da Universidade de Minnesota, pesquisador do processo eleitoral no Brasil, analisou o perfil de doadores oficiais a partir dos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e chegou a conclusão que as candidaturas a presidência da República são financiadas com maior volume de recursos do setor financeiro e da indústria pesada, como a de aço e a petroquímica. Isso porque a Presidência da República é quem responde pela macroeconomia (juros, tarifas, câmbio e política de exportação). Além disso, lida com marco regulatório e concessão de subsídios. Os setores financiadores das campanhas à presidência da República costumam ser os mesmos das candidaturas ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados porque os assuntos tratados no Senado e na Câmara são também do âmbito da União; já as candidaturas a governador recebem mais recursos de empreiteiras, isso porque as grandes obras estão mais concentradas nos Estados; os candidatos a prefeito e vereador recebem mais recursos das empresas de transporte e de coleta de lixo.

A campanha à reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é considerada por especialistas a mais cara da história do país e nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pelo jornal Folha de São Paulo, assinada pelo repórter Fernando Rodrigues, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos Deputados, por R$ 200 mil cada um.

Naquele momento, Sérgio Motta, ministro das Comunicações havia declarado que o projeto dos tucanos era permanecer no poder por no mínimo 20 anos. Disse isso depois das privatizações dentre outras áreas, a de telecomunicações.

No início da campanha presidencial de 1998, o comitê eleitoral responsável pelas articulações da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso elaborou um orçamento minucioso de gastos e concluiu que, para cobrir todas as despesas do pleito, seria necessário R$ 73 milhões. Esse orçamento prévio foi comunicado ao Tribunal Superior Eleitoral.

Passadas as eleições o comitê fez as contas e encaminhou a declaração oficial de doações ao TSE, informando que o total arrecadado e gasto na campanha foi de R$ 43,022 milhões. 
A revista Época, de 30 de novembro de 1998, informou que a equipe que cuidou das finanças, coordenada pelo ex-ministro Bresser Pereira, dias depois do envio da lista ao Tribunal, refez as contas e concluiu que os gastos foram R$ 45,931 milhões, uma quantia muito superior ao total declarado ao TSE.

Esse desencontro de valores, entre o que se arrecadou, o que se gastou e o que se declarou ao TSE jamais foi explicado pelos coordenadores. Paira sobre esse assunto uma nuvem de mistério. Curioso é que na campanha de 1998 o candidato Fernando Henrique Cardoso viajou menos, fez menos comícios do que em 1994, mas gastou R$ 10 milhões a mais. 
Bresser Pereira conta que, diante do volume das dívidas deixadas pelo comitê, ele foi obrigado a reunir a equipe financeira e colocá-la de novo em campo para arrecadar mais dinheiro dos empresários para cobrir o rombo.

A revista Época informou ainda que as solicitações foram deliberadamente concentradas nos grupos empresariais que compraram as estatais. Na segunda quinzena de outubro daquele ano (período proibido pela lei) foram arrecadados R$ 8,2 milhões. Essa decisão foi absolutamente ilegal e contrariou a legislação eleitoral, mas mesmo assim a arrecadação de recurso foi feita.

Dentre as empresas que doaram recursos após o pleito, constam a Vale do Rio Doce, Companhia Petroquímica do Sul (Copesul) e Telebras. As subsidiárias da Vale do Rio Doce doaram R$ 1,5 milhão. Os donos da Copesul, R$ 1 milhão e os grupos La Fonte/Jereissati/Andrade Gutierrez e Inepar, que haviam comprado as empresas do sistema Telebras, doaram R$ 2,5 milhões. No final da ofensiva dos coletores, os dirigentes do comitê disseram que ficou faltando R$ 2,9 milhões para liquidar as contas.

Na mesma matéria, a Época destacou o setor financeiro como o que mais contribuiu para a campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Em 1994, os banqueiros deram R$ 7,1 milhões. De cada R$ 10,00 que entraram no caixa da campanha, R$ 4,30 originaram do setor financeiro. Em 1998, a aposta do setor no candidato à reeleição atingiu 43% (R$ 18,6 milhões) mais que o dobro da campanha anterior. Apenas cinco conglomerados financeiros contribuíram com quase R$ 10 milhões. Somados, responderam por 66,1% das doações feitas pelo setor financeiro e 28,6% do total de contribuições declaradas na campanha presidencial, informou a revista.

As controvérsias sobre o financiamento da milionária campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso não pararam por aí. Para complicar ainda mais a vida do tucanato a Folha de São Paulo, de 12 de novembro de 2000, publicou uma vasta matéria com informações comprometedoras, obtidas de planilhas eletrônicas datadas de 30 de setembro de 1998, vazadas do comitê eleitoral do candidato tucano. Essas planilhas revelam a existência de uma contabilidade paralela de arrecadações e gastos da campanha. 
O jornal informou que pelo menos R$ 10,120 milhões deixaram de ser declarados ao TSE e que, de cada R$ 5,00 arrecadados R$ 1,00 era desviado para uma contabilidade particular desconhecida.

Além dos R$ 10,120 milhões não declarados oficialmente ao Tribunal, feitos os cálculos, tomando por base a planilha completa, ficou de fora R$ 4,726 milhões, doados por empresas que constam da lista do TSE, com valores menores do que os da planilha, que aparecem sob a rubrica de uma associação de classe de empreiteiros.
O dinheiro arrecadado pelo comitê financeiro, descrito em 34 registros na planilha principal obtida pelo jornal, totalizara R$ 53,120 milhões. Vale lembrar que na data constante da planilha, a qual os repórteres tiveram acesso, o comitê ainda não havia registrado todas as contribuições o que leva a crer que o volume de recursos não declarados devia ser muito maior, levando em consideração que o orçamento estimado inicialmente pelo comitê para os gastos, e comunicado ao TSE, era de R$ 73 milhões.

Nota-se que havia margem suficiente para declarar os recursos constantes na contabilidade paralela em questão e a equipe financeira não o fez. As razões não foram esclarecidas à imprensa, que insistentemente tentou sem sucesso obter explicações dos responsáveis pelas contas. Toda essa história acabou envolta num manto de mistério.

A imprensa, na época da divulgação das planilhas pelo jornal, andou escarafunchando a lista de contribuintes da campanha da reeleição e trouxe à baila informações preciosas. Os colaboradores ao ver seus nomes e os nomes de suas empresas publicados nos jornais não conseguiram esconder o constrangimento. Muitos deles acabaram dando informações contraditórias. A lista mais parecia um condomínio de interesses escusos. 
A maior doação constante na planilha publicada foi de R$ 3 milhões e não está registrada no TSE.

O jornal atribuiu à época essa contribuição ao então ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Andrea Matarazzo. Ele negou dizendo que não participou do grupo de arrecadadores e que apenas realizou alguns jantares com empresários. Mas, membros da equipe financeira como Bresser Pereira e o publicitário Luiz Fernando Furquim afirmam que Andrea Matarazzo fazia parte sim do grupo de coletores. Um detalhe: na planilha não consta registro da procedência do dinheiro.

O publicitário Roberto Duailibi, dono da agência DPZ, em entrevista à Folha de São Paulo, disse no primeiro momento que havia contribuído com R$ 7.500 mil. Quando ficou sabendo que a sua doação não estava registrada no TSE ligou para o jornal e disse que a empresa dele não havia contribuído com a campanha. Porém, consta na planilha que a DPZ contribuiu com R$ 200 mil. Outro publicitário, Geraldo Alonso, da agência Publicis Norton disse ao jornal que contribuiu para a campanha com serviços de publicidade. O valor do trabalho prestado pela agência dele registrado na planilha foi de R$ 50 mil. Em seguida ele negou que havia prestado serviços.

A empresa Atlântica Empreendimentos Imobiliários, da banqueira Kátia Almeida Braga, (Grupo Icatu), uma das coletoras de recursos, disse que contribuiu com R$ 100 mil e que tinha recibo emitido pelo PSDB. Esse valor aparece na planilha e não foi registrado na contabilidade oficial. Numa investida no Rio de Janeiro, Kátia Almeida Braga procurou dezoito empresários. Uma das empresa da lista era a Sacre, de Salvatore Cacchiola, aquele banqueiro do caso Marka e FonteCindan, que fugiu para a Itália depois do escânddalo financeiro. Kátia Braga conseguiu que a empresa dele doasse R$ 50 mil para a campanha.

Outra empresa que chamou atenção na lista de contribuintes da campanha de Fernando Henrique Cardoso foi a Vasp, de Wagner Canhedo, um dos acusados de integrar o esquema PC no governo Collor e que responde até hoje vários processos na justiça. A empresa de Canhedo era devedora na época de mais de R$ 3 bilhões ao governo. Canhedo doou R$ 150 mil e não consta na declaração do TSE. No caso da Vasp a lei proíbe doações, mas a direção da empresa confirmou a doação à Folha de São Paulo.

Além desses casos existem muitas outras irregularidades reveladas pela imprensa, como por exemplo, doações feitas por universidades e escolas privadas. A legislação proíbe instituições de ensino de participar de financeiramento de campanhas eleitorais, mas o presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), Edson Franco, confirmou a jornalistas que diversas instituições foram procuradas pelo ex-ministro Bresser Pereira e que várias delas fizeram doações. Ele citou a Unip, de João Carlos Di Gênio e a Faculdade Anhembi-Morumbi. Todos esses casos nunca foram investigados, o Minitério Público e o STF não se interessam por esse assunto.

A diferença do caixa dois da reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso do caixa dois das eleições municipais de 2004 é que o PT dançou, foi investigado e está sendo julgado, enquanto os tucanos e o PFL flanam na desgraça do PT. 
O deputado José Dirceu, em seu depoimento no Conselho de Ética, lembrou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse certa vez que não admitiu a instalação de CPIs durante seu governo porque sabia que uma CPI o derrubaria.

Portanto, o financiamento de campanhas eleitorais por meio de caixa-dois é uma prática conhecida e só veio a público porque parte da cúpula do PT resolveu participar da festa e se deu mal. Agora o partido está sendo ridicularizado como se fosse um penetra.

Financiamento público já!

 

(*) Jornalista e escritor, autor, entre outros trabalhos de Florestan Fernandes – vida e obra, Florestan Fernandes – um mestre radical e O Outro Lado do Real, em parceria com o deputado Henrique Fontana.

SENTINELA DAS LIBERDADES – 20 de SETEMBRO

MORRE SANTIAGO CARRILLO, HERDEIRO DA PASSIONÁRIA., MENTOR DE MONCLOA – paulo timm / portugal.pt

Morreu dia 18 passado, sem que se saiba a hora, mas à sagrada séstia ibérica,   aos 94 anos, o líder comunista espanhol Santiago Carrillo, verdadeira legenda da esquerda européia.  Carrillo nasceu no início do “Século dos Direitos” , como Norberto Bobbio se refere ao Século XX, e o acompanhou enquanto teve lucidez.  Entrou jovem para o Partido Comunista Espanhol, fez a Guerra Civil (1936/39) , entrou para uma longa clandestinidade da qual emergiu na Europa nos anos 70 como um dos arautos do “Eurocomunismo”, protagonizou o Pacto de Moncloa, que redemocratizou a Espanha pós-Franco e comandou o comunismo espanhol nos anos seguintes, até 1982, sucedendo Dolores Ibarruri, La Passionaria. 

 Velho e enfermo, recolheu-se, logo depois,  até o anuncio de sua morte, sempre escrevendo artigos e proferindo palestras, com grande reconhecimento por todas as lideranças espanholas. Politicamente, pode-se dizer que transitou da ortodoxia leninista da vanguarda como instrumento do assalto ao poder para uma concepção do socialismo como resultado de um longo processo de rupturas pactuadas, para o qual o conceito de hegemonia se revela cada vez mais importante.
Duas passagens, contraditórias, mas intrinsecamente ligadas à sua militância e forte caráter, são hoje lembradas: sua suposta participação no assassinato de prisioneiros franquistas na Batalha de Madrid, em 1936,  e sua bravura, em 1981, quando um alucinado coronel fascista adentrou a Câmara dos Deputados em Espanha, tentando, de arma em punho,  impedir a redemocratização em curso.
Sobre este último fato,  um colunista do Diário de Notícias de Portugal, assim se refere, hoje:

“Ele há homens e ele há homens

por FERREIRA FERNANDES

É conhecido o verso do poema de Lorca dedicado ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías: “Eran las cinco en punto de la tarde.” Menos conhecido, até porque não há, é o verso: “Eran las seis y veinte y dos en punto de la tarde.” Não há mas devia haver. Por essa exata hora do dia 23 de fevereiro de 1981, em Madrid, o Parlamento foi invadido por um bando e o chefe deste, um tenente-coronel bigodudo, subiu à tribuna e gritou: “Quieto todo el mundo!” Assistiu-se à humilhação: todos os deputados (quer dizer, toda a nação) encafuaram-se que nem coelhos sob as cadeiras e o tampo das mesas. Um militar na tribuna com uma pistola na mão – cujo disparo para o teto convenceu os hesitantes – dominava a casa dos representantes do povo. Mas quer a história que por vezes haja uns mais representantes do que outros. Três homens não obedeceram: um velho general, então ministro da Defesa, Gutiérrez Mellado, um homem de direita, o chefe do Governo demissionário, Adolfo Suárez, e um homem de esquerda, o comunista Santiago Carrillo. O general levantou-se para interpelar o bando e foi agredido, Suárez e Carrillo mantiveram-se sentados, soberbos. O general morreu em 1995, Suárez perdeu a lucidez e vive retirado eSantiago Carrillo morreu ontem. O último verso de Lorca diz: “Eran las cinco en sombra de la tarde.” No poema que não foi escrito, o das seis e vinte e dois de 23 de fevereiro de 1981, a palavra não seria sombra, mas luz. Graças a três homens”

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As “Matanzas de Paracuellos.” se constituíram num episódio insólito e ainda pouco elucidado sobre o assassinato de cerca de 2.500 prisioneiros políticos  , pelos Republicanos, no controle de Madrid, entre 7 de novembro e 4 de dezembro de 1936 . A responsabilidade destas matanzas ainda é um ponto obscuro entre historiadores.  Ian Gibson, irlandês, que escreveu sobre o insólito assunto, atribui clara responsabilidade ao Partido Comunista,  visto ser, à época a força hegemônica na  Madrid republicana , junto ao Conselho Geral de Segurança da  Consejería de Ordem Público , o qual, sob estrita vigilancia de um agente do COMINTERN, Mijail Koltsov , implantara um verdadeiro sistema de terror e morte na cidade. Não era frequente o recurso à liquidação de prisioneiros, mas quando Franco sitia Madrid e a submete a severo bombardeio, as pressões para o exterminio de prisioneiros ter-se-a se tornado irresistível.

A verdade é que , com erros e acertos, Santiago Carrillo foi um homem do seu tempo, imbuído dos ideais de heroísmo como resultado não só de palavras, mas de ações. Ainda assim, teve tempo para refletir – e conducir – , junto com outro ilustre español, Fernando Claudim,  sobre os caminhos do comunismo no final do século XX. Na minha juventude tinha estes dois nomes , reverenciados pelos cânones da rebeldía da época, como verdadeiros faróis de Alexandria. Sempre que  ia à Europa, no final dos anos 70, empenhado num Doutorado na Sorbonne para o qual o antigo SNI jamais me autorizou, como punição à uma ficha considerada “suja”,  fazia questão de parar em Madrid para adquirir seus libros, ainda desconhecidos no Brasil. Eles, Enrico Berlinger e, em menor escala Georges Marchais, líderes dos Partidos Comunistas de Espanha, Itália e França, sacudiram a ortodoxia marxista muito antes da queda do Império Soviético. Com isso, faziam coro aos líderes comunistas rebeldes da Primavera de Praga e da Polônia invadida,  abrindo novas fronteiras para a esquerda. A questão central: a democracia como valor universal e a questão da liberdade como seu maior ingrediente  .

Tais ideias podem soar “revisionistas” nestes días de crise sombria do capitalismo, quando se percebe um renascimento do Marx radical como profeta do Socialismo. É natural. Principalmente quando a abertura crítica  do marxismo coincidiu, nos anos 70/80, com o Consenso de Washington, vindo a dobrar   as melhores inteligências do mundo occidental aos imperativos do neoliberalismo desenfreado.  Nem mesmo o trabalhismo inglês, o socialismo europeu, o peronismo, e a ilustração brasileira escaparam. Chega a ser inacreditável que Sergio Paulo Rounet foi Ministro da Cultura do Governo Collor e que Francisco Weffort o tenha sucedido no Governo FHC, dois dos melhores intelectuais críticos  que já produzimos.  Tudo mostra do capitulacionismo ideológico do final do século, quando se confundiu o monolitismo da Pax Americana no processo de globalização com uma Nova Era de Paz e Prosperidade para o mundo inteiro.

Mas não se confunda a venda das coisas sagradas com os fundamentos da doutrina, como fez Lutero na Reforma Religiosa. Se há algo de podre no Reino de Dinamarca a salvação nunca estará num passo atrás, na Teologia de Revolução, mas um passo adiante, na Epifania da Liberdade.

O Maestro Waltel Branco receberá título de Doutor “Honoris Causa” na Universidade Federal do Paraná – 19 de setembro de 2012

Waltel Branco receberá o título de “doutor honoris causa” pela UFPR. Uma justa homenagem ao músico e compositor.

Waltel Branco: maestro, compositor, arranjador e professor – Foto: Rodrigo Juste Duarte

O renomado maestro Waltel Branco vai receber da UFPR o título de Doutor Honoris Causa em reconhecimento a sua vida dedicada ao estudo da música. O maestro, que está com 82 anos, começou seu aprendizado quando criança e desde então nunca parou. Receberá o título durante um dos eventos mensais que a universidade celebra em comemoração ao seu centenário, marcado para 19 de setembro.

Nascido em Paranaguá, Waltel Branco começou a estudar em Curitiba. Entre os muitos instrumentos que aprendeu a tocar, o violão sempre foi seu favorito. De Curitiba, viajou para diversos países como Estados Unidos, Cuba, Espanha, Itália, fosse pelo aprendizado, ou pela oportunidade de tocar e trabalhar com grandes nomes da música, como Nat King Cole, Dizzy Gillespie, Perez Prado, Mongo Santamaria, Quincy Jones e Henry Manciny (com este, trabalhou como arranjador da música tema do filme “A Pantera Cor de Rosa”). No Brasil, compôs e arranjou diversas trilhas sonoras para novelas entre as décadas de 60 a 90. Foi arranjador de álbuns de artistas dos mais diversos, como Elis Regina, Gal Costa, Tim Maia, Cazuza, Astor Piazzola, Tom Jobim, Roberto Carlos, Zé Ramalho, entre tantos outros.

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atualizado em 19/09/2012 às 22:06

Waltel Branco recebe homenagem da UFPR por vida dedicada à música

Músico e compositor paranaense é considerado um dos precursores do jazz-fusion nos Estados Unidos e da bossa nova no Brasil

19/09/2012 | 18:39 | GAZETA DO POVO 

O maestro paranaense Waltel Branco recebeu nesta quarta-feira (19) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) o título de Doutor Honoris Causa em reconhecimento à vida dedicada à música. Filho de um maestro, ele começou na área do pai ainda criança e nunca mais parou, tornando-se uma referência em todo o país e até no exterior. A premiação fez parte das comemorações do centenário da UFPR, que será comemorado em 19 de dezembro.

Walter Alves/ Gazeta do Povo

Walter Alves/ Gazeta do Povo / Maestro recebeu o título da UFPR em cerimônia nesta quarta-feiraAmpliar imagem

Maestro recebeu o título da UFPR em cerimônia nesta quarta-feira

Com 82 anos de idade, Waltel nasceu em Paranaguá, em 22 de novembro de 1929, Dia da Música. Atuou no Brasil, em Cuba, nos Estados Unidos, na Espanha e na Itália. Tem uma obra extensa, com mais de 20 discos autorais e participação em cerca de mil discos importantes da música brasileira como instrumentista, regente ou arranjador.

Nesta quarta, com um sorriso no rosto o tempo todo, mesmo com a saúde frágil e amparado por uma bengala, Waltel agradeceu o reconhecimento do povo do Paraná pelos seus acordes. O músico se disse satisfeitíssimo com o título da UFPR. “É ótimo receber um prêmio como esse em vida, já que é algo concedido geralmente depois da morte”, declarou, pedindo desculpas pela voz rouca. Por fim, dedicou o título à mulher e às duas filhas.

Entre os artistas com os quais Waltel estabeleceu parcerias estão Elizeth Cardoso, Altamiro Carrilho, João Bosco, Tim Maia e João Gilberto — todos os arranjos de Chega de Saudade são do maestro paranaense. É considerado um dos precursores do jazz-fusion nos Estados Unidos e da bossa nova no Brasil.

FACEBOOK – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

FACEBOOK. O veículo desgovernado vai passando, entra o Leonardo com o adágio do dia (hoje ele abriu o baú e mostrou o peitão da Ella). Benício entrou pautando com um link, pra variar. Entrou o Ribondi com uma mulher nua do Ingres, acho que é a Dominique, atrás uma centena de seguidores, o ônibus passa debaixo dos Ipês (azuis, amarelos, brancos), todo mundo curte, e tome cervejas, depois o Bolivar

 com a política e a musica, ultimamente dá pra ouvir a risada dele. Nem parece o cara que citei na minha tese há 30 anos. O Cassio deve estar doente, não botou nada, logo entra no ônibus o pessoal do amor romântico: pelos cachorrinhos, gatinhos, leõezinhos. Finalmente a Silvia aparece, acompanhada pelo Flósculo, sai fora Silvia. O Walter reapareceu. A Silvia curtiu uma flor branca. Ah, o Luis Áquila, volto, Proust. A Gauchada chegou, entra o Vidal, e o Timm direto de Torres. Ishh, baixou o pessoal das músicas. Douglas entrou com suas orações, botou um Cristo do Mantegna, ainda bem. O Bruno e Prdl Saldanha a essa hora? Devem ter caído da cama. Tadeu aparece de boné correndo a maratona do Texas, e o Torelly, onde andará? O Evangelos ativa os neurônios dos arquitetos, aí entra minha filha e diz pra eu parar de falar palavrões. Agora tu vê. Dalvinha e Lee dos EUA e suas meninas lindas. João e sua paixão: MENGOOO. Giselle Moll hoje está curtindo adoidado, e a Patricia Melasso mostra mais uma vez o belo rosto com sardas, no espelho. Patricia Doyle compareceu discretamente com a trilha dos “intocáveis”, Toledo sai do Sarah-Rio e nos bombardeia com uns desenhos fantásticos e uma foto do sítio Alecrim(fui Papai Noel numa festa lá).Instituto Moreira Sales diz que falta sexo, aqui em casa acho que não. Giselle Mancini em inglês, nossa! Como diria o Ribondi. Paulo Cesar da UnB quer um dia mundial sem carro, faz isso não Paulo. Timothy reaparece. Carlos Fernando, que não vejo há um tempão, curtiu “La Règle de Jeu”, está passando em Paris, de graça. Aí entram uns garotos, já chegam kkkkkk. O pessoal do Rio deve estar na praia. Rochana Rams entrou com um ditado indiano. Estou sentindo falta da piada do Fabiano. Aí entra outra carrada de cervejas e logo a seguir o time da política, Rollemberg quer regular o uso da rocha moída. Imagine que até FHC me aparece recebendo alguém no seu Cafofo, será que é candidato? Eu entro com uma historinha do Marquês, ninguém curtiu, pesada demais. O veículo é desgovernado, mas nem tanto. E tome cerveja. Vou pro Badoo.

O que está por trás dos protestos no mundo islâmico?

Filme que satiriza o Islã e seu profeta Maomé parece ter sido somente estopim para manifestações
Agência Efe (17/09/12)


Manifestante atira bomba de gás lacrimogêneo de volta contra polícia no Paquistão

De turbantes e véus, milhares de muçulmanos e muçulmanas tomaram as ruas de suas cidades, queimaram bandeiras dos Estados Unidos e invadiram sedes diplomáticas norte-americanas. O motivo parecia comum: o filme A Inocência dos Muçulmanos, que satiriza o Islã e seu profeta, Maomé.

Foi assim, como fundamentalistas fanáticos e irracionais, que aqueles que protestaram contra o vídeo norte-americano, no qual Maomé aparece fazendo sexo oral e seus fieis são comparados a um burro, foram classificados. “A raiva muçulmana” diz a capa da revista semanal norte-americana NewsWeek, enquanto a CNN questiona se “a Primavera Árabe valeu a pena?”.

A grande mídia ocidental – e boa parte de seus articulistas – voltou a ecoar o raciocínio de “choque entre civilizações” como se a questão por trás dos protestos dos últimos dias pudesse ser explicada pela religião islâmica. O argumento central é que os muçulmanos não conseguem conviver com a liberdade de expressão norte-americana e respondem violentamente.

Agência Efe (17/09/12)

Manifestação contra o filme reuniu centenas de pessoas em Beirute, no Líbano, depois de convocação do Hezbollah

Longe de respostas simples e rápidas, essas manifestações, na verdade, oferecem muitas interrogações. Quem saiu às ruas para manifestar? Por que muitos protestos foram marcados em frente a sedes diplomáticas dos EUA? Quais as consequências destas manifestações? Quem será favorecido e quem pode perder com isso?

Os protestos estão envolvidos em uma miscelânea de atores, interesses e motivações, que incluem indivíduos, organizações políticas e Estados, e exigem um olhar crítico, distante de estereótipos ou preconceitos.

“A Inocência dos Muçulmanos” pode ter funcionado como uma faísca em um campo de trigo seco, onde grande parte da população está descontente com a política norte-americana para a região e organizações disputam o poder.

Anti-americanismo

Uma pesquisa do Instituto Zogby, de 2007, mostra que 88% dos moradores do Egito, Jordânia, Líbano, Marrocos, Arábia Saudita e Emirados Árabes se opõem às medidas dos EUA.

Entre os fatos apontados estão a invasão do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003; as políticas em apoio a Israel; a instalação de bases militares em diversos países da Ásia, África e Oriente Médio; a ocorrência de abusos e tortura em Abu Graib, Guantánamo e nas prisões afegãs; e a presença de forças de segurança privada.

Agência Efe (14/09/12)Bandeira dos Estados Unidos foi queimada durante manifestação contra o filme no Paquistão

Além disso, soldados norte-americanos no Afeganistão queimaram centenas de cópias do Alcorão e não foram sequer penalizados; muitas vezes nos discursos de autoridades, o Islã foi mencionado como uma parte importante da guerra contra o terror; em Nova Iorque, a população proibiu a construção de um centro cultural muçulmano perto das torres gêmeas; civis muçulmanos não recebem visto de entrada para os EUA.

Estes fatos apenas alimentaram a percepção dos muçulmanos de que a sociedade, o governo e as forças armadas dos EUA desrespeitam sua religião e querem interferir em seus países. “Nós nunca insultamos nenhum profeta – nem Moisés nem Jesus – então por que não podemos pedir que Maomé seja respeitado?”, questiona o egípcio Ali ao jornal New York Times.

Quebra-cabeças

Outros analistas explicam também que organizações isoladas durante os processos de transformação da Primavera Árabe podem ter se aproveitado do vídeo para incitar a população a ir para as ruas e desestabilizar a situação política. Este é o caso, por exemplo, dos salafistas na Líbia, na Tunísia e no Egito que inflamaram os manifestantes.

Muitos também apontam que as manifestações podem atender aos interesses dos EUA. Sob o argumento de que estes países estão “instáveis”, o governo norte-americano consegue justificar – e possivelmente, aumentar – a sua presença na região.

Além disso, os protestos podem afetar a percepção da sociedade norte-americana e de outros países sobre a Primavera Árabe: será que o processo revolucionário, que tirou do poder ditadores laicos, deu espaço para islâmicos radicais?

Ainda é cedo para qualquer resposta, mas as peças deste quebra-cabeça já estão postas na mesa.

Os apuros de Kevin – por omar de le roca / são paulo/sp

 

O dia amanhecera daquele jeito que só quem mora em São Paulo sabe. Nem quente e nem frio. Se colocasse agasalho, Kevin sentiria calor. Se tirasse sentiria frio. Optou por sentir calor e abrandar o passo. Estava preocupado pois  hoje era sexta feira. Tinha visitas para fazer no Tatuapé. Mas não eram as visitas que o preocupavam. Havia combinado com Omar e Sergio aquela famosa cervejinha no final do dia. Pegou o metro no Jabaquara até o escritório. Tentou ler mas não conseguiu se concentrar no livro. Seus amigos o haviam intimado. Hoje era o dia dele contar uma estória . “ Tenho vontade de contar tudo,mas tudo é muita coisa.Mas se não contar tudo como poderão entender o contexto ? “ Ficava se questionando sobre qual a melhor abordagem,que palavras iria usar,até onde poderia ir sem perder a amizade que tanto prezava ? “ Bom , posso contar sobre a violência sexual sofrida quando criança.Mas será que não iriam ter suas próprias idéias e desvirtuar tudo ? Será que a própria menção da agressão sofrida não iria desencadear uma série de dúvidas  ou pena que não preciso? Não, isso é coisa de minha cabeça. Nos damos muito bem e com certeza não os iria perder.” Passou mais uma estação e o metro estava superlotado. Por sorte havia conseguido se sentar. Pegou novamente o livro mas O Silmarillion de Tolkien estava recheado  por demais com personagens que iam mudando de nome durante a estória e precisava de muita atenção para acompanhar. “ Não , isso não posso contar.” Lembrando-se de quando entrou na empresa há seis anos atrás e havia um rapaz que o interessara. Ele até evitava de falar com ele de medo que percebesse o seu interesse. Na primeira vez que conversaram, o coração dele começou a bater com força e ele teve dificuldade de conversar. O condutor do metro avisava para não segurar as portas. Abaixou a cabeça embaraçado ao lembrar daquele dia em que se encontraram por acaso na hora do almoço. Omar e Sergio tinham saído para ir ao banco e Kevin havia atrasado devido a um problema no seu computador. Ele tinha acabado de se sentar quando o rapaz o viu e veio com abandeja em sua direção. “ E ai cara ? Tudo bem. “ “ Tudo na paz.” Costumava responder Belê mas ficou com vergonha. O rapaz sentou-se em frente dele.Era uma mesa apenas para dois naquele restaurante por quilo ao qual iam de vez em quando. Hoje tinha salmão que por coincidência os dois gostavam. Kevin estava meio sem jeito e precisava se esforçar para sentir o sabor do peixe.O rapaz falou bastante sobre si próprio e sorria com freqüência. Em determinado ponto,o rapaz ainda rindo, tocou o braço de Kevin. O garfo caiu no prato, ele teve um pequeno tremor e tossiu para disfarçar. Sem querer que ninguém percebesse  a  pequena mancha que is se espalhando por sua calça. Por sorte estava de paletó e conseguiu ir ao banheiro sem chamar atenção.    ” Não cara, você esta louco ? Não poderá contar isso a ninguém . “ Então pensou em contar sobre a adolescência. Os anos de sofrimento, entre querer contato masculino e a vergonha de querer. O sexo sempre fora estigmatizado na família dele. Tudo relacionado a ele era doentio e sujo.Tudo era errado. E ele foi crescendo entre o freio e a espora. Ser veado, que era como se dizia na época, era a vergonha das vergonhas. Eram pessoas que ficavam sempre a margem. Lógico que havia os exageros, os exibicionismos. Moravam perto da Record e um ramo da família tinha contato com algum artista. Que se comprazia em dizer quem era e quem não era. E ele não sabia o que. Nada era conversado nada era esclarecido. Na família era assunto tabu e pelo que ele já vivenciara, sabia que nunca poderia abordar suas dúvidas. “ Pô cara, primeiro eles nem vão ouvir. E depois o que iriam falar ? e pensar ? “ Desceu em sua estação e seguiu para o escritório. “ Poderia falar de quando comecei a ter ereções nos lugares mais incômodos e ficava aterrorizado que alguém visse. E que recorri aos livros para aprender alguma coisa e abrandar meus conflitos.E quando aprendi com amigos de classe o que era masturbação e a experimentei, cheio de culpa no banheiro de casa.  Mas acho que não iriam se interessar. Ou quando descobri aquele livrinho que falava sobre a vida sexual da Belinha, escondido de meu pai. Ou quando, cedendo ao desejo, comecei a usar objetos. Puta merda cara ! Não tem mais nada que você possa pensar?” Depois de abrir seus e-mails, pegou os endereços que precisava e saiu para as visitas. O sol não havia saído,mas não estava frio. Pegou o metro, folheou a revista que pegara emprestada e falava sobre combinações de alimentos. Chegou ao Tatuapé e fez as visitas. Gostava de conversar com o gerente de uma das agências, que lhe lembrava daquele rapaz. Mas ele havia saído para tomar café e ele não conseguiu motivo para prolongar a conversa. Voltando a rua, passou por um sebo e procurou entre os livros em inglês. Acho um de Anais Nin e abrindo ao acaso achou a passagem que ela dava um tratamento manual ao outro personagem. Lembrou-se do trecho de  Quarenta tons de cinza . E saiu rápido da livraria com culpa de imaginar-se na posição dos personagens. Fez mais uma visita, e depois outra. Sem problemas. Seguiu para o shopping pensando que alguma coisa poderia acontecer no banheiro de lá. “ Acho que não interesso a mais ninguém.” Pensava quando cruzava com alguém e espichava o olho. “ Poderia falar do tormento de querer e não poder por vergonha ou por ser considerado errado. De sonhar acordado sem poder concretizar o sonho,por medo de ofender aos outros , com vergonha de não ser normal. Repetiu para si mesmo a mesma frase que dizia a uma amiga “ Não nascemos para ser normais.” E lembrou-se que ela questionara na época sobre o que é ser normal ? Pelo caminho ia pensando no almoço. Queira uma massa.A menos que tivesse Pizza Hut. Havia e ele pediu. Passou pelo banheiro para escovar os dentes mas estava vazio. “ Os bons peixes já foram fisgados”. Era um pensamento recorrente. Mas procurava manter o otimismo.Vou continuar tentando.Com certeza acharei alguém. “ Só gostaria de ter contato com alguém que fosse decente.Não precisava ser nenhum monumento.” Mas é claro que queria sim,um corpo bem desenhado. Mas alguém que não fosse vazio. E pensava nas inúmeras pessoas com quem havia cruzado durante a vida e que,apesar de terem uma aparência interessante, ao abrirem a boca, estavam automaticamente desclassificadas de seu interesse. Dependendo da época, até procurava puxar conversa com alguém sabendo que ira desencanar da pessoa na sequência. Voltou ao escritório. Havia alguns e-mails ainda por responder. Um relatório para atualizar. Algumas ligações. Quando olhou no relógio, já estava na hora de sair. As sextas saiam meia hora mais cedo. Omar lhe mostrou o pulso com o dedo, como se dissesse ‘ É hoje’. Sergio foi ao banheiro. Kevin respirou fundo, arrumou a papelada,desligou o computador. Com a mão mesmo ajeitou o cabelo. Assoou o nariz ali mesmo, com uma toalha de papel que havia trazido do banheiro do shopping, quando o faxineiro não estava olhando. Pegou sua valise, acenou para a loira da contabilidade, que lhe mandou um beijo. Sentou-se na poltrona giratória do hall dos elevadores para esperar seus amigos. Eles não demoraram. Mas demorou o elevador, que descia sempre cheio. Enfim acharam lugar. O sol estava se pondo. O céu estava imenso a seus olhos.Foram caminhando para o bar na prainha ( que de praia não tinha nada, era tipo um calçadão a que davam este nome para ficar mais atraente).Pediram uma mesa abrigada, que nunca se sabe quando pode chover. Sentaram-se e começaram a conversar.Então  Kevin, criando coragem, limpou a garganta e começou com Era uma vez…

Era um amanhecer daqueles, em que o céu acabara de se separar do mar e tingia-se das cores mais suaves de uma aquarela. Daquelas manhãs que o tempo parecia um tempo entre os tempos e que os sonhos  sonhavam com sonhadores de olhos abertos. Eu havia passado a noite observando as estrelas cadentes que sempre apareciam naquela praia deserta. Não havia a sensação nem de frio e nem de calor, a brisa soprava tranqüila e meus sentidos estavam aguçados. Pisquei os olhos para ter certeza do que estava vendo. Era um barco?      Sim , mas mal se destacava entre as ondas.Observando melhor ele se aproximava rápido como se deslizasse sobre elas firme e inabalável. Era de madrepérola e as velas, mostravam cores que eu não conhecia, mas sempre suaves. Pássaros marinhos faziam o cortejo, e os golfinhos saltavam ao redor. A praia era como uma meia lua de areia cercada por penhascos altos e o acesso era difícil. O barco agora diminuia a velocidade aos poucos e foi chegando na areia enquanto os pássaros se afastavam brincando com os golfinhos.Uma figura se destacava na proa. Ela tinha olhos verdes que brilhavam com as estrelas de Órion e cabelos pretos e curtos e vestia um longo vestido lilás que tremeluzia como se milhares de pequenos  pontos  acendessem e apagassem  captando os primeiros raios de sol.O barco parou e uma passarela foi descida, com cuidado para não ferir as estrelas do mar que levantavam suas cabeças em saudação ,para que ela chegasse na areia sem molhar os pezinhos. Começou a andar em direção a parede rochosa. A cada passo que ela dava, brotavam de suas pegadas  pocinhas de água  onde minúsculos peixinhos cor de cobre polido brincavam e pulavam de uma pegada a outra seguindo-a. Continuou na direção do penhasco. Quando estava a poucos passos, a rocha se transformou em uma parede de cristal liso e transparente e uma pequena porta abriu-se para o interior luminoso. Um pequenino pássaro cinzento sobrevoou e ela estendeu a mão para que ele pousasse nela. Atravessou o portal cristalino e saiu do outro lado que eu ainda desconhecia. O pássaro cinzento havia se transformado num beija flor branco com rabo longo que mostrava todas as cores do topázio. Havia mais um trecho de areia e logo mais a frente uma ponte de pedra, mais antiga que o tempo, levava ao outro lado também de areia. Quando  ela atravessou a ponte e pisou no chão, a areia ia se transformando num gramado verdejante com florzinhas azuis e as rochas no fundo em árvores muito verdes com frutos dourados e prateados. No meio da clareira mágica, ela fez um lento rodopio . Então, de seu vestido ( que era verde azulado ,ou azul esverdeado ou turquesa, ainda não sei ) voejaram milhares de borboletas lilases que pararam por um segundo ao redor dela, brilhando intensamente  e que seguiram como uma nuvem de lavanda para as árvores próximas . Ela fez  uma pequena mesura, e traçou  um sinal secreto no ar ao qual um pégaso fantástico, com asas de  penas muito brancas  atendeu, permitiu que ela subisse nele e partiram para onde o céu encontra o mar,onde o fogo encontra o ar e a água encontra a terra. E eu fiquei ali. Sem ter certeza do que se passara. Sem saber do tempo que era. Olhei para trás e só vi minhas pegadas que o vento forte ia apagando na areia.

Kevin ficou encabulado com os aplausos das mesas próximas.Não havia percebido que chamara tanto a atenção.Omar e Sergio levantaram-se para abraça-lo. Curvou-se meio de brincadeira para agradecer o carinha enquanto sua mão subia ao rosto para espantar uma lágrima.

 

 

O FURTO DO ALECRIM – por olsen jr / rio negrinho.sc

O FURTO DO ALECRIM

Olsen Jr.

   A garagem tinha sido adaptada para receber as celebrações de aniversário do primogênito da casa que estava comemorando 13 anos. Os balões coloridos (mobilizaram a família toda na tarefa de enchê-los) estavam onde deveriam estar. Uma plotagem meticulosamente realizada felicitava publicamente o dono da festa. Antes que me perguntem, sim tinha os indefectíveis “brigadeiros” e os indispensáveis “canudinhos recheados com maionese” o que, sem isso, nenhuma comemoração é digna de nota. Aos refrigerantes tradicionais somava-se a coqueluche do lugar, a famosa “Gengibirra” uma bebida cujo ingrediente principal é o gengibre e é muito apreciada.

O dono da festa está como gosta, ora compartilhando os seus jogos eletrônicos com alguns convidados, ora animando pequenos grupos de amigas onde pontifica como o centro das atenções.

Observo o vizinho da casa em frente que acaba de chegar. A residência possui um jardim bem organizado mesclando plantas ornamentais e também outras de utilidades domésticas. Tudo bem cuidado e deixando claro que o morador do lugar é alguém com mentalidade prática e bem determinado.

Depois de cumprimentar a todos enquanto experimenta um canudinho de maionese, fica prestando a atenção no que diz uma das convidadas da festa exibindo dois belos ramos de alecrim… “Olhem só que coisa mais linda, nunca vi um alecrim tão bonito, viçoso, com estas folhas verdes brilhantes… Já tentei de tudo lá em casa e não consigo fazer eles vingarem, deve haver algum segredo, afinal sei que se dão bem em solos mais secos e nem precisam de tantos cuidados”… “E onde você achou estes?” Indaga outra convidada interessada naquela planta… “Ali no jardim daquela casa em frente” – responde ingênua e prontamente…

Foi quando o dono do jardim onde a planta fora retirada resolveu intervir, depois de limpar a boca com um guardanapo, dar uma pigarreada chamando a atenção para si, timidamente, mas seguro do que estava fazendo, afirmar “então a senhora gostou do meu alecrim”… Um breve silêncio açambarcou o grupo de mulheres, e antes que alguém se manifestasse, continuou “o alecrim já era cultivado pelos romanos que o chamavam de rosmarinus, nome em latim e que significa “orvalho da noite” e além de servir de tempero também era usado para fins medicinais, religiosos e até em perfumaria… E não se confunda com o rosmaninho que é outra coisa de gênero bem diferente”…  Aquela breve intervenção deu tempo da mulher que segurava os ramos de alecrim cair em si, e levemente sem graça confessar “olha só e eu me exibindo com a beleza da planta que peguei do teu jardim sem pedir autorização”… Não terminou o pensamento e todos a estas alturas começaram a rir… “Não tem importância – disse o homem – eu sempre distribuo para quem gosta e sabe dar valor e depois, considero um grande elogio para mim que estas coisas (referia-se ao furto), às vezes, aconteçam…

Depois, a mulher se desculpou e tudo acabou em gargalhadas… ”Quem iria supor, brincava ela, que logo o proprietário daquele belo jardim fosse aparecer e me flagrar em uma confissão dessas?”…

Mais tarde pouco antes de ir embora, pensei que alguns pés de alecrim poderiam ficar bem lá em frente da minha casa, para isso deveria esperar o dono das plantas se retirar, então, sem que percebesse, me apropriar de alguns ramos de alegrim… Claro, como bem lembrou, seria mais um grande elogio ao bom gosto e a excelência de seu jardim!

Aquelas circunstâncias me fizeram lembrar um conto “Os Crisântemos”, de John Steinbeck onde a planta é usada como um símbolo que codifica o amor de sua cultivadora para compensar a ausência deste sentimento entre ela e o marido, mas é outra história…

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NOTAS:

A música poderia ser esta…

Composta por Horace Ott…

Tem a letra de Bennie Benjamin, Gloria Caldwell (mulher de Horace) e Marcus Sun…

Foi concebida para a cantora Nina Simone que a gravou em 1964…

Uma versão lenta e introspectiva bem ao seu jeito, aliás uma artista muito visada por ser considerada uma “ativista” pelos direitos civis, etc, etc…

A Novela que já se conhece…

Mas quem “matou a pau” foi o grupo “The Animals”…

A revista Rolling Stone inclui esta “Please don’t let me be misunderstood” entre as 500 melhores músicas de todos os tempos…

Muitos artista já fiseram versões dela…

Santa Esmeralda, Joe Cocker, Moody Blues, Cyndi Lauper, Elvis Costello, Dire Straits… Entre outros…

Vai com o carinho do poeta, sempre!

http://www.youtube.com/watch?v=HHjKzr6tLz0&feature=related

“NOITES ANTIGAS” de NORMAN MAILER. 3ª EDIÇÃO, 950 PÁGINAS – resenha de arnaldo brandão

 

É óbvio que os dois competiam, Criação é de 1981, Noites Antigas é de 83, a temática é semelhante. O Mailer entrou em Harvard aos 16 pra fazer engenharia, depois abandonou. Foi boxeur, entre outras coisas. Descendia de outro macaco. Escrevia livros enormes, este, “Noites Antigas” bate de longe “Criação” do Gore Vidal. Não bate só em tamanho, mas também, em qualidade. Os caras trabalhavam duro e subiam o morro até os píncaros, mas as editoras americanas bancavam. É uma boa oportunidade pra se observar como o mundo mudou. Outro dia me vem o Paulo Coelho, aquele escritorzinho bem ruinzinho, que pertence a Academia Brasileira de Letras só porque vende livros, e propõe botar o “Ulisses” em 14 caracteres no twiter, ele queria nos lembrar que estamos na era do quanto menor o biquíni, melhor, isso já sabemos desde que o Gabeira voltou com sua tanga, mas com um livro interessante debaixo do braço.

E o Paulo Coelho escreve o que: umas bobagens que misturam auto-ajuda com misticismo barato. É por essas e outras que a literatura no Brasil chegou onde chegou, e um autor como o Jonhatan Frazen, que não se pode dizer que seja um bam-bam-bam, fica esnobando os brasileiros na Feira de Paraty, é claro que ele percebeu de cara que não se tratava propriamente de um evento literário, tinha virado um mafuá, por essas e outras não fui lá receber meu prêmio. Como ele pretende ser levado a sério, assim como eu, pulamos fora. A entrevista do pessoal da Veja com o Gore em 1987 foi a mesma coisa, o cara ficava fazendo gozações. Ainda bem que existem os leitores do Facebook e dos Torpedos que leem estas resenhas e ficam sabendo das coisas. Quer dizer, só uma meia-dúzia de contar nos dedos, mas como diz o ditado: “de grão em grão a galinha enche o papo” e depois que estiver bem gordinha vai pra panela, ou então vai ser exposta naquelas televisões de cachorros de porta de padaria.  É claro que o cara não precisa escrever um livrão enorme pra produzir uma obra-prima, vide meu texto favorito: “O Coração das Trevas”, se quiserem um brasileiro, tem o Raduan Nassar, que abandonou o ringue e foi criar coelhos. Às vezes, o cara precisa de 1.000 páginas pra dar seu recado, é o caso do Mailer, talvez o melhor escritor da segunda metade do século XX.  Ele não era tão famoso quanto o Gore Vidal, embora tão polêmico quanto. Nasceu pobre, morava no Brooklin. Os dois disputavam o título de maiores escritores do EUA e certamente do mundo. Se eu puder opinar diria que ele é o melhor. Com este livro ganhou mais uma vez o Premio Pulitzer, isto foi em 1980. O que tenho em mãos é a terceira edição brasileira, tradução de Aulide  Rodrigues. É um livro que pode até ser colocado na estante de “romances históricos”, o que não significa absolutamente nada. Segundo Mailer, falando dos livros de história, mas dando um “jab”, (tipo aqueles que o Muhamad Ali dava) no queixo do Gore: “o que circula por aí não é história, é uma série de romances extremamente sóbrios, escritos por homens que geralmente não tem vastos talentos literários, tem muito menos a dizer sobre o mundo real que os romancistas”. Assino embaixo, embora ele tenha lido dezenas de livros de história para escrever este. O Mailer não escreveu apenas um livro sobre o Egito Antigo, no fundo a obsessão dele é, como sempre foi, os EUA e o totalitarismo, que ele analisa através de um olhar prolongado sobre a superfície irregular das vidas de um tal Manhenhetet. Ele certamente é da estirpe do Gorvaidal, Guimarães Rosa e outros, que viveram várias vidas, uma só não seria suficiente para entenderem o que queriam entender.

O livro começa com um prólogo do W.B. Yeats, grande poeta irlandês: “creio na pratica e na filosofia do que se convencionou chamar de magia e no que devo chamar de invocação dos espíritos…”. Se Yeats e Mailer acreditavam, porque eu não acreditaria. O texto se divide em 7 livros, ou melhor, 7 capítulos. E estes capítulos são subdivididos em subcapítulos, como se quisesse dar, a nós leitores, um tempo para respirar. O livro se passa entre a 19ª e 20ªdinastias, 1290 a 1100 aC. O narrador é um tal Manhenhetet que durante as suas vidas encarna e reencarna várias vezes e passa a se chamar Manhehetet I, II e assim sucessivamente. Neste périplo ele convive com deuses, faraós e principalmente com Nefertiti, e como vocês podem imaginar, toda vez que ela aparece, eu não durmo direito, situação muito parecida quando o Gore Vidal falava de Babilônia. Ela costumava usar uma espécie de blusa que deixava um dos seios de fora. Era lindíssima, nada a ver com Cleópatra, que não era essas coisas que Roliude disse. Vamos ao que interessa, o texto do Mailer.

“A escuridão era profunda. No entanto agora eu sabia. Estava em uma câmara subterrânea de dez passos de comprimento por cinco de largura, e percebi (com a rapidez de um morcego) que o compartimento estava vazio…No escuro meus dedos encontraram um nicho entre dois blocos de pedras, não maior que uma  cabeça humana. Pelo hálito fresco devia conduzir à noite lá fora.” Pelo texto já devem ter percebido, que o estilo é muito diferente do Gore, muito mais poético, mais dentro da tradição inglesa e eventualmente americana, mais caprichado, mais tudo. Notem que a descrição alude a um morcego, só pra criar um ambiente mais assustador. O personagem acaba de reencarnar e começa a entender que tinha um corpo, e ele tinha a memória do que havia vivido, e então vai andando pelo que se chama hoje de “Vale dos Mortos”. Então ele se lembra do pai dele, que era ”superintendente do estojo de cosméticos” diz ele, o Manhenhetet, que preferia morrer de novo a ambicionar um título como aquele. Estão rindo, vocês não fazem ideia, mas tive um grande amigo que era uma figura lendária (participou diretamente da construção do Alvorada e era amigo do Plínio Salgado) e por acaso, meu ex-sogro. Ele me contou que mesmo os militares tinham a disposição uma maquiadora 24 horas por dia. Jango e a Maria Teresa eram clientes constantes, assim como JK. Daí podem fazer ideia da importância da coisa, para os egípcios a maquiagem era tão importante quanto a alimentação. Por falar em JK, quando comecei a escrever o romance “Encaixotando Brasília”, cogitei seriamente em contar a história de Brasília a partir da tumba de JK, que seria o protagonista (Benício registra a ideia, por favor). Não desisti ainda. Para concluir, vamos ao texto altamente poético do Mailer e vejam se ele não é muito melhor que o Gore: “…pois agora um cometa se aproxima. Sou açoitado por um vento terrível…Navegamos através de domínios vagamente avistados, afagados pelas ondas do tempo. Aramos campos de magnetismo. Passado e futuro se unem em tempestades e nossos corações mortos vivem como o relâmpago nos ferimentos dos deuses.”

 

Mais de Eyjafjallajokull – Islândia

Mais de Eyjafjallajokull

Como cinzas do vulcão da Islândia Eyjafjallajokull continuava a manter o espaço aéreo europeu fechado no fim de semana, afetando milhões de viajantes de todo o mundo, algumas agências governamentais e companhias aéreas discordaram sobre as proibições de voo. Alguns espaço aéreo restrito agora está começando a se abrir e alguns voos limitados estão sendo autorizados agora como as companhias aéreas estão pressionando para que a capacidade de julgar as condições de segurança para si. O vulcão continua a Rumble e lançar cinzas para o céu, se a uma taxa ligeiramente diminuída agora, como a nuvem de cinzas dispersar caiu mais perto da terra, e da Organização Mundial de Saúde emitiu um alerta de saúde para os europeus com problemas respiratórios. Reunido aqui estão algumas imagens da Islândia ao longo dos últimos dias. ( 35 total de fotos)

Estrias relâmpagos no céu como fluxos de lava de um vulcão Eyjafjallajokul em 17 de abril, 2010. (REUTERS / Lucas Jackson)

O vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar pouco antes do pôr do sol ON sexta-feira, 16 de abril, 2010. Trações grossas de cinzas vulcânicas cobriu partes da Islândia rural na sexta-feira como uma pluma, vasto e invisível do grão pairava sobre a Europa, esvaziando os céus de aviões e enviando centenas de milhares de pessoas em busca de quartos de hotel, bilhetes de trem ou aluguel de carros. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Vista lente longa de fazenda perto do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção final em 17 de abril de 2010.(Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Um carro é visto dirigindo perto Kirkjubaejarklaustur, Islândia, através das cinzas da erupção do vulcão sob a geleira Eyjafjallajokull na quinta-feira 15 de abril de 2010. (AP Photo / Omar Oskarsson) #

Pedaços de gelo de uma inundação glacial desencadeada por uma mentira erupção vulcânica na frente do vulcão em erupção perto ainda Eyjafjallajokul em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Ash cobre vegetação em Eyjafjallasveit, no sul da Islândia abril 17, 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Esta foto aérea mostra o vulcão Eyjafjallajokull billowing fumaça e cinzas em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Uma mulher está perto de uma cachoeira que foi sujo pelas cinzas que tem acumulado a partir da pluma de um vulcão em erupção perto de Eyjafjallajokull, na Islândia em 18 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Cavalos luta perto da cidade de Sulfoss, a Islândia como um vulcão em Eyjafjallajokull entra em erupção em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Agricultor Thorarinn Olafsson tenta atrair seu cavalo de volta para o estábulo como uma nuvem de cinza negra paira em cima Drangshlid em Eyjafjöll em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Um avião de pequeno porte (superior esquerdo) voa fumaça e cinzas passado ondulando de um vulcão em Eyjafjallajokul, na Islândia em 17 de abril de 2010.(REUTERS / Lucas Jackson) #

Fumaça ondas de um vulcão em Eyjafjallajokull em 16 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

O sol se põe em um céu salpicado com cinzas, sobre o Lago Genebra, como visto a partir dos vinhedos de Lavaux, pela UNESCO, na Suíça, em 17 de abril de 2010. (FABRICE COFFRINI / AFP / Getty Images) #

O vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar sábado, 17 de abril de 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Agricultores se unem para salvar o gado da exposição ao cinza tóxica vulcânica em uma fazenda em Nupur, Islândia, como o vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar sábado, 17 de abril de 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Uma equipe de resgate ajuda a proprietários de terras para limpar cinzas vulcânicas de um telhado em Seljavellir, Islândia em 18 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Sheep agricultor Thorkell Eiriksson (R) e seu irmão-de-lei Petur trabalho Runottsson para selar um celeiro de ovelhas, em turno caso ventos e cinzas de um vulcão em erupção através das terras do vale em sua fazenda, em Eyjafjallajokull 17 de abril de 2010. A atual temporada é quando os cordeiros primavera nascem e tais animais jovens são especialmente suscetíveis a cinza vulcânica em seus pulmões para que eles devem ser guardados no interior. (REUTERS / Lucas Jackson) #

A nuvem de cinzas escura paira sobre o sul da Islândia costa 17 abr, 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Fumaça relâmpago, e lava acima vulcão Eyjafjallajokul Islândia em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Ver visto de uma estrada que leva ao vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010.(Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Um homem corre ao longo da estrada, tirando fotos do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Uma enorme nuvem de cinzas se arrasta sobre o sul da Islândia costa 16 de abril de 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Usando uma máscara e óculos de proteção contra a fumaça, fazendeiro Berglind Hilmarsdottir de Nupur, Islândia, olha para o gado perdidas em cinzas nuvens, sábado 17 de abril, 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Um agricultor verifica cinzas vulcânicas lamacenta em sua terra na Islândia em 18 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Esta imagem aérea mostra a cratera expelindo cinzas e nuvens de areia no cume do vulcão Eyjafjallajokull na Islândia sul geleira Sábado Abril 17, 2010. (AP Photo / Arnar Thorisson / Helicopter.is) #

Um piloto tira fotos do vulcão Eyjafjallajokull fumaça ondulante e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

As equipes de construção reparar uma estrada danificada pelas cheias do derretimento glacial causada por um vulcão em Eyjafjallajokull, na Islândia 17 de abril, 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Cavalos pastam em um campo perto do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça escura e cinzas durante uma erupção na noite de 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Ingi Sveinbjoernsso leva seus cavalos em uma estrada coberta de cinzas vulcânicas volta a seu celeiro em Yzta-baeli, Islândia em 18 de abril de 2010. Eles vêm a galope para fora da tempestade vulcânica, cascos abafados nas cinzas, crinas voando. 24 horas antes, ele havia perdido os cavalos islandeses shaggy em uma nuvem de cinzas que se transformou o dia em noite, cobrindo a paisagem de lama cinza pegajoso. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

A nuvem de cinzas do Eyjafjallajokull córregos sudoeste da Islândia vulcão ao sul do Oceano Atlântico Norte em uma fotografia de satélite feitas 17 de abril de 2010. O vulcão em erupção na Islândia enviou tremores novos em 19 de abril, mas a nuvem de cinzas que provocou caos aéreo na Europa baixou a uma altura de cerca de 2 km (1,2 milhas), o Instituto de Meteorologia disse. (REUTERS / NERC Estação de Satélites Receber, Universidade de Dundee, Escócia) #

Uma mulher faz uma chamada de telefone no hall de entrada vazia do Aeroporto de Praga, Ruzyne, após todos os vôos foram cancelados devido a cinzas vulcânicas nos céus provenientes da Islândia 18 abr 2010. As viagens aéreas na maior parte da Europa estava paralisada pelo quarto dia no domingo por uma enorme nuvem de cinzas vulcânicas, mas voos de teste holandeses e alemães realizado sem danos aparentes parecia oferecer esperança de trégua.(REUTERS / David W Cerny) #

Lava e luz relâmpago a cratera do vulcão Eyjafjallajokul em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

O primeiro de três fotos por Olivier Vandeginste, tomada 10 km a leste de Hvolsvollur em uma distância de 25 km a partir das crateras Eyjafjallajokull em 18 de abril de 2010. Relâmpago e movimento turva cinzas aparecem nesta exposição de 15 segundos. (© Olivier Vandeginste ) #

O segundo de três fotos por Olivier Vandeginste, tomada a 25 km das crateras Eyjafjallajokull em 18 de abril de 2010. A pluma de cinzas está iluminado por dentro por flashes de raios em várias esta exposição 168 segundo. (© Olivier Vandeginste ) #

O terceiro dos três fotos por Olivier Vandeginste, tomada 10 km a leste de Hvolsvollur Islândia em 18 de abril de 2010. Relâmpagos e lava incandescente iluminar partes da pluma de cinzas Eyjafjallajokull maciço neste exposição de 30 segundos. (© Olivier Vandeginste ) #

OS BRASILEIROS NO CHILE DE ALLENDE – por paulo timm / portugal.pt

 

Enquanto o regime militar se estabilizava no Brasil em 1970, não só pela repressão amparada no AI-5 , mas também mercê dos êxitos econômicos inesperados,  aumentava, dia a dia, o número de exilados brasileiros em Santiago. Teriam chegado a dez mil.  Lá encontraram, no ano de 70, uma fase de grande euforia, marcada  pela vitória da Unidade Popular que elegeria o primeiro Presidente marxista na América Latina, em plena Guerra Fria e contra os interesses dos Estados Unidos;  o  ano seguinte foi de esperança, ao se conhecerem os primeiros indicadores de desempenho da economia divulgados pelo Ministro Pedro Vuskovic e de aceitação do Governo Allende; o terceiro, 1972, de mãos à obra, com intensa mobilização de toda a comunidade exilada nos trabalhos voluntários, de forma a compensar a boicote de setores empresariais, e de incorporação em ações estatais ou político-partidárias; e o ano de 73, até o dia 11 de setembro, dia do golpe,  de grandes apreensões .

“Em 1973, a inflação chegou a cifras de 381,1%, os produtos básicos de consumo desapareceram das prateleiras, o desemprego crescia assustadoramente e a produção e o valor da moeda de então, o Escudo Chileno, em proporção inversa, caíam de forma vertiginosa.”

                                              (wiki)

 

Os brasileiros, mergulhados na vida cotidiana do Chile, iam aprendendo melhor a língua, os costumes, as variantes culturais e, sobretudo, a especificidade da via chilena. Alguns casamentos. Todo o começo é sempre difícil. Mas havia as compensações: A paisagem fascinante, a vida organizada, as comidas – o pastel de choclo, as empanadas, os “locos” – e muita poesia musical, estimulada pela presença de Pablo Neruda nas manifestações e espetáculos.

Politicamente,  foi muito difícil entender aquela obstinação que tinham os chilenos com a estabilidade institucional do país. Ela fora convertida em mito pela esquerda chilena. Ela confiava pia e sagradamente que a profissionalização de suas forças armadas, há 40 anos distante de qualquer intervenção, jamais seria capaz de fazer o que fizeram em outros países do continente. A via chilena, enfim, era um dogma, que o Presidente Allende, levou, coerentemente, às últimas conseqüências.  Anos mais tarde, indaguei, em Porto Alegre, numa Mesa Redonda sobre Economia, na Assembléia Legislativa,   em que participava com Pedro Vuskovic, se Allende, enfim, não sabia do golpe. Ele, Ministro, confiou-me que sim, Allende pressentia, e que chamara as lideranças que o sustentavam advertindo-as para o imperativo de uma ação revolucionária das instâncias Partidárias, vez que ele, jamais o faria, pelo juramento à Constituição. Não houve resposta. O mito da estabilidade as paralisara totalmente. Um pequeno mas atuante grupo, à esquerda da Unidade Popular, o MOVIMIENTO DE IZQUIERDA REVOLUCIONÁRIA – MIR-  , altamente consciente da gravidade da situação política que se deteriorava ao longo de 1973, comprometendo a sobrevivência do Governo, em decorrência de boicotes empresariais,  greves nos transportes e “acaparamientos”, que consistiam em retiradas de produtos básicos das prateleiras e seu depósito em “escondites”, tentava , em vão, uma mudança de rumos. Mas poucos lhes davam ouvidos. A “via chilena”se consagrara , acima de qualquer questionamento. Insólita, como a qualificou Fidel Castro, em visita – incômoda- ao país. Mas imperativa.

Toda esta trajetória da Paixão e Morte da Via Chilena , não foi apenas vivenciada pelos brasileiros que lá estavam. Hoje ela está fartamente avaliada em diversos livros e Teses acadêmicas, como,por exemplo,  “ Salvador Allende e o mito da estabilidade chilena”, de Ana Cristina Augusto de Souza –http://www.revistaintellector.cenegri.org.br/ed2007-06/anacristina-2007.pdf , na qual se pode encontrar farta indicação bibliográfica. Naquela época, porém, cada grupo a avaliava segundo sua ótica política própria.

A “aristocracia” exilada, mais antiga e acomodada nos órgãos internacionais sediados em Santiago ou na Universidade , quando não no próprio Governo, como Conceição Tavares, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, pactuou firmemente com o mito da estabilidade. Todos eles tiveram um papel importantíssimo na colônia pela crítica ao regime militar no Brasil e apoio à “Caixinha”. Creio que um dos últimos responsáveis por ela , aliás,  foi o nosso saudoso conterrâneo Paulo Renato,  funcionário da OIT, cuja temperança política não fazia par com o destemor e espírito de solidariedade que demonstrou nos dias cruciais do Golpe. Muitos lhe devem a vida. Eu lhe devo a fidalguia de ter acompanhado minha segunda esposa, chilena, acusada pelo ex-marido como terrorista e seqüestradora de uma filha, a um Tribunal.

Outros segmentos dos brasileiros, enfim,  acomodavam-se em seus respectivos grupos políticos. E com a quantidade de gente que já lá estava em 1973, era impossível fazer qualquer classificação. Uma coisa, porém, é certo: Tirávamos lições.

A primeira lição que aprendemos no Chile foi sobre a importância da democracia. A esquerda brasileira vinha de uma formação estalinista, propensa a descartar qualquer importância às Instituições e ao Estado, tomados como burgueses. Mesmo com as tensões da Via Chilena e seu posterior fracasso, começamos a dar um valor crescente à construção da democracia como um valor universal. E ao Estado como instrumento social. Pouco depois, Carlos Nelson Coutinho nos brindaria como um artigo, no Brasil, com este título e que inauguraria o arejamento da esquerda com o contributo gramsciano da  importância da hegemonia e não apenas do Poder para o socialismo.

Outra lição importante, para todos nós, foi a compreensão das alianças, corolário do anterior, na montagem de estratégias de Poder. Pudemos perceber, na experiência chilena, que numa sociedade moderna a classe média e suas representações políticas têm um papel importantíssimo, que pode ou não viabilizar estratégias de mudança. Digo até, que essa foi uma lição decisiva para pensadores marxistas ortodoxos, como Emir Sader e Marco Aurélio, na montagem de estratégias de governabilidade do Governo do PT no Brasil, a partir de 2004.

Decisivo foi também o entendimento de uma dialética interna da esquerda, quando,  dentro e fora de um Governo , há fronteiras a serem respeitadas. Muitos até debitam o enfraquecimento de Allende às divergências internas da UNIDADE POPULAR ou à existência de uma ultra-esquerda, o MIR, que lhe teria solapado o vigor ideológico. Ledo engano! As divergências internas foram extremamente salutares ao  regime e o MIR, conquanto de extrema esquerda, e fora do Governo, jamais abriu baterias contra a pessoa do Presidente Allende. Pelo contrário, conta-se que a Guarda Pessoal de Allende era feita por militantes do MIR. Nada parecido com o que hoje presenciamos na cena brasileira, na qual  , a cada defecção escorre um filamento de ódios incontidos.

Finalmente, os tempos idos e vividos no Chile realimentaram a esquerda brasileira de um elemento decisivo na sua decantação humana: a solidariedade. Talvez até pela necessidade. Mas foi um fato, talvez extraviado.   As portas se abriam a cada um que chegava, amizades se fortaleciam no apoio a pessoas que deixavam para trás família, maridos ou pais presos, empregos, estabilidade. Refinava-se o ingrediente básico de uma visão de mundo mais fraterna, curiosamente destacado sempre pelo próprio Allende, ao  frisar, incansavelmente,  que tudo deveria começar no coração de cada chileno. Tenho o orgulho de ter, nesse processo, aberto não só nossa casa a muitos camaradas, maioria gaúchos exilados, com os quais me reaproximei,  não tanto em obediência à fórmulas doutrinárias de socialismo, mas ao reconhecimento de valores humanos como caráter, coragem , determinação e amizade.

No dia 11 de setembro de 1973, tudo acabou. Nas cinzas do La Moneda , Palacio Predencial bombardeado,  as últimas palavras del “Chicho” , testemunhando a barbárie :http://www.youtube.com/watch?v=g1QJ-y_xUmk  E o paradoxo de ter, com o fracasso da “Via Chilena”, enterrado a ilusão militarista e condoreira da esquerda do assalto ao Poder. A partir de então, surgia na América Latina uma nova esquerda, francamente aberta a comprometida com a democracia, só tática, mas estrategicamente.

Paulo Timm é economista.

TARSO GENRO (*): O “novo” (velho) conglomerado / porto alegre.rs

A tentativa de separar Lula e Dilma, como se o projeto de governo da presidenta fosse uma ruptura com tudo que Lula representou para o país, nos seus dois governos, redundou num fracasso completo. Só quem não conhece Dilma poderia achar que ela embarcaria nesta armadilha primária. Mas a tática da direita e da centro-direita brasileira, no contexto político que vive o país e a América Latina, não foi ingênua. Ela revela uma estratégia bem concebida para restaurar a hegemonia do “conglomerado” centro-direitista que já reinou no país.

 

O julgamento do chamado “mensalão” e o esforço que vem sendo feito pela mídia, sustentado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, de separar a presidenta Dilma do presidente Lula, configura um novo momento da luta política no país e exige uma nova atitude da esquerda para disputar os rumos da revolução democrática em curso no Brasil.

A tentativa de separar Lula e Dilma, como se o projeto de governo da presidenta fosse uma ruptura com tudo que Lula representou para o país, nos seus dois governos, redundou num fracasso completo. Só quem não conhece Dilma poderia achar que ela embarcaria nesta armadilha primária. Mas a tática da direita e da centro-direita brasileira, no contexto político que vive o país e a América Latina, não foi ingênua. Ela revela uma estratégia bem concebida para restaurar a hegemonia do “conglomerado” centro-direitista que já reinou no país.

Os protagonistas desta estratégia têm uma visão voltada, não somente para as próximas duas eleições presidenciais, mas também para o esfacelamento do principal partido de massas da esquerda brasileira. Com seus acertos, erros, desvios e crises -que de resto atingem toda esquerda mundial no “pós muro”- o PT vem mudando a estrutura de classes da sociedade brasileira e reorganizando os interesses destas classes no cenário da “grande política”, aquela que decide os rumos da democracia e dos modelos de desenvolvimento.

O PT, através dos nossos governos de “coalizão”, vem promovendo uma ascensão extraordinária das classes populares, no plano social e também no universo da política. O “incômodo PT”, formado por Lula, é o suporte principal, com seus aliados de esquerda, das mudanças na letárgica desigualdade social que imobilizava o país. O ascenso social de dezenas de milhões, conjugado com as novas perspectivas para uma parte do empresariado compartilhar de um novo projeto de nação – cooperativa, soberana e interdependente na globalização – pode abrir um novo ciclo de mudanças.

A espetacularização do julgamento do “mensalão”, colocado como marco “inaugural” da corrupção no Brasil e os vínculos deste processo manipulado com o PT, como instituição; a insistência dos vínculos do “mensalão” com a figura do ex-Presidente Lula; a demonização da política e a glorificação da gestão pública “técnica”, isenta de “política”, que passa a ser sinônimo de pureza institucional (tática sempre praticada pelo fascismo em momentos de crise); a “revisão” do governo Lula, especialmente promovida por manifestações do principal líder da oposição (FHC, o único que restou em avançada idade), tudo isso aclara a tentativa de reorganização de um bloco político e social, neoconservador e neoliberal, que já havia colocado o país numa situação dramática. Como já registrou um editorial da Carta Maior:

“Para ficar apenas no alicerce fiscal/monetário: em dezembro de 2002 – último mês do PSDB na Presidência da República – a relação dívida/PIB atingia estratosféricos 63,2%, praticamente o dobro dos 30,2% existentes no início do ciclo tucano, em 1994. Anote-se: isso, depois de um salto da carga fiscal, que passou de 28,6% para 35% no período. Hoje a relação dívida/PIB é de 35%; a previsão para 2013 é de 32,7%” – (03/09/2012 – Saul Leblon).

Este bloco organiza a direita intelectual de corte liberal e neoliberal, com o apoio ideológico dos grandes meios de comunicação (que jamais engoliram Lula e o PT), visando recuperar o partido tucano. Arruinado pelas suas lutas internas e fracionado pelos seus interesses regionais e empresariais divergentes, é preciso dar ao PSDB algum novo conteúdo para que ele possa renascer. Os Democratas não conseguiram cumprir esta função, o PMDB está dividido segundo os seus interesses regionais fracionários e o PSDB é o único sobrevivente autêntico do projeto representado pelos dois governos de FHC.

A tática supostamente renovadora deste “novo“ conglomerado não leva em consideração, porém, três mudanças fundamentais, que o país sofreu nos últimos dez anos. Estas mudanças possivelmente impeçam a restauração neoliberal:

Primeiro, o país já tem um universo empresarial novo, que se fortaleceu nos governos Lula, ao qual não mais interessa o projeto neoliberal em crise. Novos processos de acumulação “via” mercado interno, pré-sal, construção civil pesada e habitacional, setor de fabricação de máquinas e equipamentos, produção de bioenergia, produção de alimentos para consumo interno, negócios originários das políticas de cooperação e construção de infraestrutura – tudo orientado por ações normativas do Estado – afastaram amplos setores burgueses (tradicionalmente submissos à ideia de uma nação “associada e dependente”) dos seus antigos comandantes. Agora estes setores vinculam a reprodução do seu capital e dos seus negócios a outro modelo de desenvolvimento, ao qual o neoliberalismo só atrapalha.

Segundo, como o projeto pretendido pelo “novo” conglomerado não difere muito daquele do presidente FHC, e é uma restauração, ele tem impedimentos sociais de monta. A combinação ousada de reorganização financeira do Estado, com investimentos em infraestrutura, políticas de inclusão produtiva e educacional voltadas para as comunidades de baixa renda e, ainda, a incidência soberana do país no cenário internacional, constituíram bases populares fortes no país, em defesa do projeto comandado por Lula. Os governos Lula recuperaram a nossa autoestima, reduziram as desigualdades sociais e regionais, que sempre marcaram a história do Brasil e promoveram dezenas de milhões a condições de mínima dignidade. Ao não levar em consideração estas mudanças, o “novo” conglomerado tucano, mais a mídia e a intelectualidade liberal e neoliberal, descolam-se do sentimento popular e não conseguem promover o seu “novo” projeto.

Terceiro, a organização do “novo” conglomerado não leva em consideração, também, a existência nos dias de hoje das redes sociais, das novas tecnologias de informação, das redes de comunicação e informação alternativas, que formam núcleos de resistência e de produção de uma opinião pública livre. São os novos espaços autônomos que não estão subordinados aos velhos métodos de manipulação que permeiam a maior parte da grande imprensa. O controle da produção e formação da opinião não é mais aquele legado pela ditadura, já que há um amplo espaço autônomo de promoção da circulação da informação e da opinião, que é impossível de controlar.

Concordemos ou não com as sentenças que advirão do “mensalão”, elas deverão ser respeitadas por todos e por nós. É o Estado de Direito funcionando. Especialmente nós, do Partido dos Trabalhadores, devemos tirar lições políticas e jurídicas do episódio. Analisar todas as causas que abriram as maiores feridas na nossa história não significa inculpar pessoas ou buscar bodes expiatórios, pois a função de um partido político socialista não é a de ser sucursal de um Tribunal ou de uma Delegacia de Polícia. A função de um partido como o nosso é promover a condução intelectual e moral de um contingente do povo para levá-lo a melhores níveis de emancipação política e social.

O nosso patrimônio é maior do que este legado do “mensalão”. O nosso dever, agora, é compreender que se abre um novo cenário na luta política do Brasil e que devemos compor uma força política orgânica e plural, que amarre fortemente as convicções da esquerda democrática e socialista com os ideais progressistas da centro-esquerda e do centro-democrático. É um novo patamar de unidade política que deve ser pautado pelos partidos de esquerda, em conjunto, para organizar e dirigir esses novos contingentes sociais, que se organizaram na estrutura de classes da sociedade e cujo futuro não tem chances de ser beneficiado pelo “novo” e velho conglomerado.

(*) Governador do Estado do Rio Grande do Sul.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA : Zero Hora visitou lugares mitológicos da Revolução Farroupilha, palcos da guerra contra o Império. Assista ao documentário e saiba o que eles guardam na memória.

veja os dez principais palcos da REVOLUÇÃO FARROUPILHA (1835 – 1845)

CLIQUE AQUIREVOLUÇÃO FARROUPILHA

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A Revolução Farroupilha, também é chamada de Guerra dos Farrapos ou Decênio Heróico ( 1835 – 1845), eclodiu no RS e configurou-se, na mais longa revolta brasileira.

Foram diversas as causas que levaram os farroupilhas a atacarem Porto Alegre, no dia 20 de setembro de 1835, dando início a Revolução Farroupilha, que estendeu-se, até o dia 11 de setembro de 1836, quando Antônio de Souza Neto, proclamou a República Riograndense. Após esta data, iniciou-se então, uma guerra que durou até 28 de fevereiro de 1845.

Muitos fatos aconteceram, várias pessoas morreram, e quase dez anos depois de muitas lutas e combates, houve a pacificação.

Os problemas econômicos que atingiam as classes dominantes, figuram entre as principais causas da revolução. Os poderosos estancieiros gaúchos, queriam que o governo imperial, protegesse a pecuária do RS e dificultasse a entrada do charque argentino e uruguaio no Brasil, que devido o baixo imposto de importação, fazia concorrência desleal, arruinando a economia gaúcha. Essa mesma elite dos grandes fazendeiros, também lutava junto ao governo imperial, por uma maior liberdade administrativa para o RS.

A revolução farroupilha não foi portanto, uma revolta do povo pobre, e sim, uma rebelião dos ricos estancieiros que lutavam pelos seus interesses econômicos e políticos. O povo só participou do movimento, sob o controle dos fazendeiros. Não existia entre os líderes, o desejo de libertar o povo da exploração social, da escravidão ou da vida miserável.

Entre os principais líderes, destacam-se: Bento Gonçalves, Davi Canabarro, José Garibaldi, Antônio de Souza Neto, Gomes Jardim e Lucas de Oliveira.

O momento máximo da expansão do movimento, deu-se em 1839, com a fundação da República Juliana, na cidade de Laguna em Santa Catarina, sob comando de Canabarro e Garibaldi.

As capitais da República Riograndense, foram Piratini, Caçapava e Alegrete.

Os oficiais farroupilhas, reuniram-se nos Campos de Ponche Verde, e discutiram as questões do tratado de paz. Ocorreu então, um tratado entre duas nações: Rio Grande do Sul e Brasil. Assinou o tratado representando os farroupilhas, Davi Camabarro e pelos imperiais, Duque de Caxias, no qual não houve vencedores ou vencidos.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA

ANTECEDENTES

              No Brasil, estávamos no período das Regências, duas correntes políticas existiam: Corrente Liberal Moderada – Chimangos que desejavam modificação do regime através de leis, e a Corrente Liberal Escoltada – Farroupilhas, que apontava como a solução a resolução.

Em 1833, quando Bento Gonçalves foi chamado ã Corte, (RJ), entrou em contato com Evaristo da Veiga e com o Padre Diogo Antonio Feijó, (futuro regente), e indica Antônio Rodrigues Braga, um moderado republicano, para o cargo de presidente da província, que por influência de seu irmão, passou para o partido conservador, rompendo com Bento Gonçalves.

Foram geradas as divergências entre o poder executivo (Fernandes Braga) e o poder legislativo; que era em sua maioria formado por deputados liberais, que acusaram Fernandes Braga de déspota por que havia mudado de partido.

CAUSAS

– Idéias de liberdade política
– Desejo de implantação do sistema republicano no Brasil com a federação das províncias;
– O descontentamento reinante aqui, pelos desastrosos e não contentáveis governos da província que eram orientados pelo império. Era o caso de Fernandes Braga.
– Um regime iníquo com excessivos impostos e taxas, cobradas pelo poder central, o Império, sobre nossa principal economia o Charque.
– Faltam de estradas, pontes e escolas;
– Dificuldades para o registro das pessoas físicas
– O desgosto do soldado gaúcho, pelo revés sofrido nos campos da Cisplatina, cuja culpa era atribuída aos comandos escolhidos, cuja culpa era atribuída aos comandos escolhidos pelo império;
– Os gaúchos já haviam participado a lança e a espada em mais de uma campanha não queriam se deixar dominar e oprimir pela corrupção imperial brasileira.

ÉPOCA 1835/1845

TEATRO DE OPERAÇÕES Província do Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina

INÍCIO 20/09/1835 com a entrada em Porto Alegre de Gomes Jardim e Onofre Pires.

A primeira fase do Movimento Farroupilha contou com o apoio de todas as correntes liberais. Esta fase caracterizou-se pela deposição do presidente Fernandes Braga.

PRINCIPAIS EVENTOS

Ano de 1835

19/setembro , um grupo de 400 revolucionários reuniu-se nos arredores de Porto Alegre, e nas 1ªas da madrugada de 20/09 – junto à ponte da Azenha, ocorria a 1ª escaramuça com os Imperiais, visando a ocupação da capital. Bento Gonçalves Chega a 21.os farroupilhas eram comandados por Onofre Pires e Vasconcelos Gomes Jardim, enquanto a defesa da capital estava confinada a Gaspar Mena Barreto.

DR, Fernandes Braga, foge para a cidade do Rio Grande, de barco pela Laguna dos Patos. Bento Gonçalves segue para Rio Grande, ã frente de um pequeno destacamento, para enfrentar o Presidente deposto, porém, Fernandes Braga já havia fugido para a corte do Rio de Janeiro.

Entre as cidades que não aderem a causa estão : Rio Grande, Pelotas, e São José do Norte.

08.setembro – Entrada dos Farrapos em Piratini.
09.setembro – Os Farroupilhas apoderam-se de Rio Pardo.
13.setembro – Os revolucionários são derrotados em Arroio Grande.

Ano de 1836

07 de abril – Entrada dos Farroupilhas em Pelotas.

15 de junho – Restauração de Porto Alegre pelos imperiais.

10 de setembro – , no Campo dos Menezes a Batalha do Seival, onde ocorre a maior vitória das forças Farroupilhas, as tropas do Cel. Antonio de Souza Netto derrotaram as do Cel. João da Silva Tavares.

Na noite de 10 para 11 de setembro de 1836 chimarreando ao redor do fogo e ainda comemorando a brilhante vitória, Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares deram a idéia da Proclamação da República Rio Grandense. Na manhã seguinte as tropas foram perfiladas em ordem e o General Netto faz um pronunciamento.

12 de setembro – Proclamação da República Rio-Grandense por Souza Netto, nos Campos dos Menzes, pontas do Jaguará Chico, afluente do rio Jaquarão.

04 de outubro – Bento Gonçalves é derrotado e preso na Ilha do Fanfa (Rio Jacuí- proximidades de Rio Pardo). É enviado para a Corte e daí para o Forte do Mar na Bahia.

10 de novembro – Piratini torna-se a primeira Capital da novel Republica.

Ano de 1837

09 de março – Tomada de Lages (Santa Catarina) pelos farroupilhas.

07 de abril – Os republicanos tomam Caçapava.

10 de setembro – Fuga de Bento Gonçalves do Forte do Mar, na Bahia.

Ano de 1838

17 de março – Os imperiais retomam Rio Pardo

06 de maio – Rio Pardo volta ao poder dos revolucionários.

12 de setembro – Lages (santa Catarina) pela 2ª vez, é tomada pelos farroupilhas.

Ano de 1839

14 de fevereiro – A Capital da República é transferida para Caçapava, instalando-se o governo no dia 24.

06 de junho – Garibaldi inicia sua memorável travessia por terra com seus lanchões Seival e Rio Pardo, conduzindo os do Capivari até o Tramandaí.

22 de julho – Combate e tomada de Laguna (Santa Catarina)

25 de julho – Proclamação da República Juliana.

15 de novembro – Restauração de Laguna pelos imperiais após o combate naval desse dia.

Ano de 1840

03 de maio – Combate de Taquari, de resultados indecisos.

16 de julho Ataque a São José do Norte, de conseqüências desastrosas para os Farrapos. São José do norte recebe o Título de “Mui heróica Vila”. E Ajuda os feridos das tropas farrapas.

Cerco de Porto Alegre.

Ano de 1841

Continua Porto Alegre cercada
19 de outubro – Porto Alegre recebe o título de “Mui Leal e valorosa” pela resistência à revolução.

Ano de 1842

Inicia o declínio da revolução. Divergências entre os revolucionários. É assassinado o vice-presidente Antonio Paulino da Fontoura. Bento Gonçalves é acusado de autor intelectual. Duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires, resultando a morte deste.
09 de novembro – Caxias assume a presidência e o comando das armas legais.

01 de dezembro – Alegrete torna-se a sede do governo republicano.

Ano de 1843

26 de maio – Combate de Ponche Verde, de resultados indecisos.

Vantagens dos legalistas em todo o território. A revolução começa e perder terreno.

Ano de 1844

Início das conversações de paz.

14 de novembro – Surpresa de Porongos. Canabarro é derrotado pro Chico Pedro.

29 de dezembro – Combate de Quero (afluente do quarai) último da Revolução.

Ano de 1845 – Final da Guerra – Inicio da Paz.

28 de fevereiro – Assinatura da paz no acampamento de Ponche Verde, município de D.Pedrito.

01 de março – Caxias, nos campos de Alexandre Simões, proclama a anistia do Rio Grande do Sul, declarando pacificada a província.

CAPITAIS FARROUPILHAS

Piratini 10.11.1836 a 14.02.1839

Caçapava – 14.02.1839 ã 22.03.1840

Alegrete – 22.03.1840 ao término da Revolução

VULTOS EMINENTES

Imensa é a galeria do relevo nos fatos da memorável EPOPÉIA

Destacam-se, de parte dos farrapos:

Bento Gonçalves da Silva; Antonio de Souza Neto; David Canabarro; Domingos José de Almeida; Onofre Pires; Silva Jardim.

Junto aos imperiais:

Caxias; J.J.de Andrades Neves; João de Deus Mena Barreto; Silva Tavares; Francisco Pedro de Abreu.

Bento Manuel Ribeiro teve destacada atuação quer ao lado dos farrapos, quer dos imperiais

Condições da Paz
Os rio-grandense indicariam o nome para assumir a presidência da província
A dívida revolucionária seria paga pelo governo imperial.

O PÓS-GUERRA

Tempo de Construir – com a economia e a administração pública desorganizada por quase dez anos de guerra., a província tenta recuperar o tempo perdido;
Reinício da Imigração;
Dois partidos 1848 –Partido Conservador – Partido Liberal
18 de julho de 1847 – Morre Bento Gonçalves
1852 – rearticulação partidária , liga partidária, e contra liga.
Antonio de Souza Neto – vai para o Uruguai- se reconcilia com o Governo brasileiro 1864
David Canabarro – Morre em 1867
Da contra liga – origina-se o Partido Liberal Progressista.
1868 – Partenon Literário

Bibliografia : Lessa, Barbosa-Projeto Pró-memória farroupilha. 1985 Filho, Artur Ferreira – Rio Grande Heróico e Pitoresco- 1985 História Ilustrada do Rio Grande do Sul – 1998 Quevedo, Julio – José C.Tamanquevis. Rio Grande do Sul Aspectos da História Freitas, Sebastião Rodrigues de, Estudos Rio-Grandenses.

Kevin Richardson en el Parque de León de Gauteng, Sudáfrica

Kevin Richardson
(nacido en 1974) es un conductista animal, y ha realizado una amplia investigación sobre losanimales nativos de África . Ha sido reconocido en una manada de hienas manchadas y el orgullo de los leones . Él trabaja con las hienas y grandes felinos, como guepardos y leopardos . Se ha especializado con los leones y se ejecuta el Reino de la instalación de White Lion en el Parque de León en provincia de Gauteng, Sudáfrica . Conocido en todo el mundo como el “hombre que susurraba a León,” Richardson es también un autor y productor de cine.



 

VEJA O VÍDEO:

dê UM clic no centro do vídeo:

Carlos Heitor Cony faz uma revisão amarga e irônica da vida, aos 86 anos

Às vésperas de lançar ‘JK e a ditadura’, o autor de ‘Quase memória’ critica o político mineiro, compara a ABL a um ‘jardim de infância ao avesso’ e se diz cansado da ficção

 

 

Com as pernas enfraquecidas pelo câncer, Cony acaba de ir a Nova York

RIO – Os passeios na Lagoa acabaram: um câncer linfático crônico, considerado terminal há 11 anos, e que afetou a força de suas pernas, o obriga a passeios modestos, dentro de casa, com fisioterapeutas. Mas quando vai à rua, na condição de cadeirante, Carlos Heitor Cony, 86 anos, não vê limites: viaja para palestras, vai a Nova York e visita o Marco Zero. E não descarta futuras viagens de navio. Fumante de quatro charutos por dia, lê, escreve suas crônicas para a “Folha de S. Paulo” e participa de debates matinais com Artur Xexéo na CBN. Há um ano, não vai à Academia Brasileira de Letras (ABL) e não pretende voltar à ficção, como tantos fãs esperam. O que não o impede de dissertar, horas seguidas, sobre o relançamento de “Memorial do exílio” (Bloch Editores, 1982), com novo título, “JK e a ditadura”, agora pela Editora Objetiva. Nesta entrevista, o ceticismo de sempre dá espaço a sorrisos entre o diabólico e o abençoado que o tornam uma das figuras mais carismáticas da literatura brasileira.

O GLOBO – Por ser uma espécie de autobiografia em terceira pessoa, “JK e a ditadura” é carente de um viés crítico. Ele existe?

Deveria ser o terceiro volume de sua autobiografia, mas ele morreu. Sim, tenho minhas restrições a Juscelino, em que pese o carinho e a admiração por sua obra. Ele se vendeu como democrata irredutível, mas pressionava o Congresso. Por exemplo, quando pediu licença para processar Carlos Lacerda por vazar informações do Itamaraty, jogou pesado para cima da Câmara na intenção de cassar o adversário. Não conseguiu. Mas comprou voto, constrangeu a imprensa, o diabo a quatro, como todo mundo faz, na base do fisiologismo. Politicamente, errou feio ao apoiar Humberto Castelo Branco em troca da promessa de respeitar o pleito de 1965, o que não aconteceu. A jogada de mestre teria sido renunciar à candidatura em favor do (general Eurico Gaspar) Dutra, um pessedista de 90 anos que estava na lista dos preferidos dos militares e lhe era leal. Dutra ia corrigir os rumos e acalmar os radicais. Uma vez ele me perguntou onde foi que pegou a curva errada, e eu disse isso.

Mas isso seria suficiente para neutralizar a hidra da ditadura?

Seria a chance de evitar um quadro tão violento. Além disso, uma falta menos grave: JK mentia sobre a idade. Dizia, no primeiro volume das memórias, que nasceu em Diamantina em 1902. Tenho a certidão de nascimento: o ano correto é 1900. O então repórter Roberto Muggiati chegou a ser demitido por ter publicado na “Manchete” a idade certa: JK reclamou com o patrão. Interferi a seu favor e ele acabou “exilado” atrás de uma coluna da redação. Dois anos depois, virou diretor da revista.

E o aspecto programático?

A questão de JK sempre foi mesmo a indústria. Getúlio Vargas fez legislação trabalhista sem um tiro e a sociedade, inclusive o empresariado, aceitou. Mas Getúlio não menciona a questão da terra. Se mexesse na terra, seria deposto. JK também foi avesso a essa questão. Mas, com o que fez, transformou a sociedade brasileira e a levou a outro patamar.

A segunda parte do livro, espécie de apêndice, reedita trechos de “O Anjo da Morte”, reforçando a tese de assassinato de Juscelino. Você realmente acredita nisso?

Os indícios são todos nesse sentido. Guilherme Romano, braço direito de Golbery (do Couto e Silva), foi o primeiro a aparecer no local. O pouso onde ele parou pertencia a militares e JK vivia sendo seguido. A notícia da morte por acidente correu dias antes. E, em telegrama ao general (João Batista) Figueiredo, o chefe da Dina, o SNI chileno, equipara Letelier, assassinado pela CIA, a JK, como “um problema para o Brasil”, num tempo em que o presidente Jimmy Carter ouviu de (Ernesto) Geisel que, antes da redemocratização, ainda estava em vias uma “limpeza de terreno”. Sei que indícios não são provas, embora tenha ouvido o (ex-ministro do STF Cezar) Peluso dizer que existe a “prova indicial”. Miro Teixeira chegou a criar uma comissão para apurar as circunstâncias. Todos os depoentes afirmaram isso. O último foi Miguel Arraes, grande articulador da resistência à Operação Condor, que assim se pronunciou: “JK foi assassinado.”

Em 1968, você foi preso na mesma leva que deteve JK. O que guarda desse episódio?

Foi na noite de 3 de dezembro, até depois do carnaval. Três meses. Quando fui sequestrado, ouvi que naquela noite iam fuzilar JK. Incomunicável, acreditei, aquele tempo todo, que havia um paredão. Não fui torturado, mas em muitas noites vomitei ao ouvir berros e pancadas das outras celas. Fiquei numa cela miserável, com um cano de água, que usava para escovar os dentes, e um vaso sanitário. Esta foi a segunda prisão. No total, foram seis. Em 1965, quando ainda havia legalidade, fui processado por (Artur da) Costa e Silva, que, pela Lei de Segurança Nacional, queria me botar 30 anos em cana. O STF transferiu para Lei de Imprensa e peguei seis meses. Cumpri três: foi a única vez na vida que tive bom comportamento. Os militares ainda eram educados. Invoquei a convenção de Genebra e a comida melhorou, ganhei banho de sol e lençóis, e, no Natal, um coronel nos mandou peru, vinho, farofa e castanhas, da casa do comandante.

Você foi muito atacado quando recebeu benefícios como reparação aos danos. Isso o magoou?

Vou contar só um episódio. Quando, em abril de 1964, escrevi, no “Correio da Manhã”, o artigo “A revolução dos caranguejos”, que atacava violentamente o movimento militar, tive que me esconder. No dia da publicação, três sujeitos foram à escola de minhas filhas, que tinham 12 e 8 anos, e disseram à professora que vinham buscá-las, que eram amigos dos pais e precisavam protegê-las pois estavam sob ameaça de sequestro. À saída, a dona do colégio, ao ver duas alunas com três homens estranhos à paisana, pediu documentos. Eles se recusaram a mostrar e puseram minhas filhas num carro. A mulher anotou a placa e nos procurou. Ênio Silveira, que tinha contatos, fez a coisa circular em meios militares e descobriu-se que o carro servia a um oficial da Marinha. Elas foram soltas aos empurrões. Durante o sequestro, haviam sido ameaçadas e insinuaram que tirariam, naquela noite, a sua virgindade. O resto são tecnicalidades que nem preciso mencionar, além do fato de os desembargadores nem terem lido o processo por serem contemporâneos e saberem o que passei. Mas nem se me dessem a Petrobras eu me sentiria compensado. Nem a Amazônia pagaria todo o meu sofrimento.

Por que sua aversão a livros inéditos de ficção? Você desistiu?

Olha, com “Pilatos”, livro da década de 1970, eu disse tudo o que queria dizer. Thomas Mann, depois de escrever “Doutor Fausto”, pensou em não escrever mais. E disse: “Infelizmente, vivi mais que minha obra.” Teve que escrever ainda três ou quatro livros, tudo porcaria, pois precisava de dinheiro. Quando fiz “Pilatos” foi isso: fiquei 23 anos sem escrever. Aí veio o computador, e a doença de minha cadela Mila, eu escrevi “Quase memória” para suportar o sofrimento de ouvir seus gemidos.

“Quase memória” não é bom?

É um desabafo. O que escrevi depois foi por pura pressão comercial. Nada desse período interessa.

Como é sua rotina hoje?

Tenho um câncer linfático e estou em estado terminal há 11 anos. É o mesmo câncer da Dilma e do (Reynaldo) Gianecchini. Não perdi o cabelo, mas o tratamento enfraqueceu minhas pernas. O câncer, porém, não é mais a tal da insidiosa moléstia. Todo mundo tem um. A Hebe, a Ana Maria Braga, todos os líderes do Cone Sul, Lula, Fidel, Chávez, Cristina! Há 12 dias não saio de casa. Meses atrás fui a Nova York. Para visitar os museus, ser cadeirante é bom: fui tratado como príncipe, uma maravilha. No Marco Zero me puseram de cuecas para entrar.

Em “JK e a ditadura” você diz que, com a Frente Ampla, JK, (Carlos) Lacerda e Jango (João Goulart) provaram, tardiamente, que a Humanidade pode ser melhor desde que cada homem procure, no outro, o seu melhor. Você acredita nisso? Precisamos de homens cordiais, como JK?

Não. Em “O ventre”, aos 32 anos, eu digo que só creio naquilo que pode ser atingido pelo meu cuspe. Como disse no meu discurso de posse na ABL, não tenho convicções firmes para ser de direita, disciplina para ser de esquerda nem a imobilidade do centro, que é oportunista. Sou um anarquista inofensivo.

A Academia foi uma concessão, em vistas desse ceticismo?

Entrei com 74 anos, idade com que morreu o JK. Desde 1964 já me haviam convidado. Acabaram me convencendo num movimento para legitimar a candidatura paralela, para outra vaga, de Roberto Campos, que até o Celso Furtado queria. Acabei cedendo, sob a condição de não fazer campanha. A Academia é um ambiente de cordialidade. Resumindo, porém, eu diria que é uma espécie de jardim de infância às avessas. No jardim de infância você não tem passado mas um futuro o espera, com relações novas e amigos vindouros. Na academia, não temos futuro. Temos todos um passado, se é que temos, bom, brilhante ou medíocre, mas 90% dos que lá estão não têm mais nada para fazer na vida. O futuro é o mausoléu.

Você tem medo da morte?

Não, a não ser do ritual da morte. Não quero velório. Nem quero ir para o mausoléu da Academia. Serei cremado. Toda a liturgia da morte hoje é uma contrafação, fria, impessoal. Já conquistei o que queria. Só me restam o Nobel e a morte. Como o Nobel não virá…

O Globo / Ana Branco

NEM SEMPRE FREUD EXPLICA por olsen jr / rio negrinho.sc

Estou no consultório odontológico esperando a minha vez. Procuro ler alguma coisa (qualquer coisa) para aliviar a tensão. Pego uma revista “Status” (remake)… Na década de 1970 uma publicação com este nome era o melhor que se tinha para a satisfação do público masculino. Guardo um exemplar temático (só Drinks) daquela época. Agora, a edição que tenho em mãos é uma pálida evocação do que a memória ainda retém.

Não deveria ter mais “certas” preocupações, mas tenho… Vejo a senhora que sai do gabinete, caminha lentamente em minha direção… Afirmo para descontrair “não doeu nada, certo?”… Ela parece surpresa com a minha observação, afinal tudo ali é asséptico e sério… “Não, meu filho, não doeu”…

Digo para ela que certos “traumas” ou “má vontade” se preferir, com algumas situações a gente leva da infância e não muda mais… A ela junta-se a atendente e ficam me ouvindo… Continuo, “dentista, cortar cabelo e comprar roupas sempre foram questões a serem resolvidas para mim”. O primeiro por não suportar o ruído que a broca faz (e a gente não vê o que ela está fazendo), o segundo porque nunca me deixaram ter o cabelo comprido na época em que isso era moda (na década de 1960 quando os Beatles mandavam na música pop) e por último, se antes era porque a minha mãe escolhia o que iria vestir, agora simplesmente porque não suporto a constatação sempre quando me vejo num provador de que preciso perder peso, e todo o drama continua…”

A mulher e a recepcionista começam a rir e naquele momento esqueço que sou o próximo a ser atendido. Ela concorda comigo e lembra que na sua infância a broca nos consultórios era acionada por pedais e claro, dependia das flutuações da energia do dentista despendidas no ato… Penso que as alterações de rotação da dita cuja deveriam provocar “dores” de intensidades variadas em curto espaço de tempo… E, “quanto aos provadores, acrescentou ela, tenho verdadeiro pavor… Menos porque não goste de comprar roupas, porque gosto, mas não sou compulsiva como uma amiga que já deve ter perdido a conta de quantos sapatos tem em casa”…

Intervenho e afirmo que deve ser algo no componente genético das mulheres porque não conheço uma que não goste de sapatos…

Ela assente com a cabeça e continua a história afirmando que sua amiga teve de ir a uma festa e comprou uma sandália para combinar com a roupa… Quando já em casa foi procurar a peça descobriu que tinha guardada outra sandália, da mesma cor e modelo… Mas eu estava falando dos provadores, porque os detesto… Algum tempo atrás fui provar uma roupa… Estava lá dentro me preparando para vestir a roupa que pretendia comprar quando escorreguei e tentei me apoiar no que eu pensava ser uma parede daquela cabine… Para minha surpresa, levei um susto, eram apenas cortinas dispostas em “U” e caí de costas no provador ao lado… Naquele momento havia um homem só de cuecas que iria também vestir alguma roupa… Caí por cima dele e foi um “Deus nos acuda!”…

Aí foi a minha vez de juntar-me as gargalhadas da recepcionista… A mulher pareceu não se abalar, disse já ter superado o “trauma”, mas não esquecia o caso… Alguém avisou que o motorista dela já estava esperando e ela saiu, não sem antes abraçar a secretária e a atendente do gabinete… Depois olhou para mim e afirmou “não se preocupe, meu filho, não vai doer nada!”

Agradeci aquele conforto moral e depois que ela saiu fiquei imaginando que nada é melhor que o bom humor para encorajar um homem recalcitrante (sem nenhuma vocação para herói) num gabinete de dentista!

NOTAS:

O cantor e ator Ricky Shane é um mistério…

Filho de pai libanês e mãe francesa…

Foi para Paris com 15 anos…

Gravou  “Mamy Blue” em 1971 e literalmente “matou a pau”…

Depois sumiu… Dedicou-se ao cinema e teatro…

Casou, teve filhos…

Nunca mais ouvi falar dele… Uma pena!

Tinha talento, esta composição é um exemplo, vai…

http://www.youtube.com/watch?v=-lgpC4NTr0Y

A“INVENÇÃO” DO 7 DE SETEMBRO – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Culminando a  Semana da Pátria, neste 7 de setembro, quecelebra o aniversário da Independência do Brasil, tropas militares, estudantes,organizações cívicas e alguns poucos  remanescentes vivos da Força ExpedicionáriaBrasileira – FEB- na II Guerra Mundial desfilarão pelas ruas de cidades de todoo país. Neste dia, em 1822, o Príncipe Regente de Portugal, indo ao encontro dos anseios da nação teria dado o famoso Grito do Ipiranga, que nos separou dePortugal.  Isso posto,  o 7 de setembro, está inscrito, hoje, como adata da Independência do Brasil. Não obstante, esta é apenas parte da verdade,senão, segundo alguns pesquisadores mais críticos, pura invenção. Por quê? Porque, na História, os acontecimentos passados são sempre pensados e transmitidos pelos recursos de cada época e, a partir destas redefinições, se renaturalizam, como se tivessem ocorrido exatamente como são contados.

 

Diversos autores já discutiram a moldura geral da nossa Independência, que se consagrou mediante um pouco glorioso Tratado com a Potência Colonial, mediado pela Inglaterra, justo no dia 07 de setembro de1925.

 

Outros pesquisadores procuram precisar com mais rigor o efetivo significado desta data três anos antes, no suposto Grito da Independência de D.Pedro I.  Demonstram eles  que houve poucos registros do  ato. E pouco crédito sobre ele, embora sempre fosse registrado como um momento importante, mas não “o momento” da Independência. Datam de 1862, data em que se viria  inaugurar a estátua eqüestre de D.Pedro I na Praça da Constituição no Rio de Janeiro, então capital, os depoimentos do Coronel Marcondes e do Tenente Canto, testemunhas do feito, os quais reproduziram outro relatório, do Padre Belquior, de 1826, este considerado peça chave do  momento da fundação do Brasil.  A verdade, porém,  é que só por volta de 1830, no auge da crise do I Império, que resultaria na saída de Dom Pedro I do trono, o 7 de setembro se consolidaria como data nacional.  Foi  Gottfried Heinrich Handelmann quem observou em sua Historia do Brasil, publicada  em1860, este fato, destacando que  “a princípio não se lhe ligou tanta importância (…)”. Outra data, a da Proclamação do Imperador, em 12 de outubro, lhe ofuscava, embora tenha  suscitado preocupações na Europa, que temia, na época, os excessos populistas.

 

Até 1930 , pois,  duas  datas eram celebradas como fundadoras da nação, por ordem de importância: Dia 12 de outubro e o  07 de setembro .

 

Por trás destas duas datas, a tensão política que dividia as opiniões entre liberais e conservadores. Estes, sintonizados com a vaga conservadora do Congresso deViena, em 1815 – e provavelmente mais próximos dos interesses remanescentes da Coroa Portuguesa na Corte de Dom Pedro I, optavam pela cerimônia protocolar, de caráter mais palaciano e militar, preferiam o 7 de setembro. Os liberais,inflamados pelo jornal Aurora Fluminense, que depois de 1927 seria editado por Evaristo da Veiga, preferiam o 12 de outubro, data em que a população teria participado festivamente da independência.

 

As duas datas foram largamente celebradas na primeira década da Independência do Brasil como fundadoras da nação e  ambas eram igualmente  prestigiadas pelo Imperador, mas com distintos significados.  Não foi  por acaso que a celebração do Tratado da Independência, mediado pela Inglaterra, acabou sendo  firmado a 7 de setembro de 1825. Contra ele,  , aliás, levantaram-se indignadas muitas vozes liberais, vez que assinalava a concessão, à penas (!),  da Independência e não sua conquista como resultado de anseios populares. Mas Dom Pedro I soube administrar durante este tempo a controvérsia, não sem os desgastes que o levariam à abdicação. Firmemente, com medidas extremas como a dissolução da Constituinte, e a draconiana repressão à Confederação do Equador,  foi  impondo, não só os diktats do referido Tratado, como, também,  o 7 de setembro como data nacional, amplamente reconhecida em todo o território. Não por acaso, também, contrariamente à data nacional em outros países, bastante festivas, esta sempre foi tomada como festividade cívico-militar.

Chegada a Regência, enfim, já não havia o que discutir, embora nenhum documento, nenhum monumento, nenhum registro viesse a demarcar o 7 de setembro como DATA NACIONAL.

Nos últimos anos,soterrada a história sob o peso dos anos, Governo e Sociedade vêem procurando popularizar mais o 7 de setembro, retirando-o dos quartéis, para uma celebraçãode tipo mais festiva, como deveria ser. Mas a timidez das celebrações demonstra que o esforço ainda levará algum tempo. Até lá, o brado do cronista…

Rastro do Curiosity em Marte pode ser visto do espaço

Nasa divulgou novas fotos da missão de exploração ao planeta vermelho.

Pouso do robô completa um mês nesta quinta (6).

Do G1, em São Paulo

Ponto no centro da foto é onde o Curiosity pousou. A partir dali, ele partiu até a posição atual, à direita da foto, deixando seu rastro (Foto: Nasa/JPL-Caltech/Universidade do Arizona)
Rastros do Curiosity são vistos do espaço
(Foto: Nasa/ JPL-Caltech/Universidade do Arizona)

Os rastros deixados pelo robô Curiosity no solo marciano já podem ser vistos do espaço. A Nasa divulgou nesta quinta-feira (6) novas fotos relativas à missão, que foram tiradas tanto por satélites posicionados na órbita de Marte quanto pelo próprio robô.

Nesta semana, o robô percorreu uma distância de 30,5 metros – exatamente 100 pés, medida usada nos Estados Unidos – em sua rota mais longa até o momento. Nos próximos dias, o robô fica parado, enquanto a Nasa faz testes no braço robótico e nos instrumentos científicos.

Nesta quinta, o robô completa um mês exato desde o seu pouso no planeta vermelho. A distância total que ele já percorreu até o momento é de 109 metros.

Na foto feita pelo Mars Reconnaissance Orbiter, um satélite da Nasa que monitora a superfície marciana, o rastro do Curiosity é claramente visível. Os pontos mais escuros no centro da imagem são o ponto de pouso do robô. A partir dali, ele partiu até a posição atual, à direita da foto, deixando seu rastro pelo caminho.

As fotos abaixo também foram divulgadas nesta quinta. A primeira mostra o rastro do Curiosity registrado pelo próprio robô. Na segunda, uma câmera posicionada no mastro central tirou uma fotografia de alta resolução do braço robótico, onde fica outra câmera.

Rastro do Curiosity em Marte, registrado pelo próprio robô (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Rastro do Curiosity em Marte, registrado pelo próprio robô (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Foto em alta resolução do braço do Curiosity (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Foto em alta resolução do braço do Curiosity (Foto: Nasa/JPL-Caltech)

Assange afirma que EUA rastreiam usuários por meio do Google

O jornalista e fundador do Wikileaks, Julian Assange, concedeu, nesta quinta-feira (30), a primeira entrevista desde que fugiu de sua prisão domiciliar e pediu asilo político à Embaixada do Equador em Londres. Na conversa, Assange qualificou a decisão do Equador de conceder-lhe asilo como “correta”, porque é uma pessoa “perseguida política pelos Estados Unidos e seus aliados”.

Na conversa com o jornalista Jorge Gestoso, transmitida pelo Canal Multiestatal teleSur e pela equatoriana Gama TV, Assange afirmou que se uma pessoa fizer algo que “vai de encontro à vontade dos Estados Unidos, algo de mau vai acontecer com ela”.A entrevista aconteceu nas dependências da embaixada do Equador no Reino Unido, onde Assange está alojado desde 19 de junho, data na qual deixou a prisão domiciliar e pediu ao governo de Rafael Correa a concessão de um asilo político. A resposta positiva para o pedido veio no dia 16 de agosto, momentos após o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, alegar que o governo britânico pretendia invadir a representação diplomática para prender o jornalista. O governo britânico nega-se a conceder um salvo-conduto para o jornalista deslocar-se até o aeroporto e seguir para Quito. “Eles (EUA) já disseram em documentos oficiais que não se trata somente de acusar Julian Assange por espionagem, mas de parar as atividades do Wikileaks”, relatou Assange.

Em um dos momentos da entrevista, o ativista australiano afirmou que está em marcha uma espécie de “totalitarismo transnacional”, a partir da espionagem deliberada de todos os dados pessoais disponíveis na internet, assim como todas as ligações telefônicas. “Agora podem interceptar tudo, não é necessário preocupar-se com algum suspeito. Simplesmente interceptam-se todos e armazena-se tudo”, disse.

Ele afirmou que empresas de espionagem já possuem tecnologia para armazenar todos os dados pessoais e fornecer pesquisas cruzando informações. “O jogo novo é a interceptação, registra-se tudo, é mais barato registrar tudo desde os EUA e armazenar. Dentro de alguns anos, se te transformas em uma pessoa interessante para as agências dos EUA e seus amigos, dizem: revisemos o que estava fazendo o senhor Assange nestes últimos anos, quem são seus amigos, com quem ele se comunicou”, explicou o jornalista, denominado o tal “totalitarismo transnacional”, porque, para ele, não só os EUA estão praticando esse monitoramento, mas também Alemanha e outras importantes economias mundiais.

“Quando fazemos uma pesquisa no Google, ele registra tudo. O Google trabalha desde os EUA e te conhece melhor do que você mesmo. Se você não recorda o que buscava há dois dias, há três horas, o Google recorda. Conhece-te melhor que tua mãe. Essas informações são armazenadas pelo Google, mas também são interceptadas pelo Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos”, contou.

No início do mês de agosto, o WikiLeaks publicou uma lista de 170 companhias de espionagem que atualmente já prestam estes serviços para diversos governos ocidentais. O jornal britânico MailOnlinepublicou reportagem em 14 de agosto onde descreve que, segundo e-mails de funcionários da empresa de espionagem Strator, vazados pelo Wikileaks, qualquer pessoa que aponte uma câmara para algum monumento em Nova Iorque será registrado como suspeito de terrorismo e será fotografado pela vasta rede de câmeras conectadas ao governo estadunidense. Segundo o e-mail, a empresa que fornece este serviço é a estadunidense Abraxas e o sistema, chamado TrapWire, já funciona no Reino Unido, Canadá e vários estados dos EUA.

América Latina

Nas últimas semanas, o Equador recebeu o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) e da União de Nações Sul-americanas (Unasul) pela concessão do asilo à Assange. O jornalista elogiou e agradeceu a decisão dos países da América Latina em apoiar a decisão do Equador em conceder-lhe asilo político. “Penso que é importante essa solidariedade latino-americana”, disse. O jornalista vê a América Latina como um bloco alternativo a estes movimentos autoritários e de ameaças às liberdades individuais.

O entrevistador, Jorge Gestoso, também perguntou a Assange sobre a acusação que pesa sobre ele de “abuso sexual”. Ele lembra que nenhuma mulher compareceu a uma delegacia para apresentar queixa contra ele, mas apenas a própria polícia suíça. O jornalista não quis falar com mais detalhes sobre a acusação, afirmando que são esdrúxulas, e comparou o caso com os porcos. “Quando uma acusação como essa circula nos meios de comunicação, não se pode responder. Porque é como lutar com um porco, você se suja com lama, mas isso convém às pessoas que lançam a lama”, explicou.

Afirmando que acredita na diplomacia, Assange calcula que poderá sair da embaixada do Equador em “seis a doze meses”, dependendo dos acontecimentos internacionais. Diz também que deve continuar “a luta” de uma “organização que crê nos direitos humanos”, como descreveu o Wikileaks.

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Fonte: Brasil de Fato

Governo recupera R$ 2,2 mi dos R$ 124 bi desviados via Banestado

Esta será a terceira parcela repatriada dos recursos remetidos ilegalmente para o exterior, entre 1996 e 2002, no auge das privatizações tucanas. Mas as investigações sobre o caso continuam cercadas por uma cortina de fumaça. O Ministério da Justiça não divulga informações sobre os processos no exterior. No Judiciário brasileiro, as ações estão pulverizadas em diferentes varas e a maioria corre em segredo de justiça. No Legislativo, a CPI do Banestado (2003) terminou em pizza e a CPI da Privataria (2011) segue engavetada.

Najla Passos

Brasília – O governo brasileiro conseguiu recuperar R$2,2 milhões dos recursos públicos remetidos ilegalmente ao exterior via Banco do Estado do Paraná (Banestado), no esquema de corrupção que abalou o país entre 1996 e 2002, no auge das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. De acordo com o diretor do Departamento Internacional da Advocacia Geral da União (AGU), Boni de Moraes Soares, a parcela que será repatriada já é a terceira relativa ao caso. As duas anteriores representavam valores equivalentes. Mas o percentual desviado é bem mais robusto: algo em torno de R$ 124 bilhões, conforme o deputado Protógenes Queirós (PCdoB), que é delegado da Polícia Federal (PF) e atuou no caso.

Soares conta que os R$ 2,2 milhões estavam bloqueados, desde 2005, em uma conta aberta nos Estados Unidos, por três brasileiros já condenados em primeira instância por envolvimento no caso Banestado. Para reaver o montante, não bastaram os pedidos de devolução feitos pelo Ministério da Justiça (MJ), com base em tratados de cooperação internacional. Foi necessário comprovar, na Corte Distrital de Nova York, que o dinheiro depositado no banco norte-americano era fruto de corrupção. Causa que a AGU assumiu em 2010, segundo ele.

O MJ, que é responsável pela repatriação, não divulga a identidade dos brasileiros e mesmo o nome da instituição financeira. Dez anos após o fim do governo que conduziu as grandes privatizações brasileiras, o escândalo do Banestado permanece cercado por uma cortina de fumaça. As ações contra executivos do banco, doleiros e usuários do sistema fraudulento do banco estão esparsas em diferentes varas da justiça brasileira, a maioria sob segredo de justiça, o que dificulta seu acompanhamento.

A reportagem de Carta Maior perguntou ao secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, quanto, exatamente, o Brasil já recuperou dos recursos desviados via Banestado, quanto resta bloqueado no exterior aguardando o curso dos processos legais e qual o andamento das ações penais relativas ao caso. “A maior parte dos processos corre em segredo de justiça. Como o MJ só atua quando acionado pelo Ministério Público ou pelos juízes responsáveis pelas ações, não nos cabe informar detalhes”, respondeu Abrão.

Uma CPI abortada e outra engavetada
No Legislativo, as investigações sobre o caso não tiveram êxito. A CPI do Banestado, aberta em 2003, terminou em pizza: um acordão indigesto entre PSDB e PT poupou das investigações uma farta carteira de clientes vips da “lavanderia”. Entre eles, alguns já comprovadamente culpados, como o deputado Paulo Maluf (PP-SP), o juiz Nicolau dos Santos Neto, e a fraudadora da Previdência, Jorgina de Freitas. E outros sob os quais pesavam graves indícios, como o publicitário Marcos Valério (que, à época, atendia o governo tucano de Minas Gerais), o ex-senador Jorge Bornhausen (do antigo PFL) e o candidato pelo PSDB à prefeitura de São Paulo, José Serra.

O deputado Protógenes Queirós não desiste de esclarecer os fatos. No final do ano passado, apresentou à mesa diretora da Câmara o pedido de abertura de uma nova comissão parlamentar de inquérito para investigar o caso, batizada de CPI da Privataria. Segundo ele, o lançamento do livro Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr, em 2011, trouxe novas evidências da corrupção praticada no país pelo esquema ilícito do Banestado. E reascendeu o anseio por investigações.

Mesmo cumprindo todas as formalidades exigidas pela casa, a comissão, hoje, continua engavetada, enquanto a CPI do Cachoeira, proposta vários meses depois, já está caminhando para a conclusão. “O que os partidos alegaram, na época, é que era melhor esperar as eleições deste ano, para não parece que a CPI era uma armação política para minar a candidatura de Serra”, explicou. Esta semana, porém, ele vai voltar a cobrar a instalação da CPI da Privataria. Como o Serra despenca nas pesquisas eleitorais e pessoas ligadas ao PT estão sendo julgadas por crimes semelhantes no processo do “mensalão”, o deputado avalia que a conjuntura está mais favorável.

Se há participação de tucanos nos desvios do Banestado? Protógenes aposta que sim. Segundo ele, empresários interessados em proteger suas reservas da instabilidade fiscal dos anos 1990 também usaram a lavanderia, mas o grosso do dinheiro era proveniente dos recursos públicos desviados das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. “Os personagens que encontrei na investigação coincidem com os retrados no livro Privataria Tucana, o que nos leva a crer que o esquema foi, sim, usado para lavar dinheiro do PSDB”, afirma.

Na obra, o jornalista comprova o envolvimento com o esquema de remessa ilegal de dinheiro para o exterior de dois parentes próximos de Serra: o primo Gregório Martin Preciado e a filha Verônica Serra. O relatório da PF sobre o caso Banestado indica também um possível envolvimento direto do próprio candidato à prefeitura paulistana: extratos fornecidos pelo banco norte-americano JP Morgan Chas apontam que Serra era uma das pessoas autorizadas a movimentar a conta denominada “tucano”, que teria recebido US$ 176,8 milhões, entre 1996 e 2000.

Avanços nas investigações de lavagem
A sofisticação do esquema fraudulento do Banestado prejudicou em muito as investigações iniciadas há uma década. Conforme o diretor do Departamento Internacional da AGU, o dinheiro desviado dos cofres públicos era remetido para uma agência do próprio Banestado nos Estados Unidos. Em Privataria Tucana, Amaury relata que, de lá, o dinheiro circulava em várias outras contas, de forma a despistar sua origem, para só depois ser depositado em paraísos fiscais ou retornar, já lavado, às mãos de seus verdadeiros donos.

Até 2003, o Brasil também não contava com dispositivos eficientes para combater a prática. Foi só após a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que os mecanismos destinados ao combate de crimes que resultam em evasão de divisas foram desenvolvidos. Segundo o secretário nacional de Justiça, a criação da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla) mudou a forma do país processar a investigação desses crimes. O fórum, que congrega 60 órgãos e entidades dos três poderes da República envolvidos com ao combate à lavagem, permitiu a troca de informações, dinamizando prevenção e investigação.

Abrão destaca também a implantação dos Laboratórios de Lavagem de Dinheiro (LABs) , classificados por ele de “escritórios de produção de informação estratégica”. Tratam-se de software e hardware que fazem processamento de dados em massa, indicando as relações que se estabelecessem entre as diversas contas em que os recursos ilícitos circulam. Permitem, portanto, estabelecer a origem e a destinação do dinheiro lavado que, por estratégia de ocultamento, costumam transitar em diferentes contas, de diferentes instituições, antes de chegarem às mãos dos seus verdadeiros destinatários.

O secretário afirma que, hoje, o Brasil possui R$ 3 bilhões de ativos ilícitos bloqueados em outros países, remetidos para o exterior tanto pelo Banestado quando por outros esquemas ilegais de evasão de divisas e lavagem. O montante processado pelos LABs, só de 2009 para cá, chega a R$ 11 bilhões, referentes a 600 casos. “Nossa capacidade de bloqueio de recursos é maior do que a de repatriação porque, no último caso, dependemos da tramitação dos processos aqui no país e nos países estrangeiros”, esclareceu.

O diretor da AGU também avalia que o país tem avançado muito na recuperação do dinheiro público desviado por corrupção. Ele lembra que, na semana passada, o órgão fechou um acordo que resultou na maior operação do gênero, que possibilitará o retorno aos cofres da União dos R$ 468 milhões destinados à construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), que haviam sido desviados pelo Grupo OK, do ex-senador Luís Estevão (PP-DF). Do total, R$ 80 milhões foram pagos à vista.

O restante foi parcelado em 96 prestações de R$ 4 milhões. E para garantir a recuperação do total do valor, o órgão mantém penhorados 1.255 imóveis de Estevão, com valor correspondente à 150% do que ele deve ao erário.

Epidemia de indiferença – por atila roque / brasilia.df

O Brasil convive, tragicamente, com uma espécie de “epidemia de indiferença”, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade e dos governos, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma verdadeira calamidade social. Em 2010, 8.686 crianças e adolescentes foram vítimas de homicídio. Estamos falando ao equivalente a cerca de 43 aviões da TAM, como o do trágico acidente em 2007, lotados de crianças e adolescentes.

De 1981 a 2010, o país perdeu assassinadas 176.044 pessoas com 19 anos ou menos, sendo que meninos representam em torno de 90% do total. Esses dados horripilantes nos alcançaram mais uma em meados de julho, quando foi divulgado o “Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do Brasil”, do pesquisador Júlio Jacobo Waiselfisz, coordenador de Estudos sobre a Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) no Brasil. Os dados e análises compilados sistematicamente nos últimos anos pelo Mapa revelam um cenário de dor e horror que não tem obtido a atenção que merece na sociedade brasileira.

Passados mais de uma década de governo do PT e mais de trinta anos de regimes democráticos a área de segurança pública permanece praticamente intocada. Arraigada em um modelo arcaico que não apenas relega aos Estados o grosso das responsabilidades com a implementação das políticas de segurança e que mantém um arcabouço institucional de polícia militarizado que penaliza a sociedade e, em última instância, os próprios profissionais do setor: mal remunerados, mal treinados e sistematicamente desvalorizados. Uma das consequências são os índices de violência e homicídios associados as más práticas da polícia. Somente no Estado de São Paulo, onde a taxa geral de homicídios voltou a subir depois de um período de queda, a polícia matou nos últimos cinco anos nove vezes mais que o total de mortes decorrentes da ação policial em todo os EUA.

A taxa de homicídios na população entre 0 e 19 anos em 1980 era de 3,1 para cada grupo de 100 mil. Em 2010, foi de 13,8

O exemplo mais recente desse descaso do Estado brasileiro em relação a gravidade do tema foi a notícia divulgado ao final do ano passado que o tão esperado Plano Nacional de Redução de Homicídios havia sido engavetado pelo Ministério da Justiça por orientação expressa da presidente Dilma, que preferia concentrar esforços na ampliação e modernização do sistema penitenciário, no combate ao crack e no monitoramento das fronteiras, adiando mais uma vez a abordagem integrada do problema. Em fevereiro deste ano o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou que a redução dos homicídios seria uma prioridade do novo Plano Nacional de Enfrentamento da Violência. Infelizmente muito pouco e muito tarde para um problema que se repete todos os anos e para o qual não faltam análises, diagnósticos e propostas colocadas em diferentes graus em debate e experimentadas em pequena escala ao longo das últimas duas décadas.

As chances de uma criança ou adolescente brasileiro morrer assassinado são maiores hoje do que eram há 30 anos, colocando o país na quarta pior colocação numa comparação com outros 91 países. Em 1980, a taxa de homicídios na população entre zero e 19 anos era de 3,1 para cada 100 mil pessoas. Pulou para 7,7 em 1990, chegou a 11,9 em 2000 e alcançou 13,8 em 2010. Um crescimento de 346,4% em três décadas, em contraste com a mortalidade provocada por problemas de saúde, que teve queda acentuada. Quando considerada toda a população, a taxa de homicídios em 2010 foi de 27 por 100 mil habitantes. Considera-se que há uma epidemia de homicídios quando a taxa fica acima de 10 por 100 mil.

 

De fato, o Brasil é o país com o maior número bruto de homicídios no mundo, ocupando o sexto lugar quando considerado a proporção em relação ao tamanho da população do país. E os jovens, em sua maioria crianças e adolescentes, meninos, ocupam uma parcela desproporcional dessas mortes, sem que isso vire um escândalo público nacional. Passado o momento da divulgação dos dados voltamos a situação de quase inércia em que as medidas tomadas não incorporam o sentido de urgência e emergência que a questão merece.

O fim trágico da vida desses jovens vem acompanhado da anulação simbólica de suas histórias, a dor das famílias e dos amigos ignorada, sonhos e trajetórias de vidas suprimidos. Isso ocorre devido à naturalização da violência e a um grau assustador de complacência em relação a essa tragédia. É como se estivéssemos dizendo, como sociedade e governo, que o destino deles já estava traçado. Estavam destinados à tragédia e à morte precoce, violenta, porque nasceram no lugar errado, na classe social errada e com a cor da pele errada, em um país onde o racismo faz parte do processo de socialização e do modo de estruturação do poder na sociedade.

São jovens submetidos constantemente a um processo que os transforma em ameaça, os desumaniza, viram “delinquentes”, “traficantes”, “marginais” ou, às vezes, nem isso, apenas “vítimas” de um contexto de violência e discriminação em relação ao qual a sociedade prefere virar às costas e olhar para o outro lado, com raras exceções.

É preciso quebrar esse padrão de violência e indiferença e compreender que o país está perdendo o melhor da sua juventude. Esses meninos não estavam destinados a morte violenta, mas sim a serem médicos, artistas, engenheiros, professores, filhos e pais, avôs e presidentes da República.

Precisamos criar alternativas, abrir canais de conversação na sociedade sobre essa tragédia, combater a violência armada, inclusive policial, estabelecer instrumentos de participação e controle cidadão sobre o desenho e implementação das políticas públicas de segurança. Reconhecer que isso é uma questão nacional, um problema do estado e central à consolidação da democracia. Precisamos quebrar a apatia, o silêncio e a cumplicidade passiva com o extermínio dos jovens brasileiros.

Atila Roque é diretor executivo da Anistia Internacional Brasil

Leitor e Chuva – por jorge lescano / são paulo.sp

Chovia com violência e as pessoas se recolhiam na entrada do banco. Esperavam impacientes que o temporal amainasse para ir embora rumo aos seus afazeres; aparentemente resignado ao capricho do clima, o homem tirou um livro de sua bolsa a tiracolo.

Chuva torrencial.

Sob a laje de concreto

um casal de pardais.

Um leve sorriso modificou-lhe as feições, a turma de garotos comemora a chuva dançando na tormenta entre gritos e gargalhadas. Mesmo interrompida no espaço por prédios, domesticada por encanamentos, civilizada, enfim, a chuva é uma festa da natureza. Repentinamente o leitor decidiu contemplar o primitivo espetáculo do aguaceiro.

A ventania cria vagas que desabam sobre as pessoas apinhadas no refugio acanhado. A rua alaga-se, os carros levantam pequenas ondas ao passar espirrando naqueles que se atrevem a andar no temporal. Os carros perfuram a tarde. A chuva é tão densa que se pode sentir os esforço do veículo para abrir caminho, e este espaço é quase visível quando o carro perfura a massa líquida que cede na parte anterior e vai se fechando novamente a medida que ele avança, de modo que se o carro não estivesse alguns metros adiante no momento seguinte se poderia pensar que é a massa de água que se movimenta em sentido contrário envolvendo o veículo do capô ao porta-malas. As vagas são oblíquas pela ação do vento, isto aumenta a sensação de imobilidade do trânsito de veículos. Tudo acontece em um instante, a sua percepção é simultânea a ponto de ser quase imperceptível no momento em que acontece, e só depois, ao lembrar o fato, é que a observadora toma ciência do fenômeno.

Na outra calçada, na janela de um primeiro andar, alguém está imóvel contemplando a rua. Talvez um homem atarefado que vê frustrar-se uma reunião importante para seus negócios – quando chove o trânsito na cidade vira um caos –, ou uma mãe preocupada com seu filho que ainda não chegou do colégio. Talvez uma criança que se maravilha ao perceber pela primeira vez que a chuva é um espetáculo musical de beleza mágica, embora preocupe o homem de negócios e a mãe do rapaz que demora em chegar.

A figura permanece imóvel além da densa cortina líquida, bem protegida pela vidraça. Não importa quem é. Faz parte da paisagem – monocromática agora – deste início de outono.

Árvores antigas balançam suas frondosas copas ao sabor da ventania, um arbusto baixo se sacode feito cachorro depois do banho.

O catador de papel, provável morador de rua, atrelado às barras de madeira, puxa sua carroça contra o vento, sob o veículo, seu cão de estimação de raça indefinida acompanha o passo lerdo do patrão. O chapéu do homem despeja grossos fios de água diante dos seus olhos. Todo seucorpo está encharcado, tomou banho em plena rua.

Um flash de luz celeste ilumina todo o cenário, por um instante a cena fica congelada, o espectador postado na janela tem uma instantânea do grupo.

O leitor conserva seu livro aberto e olha a chuva. A moça de vestido preto protege seu peito do vento com uma pasta branca. No horário do almoço a jovem havia consumido protetor solar e sabonete e dentifrício e talco para os pés e para o corpo e creme para as mãos e para prevenir rugas no rosto e xampus e tinturas para o cabelo e fixador e creme umectante e desodorante em pasta e aerossol e esmaltes para as unhas e batons para o dia e para a noite e sombra para os olhos e rímel para os cílios e supercílios, pois ela está ligeiramente acima do peso e é oportuno completar a ausência de gorduras na comida com cosméticos,mesmo quando se é apenas heroína de uma história literária. 

Um motociclista veste a brilhante roupa impermeável e as galochas para enfrentar a intempérie, deve entregar documentos ou mercadoria antes do fim do expediente comercial. Nada mais pode ser visto no lampejo do raio. O trovão estremece o ar, afasta-se ribombando em ziguezague.

A moça estica a mão espalmada para conferir se a chuva parou, como as horas, a água lhe escorre entre os dedos. Diminui a força d’água, ou é a fúria do vento que decresce e dá a sensação de que a chuva está amainando. Lentamente o grupo acorda. Em câmera lenta os personagens retornam à vida. De fato, a chuva está mais leve. A figura da janela desaparece.

Não havia o cheiro de terra molhada que tanto lhe agradava quando criança e ainda não era noite para contemplar o rastro lusco-fusco das rodas dos carros sobre o asfalto. Brilhos fugitivos, um dos prazeres visuais da chuva noturna na cidade. Os guarda-chuvas, apesar de perigosos para seus óculos, especialmente se portados por mulheres, sempre mais baixas que ele, também mereceriam a atenção do pintor. Amava a chuva e sabia que não poderia viver numa cidade dominada pelo sol. A chuva sempre lhe trazia lembranças de sua cidade que lhe parecia nórdica com o céu de nuvens baixas e escuras de abril e agosto,

No fim do outono a cidade vive sua época mais bela, com as árvores que perdem a folhagem enfeitando o chão com cores que vão do amarelo ao terra-sombra passando pelo ocre, o sépia, o laranja, e ouve-se o crepitar das folhas ao andar sobre elas. O sol pálido cria longos crepúsculos feéricos que convidam a passeios distraídos sem rumo, perambular a esmo até as luzes serem acesas. Quando o chuvisco apressa a noite, ele veste a sua velha capa de chuva e sai a vagar. Nesses anoiteceres sente-se na Londres dos romances de mistério do século XIX. Longe dela percebe que ama a sua cidade que provavelmente nunca mais verá. O homem fechou o livro, guardou-o na bolsa, levantou a gola do casaco, abaixou a cabeça e adentrou na massa líquida da tarde.

As árvores conservariam em suas copas agitadas os rastros da tempestade e por longas horas continuariam a despejar gotículas iridescentes de cores variegadas ao ritmo das luzes que aos poucos se acendem na cidade e dissolvem os objetos em massas indefinidas de cor pastel. O crepúsculo distribui seu cromatismo sobre formas evanescentes que aos poucos desaparecem pela invasão das sombras noturnas. À luz dos faróis, o chuvisco é um redemoinho de alfinetes.

CONTRA O ‘GAUCHISMO” IDIOTA – guilherme.f.x / porto alegre. rs

Quem vem a Porto Alegre e passa em frente ao acampamento farroupilha, vindo de fora do Rio Grande do Sul, não deve entender nada. Não basta permitir que se instalem as malocas da Vila do Chocolatão: os tradicionalistas brindam a cidade com um visual que rivaliza com os desvalidos e excluídos urbanos. É um imenso malocão (favela é termo carioca, considerado menos pejorativo – caiu no gosto da terra e está em franca substituição pelo politicamente correto comunidade; aqui é maloca mesmo e nada saudosa).

Não tenho mais paciência com este gauchismo idiota, com estas representações de farrapos usando bombacha em desacordo com a história. Os ‘’pantalones turcos’’ excedentes da guerra da Criméia só foram desovados pelos ingleses no Prata e caíram no gosto campeiro após as nossas façanhas. Não aguento aqueles que se transformam e passam a usar impostação vocal de Paixão Cortes quando setembro chega com barro e bosta de cavalo na mui leal e valerosa.

Esta cultura de CTG é muito esquisita mesmo. O alicerce de tudo, CTG com patrão, capataz, sota e primeira prenda, reproduz o modelo estancieiro de exploração do homem do campo. A grande virtude do gaúcho modelar é a lealdade à terra, entendida aí como propriedade do patrão ao qual o gaúcho devota uma fidelidade canina. Outro fato curioso é o grande numero de patrões de CTG com nome italiano, mesmo na campanha. O gringo trabalhador após descer a serra e prosperar no pampa está assumindo o seu lugar na ordem social nativista. Não vou nem comentar as primeira prendas Jeniffer anunciadas no sistema de som, deve ser a tal globalização no gauchismo.

Na minha geração fomos invadidos pelo Fogaço-Crioulismo (não é meu o conceito), movimento tradicionalista que trouxe para a juventude dos anos 80 o orgulho de tomar mate em público. Misturava, numa miríade de festivais quase semanais, gauchismo com Woodstock; bombacha e alpargatas com maconha e bebedeira. Aumentou o consumo de erva mate, o preço subiu e salvamos nossos ervais que estavam sendo dizimadas pela monocultura.

Voltando ao acampamento, aquilo que era alma popular está virando negocio pelas beiradas. O gauchinho da volta, que fazia do setembro seu carnaval de um mês, tirando férias do emprego para passar acampado com os amigos, de fordunço, já não tem mais espaço. Agora temos piquetes de empresas, entidades e associações de aquinhoados funcionários públicos. Estes senhores desvestem-se de gente e fantasiados a caráter botam o pé no barro (duplo sentido:lama e bosta). Mas eles não montam piquete, não fazem comida e não zelam pelo espaço nas madrugadas vazias. Aí o pobre gauchinho agora excluído do seu antigo piquete se emprega com os ‘’doutores’’ por algum cobre, voltando a reproduzir num círculo trágico o modelo de exploração pampeano que tão bem representa.

Antes que me sentem o mango devo dizer que tenho alguma vivência campeira e muita simpatia pelo modo de vida lá de fora. Seguidamente me perguntam de onde eu sou pois devo ter adotado sem saber modos que são estranhos a um porto alegrense urbano. Conheci o gaúcho campeiro da região central, aquele do modelo estancieiro do CTG. Tive contato com o gaúcho missioneiro da Bossoroca, os homens mais primitivos e rústicos que vi lá nos anos 70. Estive muito próximo do gaúcho da região sul dos banhados pra baixo da Quinta. Tenho alguma deficiência no gauchismo dos campos de cima da serra. Conheço de ouvir falar, de rica tradição tropeira.

Então senhores, cultivem suas tradições, não deixem tudo virar um carnaval espetaculoso com assessores cariocas e cavalos de isopor ridículos. Moralizem o acampamento, talvez reduzindo a densidade da costaneira, com mais coletividade associativa cultural e menos individualidades piqueteiras, empresas e associações. O Rio Grande Gaúcho é maior que isso, mais Rio Grande Castilhista positivista sem ode ao modelo oligárquico, que se vigesse ainda nos faria mais parecidos com os coronéis que criticamos para além do Mambituba.

Mulher de Cachoeira: ‘chefe da revista VEJA é empregado do meu marido’

 

Postado em: 31 ago 2012 às 11:36

 

Afirmação foi feita por Andressa, mulher de Cachoeira, ao juiz federal Alderico Rocha Santos. Se deu durante tentativa de chantagem sobre ele, para que tirasse o marido da penitenciária da Papuda. Santos registrou ameaça à justiça federal

andressa cachoeira veja

Andressa Mendonça, mulher de Cachoeira, finalmente admite relação de chefe da Veja com seu marido: ‘empregado e patrão’. Foto: divulgação

É muito mais surpreendente, perigosa e antiética a relação que une o contraventor Carlinhos Cachoeira e o jornalista Policarpo Júnior, editor-chefe e diretor da sucursal de Brasília da revista Veja, a julgar pela ameaça feita pela mulher de Cachoeira, Andressa Mendonça, ao juiz federal Alderico Rocha Santos.

Documento obtido com exclusividade por 247 contém o ofício à Justiça Federal de Goiás, datado de 26 de julho, assinado pelo juiz Rocha Santos, no qual ele relata como foi e quais foram os termos da ameaça recebida de Andressa. A iniciativa é tratada como “tentativa de intimidação“. Ele lembrou, oficialmente, que só recebeu Andressa em seu gabinete, na 5ª Vara Federal, em Goiânia, após muita insitência da parte dela.

Com receio do que poderia ser a conversa, Rocha Santos pediu a presença, durante a audiência, da funcionária Kleine. “Após meia hora em que a referida senhora insistia para que este juiz revogasse a prisão preventiva do seu marido Carlos Augusto de Almeida Ramos, a mesma começou a fazer gestos para que fosse retirada do recinto da referida servidora”.

P.P.

O MAPA – de mario quintana / porto alegre.rs

 

 

Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E ha uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu

VARGAS E A PRESENÇA DO ESTADO NA ECONOMIA – por mauro santayana

 

Este site se associa à homenagem que Santayana presta a Getúlio Vargas, o  Maior Estadista que este País já teve,  Mártir da nacionalidade, do Povo Brasileiro, e reproduz seu artigo.

 

 

(JB)- Em 24 de agosto de 1954, os homens de minha geração chegavam à maioridade. Naquele dia, pela manhã, cheguei ao Rio, enviado pelo Diário de Minas, de Belo Horizonte, a fim de cobrir o velório de Vargas e a reação do povo carioca ao suicídio do Presidente. A Presidente Dilma Rousseff era uma menina de seis anos. Não poderia saber o que significava aquele gesto de um homem que mal passara dos 70, e ocupara o centro da vida brasileira naqueles últimos 24 anos.

As jornadas anteriores haviam sido enganosas, o que costuma ocorrer na História, desde o episódio famoso da frustrada queda de Richelieu. Os meios de comunicação haviam ampliado o suposto atentado contra Carlos Lacerda – obscuro até hoje – e atribuído à responsabilidade ao Presidente, tentando fazer crer que o Palácio do Governo se transformara em valhacouto de ladrões e assassinos. Houve quase unanimidade contra Getúlio. Quando passei pela Praça 7, em Belo Horizonte, a caminho do aeroporto da Pampulha, entre manifestantes de esquerda, um jovem sindicalista, meu amigo, pedia aos gritos, pelo megafone, a prisão do Presidente. Desci do táxi e lhe dei a notícia, com os avisos de meu pressentimento: dissolvesse o grupo, antes que os trabalhadores, ao saber da morte do Presidente, reagissem na defesa do líder desaparecido.

Durante a viagem ao Rio, que durava hora e meia, organizei minhas idéias. Entendi, em um instante, que a ação coordenada contra Vargas nada tinha a ver com o assassinato de um oficial da Força Aérea, transformado em guarda-costas do jornalista Carlos Lacerda – isso, sim, ato irregular e punível pelos regulamentos militares. Lacerda, ferido no peito do pé, não permitiu que o revólver que portava fosse periciado pela polícia. Açulada e acuada pela grande imprensa, a polícia nunca investigou o que realmente houve na Rua Tonelero.

Vargas fora acossado pelos interesses dos banqueiros e grandes empresários associados ao capital norte-americano. Ao ouvir, pelo rádio, a leitura de sua carta, não tive qualquer dúvida: Getúlio se matara como ato de denúncia, não de renúncia. Morrera em defesa do desenvolvimento soberano de nosso povo.

Sei que não basta a vontade política do governante para administrar bem o Estado. Mas uma coisa parece óbvia a quem estuda as relações históricas entre o Estado e a Nação: o Estado existe para buscar a justiça, defender os mais frágeis, uma vez que não há igualdade entre todos. Por isso, algumas medidas anunciadas pelo governo inquietam grande parcela dos brasileiros bem informados. É sempre suspeito que os grandes empresários aplaudam, com alegria, uma decisão do governo. Posso imaginar a euforia dos lobos junto a uma ninhada de cordeiros. Quando os ricos aplaudem, os pobres devem acautelar-se.

O regime de concessões vem desde o Império. As vantagens oferecidas aos investidores ingleses, no alvorecer da Independência, levaram à Revolução de 1842, chefiada pelo mineiro Teófilo Ottoni e pelos paulistas Feijó e Rafael Tobias de Aguiar, e conhecida como a Revolução do Serro, em Minas, e de Sorocaba, em São Paulo. O Manifesto Revolucionário, divulgado em São João del Rei por Teófilo Ottoni, e assinado por José Feliciano Pinto Coelho, presidente da província rebelde, é claro em seu nacionalismo, ao denunciar que os estrangeiros ditavam o que devíamos fazer “em nossa própria casa”.

A presidente deve conhecer bem, como estudiosa do tema, o que foi a política econômica de Campos Salles e seu ministro Joaquim Murtinho, em resposta à especulação financeira alucinante do encilhamento. O excessivo liberalismo do governo de Prudente de Moraes e de seu ministro Ruy Barbosa, afundou o Brasil, fazendo crescer absurdamente o serviço da dívida – já histórica –, obrigando Campos Salles (que morreria anos depois, em relativa pobreza) a negociar, com notório constrangimento, o funding loan com a praça de Londres. O resultado foi desastroso para o Brasil. Os bancos brasileiros quebraram, um banco inglês em sua sucursal brasileira superou o Banco do Brasil em recursos e operações e, ainda em 1899, a Light iniciava, no Brasil, o sistema de concessões como o conhecemos. O Brasil perdeu, nos dez anos que se seguiram, o caminho de desenvolvimento que vinha seguindo desde 1870.

Durante mais de 50 anos, a energia elétrica, a produção e distribuição de gás e o sistema de comunicações telefônicas no eixo Rio-SP-BH foram controlados pelos estrangeiros. Ao mesmo tempo, os combustíveis se encontravam sob o controle da Standard Oil. A iluminação dos pobres se fazia com o Kerosene Jacaré, vendido em litros, nas pequenas mercearias dos subúrbios, cujos moradores não podiam pagar pela energia elétrica, escassa e muito cara. O caso das concessões da Light é exemplar: antes do fim do prazo, a empresa, sucateada, foi reestatizada, para, em seguida, ser recuperada pelo governo e “privatizada”. Como se sabe foi adquirida pela EDF, uma estatal francesa, durante o governo de Fernando Henrique. Novamente sucateada, foi preciso que uma estatal brasileira, a Cemig, associada a capitais privados nacionais, a assumisse, para as inversões necessárias à sua recuperação.

Vargas não tinha como se livrar, da noite para a manhã, dessa desgraça, mas iniciou o processo político necessário, ainda no Estado Novo, para conferir ao Estado o controle dos setores estratégicos da economia. Só conseguiu, antes de ser deposto em 1945, criar a CSN e a Vale do Rio Doce. Eleito, retomou o projeto, em 1951 e o confronto com Washington se tornou aberto. O capital americano desembarcara com apetite durante o governo Dutra, na primeira onda de desnacionalização da jovem indústria brasileira. Getúlio, na defesa de nossos interesses, decidiu limitar a remessa de lucros. Embora os banqueiros e as corporações estrangeiras soubessem muito bem como esquivar-se da lei, a decisão foi um pretexto para a articulação do golpe que o levaria à morte.

O Estado pode, e deve, manter sob seu controle estrito os setores estratégicos da economia, como os dos transportes, da energia, do sistema financeiro. Concessões, principalmente abertas aos estrangeiros, em quase todas as situações, são um risco dispensável. O Brasil dispõe hoje de técnicos e de recursos, tanto é assim que o BNDES vai financiar, a juros de mãe, os empreendimentos previstos. Se há escassez de engenheiros especializados, podemos contratá-los no Exterior, assim como podemos comprar os processos tecnológicos fora do país. Uma solução seria a das empresas de economia mista, com controle e maioria de capitais do Estado e a minoria dos investidores nacionais, mediante ações preferenciais.

Por mais caro nos custem, é melhor do que entregar as obras e a operação dos aeroportos, ferrovias e rodovias ao controle estrangeiro. O que nos tem faltado é cuidado e zelo na escolha dos administradores de algumas empresas públicas. Não há diferença entre uma empresa pública e uma empresa privada, a não ser a competência e a lisura de seus administradores. Entre os quadros de que dispomos, há engenheiros militares competentes e nacionalistas, como os que colaboraram com o projeto nacional de Vargas e com as realizações de Juscelino, na chefia e composição dos grupos de trabalho executivo, como o GEIA e o Geipot.

E por falar nisso, são numerosas e fortes as reações à anunciada nomeação do Sr. Bernardo Figueiredo, para dirigir a nova estatal ferroviária. Seu nome já foi vetado pelo Senado para a direção da Agência Nacional dos Transportes Terrestres. E o bom senso é contrário à construção do Trem Bala, que custará bilhões de reais. O senso comum recomenda usar esses recursos na melhoria das linhas existentes e na abertura de novos trechos convencionais. Não podemos entrar em uma corrida desse tipo com os países mais ricos. Eles podem se dar a esse luxo, porque já dispõem de armas atômicas enquanto nós não temos nem mesmo como garantir as nossas fronteiras históricas.

MARIANO MELGAR: o primeiro peruano na literatura indigenista – por manoel de andrade / curitiba.pr

RESUMO

 

Morrer aos 24 anos trazendo na alma o sonho da liberdade e o encanto da poesia… Como Castro Alves, no Brasil, assim também viveu e morreu Mariano Melgar, no Peru. Contudo, Melgar é a primeira referência latino-americana da palavra armada e desfraldada pelas convicções  libertárias. Com ele se inaugura a expressão poética contra a opressão colonial. É poeta por predestinação, é rebelde por natureza. Procér e mártir na luta pela Independência, foi executado em 1815.

Em janeiro de 1970, quando Manoel de Andrade chega em Arequipa, um dos locais onde é convidado a dizer seus
versos foi o Centro Cultural Mariano Melgar. A partir desse encontro passa a  estudar a obra do poeta dos yaravíes. Deslumbra-se com sua precocidade intelectual, com sua coragem libertária e por saber que Mariano Melgar é também o primeiro poeta peruano a expressar, na poesia,  todo o imaginário panteísta do sentimento indígena. Neste artigo o poeta brasileiro conta como a poesia de Melgar foi vista com desprezo em seu próprio país e do tardio reconhecimento de sua genialidade.

 

Mariano Melgar: o primeiro peruano na literatura indigenista[1]

 

                                                                                              

 

 

Conta-se que Arequipa nasceu sobre as ruínas de uma antiga cidade inca e que foi fundada em 1540 pelo próprio conquistador do Peru, Francisco Pizarro. Berço de notáveis nomes da política e da literatura peruana, nela nasceu Mario Vargas Llosa, no ano de 1936. Contudo sua celebridade literária, coroada com o Nobel em 2010, dispensa aqui qualquer comentário. Devo, entretanto dizer que quando por lá passei, na virada da década de sessenta, o nome de Vargas Llosa,  apesar de seus quatro livros já publicados, ainda não era tão comentado como o do poeta Mariano Melgar, um dos filhos mais queridos da cidade. Falo de um poeta libertário, combatente pela independência do Peru, com o qual se inicia o Romantismo e o Indigenismo na literatura peruana e, tal como o nosso Castro Alves, também libertário pelo abolicionismo, morre igualmente aos vinte e quatro anos.

Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso, nasceu em Arequipa em 10 de agosto de 1790 e por sua precocidade foi um verdadeiro prodígio intelectual. Aos três anos já lia e escrevia, aos oito falava latim e aos nove anos dominava o inglês e o francês. Profundamente identificado com o povo na sua expressão indígena, encontrou no singelo lirismo das canções quechuas a motivação poética para grande parte de seus versos compostos em forma de yaravís, gênero musical de origem incaica, de composição breve e com um caráter elegíaco, amoroso e melancólico. É o que o poeta expressa neste seu poema chamado Yaraví:
¡Ay, amor!, dulce veneno,
ay, tema de mi  delírio,
solicitado martirio
y de todos males lleno.

 

¡Ay, amor! lleno de insultos,
centro de angustias mortales,
donde los bienes son males
y los placeres tumultos.

 

¡Ay, amor! ladrón casero
de la quietud más estable.
¡Ay, amor, falso y mudable!
¡Ay, que por causa muero!

 

¡Ay, amor! glorioso infierno
y de infernales injurias,
león de celosas furias,
disfrazado de cordero.

 

¡Ay, amor!, pero ¿qué digo,
que conociendo quién eres,
abandonando placeres.
soy yo quien a ti te sigo?
[2]

 

José Carlos Mariátegui, em seus Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, ao analisar a poesia de Melgar ressalta inicialmente o “extremo centralismo” com que Lima dominou a literatura colonial, tida como um “produto urbano”, e acrescenta:

  (…)Por culpa dessa  hegemonia absoluta de Lima, nossa literatura não pode se  nutrir da seiva indígena. Lima foi primeiro a capital espanhola. Só foi a capital criolla depois. E sua literatura teve essa  marca.

      O sentimento indígena não careceu totalmente de expressão nesse período de nossa história literária. Quem primeiro o expressou com  categoria foi Mariano Melgar. (…)[3]

 

É esclarecedor colocar aqui o exemplo da poesia de Melgar, para avaliar, em dado momento histórico, os dois lados com que a crítica peruana encara a sua própria literatura: uma do ponto de vista colonialista e culturalmente preconceituosa e outra do ponto de vista legitimamente peruano, ou seja, indigenista, explicitados por duas figuras tão emblemáticas na história da intelectualidade peruana, como Mariátegui e o historiador José de la Riva Agüero (1885-1944), com opiniões tão diversas sobre a                                                           imagem literária de Melgar:

“Para Riva Agüero, o poeta dos yaravíes não passa de “um momento curioso da literatura peruana”. Retifiquemos esse julgamento, dizendo que é o  primeiro peruano dessa literatura.”.[4]

Comenta Mariáteguio desdém com que a crítica limenha tratou a poesia popular e indigenista de Melgar, num arraigado preconceito colonial que, um século depois, atingiria ainda, com o punhal da indiferença, o coração poético e indígena de Cesar Vallejo, a ponto de fazê-lo abandonar o Peru para nunca mais voltar. Vallejo é hoje reconhecido como o maior poeta do Peru e, como poeta universal, divide com Pablo Neruda a grandeza da poesia hispano-americana. Mariano Melgar teve sua imagem poética e libertária reconhecida oficialmente pelo governo peruano somente em junho de 1964. Apenas nos dois casos aqui citados essa é uma justa, necessária e tardia penitência, mas perguntamos se a cultura limenha já limpou a alma desse antigo pecado, porque continua, até os dias de hoje, ditando suas sentenças culturais no exercício de sua explícita hegemonia intelectual, em detrimento dos valores literários das províncias.

Mariátegui é o que melhor dá a dimensão do poeta de Arequipa, seja como mártir da independência, seja pela potencialidade de sua poesia, caso não houvesse morrido tão cedo. Abordando o lado romântico de Melgar, ressalta o grande despojamento do jovem poeta pela causa libertária, comparando-o ao cacique cusquenho Mateo Pumacahua, que em 1815 tornou-se um dos líderes da revolta contra os espanhóis, sendo preso e fuzilado pelas tropas coloniais.

      “Melgar é um romântico. Não apenas em sua arte, mas também em toda sua vida. O romantismo ainda não tinha oficialmente chegado a nossas letras. Em Melgar, portanto, não é, como será mais tarde em outros, um gesto de imitação, é um impulso espontâneo. E esse é o dado de sua sensibilidade artística. Já se disse que se deve à sua morte heróica uma parte de seu renome literário. Mas essa valorização dissimula mal a desdenhosa antipatia que a inspira. A morte criou o herói, frustrou o artista. Melgar morreu muito jovem. E mesmo que seja sempre um pouco aventureira qualquer hipótese sobre a trajetória provável de um artista prematuramente surpreendido pela morte, não é demais supor que Melgar, maduro, teria produzido uma parte mais purgada da retórica e do maneirismo clássicos e, por conseguinte, mais nativo, mais puro.(…)

        Os que se queixam da vulgaridade de seu léxico e de suas imagens partem de um preconceito aristocrático e academicista. O artista que escreve um poema de emoção perdurável na linguagem do povo vale, em todas as literaturas, mil vezes mais que aquele que, em linguagem acadêmica, escreve uma depurada peça de antologia. Por outro lado, como observa Carlos Octavio Bunge em um estudo sobre a literatura argentina, a poesia popular sempre precedeu a poesia artística. Alguns dos yaravíes de Melgar só vivem como fragmentos de poesia popular. Mas, com esse título,  adquiriram substância imortal”.[5]

Não é diferente a opinião do crítico italiano Giuseppe Bellini, tido como o mais qualificado estudioso europeu da literatura hispano-americana. Comentando a poesia gauchesca do poeta da independência uruguaia Bartolomé José Hidalgo (1788-1822), Bellini anota que:

          “Junto con Hidalgo cabe recordar a Mariano Melgar (1791-1815), cultivador también de la poesía popular  en los “yaravíes” y “palomitas”. El poeta peruano, sin duda más culto que Hidalgo, traductor e imitador de Horacio y de Virgilio, manifestó, tal vez por su carácter de mestizo, un profundo apego al elemento popular  quechua y a la naturaleza, antecipando un indigenismo que dará resultados consistentes durante el Romanticismo y en el siglo XX. [6]

Mariano Melgar une-se às tropas do cacique Mateo Pumacahua, que no passado fora aliado dos espanhóis, mas que a partir de 1814 empunhou a bandeira da independência em Cusco. Vencidos na batalha de Umachiri, o poeta é aprisionado e mantido em cativeito até o amanhecer do dia 12 de março de 1815, quando é executado. Ante o pelotão de fuzilamento Melgar escreveu num bilhete aos oficiais espanhóis, com as seguintes palavras:

          “Cubram seus olhos, já que vocês são os que necessitarão misericórdia porque a América será livre em menos de dez anos!”

 

          E assim aconteceu.

          Em 9 de dezembro de 1824, um exército de 6.879 patriotas de vários países hispanoamericanos, sob o comando do general venezuelano Antonio José Sucre, vence o exército espanhol de 10.000 soldados, selando em Ayacucho a independência do Peru e da América do Sul.


[1] Esse artigo integra o texto de um livro que o autor está escrevendo sobre os anos que passou na América Latina , nas décadas de 60/70. As notas e traduções são do autor.

[2] http://www.vivir-poesia.com/yaravi/ (acesso em 08/11/2011)

[3] MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Trad. Felipe José Lindoso. São Paulo: Clacso, 2008, p. 252.

[4] MARIÁTEGUI. Op. cit. p.253.

[5] MARIÁTEGUI. Idem  pp. 252-253.

[6] BELLINI, Giuseppe. Nueva historia de la literatura hispanoamericana. Madrid: Editorial Castalia, 1997, p. 209.

Portugal e Brasil: apáticos ou tolerantes? Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa. – por graciano coutinho

Às indignidades de que são alvo diariamente, portugueses e brasileiros reagem com uma indolência irritante. Será isso necessariamente mau?

 

 

 A decisão do regulador das telecomunicações no Brasil, a Anatel, de proibir as operadoras Claro, TIM e Oi de vender novos chips de telemóveis deixou o país de boca aberta. Afinal, um órgão estatal enfrentar, em nome do bom serviço à população, o poder dos gigantes mexicano, italiano e brasileiro (com forte participação portuguesa) não acontece todos os dias. Na manhã seguinte à decisão já três delegações dos operadores, que, até há uma semana, dizia-se, faziam o que queriam do regulador, estavam à porta da Anatel para tentar minorar estragos.

Enquanto as três empresas (a Vivo escapou com advertência) não apresentarem um plano de investimento em antenas que melhore as condições de rede dos consumidores, a Anatel não permitirá a venda de mais uma linha sequer.

A propósito desta medida, um correspondente britânico no Brasil comentou que é uma medida histórica e necessária “porque o consumidor brasileiro é o mais maltratado do mundo”. “O brasileiro é de uma apatia incrível na defesa dos seus direitos”, acrescentou um jornalista americano. “E essa apatia alastra a tudo, incluindo, à política”, rematou uma correspondente francófona.

O correspondente português presente na conversa não disse nada. Mas pensou. Lembrou-se de duas fotos colocadas propositadamente lado a lado nesse mesmo dia nas redes sociais. Numa, via-se uma praça de Madrid invadida por manifestantes a protestar contra as medidas de Rajoy; noutra, uma praia da Costa de Caparica invadida por manifestantes a protestar contra a onda de calor. Os comentários às fotos eram de portugueses indignados com a “apatia” (a mesma palavra do americano e da francesa) dos compatriotas que não reagem à forma como são “maltratados” (a mesma palavra do britânico) pelos seus governantes.

Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa.

E segundo o Mahabharata, a Bíblia do hinduísmo e maior livro da história (200 mil versos, o equivalente a 20 Odisseias), a apatia é um dos piores defeitos do ser humano. Uma das conclusões do tratado filosófico indiano é que “os equilibrados elevam-se, os ativos ficam na região intermediária e os apáticos descem, envolvidos nas piores qualidades porque a preguiça, a ilusão e a ignorância nascem da apatia”.

Mas a fronteira entre uma qualidade e um defeito (persistência-teimosia, autoridade-violência) é muito mais ténue do que se supõe. Talvez a apatia seja apenas a face negativa da tolerância (e o protesto a face positiva da intolerância).

Os correspondentes em causa e os madrilenos em manifestação convivem ou conviveram com siglas e nomes como IRA, Ku Klux Klan, Le Pen ou ETA; Brasil e Portugal são dois países praticamente imunes a separatismos e em que os grupos radicais intolerantes são absolutamente residuais.

No Brasil, convivem nas mesmas cidades pretos e brancos, árabes e judeus, católicos e protestantes, sem sinais de violência por esse motivo – a violência é motivada quase exclusivamente pela desigualdade económica. Em Portugal,  demorou mas fez-se uma revolução após 50 anos de ditadura – uma revolução simbolizada por uma flor num cano de espingarda.

Os brasileiros e o portugueses são apáticos com as injustiças diárias mas talvez saibam reagir com firmeza no momento certo. Como a Anatel, que até à semana passada era considerada uma agência apática.

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Crónicas de um português emigrado no Brasil

DR. ZEQUINHA – resistiu a ditadura com um estilingue – 40 anos depois. – curitiba.pr

Dr. Zequinha, líder estudantil em 68, se emociona ao falar da tortura na prisão e do apoio familiar durante os ‘anos de chumbo’
A famosa foto: Dr. Zequinha enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue - e só

A famosa foto: Dr. Zequinha enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue – e só
LUCIANA GALASTRI

Dr. Zequinha em evento realizado no dia 14 de maio para relembrar os 40 anos de ocupação da Reitoria da UFPR

Dr. Zequinha em evento realizado no dia 14 de maio para relembrar os 40 anos de ocupação da Reitoria da UFPR

No ano de 1968, o então reitor da UFPR, Flávio Suplicy de Lacerda, tomou uma decisão: a Universidade Federal do Paraná, uma instituição pública, passaria a cobrar por seu ensino. Cursos noturnos, em teoria voltados para estudantes que trabalhavam durante o dia para se sustentar, passariam a ser pagos. Esse novo sistema começaria a vigorar quando os calouros daquele ano fossem aprovados.

No dia do vestibular de 68, os estudantes da Universidade, sob liderança do DCE (Diretório Central dos Estudantes), da UPE (União Paranaense de Estudantes) e da UPES (União Paranaense de Estudantes Secundaristas) impediram a realização da prova no Centro Politécnico com sucesso, adiando o concurso. Suplicy insistiu em manter sua decisão e realizar uma segunda prova. Novamente, os movimentos estudantis se mobilizaram para impedir o vestibular, mas a presença da polícia montada fez com que a operação falhasse.

Então, no dia 14 de maio daquele ano, há quarenta anos, os estudantes tomaram a Reitoria da UFPR, derrubaram o busto do reitor Suplicy e arrastaram a imagem pelas ruas em uma marcha contra a Universidade paga. A polícia recebeu ordens de não interferir e os estudantes foram poupados de mais violência. Esta última manifestação foi marcada pelo sucesso absoluto. “Dizíamos que a polícia também era gente! E os policiais choravam, comovidos pelo nosso movimento” declara Stênio Jacob, presidente da UPE na época.

A tomada da Reitoria tem uma enorme significância, pois foi realizada em um período de ditadura e opressão militar no Brasil. Em termos mundiais, o ano de 68 é emblemático: vários países testemunharam movimentos estudantis que pediam a reforma do ensino, a liberdade de expressão e davam visibilidade a uma nova espécie de jovem – questionador e rebelde.

Um dos líderes desses jovens que em 1968 tomaram a Reitoria da universidade mais antiga do país era o jovem José Ferreira Lopes, mais conhecido por Zequinha – pelos amigos e pelos algozes. Membro do DCE e da UPE naqueles anos, foi testemunha de sentimentos e atitudes antagônicas, a coragem dos estudantes e a covardia das autoridades, chegou a ser preso e torturado, viu colegas sucumbirem à violência do Estado e, anos depois, voltou a cursar a profissão que fora forçado a abandonar, a Medicina, tornando-se o Dr. Zequinha.

Dr. Zequinha, protagonista de uma fotografia que rendeu ao seu autor, Edson Jansen, o Prêmio Esso de Fotojornalismo – em que enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue –, voltou ao cenário de sua militância, o pátio da Reitoria da UFPR, 40 anos depois, para revisitar a memória e a mentalidade daqueles dias.

Pouco antes do evento, quando se sentou ao lado do reitor da instituição, Carlos Moreira Junior, e de amigos ‘de luta’ como Stênio Jacob, Luís Felipe Haji Mussi e Vitório Seratiuk, ele falou ao Comunicação sobre os tempos de militante, a clandestinidade, a tortura e as experiências de um jovem idealista em plena ditadura militar.

Comunicação – Como se deu o seu contato com o movimento estudantil?

Dr.Zequinha – Eu sou nascido em Marília, uma cidade de São Paulo, e lá, como estudante secundarista, tive meu primeiro contato com o movimento estudantil. Isso foi na década de 60, lembro muito bem da eleição de Jânio Quadros e da história da vassoura, que varria a corrupção. De lá, vim para Curitiba cursar medicina na UFPR. Iniciei o curso e, ao mesmo tempo, tive contato com a política universitária, em 65. A partir daí, entrei para o Diretório Acadêmico Nilo Cairo, para o DCE e para a UPE. O contato com todos esses órgãos me influenciou a ter uma militância mais ativa.

Comunicação – Houve alguma outra influência que o levou para a militância? Um professor, um livro?

Dr.Zequinha? – Tive influência de duas pessoas, no curso de medicina, e tenho um respeito muito grande por eles. Eles possuíam opiniões muito boas a respeito do próprio curso, da universidade, da reforma do ensino e também foram pessoas muito queridas para mim. O Dante Romanó Júnior, que acabou sendo reitor da UFPR, e o professor Paulo Barbosa, que tinha uma cadeira em medicina, na época. Ambos foram pessoas muito queridas e que tiveram muita influência em meus tempos de universitário.

Comunicação – Antes de entrar nos movimentos estudantis, você era um jovem muito politizado?

Dr.Zequinha – Acredito que havia uma vivência política já bem anterior na cidade de Marília. Meu pai não era militante, mas era um ser muito amplo no ponto de vista da aceitação das coisas. Eu lembro de ter um vizinho que pertencia ao Partido Comunista do Brasil. Também havia uma família, os Silva, que militavam pelo partido. Eram pessoas ‘de casa’, pessoas com quem convivi na minha juventude, era amigo de seus filhos. Existia também um alfaiate nordestino, uma pessoa muito legal, que possuía, no fundo de sua alfaiataria, uma biblioteca. Tive esse contato, meu pai sempre ajudou muito esse pessoal que era perseguido e acabei me envolvendo.

Comunicação – Como sua família e seus amigos viam essa atuação política militante? Eles o apoiavam?

Dr.Zequinha – Meu pai era semi-analfabeto, mas tinha uma preocupação básica: seus filhos deveriam estudar, portanto, deviam ter uma biblioteca em casa. Então ele comprava livros do Jorge Amado, Graciliano Ramos, entre outros. Acabamos tendo contato com essa literatura. Minha própria turma de adolescentes tinha esse hábito da leitura, ouvia muita música, além das estripulias que fazíamos como todo jovem (risos). Ao final do ano de 68 houve o Ato Constitucional nº5. Eu estava na iminência de ser preso – já havia sido preso algumas outras vezes em Curitiba, e também pertencia ao Ação Popular, o AP. E eu decidi que continuaria minha militância política, mas em caráter clandestino. Conversei com amigos da república em que morava, alguns me desencorajaram, outros disseram “você que decide, você sabe da sua vida”. Então saí de Curitiba e fui à cidade de meu pai, conversar com ele e com minha mãe. Lembro até hoje. Estávamos na varanda da casa deles e comentei o que eu iria fazer. A reposta deles foi assim: “é isso que você quer? Então seja feliz.” Quando fui preso, minha mãe percorreu céus e infernos à minha procura. Devo muito a ela o fato de não ter sido… não diria assassinado, mas eu estava em uma situação muito complicada na repressão da ditadura. E ela moveu céus e mares até me achar. Essa era a relação que eu tinha com minha família, e me deixa muito emocionado.

Comunicação – Você pode descrever o tempo em que ficou preso? Comentar alguma experiência que tenha passado?

Dr.Zequinha – Posso sim. Acho até importante comentar isso, para que não caiam no esquecimento as barbaridades feitas pela ditadura militar.

Fui preso pela primeira vez em 68, quando eu fazia a pichação de um muro no Batel, e eu pichava ‘abaixo a ditadura’. Fiquei detido na Carlos de Carvalho, que era a sede da Polícia Federal na época, e lá sofri uma amostra do que seria uma tortura. Deixaram-me nu, em cima de uma lata de cera, sem a tampa, e eu pisando com os dois pés na lata e me apoiando com as minhas mãos em uma parede. Às vezes me batiam no rim, que não deixa marca certo? Queriam que eu fizesse uma confissão, queriam que eu dissesse por que estava pichando ‘abaixo a ditadura’.

As outras duas vezes em que fui preso em Curitiba, foi nas passeatas. A polícia batia, prendia e soltava. Quando fui pra clandestinidade, foi, com certeza, o momento mais difícil. Saber o que era uma ditadura militar e sua repressão… Estava em Minas Gerais, trabalhava como operário metalúrgico e fui preso dentro da fábrica. No primeiro momento, não falei nada. Levaram-me para o DOPS, o Departamento de Ordem e Política Social. Aí sim, choque elétrico em todas as partes do corpo, afogamento, sempre querendo informações. Houve um período de sete ou dez dias, não posso dizer com clareza, em que eles não sabiam quem eu era, não sabiam que eu era o Zequinha do Paraná. Eles acharam que eu era um operário mesmo, Isaías José de Souza. Acharam que eu poderia estar envolvido com uma ‘subversão’ e com questões do partido. Mas eu sempre negava, até que um dia, depois de sessões de tortura me levaram aonde estava um coronel do exército brasileiro, um torturador, e ele me mostrou uma foto, minha foto. Disse que estavam procurando por mim, que eu era o Zequinha. Eu neguei. Precisava de tempo para organizar meus pensamentos, saber o que estava acontecendo, se alguém sob tortura falou que era eu na foto. Eu precisava de um momento. Até que, depois de muita insistência e muita tortura, eu decidi me identificar. Disse que era José Ferreira Lopes, o Zequinha, líder da UPE, estou preso por vocês e pronto! Não tinha mais nada o que falar, era isso. Fui transportado para o Rio de Janeiro, submetido a mais torturas. Até que apareceu uma especial, chamada ‘cabine de som’. Eles torturavam, torturavam… Deixavam você bem mal por uma noite, e de manhã cedo te jogavam em uma cabine pequena. Lá tinha um som muito alto, ondas supersônicas e temperatura altíssima. Depois variavam a temperatura até abaixo de zero e tudo ficava em absoluto silêncio. Abriam a porta e diziam “fala, fala, fala”! Fiquei muito tempo assim. Eles viram, depois, que eu não queria falar nada, que eu estava tranqüilo, ou melhor, consciente de que não ia entregar ninguém, não ia comprometer a vida de mais pessoas.

Depois fui levado novamente a Belo Horizonte. Continuaram as torturas e começaram a simular fuzilamentos. Levavam-nos para uma área, pegavam a metralhadora e diziam “apontar… fogo”! Não saía a bala, mas você já ficava assustado. E continuava a passar por afogamentos… Todas essas barbaridades. Algum tempo depois me entregaram um papel e uma caneta. Era uma declaração política em que eu assumia que eu era contra a ditadura militar, que eu era a favor da democracia e da liberdade. Mas nunca assumi que era de um partido político – que era o exatamente o que queriam saber, para me comprometer. Nessa trajetória vi assassinatos de companheiros meus, como José Carlos da Mata Machado, que foi vice-presidente da UNE, assassinado no Recife além de outros estudantes, barbaramente assassinados e torturados.

Comunicação – Você mantinha contato com outros grandes líderes estudantis, como o Vladimir Palmeira, o José Dirceu, o José Arantes entre outros?

Dr.Zequinha – Tínhamos contato, mas não éramos tão próximos. Participávamos de alas diferentes. O contato mais estreito que eu possuía, no caso, era com o Luís Travassos, presidente da UNE em 67 ou 68. O José Carlos da Mata Machado, que eu já citei. Principalmente porque vivemos juntos em uma república durante oito meses, morando clandestinamente.

Comunicação – Qual era o cenário político do Paraná no início da ditadura?

Dr.Zequinha – Depois do golpe, em 65, já havia uma repressão muito grande aos movimentos mais organizados, como os camponeses, os operários. Muitos foram submetidos a torturas e exilados na Argentina, no Paraguai, sofreram muitas dificuldades. Quando cheguei ao Paraná, existia a ditadura militar, mas não havia chegado ao extremo. Tínhamos aqui o Ney Braga que era governador, mas era indicado. Em 68 havia o Paulo Pimentel, que também foi indicado, não havia eleições. Ainda que não houvesse democracia, liberdade maior e que a censura estivesse presente, era possível se manifestar. Havia os diretórios, as reuniões, que foram extintos com o Ato Institucional nº5. Foi então que a coisa complicou, não havia liberdade nenhuma. As organizações políticas foram todas extintas, mesmo assim, eu fiz parte da AP, a Ação Popular, no início de minha carreira política mas ninguém sabia.

Comunicação – Sobre a famosa ‘foto do estilingue’, você sabia que estava sendo fotografado? Era uma combinação?

Dr.Zequinha – Não sabia. O fotógrafo, o Edson Jansen, acabou ganhando o Prêmio Esso de Fotojornalismo com ela. Ele estava estrategicamente posicionado acima da estradinha em que ocorreu o fato e registrou toda a cena.

Comunicação – Você já conhecia o Edson?

Dr.Zequinha – Não. Fui conhecer o Edson depois que eu saí da clandestinidade, quando voltei para Curitiba em 1980 e reiniciei o curso de medicina.

Comunicação – A foto o tornou mais visado pela polícia?

Dr.Zequinha – Com certeza. Eles passaram a me considerar perigosíssimo’. Tudo isso foi registrado nos arquivos. No arquivo do DOPS estavam coisas que nem eu me lembrava que havia feito. Que eu fui em uma reunião em tal hora,que eu estive em Apucarana em tal lugar. Eu era acompanhado.

Comunicação – Qual era sua posição em relação à luta armada?

Dr.Zequinha – Na época eu não concordava. Mas você tem que estar junto ao povo para organizar as reações. Mas as reações são construídas pela vida. Não podíamos prever. Por exemplo, no momento mais crítico da ditadura, o governo Médici, com as torturas. Não podemos nem comparar com a Argentina, dizendo que a ditadura lá foi pior. Acho que as ditaduras brasileira e argentina têm suas pequenas diferenças, mas são muito semelhantes. Não tínhamos como fazer política, quando começávamos algum movimento íamos presos. Foi então, quando o PCdoB, que havia se unido à AP, começou a organizar uma luta do campo – a guerrilha do Araguaia. Mas era um momento extremo, não havia mais o que fazer. Não tivemos tempo de preparar o povo, conversar, ganhar a sua confiança. Foram fatores externos. É o próprio momento que define se uma luta vai ser armada ou não.

Comunicação – E qual era a relação entre a mídia e o movimento dos estudantes? A imprensa realmente apresentava sua posição contra a ditadura, como é divulgado?

Dr.Zequinha – A imprensa nunca apoiou o movimento dos estudantes de modo aberto, objetivo. Havia casos isolados de jornalistas, mas nada a ver com a imprensa de modo geral.

Comunicação – Você estava em Curitiba na redemocratização do país? Como foi a experiência de ver essa ‘revolução’?

Dr.Zequinha – Sim, estava em Curitiba. Foi um complemento, embora não total, de toda aquela luta que nós fizemos. O movimento estudantil de 68, apoiado pelas primeiras greves operárias, teve a repercussão. Desde o AI-5 estava se concretizando um pensamento que culminou nas Diretas Já. Então, para mim, foi muito legal. Estive falando em palanques no movimento… Valeu a pena tudo o que fizemos. Temos que ter orgulho. Não ser prepotentes, nada disso, mas saber que tudo culminou para exterminar a ditadura que se abateu sobre o país.

Comunicação – Recentemente a Superinteressante publicou um artigo dizendo que a visão que temos de 68 é muito romântica. Que na verdade, os movimentos eram feitos por ‘filhinhos de papai’, burgueses, que haviam enriquecido com a Segunda Guerra Mundial. Qual é sua opinião sobre isso?

Dr.Zequinha – É difícil negar os fatos da história. Naquela época, os cursos universitários tinham uma característica mais elitista. É difícil negar isso. Mas mesmo que fôssemos de classe média, havia toda uma questão nacional e internacional que exerceu influência sobre os estudantes. As ditaduras da América Latina, Allende, a Revolução Cubana. Havia mitos, como Che Guevara, Ho Chi Mihn. Tínhamos acesso a livros de Marx, Engels, Mao Tse-Tung. Foi essa juventude que fez a Passeata dos Cem Mil, que foi pra cima da ditadura quando assassinaram o Edson Luís, no Rio de Janeiro. A classe cultural, poetas, músicos, atores, intelectuais de forma geral foram às ruas protestar. Não eram todos ‘filhinhos de papai’. Um ou outro podia ter sido, mas e daí? É uma posição política. E o idealismo próprio de ser jovem? Uma afirmação como essa renega até esse idealismo, a forma de questionar sistemas, inerente à juventude. Vejo os jovens de hoje lutando pelo acesso mais democrático à universidade. Isso é ser ‘filhinho de papai’?

Comunicação – Qual a sua opinião a respeito da atuação política de pessoas que sofreram nas mãos do regime ditatorial? Presos, perseguidos, exilados, torturados, como a Dilma Rousseff, o José Dirceu e mesmo o presidente Lula?

Dr.Zequinha – Eu vejo de forma muito positiva a participação deles. Tentam manter a política progressista. Obviamente, alguns cometem erros. Podem cometer erros, mas que não reneguem o passado. Vejo isso em alguns políticos, como o senador pelo Amazonas, Arthur Virgílio Neto. Alguns tomaram um posicionamento claramente conservador.

Comunicação – E sobre o Daniel Cohn-Benedit? Ele era um grande líder estudantil e símbolo dos movimentos de 68. Hoje, trabalha no Parlamento Alemão.

Dr.Zequinha – Não sei qual é a função dele no Parlamento. Mas, com certeza, é importante lembrar o grande papel dele naquela época, no meio daquela revolução cultural toda, na reforma de ensino, nas várias discussões, inclusive sobre liberdade sexual. Tudo se concentrou naqueles anos.

Comunicação – Qual é sua relação com o governo atual do país, com a política do Lula?

Dr.Zequinha – Participei da frente Brasil Popular, fui coordenador da campanha do Lula no Paraná, em 1989. Percorremos o estado todo, fizemos três comícios grandes. Apóio o governo do Lula, acho que ele tem tomado decisões muito importantes para a mudança da situação do povo brasileiro. Mas, ao mesmo tempo, sou crítico. Faço crítica à política econômica, que julgo, ainda, conservadora. O próprio presidente não toma uma posição mais altiva. No entanto, é um governo eleito, democrático, progressista e popular, então apóio, com certeza.

Comunicação – E quais as suas impressões sobre o governo do Requião no Paraná?

Dr.Zequinha – Apóio o governo avançado e democrático do Requião. Ele é taxado de louco, de chato, mas o que a mídia faz com ele é algo muito violento, a mídia o provoca. Ele é, também, sangue-quente, todos sabem disso, mas tem feito políticas sociais muito boas no Paraná. É um estado que se tornou referência. Há avanços na área de educação, de saneamento básico que eu, como médico, julgo imprescindível, assim como a distribuição de energia elétrica. Assim como no governo Lula, há o apoio à pequena e média empresa. Eu, particularmente, tenho esse senso crítico em relação a tudo. Observo e, se julgo errado, critico. Mas tanto o governo do Lula quanto o do Requião, são, em geral, bons governos, necessários para esse país.

Comunicação – Há boatos de que a UNE, atualmente, é muito ligada ao governo federal, defendendo mais seus interesses do que os dos estudantes. Como você encara a atuação, tanto da UNE quanto da UPE, atualmente?

Dr.Zequinha – Eu acho que a UNE não segue o governo do Lula, ela sempre manteve sua independência e tem como característica pensar na luta geral do povo. Questões como ‘o petróleo é nosso’ e a luta das Diretas Já. Evidentemente, a UNE tem uma visão positiva do governo federal, mas continua fazendo críticas ao presidente. Há grupos que se dizem esquerdistas ao extremo, mas quando são comparados os discursos desses grupos, com os grupos de direita, conservadores, eles são muito parecidos. A própria Heloísa Helena, na segunda eleição do Lula, acabou tendo uma postura mais conservadora. O fio entre esquerda e direita é muito tênue. Mas a postura independente, que nos permite fazer críticas nas horas certas é essencial para que haja a organização e a mudança.

Comunicação – E como o PC do B se situa hoje na política?

Dr.Zequinha – O meu partido está no governo. Mas apresentamos propostas para mudanças. Criamos um bloco unindo PC do B, PRB, PSB e PDT, que se situa à esquerda e apresentamos várias propostas para o governo Lula. Cinco reformas estruturais fundamentais, entre elas a Reforma Agrária, Reforma Urbana e a Reforma da Educação. Visamos envolver a participação popular para mudar a estrutura do país e permitir essas melhoras.

Comunicação – Como é seu trabalho na Comissão Especial de Indenização a Ex-Presos Políticos, sendo representante dos ex-presos políticos?

Dr.Zequinha – É a segunda vez que atuo na Comissão. Somos muito criteriosos na hora de conceder as indenizações. Existe um decreto que estabelece normas e regras que devemos seguir. Só tem direito à indenização quem esteve preso no estado do Paraná, e tiver provas concretas dos eventuais maus-tratos. Quem esteve preso um pequeno número de dias deve receber indenização proporcional ao período. Há muitos parentes de camponeses que foram presos, já falecidos, que não apresentam provas necessárias. Então as pessoas saem chateadas, mas são as normas estipuladas pelo governo estadual. O governo tem a ação louvável de reconhecer o seu erro, oferecendo uma quantia justa às pessoas. Obviamente, é impossível pagar ou repor doze anos de clandestinidade. É preciso retomar a vida. Eu, casado, com dois filhos, voltei da clandestinidade e me tornei novamente estudante, para concluir o curso de medicina. Eu podia ter me formado médico e exercido a profissão há anos, nenhuma quantia paga tudo isso. O que importa é ser reconhecido. Fui perseguido. Fui torturado. Fui preso político.

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Reportagem LUCIANA GALASTRI
Edição VANESSA PRATEANO
EDISON JANSEN

Conheça o garoto que pode mudar a história do câncer

Antes de tornar realidade um teste mais sensível, rápido e barato para detectar o câncer de pâncreas, Jack Andraka foi rejeitado por 199 pesquisadores

São Paulo –  Jack Andraka – guarde esse nome – tem 15 anos. Em maio deste ano ele venceu a Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel com um projeto que pode mudar a história do câncer de pâncreas : um teste para detectar a doença 68 vezes mais rápido, 400 vezes mais sensível e 26 mil vezes mais barato que o padrão usado hoje para detectar a doença, inventado nos anos 50.

Jack com o sensor de nanotubos: potencial revolução no diagnóstico do câncer de pâncreas | Foto: Reprodução Internet

Jack com o sensor de nanotubos: potencial revolução no diagnóstico do câncer de pâncreas | Foto: Reprodução Internet

A doença que vitimou um familiar de Jack e inspirou o jovem a pesquisar uma forma de detectá-la antes que ela se espalhe para o resto do corpo, tem um prognóstico sombrio: menos de 2% dos diagnosticados em estágio avançado sobrevivem.

“Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito”, conta ele.

Munido de vontade, curiosidade e uma bagagem científica incomum para garotos da idade dele, Jack se embrenhou no tema e bolou o teste unindo conceitos estudados nas aulas de Biologia com o que havia lido em um artigo sobre nanotubos – estruturas milhares de vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo.

“Eles têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência.”

Como ele conseguiu fazer isso? Filho mais novo de uma médica e um engenheiro civil, ele foi estimulado desde cedo a encontrar por si as respostas para as dúvidas que tinha sobre as coisas. Além de inteligente e esforçado, claro, Jack foi perseverante. Decidido a concretizar a ideia do teste, ele escreveu para nada menos que 200 pesquisadores norte-americanos apresentando o projeto de pesquisa e pedindo espaço em laboratório para trabalhar nele. Apenas um respondeu que sim. Ainda bem.

Jack conversou por telefone, do laboratório que aceitou abrigá-lo e incentivá-lo. Hoje, ele estuda meios de viabilizar comercialmente o teste. Jack Andraka – guarde esse nome – tem 15 anos. Veja a seguir a entrevista.

Quando você começou a se interessar por ciências?
Eu tinha uns três anos quando meu pai comprou para mim e para o meu irmão [ dois anos mais velho ] uma maquete de plástico de um rio, com água e tudo. Nós ficamos brincando com aquilo o dia inteiro, observando a corrente e colocando os mais diferentes objetos nela, para ver o que afundava, o que seguia o curso da água e o que mudava a corrente. A gente queria respostas. Queria entender como aquilo acontecia. Acho que o interesse despertou a partir daí.

Quanto tempo depois disso você começou a participar de competições de ciências?
A primeira competição foi na 6ª série, com 12 anos. Eu adaptei um dispositivo de segurança para evitar que o fluxo de água nas quedas d’água de pequenas represas cause afogamentos.

Você venceu?
Eu tinha 10 anos e como estava na 6ª série, não podia participar do prêmio da Intel, porque aqui nos EUA ele é apenas para estudantes de ensino médio. Mas tirei segundo lugar na versão internacional do mesmo prêmio com esse projeto.

Como você teve a ideia do projeto vencedor do prêmio internacional deste ano?
Eu escolhi um tema que me interessava na época. O câncer de pâncreas teve um impacto importante na minha família, nós perdemos um parente com a doença. Aí fui pesquisar sobre ela e descobri que 85% dos casos são diagnosticados em estágios avançados, quando o câncer já está espalhado pelo corpo e os pacientes em geral têm menos de 2% de chances de sobrevivência. Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito.

E você simplesmente decidiu fazer isso?
Bem, eu fui atrás de todas as formas conhecidas de diagnóstico desse tipo de câncer e descobri uma proteína chamada mesotelina, que está presente no câncer de pâncreas, assim como nos de ovário e pulmão. A ideia veio mesmo numa aula de biologia. Estávamos aprendendo sobre anticorpos, essas estruturas produzidas pelo sistema imunológico. No câncer que eu estava estudando, os anticorpos se ligavam apenas à mesotelina. Na mesma época, li um artigo muito legal sobre nanotubos de carbono. Você sabia que essas estruturas têm o diâmetro 150 mil vezes menor do que o de um fio do seu cabelo?

Nossa, não tinha ideia de que eram tão pequenas…
Sim, os nanotubos têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência. Ok, o que fiz foi meio que conectar essas duas ideias. Eu inventei um sensor de nanotubos de carbono e anticorpos capaz de identificar a presença da mesotelina e dizer, baseado no quanto dessa proteína se liga aos anticorpos, se a pessoa tem câncer de pâncreas.

Quanto tempo você levou para concretizar a ideia?
Foram ao todo 7 meses de muito trabalho.

Onde você trabalhou? Em casa? No laboratório da escola?
Não, eu contatei 200 pesquisadores na Universidade Johns Hopkins e nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos pedindo espaço em laboratório e apoio para desenvolver a minha pesquisa. Apenas um me disse sim [ Anirban Maitra, professor de Patologia, Oncologia e Engenharia Química e Biomolecular da Escola de Medicina da Johns Hopkins ]. Uns me responderam que não tinham espaço, outros que não tinham o equipamento, outros simplesmente não responderam. Quando finalmente fui aceito, cumpri um rigoroso processo para me transformar em um pesquisador e iniciei o trabalho.

Durante a pesquisa, como ficou a escola? Você conseguia dar conta de tudo?
Normalmente eu consigo fazer todas as coisas da escola durante o período das aulas. Enquanto desenvolvia o projeto, eu ficava até tarde da noite no laboratório fazendo e refazendo os testes, então aproveitava o tempo entre eles para completar o dever de casa.

Os seus pais não reclamavam de você ficar até tarde da noite trabalhando?
Meus pais não reclamavam, pelo contrário. Eles sempre valorizaram o trabalho e o esforço. Acho que só consegui chegar até aqui porque como pais eles me ajudaram e me incentivaram.

Com todas essas atividades, você consegue passar algum tempo com os amigos e a família? Aliás, você tem namorada?
Não tenho namorada. Mas eu gosto de socializar sim. Este ano, com todo o trabalho no projeto, a minha vida social ficou um pouco comprometida, mas os meus amigos me apoiam e entendem isso. E continuam meus amigos.

Depois da vitória no prêmio da Intel você foi contatado por algum interessado em produzir e vender o seu teste?
Sim, já fui contatado por sete empresas de biotecnologia interessadas em produzir o teste. Estou aguardando a conclusão do processo de patente, ainda não decidi que direção quero tomar.

Além do câncer, quais outras áreas você ainda gostaria de pesquisar?
Eu definitivamente gosto de Biologia, mas também tenho interesses em Física e Química. Então venho tentando combinar essas três coisas nos meus próximos projetos.

Já pensou sobre a faculdade? O que pretende cursar e onde deseja estudar?
Hum…não tenho a mínima ideia de onde ou o que vou estudar. Há tantas opções hoje em dia e tanta gente com diploma. Não sei se quero seguir esse caminho.

O seu histórico e a sua mais recente invenção geraram uma grande expectativa em torno da sua performance no concurso do próximo ano. Como você lida com isso?
Acho que será um novo desafio. Quero participar do concurso do ano que vem e pretendo me divertir com isso. Só quero seguir pesquisando.

 Leoleli Camargo do iG

‘A pirataria online pode minar a produção do conhecimento’ – por roberto feith

Diretor da Objetiva diz que seu maior arrependimento foi deixar passar a edição de ‘Harry Potter’

24 de agosto de 2012 | 19h 30

Não, não é porque diz sentir falta da “adrenalina da TV” que o ex-repórter carioca Roberto Feith, diretor-geral da Objetiva, uma das maiores editoras de livros do País, pode ser considerado ainda jornalista, a despeito dos mais de 20 anos que deixou a profissão. Ex-correspondente da TV Globo na Europa e ex-editor chefe do Globo Repórter, Feith aceitou em 1991 a proposta de dois conhecidos e comprou 60% de uma editora inexpressiva – ela mesma, a Objetiva. Àquela altura, tocava uma produtora, a Metavídeo, após ter estado com Walter Salles na Intervídeo, que fazia trabalhos para a extinta TV Manchete. Não entendia nada de editora, mas como bom repórter diante de um furo em potencial, decidiu arriscar – seguindo critérios jornalísticos.

 

Viés jornalístico foi fundamental na trajetória da editora, diz - Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE
Viés jornalístico foi fundamental na trajetória da editora, diz

Começou mal. Apostou numa biografia de Boris Ieltsin – política internacional era sua especialidade -, que resultou num enorme fracasso. Aos poucos, porém, foi ajustando o foco. “Como correspondente e depois noGlobo Repórter, exercitei muito a função do editor e o trabalho em equipe. Nessas tarefas, você está sempre buscando uma abordagem original para contar determinada história. E o trabalho do editor de livro, principalmente do livro de não ficção, é muito próximo disso; as aptidões e os talentos são muito parecidos. A Objetiva evoluiu, principalmente na área da não ficção, em função dessas características”, diz ele na entrevista a seguir. Confortavelmente instalado num hotel da região da Avenida Paulista, Feith conversou com uma equipe do Estado: Rinaldo Gama, editor do Sabático; os repórteres Antonio Gonçalves Filho e Maria Fernanda Rodrigues, e Ubiratan Brasil, editor do Caderno 2.

Por três horas, seu raciocínio cristalino e a fala assertiva – educada pelos sinais elétricos dos microfones e uma longa convivência com a escrita – atravessaram um largo espectro de temas ligados ao livro: o dia a dia do processo editorial, os erros (Harry Porter lhe foi oferecido com insistência e ele deixou passar), os acertos (Inteligência Emocional, que vendeu meio milhão de exemplares), pirataria online (“o Google e o Yahoo são ‘sócios’ do Megaupload”, alfineta), o futuro do e-book no Brasil e da própria literatura brasileira, para o qual, aliás, ele acenou publicando novos talentos em um número especial da revistaGranta. Aos 60 anos, Roberto Feith não é mais majoritário na Objetiva: em 2005, vendeu 76% da empresa para a Santillana, que participou da criação do prestigioso jornal espanholEl País. Sim – mesmo sem a adrenalina da TV, Feith, de certo modo, está em casa.

Que interesse o senhor tinha no mercado editorial para entrar de sócio na Objetiva?

Um dos projetos importantes que fizemos na Metavídeo foi uma série de seis documentários sobre a história do cinema no Brasil. Produzimos tanto, que uma grande parte desse material fotográfico e de entrevista ficou inédito. Então, surgiu a ideia de fazer um livro usando esse conteúdo. A Nova Fronteira coeditou. Lá, o Alfredo Gonçalves e o Armando Campos tocaram o projeto comigo. Passou-se um tempo e nunca mais os vi, mas soube que seis meses depois eles saíram para criar uma editora, com o apoio de um investidor. A editora não conseguiu evoluir. Anos depois, esse sócio saiu e eles me procuraram. Foi assim que eu entrei no negócio. O meu sonho profissional era ser jornalista de imprensa escrita; entrei para a TV por mero acaso. Mas sempre fui um leitor voraz, rato de livraria. Minha mulher foi a única pessoa que me incentivou a investir numa editora. Todo mundo me dizia que eu estava maluco, que televisão era o veículo de maior poderio e projeção no Brasil, que aqui ninguém lê. Depois que entrei, continuei anos com a produtora enquanto tentava entender como funcionava o mercado e uma editora. (Gonçalves deixou a editora em 2004 e Campos, em 2006)

Quando o senhor fez o negócio, tinha um modelo de editor na cabeça?

Não. E não tinha por ignorância.

Alguma linha editoria em mente?

Hoje poderia falar sobre isso de um modo mais coerente. Na época, foi uma mistura de oportunidades que surgiam aleatoriamente com as minhas experiências pessoais. Eu me lembro de contratar direitos de tradução de muitos títulos sobre política internacional, um grave equívoco, nenhum deles vendeu nada. Era o assunto que eu conhecia e gostava. Um dos primeiros livros que compramos foi uma biografia do Boris Yeltsin. Imagine se alguém ia ler um livro do Yeltsin! Aprendi isso a duras penas. E o outro tipo de livro que a gente acabou trabalhando foram aqueles que surgiram por circunstâncias aleatórias. O Lair Ribeiro é um bom exemplo disso. Não me lembro como apareceu a oportunidade, mas aproveitamos e ele foi nosso primeiro best-seller.

Qual sua participação ao entrar na editora?

Se não me engano comprei 60% da empresa em 1991. O que veio a ser um investimento mais substantivo não foi a compra das cotas, mas sim a tentativa de fazer a editora decolar.

Quanto pagou?

Não tenho a menor ideia. Mas foi pouco. Talvez o valor de um carro usado.

Muitos editores dizem que publicam best-sellers para ter recursos que possibilitem vencer o leilão de um título de qualidade literária indiscutível. Essa também foi a estratégia da Objetiva a partir de sua entrada?

Havia a ideia de que publicando autores comercialmente potentes teríamos condições de desenvolver a editora na linha de um projeto mais consistente.

Ainda sobre best-sellers, o senhor criou a Plenos Pecados, uma série com autores de prestígio escrevendo a respeito de temas mais palatáveis. Como é a reação de autores consagrados quando se oferece a eles a oportunidade de escrever um livro para uma série como essa?

Uma das razões de montar esse projeto era atrair autores de renome para uma editora ainda sem grande visibilidade ou uma trajetória consolidada. Fiz o projeto com Isa Pessoa, que trabalhava na editora. Levou quase um ano para fecharmos a lista dos sete autores. Convidamos o Mario Vargas Llosa, e ele disse que escreveria contanto que fosse sobre a luxúria. Mas a luxúria já estava tomada pelo João Ubaldo. A coleção deu certo, trouxe autores de grande qualidade e sucesso comercial, e pudemos começar a montar a editora que sonhávamos.

E qual era essa editora?

Como disse antes, eu não tinha um modelo de editora – nem mesmo considerando as estrangeiras. Se olharmos a trajetória da Objetiva, veremos que ela não é igual a nenhuma outra. Acho que é um pouco pela experiência de vida das pessoas da equipe – havia muito o viés jornalístico.

De que modo ter atuado como jornalista contribui para o trabalho da editora?

Como repórter e correspondente internacional e depois no Globo Repórter, exercitei muito a função do editor e do trabalho em equipe. Nessas tarefas, você está sempre buscando uma abordagem original para um determinado tema, procurando como contar determinada história. Às vezes, você vê um assunto que tem consistência, que tem interesse ou relevância, mas precisa encontrar uma outra maneira de tratá-lo. E o trabalho do editor de livro, principalmente do livro de não ficção, é muito próximo disso; as aptidões e os talentos são muito parecidos. A Objetiva evoluiu, principalmente na área da não ficção, ou a da ficção dirigida, encomendada, em função dessas características.

O modelo do publisher americano parece que vingou no Brasil – e o europeu ficou um pouco esquecido. Filho de americano, o senhor acabou unindo as duas pontas: o pragmatismo de um publisher dos EUA, atento à performance de vendas, e uma visão europeia, marcada mais pela vontade de publicar qualidade literária, independentemente dos resultados financeiros. Como se deu isso?

Ser filho de americano não teve, na prática, nenhuma influência. Como mencionei, acredito que a vivência que mais marcou meu papel na editora foi a jornalística. Acho que há pessoas que tocam editoras lendo e editando e outras não. Sou editor-geral de uma editora que faz as duas coisas. Desde o início.

Sua editora cresceu muito. O senhor ainda consegue estar em todas as frentes?

Conciliar tudo tem sido um exercício. A palavra publisher evoca uma pessoa que não edita. Não me sinto totalmente encaixado nesse conceito porque não é bem esse o meu cotidiano. Continuo avaliando manuscritos, vou a feiras, converso com os agentes.

O senhor edita algum autor que não vende, mas dá prestígio ao catálogo da editora?

Naturalmente. Prestígio, prazer de publicar. Mas essa não é uma decisão puramente romântica, porque poder publicar grandes autores, ainda que comercialmente não sejam tão bem-sucedidos, é uma forma de você qualificar o selo e atrair outros escritores. Tem outro componente relevante no universo editorial brasileiro: esses grandes autores podem não vender muito, mas periodicamente são adotados num vestibular ou entram numa compra pública. Lobo Antunes é um exemplo disso. Os Cus de Judas foi um livro dele que vendeu mais de 20 mil exemplares por causa de um vestibular.

Qual foi o seu maior sucesso de vendas?

Comédias Para se Ler na Escola, do Verissimo. Mais de 1 milhão de exemplares.

Quando seguiu sua intuição na hora de adquirir um livro, qual foi seu maior equívoco e o maior êxito?

O maior equívoco é fácil. Tessie Barham, hoje uma importante agente literária, nos ajudava na avaliação de textos. Naquela época, ela ainda estava tateando e me propôs uma série juvenil maravilhosa, a Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Compramos, investimos pesado em marketing, e nada aconteceu. Paradoxalmente, anos depois vendeu mais de 100 mil exemplares.

E o arrependimento?

Foi nos anos 90. Um dia, Tessie me mandou um e-mail assim: “Roberto, tem aqui outro livro juvenil para você comprar. Muito bom, você tem de comprar. Chama-se Harry Potter.” E eu: “Olha, Tessie, me desculpe, mas não vou comprar.” Ela ficava mandando e-mail dizendo que eu iria me arrepender. E eu: “Tessie, lembra o que aconteceu com o Pullman?” Bem, ela estava certa, claro; eu me arrependi amargamente. Errei e continuo errando. Mas se o editor ficar desanimado quando errar, ele vai mudar de profissão.

Algum outro acerto?

Nessa linha um pouco anedótica da intuição e do imponderável, comprei os direitos de um livro que vendeu maravilhosamente bem (meio milhão de exemplares), que foi oInteligência Emocional, do Daniel Goleman. Li o informe do nosso scout e intuitivamente achei aquilo muito forte. Entrei no leilão em Frankfurt, suei, mas consegui.

Os grandes livros não são mais vendidos em Frankfurt, são? Perdeu-se um pouco do frenesi dos leilões?

Hoje, os agentes literários e as editoras que têm uma grande oferta de direitos autorais para tradução, deliberadamente, esperam até a véspera da feira para distribuir alguns de seus títulos mais potentes, porque eles compreendem que a dinâmica da pré-feira leva a uma disputa mais acirrada pelos editores de cada país por aqueles direitos.

Os brasileiros estão pagando valores irreais nos leilões?

Houve num passado recente e continua havendo uma exuberância irracional, para tomar emprestada uma expressão do Alan Greenspan, em relação à compra de direitos de tradução. Adquirir um livro que exija torná-lo um mega best-seller para recuperar esse investimento é um exercício perigoso. Isso é realidade e tem a ver com o aumento da concorrência.

Enquanto as grandes editoras criam selos para organizar melhor o catálogo, as de menor porte têm se especializado em determinado segmento. Isso terá lugar no futuro ou acha que as pequenas serão incorporadas por grandes grupos?

Sempre houve e haverá espaço para pequenas editoras focadas em determinados nichos. Isso não é novo. Novo são editoras importantes buscando diversidade de linhas de atuação criando novos selos, de uma forma semelhante ao que adotamos há cinco anos. Isso está acontecendo de forma sistemática. A tendência é que nenhuma editora se limite a atuar só num gênero.

O que leva a isso?

Hoje, a diversidade é um bem em si no mercado editorial, dado o grau de competição visto na última década.

No início do ano, o senhor escreveu um artigo investindo contra a campanha das gigantes da internet contra a lei antipirataria. Como vê o futuro do mercado digital, as leis antipirataria?

Fico feliz que tenham levantado esse assunto, que é importante. Vivemos a era do conhecimento. A produção do conhecimento é fundamental para o avanço de qualquer país. E esse tipo de produção tem de ser incentivada, e não minada. As empresas, ou pessoas, que defendem a pirataria online, ou a cópia irrestrita online, estão minando a produção do conhecimento nos seus respectivos países. Da mesma forma que não existe o milagre da multiplicação dos peixes, não existe o milagre da multiplicação do conhecimento. Sua produção exige formação, trabalho, investimento, e tudo isso tem de ser remunerado. Ninguém imagina que uma pessoa possa entrar numa livraria, pegar uma dúzia de livros e sair sem pagar. Mas algumas pessoas argumentam que na internet você pode e deve fazer isso.

A Objetiva sofre com a pirataria?

O Sindicato Nacional de Editores apoia um grupo de trabalho que identifica a oferta de conteúdo ilegal e pirata online. Em maio, no caso da Objetiva, havia 1.600 títulos oferecidos ilegalmente – 90% em um só site, o Fourshared. Esse site americano está ganhando dinheiro com escritores que publicamos, e alguns deles são brasileiros. Para isso as pessoas não atentam. O Fourshared e o Megaupload não têm estrutura para vender publicidade pelos quatro cantos. Eles usam estruturas criadas para esse fim por grandes corporações da internet, como o Google e o Yahoo. Então, o Google e o Yahoo são “sócios” do Megaupload e, indiretamente, se apropriam de obras dos escritores brasileiros para faturar milhões de dólares. E faturam literalmente milhões de dólares. Assim, quando uma grande corporação da web defende a pirataria na internet, argumentando que é uma questão de liberdade de expressão, estamos diante do mais puro oportunismo e demagogia. É preciso que a sociedade se conscientize, porque se a pirataria for consolidada como prática na web, a produção de conhecimento vai atrofiar aqui, e o brasileiro será obrigado a consumir conhecimento produzido nos países onde essa atividade é estimulada.

No momento em que o e-book se difundir efetivamente, o que o livro impresso precisará ter para não perder vendas?

O e-book é coisa do futuro e será uma coisa do presente. Mas eu não vejo o livro físico sendo a parte menor do mercado. Não vejo o digital ocupando a maior parte do mercado brasileiro no horizonte de uma década.

A Objetiva tem uma equipe focada na questão do livro digital?

Não, acho isso um erro. Todos têm de entender do digital para fazer seu trabalho. Mas uma das coisas que fiz tendo em vista essa transformação foi propor a criação da Distribuidora de Livros Digitais, que toma grande parte do meu tempo e tem como sócias as editoras Objetiva, Record, Sextante, Rocco, Planeta, L&PM e Novo Conceito.

Por que uma distribuidora?

Quando formamos a DLD, pretendíamos participar da definição de como o livro digital iria se consolidar e se implantar no Brasil. Essa preocupação se traduz em três objetivos. Primeiro, trazer para o consumidor brasileiro o que existe de melhor no exterior, em termos de experiência de consumo de livro digital, sem que isso signifique que empresas vindas de fora tenham condições de concorrência, no relacionamento com as editoras, superiores àquelas disputadas pelas empresas brasileiras que atuam no entorno digital. Segundo, garantir uma oferta diversificada e ampla de conteúdo. E terceiro, trabalhar com preços que sejam atraentes para o consumidor, mais baratos que o livro impresso, mas que remunerem o trabalho do escritor, da editora e da livraria.

De quanto é o desconto da DLD?

Nosso e-book tende a ser de 30% a 40% mais barato que o livro impresso; em julho, o preço médio do livro vendido pela DLD foi de cerca de R$ 16. Ou seja, menos que US$ 9.

Como estão as negociações com as empresas estrangeiras que querem atuar no País?

Estamos conversando com cinco empresas e muito perto de fechar acordos – acho que até o fim do ano teremos novidades. Para que o livro digital dê corda no Brasil, precisamos de três coisas: dispositivos de leitura bons e baratos, livrarias virtuais com facilidade de uso e oferta ampla e diversificada de títulos pelas editoras. A conclusão desse tripé é que teremos, ainda este ano, dispositivos de leitura lançados aqui, de primeira geração, a preços acessíveis. Penso que teremos o primeiro Natal digital.

Quais são as cinco estrangeiras que estão negociando para atuar aqui?

Amazon, Apple, Google, Kobo e nós, na Objetiva, estamos negociando com a Barnes & Noble, mas não para o Brasil.

Falamos em concorrência, em e-book, mas existe também a questão da territorialidade. Até pouco tempo atrás, era possível comprar um e-book de um autor português editado no Brasil pela Alfaguara diretamente da editora portuguesa desse autor.

Você está se referindo a um livro de António Lobo Antunes. Foi uma falha da editora portuguesa, já foi sanada. Isso se chama territorialidade. Hoje, quando você faz o upload de um título, tem de indicar para que países tem os direitos de venda.

Como fazer para que as pessoas leiam independentemente de obrigações escolares ou profissionais? Há, de modo recorrente, a queixa de que o livro no Brasil é caro.

O Snel e a Câmara Brasileira do Livro vêm contratando pesquisa de mercado há mais de uma década, que é feita pela Fipe. A última pesquisa, de 2011, identificou que no setor de obras gerais o número de lançamentos aumentou 8,6%, o número de exemplares vendidos aumentou 0,2%, e o faturamento, em reais, caiu 11%. Se considerar o acumulado de 2004 até 2011, em obras gerais, em valores nominais, a queda no preço médio foi de 26%. Em valores reais, compensados a inflação, 45% de redução. Eu pergunto: que outro produto teve uma queda de 45% no seu preço médio, real, nos últimos sete anos?

Por que o preço caiu?

Competição, competição. Há outros fatores: Avon, com vendas de porta em porta, os selos de bolso, a desoneração, no caso de livros de obras gerais.

Essa queda está chegando ao limite?

Sim. A criatividade dos editores está sendo cada vez mais exigida. Acredito que as margens têm sido comprimidas por esses processos. O que aconteceu de 2007 para 2011 não pode se repetir. A tendência é desacelerar, mas não posso afirmar que não haverá mais uma queda de preço.

A Alfaguara Brasil lançou recentemente uma edição da Granta com novos talentos do País. Essa seleção consolidou alguns autores que, nos últimos anos, começaram a se posicionar como promessas. O que sua editora, dentro ou não da Granta, faz para descobrir, de fato, novos valores na ficção?

A maioria das editoras que publicam ficção está sempre louca para encontrar jovens talentos. Eu sei que muita gente comenta que é difícil conseguir ser publicado, mas é difícil encontrar talento também. Temos conseguido atrair grandes autores da literatura brasileira, nomes como João Ubaldo, João Cabral de Melo Neto, e agora o Mário Quintana. Mas fiquei preocupado que o selo se tornasse clássico demais, com pouca vitalidade e criatividade. Por isso, temos feito grande esforço para encontrar e trazer jovens autores. Hoje em dia, temos quatro ou cinco novos escritores com muito potencial. Laura Erber é uma jovem que tem muito a dizer, domina a técnica da escrita. O Ricardo Lísias nem se fala, ele é completamente original, uma coisa difícil de encontrar.

Fazer uma seleção como a da Granta é uma experiência de risco.

Sim, dá dor de cabeça. Mas olhando em retrospecto, posso dizer que deu tudo certo. Estávamos preocupados. Quando anunciamos o projeto, não sabíamos se seria bem-sucedido. Era efetivamente um risco. A primeira coisa que nos tranquilizou foi a quantidade e a qualidade de textos submetidos. Depois, conseguimos montar um grupo de jurados de inegável qualidade e qualificação. O resultado da revista foi muito bom. Há desigualdades, diversidade. Alguns textos são melhores que os outros e nunca tive expectativa de achar que os 20 seriam extraordinários, isso não acontece em coletânea nenhuma. O resultado tem quantidade suficiente – na minha opinião pessoal – de escritores de talento para que se possa dizer: está justificado o esforço.

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Rinaldo Gama, Antonio Gonçalves Filho, Maria Fernanda Rodrigues e Ubiratan Brasil – O Estado de S. Paulo

EX-PRESIDENTE Getúlio Dornelles Vargas : 24/08/2012 aniversário de morte / rio dejaneiro.rj

19/4/1882 – São Borja, Rio Grande do Sul
24/8/1954 – Rio de Janeiro, RJ

Palácio do Planalto 

Getúlio Dornelles Vargas nasceu no dia 19 de abril de 1882, em São Borja, no Rio Grande do Sul. Alterou o ano de seu nascimento para 1883 por razões desconhecidas. O fato foi descoberto somente no ano do centenário de seu nascimento, quando a igreja onde havia sido registrado divulgou sua certidão verdadeira. A falsificação descoberta por estudiosos constava do atestado militar apresentado por ele à Faculdade de Direito de Porto Alegre.

Ingressou na política em 1909, como deputado estadual pelo PRP (Partido Republicano Rio-Grandense). De 1922 a 1926, cumpriu o mandato de deputado federal. Ministro da Fazenda do governo Washington Luís, deixou o cargo em 1928, quando foi eleito para governar seu Estado. Foi o comandante da Revolução de 1930, que derrubou o então presidente Washington Luís.

Ocupou a presidência nos 15 anos seguintes e adotou uma política nacionalista. Em 1934, promulgou uma nova Constituição. Em 1937, fechou o Congresso, prescreveu todos os partidos, outorgou uma Constituição, instalou o Estado Novo e governou com poderes ditatoriais. Nesse período, adotou forte centralização política e atuação do Estado.

Na área trabalhista, criou a Justiça do Trabalho (1930), o Ministério da Justiça e o salário mínimo (1940), a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) (1943), a carteira profissional, a semana de 48 horas de trabalho e as férias remuneradas. Na área estatal, criou a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942), a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945) e entidades como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -1938). Foi derrubado pelos militares em 1945.

Voltou à presidência na eleição de 1950, eleito pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), que ajudou a fundar. No último mandato, criou a Petrobrás. O envolvimento do chefe de sua guarda pessoal no atentado contra o jornalista Carlos Lacerda levou as Forças Armadas a exigir sua renúncia no último ano do mandato.

Suicidou-se em meio à crise política, com um tiro no peito, na madrugada de 24 de agosto de 1954, dentro do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, deixando uma carta-testamento em que apontava os inimigos da nação como responsáveis por seu suicídio.

Impressionistas no Centro Cultural do Banco do Brasil / são Paulo.sp

DE 04 de agosto a o7 de outubro de 2012.   ENTRADA FRANCA.

De Terça a Domingo das 10:00 as 22:00

4 Andar – Paris é uma Festa – Paris Cidade Moderna

James Tissot – Noite ou O Baile

Andre Devambez – Concerto Colonne

Felix Vallotton – Terceira Galeria do Teatro Chatelet

Johan Bartold Jongkind – Sena e Notre Dame

Monet – Os Carvoeiros

Monet – A Garçonete e as Cervejas

Gauguin – Tempo de Neve

Albert Andre – Sacre Coeur Visto do Atelier do Artista

Santiago Rusiñol y Prats – Sacre Coeur em Construção

Stanislas Lépine – Rue Saint Vincent em Montmartre

James Wilson Morrice – Quai des Grands Augustins

Maximilian Luce – O Cais Saint Michel e Notre Dame

Pissarro – O Sena e o Louvre

Giovanni Boldini – O Conde Rubens de Montesquiou

Giovanni Boldini – Moulin Rouge

Degas – Dançarinas Subindo Escadas

3 andar A Vida Parisiense e seus Atores. Paris Cidade Moderna.

Henri Ottman – Estação de Luxemburgo em Bruxelas

Monet – Gare Saint Lazare

Monet – Tuilleries

Toulouse Lautrec – Mulher com Boa Preto

Toulouse Lautrec – Mulher de Luvas Brancas

Louis Anquetin – Mulher na Rua

Renoir – Gabrielle et Jean

Renoir – Mulher com Jabô Branco

Charles Angrand – Casal na Rua

Jean Beraud – A Espera

Theophile Steinlen – A Rajada de Vento

George Garen – Iluminação da Torre Eiffel

Louis Welden Hawkins – A Torre Eiffel

2 andar – A Vida Parisiense e seus Atores. Fugir da Cidade.

Renoir – Retrato da sra Georges Hartmann

Renoir – Retrato de Ferdinand Halphern

Renoir – Moças ao Piano

Renoir – Paisagem Argelina

Renoir – A Porta da Estrada de Ferro em Chatou

Renoir – Sra Darras

Pissarro – Jovem Camponesa Fazendo Fogo

Pissarro – Centro de Jardim no Hermitage

Pissarro – Estrada de Ennery

Pissarro – Os Telhados Vermelhos,Recanto de Aldeia,Efeito de Neve.

Pissarro – A Colheita

Seurat – O O Pequeno Camponês de Azul

Monet – O Lago das Ninféias

Monet – Igreja de Vetheuil

Monet – Regatas em Argenteuil

Monet – Argenteuil

Monet – O Tocador de Pífaro

Sisley – Sob a Neve

Sisley – Caminho da Máquina em Louveciennes

Frederic  Bazille – O Vestido Rosa

Frederic Bazille – Floresta de Fontainebleau

Paul Guigou – Lavadeira

Theodore Rousseau – A Manhã

Camile Corot – A Charrete – Lembrança de Marcoussis

Charles-François Daubigny – Colheita

Cézanne – Retrato do Artista com Fundo Rosa

Carolus-Duran – Retrato de Manet

Leon Bonnat – Autorretrato

Courbet – Homem do Cinto de Couro

Berthe Morisot  ( A Única Pintora ) – O Berço

Alfred Stevens – O Banho

Henri Fantin Latour –  A Família Dubourg

Sub Solo

 

Pierre Bonnard – Sob a Lâmpada

Maurice Denis – Noite de Setembro

Maurice Denis – O Minueto d Princesa Maleine

Maurice Denis – A Criança de Calça Azul

Ker-Xavier Roussel – O Terraço

Edouard Vuillard – O Armário de Roupas Brancas

Edouard Vuillard – Depois da Refeição

Edouard Vuillard – Depois da Refeição

Edouard Vuillard – Na Casa de Maurice Denis

Edouard Vuillard – O Café da Manhã

Gauguin – Camponesas Bretãs

Gauguin – As Medas Amarelas

Gauguin – Les Alyscamps

Paul Serusier – A Barreira Florida

Emile Bernard – As Bretãs de Guarda Chuva

Rene Seyssaud –  As Oliveiras

Cézanne – Rochedos Perto das Grutas Acima de Chateau Noir

Cézanne – Natureza Morta com Sopeira

Van Gogh – O Salão de Dança em Arles

Adolphe Monticelli – Natureza Morta com Jarro Branco

Courbet – Ramo de Macieira em Flor

Manet –  Hastes de Peônia e Tesoura de Poda

Henri Fantin Latour –  Rosas em um Vaso

Paul Sérusier – Natureza Morta – O Atelier do Artista

Paul Signac – O Castelo dos Papas

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Colaboração de OMAR DE LA ROCA/sp

Dilma é a 3ª mais poderosa em ranking da revista Forbes / reuters.eua

Presidente é capa da edição de publicação e é mencionada em lista pela segunda vez consecutiva; chanceler alemã, Angela Merkel ficou em primeiro

22 de agosto de 2012 | 12h 03
Reuters

A revista Forbes colocou a presidente Dilma Rousseff em 3º lugar, pelo segundo ano consecutivo, em seu ranking anual das mulheres mais poderosa do mundo, que tem novamente a chanceler alemã, Angela Merkel, na liderança da lista dominada por políticas, empresárias e personalidades da mídia. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, ficou em 2º lugar, numa repetição das três primeiras colocadas do ano passado. A presidente ainda estampou a capa da publicação.

Veja também:
link O ranking completo da Forbes

 

A lista elencou mulheres envolvidas na política, entretenimento, tecnologia e organizações sem fins lucrativos, entre outros campos. Elas foram classificadas de acordo com influência, quantidade de dinheiro que controla ou ganha, e presença na mídia.

“Essas mulheres de poder exercem influência de formas muito diferentes e para fins muito diferentes, e todas com impactos muito diferentes sobre a comunidade global”, disse a presidente e editora da ForbesWoman, Moira Forbes.

A revista mencionou Dilma por sua liderança à frente do governo brasileiro e pelos índices de aprovação dentro do País.

A chanceler alemã (primeira-ministra) Merkel foi citada pela Forbes por sua firmeza em preservar a União Europeia e sua influência sobre a crise da dívida da zona do euro.

Hillary foi aplaudida pela forma como lidou com crises, como a divulgação de uma série de telegramas diplomáticos secretos dos Estados Unido pelo site WikiLeaks.

A média de idade das 100 mulheres mais poderosas do mundo segundo a revista, que são de 28 países, foi de 55 anos. Somadas, elas tinham 90 milhões de seguidores no Twitter, disse a Forbes.

Também estão entre os cinco primeiros lugares Melinda Gates, co-presidente da Fundação Bill & Melinda Gates e esposa de Bill Gates, cofundador da Microsoft, e Jill Abramson, editora-executiva do New York Times.

Sonia Gandhi, presidente do Congresso Nacional Indiano, ficou em 6o lugar. A primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, que liderou a lista em 2010, ficou em 7º.

A lista contou com recém-chegadas como a atriz e cantora Jennifer Lopez e Laurene Powell Jobs, viúva do fundador da Apple, Steve Jobs.

Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, ficou em 8º. A ex-ministra francesa está na lista desde sua primeira edição, em 2004.

ANA DECKER e o QUINTETO NOVO convidam: WONKA BAR em CURITIBA

A-gosto – de paulo timm / portugal.pt

A –   gosto

                                               

 

 

Na tarde quente e seca deste agosto

No desgosto das incansáveis folhas desprendidas

Procuro em vão a meada do meu verso tosco

Na macarronada  fria das manchetes estendidas

 

Para algo servem os noticiários…

 

De repente ,descubro que, vivos , mesmo com seus vícios,

Drummond centenário

Nelson Rodrigues, 92 anos ,legendário,

Estariam , festivos, um de cada lado , celebrando a vida

 

Para algo servem os aniversários…

 

Drummond, esguio, esquivo , mineiro, à esgueira

Falaria de sua infância em Itabira, em oposição à máquina do mundo

Palmilhando o passo entre o cotidiano monótono dos Raimundos

E uma eternidade metafísica sem eira nem beira.

Para que serve mesmo a poesia…?

Nelson, cosmopolita assumido, destemido

Faria o contraponto da especulação na ruína do baixo ventre da cidade.

Profetizaria mazelas escorregadias da subjetividade

Com fé cínica no fato consumido

 

A vida serve para quem dela se serve.

O Grande Poeta, tímido e envergonhado de sua humana condição,

Pagando em imortal melodia a penitência pelo só existir

O Grande Cronista , desavergonhado e acima de qualquer servidão,

Num só afã de mostrar a vida, simplesmente, como ela é, no seu devir .

Ambos universais..

Senhores da nossa língua.

Da nossa alma.

                              Sirvam-se, por favor!

.

               (Paulo Timm,Olhos d Agua, GO 7/ago/2002)

Islândia: agora, o julgamento do neoliberalismo – editoria

Processo não se limita a dirigentes que submeteram país à ditadura dos mercados. Procura alternativas para que fato nunca se repita. Cada passo é acompanhado pela população, via internet.

Durante o governo de coligação direitista e social democrata de Geir
Haarde, os bancos faliram, a economia entrou em colapso. Mais do que
julgar o homem que à frente do governo não conseguiu evitar a
dramática situação no pequeno país, os juízes tentam apurar o que se
passou e as circunstâncias que provocaram a crise. O tribunal
considera que não é possível responsabilizar unicamente o ex-primeiro
ministro pelo que se passou.

Da sua acusação constam o fato de não ter feito nada para evitar a
debandada dos estabelecimentos financeiros, de não ter feito com que o
banco online Icesave tivesse o estatuto de filial britânica, o que
teria permitido transferir o problema da falência para Londres e
evitado ao país a realização de dois referendos e a decisão dos
islandeses de se recusarem a pagar por dívidas que não são suas. Este
problema está atualmente no Tribunal Europeu de Justiça.

Juízes e cerca de 60 testemunhas têm refletido durante o julgamento –
que não é transmitido ao vivo pela TV mas que está sendo seguido por
milhares de islandeses através da internet – sobre as causas de uma
situação que não surgiu em 2008 por geração espontânea mas sim pela
deriva neoliberal a que o governo sujeitou o país.

Em causa estão, principalmente, a privatização das quotas de pesca que
proporcionou aos armadores fortunas incalculáveis, um investimento em
cascata no estrangeiro, quase sempre com maus resultados, uma
privatização desastrosa dos bancos feita frequentemente segundo
métodos corruptos e de clientelismo. A este processo seguiu-se uma
onda de concessão de créditos bancários sem critérios nem garantias
proporcionando, à escala do país, problemas semelhantes aos que se
registaram nos Estados Unidos com a bolha imobiliária e o subprime.

Nesta fase, os bancos concederam um volume global de crédito que
superou em 11 vezes o PIB islandês; quando o primeiro ministro
decretou a sua falência era impossível salvá-los. Além disso, os
islandeses não o permitiram e recusaram-se a assumir as dívidas
alheias.

A resposta dos islandeses à crise não alinhou pelos caminhos impostos
pela União Europeia aos Estados membros, pelo que hoje a Islândia,
apesar de sofrer os efeitos de uma forte austeridade econômica e de
uma acentuada quebra no consumo, conseguiu salvaguardar o Estado
social, o desemprego está em sete por cento e as entidades patronais
não foram além de limitar o trabalho extraordinário para conseguirem
evitar os despedimentos.

Geir Haarde, político direitista e considerado um fundamentalista
neoliberal, tem 64 anos e abandonou a carreira política. Incorre numa
pena de dois anos de prisão. Mais do que um chefe de governo incapaz
de dirigir o país – é a acusação a que corresponderá a pena que vier a
ser aplicada – no banco dos réus está a política neoliberal.

O mestre e os aprendizes do terror ( herança da ditadura militar) – por luiz claudio cunha / rio de janeiro.rj

O mestre e os aprendizes do terror

O grupo de jovens corria pelas ruas do bairro carioca da Tijuca, em marcha sincronizada, cantando: “Bate, espanca/ Quebra os ossos/ Bate até morrer”. O chefe do bando perguntava: “E a cabeça?”.

A resposta vinha em coro: “Arranca a cabeça e joga no mar!”. O chefe, de novo: “E quem faz isso?”. A resposta afinada não deixava dúvidas: “É o Esquadrão Caveira!”.

A história foi revelada, em julho, pelo colunista Ilimar Franco, de O Globo. Não era um bando de marginais descendo o morro. Era um animado pelotão do I Batalhão da Polícia do Exército berrando a plenos pulmões o ideário truculento que devem ter contraído em seu local de trabalho.

Como lembrou o advogado Wadih Damous, presidente da OAB do Rio de Janeiro, a malta de potenciais assassinos serve no mesmo quartel da rua Barão de Mesquita, 425, no Andaraí, onde operou na década de 70 o notório DOI-CODI do I Exército, um dos maiores centros de tortura do regime militar.

Só a memória insana da ditadura pode explicar o treinamento idiota aplicado aos recrutas do batalhão marcado pelo estigma da violência. E só o paraíso da impunidade pode explicar a falta de indignação dos comandantes que admitem e se omitem diante de uma demonstração pública de desrespeito ao ser humano.

Nada estranho para comandantes militares que, num documento enviado no final de 2010 ao então ministro da Defesa, Nelson Jobim, reclamavam contra a criação da Comissão Nacional da Verdade, alegando que, afinal, “passaram-se quase 30 anos do fim do chamado governo militar…”

Os chefes das Forças Armadas que impuseram uma ditadura de 21 anos ao país, fechando o Parlamento, censurando, cassando, prendendo, torturando e matando dissidentes políticos, ainda têm dúvidas se tudo aquilo pode ser chamado de “governo militar”.

É por isso que garotos saudáveis da tropa ainda hoje fazem exercício físico na rua ecoando sua explícita disposição de espancar, quebrar os ossos, bater até morrer, arrancar a cabeça e jogar no mar…

Em julho do ano passado, o site SUL21 revelou uma descoberta da Associação Nacional de História (Anpuh): os alunos das escolas militares do país continuam ensinando aos recrutas que o golpe de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart foi “uma revolução democrática”.

O disparate está publicado no livro História do Brasil: Império de República, de Aldo Fernandes, Maurício Soares e Neide Annarumma, aplicado no 7º ano do Ensino Fundamental das escolas militares. Um mês depois, a Anpuh perguntou ao ministro Jobim: “Que cidadãos estão sendo formados por uma literatura que justifica, legitima e esconde o arbítrio, a tortura e a violência?”.

Só no início de 2011, já no governo de Dilma Rousseff, o Comando do Exército respondeu, dizendo que o livro “atende adequadamente às necessidades do ensino da História”. É bom lembrar que, 30 anos atrás, o Colégio Militar de Brasília admitiu no seu corpo docente o coronel Wilson Machado.

Meses antes, em abril de 1981, ele sobrevivera à bomba do frustrado atentado ao Riocentro. O futuro educador de Brasília, então capitão, era o terrorista de Estado que carregava a bomba que explodiu antes da hora no seu Puma, matando na hora seu comparsa, o sargento Guilherme Rosário.

O capitão Machado, como o sargento, servia no DOI-CODI da rua Barão de Mesquita.

É o mesmo quartel da gurizada que hoje ecoa a lição do camarada terrorista que virou professor.

Todos eles, mestres e aprendizes, seguem intocáveis na marcha sincronizada da impunidade.

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Luiz Cláudio Cunha é jornalista
cunha.luizclaudio@gmail.com

COMPANHIA – de joanna andrade / boca raton.miami.eua

Viajo milhas em tua história só para não te deixar só

Tento seguir à risca o teu percurso para não te perder de vista

Fico para tràs em teu tempo que não consigo alcançar

Olho de longe meu amor por ti se dissipar nesse espaço etéreo

Em tua demência

Em tuas abstinências forçadas pelo acaso corroído da vida

Em tua liberdade enclausurada em ti mesmo

Bicho em semente sedada o qual tece em babas o único fio terra

Olhos estacados como divisória

tu em outro lugar

eu para cá contigo só

o afago

lavado em lágrimas

o olhar

na busca da alma

o adeus

a cada suspiro meu

o amor

no sorriso pela metade

na memória

 

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JA/2010 ( Campo Mourão)
Joanna Andrade

ELEIÇÕES E PESQUISAS – por paulo timm / portugal.pt

Em tempo de eleições, candidatos e eleitores ficam de olho nas pesquisas eleitorais. Elas reinam   soberanas nas campanhas. Depois são esquecidas, como são esquecidos os números da própria eleição.  Lá ficam eles arquivados nos sites da Justiça Eleitoral, como meras estatísticas, desprovidas de encanto. Mas agora é campanha e pesquisa eleitorais…

Muitos têm se debruçado ao estudo da importância das pesquisas eleitorais. Um sociólogo francês , Patrick Champagne, costumava  dizer que  estávamos diante de  grave inversão no processo político, como se fosse o rabo a abanar o cachorro e não vice-versa:  “ As pesquisas de opinião passaram a ser divulgadas como se fossem a própria opinião pública e substituíram a opinião qualitativa dos acadêmicos” (Cesar Maia,Newsletter). Os próprios analistas políticos, de formação jornalística, senhores das colunas nobres em todos os níveis da imprensa, do nacional ao local, desaparecem nesse processo e acabam rendendo-se à análise dos números das pesquisas. Muitos acabam chegando à conclusão de que, no futuro, nem haverá mais necessidade de se fazer eleições diretas, secretas e universais. Basta aplicar pesquisas, cada vez mais refinadas. Será..? Não acredito. De qualquer forma é importante se discutir um pouco sobre como se forma a opinião pública sobre um candidato. Mais do isso: Como se forma o estado de espírito do eleitor no processo eleitoral?

O ponto de partida é a cultura política e a confiança nas instituições a ela associadas: Partidos, Congresso e Camaras legislativas , políticos etc.

Uma cultura política não se constrói de uma hora para outra. Ela responde pelo longo processo através do qual os mecanismos de poder se constituem, ou seja, da forma como uma comunidade se organiza para formular , implantar a Lei e produzir resultados sociais comuns. Outro sociólogo, alemão, Max Weber, muito mais agudo no estudo dos sistemas de dominação política do que seu conterrâneo mais famoso – Karl Marx – , nos deixou o entendimento deste processo, que vai do  encantamento com o líder carismático ao desencanto racional, embora institucionalizado ,  do Estado Moderno. Permeando este trânsito, as próprias transformações de uma sociedade tradicional, pouco desenvolvida em termos de produtividade econômica e complexidade social, rumo à modernidade. Ou seja, a cultura política numa sociedade tribal  será inevitavelmente diferente da política numa sociedade industrial pós-moderna, onde aliás, se incorpora à agenda dos espetáculos.

Mas tanto numa sociedade tradicional como numa sociedade contemporânea a Política terá seus valores, seus rituais, seus mecanismos de realimentação e até mudança. Mesmo nos modelos hierárquicos de inspiração divina, por exemplo, como as monarquias chinesas antigas, os Reis eram obrigados a interpretar os desígnios insondáveis à luz das necessidades terrenas, sob pena de serem sumariamente destituídos diante de catástrofes e grandes dificuldades sociais. A flexibilidade para a destituição do líder diante da frustração dos liderados é, aliás, uma das chaves principais na construção de uma vontade popular no processo político, sendo uma das vantagens apontadas pelos parlamentaristas sobre os presidencialistas.  A rotatividade, enfim, dos representantes dos eleitores, é também um indicador da permeabilidade do sistema político à novos agentes no processo político, sejam por classes , gênero ou idade. Um sistema político que eterniza, por exemplo, grandes proprietários que se profissionalizam e se encastelam em posições políticas, impedindo a renovação de lideranças, será, fatalmente, fadado ao fechamento de seus horizontes de mudança.

Tudo isto se reflete, por fim, nos índices de confiança nas instituições políticas de um país.

As pesquisas, no Brasil, a este respeito são preocupantes. Há um descrédito muito grande das instituições políticas e este descrédito pode levar ao desinteresse da cidadania pelas eleições e pelo futuro da coisa pública. Basta, aliás, consultar as Redes Sociais e se perceberá o que estou dizendo. Políticos e instituições como Congresso Nacional e até o Judiciário são verdadeiramente achincalhados. Veja-se, pois, o último resultado de uma Pesquisa Datafolha, divulgada pela Folha de Sáo Paulo no último dia 12 e que evidencia o descrédito da opinião pública sobre o Congresso e os Partidos Políticos:

Pela ordem: Confia Muito x Confia um Pouco x NãoConfia.

a) Presidência da Republica 33% x 52% x 15%

b)Imprensa: 31% x 51% x 18%

c) Supremo Tribunal Federal 16% x 51% x 32%

d) Congresso Nacional 8% x 40% x 52%

e) PartidosPolíticos 7% x 41% x 52%.

Preocupante…

A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO

Século XVIII.

Uma partida de brasileiros atravessa as verdejantes campinas do Rio Grande do Sul. Impulsionados pela necessidade de braços para as lavouras, buscam o índio. Hão de avassalar as tribos ocupantes daquela região. Com esta disposição, viajam bem municiados e armados. Os índios Minuano, avisados pelas sentinelas, da aproximação dos brancos, montam em seus fogosos cavalos e, armados de flechas e boleadeiras e lanças, deixam seu acampamento e rumam para as coxilhas. Ao avistar os brasileiros se aproximando, os índios usam de sua tática de ocultar-se ao longo de dorso dos cavalos. Destarte, dificilmente saíram descobertos pelos inimigos. Imóveis, esperam eles o momento azado para atirar-se sobre os viajantes. Os brasileiros não são conhecedores dos hábitos e da tática empregada pelos índios habitantes das campinas do Sul. E avistando à distância o bando de cavalos pastando, tomam essa direção, muito senhores de si. Assim, ao se aproximarem os brasileiros, os índios despencam-se nos seus animais do cimo das coxilhas, em galopada, investindo contra os brancos com furiosas saraivadas de flechas. Respondem estes com tiros de armas de fogo. Nova investida dos índios, agora servindo-se das lanças, obriga os invasores a fugir em desordem. Caído por terra acha-se um moço ferido; a seu lado, uma jovem índia minuana. Fascinara-a a coragem do estrangeiro. O brasileiro sabe da sorte que o espera. E, interrogando a moça quando será sacrificado, responde-lhe esta que nada tema, pois estará a seu lado. Anima-o com palavras confortadoras, cheias de simpatia e compaixão pela sorte do estrangeiro. O prisioneiro é levado para o acampamento dos Minuanos. Enquanto esperam que se cure da ferida para sacrificá-lo, lhe dão toda a liberdade sob a vigilância das sentinelas. O jovem branco resolve fazer uma viola. Uma tarde, à sombra de uma árvore, com a pouca ferramenta de que dispõe, a muito custo vai improvisando um rústico instrumento. Inicialmente aparelha, em forma de espessa tábua, um pau de corticeira. Cava-o, dando-lhe a forma de viola. Coloca uma tampa com abertura circular para dar vibração ao som das cordas. Para colar a tampa, emprega o grude da parasita sombaré, das árvores da serra. E da própria fibra da parasita ele prepara as cordas para o instrumento. A índia já lhe tem muita amizade e está sempre a seu lado nas horas de folga. Enquanto lhe vê trabalhar, canta-lhe suavemente um canto doce e pitoresco da gente minuana. Ainda não passara um alua e já, na grande ocara do acampamento, celebra-se o ritual do sacrifício. Amarrado a um tronco está o prisioneiro. Todos os índios da nação, reunidos em volta dele, dançam e cantam sua morte. De quando em vez passam, de mão em mão, cuias contendo delicioso vinho, fabricado com o mel eiratim. Há um silêncio de morte em todo o acampamento. O chefe minuano ordena que soltem o prisioneiro e tragam-no a sua presença. Fitando o moço bem nos olhos, assim fala o cacique: – que aos teus irmãos sirva de lição esta última derrota. Ou não nos tornem vir a nos incomodar. Os que vierem nestes campos buscar escravos, hão de ser esmagados pelas patas de nossos cavalos. E tu pagarás com a morte a tua audácia e a dos teus! Contudo, o chefe Minuano diz ao condenado que faça o seu último pedido. Surpreende-se o branco com tal gesto. E, dotado de uma inteligência não vulgar, num relance percebe como poderá livrar-se da morte. Sabendo da emotividade e a influência que exerce a música sobre aquelas criaturas, pede que lhe tragam o seu instrumento de cordas. Quer tocar pela última vez; cantar uma balada de sua terra. É a jovem índia quem lhe traz a sua viola, debaixo dos olhares curiosos dos índios. Cheio de fé, o moço pega da viola. Depois de alguns sonoros acordes, entoa uma canção. E o rito bárbaro daquelas fisionomias rudes transforma-se como por encanto. Ouvem-se com enlevo, exclamando a todo instante: – Gaú-che! Gau-che! – a significar gente que canta triste. Sensibilizados pela doce cantiga do condenado á morte, os índios intercedem para que o sacrifício seja revogado. E, assim, o brasileiro fica morando com os Minuanos. Enamorado da jovem índia, casa-se com ela. E dessa bela união, do elemento branco com o indígena, resultou o tipo desse homem extraordinário que se chama gaúcho!

(A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO in LESSA, Barbosa. Estórias e Lendas do Rio Grande do Sul. São Paulo: Livraria Literart Editora, 1960. Lenda coletada de Martha Dutra Tavares, baseada em Cezimbra Jacques e Aurélio Porto, em O Gaúcho, álbum publicado pelaTransoceanic Trading Company). Nota de Barbosa Lessa: a versão gaú – cantar triste, eche – gente, é combatida por vários entendidos em questões lingüísticas, que alegam se inexata essa explicação etimológica. Outras autoridades, porém, como Batista Caetano, aceitam essa tradução, e informam que ainda hoje, no Paraguai, há a forma guahú para designar o uivo tristonho do cão e, por analogia, o canto triste que possa assemelhar-se a esse uivo; quanto a Che – expressão gaúcha tão usual na conversação comum, pode significar fulano, pessoa, e aplica-se muitas vezes quando se quer chamar a atenção de um interlocutor, cujo nome próprio se desconhece.

A DITADURA CONDENADA: Condenação de USTRA abre portas para novas ações – por pedro estevam serrano / são paulo.sp

A ditadura condenada

A 1ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo acaba de decidir por unanimidade negar provimento ao recurso interposto pelo Coronel Carlos Brilhante Ustra contra decisão de primeiro grau que o condenou em ação declaratória como responsável por crimes de tortura durante o regime militar, no período em que foi um dos comandantes do DOI-CODI.

O coronel reformado Carlos Alberto Ustra, ex-comandante do Doi-Codi de SP. Foto: Sergio Dutti/AE

A ação foi promovida pela família Teles, que teve cinco de seus integrantes torturados nas dependências do Doi-Codi sob o comando de Ustra

A decisão é relevantíssima: pela primeira vez o Tribunal paulista reconhece que um agente público específico praticou crimes de tortura no exercício de função publica contra presos políticos na época da ditadura militar.

O caso oferece ao processo judicial e à inquirição judicial seu papel essencial de forma civilizada de acesso a verdade.

A repercussão da decisão no plano histórico e sociopolítico vai muito além da justa pretensão de reconhecimento judicial da ofensa pela família autora.

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TJ-SP reconhece Ustra como torturador

Nosso STF teve o pior momento de sua historia recente, após muitas decisões acertadas , quando julgou intangíveis os torturadores e homicidas do regime militar por conta da incidência da Lei de Anistia, contrariando o sentido da própria lei e o disposto em nossa Constituição e em Tratados Internacionais subscritos pelo Brasil.

Das ditaduras sul-americanas das décadas 60 e 70, a brasileira é a única que permanece incólume à ação da Justiça.

As consequência desta impunidade e deste forçado esquecimento, sem identificação das pessoas, dos algozes e dos corpos das vítimas, poderá ser o retorno, no futuro, de um regime político com práticas semelhantes.

Em verdade, tortura e vilipendio ainda é a regra real de conduta do Estado face à maioria pobre de nossa população. O STF tem feito esforços no sentido de ampliar o reconhecimento dos direitos fundamentais de nossa Carta Magna, mas quase nada os Poderes estatais têm feito para efetivamente universalizar estes direitos reconhecidos.

Enquanto criminosos do colarinho branco são presos sem algemas e discretamente (da forma correta e civilizada), suspeitos pobres são seviciados e expostos a público em programas televisivos estimuladores do ódio étnico e de classe.

Neste quadro, a vitória da família Teles – mais do que declarar judicialmente a violência que sofreram – abre portas para que medidas cíveis individuais e de defesa do interesse coletivo possam ser propostas, e com isso, obter ao menos a identificação dos que torturaram e mataram e, quem sabe, auxiliar na localização dos corpos de suas vítimas.

A verdade quanto a nosso passado pode auxiliar para que a ditadura não volte no futuro, e para que os direitos humanos fundamentais, no presente, passem a ser uma realidade para todo o nosso povo.

” SENTIR-SE JOVEM” – de juca chaves / rio de janeiro.rj

UM clique no centro do vídeo:

 

amanheceu – de omar de la roca / são paulo.sp

amanheceu

 

 

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Amanheceu um dia escuro,depois da chuva da noite.
E eu hesitei antes de olhar pela janela.
Medo do escuro,da chuva,do desanimo.
Mas abri as cortinas e olhei para o céu.
Havia um corte nas nuvens por onde escapava
um pouco de azul.Um pouco mais que um pouco.
Mas aquela fresta me disse tudo.
Ha dias escuros,onde nem um pedacinho de azul aparece.
Mas não hoje.Havia um corte azul,como uma cicatriz
numa face de fotografia.
E esse azul me encantou e me deu esperança de luz.
Depois,o sol saiu entre entre azuis e brancos
sorrindo meio encabulado entre as nuvens.
E eu fingi que ele brincava de esconde esconde comigo.

 

Dossiê revela participação civil no golpe militar de 64

12/8/2012 10:04,   – de São Paulo

A edição deste mês da revista de História da Biblioteca Nacional traz um especial discutindo a participação civil no golpe contra o presidente eleito João Goulart, em abril de 1964. A publicação reconstrói a memória do período demonstrando como setores da classe média, religiosos, políticos, setores da imprensa, empresariado e militares se uniram em uma ampla campanha para derrubar o governo de Jango, sobretudo em reação contra as reformas de base e à participação das classes populares na política.

Ditadura militar

Ex-presidente de fato, Castelo Branco, sendo recebido no RJ por oficiais após assinar o AI 2, em 1965

O dossiê trata de temas voltados à compreensão da articulação do golpe e de seus momentos iniciais. Não são objeto de discussão as questões relativas a cassações de direitos políticos ou violações de direitos humanos durante o regime. Uma das questões discutidas é a definição de “ditadura militar” para o período, ocultando o registro histórico da participação de empresários, religiosos e imprensa, entre outros setores civis, que atuaram como financiadores, apoiadores ou que foram beneficiários do regime.

A publicação defende o uso da definição “ditadura civil-militar” como forma mais apropriada de denominar o regime. Embora não traga fatos novos, o dossiê tem importância no momento em que se discute a memória recente do país, através da atuação da Comissão Nacional da Verdade.

De acordo com Vivi Fernandes de Lima, editora da revista, o momento é oportuno para a publicação, que contribuirá para o acesso a essa história por diversas pessoas. “Este tema é pedido pelos leitores há anos e acredito que a revista deve contribuir bastante não apenas para a formação de historiadores, mas principalmente para a de estudantes da educação básica”, disse.

A revista trata dos temas de forma pouco comum à cobertura da imprensa tradicional e mostra como essa mesma imprensa atuou ativamente na articulação do golpe e na desestabilização do governo Goulart. E demonstra a participação dos dois principais jornais paulistanos, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, na campanha para derrubada do presidente João Goulart e de legitimação do regime autoritário que se instalou depois, através de sua manchetes e editoriais.

Dentre os temas tratados estão o início do levante militar em Minas Gerais, a negativa de Goulart em atacar os golpistas, a atuação de políticos e ministros na organização do golpe, o apoio de setores da sociedade — como o de parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil através das Marchas da Família com Deus pela Liberdade — e a importância de tratar do tema de forma clara nas escolas de educação básica, por meio dos livros didáticos e outras publicações.

Entre os especialistas que contribuíram na produção estão o professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense Daniel Aarão Reis, o pesquisador Luiz Antonio Dias, o professor Mateus Henrique de Faria Pereira e o professor Jorge Ferreira, biógrafo de João Goulart.

 

Por Redação, com Rede BA

Quando o pleito do movimento social se torna um incômodo para os políticos – por celso martins / ilha de santa catarina.sc

 

 

Oi, Amigo!

Sou candidato.

Adeus, amigo!

Fui eleito.

Haikai de Aníbal Nunes Pires

(9.8.1915 – 24.4.1978)

 

 

A polêmica envolvendo comunidades do Norte da Ilha (Florianópolis) e a Casan e Prefeitura, motivada pelas péssimas condições de suas estações de tratamento de esgotos, sobretudo a de Canasvieiras, revela algumas facetas de nossa democracia travada. O pleito real da sociedade não interessa aos partidos. Vejamos por partes.

 

1. O pleito do movimento social, que rejeita a concentração dos esgotos do Norte da Ilha em Canasvieiras e o lançamentos dos efluentes na bacia do rio Ratones, chegando às praias, legítimo e necessário, não é bem visto pelas diferentes candidaturas à Prefeitura de Florianópolis. É visto como algo inconveniente pelo momento eleitoral vivido. Ouvi isso de diferentes fontes. No ato público do dia 4 na audiência do dia 7 passados, nenhum candidato ao Executivo da Capital marcou presença, nem seus vices.

 

2. Existem diversas leituras possíveis desse comportamento de nossas elites políticas. A mais cruel nos remete a uma triste constatação: a nossa dor, os nossos pleitos, as reivindicações mais sentidas das comunidades, representadas no movimento social em curso, não interessam às diferentes candidaturas. Elas estão concentradas no marketing, no que diz o conselheiro político, no que sugere o assessor de comunicação, todos preocupados em construir uma imagem, um ícone, visando atingir as massas.

 

3. Assim, criam necessidades artificiais, aspirações fictícias e pleitos gerais, empacotando-os o oferecendo-os aos “eleitores”, envolvidos com um leque de “propostas” e “programas de governo”, raramente considerados depois. É assim que se dá o embate eleitoral. O eterno esforço de convencer o pacato cidadão de que ele é o melhor, seu partido o mais bacana, seu esforço o mais notável e sua disposição a mais altruística possível.

 

4. Por isso rechaçam os pleitos reais da sociedade. Seria um vínculo pesado que, mais a frente, iria incomodar, debater, sugerir, dar o seu pitaco. É melhor acenar com um engodo do que se comprometer com as preocupações. É mais confortável convencer o cidadão com sono que ele não pode dormir, acenar com um café quente ao sujeito que atravessa ofegante o deserto ou oferecer um sorvete a quem treme de frio.

 

5. Vivemos uma democracia travada. Democracia onde o sujeito tem um canal de expressão, o voto, arrancado de assalto com esse tipo de postura. O fato de meia cidade estar envolvida no embate com a Casan e a Prefeitura não interesse aos candidatos. É algo inconveniente, fora de época, incômodo. O correto seria incorporar o anseio social às plataformas dos candidatos, tornando legítimo o processo, tornando o Executivo um executor dos pleitos das comunidades.

 

6. Discutir os rumos do saneamento da cidade da forma como está acontecendo é um exemplo de democracia direta. Mas a democracia das nossas lideranças tem limites e travas que não comportam essa abertura. A mentalidade e posturas dos candidatos à Prefeitura de Florianópolis são as mesmas que levam à criminalização do movimento social e, no limite, sustenta regimes autoritários, ditatoriais. É realmente uma pena que o momento de afirmação e aprofundamento da democracia seja usado exatamente para dar o recado: tratem de votar numa das plataformas do cardápio disponível e não inventem sarnas para a gente se coçar.

 

*Celso Martins é jornalista (editor do Daqui na Rede) e historiador.

O SOCIALISMO É UMA TÉCNICA CIVILIZATÓRIA. E SÓ! – por paulo timm / portugal.pt

 

 

O cronista é  uma ave de rapina sobre os acontecimentos diários. Ele acorda com o sol, ,  levanta vôo, olha com rigor o espaço perscrutado ,aguça os sentidos e prepara-se para o ataque: Avidez pelo fato que lhe saciará a vontade de escrever, temperando algum talento na descrição da realidade com a vaidade de mostrar o que sabe e o que pensa sobre ela.

Hoje, particularmente, os assuntos abundam e confundem o caçador: O sono de dois Ministros do Supremo no Julgamento do século; o aprofundamento da crise na Europa,;  a tensão do PT gaúcho diante de inúmeros contratempos com seus candidatos, à beira de um ataque de nervos, à exceção da boa performance da Nilvia em Torres; a decepção com o Brasil nas Olimpíadas de Londres,;  o lamento mundial pelo aniversário do trágico lançamento da bomba atômica em Hiroshima/Nagasaki,  mal compensado pela lembrança nostálgica da morte de La Monroe; Tanta coisa,  meu Deus…! Como Mas me concentro em algo menor, quase pequeno, onde, como diz a sabedoria popular, o diabo se esconde: O comentário de meu amigo Yamil Dutra, às voltas com um filho hospitalizado em Porto Alegre.

Ele desabava:  –“Enquanto a galera preocupa-se com o mensalão, o Cachoeira e a novela das 8, o caos galopa nos hospitais particulares de Porto Alegre. A classe média, enganada pelos planos de saúde, experimenta um SUS privado em salas de espera mais cômodas mas também superlotadas. A incompetência igualiza a cidadania!”

O comentário me comove e me atinge, assim como deve atingir milhões de brasileiros que  pagam regularmente seus Planos de Saúde e que não recebem, destes planos,   o suporte prometido. Eu mesmo, ano passado,  tive que pagar do meu bolso, diversos exames e esperar quase um ano por outros, diante da morosidade do Plano. Sobrevivi. Mas descobri, no meio do desespero , duas coisas: (1)Nenhum plano cumpre o que promete, com exceção de Planos proibitivos, fechados, inacessíveis à classe média; (2) quando a enfermidade se converte numa doença grave , como câncer, todos nós acabamos no SUS, único sistema capaz de pagar os elevados custos desta – e outras – enfermidades. Os leitos hospitalares públicos estão coalhados de doentes graves, grande parte deles, da classe média, régios subscritores de Planos de Saúde. Desde então, contenho-me nos meus ataques ao SUS. Pelo contrário, tenho procurado entender melhor a complexa máquina de financiamento e organização deste modelo de saúde pública, idealizado por dois grandes sanitaristas brasileiros Valério Konder e Mário Magalhães, ainda ao tempo de Vargas.

Agora mesmo, de volta à Portugal, vejo que este é o sistema que opera em grande parte da  Europa e que o distingue do modelo americano, mitigado pela Reforma de Obama. Modelo que hoje eles tentam empurrar para a América Latina. E vejam o paradoxo: a Coroa Britânica orienta seus súditos a fazer “turismo sanitário”no continente, para tratar da saúde. Não acreditam? Leiam então: http://www.torres-rs.tv/site/pags/nacional_turismo2.php?id=2269” . Um grande debate ocupa hoje, também,  o canal europeu, dando conta que a Romênia se debate diante dos imperativos vindos de fora e que pretendem privatizar sua medicina, que aliás, na era comunista, era horrorosa- http://www.torres-rs.tv/site/pags/nac_int2.php?id=2281 .

Ou seja, o SUS é ruim. Viva o SUS! ,  porque é ele que irá nos amparar na hora derradeira – e  não os planos.

Mas não vou encerrar esta crônica falando sobre um tema que pouco conheço: Saúde. Prefiro voltar ao terreno da cidadania. Respondi, pois, ao indignado Yamil, assim:

Com efeito! Voltamos  à consigna politicamente incorreta, embora muito em moda, mesmo por seculares moralistas, do Millor: OU RESTAURE-SE A MORALIDADE OU LOCUPLETEMO-NOS TODOS!  Não sou um esquerdista ortodoxo, opto pela moralidade : Ou estes PLANOS DE SAÚDE funcionam, ou,  é melhor acabar com eles e socializar de vez a medicina no país.  Os ricos, enfim, continuarão fazendo o que sempre fizeram , desde o descobrimento, em 1500  : Vão se tratar no exterior.

O SOCIALISMO, enfim,  não é   “ o sistema ” alternativo  ao “CAPITALISMO”, como os adeptos da Guerra Fria nos fizeram crer, levando-nos ao limiar do holocausto nuclear.  É uma técnica civilizatória. Só! As grandes narrativas e teorias à que tanto se referem os defensores de cada um destes sistemas são meras ilusões que obliteram, em vez de iluminar,  os caminhos da humanidade. Viraram religiões, ou melhor, doutrinas, às quais não faltam os livros sagrados, profetas , hierarquias rígidas e promessas de um futuro radiante.

Boa Sorte, pois, Yamil, aí em Porto Alegre! E saúde ao filho enfermo!

O prof. Paulo Timm é economista.

 www.paulotimm.com.br

ANA DECKER convida: curitiba.pr

UMA FARMÁCIA DENTRO DO CARRO – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

Na medida em que vamos passando pelo tempo (detesto a palavra envelhecer) estamos adquirindo e incorporando hábitos.  Quando se é jovem fazemos pouco desta prática ao constatá-la nos outros. Principalmente quando o fato se dá em cima de algo que julgamos não  precisar tão cedo, ou melhor, sequer nos imaginamos em situação de “necessitar”… Estou pensando em “remédios”, por exemplo.

Não lembro quando percebi isso, mas acredito que foi enquanto esperava o frentista abastecer o carro, “the good and old Hägar, o Horríve”l (é o nome dele, herdado do Dick Browne)… Arrisco em contar a história.

Primeiro foi um inocente colírio “Moura Brasil”, apenas para refrescar e clarear a vista já antecipando uma hipotética necessidade em uma viagem em função de minhas novas atividades pelo estado de Santa Catarina…

Depois, quando um check-up detectou uma hipertensão e tive que regularizar isso diariamente com um medicamente tradicional, the big and famous “Captopril”… Como sempre me lembrava de tomar o remédio quando já estava dentro do carro, não tive dúvidas em deixar uma caixa ali à mão para não deixar passar batido…

Mais tarde fui contagiado pela mania de limpar as mãos com um gel anticéptico antes de tocar no volante, segundo se afirmava era uma maneira de não se contaminar com a tal gripe “H1N1” ou Gripe “A”… O contato estava resolvido, mas e o ar?… Não sou médico, estava fazendo o que recomendava a vox populi vox dei…

Acreditando que o tal gel poderia ressecar as mãos, adicionei o hidratante, por recomendação de uma amiga, um creme da Natura, com odor de maracujá, belo, caro, mas eficiente, um odor agradável compensava todo o mise-en-scène em aplicá-lo…

Seguindo a máxima de que “vale mais prevenir que remediar” após três ataques de gota em tempos diferentes com uma dor insuportável, tive de me precaver… A gota era considerada antigamente, a “doença dos reis”, o excesso de proteínas no organismo gerando um ácido úrico além da conta e que se não tratado acaba em “gota”…  Depois de ler sobre o assunto, não é difícil imaginar, aqueles senhores diante de uma mesa farta com carne de javali, coelho, ovelha assada e aves silvestres acompanhadas com vinho tinto… Ingerindo com a pele, o couro, além dos miúdos de aves, coração, moela, fígado onde se concentram os mais altos teores de toxinas e de onde se origina o tal ácido úrico… Well, levava comigo sempre uma caixinha de “Colchicina”… Três comprimidos ao dia, de preferência antes de comer qualquer daquelas comidas apreciáveis por um descendente de viking…

Com a mudança de clima oriunda da altitude (800 m acima do nível do mar) um frio de inverno, lugar úmido e desencanto o velho “Vick – VapoRub” de guerra para melhorar a respiração… À noite, o igualmente imbatível “Neosoro”, no meu tempo de guri era “Rinosoro”, no fim, mais do mesmo…

Todas às vezes que estou num posto de gasolina constato a presença de todos estes medicamentos à minha disposição… Semelhantes àquelas equipes que acompanham os ciclistas na disputa do “Tour de France” estão presentes e correm paralelamente, em algumas etapas não se precisa deles, mas ninguém adivinha qual e por isso andam todos juntos… Depois, se servir de consolo, lembro de Bernard Shaw quando diz “Use toda a sua saúde a ponto de esgotá-la. E gaste todo o seu dinheiro antes de morrer. Não vale a pena sobreviver a essas coisas”… O humor cáustico do escritor irlandês, no entanto, apenas abranda a consciência de que enquanto aquela etapa da prova não for cumprida o atleta não muda, mas a equipe de apoio está constantemente em transição!

lembrei do Mencken “Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria”.

 

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NOTAS:

A música poderia ser essa, “Summertime Blue”, de Eddie Cochran…

Gravada em 1958, foi um dos grandes sucessos daquele ano…

A canção foi trilha do filme “Caddyshack’ (1980)…

Foi classificada em 73 lugar entre as maiores 500 de todos os tempos pela Revista Rolling Stone…

Também gravada por inúmeros artistas, entre eles, os grupos “The Beach Boys” e “The Who”…

Eddie Cochran morreu em 1960, aos 22 anos num acidente de carro…

Este formato que deu para a gravação de “Summertime Blue” acabou moldando o que viria depois…

Do rockabilly ao rok’n roll…

http://www.youtube.com/watch?v=MeWC59FJqGc

O EXEMPLO DA ALEMANHA – por heitor scalambrini costa / recife.pe

O exemplo da Alemanha

Heitor Scalambrini Costa

Professor da Universidade Federal de Pernambuco

 

 

A Alemanha foi à primeira nação industrializada a ter um plano de abolir a energia nuclear do seu território. A data para por fim a esta era de insegurança foi dia 29 de maio de 2011, por decisão da coalização de governo da chanceler Ângela Merkel. Até 2022 não haverá mais reatores nucleares neste país emblemático, particularmente para o Brasil, que assinou em 1975 um acordo de cooperação técnico-científico-econômico prevendo a instalação de 8 usinas nucleares em nosso território. Juntas, as 17 usinas existentes em solo alemão que produziam menos de 1/4 da energia alemã serão desativadas. Este exemplo está sendo seguido, e paises como a Itália, Áustria, Suíça, Bélgica, Japão, entre outros, já começaram a revisar suas políticas nucleares.

 

A tomada de decisão do governo alemão de deixar de usar a energia nuclear mostra que basta visão e vontade política para livrar um país desta fonte de energia indesejável, pelo perigo que representa; suja pelos resíduos que produz, e não se sabe o que fazer com eles; e cara, implicando em tarifas mais onerosas para o consumidor. Enquanto a Alemanha virava a página do nuclear, técnicos e políticos brasileiros duvidavam que este país pudesse “sobreviver” sem a nucleoeletricidade. Os mais exaltados alegavam até que o desligamento progressivo das usinas nucleares forçaria o país a importarem combustíveis fosseis, contribuindo assim para o aquecimento global. Mais uma vez estes “experts” (?) em energia mostraram o quanto estavam errados.

 

Passado pouco mais de um ano da decisão histórica, no dia 1 de agosto de 2012 a Associação Nacional de Energia e Água (BDEW) anunciou que 25 % de toda energia consumida pela Alemanha no primeiro semestre deste ano foi gerada a partir de fontes renováveis, e que todas estas fontes registraram crescimento no período comparado a 2011, quando representavam 17% do consumo energético total.

 

O setor eólico forneceu 9,2% de toda energia demandada pela Alemanha, produzindo 24,9 bilhões de kWh, respondendo pela maior contribuição das renováveis. A biomassa representou 5,7% da demanda, produzindo 15,3 bilhões de kWh. E o setor fotovoltaico 5,4%. Sendo este o que mais cresceu, 47%, aumentando sua geração do 1º semestre de 2011 de 9,8 bilhões de kWh, para igual período em 2012, de 14,4 bilhões de kWh.

 

O recado parece dado para o Brasil e para o mundo. As fontes renováveis podem e devem substituir os combustíveis fósseis, além da indesejável energia nuclear.

 

No Brasil, apesar do crescimento das instalações eólicas, ainda sua participação na demanda energética é pífia, menos que 2%. Apesar de todo o estardalhaço midiático que governos estaduais e federal fazem, as políticas de incentivo desta fonte de energia ainda são pontuais e pouco expressivas diante do enorme potencial estimado de mais de 350 GW. O caso mais bizarro, que demonstra na prática a falta de interesse,  diz respeito ao atraso incompreensível, na atualização do Atlas Eólico Brasileiro de responsabilidade do Centro de Pesquisas da Eletrobrás (CEPEL), instrumento imprescindível para atração de novas instalações.

 

Com relação aos agrocombustíveis, mesmo com a propaganda encantando o mundo, em torno da produção do etanol e do agrodiesel, a realidade é outra. Etanol está sendo importado, e o preço se aproximando mais e mais da gasolina, resultando numa retração do consumo. E em relação à propalada e alardeada alavancagem da agricultura familiar, com as oleaginosas (quem não lembra dos discursos pró-mamona na região nordeste como redenção dos pequenos agricultores) para a fabricação do agrodiesel, nada aconteceu. Hoje mais de 3/4 da produção do agrodiesel é oriunda da soja.

 

Sobre a energia solar fotovoltaica, nem se fala. Mesmo tendo alguns projetos privados implantados nas arenas esportivas, e uma usina de 1 MW no interior do Ceará, continua sendo apenas “traço” na matriz energética nacional. Existe uma expectativa com a resolução da Aneel  482/2012 de 17 de abril ultimo, estabelecendo o acesso da pequena geração distribuída na rede elétrica, e assim estimular a energia fotovoltaica instalada em domicílios e pequenos comércios. Mesmo com mais de 20 anos de atraso em relação à Alemanha que lançou o projeto “1000 telhados solares” em 1991, no nosso caso “a esperança é a última que morre”. O aquecimento solar da água ainda patina com a iniciativa “Cidades Solares”, legislação municipal que atende hoje a menos de 50 municípios brasileiros. E o programa “Minha Casa, Minha Vida”, incorporando sistemas de aquecimento solar, ainda é uma incógnita.

 

O Brasil é bem ensolarado, possui muita água, fortes ventos e grandes áreas agrícolas para a produção da biomassa, podendo utilizar tudo isso para seu desenvolvimento e assim melhorar a qualidade de vida de sua população respeitando o meio ambiente. Que pais é este que opta pela energia nuclear, combustíveis fósseis e mega-hidrelétricas na região Amazônica?