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REVOLUÇÃO FARROUPILHA : Zero Hora visitou lugares mitológicos da Revolução Farroupilha, palcos da guerra contra o Império. Assista ao documentário e saiba o que eles guardam na memória.

veja os dez principais palcos da REVOLUÇÃO FARROUPILHA (1835 – 1845)

CLIQUE AQUIREVOLUÇÃO FARROUPILHA

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A Revolução Farroupilha, também é chamada de Guerra dos Farrapos ou Decênio Heróico ( 1835 – 1845), eclodiu no RS e configurou-se, na mais longa revolta brasileira.

Foram diversas as causas que levaram os farroupilhas a atacarem Porto Alegre, no dia 20 de setembro de 1835, dando início a Revolução Farroupilha, que estendeu-se, até o dia 11 de setembro de 1836, quando Antônio de Souza Neto, proclamou a República Riograndense. Após esta data, iniciou-se então, uma guerra que durou até 28 de fevereiro de 1845.

Muitos fatos aconteceram, várias pessoas morreram, e quase dez anos depois de muitas lutas e combates, houve a pacificação.

Os problemas econômicos que atingiam as classes dominantes, figuram entre as principais causas da revolução. Os poderosos estancieiros gaúchos, queriam que o governo imperial, protegesse a pecuária do RS e dificultasse a entrada do charque argentino e uruguaio no Brasil, que devido o baixo imposto de importação, fazia concorrência desleal, arruinando a economia gaúcha. Essa mesma elite dos grandes fazendeiros, também lutava junto ao governo imperial, por uma maior liberdade administrativa para o RS.

A revolução farroupilha não foi portanto, uma revolta do povo pobre, e sim, uma rebelião dos ricos estancieiros que lutavam pelos seus interesses econômicos e políticos. O povo só participou do movimento, sob o controle dos fazendeiros. Não existia entre os líderes, o desejo de libertar o povo da exploração social, da escravidão ou da vida miserável.

Entre os principais líderes, destacam-se: Bento Gonçalves, Davi Canabarro, José Garibaldi, Antônio de Souza Neto, Gomes Jardim e Lucas de Oliveira.

O momento máximo da expansão do movimento, deu-se em 1839, com a fundação da República Juliana, na cidade de Laguna em Santa Catarina, sob comando de Canabarro e Garibaldi.

As capitais da República Riograndense, foram Piratini, Caçapava e Alegrete.

Os oficiais farroupilhas, reuniram-se nos Campos de Ponche Verde, e discutiram as questões do tratado de paz. Ocorreu então, um tratado entre duas nações: Rio Grande do Sul e Brasil. Assinou o tratado representando os farroupilhas, Davi Camabarro e pelos imperiais, Duque de Caxias, no qual não houve vencedores ou vencidos.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA

ANTECEDENTES

              No Brasil, estávamos no período das Regências, duas correntes políticas existiam: Corrente Liberal Moderada – Chimangos que desejavam modificação do regime através de leis, e a Corrente Liberal Escoltada – Farroupilhas, que apontava como a solução a resolução.

Em 1833, quando Bento Gonçalves foi chamado ã Corte, (RJ), entrou em contato com Evaristo da Veiga e com o Padre Diogo Antonio Feijó, (futuro regente), e indica Antônio Rodrigues Braga, um moderado republicano, para o cargo de presidente da província, que por influência de seu irmão, passou para o partido conservador, rompendo com Bento Gonçalves.

Foram geradas as divergências entre o poder executivo (Fernandes Braga) e o poder legislativo; que era em sua maioria formado por deputados liberais, que acusaram Fernandes Braga de déspota por que havia mudado de partido.

CAUSAS

– Idéias de liberdade política
– Desejo de implantação do sistema republicano no Brasil com a federação das províncias;
– O descontentamento reinante aqui, pelos desastrosos e não contentáveis governos da província que eram orientados pelo império. Era o caso de Fernandes Braga.
– Um regime iníquo com excessivos impostos e taxas, cobradas pelo poder central, o Império, sobre nossa principal economia o Charque.
– Faltam de estradas, pontes e escolas;
– Dificuldades para o registro das pessoas físicas
– O desgosto do soldado gaúcho, pelo revés sofrido nos campos da Cisplatina, cuja culpa era atribuída aos comandos escolhidos, cuja culpa era atribuída aos comandos escolhidos pelo império;
– Os gaúchos já haviam participado a lança e a espada em mais de uma campanha não queriam se deixar dominar e oprimir pela corrupção imperial brasileira.

ÉPOCA 1835/1845

TEATRO DE OPERAÇÕES Província do Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina

INÍCIO 20/09/1835 com a entrada em Porto Alegre de Gomes Jardim e Onofre Pires.

A primeira fase do Movimento Farroupilha contou com o apoio de todas as correntes liberais. Esta fase caracterizou-se pela deposição do presidente Fernandes Braga.

PRINCIPAIS EVENTOS

Ano de 1835

19/setembro , um grupo de 400 revolucionários reuniu-se nos arredores de Porto Alegre, e nas 1ªas da madrugada de 20/09 – junto à ponte da Azenha, ocorria a 1ª escaramuça com os Imperiais, visando a ocupação da capital. Bento Gonçalves Chega a 21.os farroupilhas eram comandados por Onofre Pires e Vasconcelos Gomes Jardim, enquanto a defesa da capital estava confinada a Gaspar Mena Barreto.

DR, Fernandes Braga, foge para a cidade do Rio Grande, de barco pela Laguna dos Patos. Bento Gonçalves segue para Rio Grande, ã frente de um pequeno destacamento, para enfrentar o Presidente deposto, porém, Fernandes Braga já havia fugido para a corte do Rio de Janeiro.

Entre as cidades que não aderem a causa estão : Rio Grande, Pelotas, e São José do Norte.

08.setembro – Entrada dos Farrapos em Piratini.
09.setembro – Os Farroupilhas apoderam-se de Rio Pardo.
13.setembro – Os revolucionários são derrotados em Arroio Grande.

Ano de 1836

07 de abril – Entrada dos Farroupilhas em Pelotas.

15 de junho – Restauração de Porto Alegre pelos imperiais.

10 de setembro – , no Campo dos Menezes a Batalha do Seival, onde ocorre a maior vitória das forças Farroupilhas, as tropas do Cel. Antonio de Souza Netto derrotaram as do Cel. João da Silva Tavares.

Na noite de 10 para 11 de setembro de 1836 chimarreando ao redor do fogo e ainda comemorando a brilhante vitória, Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares deram a idéia da Proclamação da República Rio Grandense. Na manhã seguinte as tropas foram perfiladas em ordem e o General Netto faz um pronunciamento.

12 de setembro – Proclamação da República Rio-Grandense por Souza Netto, nos Campos dos Menzes, pontas do Jaguará Chico, afluente do rio Jaquarão.

04 de outubro – Bento Gonçalves é derrotado e preso na Ilha do Fanfa (Rio Jacuí- proximidades de Rio Pardo). É enviado para a Corte e daí para o Forte do Mar na Bahia.

10 de novembro – Piratini torna-se a primeira Capital da novel Republica.

Ano de 1837

09 de março – Tomada de Lages (Santa Catarina) pelos farroupilhas.

07 de abril – Os republicanos tomam Caçapava.

10 de setembro – Fuga de Bento Gonçalves do Forte do Mar, na Bahia.

Ano de 1838

17 de março – Os imperiais retomam Rio Pardo

06 de maio – Rio Pardo volta ao poder dos revolucionários.

12 de setembro – Lages (santa Catarina) pela 2ª vez, é tomada pelos farroupilhas.

Ano de 1839

14 de fevereiro – A Capital da República é transferida para Caçapava, instalando-se o governo no dia 24.

06 de junho – Garibaldi inicia sua memorável travessia por terra com seus lanchões Seival e Rio Pardo, conduzindo os do Capivari até o Tramandaí.

22 de julho – Combate e tomada de Laguna (Santa Catarina)

25 de julho – Proclamação da República Juliana.

15 de novembro – Restauração de Laguna pelos imperiais após o combate naval desse dia.

Ano de 1840

03 de maio – Combate de Taquari, de resultados indecisos.

16 de julho Ataque a São José do Norte, de conseqüências desastrosas para os Farrapos. São José do norte recebe o Título de “Mui heróica Vila”. E Ajuda os feridos das tropas farrapas.

Cerco de Porto Alegre.

Ano de 1841

Continua Porto Alegre cercada
19 de outubro – Porto Alegre recebe o título de “Mui Leal e valorosa” pela resistência à revolução.

Ano de 1842

Inicia o declínio da revolução. Divergências entre os revolucionários. É assassinado o vice-presidente Antonio Paulino da Fontoura. Bento Gonçalves é acusado de autor intelectual. Duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires, resultando a morte deste.
09 de novembro – Caxias assume a presidência e o comando das armas legais.

01 de dezembro – Alegrete torna-se a sede do governo republicano.

Ano de 1843

26 de maio – Combate de Ponche Verde, de resultados indecisos.

Vantagens dos legalistas em todo o território. A revolução começa e perder terreno.

Ano de 1844

Início das conversações de paz.

14 de novembro – Surpresa de Porongos. Canabarro é derrotado pro Chico Pedro.

29 de dezembro – Combate de Quero (afluente do quarai) último da Revolução.

Ano de 1845 – Final da Guerra – Inicio da Paz.

28 de fevereiro – Assinatura da paz no acampamento de Ponche Verde, município de D.Pedrito.

01 de março – Caxias, nos campos de Alexandre Simões, proclama a anistia do Rio Grande do Sul, declarando pacificada a província.

CAPITAIS FARROUPILHAS

Piratini 10.11.1836 a 14.02.1839

Caçapava – 14.02.1839 ã 22.03.1840

Alegrete – 22.03.1840 ao término da Revolução

VULTOS EMINENTES

Imensa é a galeria do relevo nos fatos da memorável EPOPÉIA

Destacam-se, de parte dos farrapos:

Bento Gonçalves da Silva; Antonio de Souza Neto; David Canabarro; Domingos José de Almeida; Onofre Pires; Silva Jardim.

Junto aos imperiais:

Caxias; J.J.de Andrades Neves; João de Deus Mena Barreto; Silva Tavares; Francisco Pedro de Abreu.

Bento Manuel Ribeiro teve destacada atuação quer ao lado dos farrapos, quer dos imperiais

Condições da Paz
Os rio-grandense indicariam o nome para assumir a presidência da província
A dívida revolucionária seria paga pelo governo imperial.

O PÓS-GUERRA

Tempo de Construir – com a economia e a administração pública desorganizada por quase dez anos de guerra., a província tenta recuperar o tempo perdido;
Reinício da Imigração;
Dois partidos 1848 –Partido Conservador – Partido Liberal
18 de julho de 1847 – Morre Bento Gonçalves
1852 – rearticulação partidária , liga partidária, e contra liga.
Antonio de Souza Neto – vai para o Uruguai- se reconcilia com o Governo brasileiro 1864
David Canabarro – Morre em 1867
Da contra liga – origina-se o Partido Liberal Progressista.
1868 – Partenon Literário

Bibliografia : Lessa, Barbosa-Projeto Pró-memória farroupilha. 1985 Filho, Artur Ferreira – Rio Grande Heróico e Pitoresco- 1985 História Ilustrada do Rio Grande do Sul – 1998 Quevedo, Julio – José C.Tamanquevis. Rio Grande do Sul Aspectos da História Freitas, Sebastião Rodrigues de, Estudos Rio-Grandenses.

EX-PRESIDENTE Getúlio Dornelles Vargas : 24/08/2012 aniversário de morte / rio dejaneiro.rj

19/4/1882 – São Borja, Rio Grande do Sul
24/8/1954 – Rio de Janeiro, RJ

Palácio do Planalto 

Getúlio Dornelles Vargas nasceu no dia 19 de abril de 1882, em São Borja, no Rio Grande do Sul. Alterou o ano de seu nascimento para 1883 por razões desconhecidas. O fato foi descoberto somente no ano do centenário de seu nascimento, quando a igreja onde havia sido registrado divulgou sua certidão verdadeira. A falsificação descoberta por estudiosos constava do atestado militar apresentado por ele à Faculdade de Direito de Porto Alegre.

Ingressou na política em 1909, como deputado estadual pelo PRP (Partido Republicano Rio-Grandense). De 1922 a 1926, cumpriu o mandato de deputado federal. Ministro da Fazenda do governo Washington Luís, deixou o cargo em 1928, quando foi eleito para governar seu Estado. Foi o comandante da Revolução de 1930, que derrubou o então presidente Washington Luís.

Ocupou a presidência nos 15 anos seguintes e adotou uma política nacionalista. Em 1934, promulgou uma nova Constituição. Em 1937, fechou o Congresso, prescreveu todos os partidos, outorgou uma Constituição, instalou o Estado Novo e governou com poderes ditatoriais. Nesse período, adotou forte centralização política e atuação do Estado.

Na área trabalhista, criou a Justiça do Trabalho (1930), o Ministério da Justiça e o salário mínimo (1940), a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) (1943), a carteira profissional, a semana de 48 horas de trabalho e as férias remuneradas. Na área estatal, criou a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942), a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945) e entidades como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -1938). Foi derrubado pelos militares em 1945.

Voltou à presidência na eleição de 1950, eleito pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), que ajudou a fundar. No último mandato, criou a Petrobrás. O envolvimento do chefe de sua guarda pessoal no atentado contra o jornalista Carlos Lacerda levou as Forças Armadas a exigir sua renúncia no último ano do mandato.

Suicidou-se em meio à crise política, com um tiro no peito, na madrugada de 24 de agosto de 1954, dentro do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, deixando uma carta-testamento em que apontava os inimigos da nação como responsáveis por seu suicídio.

O BLUES NASCENDO…

O BLUES NASCENDO!

O blues é filho africano em terras americanas – nasceu do grito vindo dos campos, nasceu da dor, do movimento sincronizado do trabalho pesado, nasceu, sobretudo, pela necessidade de se libertar, de se fazer ouvir… entre os anos 20 e 30, Charley Patton, Blind L. Blake e Robert Johnson ajudaram no parto, fizeram-lhe as honras da casa e saíram em digressão por todo o sul, para apresentarem a mais nova criação. E os bons ventos encarregaram-se de o transportar a Chicago e Detroit, onde foi muito bem recebido. Nos anos 40 e 50, identificado e registrado já tinha um nome, conhecido nacionalmente. Muddy Waters, J.Lee Hoocker, Howlin Wolf e Elmore James confraternizam a passagem do ilustre visitante no Mississipi Delta Blues, acrescentando-lhe um cadenciado que o tornam irresistível. A corrente blues continua, a viagem prossegue – em Houston, T-Bone, abraça a mais nova paixão. Já robusto, formoso e bem dotado, a chegada a Memphis foi triunfal – alguém, ansiosamente, o esperava. Emocionado, diante de BB King, o jovem Blues deposita-lhe uma guitarra nos braços e diz – esta é minha casa, agora tu és Rei!

 

UM clique no centro do vídeo:

PAULO EGYDIO MARTINS, ex governador de São Paulo, e a morte do jorn. WLADIMIR HERZOG . Entrevistado por Geneton Moraes Neto / são paulo.sp

Ex-governador de São Paulo dá veredito: “Suicídio foi maquiado. Herzog foi assassinado no II Exército”. E descreve chantagem praticada por militares do DOI-CODI contra um general

por Geneton Moraes Neto |

A Globonews reapresenta nesta terça-feira (amanhã 5/6/12)  em dois horários:  uma e cinco (madrugada) e onze e cinco da manhã)  o DOSSIÊ GLOBONEWS em que o ex-governador Paulo Egydio Martins se torna a primeira autoridade a se oferecer publicamente a depor na Comissão da Verdade. Egydio – que governou São Paulo de março de 1975 a março de 1979 –  descreve com detalhes, na entrevista, cenas de bastidores ocorridas em momentos críticos do regime militar, como a crise provocada pelas mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho nas dependências do II Exército. Pela primeira vez, uma autoridade da época faz uma declaração tão direta sobre as circunstâncias da morte do jornalista: “O suicídio foi maquiado. Herzog foi assassinado dentro das dependências do II Exército, na rua Tutóia, em São Paulo”.

O ex-governador também se refere, na entrevista, a um caso que jamais foi esclarecido: uma chantagem praticada por subordinados contra um general do II  Exército. O fato de não se saber do desfecho da chantagem parece ser uma prova de que ainda há capítulos inteiros a serem contados sobre a história do regime militar.

Trechos da entrevista:

GMN: O senhor revela que o chefe do Estado Maior do II Exército foi vítima de uma chantagem, praticada por dois militares que ameaçavam denunciar publicamente a prática de torturas no II Exército. Que providências o senhor tomou ?

Paulo Egydio: “Quando o coronel Erasmo Dias ( secretário de segurança ) me procurou, me disse o seguinte: “Governador, o general Marques me procurou,nervosíssimo, extremamente tenso, porque um sargento e um cabo, integrantes da equipe do DOI-CODI, foram a ele pedindo um volume de dinheiro. Senão, iriam delatar para a imprensa o que se passava dentro do DOI-CODI. E ele ficou sem saber o que fazer. Veio me pedir se eu podia arranjar esse dinheiro da verba secretra da Secretaria de Segurança”.

Quando eu assumi o governo, extingui a verba secreta do gabinete do governador. E disse a Erasmo que a verba secreta da Secretaria de Segurança era de responsabilidade dele. Jamais eu iria intervir. Virei para ele e disse: “Erasmo, a decisão é sua, sobre se vai atender ao Marques ou se não vai atender. Chantagem só tem duas respostas: “Ou você mata ou você morre”. Porque qualquer tentativa de aceitar chantagem é horrível, é péssima. É minha reação pessoal. Você faz o que você quiser fazer” .

Nunca mais tive retorno dessa conversa. Nada aflorou dessa chantagem. Mas ela mostra o que significa, como quebra de hierarquia militar: a gravidade deste episódio. Porque, quando um cabo e um sargento procuram um general comandante do Estado Maior de um Exército e chantageiam pedindo dinheiro para não contar o que estava se passando dentro do recinto pertencente a esse mesmo Exército, acabou qualquer hierarquia militar, qualquer espírito militar. Isso é absoluta e totalmente incompreensível e inaceitável”.

GMN: O fato de esses militares não terem feito a denúncia pública não significa que eles podem ter recebido o dinheiro ?

Paulo Egydio: “Eu não saberia lhe responder. A dúvida paira. Não voltei a conversar com Erasmo. Não foi pedida prestação de contas. A verba era secreta. Não estava sujeita à aprovação de ninguém. Não saberia lhe responder. Posso dizer que sim e posso dizer que não”.

O Caso Herzog: Egydio pediu a órgãos de segurança a ficha do jornalista. Conclusão: Nada consta.

GMN : O senhor fez uma reunião com o então secretário de  Cultura, José Mindlin; com o coronel Erasmo Dias, secretário de segurança; com o diretor do DOPS, Romeu Tuma e com o representante do SNI, coronel Paiva, para discutir a nomeação do jornalista Vladimir Herzog para a TV Cultura. Qual foi o resultado da reunião ?

Paulo Egydio: “Quem me trouxe o problema foi o secretário de Cultura, meu amigo José Mindlin, que disse:”Estou recebendo acusações de ter escolhido, com muitas dificuldades, um responsável pelo Jornal da Cultura. E esse indivíduo que escolhi agora está sendo acusado – por uma imprensa marrom – de ser comunista” . Eu não tinha a menor idéia, cá entre nós. Se a Globo tinha cinqüenta por cento de audiência, o Jornal da Cultura deveria ter zero vírgula zero um de audiência. Quem era o diretor de jornal da TV Cultura era algo que não estava na minha cabeça –  de jeito nenhum. Se era comunista, se não era comunista….Virei para Mindlin: “O problema não é meu. É seu. Você resolve como quiser”. E Mindlin: “Isso tem me causado incômodo. Preciso que você verifique se procede alguma coisa ou não”.   Numa reunião, deixei instruções específicas : eu queria ter  informações do Serviço Secreto do Exército , Marinha e Aeronáutica e do SNI sobre se alguma coisa constava sobre aquele diretor de jornal da TV Cultura – de quem eu nunca ouvido o nome antes – , chamado Vladimir Herzog. Passaram-se dez, quinze dias. Houve outra reunião, em que as mesmas pessoas se reportaram a mim: “Nós levantamos tudo. Nada consta, senhor governador”. Eu disse: “Mindlin, veja a resposta: se nada consta, você fica livre para decidir o que quiser. Já cumprimos nossa obrigação de verificar se procedia uma acusação ou não. Ficou provado que não procede. Você, agora, aja como quiser agir. Quer manter, mantenha. Não quer manter, não mantém. Após esse incidente, houve a determinação se ele comparecer ao DOI-CODI, onde acabou assassinado”.

GMN :Se nada constava contra Vladimir Herzog nos órgãos de informação, se a ficha era limpa, como o senhor diz, a prisão foi inteiramente
injustificada. Depois da morte de Vladimir Herzog, o senhor fez esta comunicação ao presidente Geisel ?

Paulo Egydio: “Fiz. Não só fiz esta comunicação, como eu tinha liberdade com ele de pensar alto. Eu estranhava o que estava se passando, aquele luta intestina, aquela luta em quarto escuro. Você não tem meios de comprovar essas coisas com clareza. Como é que você comprova uma tortura ? Só assiste a tortura o torturador. E um torturador não vai dedurar outro torturador. Num caso desse aqui, eu dizia para Geisel: “Presidente, estou estranhando : existe alguma coisa a mais”. E Geisel: “Paulo, tire isso da cabeça! Enquanto eu for Presidente desse país, nada vai acontecer”. Geisel não aceitava que a autoridade dele pudesse ser questionada. Não é mais um fato de você averiguar: é um fato histórico. Havia um plano de derrubar o general Ernesto Geisel da presidência da República. Tentaram me usar como governador do 
Estado mais forte da federação naquela ocasião pela minha ligação pessoal com ele – que era pública e notória (….). Havia uma briga interna do Exército  que nós, civis, não avaliamos. Não tenho a menor dúvida quanto a um embate dentro de duas facções do Exército nacional que disputavam o Poder”.

GMN: Quando o senhor tratou com o presidente Geisel pela primeira vez sobre a morte de Vladimir Herzog, o senhor disse a ele que nada
constava contra o jornalista Vladimir Herzog nos órgãos de segurança?

Paulo Egydio:”Disse. E disse claramente, como acabo de  repetir para você. Ele sabia disso ( silêncio). Se maquiou um suicídio ! O suicídio foi maquiado ! Não houve suicídio! Herzog foi assassinado dentro das dependências do II Exército na rua Tutóia, em São Paulo”.

GMN: O senhor testemunhou uma cena importantíssima dos bastidores do regime militar: o dia em que o presidente Geisel chamou o então
comandante do II Exército, general Ednardo D`Ávila, logo depois da morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do quartel. O que foi exatamente que o general Geisel disse ao gen0eral Ednardo ?

Paulo Egydio :”Eu já tinha me recolhido com o presidente Geisel para a ala residencial do Palácio dos Bandeirantes. Estávamos sentados na biblioteca. Ednardo subiu para a ala residencial. Quando apareceu na porta, fiz um gesto de me levantar .Não ia ficar presente a uma reunião do Presidente da República com o comandante do II Exército, os dois generais. Geisel virou para mim e disse:  “Não,não, Paulo. Quero que você fique aí e escute”. E o general Ednardo D`Ávila Melo, perfilado, em posição de sentido, na frente de Geisel e na minha, ficou ouvindo Geisel se dirigir a ele assim:  “Ednardo, você me conhece muito bem. Você sabe do meu passado. Você sabe da minha história. Não vou admitir que fatos como esses que ocorreram aqui no II Exército se repitam. Quero que você saiba que vou tomar medidas. Você vai tomar conhecimento pelo seu ministro do Exército e pelo Diário Oficial. Vou tornar isso um decreto: proibir que alguém seja preso antes de uma comunicação ao meu gabinete – ao gabinete militar, ao SNI ou a mim, pessoalmente. Só depois dessa comunicação é que posso admitir que um preso político seja levado ao recinto de um quartel do Exército. O senhor está me ouvindo? Está entendendo? “. E o general: “Sim, senhor  Presidente; sim,senhor Presidente”. Geisel: “Pode se retirar”. Escutei tudo aquilo quieto e calado. Meses depois, houve o caso de Manoel Fiel Filho – que contrariou juridicamente, formalmente e hierarquicamente todas as determinações do Presidente da República, comandante-em-chefe das Forças Armadas do Brasil. Consequência: o general, fiel às palavras que tinha proferido na minha frente, exonerou um general de quatro estrelas do comando do II Exército, fato inédito na história do Exército brasileiro”.

GMN: Se o senhor for convocado a depor na Comissão ds Verdade  para relatar as cenas de bastidores que aconteceram nos episódios das mortes de Vladimir Herzog e de Manoel Fiel Filho, o senhor vai comparecer ?

Paulo Egydio: “Claro. Se eu não comparecer, faça um favor: mande uma cópia deste depoimento. Irei a qualquer hora, a qualquer instante. Não temos de temer nada. É hora de botar para fora tudo o que for para botar para fora. Vivemos numa democracia para ser verdadeira”.

GILMAR MENDES! este o Brasil conhece e espera que o Supremo se livre dele!

Morre o escritor Antonio Tabucchi / italia.it

O italiano era conhecido por obras como “Afirma Pereira” e “O Tempo Envelhece Depressa”

Morre o escritor Antonio Tabucchi Reprodução/Arquivo Pessoal

Tabucchi faleceu aos 68 anosFoto: Reprodução / Arquivo Pessoal

O escritor italiano Antonio Tabucchi faleceu em Lisboa aos 68 anos após uma longa doença, informou neste domingo o tradutor de sua obra para o francês, Bernard Comment.

Considerado um dos maiores autores italianos contemporâneos, Antonio Tabucchi escreveu obras como Afirma Pereira e O Tempo Envelhece Depressa.

Autor de mais de 20 livros traduzidos para quase 40 idiomas, este romancista, professor universitário e ensaísta era o principal tradutor e promotor da obra do escritor português Fernando Pessoa em italiano.

Vários romances de Tabucchi foram adaptados para o cinema, como Noturno Indiano(prêmio Médicis estrangeiro, 1987), por Alain Corneau, e Afirma Pereira, por Roberto Faenza, com Marcello Mastroianni como protagonista, o que contribuiu para o sucesso da obra.

Profesor de literatura portuguesa na Universidade de Siena (Italia) e romancista, Antonio Tabucchi foi articulista dos jornais Corriere della Sera e El País (Espanha). Foi um grande crítico do governo de Silvio Berlusconi.

Filho único de um vendedor de cavalos, Tabucchi, nascido em 24 de setembro de 1943 em Pisa, na Toscana, estudou Filologia Românica e, a partir de 1962, Literatura em Paris, onde descobriu o poeta Fernando Pessoa ao ler a tradução para o francês de um de seus poemas.

O entusiasmo com a descoberta o levou a estudar o idioma e a cultura de Portugal, que se tornou sua segunda pátria. Tabucchi estudou Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e redigiu uma tese sobre o “Surrealismo em Portugal”. Apaixonado por Pessoa, traduziu toda sua obra para o italiano, ao lado da mulher, que conheceu em Portugal.

AFP.

ZILDA ARNS: “Deixai vir a mim as crianças…” – por manoel de andrade / curitiba

Quando penso na missão humanitária de Zilda Arns, levando a um povo tão pobre como o do Haiti sua disposição de fundar no país a sua Pastoral da Criança, e ali caindo sob os escombros de uma igreja, lembro-me da história de outros missionários que também deixaram suas pátrias para viver em nome do amor. Sob esta bandeira a enfermeira britânica Florence Nightingale foi para a Turquia atender, como pioneira, os feridos de guerra, na Criméia, onde contraiu tifo. O bispo católico Daniel Comboni, deixou a Itália para dedicar-se aos doentes e miseráveis do Sudão, onde morreu de febre em 1881. Albert Schweitzer já era um reconhecido intelectual alemão quando, aos 30 anos, foi estudar medicina para doar-se inteiramente às comunidades negras da África,  morrendo em Lambaréne, em 1965, cercado pela gratidão do povo do Gabão.

Todas as fronteiras se abriram para Zilda Arns e se há uma imagem que a identificou para o mundo foi a feição solidária do seu  sorriso. Sua expressão era o retrato de um coração que se abria a todos, e sobretudo às crianças, com uma dedicação incondicional, num gesto incansável de esperança pela redenção dos desamparados. Seu amor ao próximo começara na menina que auxiliava os lavradores pobres, os indigentes que cruzavam seus passos e depois buscando recursos públicos para socorrer os necessitados. Médica, fez da pediatria uma especialidade providencial ao compreender que, para as crianças carentes, o carinho, os cuidados com a alimentação, higiene e prevenção são tão ou mais importantes que o tratamento clínico.

A Pastoral da Criança, organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), teve início no ano de 1983, na pequena cidade paranaense de Florestópolis, escolhida pelo altíssimo percentual de crianças mortas e onde o índice anual de mortalidade, depois de iniciado o seu trabalho, caiu de 127 para apenas 28 óbitos. Esta estatística de sucesso e os surpreendentes resultados posteriores apurados no Brasil inteiro, colocaram a Pastoral da Criança na vanguarda dos grandes projetos humanitários do mundo. As sementes do seu trabalho junto às mães e crianças carentes espalhadas nos bolsões de miséria de todo o país floriram e frutificaram, numa rede de solidariedade com mais de 260 mil voluntários, que acompanham cerca de dois milhões de crianças de até seis anos, além de quase 100.000 gestantes em 42.000 comunidades pobres em mais de 4.000 municípios. Suas condecorações, os vários títulos recebidos e a indicação para o  Prêmio Nobel da Paz em 2001, 2002 e 2003 foram os gratos reconhecimentos desse fantástico trabalho.

Mas seu fraterno coração não palpitou apenas pelos pequeninos, como também por aqueles que, depois dos 60 anos, sobrevivem  na miséria e na solidão. Em 2004, funda a Pastoral da Pessoa Idosa, criando uma rede de 15.000 voluntários “eleitos” pela dedicação e o amor com que atendem atualmente cerca de 100.000 idosos, sendo muitos  desses irmãos estigmatizados pela omissão social e tantos deles pela ingratidão dos que mais amaram.

Em 12 de janeiro de 2010, Porto Príncipe foi palco de uma tragédia que sepultou cerca de 200.000  pessoas. Entre tantas vítimas, contavam-se 12 militares brasileiros e a médica e sanitarista Zilda Arns Neumann, catarinense nascida em 25 de agosto de 1934, na cidade de Forquilhinha. Zilda lá chegara em missão internacional para levar a um dos países mais pobres do mundo o tesouro da saúde pela educação e o sonho de sobrevivência das crianças haitianas. Aos 75 anos deixou a roupagem física para entrar na imortalidade da vida. Algumas horas antes, na plenitude de sua obra missionária, proferira a última palestra que deu na Terra, e, referindo-se ao tema que sublimou sua existência, disse, poeticamente, com a beleza das metáforas: “Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe dos predadores, das ameaças e dos perigos, e mais perto de Deus, devemos cuidar de nossas crianças como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-las.”

          Ao dedicar 27 anos de sua vida para atender as crianças do mundo Zilda Arns foi o exemplo mais eloquente da aplicação das palavras de Jesus:

        “Deixai vir a mim as crianças, porque delas é o Reino dos Céus” (Mt. 19, 13-15).

ESTE ARTIGO FOI ESCRITO PARA  O JORNAL ‘MUNDO ESPÍRITA” PUBLICAÇÃO DA FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ. PUBLICADO AQUI COM LICENÇA DO AUTOR.

MILTON LUIZ PEREIRA exemplo de ministro para o STJ e STF ! esperamos que os ministros reflitam.

O homem que, em 39 anos de vida pública, só teve um carro

Morto no último dia 16, Milton Luiz Pereira foi prefeito de Campo Mourão, juiz, ministro do STJ e exemplo para as pessoas que conviveram com ele

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O juiz Milton Luiz Pereira foi advogado, prefeito de Campo Mourão e ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Nessas funções, realizou obras e julgamentos importantes. Mas o maior legado que deixou ao Paraná e ao Brasil – segundo relatos de várias pessoas que o conheceram, em artigos e cartas publicadas pela Gazeta do Povo nos últimos dias – foi sua conduta. Um homem público íntegro, humilde e sempre pronto para aprender.

O dr. Milton, como era conhecido entre os servidores da Justiça Federal, morreu em Curitiba aos 79 anos, na madrugada de 16 de fevereiro, poucas horas após o falecimento da esposa, Rizoleta Mary Pereira. Os dois foram vítimas de câncer. Se é possível dizer que há consolo no acontecimento é que ele serviu para reavivar os grandes feitos do juiz, que se aposentou como ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2002.

O historiador Jair Elias dos Santos Júnior, amigo de Pereira, relembra uma série de fatos e frases que ajudam a entender a admiração que o juiz despertava entre tantas pessoas. “Aprendi todos os dias, todas as horas. Quando mais tarde, ao reler os livros de minha vida, quiser tirar a maior lição de todas, saberei que o mais importante é ser humilde”, afirmou Pereira ao sair do STJ.

Campo Mourão

Pereira nasceu em 9 de dezembro de 1932, em Itatinga, interior de São Paulo. Mudou-se adolescente para Curitiba. Na capital, iniciou amizade com José Richa, então estudante de Odontologia. Como advogado, Pereira foi atuar em Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná), em 1959, e rapidamente foi reconhecido por seu trabalho.

Em 1963 aceitou disputar a eleição para prefeito da cidade pelo Partido Democrata Cristão (PDC), de Ney Braga. O historiador Santos Júnior, que é de Campo Mourão, conta que a eleição parecia perdida. Pereira tinha poucos recursos e concorria com o empresário Ivo Trombini, que além de dinheiro tinha o apoio do ex-presidente Juscelino Kubits­­chek. Então senador, JK fez um grande comício no município. O troco de Pereira foi visitar cada eleitor em casa. Elegeu-se.

Como prefeito, promoveu uma grande inovação para a época: criou o Conselho Comunitário, que contava com a participação de uma pessoa de cada bairro da cidade. O trabalho foi produtivo: as receitas financeiras do município cresceram e a gestão de Pereira entregou várias obras, como bibliotecas, rede de água e esgoto, estradas, a rodoviária. Graças ao Conselho e às obras, Cam­­po Mou­­rão foi escolhido à época como “Município Modelo do Paraná”.

Presente do povo

Em 1967, Pereira renunciou ao cargo de prefeito para ser nomeado juiz federal, atingindo o objetivo de chegar à magistratura. O convite surgiu de contatos com políticos. Eles já haviam oferecido outros cargos – como secretário estadual – e sugerido a candidatura à Assembleia ou à Câ­­ma­­ra Federal. Mas Pereira não se interessou.

Foi nessa época que a população de Campo Mourão fez a célebre arrecadação de dinheiro e comprou um Fusca de presente para o prefeito, que não tinha automóvel. Santos Júnior conta que se esqueceram de colocar gasolina. Mas isso não foi problema. A população empurrou o Fusca – com Pereira, a mulher e os filhos – até a casa deles. “Além do carro, o ex-prefeito ganhou um jogo de canetas, um relógio de ouro e até um frango, presente de um lavrador, que andou 20 quilômetros, a pé”, relata o historiador.

O Fusca azul se tornou um “amuleto” usado por Pereira até o fim da vida. Foi seu único carro. “Toda vez que entro nele, sinto-me em Campo Mourão. Naquele momento, senti que o povo sabe ser justo”, dizia o juiz.

Pereira permaneceu como juiz federal e, em 1988, assumiu a presidência do Tribunal Federal de Recursos (TFR), fato noticiado com destaque na Gazeta do Povo de 20 de novembro. O órgão já estava em vias de ser extinto, por força da nova Constituição. O Judiciário foi remodelado e surgiram os tribunais regionais federais. Pela sua experiência, Pereira assumiu o TRF da 1.ª Região, em São Paulo. Em 1992 foi nomeado ministro do STJ, onde ficou por dez anos.

Aposentado, teve mais tempo para se dedicar às novenas na Igreja São Judas Tadeu, do qual era devoto, e à família. Com Rizoleta Mary teve cinco filhos e com ela viveu até o fim.

Publicado em 26/02/2012 | ROSANA FÉLIX

LULA É LAUREADO COM O ‘FOUR FREEDOMS AWARD’

O ex-presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva será laureado este ano com o ‘International Four Freedoms Award’. Lula receberá o prêmio por sua luta de anos contra as desigualdades sociais e econômicas no Brasil. A notícia foi divulgada nesta quarta-feira na Holanda pela Fundação Roosevelt.
A fundação afirma que a luta implacável de Lula contra a pobreza no Brasil continua a ser fonte de inspiração para povos e líderes mundiais.
Outros premiados pela Fundação Roosevelt em 2012 são o canal de televisão Al Jazeera, que receberá o Freedom of Speech and Expression Award por seu compromisso com a liberdade de imprensa; sua santidade Arcebispo Bratholomeu I, da Igreja Católica Ortodoxa Hispânica, laureado com o Freedom of Worship Award por sua dedicação à liberdade e conciliação religiosa; a indiana Ela Ramesh Bhatt, indicada para o Freedom of Want Award por seu trabalho contra a opressão das mulheres na Índia; e Hussain Al-Shahristani, ministro da energia do Iraque, que por seus esforços pela democracia em seu país receberá o Freedom from Fear Award.
A entrega do prêmio a Lula e aos outros homenageados acontecerá no dia 12 de maio na Nieuwe Kerk, na cidade de Middelburg, na Holanda.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Lula’s rise from abject poverty to the Presidency of Brazil, and his determination to rid Brazil of the extreme poverty and social injustice that for too long has plagued the less fortunate of his countrymen, has been an inspiration to the world community.

Leia mais em: O Esquerdopata: Lula é laureado com o ‘Four Freedoms Award’
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O Pensamento de Parmênides – editoria

 

Seu pensamento está exposto num poema filosófico intitulado Sobre a Natureza e sua permanência, dividido em duas partes distintas: uma que trata do caminho da verdade (alétheia) e outra que trata do caminho da opinião (dóxa), ou seja, daquilo onde não há nenhuma certeza. De modo simplificado, a doutrina de Parmênides sustenta o seguinte:

  • Unidade e a imobilidade do Ser;
  • O mundo sensível é uma ilusão;
  • O Ser é Uno, Eterno, Não-Gerado e Imutável.
  • Não se confia no que vê.

Devido a essas , alguns veem no poema de Parmênides o próprio surgimento da ontologia. Ao mesmo tempo, o pensamento de Parmênides é tradicionalmente visto como o oposto ao de Heráclito de Éfeso.

Para alguns estudiosos, Parmênides fundou a metafísica ocidental com sua distinção entre o Ser e o Não-Ser. Enquanto Heráclito ensinava que tudo está em perpétua mutação, Parmênides desenvolvia um pensamento completamente antagônico: “Toda a mutação é ilusória”.

Parmênides vai então afirmar toda a unidade e imobilidade do Ser. Fixando sua investigação na pergunta: “o que é”, ele tenta vislumbrar aquilo que está por detrás das aparências e das transformações.

Assim, ele dizia: “Vamos e dir-te-ei – e tu escutas e levas as minhas palavras. Os únicos caminhos da investigação em que se pode pensar: um, o caminho que é e não pode não ser, é a via da Persuasão, pois acompanha a Verdade; o outro, que não é e é forçoso que não seja, esse digo-te, é um caminho totalmente impensável. Pois não poderás conhecer o que não é, nem declará-lo.”

Numa interpretação mais aprofundada dos fragmentos de Heráclito e Parmênides, podemos achar um mesmo todo para os dois e esta oposição entre suas visões do todo passa a ser cada vez menor.

Parmênides comparava as qualidades umas com as outras e as ordenava em duas classes distintas. Por exemplo, comparou a luz e a escuridão, e para ele essa segunda qualidade nada mais era do que a negação da primeira.

Diferenciava qualidades positivas e negativas e, esforçava-se em encontrar essa oposição fundamental em toda a Natureza. Tomava outros opostos: leve-pesado, ativo-passivo, quente-frio, masculino-feminino, fogo-terra, vida-morte, e aplicava a mesma comparação do modelo luz-escuridão; o que corresponde à luz era a qualidade positiva e o que corresponde à escuridão, a qualidade negativa. O pesado era apenas uma negação do leve. O frio era uma negação do quente. O passivo uma negação ao ativo, o feminino uma negação do masculino e, cada um apenas como negação do outro.

Por fim, nosso mundo dividia-se em duas esferas: aquela das qualidades positivas (luz, quente, ativo, masculino, fogo, vida) e aquela das qualidade negativas (escuridão, frio, passivo, feminino, terra, morte). A esfera negativa era apenas uma negação da esfera positiva, isto é, a esfera negativa não continha as propriedades que existiam na esfera positiva.

Ao invés das expressões “positiva” e “negativa”, Parmênides usa os termos metafísicos de “ser” e “não-ser”. O não-ser era apenas uma negação do ser. Mas ser e não-ser são imutáveis e imóveis. No seu livro: Metafísica, Aristóteles expõe esse pensamento de Parmênides: “Julgando que fora do ser o não-ser é nada, forçosamente admite que só uma coisa é, a saber, o ser, e nenhuma outra… Mas, constrangido a seguir o real, admitindo ao mesmo tempo a unidade formal e a pluralidade sensível, estabelece duas causas e dois princípios: quente e frio, vale dizer, Fogo e Terra. Destes (dois princípios) ele ordena um (o quente) ao ser, o outro ao não-ser.”

O Vir-a-Ser

Quanto às mudanças e transformações físicas, o Vir-a-Ser, que a todo instante vemos ocorrer no mundo, Parmênides as explicava como sendo apenas uma mistura participativa de ser e não-ser. “Ao vir-a-ser é necessário tanto o ser quanto o não-ser. Se eles agem conjuntamente, então resulta um vir-a-ser”.

Um desejo era o fator que impelia os elementos de qualidades opostas a se unirem, e o resultado disso é um vir-a-ser. Quando o desejo está satisfeito, o ódio e o conflito interno impulsionam novamente o ser e o não-ser à separação.

Parmênides chega então à conclusão de que toda mudança é ilusória. Só o que existe realmente é o ser e o não-ser. O vir-a-ser é apenas uma ilusão sensível. Isto quer dizer que todas as percepções de nossos sentidos apenas criam ilusões, nas quais temos a tendência de pensar que o não-ser é, e que o vir-a-ser tem um ser.

O Ser-Absoluto

Toda nossa realidade é imutável, estática, e sua essência está incorporada na individualidade divina do Ser-Absoluto, o qual permeia todo o Universo. Esse Ser é onipresente, já que qualquer descontinuidade em sua presença seria equivalente à existência de seu oposto – o Não-Ser.

Esse Ser não pode ter sido criado por algo pois isso implicaria em admitir a existência de um outro Ser. Do mesmo modo, esse Ser não pode ter sido criado do nada, pois isso implicaria a existência do “Não-Ser”. Portanto, o Ser simplesmente é.

Simplício da Cilícia, em seu livro Física, assim nos explica sobre a natureza desse Ser-Absoluto de Parmênides: “Como poderia ser gerado? E como poderia perecer depois disso? Assim a geração se extingue e a destruição é impensável. Também não é divisível, pois que é homogêneo, nem é mais aqui e menos além, o que lhe impediria a coesão, mas tudo está cheio do que é. Por isso, é todo contínuo; pois o que é adere intimamente ao que é. Mas, imobilizado nos limites de cadeias potentes, é sem princípio ou fim, uma vez que a geração e a destruição foram afastadas, repelidas pela convicção verdadeira. É o mesmo, que permanece no mesmo e em si repousa, ficando assim firme no seu lugar. Pois a forte Necessidade o retém nos liames dos limites que de cada lado o encerra, porque não é lícito ao que é ser ilimitado; pois de nada necessita – se assim não fosse, de tudo careceria. Mas uma vez que tem um limite extremo, está completo de todos os lados; à maneira da massa de uma esfera bem rotunda, em equilíbrio a partir do centro, em todas as direções; pois não pode ser algo mais aqui e algo menos ali.”

Ser-Absoluto não pode vir-a-ser. E não podem existir vários “Seres-Absolutos”, pois para separá-los precisaria haver algo que não fosse um Ser. Consequentemente, existe apenas a Unidade eterna.

texto original da wikipédia.

 

JADER BARBALHO por JADER BARBALHO e descendentes – por flávio gomes / belém.pa

perguntado por jornalistas o porque das caretas, o pequeno jader respondeu: “papai mandou eu fazer para zombar de voceis!”

é isso aí, assim começa a educação da elite brasileira com relação ao seu povo.

oh! pra voceis!!

...e pra voceis também!!

revista “VEJA” o conteúdo do ano! / são paulo

 

SUFICIENTE.

 

JOSÉ MARÍA ARGUEDAS: a luta por uma cultura esquecida – por manoel de andrade /curitiba

1. O suicídio de Arguedas.

No entardecer do dia 28 de novembro de 1969, um sábado, eu aguardava um amigo costarriquense no Café Goyesca, na Praça San Martin, centro de Lima. Era Francisco Rojas, estudante de arquitetura da Universidad de San Marcos, que eu conhecera em março daquele ano,em Assunção. Elechegou com uma frase nos lábios:

— Arguedas se dió un balazo y agoniza.

Há cerca de um mês eu lera, em Cusco, o seu livro Os Rios Profundos e, por meu crescente interesse pelo indigenismo, o poeta Luís Nieto, em Cuzco, aconselhou-me a procurá-lo na Universidade Nacional Agrária deLa Molina, em Lima, onde Arguedas era professor. Eu chegara à capital peruana acerca de duas semanas, mas, envolvido numa intensa atividade cultural, aguardava alguns contatos feitos naqueles dias, a fim de encontrar os caminhos para entrevistá-lo.

A notícia me deixou perplexo, estupefato e olhando fixamente nos olhos de meu amigo eu, repentinamente, me lembrei da minha chegada aLa Paze da morte, alguns dias depois, do guerrilheiro Inti Peredo a quem eu também fizera os trâmites para encontrar. Arguedas já tentara o suicídio, em 1966, decepcionado culturalmente com a política indigenista do Peru, e agora, diante de um espelho, no banheiro da própria Universidade onde lecionava, dera um tiro na cabeça. Deixou para fazer isso num sábado, como confessou em carta, para evitar que os alunos fossem prejudicados. Sempre me perguntei o que leva um escritor ao suicídio, por tratar-se justamente de alguém com um profundo significado da vida, com um mágico compromisso consigo mesmo, com seu tempo e com a humanidade. Havia tantos casos, e alguns muitos tristes, na literatura. Casos que me tocavam mais de perto como o do nosso poeta Pedro Nava, também com um tiro na cabeça, em maio de 1984, no Rio de Janeiro. O “poético” suicídio da grande poetisa argentina, Afonsina Storne, que entrou caminhando pelo mar adentro e desapareceu nas ondas. Os casos mais célebres, de Maiakovski e Hemingway,  e o mais emocionalmente triste, da cantora Violeta Parra.  Quais os motivos de um desfecho tão lamentável para quem tem tanta beleza para dar ao mundo? O sociólogo francês Émile Durkhein fala de causas sociais, provenientes de sociedades carentes de integração, como sempre foi, etnicamente, a sociedade peruana onde viveu e sofreu, culturalmente, o escritor e etnólogo José María Arguedas, viceralmente identificado com a causa indígena.

2. O universo transcultural na obra de Arguedas.

 

Eu respirava ainda na atmosfera cultural d’Os Rios Profundos, em cujas páginas mergulhara nos conflitos de um universo heterogêneo de duas culturas assimiladas pelo jovem Ernesto, o personagem autobiográfico do romance. Foi a obra que me abriu a primeira janela para olhar a paisagem literária do indigenismo através da transculturação, pela qual a oralidade dos povos indígenas da América, aplastada pela colonização espanhola, é resgatada pela palavra escrita da literatura indigenista  — no exemplo pioneiro de Miguel Angel Astúrias, traduzindo do quiché, em 1926, o Popol Vuh, livro sagrado dos maias, seguido por Arguedas e posteriormente por Roa Bastos, com o guarani.   Em Os Rios Profundos esse processo transparece em cada página numa prosa traduzida com poesia e lirismo e onde o quéchua e o castelhano mesclam-se recriando trechos de canções de amor à vida e à natureza:

“Elas só conheciam huaynos do Apurímac e do Pachachaca, da terra morna onde crescem a cana-de-açúcar e as árvores frutíferas. Quando cantavam com suas vozes fraquinhas, pressentíamos outra paisagem; o ruído das folhas grandes, o brilho das cascatas que saltam entre arbustos e flores brancas de cactos, a chuva pesada e tranquila que cai sobre os campos de cana; as quebradas em que brilham flores de pisonay, cheias de formigas vermelhas e insetos vorazes:

 

Ay siwar k’enti!                                         Ai, beija-flor!

amaña wayta tok’okachaychu,                 não fures tanto a flor,

siwar kenti.                                               asas de esmeralda.

Ama jhina haychu                                    não sejas cruel

mayupataman urayamuspa                     desce a beira do rio,

k’ori raphra,                                            asas de esmeralda,

kay puka mayupi wak’ask’ayta               e olha-me chorando junto da água

                                                                vermelha

K’awaykamuway                                    olha-me chorando.

K’awaykamuway                                    Desce e olha-me,

siwar k’enti, k’ori raphra,                      beija-flor dourado,

llakisk’ ayta,                                           toda minha tristeza,

purun wayta kirish’aykita,                   flor do campo ferida,

mayupata wayta                                   flor dos rios

sak’esk’aykita.                                     que abandonaste”.

 

(ARGUEDAS, José María.Os Rios Profundos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p.48/49.).

 

       No dia seguinte, domingo, todos os jornais traziam, em manchete, o gesto trágico do grande narrador peruano do século XX. As legendas resumiam que “O escritor José María Arguedas, em frente a um espelho, no banheiro da Universidade Agrária, disparou um tiro nas têmporas, num sábado, para evitar que seus alunos perdessem o ditado das aulas”. O fato enlutou o país e deixou consternados os meios intelectuais, ideólogos e militantes de esquerda, muitas lideranças agrárias e indígenas, sobretudo, com as quais Arguedas tinha contato, defendendo e buscando sua identidade perdida, lutando pela pureza da sua cultura e pela redenção de suas degradantes condições econômicas e sociais. Este foi, na verdade, o dramático enredo biográfico do escritor, como Ernesto, no romance Os Rios Profundos. O crítico literário peruano Antonio Cornejo Polar, analisando Os Rios Profundos no seu contexto indigenista, refere-se ao comprometimento político de Arguedas, quando ele o relaciona à grande sublevação camponesa no Valle dela Convención, nas cercanias de Cuzco, em 1962, transformada em movimento guerrilheiro sob o comando de Hugo Blanco:

        “A exatidão desse enfoque; isto é, sua verdade sociológica, a provava Arguedas com a recente história do Peru, especialmente com o levante camponês de La Convención:

 

          Quatro anos depois (de publicada a novela) deu-se a revolta de La Convención. Eu estava seguro que essas pessoas se rebelariam antes que as comunidades livres, porque estavam muito mais castigadas e muito mais à beira da morte do que as comunidades livres que tinham alguma terra. Aos colonos se impunha essa alternativa: ou invadir as terras ou morrer de fome e nesse caso, o homem, por instinto defende sua vida.

       Estas mesmas idéias estão contidas na primeira parte da estremecedora carta de despedida de Arguedas à Hugo Blanco, líder da revolta de La Convención, na época encarcerado”

(CONEJO POLAR, António. La novela peruana. Lima: Latinoamericana Editores, 3ª ed., 2008, p. 175/175)

3. A carta de Arguedas a Hugo Blanco.

Na sequência Cornejo Polar cita a primeira parte da carta de Arguedas a Hugo Blanco. Contudo, creio ser imprescindível transcrevê-la aqui integralmente, neste ano em que se comemora, em todo o Peru, o centenário de seu nascimento em Andahuaylas, no dia 18 de janeiro de 1911.

No mês em que Arguedasse suicidou, novembro de 1969, o guerrilheiro Hugo Blanco, preso desde 1963, escreve-lhe duas cartas. A primeira no dia 14 e a segunda dia 25, quatro dias antes do tiro que o levou à morte. Foram originalmente escritas em quéchua e retratam a intimidade de ambos com a cosmogonia indígena, expressando, numa linguagem quase sempre poética, a singela grandeza e a cruciante miséria do mundo andino. Mesmo nas vésperas de sua morte, Arguedas não demonstra nenhuma amargura pessoal ao responder ao amigo. Assumindo seu invejável engajamento político como escritor, denuncia, exalta a luta social e política e respira com o ar puro da esperança. Quanto ao guerrilheiro, com sua “pena de morte” comutada para “25 anos de reclusão” não cede um milímetro nas suas convicções, contando a Arguedas as glórias e os calvários de sua “via sacra” revolucionária, do significado de sua luta inabalável pelo movimento indígena e de sua crença no advento de um mundo novo. As duas cartas de Hugo Blanco e a resposta de Arguedas estão entre os mais belos documentos indigenistas que tenho lido.[1] Contudo transcrevei aqui apenas a resposta de Arguedas:

Irmão Hugo, querido coração de pedra e de pomba

 

Talvez já tenhas lido o meu romance “Os Rios Profundos”. Lembra, irmão, o mais forte, lembra. Nesse livro não falo apenas de como chorei lágrimas ardentes; com mais lágrimas e com mais arrebatamento falo dos pongos, (arrendários indígenas) dos colonos de fazenda, de sua escondida e imensa força, da raiva que no âmago de seu coração arde, em fogo que não se apaga. Esses piolhentos, diariamente flagelados, obrigados a lamber a terra com suas línguas, seres desprezados pelas mesmas comunidades, esses, na novela, invadem a cidade de Abancay sem temer a metralha e as balas, vencendo-as. Assim obrigavam o grande pregador da cidade, o padre que os olhava como se fossem pulgas; vencendo as balas, os servos obrigam o padre a rezar missa, a que cante na igreja: impuseram-lhe pela força. Na novela imaginei esta invasão com um pressentimento: somente os homens que estudam os tempos vindouros,  os que entendem de lutas sociais e de política, compreendem o que significa  esta sublevação na tomada da cidade como imaginei. Como, com o sangue ainda mais quente se levantariam esses homens, não para perseguir apenas a morte da mãe da peste, do tifo, mas aos gamonales, (caciques mestiços que esploram os indígenas) no dia em que vençam o medo e o horror que têm deles! “ Quem há de superar esse terror formado e alimentado durante séculos, quem? Em algum lugar do mundo existe esse homem que os ilumine e salve? Existe ou não existe? Caralho, merda!”, digo isto porque tu choravas fogo, esperando sozinho. Os críticos da literatura, os mais ilustrados, não descobriram a princípio o objetivo final da novela, aquele que coloquei em seu miolo, no meio mesmo de sua corrente. Felizmente um, um somente, descobriu e o proclamou abertamente.

 

E depois, irmãos? Não foste tu, tu mesmo quem encabeçaste a esses “pulguentos” índios de fazenda, dos pisoteados o mais pisoteado homem do nosso povo; dos asnos e os cachorros o mais enxotado, o cuspido com o mais sujo escarro? Convertendo esses no mais valoroso dos valentes, não os fortaleceste? Não te aproximaste de sua alma? Ergueste a alma, a alma de pedra e de pomba que tinham, que estava esperando na mais pura semente do coração desses homens. Não tomaste Cusco como me dizes em tua carta, e da mesma porta da catedral, bradando e denunciando em quéchua, não espantaste os gamonales, não fizeste que se escondessem em seus buracos como se fossem periquitos muito doentes das tripas? Fizeste correr a esses filhos e protegidos do antigo Cristo, do Cristo de chumbo. Irmão, querido irmão, como eu, de rosto algo branco, do mais intenso coração índio, lágrima, canto, dança, ódio.  

 

Eu irmão, somente sei chorar lágrimas de fogo; mas com esse fogo tenho purificado a cabeça e o coração de Lima, a grande cidade que negava, que não conhecia bem seu pai e sua mãe; abri um pouco seus olhos, os próprios olhos dos homens do nosso povo, limpei-os um pouco para que vejam melhor. E nos povos que chamam estrangeiros, creio que levantei nossa verdadeira imagem, seu valor, seu valor verdadeiro, creio que a levantei bem alto e com luz suficiente para que nos estimem, para que saibam e possam esperar nossa parceria e nossa força; para que se apiedem de nós como do mais órfão dos órfãos; para que não sintam vergonha de nós, e de ninguém.

 

Essas coisas, irmão, esperadas pelos mais escarnecidos de nossas gentes, essas coisas nós fizemos; uma a fizeste tu e eu fiz a outra, irmão Hugo, homem de ferro que chora sem lágrimas; tu, tão semelhante, tão igual a um comunero, (habitantes indígenas das comunidades camponesas) lágrima e aço. Eu vi teu retrato numa livraria do bairro latino de Paris; enchi-me de alegria, vendo-te junto a Camilo Torres e a “Che” Guevara. Ouça, vou confessar-te algo em nome de nossa amizade recém-começada: ouça, irmão, somente ao ler tua carta senti, soube que teu coração era terno, é flor, tanto como o de um comunero de Puquio, meus mais semelhantes. Ontem recebi tua carta: passei a noite inteira, primeiro andando, e depois me inquietando com a força da alegria e da revelação.

 

Eu não estou bem, não estou bem; minhas forças anoitecem. Mas se agora morro, morrerei mais tranquilo. Esse formoso dia que virá e de que falas, aquele em que nossos povos voltarão a nascer, vem, sinto-o, sinto na menina dos meus olhos sua aurora, nessa luz está caindo gota por gota a tua dor ardente, gota por gota sem se acabar jamais. Temo que esse amanhecer custe sangue, muito sangue. Tu sabes e por isso denuncias, bradas da prisão, aconselhas, cresces. Como no coração dos runas (índios peruanos de fala quéchua) que me cuidaram quando era menino, que me criaram, existe ódio e fogo contra os gamonales de toda laia; e para os que sofrem, para os que não têm casa nem terra, os wakchas, (comunidade indígena na província de Cusco) tens peito de cotovia; e como a água  de alguns mananciais muito puros, amor que fortalece até regozijar os céus.  E todo o teu sangue soube chorar, irmão. Quem não sabe chorar, sobretudo em nossos tempos, não sabe do amor, não o conhece. Teu sangue já está no meu, como o sangue de Don Victo Pusa, de Don Felipe Maywa, Don Victo e Don Felipe me falam dia e noite, choram sem cessar dentro de minh’alma, me censuram em sua língua, com sua grande sabedoria, com seu pranto que alcança distâncias  que não podemos calcular, que chega mais longe que a luz do sol. Eles, ouça Hugo, me criaram, amando-me muito, porque sabendo que eu era filho de misti, (homem branco) viam que me tratavam com desprezo, como a índio. Em nome deles, recordando-os em minha própria carne, escrevi o que tenho escrito, aprendi tudo o que tenho aprendido e feito, vencendo barreiras que às vezes pareciam inacreditáveis. Conheci o mundo. E tu também, creio que em nome de runas semelhantes a eles dois, sabes ser irmão do que sabe ser irmão, semelhante a teu semelhante, ao que sabe amar. Até quando e até onde hei de te escrever? Já não poderás esquecer-me. Ainda que a morte me agarre, ouça, homem peruano, forte como nossas montanhas onde a neve não se derrete, a quem a prisão fortalece como a pedra e como a pomba. Eis aqui que te escrevo, feliz, em meio da grande sombra de meu mortal sofrimento. A nós não nos atingem a tristeza dos mistis, dos egoístas; chega-nos a tristeza forte do povo, do mundo, dos que conhecem e sentem o amanhecer. Assim a morte e a tristeza não são nem morrer nem sofrer. Não é verdade, irmão?

Recebe meu coração

José María 

 

Naquele fins de 1969 o nome de Arguedas e de Hugo Blanco eram lembrados nos encontros com gente de esquerda com quem eu conversavaem Lima. Traduzidasdo quéchua as três cartas foram publicadas e eram lidas e comentadas sobretudo por intelectuais comprometidos com o indigenismo. Não somente se lamentava a morte do escritor mas se rememorava a saga do famoso guerrilheiro peruano, então cumprindo a pena de 25 anos na ilha penal de “El Frontón”, onde chegou em 1966 transferido da prisão de Arequipa. Arguedas, como romancista, poeta, antropólogo e professor já era um escritor reconhecido nacionalmente, com muitos prêmios,altos cargos universitários e distinções acadêmicas.

Ele era a mais honrosa referência intelectual do indigenismo e neste sentido uma referência nas reuniões literárias daqueles dias que sucederam o suicídio do escritor. Toda a obra de Arguedas e sobretudo Todas las sangres – que motivou a primeira carta de Hugo ao autor, depois de receber o livro na prisão —  é um exemplo de compromisso com a história do povo indígena, seja como  receptor secular de inomináveis injustiças e de vítima encurralada pelos longos conflitos agrários entre o “feudalismo” colonial e o capitalismo, seja pela sua dimensão nacional discutindo o destacado papel do índio nas transformações da sociedade peruana, cuja causa Arguedas sempre defendeu, seja alimentando, como escritor, o sonho de uma comunidade indígena modernizada e integrada na sociedade peruana.

3. O centenário de Arguedas.

 

Congratulo-me com o escritor e amigo Enrique Rosas Paravicino pela excelência e precisão com que traçou, — no estrato de sua conferência sobre o primeiro centenário de nascimento de Arguedas, publicada neste site — o justo perfil do grande narrador peruano: “cuya estatura intelectual, moral y estética se halla al nivel de los más insignes exponentes de la cultura latinoamericana del siglo XX.”. A essa belíssima imagem literária eu acrescento a do abnegado militante pela causa indígena,  dedicando-lhe sua imensa alma de poeta, explícita no lirismo de sua carta a Hugo Blanco, bem como de seu incansável trabalho como antropólogo, numa luta obstinada para preservar a cultura dos seus antepassados incas e que, num gesto trágico, meteu uma bala na cabeça indignado pelo desprezo com que se tratava a cultura quéchua no Peru.

      Quantas homenagens está fazendo o Peru nesta oportunidade a um de seus filhos mais queridos e ilustres, mas também tão incompreendido nos últimos anos de sua vida! Por certo não foi o gatilho que ele acionou em novembro de 1969 que o matou. Arguedas “foi morto” lentamente pela indiferença ou pela inveja de alguns “grandes intelectuais” peruanos que não quiseram ver a sua genialidade. Sua mais importante novela Todas las sangres, de 1964, que tanto sensibilizou Hugo Blanco, é um vigoroso enredo indigenista que traça o perfil moral e cultural do homem andino ante os conflitantes interesses trazidos pelo progresso e pela voracidade e crueldade da ambição. Contudo foi tratada com desprezo pelos “sábios” do Instituto de Estúdios Peruanos e rejeitada como texto de estudos sociológicos, em 1965. O reconhecimento posterior da grandeza cultural dessa obra provou que eles estavam errados, contudo o justo ressentimento de Arguedas, explicitado em sua carta de despedida, foi por certo o primeiro tiro que atingiu seu coração:

Creio que hoje minha vida deixou, completamente, de ter razão de ser. Destroçado meu lar pela influência lenta e progressiva da incompatibilidade entre minha esposa e eu:  convencido da inutilidade ou impraticabilidade de formar um novo lar com uma jovem a quem peço perdão; quase demonstrado por dois sábios sociólogos  e um economista, também hoje, que o meu livro “Todas las sangres”  é negativo para o país, não tenho mais nada para fazer neste mundo.


Creio que minhas forças declinam irremediavelmente.

 

Peço perdão aos que me estimaram por tudo de incorreto que tenha feito contra alguém, ainda que não me lembre nada disso. Tentei viver para servir aos outros. Eu vou ou irei para a terra em que nasci e procurarei morrer ali de imediato. Que me cantem em quíchua de vez em quando, onde quer que seja enterrado em Andahuaylas, e ainda que os sociólogos encarem como piada esse apelo  — e com razão  — acredito que o canto me chegará não sei onde nem como.


Sinto algum terror ao mesmo tempo que uma grande esperança. Os poderes que dirigem aos países monstros, especialmente aos Estados Unidos, que, por sua vez, dispõem o destino dos países pequenos e de todas as pessoas, serão transformados. Talvez haja para o homem em algum tempo a felicidade. A dor existirá para que seja possível reconhecer a felicidade, vivida e transformada em fonte de infinito e triunfante alento.

 

Perdão e adeus. Que Célia e  Sybila  me perdoem. 

 

José María Arguedas.

 

(O quíchua será imortal, amigos desta noite. E isso não se mastiga, só se fala e se escuta.).


[1] Os textos traduzidos, em cursivas, —  exetuando-se o primeiro, já com a referência bibliográfica da edição brasileira,  — esta nota e as anotações em parêntesis, na carta de Arguedas, são do autor. Pelos limites deste artigo deixo de transcrever aqui as duas cartas de Hugo Blanco a Arguedas. Contudo os três documentos foram publicados em 2009 no site peruano “Lucha Indígena”, onde o leitor interessado poderá lê-las comentadas, no link:

http://www.luchaindigena.com/2009/05/cartas-entre-jose-maria-arguedas-y-hugo-blanco/comment-page-1/

JAVIER HERAUD: a poesia e a vida por um sonho. [1] – por manoel de andrade/ curitiba




 

“La poesía es

un relánpago maravilloso,

una lluvia de palabras silenciosas,

un bosque de latidos y esperanza,

el canto de los pueblos oprimidos,

el nuevo canto de los pueblos liberados”.

J.H.

1. Os poetas revolucionários.

Que sublime herança, ter vivido num tempo semeado de esperanças, de ideais que prometiam a redenção dos oprimidos e a solidariedade entre os povos do mundo!

Vivíamos, na América Latina, durante um período em que as contradições entre o sonho libertário e a realidade opressiva geraram os grandes impasses da nossa história. Nas décadas de 60/70 as utopias anunciavam, pelas trincheiras de luta e pelos versos dos poetas, uma pátria de homens livres, uma aldeia global onde em cada coração palpitaria o amor, a liberdade e a justiça. Livros, revistas, cartazes, poemas panfletados, recitais e debates compartilhados, encontros clandestinos, reuniões secretas, diálogos luminosos… quantos nomes, quantos abraços, chegadas e despedidas, quantas cartas e quantas vozes ecoam ainda em minhas lembranças de poeta e viandante.

Contudo, neste trecho de minhas memórias, não contarei dos tantos poetas que estreitei em meus braços. Evoco aqui apenas a imagem dos caídos, daqueles que ficaram na saudade do seu povo e, como os poetas não morrem, por certo, continuarão vivos nos versos que escreveram, ou cantando em outras possíveis dimensões da vida. Alguns, como Otto René Castillo, — martirizado até a morte no suplício mais cruel — caíram no campo de batalha e tiveram seus cantos libertários escritos na história da pátria agradecida. Outros foram sepultados nos arquivos do silêncio oficial, mas um dia terão seus nomes ressuscitados pelo tempo, num tempo muito além deste tempo cruel em que a poesia já não palpita no coração dos homens. Seus poemas não puderam mudar o mundo, mas anunciaram um amanhecer. Seus versos deram nomes aos tiranos e convocaram os homens para o bom combate.

E por isso volto a falar de ti, Ariel Santibañez, meu irmão chileno no sonho e na poesia e são para ti essa memória e essa saudade. Ficou de ti a lembrança do nosso primeiro encontro numa manhã ensolarada de Arica. Da carta fraterna que te trazia de Santiago. De tua porta e teu sorriso se abrindo ao te falar do nosso querido Arimatéia. Atrás desses quarenta anos ainda ecoam as palavras e os versos que acompanharam nossos poucos dias e as cartas trocadas da Bolívia. E depois…, depois o teu tempo clandestino, tua visita a Cuba, tua volta a uma pátria que seria banhada em sangue, a tua militância e teu trágico silêncio. E agora, que teu nome ressurge depois da imensa noite dos terrores, agora que teu carrasco é levado ao patíbulo dos culpados, só agora venho escrever teu nome nas memórias tardias dos meus passos, relendo teus poemas, folheando teu talento de editor nas páginas de Tebaida, lembrando da tua imagem lúcida e fraterna, imaginando a extensão do teu martírio nos porões assassinos de Villa Grimaldi e sentindo-te na perene saudade de minhas lágrimas.

Quanto a ti, Javier, no tempo em que cheguei, tu já não estavas. Falaram-me de ti, não só pela candura dos teus versos, mas porque foram em busca do teu rastro sobre as águas, “entre pássaros e árvores” e sobre as folhas do outono. Eram três estudantes de Arequipa e durante algumas noites eles estiveram na “Rosa de los ventos”, naquela pracinha tão íntima chamada “Las Nazarenas”, na quadra posterior à Catedral de Cusco. Eu trabalhava ali, no número 199, naquele Café romântico que se abria ao entardecer e onde a poesia, a música e a história recebiam os caminhantes de tantas pátrias. Uma noite eles me contaram a história do teu sonho, das balas que cruzaram teu destino e das águas que levaram o teu sangue para a imensidão do mar. Na noite seguinte eu voltei a perguntar por ti e no terceiro dia eles me trouxeram a primeira edição de El Rio. Naquelas páginas eu bebi os teus primeiros versos e em Lima tu nasceste em minha poesia.

2. O poeta de Miraflores.

Eu conheci Miraflores, o bairro onde nasceu e viveu o poeta Javier Heraud. Como eram lindas suas ruas, praças e parques naquela primavera de 1969, e muitas vezes misturei meus passos com os elegantes transeuntes da Avenida Larco. No número 656 moravam Francisco e Mario Rojas, meus amigos costarriquenses, e lá nos reuníamos toda semana, com seus colegas de arquitetura da Universidade de São Marcos. Também era ali, nas mesas dos bares, que eu trocava idéias com tantos jovens intelectuais latinoamericanos. Tínhamos a mesma faixa de idade e os mesmos sonhos libertários. Lembro-me, sobretudo, do equatoriano Simón Pachano, saudoso amigo desde Cusco, hoje respeitado sociólogo, escritor fecundo, professor da FLACSO e da Universidade de Salamanca. Miraflores era um encantamento.

Quantas vezes vi o sol despedir-se atrás das águas do Pacífico, naqueles crepúsculos deslumbrantes que iluminavam as praças e as calçadas no “Malecón de Miraflores”. Havia um mágico suspiro naquelas ruínas do passado pré-incaico. Eu frequentava suas livrarias, galerias de arte e respirava aquele romantismo no esnobe vozerio dos bares e — com exceção da “Zona Rosa”, na Cidade do México, também daqueles anos — não creio que tenha conhecido, nos meus caminhos pela América, uma região urbana tão atraente, embora socialmente tão exclusiva. Árvores frondosamente grandes, jardins tão bem cuidados, as pétalas multicores desenhando-se nos canteiros, o aroma das flores e os botões desabrochando. – “En Europa no hay nada más bello que Miraflores”, escreve Javier de Paris ao seu pai. — Cafés literários, estrangeiros exóticos, latinoamericanos do sul, franceses e estadunidenses, as melodias dedilhadas no charango e a voz telúrica das zampoñas, o desenho policrômico dos ponchos indígenas rivalizando com as mais variadas grifes europeias. Crianças graciosas, peruanas lindas, uma pequena aldeia de seduções no coração da orgulhosa Lima, marcada em parte por sua legítima beleza, histórica e cultural e em parte por um desfile de aparências que somente a vaidade e o desperdício proporcionam.

Foi nessa passarela de encantos que o poeta passou a infância e a juventude, filho de uma família de classe média, que marcou sua vida e sua poesia com um imenso e reconhecido carinho. Começa a escrever aos quinze anos e em 1960, aos dezoito, publica sua primeira obra: “El Rio”. Nesse mesmo ano, com seu segundo livro “El viaje” participa do concurso “El Joven Poeta del Peru”, dividindo o primeiro prêmio com aquele que seria o grande poeta e revolucionário César Calvo. Em 1963, seu livro Estación Reunida, recebe o primeiro prêmio de poesia nos Jogos Florais da Universidade de San Marcos, chamando a atenção da comissão julgadora pela beleza dos seus versos, apresentados com o pseudônimo de O Lenhador. Mas naqueles dias o poeta já estava morto.

Os vinte e um anos da vida de Javier Heraud Pérez é parte da história da literatura política da América Latina nas décadas de 60-70, e que ainda está por ser escrita. Nessa memória, a poesia rebelde ocupa uma mágica galeria de mártires e sobreviventes, lembrando dezenas de poetas que empenharam suas vidas, seus sonhos e o encanto de suas metáforas para cantar a mística revolucionária pela lírica dimensão da poesia.

Javier Heraud foi a poética expressão do espanto ao testemunhar sua esperança e sua angústia numa sociedade cruel. O Peru era um país marcado pela mais descarada opressão e o desprezo por um povo indígena com o mais belo passado de glória do continente americano e que desde a conquista galga um longo calvário em seu destino.

Nascido em Lima, em 19 de janeiro de 1942, conheceu na juventude uma pátria convulsionada pelo domínio estrangeiro sobre as comunidades quéchuas dos Andes Centrais, pelas mais perversas práticas de servidão no trabalho agrícola, e por uma infindável injustiça, cuja impunidade precipitava a nação num perigoso abismo social. Começava a década de 60 e, pelo país inteiro os trabalhadores, há anos sugados pelo trabalho das minas e do campo, faziam suas primeiras marchas, sangrados pela repressão. Os camponeses, literalmente, para não morrer de fome, preferiam cair lutando para retomar as terras que lhes foram usurpadas. Nas grandes fazendas de açúcar, os trabalhadores estavam na vanguarda dessa luta. As grandes empresas norteamericanas ditavam suas ordens e o governo peruano as cumpria com o dedo no gatilho e lotando as prisões.

Os primeiros contatos com a vida acadêmica em San Marcos trouxeram a Heraud novas concepções sociais e políticas e houve um dia, um momento, em que ele começou a trocar os encantos de Miraflores pelas solitárias trilhas andinas de seu país, e as paisagens humanas que encontrou encheram-lhe a alma de assombro e amargura:

(…)”E lembrei de minha pátria triste

meu povo amordaçado

suas crianças tristes, suas ruas

despovoadas de alegria.

Lembrei, pensei, entrevi suas

praças vazias, sua fome,

sua miséria em cada porta.

Todos recordamos o mesmo

triste Peru, dissemos, ainda é tempo

de recuperar a primavera,

de semear de novo os campos, (…)

Triste Peru, aguarda,

nascerão de novos rios,

novas primaveras serão

devastadas por novos outonos,

e em cada face brilhará

uma alegria transbordante

e no povo, com sua força,

reunido e santo ” [2]

3. O engajamento político, as viagens pelo mundo e a Cuba.

Em 1961, vários fatos irão marcar sua vida política. Filia-se ao Movimento Social Progressista (MSP), de tendência social democrata, integra uma ampla manifestação de repúdio à visita de Richard Nixon ao Peru e participa de um confronto entre simpatizantes da Revolução Cubana e exilados anti-castristas. Ainda em 1961 é nomeado professor de Literatura em importante colégio de Lima e, em julho daquele ano, a convite do Fórum Mundial da Juventude, viaja à União Soviética. Em Moscou visita a tumba de Lênin e escreve os poemas “Plaza Roja 1961” e “En La Plaza Roja”. Viaja por alguns países da Ásia e depois para a França, onde conhece o túmulo do poeta peruano Cesar Vallejo, dedicando-lhe o poema “En Montrouge”. Na capital francesa encontra-se com vários artistas e intelectuais peruanos, entre eles o jovem escritor Mario Vargas Llosa. E antes de deixar Paris, foi conhecer o povoado de Illers onde vivera Marcel Proust, a quem admirava e a quem dedicou, na época, um poema. Depois de cogitar ficar em Paris para estudar cinema, resolve voltar ao Peru e passa, em outubro, pela Espanha:

(…) Esta é Madrid,

este é o meu coração

sangrando,

este é o nosso caminho,

e seguirei gritando a

verdade dos

bosques apagados,

A verdade das rosas

caídas,

a verdade de Espanha

e suas histórias.[3]

Em princípios de 1962 renuncia ao MSP com uma carta, onde expressa:

(…) “É uma posição falsa este chamado “socialismo humanista” que condiciona toda a marcha do Movimento e o leva a uma práxis equivocada. Eu não creio que seja suficiente chamar-se revolucionário para sê-lo…” Logo depois dirá: “De agora em diante, rumarei pela rota definitiva onde brilha esplendorosa a aurora da humanidade”.[4]

Em março recebe uma bolsa para estudar cinema em Cuba e parte, com escala de cinco dias em Arica, onde encontra militantes do Partido Comunista Chileno e Salvador Allende, embarcando num avião da Cubana de Aviación e, junto com outros bolsistas, chega a Havana em 4 de abril. Dias depois, com outros companheiros, tem um encontro com Fidel Castro:

(…)“Vi a Fidel de piedra movediza,

escuché su voz de furia incontenible

hacia los enemigos.” (…)

Percorre as cidades cubanas e conhece Santa Clara, a legendária cidade onde o Che Guevara definiu a vitória da Revolução. Já se encontravam na ilha os peruanos Guillermo Lobatón e Fernández Gasco, que iriam liderar dois importantes grupos guerrilheiros em 1965, na região central do Peru. Encontrava-se também em Havana um grupo de 300 peruanos, operários e camponeses. Eram os quadros dissidentes do APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana), integrantes do APRA Rebelde, comandada por Luiz de La Puente Uceda. Lá chegaram outros militantes da esquerda peruana e entre eles Héctor Béjar. Atraídos pelo recente sucesso da Revolução Socialista, ali estavam para preparar-se militarmente, trazer ao Peru a experiência guerrilheira cubana e a esperança de mais uma pátria socialista no Continente. O poeta integra o grupo de 40 bolsistas que por três semanas percorrem em Sierra Maestra os lugares por onde transitaram os heróis da Revolução Cubana e, num rápido processo de transformação todos optam por preparar-se militarmente, lutar pela justiça e redenção social do Peru. Integrado ao grupo dos 40 bolsistas, Javier , em novembro volta ao Peru para dar apoio armado a Hugo Blanco, que à frente das massas camponeses do Valle de La Convención, lutava pela implantação da Reforma Agrária na província de Cusco.

4. A opção pela luta armada

Ser jovem, naqueles anos, significava fazer uma opção. O mundo na década de 60 passava por grandes transformações e novos paradigmas comandavam o comportamento da juventude. No campo ideológico tínhamos que fazer uma escolha: engajar-se na luta a favor dos oprimidos e contra a repressão e o imperialismo ou permanecer na contramão da história, defendendo os interesses inconfessáveis do poder ou, pior ainda, manter-se inconsciente da sua própria inconsciência, um espectador alienado ao que estava acontecendo no seu país, na América Latina e no mundo.

Caminhando pelo continente naqueles anos, convivi com intelectuais de várias vertentes de esquerda e me contagiei com a paixão revolucionária que caldeava a história recrutando o coração da juventude. A leitura e a discussão dos importantes pensadores de esquerda disseminavam-se na cultura estudantil de todas as grandes universidades. O marxismo, com seu caráter científico e analítico da sociedade, sua mística ideológica, sua dimensão moral do “homem novo”, seu legítimo romantismo semeado pela aventura da Sierra Maestra e a saga de Che Guevara, transformou-se numa mágica convocação, numa cartilha de sonhos que, iluminada pela imagem da justiça social e da solidariedade com os pobres e oprimidos, unia, num gesto plural e despojado, intelectuais, estudantes e trabalhadores. Javier Heraud foi um exemplo eloquente dessa opção. Consciente de que somente a insurreição armada poderia banir a dominação oligárquica e o indisfarçável colonialismo que ainda predominava no Peru, escolheu colocar sua vida na balança do destino, embora sabendo que poderia encontrar a morte na travessia do seu sonho. Renunciando a uma grandeza literária que já se anunciava nas letras peruanas como um provável sucessor do grande Cesar Vallejo, não vacilou em despedir-se de si mesmo e assumir, com o codinome de Rodrigo Machado, a sublime missão de defender os oprimidos.

No início de 1963, o grupo, chefiado por Héctor Béjar, deixa Havana e, em vista do bloqueio continental e o controle imperial contra Cuba, seguem para Praga e, através de Paris, chegam ao Rio de Janeiro para atravessar clandestinamente o Brasil. Em 19 de janeiro, o poeta-guerrilheiro celebra seus 21 anos, na passagem por São Paulo rumo à Bolívia. Armados e guiados por esquerdistas bolivianos, os 40 quadros militares entram no Peru por Riberalta, tendo pela frente 300 quilômetros de selva, numa caminhada de cinco meses até Porto Maldonado, onde o grupo deveria dividir-se em duas colunas, sendo que a integrada por Heraud, seguiria para o Vale de La Convención, para unir-se às forças de Hugo Blanco.

Durante todo esse trajeto, contam os depoimentos dos que sobreviveram, que Heraud escrevia muito e que falava da sua entrega incondicional em favor dos camponeses explorados, dos expulsos de suas terras e dos anos que os esperavam nos longos caminhos da luta. Em seu poema Palavras de Guerrilheiro, ele fala do seu amor à pátria e à natureza:

Porque minha pátria é formosa

como uma espada no ar

e tão grande agora e ainda

mais bela

eu canto e a defendo

com minha vida.

II

Não me importa o que digam

os traidores

nós fechamos o passado

com grossas lágrimas de aço.

III

O céu é nosso

nosso é o pão de cada dia

temos semeado e colhido

o trigo e a terra

são nossos

e para sempre nos pertencem

o mar

as montanhas e os pássaros.[5]

Esses versos dizem de sua abnegada entrega, testemunhando que trazia na alma o estandarte veemente da justiça, quem sabe esperando um dia entregá-lo à pátria na forma poética de um epinício, celebrando em versos a vitória dos vencidos. Que maior pendão pode existir para um poeta do que cantar e lutar pelos humilhados e esquecidos? Que caminhos são mais belos que os caminhos da liberdade quando são balizados entre o sonho de um combatente e a esperança dos oprimidos?

5. A marcha na selva, a escaramuça e a travessia para a morte.

Nos primeiros dias de maio a coluna expedicionária, já em marcha pela selva oriental do território peruano, destaca seis combatentes que são enviados como batedores para avaliar a segurança da rota que levariam os outros até as zonas de conflito. Em 14 de maio, depois de vários dias por trilhas amazônicas, essa vanguarda tática, da qual fazia parte Javier Heraud, chega a Porto Maldonado, uma pequena cidade, capital do departamento de Madre de Dios, a uns 40 quilômetros da fronteira boliviana, onde ficaram os demais. Entram na cidade, e o chefe do grupo, Alaín Elías, com 24 anos, é confundido com o guerrilheiro Hugo Blanco. Ao anoitecer daquele dia, buscavam se hospedar no Hotel Chávez, quando são abordados por um grupo de policiais que os intimam a apresentar-se na delegacia local. No caminho os guerrilheiros resolvem reagir, há um enfrentamento com tiros, um sargento cai morto e os guerrilheiros se dispersam em várias direções. Alaín e Javier passam a noite escondidos na floresta, mas no dia seguinte são vistos por um camponês que os denuncia, passando a ser perseguidos por policiais e pelos fazendeiros da região, munidos com armas de caça. Fogem para o rio Madre de Dios e tentam escapar em uma canoa, contudo a polícia chega nas margens e começa a atirar. Elías atira primeiro, mas depois ambos decidem entregar-se. Neste momento aproxima-se uma lancha cheia de policiais e civis que chegam atirando. Os dois jovens pedem que não atirem e agitam uma camiseta acenando a rendição, mas os tiros continuam. Alaín é ferido e se deita. Javier de pé grita que não disparem mais, mas recebe um tiro na clavícula e volta a gritar que não atirem. Alain embora baleado agita a pequena “bandeira” numa desesperada súplica de paz e compaixão. Javier ferido se recosta e todos os tiros concentram-se no seu corpo. Os estampidos se sucederam das onze e meia à uma da tarde como um sádico tiro ao alvo. É um tempo irreal, apavorante para duas vítimas indefesas, porque marca o supremo desespero da sobrevivência. As explosões ecoavam como mágicos relâmpagos explodindo o sacrário da esperança de dois jovens sonhadores. De repente, o silêncio. Uma canoa que se mantém imóvel sobre as águas. A missão estava cumprida, a dignidade humana ultrajada, o massacre consumado por militares treinados para matar e por fazendeiros treinados pela ambição e pelo ódio. Estirado sobre o tronco flutuante, os olhos do poeta buscam ainda o azul, despedindo-se do querido céu da pátria. Quem sabe, no derradeiro alento, Javier Heraud tenha-se lembrado das palavras que alguma vez escreveu àquela que lhe embalou a infância:

“Recorda tu, recordem todos que meu carinho e meu amor crescerão sempre, que nada nem ninguém nos poderão separar, ainda que estejamos distantes, e que algum dia nos reuniremos para cantar e chorar juntos, para abraçar-nos e querer-nos mais. E que eu sempre serei o menino a quem tu tiveste nos braços ainda que haja crescido por este tempo que avança e destroça os anos, mas não as recordações.”[6]

6. Javier Heraud: a vida e a poesia por um ideal

No momento em que escrevo estes relatos, 47 anos depois de sua morte, sua obra poética, reeditada muitas vezes tanto no Peru como em Cuba, é uma das mais estudadas em seu país, tanto pelo seu significado histórico na saga guerrilheira daqueles anos, como por sua precocidade literária marcada por refinado lirismo, concisão e transparência. Muitos perguntarão: o que leva um jovem intelectual de 20 anos, privilegiado por uma invejável estruturação familiar, a alistar-se numa missão tão imprevisível para defender uma causa sem interesses pessoais e onde a morte o espreitaria a cada passo? José Ingenieros ao expressar a emoção do ideal nos fala de sua ‘força misteriosa qual uma áscua sagrada capaz de nos preparar para as grandes ações e que se a deixarmos apagar, jamais se reacenderá em nós e uma vez morta nada mais seremos que fria bazófia humana’. [7] Foi essa “força misteriosa”, esse gesto de renúncia e de coragem que fez de sua vida uma paixão constante marcada em seus versos pelo persistente tema da morte, uma presença imanente em sua poesia:

“Não desejo a vitória nem a morte,

não desejo a derrota nem a vida,

somente desejo a árvore e sua sombra,

a vida com sua morte.”[8]

Em seus poemas, o rio é, também, sempre uma ideia forte e recorrente, como uma metáfora da vida. O rio, na poesia de Heraud, é o rio da própria vida, expressa em seu longo e belíssimo poema El Rio. O poeta desnuda-se em emoção e lirismo nos seus versos, semelhante ao místico significado do rio de Sidarta, no romance de Hermann Hesse. Para o poeta peruano o rio é sua própria imagem, um corpo que caminha angustiosamente em busca do destino. É o movimento incessante por onde escorre o tempo e navega o seu espírito de poeta, fluindo às vezes em desatada emoção e envolvendo a natureza em todo o seu entorno. Mas é também e, paradoxalmente, em muitos versos, como uma premonição do lugar onde ocorreria sua morte.

Eu sou um rio,

vou descendo

pelas largas pedras,

vou descendo

pelas rochas duras,

pelo caminho

desenhado pelo

vento.

Há árvores em minha

volta, sombreadas

pela chuva.

Eu sou um rio,

desço sempre mais

furiosamente,

mais violentamente

eu desço

cada vez que

uma ponte me reflete

em seus arcos.

Eu sou um rio

um rio

um rio

cristalino no

amanhecer.

Às vezes sou

terno e

bondoso.

Deslizo suavemente

pelos vales férteis,

dou de beber mil vezes

ao gado, à gente dócil.

As crianças se acercam de mim

de dia

e

de noite trêmulos amantes

apoiam seus olhos nos meus

e fundem seus braços

na escura claridade

de minhas águas fantasmagóricas.(…) [9]

7. O intelectual brilhante

Aos 16 anos Javier Heraud ingressa, em primeiro lugar, no curso de Letras na Universidade Católica do Peru e começa a dar aulas de espanhol e inglês em colégios secundários. Aos 19 anos entra na Faculdade de Direito da Universidade de San Marcos em cujo ambiente oferece seus primeiros recitais e relaciona-se com os principais poetas da época: Washing¬ton Del¬gado, Cesar Calvo, Javier Sologuren, Arturo Corcuera entre outros. José Miguel Oviedo, considerado um dos maiores críticos literários peruanos, ao resenhar seu livro El viaje, em 1960, afirma sobre o poeta que ainda não completara 20 anos:

“Javier Heraud — ya no cabe duda — es la mejor esperanza que la poesia peruana tiene dentro de las novísimas generaciones”[10]

Nessa idade, já com uma grande cultura literária, estuda Marx e Lênin, penetra na historicidade do Peru, estudando suas profundas contradições sociais na década de 60 e transforma todo esse conhecimento em consciência revolucionária. Tudo, na pessoa de Javier Heraud era uma luminosa promessa. Quer como poeta, quer como revolucionário. Em Heraud projetava-se, potencialmente, a imagem do grande intelectual engajado, assim como foi José Carlos Mariátegui (1895-1930) como homem de ideias e tido como o maior e mais original pensador marxista latinoamericano. Semelhante a Mariátegui, pela precocidade e pela abrangência de sua intelectualidade, Javier Heraud era, relativamente, aos 21 anos, um intelectual completo, orgânico, poeticamente voltado para o profundo significado da vida (e da morte) e politicamente comprometido com os movimentos sociais do seu tempo. Isso para fazermos um paralelo apenas com intelectuais marxistas, como eram também, pela sua abrangência, Neruda e Vallejo.

Quando esteve em Paris, de volta da União Soviética, em julho de 1961, seu período na capital francesa foi aproveitado ao máximo. Em carta à família ele escreve:

(…) “Aqui não posso desperdiçar uma hora. Há muitas coisas, insisto, que tenho que aprender. Música, pintura, teatro, museus, ciências, livros, etc. Quero formar-me bem para depois ser útil à revolução e ao meu país.”(…) [11]

Em Paris, teve um curto período de convivência com Mario Vargas Llosa, na época com 25 anos. Em um longo depoimento em 1981 para Cecília Heraud Perez, irmã do poeta, o laureado escritor peruano relata:

(…) Nesses dias, nos víamos muito, praticamente todos os dias, conversávamos por longo tempo e muito identificados. Nasceu uma relação muito cordial, muito próxima, porque ele era uma pessoa sumamente afetuosa, sumamente simples, com uma coisa muito pura, ingênua, uma imensa candura no melhor sentido da palavra.

(…) A viagem tinha sido um fator de radicalização para ele. Creio que naqueles momentos militava no Social Progressismo e no retorno da União Soviética, já em Paris, todos vivíamos nesse momento uma radicalização. Eu também estava bastante radicalizado, sobretudo com o entusiasmo que despertou em todos nós a revolução cubana.

Javier participava absolutamente desse sentimento, dessa atividade e esse foi um dos longos temas de nossas conversações. Falamos muito de política, da impressão que lhe causara a viagem, de sua radicalização, da problemática peruana, mas também muito de literatura, porque a vocação literária de Javier era enorme, uma vocação realmente muito forte, evidente, ou seja, era algo que ele sentia à flor da pele. Ele me falou de um projeto de escrever baladas, uma série de baladas sobre temas despojados, muito simples, uma poesia narrativa, quase didática. (…) uma poesia para o povo, no melhor sentido da palavra, mas escrita com qualidade literária.

(…) Ele tinha 19 anos, era grande, alto, bastante forte, com olhos claros, ao mesmo tempo com uma transparência que imediatamente seduzia. A mim me seduziu fortemente sua personalidade e realmente tive com ele uma comunicação muito próxima, uma boa amizade, apesar de um contato rápido e passageiro.

Depois ele foi passar alguns dias em Madrid, onde recebi um cartão postal. Retornou ao Peru, e me escreveu uma carta bastante atormentada onde me fala de uma crise muito profunda, que por um lado é uma crise política, a crise em que vivia o país, num clima de repressão e bastante desesperançada politicamente (…)

(…) Quando Javier esteve em Paris eu acabava de escrever La ciudade e los perros. Eu li para ele alguns capítulos do romance, a descrição de La Victoria, de um personagem que vai à rua Huatica frequentada pelas prostitutas , lembro de ter-lhe lido sobre isso e lhe perguntado se sua geração ainda tinha aqueles costumes, como a minha, ou foi uma geração que mudou seus ritos.. “Essa descrição – disse-me – incomoda-me um pouco.”. [12]

O que certamente Javier Heraud jamais poderia imaginar é que, como um jovem poeta de 19 anos, pudesse ser entrevistado, em Paris, por um peruano que um dia seria distinguido com o Prêmio Nobel de Literatura? É que Vargas Llosa naqueles anos trabalhava na Radiodifusão-Televisão Francesa onde tinha um programa cultural emitido para toda a América Latina. No dia 1º de setembro de 1961 ele entrevistou o poeta Javier Heraud transmitindo suas opiniões e seus versos para o continente, causando profunda emoção à família e aos muitos amigos que o ouviram em Lima. Javier falou sobre a poesia peruana e citou os poetas que influenciaram sua formação nomeando Vallejo, Neruda, os espanhóis Antonio Machado, García Lorca, Miguel Hernandez e o inglês Dylan Thomas. É um diálogo rico e inteligente entre dois jovens escritores cujos passos seriam marcados por destinos radicalmente diferentes. Javier morreria como guerrilheiro dali há dois anos nas selvas peruanas e Vargas Llosa seguiria sua grande carreira de escritor, recebendo em Estocolmo, quase que exatamente 49 anos depois, o mais cobiçado prêmio literário do planeta.

Este pequeno convívio de Javier com Vargas Llosa deixou em ambos fortes sentimentos de amizade. Cerca de um ano depois do encontro em Paris, Vargas Llosa foi a Cuba e procurou por Javier. O ex-guerrilheiro peruano Alfonso Imaña, na época em Havana, relata o fato:

“Eu saí alguns dias de Havana, para cumprir um encargo e um membro do Governo cubano, das Relações Exteriores, me disse:

– Há um peruano, um amigo de vocês procurando por Javier, já faz alguns dias que deseja falar com ele. É um escritor que vem da Europa.

Cheguei a falar com ele, era Vargas Llosa, e conversando com ele no hotel Riviera perguntei-lhe por que queria ver Javier .(…)

Acontece que Javier estava em treinamento militar, longe de Havana e isso não podia ser revelado a Vargas Llosa, que não ficou satisfeito com a explicação evasiva de Alfonso. Mas alguns dias depois Javier retorna à capital e recebe o recado.

(…) Eu me lembro claramente que estava no lobby do Hotel Riviera, em Havana, onde fomos à procura de algumas pessoas, e também de Mario Vargas Llosa pois haviam dito a Javier que ele o estava procurando. Chamam-no e Vargas Llosa aparece, cumprimenta-me rapidamente e se abraça com ele, lembro-me perfeitamente. “(…)[13]

Muitos depoimentos creditam o precoce brilhantismo intelectual de Javier Heraud. Julio Dagnino, jornalista e educador peruano, que participou do mesmo grupo de Javier que voltou de Cuba para o Peru, comenta a precocidade intelectual do poeta: [14]

“De Havana para a Bolívia tínhamos viajado por rotas diferentes para alcançar nosso objetivo de entrar armados no país. Com Javier Heraud me avistei novamente em La Paz. Nos cruzamos sem falar pois viajávamos clandestinos. Quando sulcávamos o rio Chapare, em Cochabamba, nos voltamos a ver; a propósito do círculo que se formou com ele, Héctor Béjar, Abraham Lama (Junco) e eu. Nas margens do rio, entre outras coisas, discutimos sobre o realismo socialista e a presença “canônica” de Joyce e Proust. Nesse debate Javier, que era muitos anos mais jovem do que nós, se destacou. A maneira de colocar o problema e o desenvolvimento não esquemático que deu ao papel da literatura no processo da revolução socialista foi convincente no círculo que era conhecido, por suas críticas ao rumo que então vinha tomando o realismo socialista “.[15]

Nas três semanas em que o poeta percorreu Sierra Maestra, em meados de 1962, junto com o grupo de bolsistas peruanos, estava Ricardo Gadea — irmão da peruana Hilda Gadea, primeira esposa de Ernesto Che Guevara –. Conta Ricardo:

(…) “Conversei muito com Heraud. Um jovem com uma procedência diferente da média. Um verdadeiro intelectual, apesar de sua juventude. Uma promessa. Tinha a possibilidade de ir para a Europa, mas estava ali, na Sierra Maestra. Hesitava. Tinha dúvidas”. Quando de retorno a Havana, no entanto, Fidel confrontou o grupo com a escolha final – profissão ou revolução? – O poeta cruzou o Rubicão para a luta armada. Havia nascido Rodrigo Machado. Ninguém como ele expressaria o espírito com que aquele compromisso era assumido:”

“Rodrigo Machado nasceu num dia de julho, em Havana, no ano de 1962. (Sua idade não se sabe ainda, pois tem a idade da luta de seu povo.) A guerra contra o imperialismo, à que irá junto com 40 companheiros, vai dizer ou calar os anos que ele haverá de cumprir. Cairá em alguma montanha perfurado com uma bala no corpo? Seguirá na viagem da esperança ou será enterrado no leito de um rio, então completamente seco? Não, os rios da vida, da esperança, continuarão fluindo em torrentes cristalinas. Porque no rio está a vida de um homem de muitos homens, de um povo de muitos povos. E Rodrigo Machado, de pé ou deitado, seguirá cantando ao homem, com um fuzil, porque o fuzil será um dos meios para alcançar a liberdade. E uma vez livres, os homens dignos e honrados dirão ao mundo a verdade sobre o nosso povo, sobre suas lutas e a vida futura. Só então, Rodrigo Machado e com ele os 40 que partiram para a vida (de pé ou debaixo da terra) se sentirão felizes e ditosos.”[16]

8. O herói de sua geração

Em dezembro de 69 escrevi em Lima três poemas em espanhol: “El marinero y su barco”, “El caminante y su tiempo” e “Réquiem para un poeta guerrillero”,[17] este dedicado à memória de Javier Heraud:

Com trinta balaços de ódio

seus doces olhos tombaram

crime tão grande, senhores

árvores e pássaros choraram.

E caiu morto o poeta

alma imensa, iluminada

como ele caíram outros

Lord Byron caiu na Grécia

Garcia Lorca em Granada.

– Diga-me, irmão camponês…

por quem morreu Javier?

– Por seu sonho, viajante!

porque há homens que nascem

com o sangue predestinado;

Javier morreu de justo

pelo pão de cada dia,

morreu pela gente pobre

por sua fome e agonia.

Ai poeta, hermano mio

verde cigarra de espanto

em teu corpo metralhado

o sangue escorreu teu canto.

E a noite comemorou

a vitória dos generais.

O povo amanhã virá

com sua voz de mil punhais.

Me contaram de um lugar

onde um rio canta dolente

e que suas águas choram

pela morte de um valente.

Quando em janeiro de 1970 os estudantes de Arequipa publicaram uma coletânea de meus versos com o nome de Poemas de América Latina, — onde constava este poema a Heraud — um trecho, com uma referência ao poeta, colocado na contracapa do livreto, atestava, há menos de seis anos de sua morte, que seu nome já era uma legenda entre a combativa classe dos estudantes peruanos. O texto, com a característica linguagem política da época, expressava que:

“A revolução não é uma palavra. É uma tarefa heroica que deve ser iniciada sem demora, aqui e agora. Isso deverá ser compreendido por todos nós. Também deveríamos compreender que a revolução é modelo de conduta a seguir, para que depois possamos dizer com plenitude como Javier Heraud: “Soube viver e soube morrer como homem digno”. [18]

Javier foi o herói poético de sua geração. Para mim, um estrangeiro recém-chegado no país, todo aquele reconhecimento pela imagem de um poeta — morto entre tantos outros jovens combatentes naqueles anos de grandes confrontos guerrilheiros no Peru — era um fato novo no solitário mundo dos poetas, esses seres tão desgarrados do mundo. Muitos relatos da época mostram que não se dava importância à poesia e aos poetas nos meios políticos e guerrilheiros das organizações que lutavam no Peru e em outras partes do continente. Eu senti tantas vezes este desprezo pelos poetas por parte dos revolucionários, em parte justificada pelo excessivo intelectualismo com que a maioria dos poetas escreve seus poemas, sem aquela linguagem simples e sincera com que Javier escreveu seus versos. Em 1960 ele renuncia à influência surrealista, predominante no ambiente de elitismo literário que predominava nos meios universitários da Universidade de San Marcus e quando em janeiro de 1961 é convidado a participar do ciclo de eventos culturais “El Artista y La Época” no Instituto José Carlos Mariátegui, ao oferecer um recital com poemas de seu livro “El viaje”, declara :

“(…) que a poesia, longe de ser uma isolada e solitária criação do artista,”é um testemunho da grandeza e da miséria dos homens, uma voz que denuncia o horror e clama por solidariedade e por justiça;”(…) [19]

Estranhamente, nós, os poetas engajados, também éramos vistos com indiferença e até desprezo pelos próprios poetas não comprometidos com a história do seu tempo, um pouco semelhantes àqueles “poetas celestes” ironizados por Neruda em seu “Canto Geral”:

(…) “que fizeste

ante o reinado da angústia,

frente a este escuro ser humano,

a esta escarnecida compostura,

a esta cabeça submersa

no esterco, a esta essência

de ásperas vidas pisoteadas?” (…) [20]

Eu, contudo, considero todos os poetas meus irmãos nesta busca pelos tantos caminhos que levam ao encanto, à “beleza pura”, mas também à justiça e à liberdade. Em outubro de 1969, em Cochabamba, participando de um Congresso Nacional de Poetas, embora tenha sentido essa frieza por parte de alguns poetas participantes, — quem sabe “maculados” com o caráter político dos meus versos — resolvi “convocá-los”, e a todos os poetas da América, escrevendo, naqueles dias, o poema “ O sonho do semeador” :

(…) Poetas da América…

mais que nunca é preciso cantar

é preciso fazer com que as palavras sejam uvas

é preciso embriagar os homens

para que todos conheçam o sabor da vida.

É preciso alistar nosso lirismo

desertado das fileiras dessa luta.

Desertado pelos que não comprometem a estesia do seu canto…

que falam de flores

indiferentes aos campos calcinados da pátria,

que declamam seus versos de amor

cegos aos transeuntes da fome e do abandono

e é missão dos poetas cantar seus olhos de súplica

denunciar que a morte ronda seus ventres

e que eles são milhares nas barriadas

tugúrios e calhampas das vossas cidades

nas favelas do meu país

na verdade eles são milhares em todas as nacionalidades

e é preciso que eles sejam celebrados na beleza da poesia

é preciso decantar seu desencanto

e reconstruir, para eles, a esperança.

E por isso,

quando me perguntam de que vale um poeta no mundo

eu respondo com meu canto de filho proletário

com minha infância descalça e sem brinquedos

com todas as crianças do mundo que fui em meu estômago de água…

e só assim posso ouvir meu coração de povo

sentir meu canto nascer como um grito de combate

e eis porque deve nascer uma canção na América

para que possamos semear o sonho no coração dos homens

para que possamos metralhar com um punhado de palavras.(…)[21]

Javier Heraud sentiu também essa estranheza por parte de alguns militantes com quem compartilhou as fileiras guerrilheiras, já que ele sempre escrevia e falava de poesia durante suas atividades como combatente. Muitos de seus companheiros somente compreenderam a sua dimensão como poeta depois de sua morte. Alguns deles deram depoimentos nesse sentido, relembrando seu desprezo pela poesia e penitenciando-se, posteriormente, com uma sincera “mea culpa”. Muitos revolucionários latinoamericanos e brasileiros achavam muito estranho que eu tivesse que fugir do Brasil em função da minha poesia. Contudo o caso de Heraud era um fato isolado, porque pude constatar pelos caminhos que, depois de sua morte, tudo mudou e sua imagem de poeta renascia a cada dia. Renascia na voz e nas tantas canções que lhe fez a extraordinária cantora peruana Chabuca Granda. Renasceu nos monumentos que se erguem em seu nome, nas tantas edições de sua obra reunida e, projetando-se na história literária do continente. O escritor italiano Giuseppe Bellini, considerado o principal crítico e estudioso da literatura hispanoamericana na Europa, cita duas vezes Javier Heraud em sua abrangente Historia de la literatura hispanoamericana. Numa delas, ao referir-se ao grande poeta salvadorenho Roque Dalton García (1935-1975), comenta seu assassinato dentro da própria organização em que militava, afirmando que:

“se converteu em símbolo — como o peruano Heraud e o argentino Urondo — do compromisso da poesia latinoamericana ante a história” [22].

A poesia de Heraud tem aparecido em importantes antologias poéticas latinoamericanas, e já desde aqueles anos, como na “Poesia Rebelde de América” organizada pelo escritor equatoriano Miguel Donoso Pareja e lançada em 1971 na Cidade do México, [23] onde aparece publicado seu conhecido poema Yo no me rio de la muerte :[24]

Eu nunca rio

da morte.

Simplesmente

acontece que

não tenho

medo

de

morrer

entre

pássaros e árvores.

Eu não rio da morte.

Mas às vezes tenho sede

e peço um pouco de vida,

às vezes tenho sede e pergunto

diariamente e, como sempre

acontece, não encontro respostas

mas sim uma gargalhada profunda

e negra. Já disse que nunca

costumo rir da morte

mas conheço sua branca

face, sua tétrica vestimenta.

Eu não rio da morte.

Contudo, conheço sua

branca casa, conheço sua

branca vestimenta , conheço

sua umidade e seu silêncio.

É claro, a morte não

me visitou ainda,

e voces perguntarão: o que

sabes dela? Eu não sei nada.

Também isso é verdade.

Mas sei que quando ela chegar

eu a estarei esperando

eu a estarei esperando de pé

ou talvez tomando o café da manhã.

Eu a olharei brandamente

(Não irei me assustar!)

e como eu nunca ri

de seu manto, eu a acompanharei,

sozinho e solitário.

9. Nos passos da posteridade

Depois de sua morte o Exército de Liberacão Nacional do Peru (ELN), em que militava, retomou a luta, em 1965, sob o comando de Héctor Béjar, e em sua memória a Organização passou a chamar-se Guerrilha Javier Heraud. Béjar, seu companheiro de armas desde os treinamentos militares no quartel Camilo Cienfuegos, em Cuba, — um dos poucos comandantes da guerrilha peruana que sobreviveu e posteriormente laureado com o Prêmio Literário Casa de Las Américas — referindo-se anos mais tarde ao poeta, testemunhou:

(…)”Creio que Javier é um caso extraordinário em que a poesia e a revolução se entrelaçam com uma força sem precedentes na nossa história. Javier continuou a escrever até mesmo na guerrilha (…) É evidente que também sua poesia mostra um desenvolvimento que infelizmente não é muito conhecido, porque grande parte de seus poemas foram perdidos com a sua morte. Mas, acredito que ele, embora seja difícil dizer isso, e sempre é muito arriscado dizer o que se possa pensar — de alguém que morreu –, que tenha decidido ser sobretudo um combatente, um revolucionário. Essa era a sua atitude” (…)[25]

Um mês depois do seu assassinato em Puerto Maldonado, realizou-se em Lima, na Universidade Nacional de Engenharia, uma homenagem à sua memória, na qual estava presente uma das maiores expressões da literatura peruana da época: José Maria Arguedas. O autor de Rios Profundos, entre outras verdades, disse:

(…) “E agora me permitam dizer algumas palavras sobre o puríssimo poeta Javier Heraud cuja afeição ganhei honestamente.

Tendo em conta a personalidade de Javier Heraud, apenas duas possibilidades lhe foram oferecidas no Peru: a glória literária, ou o martírio. Preferiu a mais árdua, a que não oferece as recompensas a que humanamente aspiram quase todos os homens. É raro que num país como o nosso se apresentem exemplos como este.

Até o dia de hoje, os que têm a responsabilidade do governo e do destino do Peru, não permitiram um único campo de ação sequer para aqueles que anseiam a verdadeira justiça, ou seja, o caminho aberto para a igualdade econômica e social que corresponda à igualdade da natureza humana; esse caminho é o da rebelião, do assédio e o da morte. Javier o escolheu, mas não nos esqueçamos que ele foi forçado a escolher. Talvez tivesse agido de forma diferente em um país sem tanta crueldade para os despossuídos, sem a crueldade que se requer para manter as crianças escravas, “colonos” escravos e “barriadas” onde o cão sem dono e a criança abandonada comem o lixo, juntos.

Para aqueles que estão cegos pelo egoísmo e furiosos contra os que clamam por um pouco de justiça, a morte de Javier, por mais que pretendam desfigurá-la, é uma advertência suficientemente eloquente, talvez a única eficaz, para os outros egoístas de todo tipo; estudantes ou não, escritores que tratam apenas de lavrar sua “glória” e não expressam a vida com maior pureza, o caso de Heraud é também uma advertência. Acho que Javier encontrou a imortalidade verdadeira, aquela que a poesia, por si só, quem sabe não lhe teria dado. Não o esqueçamos.” (…) [26]

Quando em 1989, Cecilia Heraud Perez , irmã do poeta, editou, em Lima, seu livro Vida y muerte de Javier Heraud (Recuerdos, testimonios y documentos), revelou cartas e poemas inéditos, bem como muitos depoimentos de poetas, amigos e sobreviventes das guerrilhas. Há relatos emocionantes sobre o caráter cristalino de Javier e os sentimentos de solidariedade e a imensa compaixão que ele tinha pelos que sofriam necessidades e injustiças. Numa passagem, na página 198, o ex-guerrilheiro Manuel Cabrera conta que chegando a La Paz, a caminho do Peru, estavam ambos hospedados no hotel Ferrocarril, quando numa noite ouviram os gritos desesperados de uma mulher sendo agredida. — Vamos interverir –disse ele. Cabrera respondeu que não, já que poderiam ter problemas com a polícia. – Mas como, — respondeu ele indignado –vamos deixar que matem essa mulher? Não podemos pôr a missão em risco, respondeu Cabrera. Na manhã seguinte, viram o sangue no corredor e souberam que quem estava espancando a mulher era um agente da PIP, a Policia de Investigações. Cabrera conclui o episódio expressando: “Así era Javier de sensible”. O livro traz outros depoimentos destacando seu caráter fraterno e compassivo, mas nosso espaço não comporta tantas informações. Cecilia Heraud revelou também, entre os versos inéditos do Javier, um de seus mais belos e longos poemas: Oda a Pablo Neruda. São 20 cantos, onde ao longo de 265 versos ele evoca, com refinado lirismo, partes da temática do Canto Geral e outras obras de Neruda. Reproduzimos aqui, pelas mesmas limitações de espaço, apenas os três primeiros cantos:

I

Vieste a mim como um

rápido corcel. Me trazias

unhas duras e douradas

e uvas secas e

invisíveis.

Eras erva enredada em

teu cabelo, entrelaçada

árvore, te fizeste

ouro, alma te tornaste

em minha alma.

II

Agora és a rosa

que hoje se anuncia.

E então foste a voz

seca do carvalho

endurecido.

E novamente és

a luz e a luz

iluminada.

III

Tu eras canto

num mundo de oferendas.

Eras pão e pedra

perfurada. Eras

frescor, inumerável,

escrevendo no

coração, no

pássaro, na

água enrugada.” (…)[27]

No mês seguinte da morte do poeta, Neruda enviou esta carta à familia Heraud:

Universidade do Chile

Ilha Negra, junho de 1963

Li com grande emoção as palavras de Alejandro Romualdo sobre Javier Heraud. Também o valioso exame de Washigton Delgado, os protestos de Cesar Calvo, de Reinaldo Naranjo, de Arturo Corcuera, de Gustavo Valcárcel. Também li o comovente relato de Jorge A. Heraud, pai do poeta Javier.

Sinto que uma grande ferida foi aberta no coração do Peru e que a poesia e o sangue do jovem caído seguem resplandecentes, inesquecíveis.

Morrer aos vinte anos crivado de balas “desnudos e sem armas no meio do rio Madre de Dios, quando estava à deriva sem remos …” o jovem poeta morto ali, esmagado ali naquelas solidões pelas forças das trevas. Nossa América escura, nosso tempo escuro.

Não tive a ventura de conhecê-lo. Pelo que vocês contam, pelo que choram, pelo que recordam, sua curta vida foi um deslumbrante relâmpago de energia e de alegria.

Honra à sua memória luminosa. Guardaremos seu nome bem escrito. Bem gravado no mais alto e no mais profundo para que continue resplandecendo. Todos o verão, todos o amarão no amanhã, na hora da luz.

Pablo Neruda [28]

Além da mensagem de Neruda chegou de Havana, em Julho de 1963, uma carta do premiado poeta cubano Nicolás Guillén, dirigida ao poeta Gustavo Valcárcel, lamentando a morte de Heraud e comentando que os (…)“jóvenes cubanos que hoy lo lloran,  lo quisieron como hermano, pues fraternal era su corazón tanto como lúcida su inteligencia.”(…)

E entre os documentos inéditos, o livro de Cecília Heraud revelou também esta carta:

Nov. 62. Havana, Cuba

Querida mãe:

“Não sei quando poderás ler esta carta. Se a leres significa que algo aconteceu na Serra e que já não poderei saudar-te e abraçar-te como sempre. Se soubesses quanto te amo! Se soubesses que agora que me disponho a sair de Cuba para entrar em minha pátria e abrir uma frente guerrilheira penso mais que nunca em ti, em meu pai, em meus irmãos tão queridos!

Vou à guerra pela alegria, por minha pátria, pelo amor que tenho, por tudo enfim. Não me guardes mágoa se algo me acontecer. Eu quisera viver para agradecer o que fizeste por mim, mas não poderia viver sem servir ao meu povo e a minha pátria. Isso tu bem sabes, pois me criaste honrado e justo, amante da verdade e da justiça.

Porque sei que minha pátria mudará, sei que tu também te acharás ditosa e feliz, em companhia de meu pai amado e de meus irmãos. E que minha ausência logo será preenchida com a alegria e a esperança da pátria.

Te beija, teu filho,

Javier.” [29]

No dia 2 de maio de 2008 os restos mortais de Javier Heraud são trasladados de Puerto Maldonado para Lima. A cada ano, no dia 15 de maio, crescem as manifestações em sua homenagem por todo o Peru. Poetas declamam seus versos, conferências e palestras são proferidas por escritores, intelectuais e ex-guerrilheiros. Cantores entoam as tantas canções feitas em sua memória e novos artigos e ensaios são publicados sobre sua poesia. As organizações de esquerda relembram a bandeira que empunhou, seu heroísmo e seu martírio e o Governo peruano, através da Secretaria Nacional da Juventude, promove nacionalmente o Prêmio Juvenil de Poesia “Javier Heraud”, para jovens poetas entre 15 e 28 anos. Além dos três livros já citados, sua produção sempre foi incessante seguindo-se as obras Poemas de la tierra, Viajes Imaginários e Ensayo a dos voces (Escrito com César Calvo). Postumamente foram publicados seus Poemas de Rodrigo Machado e Otros poemas dispersos de Javier Heraud.

Quantos sonhos se aninharam em seus breves anos! Quanta beleza ansiava florescer na aldeia de sua alma! Morrer aos 21 anos quando se é poeta!!! — Temos célebres exemplos em nosso Romantismo: Álvares de Azevedo, aos 20, Casimiro de Abreu, aos 21 e Castro Alves, aos 24. — Deixar, com tão poucos anos, oito livros e quando os mais belos versos certamente ainda moravam no amanhã. Morrer infante, quando todas as flores e frutos ainda são promessas e a vida transita entre a seiva e a semente. Morrer poeta com uma lira apenas dedilhada, quando suas palavras cantavam novos hinos libertários. Morrer guerrilheiro, com uma trincheira apenas entreaberta nos seus passos, e morrer assim, abatido no primeiro embate, interrompendo uma alvorada, abortando a esperança. Mas, se a morte surge como um gesto de resistência e de renúncia, na encruzilhada dessa luta milenar entre opressores e oprimidos, o guerreiro cai para erguer-se na memória luminosa da posteridade, na saudade imperecível dos amores e nos anais da história e da pátria agradecida.

Leitor amigo, se um dia fores a Lima, visite o túmulo do poeta peruano Javier Heraud no Cemitério Los Jardines de La Paz. Ali jaz o que de mortal ficou de um coração nobre, valente e compassivo. Um ser humano que deu tudo sem nada pedir. Deu sua imensa pureza no lírico sabor de sua poesia e deu sua vida, ainda em botão, por um sonho de amor e de justiça. Pediu apenas que, sobre seus restos, a vida continuasse a florescer:

Quero que saiam dois gerânios dos meus olhos,

de minha fronte duas rosas brancas,

e de minha boca, (por onde saem minhas palavras)

um cedro forte e perene

que me dê sombra

quando arder dentro e fora,

que me dê vento

quando a chuva dispersar meus ossos.

Jogem-me água, todas as manhãs,

fresca e de um rio próximo

que eu serei o adubo

das minhas próprias plantas.[30]

Referências, notas e traduções:

[1] Esse artigo integra o texto de um livro que o autor está escrevendo sobre os anos que passou na América Latina , nas décadas de 60/70. As notas e traduções são do autor.

[2] HERAUD,.Javier. Poesías Completas, in: “Vida y muerte en la poesía de Javier Heraud” Lima, Campodónico Ediciones, 1975.

(…) “Y recordé mi triste pátria /mi pueblo amordazado /sus tristes niños, sus calles /desplobadas de alegría. /Recordé, pensé, entreví sus /plazas vacías, su hambre /su miseria en cada puerta. /Todos recordamos lo mismo /triste Peru, dijimos, aún es tiempo /de recuperar la primavera”,/ de sembrar de nuevo los campos, // Triste Peru, aguarda, /nacerán nuevos ríos, / primaveras nuevas serán / devastadas por nuevos otoños / y en cada rostro brillará /la alegría rebosante /y la fortaleza del pueblo /reunido y santo.”

[3] HERAUD, Javier. Obra citada..

(…) Esta es Madrid, /éste es mi corazón /sangrando, /éste es nuestro camino, /y seguiré gritando la /verdad de los /bosques apagados, /La verdad de las rosas /caídas,/la verdad de Espana / y sus historias.”

[4] PEREZ, Cecília Heraud. Vida y muerte de Javier Heraud. Lima, Mosca Azul Editores, 1989, p.142.

(…) “Es el planteamiento falso de este llamado “socialismo humanista” lo que esta condicionando toda la marcha del Movimiento y que lo lleva a una praxis equivocada. Yo no creo que sea suficiente llamarse revolucionario para serlo…”. Luego diría: “De ahora en adelante , me enrumbaré por la ruta definitiva donde brilla esplendorosa el alba de la humanidad.”

[5] HERAUD, Javier. Op. Cit.

Porque mi patria es hermosa / como una espada en el aire / y mas grande ahora y aún mas hermosa todavía / yo hablo y la defiendo / con mi vida. // No me importa lo que digan /los traidores, / hemos cerrado el pasado. / Con gruesas lagrimas de acero. //El cielo es nuestro, /nuestro el pan de cada día, / hemos sembrado y cosechado / el trigo y la tierra /son nuestros /y para siempre nos pertenecen / el mar /las montañas y los pajaros.

[6] Idem.

“Recuerda tú, recuerden todos que mi cariño y mi amor crecerán siempre, que nada ni nadie nos podrá separar aunque estemos lejos, y que algún día nos reuniremos para cantar y llorar juntos, para abrazarnos y querernos más. Y que yo siempre seré el niño a quien tú tuviste en brazos aunque haya crecido por este tiempo que avanza y destroza los años, pero no los recuerdos”.

[7] INGENIEROS, José. O homem medíocre. Rio de Janeiro. Tupã Editora. 9ª ed., s/d

[8] HERAUD, Javier. Op. cit., in “Vida y muerte en la poesía de Javier Heraud”

“No deseo la victoria ni la muerte, / no deseo la derrota ni la vida, /sólo deseo el árbol y su sombra,

la vida con su muerte”.

[9] .HERAUD, Javier, El Río. Colección Cuadernos del Hontanar, Lima, 1960

Yo soy un río, /voy bajando por /las piedras anchas,/ voy bajando por /las rocas duras, /por el sendero /

dibujado por el /viento./ Hay árboles a mi /alrededor sombreados /por la lluvia./Yo soy un río, /bajo cada vez más / furiosamente, /más violentamente /bajo /cada vez que /un puente me refleja / en sus arcos.// Yo soy un rio / un rio / un rio / cristalino en la /mañana. / A veces soy / tierno y / bondadoso. Me / deslizo suavemente / por los valles fértiles, / doy de beber miles de veces / al ganado, a la gente dócil. Los niños se me acercan de / día, / y / de noche trémulos amantes / apoyan sus ojos en los míos, / y hunden sus brazos / en la oscura claridad / de mis aguas fantasmales.

[10] PEREZ, Cecília Heraud. Opus cit., p.84.

[11] Idem, p. 98.

(…) “Aqui no puedo desperdiciar una hora. Hay muchas cosas, insisto, que tengo que aprender: Música, pintura, teatro, museos, ciencias, libros, etc. Quiero formarme bien para después ser útil a mi revolución y a mi país.” (…)

[12] Idem, p. 96-97.

(…) En esos días nos vimos mucho, prácticamente todos los días, conversamos largo y parejo. Se estableció una relación muy cordial, muy estrecha porque él era una persona sumamente afectuosa, sumamente sencilla, con una cosa muy pura, ingenua, tenía algo candoroso en el mejor sentido de la palabra.

(…) El viaje había sido un factor de radicalización para él. Estava en esos momentos creo, militando en el Social Progresismo y al regreso de la Unión Soviética, ya en París, todos vivíamos en esse momento una radicalización. Yo también estaba bastante redicalizado, sobre todo con el entusiasmo que había despertado en todos nosotros la revolución cubana.

Javier participaba absolutamente de esse sentimiento, de esa actividad y esse fue uno de los temas largos de conversasión. Hablamos mucho de política, de esta impresión que le había hecho el viaje, de esa radicalización suya, de la problemática peruana, pero también mucho de literatura, porque la vocación literária de Javier era enorme, una vocación realmente muy fuerte, evidente, es decir, era una cosa que estaba en él a flor de piel. Me habló de un proyeto de escribir baladas, una serie de baladas sobre temas muy sencillos, muy simples, una poesia narrativa, casi didáctica. (…) una poesia popular en el buen sentido de la palabra, acompañada de una exigencia literaria .

(…) Tenía 19 años, era grande, alto, más bien fuerte, con unos ojos claros y al mismo tiempo con una transparencia que inmediatamente seducía. A mí me sedujo muchísimo la personalidad de él y me senti realmente en una comunicación muy estrecha, en una buena amistad con él, a pesar de que fue un contacto rápido y pasajero.

Después, él se fue a Madrid por unos dias, de donde recibí una postal. Regresó al Peru y me escribió, carta bastante atormentada donde me habla de una crisis muy profunda que por una parte es una crisis política, por la crisis que vivía el país, por la atmósfera represiva, bastante desesperanzada politicamente (…)

Quando Javier estuvo en Paris, acabava de escribir La ciudad y los perros. Yo le leí a Javier capítulos de la novela, la descripción de La Victoria, de un personaje que va al jirón Huatica donde andan las prostitutas, recuerdo haberle leído eso y haberle preguntado si su generación todavía tenía esos ritos, como la mía, o era una generación que ya cambió de ritos. “Esa descripción — me dijo — me molesta um poco”.

[13] Idem.,. p. 177-178

“Yo salí unos días a La Habana por un encargo que tenía que cumplir y un miembro del Gobierno Cubano, de Relaciones Exteriores me dijo:

– Hay un peruano, un amigo de ustedes que busca a Javier, hace varios días que quiere hablar con él. Es un escritor que viene de Europa.

Llegué a hablar con él, era Vargas Llosa, y he conversado con él en el hotel Riviera preguntádole el motivo por el que queria ver Javier.(…)

(…) Yo recuerdo claramente, estoy en el hall del hotel Riviera de La Habana a donde hemos ido buscar a algunas personas y también a Mario Vargas Llosa pues le habían dicho a Javier que lo estaba buscando. Lo llaman y Vargas Llosa sale, me saluda brevemente a mí y se abraza con él, lo recuerdo perfectamente.” (…).

[14] http://elgatodescalzo.wordpress.com/2009/11/12/rosina-valcarcel-aun-es-tiempo-de-recuperar-la-primavera/

“De La Habana a Bolivia habíamos viajado por diferentes rutas para lograr nuestra finalidad de entrar armados al país. Con Javier Heraud me vi nuevamente en La Paz. “Nos cruzamos sin dirigirnos la palabra pues viajábamos clandestinos. Cuando surcábamos el río Chapare, en Cochabamba, nos volvimos a ver; a propósito de un círculo que se organizó con él, Héctor Béjar, Abraham Lama (Junco) y yo. En las orillas del río, entre otros puntos, tratamos sobre el realismo socialista y la presencia canónica de Joyce y Proust. En ese debate Javier, que era muchos años menor que nosotros, destacó. La forma de plantear el problema y el desarrollo no esquemático que le dio al papel de la literatura en el proceso de la revolución socialista fue convincente en el círculo que se caracterizaba por su posición crítica a los sesgos que entonces iba tomando el realismo socialista.” (Tradução e nota do autor)

[15] Certamente a visão crítica que Javier Heraud tinha do realismo socialista, que ainda vigorava naqueles anos, referia-se, não a legítima opção política que a arte poderia (ou deveria) ter, retratando o papel cultural e singelo das classes operária e camponesa numa sociedade socialista em construção, como propôs Máximo Gorki em 1934 — e como foi notavelmente colocada por Georg Lukács, enfatizando a importância do realismo socialista na arte e literatura e repudiando as abstrações do modernismo — mas ao papel castrador que o stalinismo vinha tomando em relação à liberdade da arte, no endeusamento pessoal do próprio Stalin, na glorificação do regime soviético, e na dependência política da arte e da literatura ao partido e ao poder.

[16] http://www.cedema.org/uploads/JosLuisRnique.doc

(…) “Conversé mucho con Heraud. Un joven de extracción distinta a la del promedio. Un verdadero intelectual a pesar de su juventud. Una promesa. Tenía posibilidad de ir a Europa pero estaba ahí, en la Sierra Maestra. Vacilaba. Tenía dudas.” Cuando, de retorno a La Habana, sin embargo, Fidel confrontó al grupo con la opción definitiva –¿profesión o revolución?— el poeta cruzó el Rubicón hacia la lucha armada. Había nacido Rodrigo Machado. Nadie como él expresaría el ánimo con que dicho compromiso se asumía:

“Rodrigo Machado nació un día del mes de julio en La Habana, el año de 1962. (Su edad no se sabe aún pues tiene la edad de la lucha de su pueblo). La guerra contra el imperialismo a la que irá conjuntamente con 40 camaradas, dirá o callará los años que él ha de cumplir. ¿Se quedará en algún monte regado con una bala en el cuerpo? ¿Seguirá de viaje a la esperanza o lo enterrarán en el lecho de algún río, entonces enteramente seco? No, pero los ríos de la vida, de la esperanza, seguirán afluyendo con torrentes cristalinos. Porque en el río está la vida de un hombre de muchos hombres, de un pueblo de muchos pueblos. Y Rodrigo Machado, de pie o acostado, seguirá cantando con un fusil al hombre, porque el fusil será uno de los medios para lograr la liberación. Y una vez liberados, los hombres dignos y honrados dirán la verdad a todo el mundo sobre nuestro pueblo, sobre sus luchas y su futura vida. Sólo entonces, Rodrigo Machado y con él los 40 que partieron hacia la vida (de pie o debajo de la tierra) se sentirán felices y dichosos.”

[17] . ANDRADE, Manoel de. Poemas para a liberdade. Escrituras, São Paulo, ed. Bilíngue, 2009, p .96-99.

Con treinta balazos de ódio / sus dulces ojos temblaron /crimen tan grande señores /árboles y pájaros lloraron. // Y cayó muerto el poeta /inmensa alma alumbrada. / Como él cayeron otros / Byron cayó en la Grecia / García Lorca en Granada. // — Díme hermano campesino…/ ¿por qué murió Javier?— ¡/Por su sueño, viajero! / porque hay hombres que nacen / con sangre predestinada. / Javier murió de justo / por el pan de cada dia / murió por la gente pobre / por su hambre y su agonía. // Ay poeta, hermano mio /verde cigarra de espanto / en tu cuerpo acribillado / la sangre escurrió tu canto. // Y la noche conmemoró // la victoria de los generales /el pueblo vendrá mañana /con su voz de mil puñales. //Me contaron que hay un sitio /donde un río canta doliente /dicen que sus aguas lloran /por la muerte de un valiente.

[18] ANDRADE, Manoel de. Poemas de América Latina. Arequipa, Centro Federado de Letras e Federación Universitária de Arequipa, 1970.

“La revolución no es una palabra. Es una tarea heroica que deve ser iniciada sin demora, aqui y ahora. Esto debiera ser comprendido por todos nosotros. También debieramos comprender que la revolución es modelo de conducta a seguir, para que después podamos decir con plenitud como Javier Heraud: “Supe vivir y supe morir como hombre digno”.

[19] PEREZ, Cecília Heraud. Op. cit., p. 121.

“(…) que la poesia, lejos de ser una aislada y solitária creación del artista, es un testimonio de la grandeza y la miséria de los hombres, una voz que denuncia el horror y clama la solidariedad e la justicia; (…)

[20] NERUDA,Pablo. Canto Geral. Trad. Paulo Mendes Campos. São Paulo: Difel, 1979, p. 180.

[21] ANDRADE, Manoel de. Poemas para a liberdade. p. 73.

[22] BELLINI,Giuseppe. Historia de la literatura hispanoamericana. Madrid, Editorial Castalia, 1986, p. 443.

“se ha convertido en símbolo — como el peruano Heraud y el argentino Urondo –del compromiso de la poesía latinoamericana frente a la historia”

[23] Donoso Pareja, na época exilado na capital mexicana, presenteou-me a excelente antologia que selecionou e prefaciou, num dos encontros que lá tivemos em meados de 1971. Apesar de Javier Heraud ainda não ser conhecido fora de seu próprio país, seus versos já partilhavam aquelas páginas com grandes poetas latinoamericanos como Neruda, Vallejo, Gelman, Guillén, Adoum, Cardenal, Benedetti, e os brasileiros Drummond, Bandeira, Vinicius, Gullar, Romano e outros.

[24] PAREJA, Miguel Donoso. Poesia Rebelde de América, Ciudad de México, Extemporáneos, 1971, p. 345.

Yo nunca me rio /de la muerte. / Simplemente / sucede que / no tengo / miedo /de /morir /entre /pájaros y arboles //Yo no me río de la muerte. /Pero a veces tengo sed /y pido un poco de vida, /a veces tengo sed y pregunto/ diariamente, y como siempre /sucede que no hallo respuestas / sino una carcajada profunda /y negra. Ya lo dije, nunca / suelo reir de la muerte, / pero sí conozco su blanco /rostro, su tétrica vestimenta. // Yo no me río de la muerte. / Sin embargo, conozco su / blanca casa, conozco su / blanca vestimenta, conozco / su humedad y su silencio. // Claro está, la muerte no //me ha visitado todavía, //y Uds. preguntarán: ¿qué // conoces? No conozco nada. // Es cierto también eso. /Empero, sé que al llegar /ella yo estaré esperando, / yo estaré esperando de pie /o tal vez desayunando. /La miraré blandamente/ (no se vaya a asustar) / y como jamás he reído / de su túnica, la acompañaré, / solitario y solitario.

[25] BÉJAR, Héctor.Rivera. Perú 1965: apuntes sobre una experiencia guerrillera. La Habana: Casa de las Américas, 1969.

(…) “Yo creo que Javier es un caso extraordinario en el que la poesía y la revolución se entrecruzan con una fuerza inédita en nuestra historia. Javier siguió escribiendo incluso en la guerrilla (…) Es evidente que también su poesía, acusa una evolución que desgraciadamente no es muy conocida porque gran número de sus poemas se perdieron con su muerte. Pero, creo que él, aunque sea difícil decir esto, y siempre es tan riesgoso decir lo que ha podido pensar –de alguien que ha muerto – había decidido ser sobre todo un combatiente, un revolucionario. Esa era su actitud (…)”

[26] PEREZ, Cecília Heraud. Op. cit., p. 130-1.

(…) Y ahora permítanme decir unas palabras sobre el purísimo poeta Javier Heraud cuyo afecto gané honestamente.

Dada la personalidad de Javier Heraud, sólo dos posibilidades se le ofrecían en el Perú: la gloria literaria o el martirio. Prefirió la más ardua, la que no ofrece recompensas a las que humanamente aspiran casi todos los hombres. Es raro que en un país como el nuestro se presenten ejemplos como éste.

Hasta el día de hoy, quienes tienen la responsabilidad del gobierno y del destino del Perú no han permitido sino un solo campo de acción para quienes anhelan la justicia verdadera, es decir, el camino abierto hacia la igualdad económica y social que a la igualdad de la naturaleza humana corresponde; ese camino es el de la rebelión, el de acoso y el de la muerte. Javier lo eligió; pero no olvidemos que lo obligaron a elegir. Quizá habría procedido de otro modo en un país sin tanta crueldad para los desposeídos, sin la crueldad que se requiere para mantener niños esclavos, “colonos” esclavos y barriadas en que el perro vagabundo y el niño sin padre comen la basura, juntos.

Para los que están ciegos de egoismo y de furor contra los que claman por un poco de justicia, la muerte de Javier, por mucho que pretendan desfigurarla, es una advertencia suficientemente elocuente, quizá la única eficaz, para los otros egoístas de todo tipo; estudiantes o no, escritores que únicamente se ocupan de lavrar “su gloria” y no de expresar la vida con la mayor pureza, el caso de Heraud es también una advertencia. Creo que Javier ha encontrado la inmortalidad verdadera que la poesía por sí sola acaso no le habría dado. No lo olvidemos.” (…)

[27] Idem., p. 125-6

I- Viniste a mí como un/ rápido corcel. Me traías/ uñas duras y doradas,/ uvas secas e/ invisibles./ Eras enredadera en/ tu pelo, te mezclaste/ árbol, te volviste/ oro, alma te tornaste/ en mi alma. // II- Ahora eres la rosa/ de hoy en el anuncio./ Luego fuiste la voz/ seca del roble/ endurecido./De nuevo eres la/ luz y la luz/ esclarecida. // III- Tú eras canto en el/ mundo ofrendado. Tu/ eras pan y piedra/ agujereado. Eras/ fresco, innumerable,/ escribiendo en el/ corazón, en el/ pájaro, en el/ agua rugosa.(…)

[28]http://www.muladarnews.com/2011/01/correspondencia-sobre-el-poeta-javier-heraud/

Uni¬ver¬si¬dad de Chile

ISLA NEGRA, Julio de 1963

He leído con gran emo¬ción las pala¬bras de Ale¬jan¬dro Romualdo sobre Javier Haraud. Tam¬bién el vale¬roso exa¬men de Washig¬ton Del¬gado, las pro¬tes¬tas de Cesar Calvo, de Reinaldo Naranjo, de Arturo Cor¬cuera, de Gus¬tavo Val¬cár¬cel. Tam¬bién leí la des¬ga¬rra¬dora rela¬ción de Jorge A. Heraud, padre del poeta Javier.

Me doy cuenta de que una gran herida ha que¬dado abierta en el cora¬zón del Perú y que la poe¬sía y la san¬gre del joven caído siguen res¬plan¬de¬cien¬tes, inolvidables.

Morir a los veinte años acri¬bi¬llado a bala¬zos “des¬nudo y sin armas en medio del río Madre de Dios, cuando iba a la deriva, sin remos…” el joven poeta muerto allí, aplas¬tado allí en aque¬llas sole¬da¬des por las fuer¬zas oscu¬ras. Nues¬tra Amé¬rica oscura, nues¬tra edad oscura.

No tuve la dicha de cono¬cerlo. Por cuando uste¬des lo cuen¬tan, lo llo¬ran, lo recuer¬dan, su corta vida fue un des¬lum-brante relám¬pago de ener¬gía y de alegría.

Honor a su memo¬ria lumi¬nosa. Guar¬da¬re¬mos su nom¬bre bien escrito. Bien gra¬bado en lo más alto y en los más pro-fundo para que siga res¬plan¬de¬ciendo. Todos lo verán, todos lo ama¬rán mañana, en la hora de la luz.

Pablo Neruda

[29] PEREZ, Cecília Heraud. Op. Cit., p. 220.

Nov 62. La Habana. Cuba./

Que¬rida madre: /No sé cuándo podrás leer esta carta. Si la lees quiere decir que algo ha suce¬dido en la Sie¬rra y que ya no podré salu¬darte y abra¬zarte como siem¬pre. ¡si supie¬ras cuánto te amo!, ¡si supie¬ras que ahora que me dis¬pongo a salir de Cuba para entrar en mi patria y ab¬rir un frente gue¬rri¬llero pienso más que nunca en ti, en mi padre, en mis her-mano tan queridos!

Voy a la gue¬rra por la ale¬gría, por mi patria, por el amor que te tengo, por todo en fin. No me guar¬des ren¬cor si algo me pasa. Yo hubiese que¬rido vivir para agra¬de¬certe lo que has hecho por mí, pero no podría vivir sin ser¬vir a mi pue¬blo y a mi patria. Eso tú bien lo sabes, y tu me criaste hon¬rado y justo, amante de la ver¬dad, de la justicia.

Por¬que sé que mi patria cam¬biará, sé que tú tam¬bién te halla¬rás dichosa y feliz, en com¬pa¬ñía de mi padre amado y de mis her¬ma¬nos. Y que mi vacío se lle¬nará pronto con la ale¬gría y la espe¬ranza de la patria.

Te besa/ Tu hijo/ Javier

[30] Idem, p. 218.

Quiero que salgan dos/ geranios de mis ojos, de/ mi frente dos rosas blancas, /y de mi boca,/ (por donde salen mis palabras)/ un cedro fuerte y peremne,/ que me dé sombra cuando/ arda por dentro y por fuera,/ que me dé viento cuando la lluvia/ desparrame mis huesos./Echadme agua, todas las/ mañanas,fresca y del rio/ cercano, que yo seré el abono de/ mis propios vegetales.

 

CHARLES BAUDELAIRE (1821 – 1867) – por danilo corci

 

O homem que mudou a literatura moderna. Definir o francês Charles Baudelaire somente desta maneira não seria correto. Ficaria muito aquém de sua verdadeira importância. Tradutor, poeta, crítico de arte e literato, Baudelaire foi o ponto alto do século 19 nas letras.

Charles foi o único filho de Joseph-François Baudelaire e de sua jovem segunda esposa, Caroline Archimbaut Defayis. Seu pai havia sido ordenado como padre quando neófito, mas largou o ministério durante a revolução francesa. Trabalhou como tutor dos filhos do duque de Choiseul-Praslin, o que lhe proporcionou um certo status. Ganhou dinheiro e respeito e aos 68 anos se casou com Caroline, então com 26. Vivendo num orfanato e já passada da idade de se casar, ela acabou por não ter opção. Em 1819, se casaram. Charles-Pierre Baudelaire veio ao mundo um ano e meio depois, em 9 de Abril de 1821.

Seu pai era um admirador das artes. Pintava e escrevia poesias. E insistiu para que o filho seguisse o caminho. Baudelaire, anos mais tarde, se referiu à sofreguidão do pai como “o culto das imagens”. Mas a convivência entre ambos durou pouco. Em fevereiro de 1827, Joseph-François Baudelaire faleceu. O jovem Charles e sua mãe tiveram que se mudar para o subúrbio de Paris para não terem problemas financeiros. Em um de seus textos de 1861, Charles escreveu para a mãe: “Eu estive sempre vivo em você. Você foi totalmente minha”. Este tempo de convivência terminou quando Caroline se casou com o soldado Jacques Aupick, que conseguiu se tornar general e mais tarde serviu como embaixador francês para o Império Otomano e para Espanha, antes de se tornar senador do Segundo Império.

A vida acadêmica de Baudelaire começou no Collège Royal em Lyon, quando Aupick levou a família inteira ao assumir um cargo na cidade. Mais tarde, ele foi matriculado no Liceu Louis Le Grand, quando retornaram a Paris em 1836. Foi justamente ai que Baudelaire começou a se mostrar um pequeno gênio. Escrevia poemas, que eram execrados por seus professores, que acham que seus textos eram um exemplo de devassidão precoce, afeições que não eram normais em sua idade. A melancolia também dava sinais no jovem Charles. Aos poucos, ele se convenceu de ser um solitário por natureza. Em abril de 1839, acabou expulso da escola por seus atos de indisciplina constantes.

Mais tarde, ele se tornou aluno da Escola de Droit. Na verdade, Charles estava vivendo de maneira livre. Fez os seus primeiros contatos com o universo da literatura e contraiu uma doença venérea que o consumiu durante a vida inteira. Tentando salvar seu enteado do caminho libertino, Aupick o enviou para uma viagem à Índia, em 1841, uma forte inspiração para sua imaginação, e que trouxe imagens exóticas ao seu trabalho. Baudelaire retornou a França em 1842.

Neste mesmo ano, ele recebeu sua herança. Mas como dândi que era, consumiu rapidamente a pequena fortuna. Gastou em roupas, livros, quadros, comidas, vinhos, haxixe e ópio. Os dois últimos, um vício adquirido após consumir pela primeira vez entre 1843 e 1845, em seu apartamento no Hotel Pimodan. Pouco depois deste seu retorno, ele conheceu Jeanne Duval, a mulher que marcou definitivamente a sua vida. A mestiça primeiro se tornou sua amante e mais tarde, controlou sua vida financeira. Ela ira ser a inspiração para as poesias mais angustiadas e sensuais que o poeta escreveu. Seu perfume e o seus longos cabelos negros foram o mote da poesia erótica “La Chevelure”.

Charles Baudelaire continuou levando sua vida extravagante e em dois anos dilapidou todo o seu dinheiro. Também se tornou presa de agiotas e bandidos. Neste período, acumulou dívidas que o assombraram para o resto da vida. Em setembro de 1844, sua família entrou na justiça para impedi-lo de mexer no pouco dinheiro da herança que ainda sobrava. Baudelaire perdeu e acabou recebendo somas anuais, que mal dava para manter o seu estilo de vida e muito menos para pagar o que devia. Isto o levou a uma dependência brutal de sua mãe e ao ódio de seu padrasto. Seu temperamento isolacionista e desesperador, fruto de sua adolescência conturbada e que ele apelidou de “spleen” retornou e se tornou cada vez mais freqüente.

Após a sua volta a França, ele decidiu se tornar um poeta, a qualquer custo. De 1842 a 1846, ele compôs que mais tarde foram compilados na edição de “Flores do Mal” (1857). Baudelaire evitou publicar todos estes poemas separadamente, o que sugere que ele realmente tenha arquitetado em sua mente uma coleção coerente, governada por uma temática própria. Em outubro de 1845, compilou “As Lésbicas” e em 1848, “Limbo”, obras que representam a agitação e a melancolia da juventude moderna. Nenhuma das duas coleções de poemas foram lançadas em livros e Baudelaire só foi aceito no circuito cultural de Paris porque também era crítico de arte, trabalho que exerceu por um bom tempo.

Inspirado pelo exemplo do pintor Eugène Delacroix, ele elaborou uma teoria da pintura moderna, convocando os pintores a celebrarem e expressarem o “heroísmo da vida moderna”. O mês de janeiro de 1847 foi importante para Baudelaire. Ele escreveu a novela “La Fanfarlo”, cujo o herói, ou melhor, anti-herói, Samuel Cramer, um alter-ego do autor, oscila desesperado entre o desejo pela maternal e respeitável Madame de Cosmelly e o erótico pela atriz e dançarina Fanfarlo. Com este texto, Baudelaire começava a chamar a atenção, mesmo que timidamente.

Este anonimato acabou-se em fevereiro de 1848, quando participou de manifestações para a derrubada do Rei Luís Felipe e para a instalação da Segunda República. Consta que comandou um violento ataque contra o general Aupick, seu padrasto, então diretor da Escola Politécnica. Este acontecimento leva vários especialistas a minimizarem a participação do do poeta burguês nesta revolução, já que seus motivos não seriam sociais e políticos mas sim pessoais, que ainda não havia publicado nada. Porém, estudos recentes assumem uma veia política brutal em Baudelaire, em especial sua associação com o anarquista-socialista Pierre-Joseph Proudhon. Sua participação na revolta de proletários em junho de 1848 é comprovada e também na resistência contra os militares de Napoleão 3º, em dezembro de 1851. Logo após este episódio, o poeta declarou encerrado seu interesse em política e voltou toda a sua atenção para seus escritos.

Em 1847, ele descobriu um escritor norte-americano obscuro: Edgar Allan Poe. Impressionado pelo que leu e pelas similaridades entre os escritos de Poe com seu próprio pensamento e temperamento, Baudelaire decidiu levar a cabo a tradução completa das obras do norte-americano, trabalho este que lhe tomou boa parte do resto de sua vida. A tradução do conto “Mesmeric Revelation” foi publicado em julho de 1848 e depois, outras traduções apareceram em jornais e revistas antes de serem compiladas no livro “Histórias Extraordinárias” (1856) e “Novas Histórias Extraordinárias” (1857), todas precedidas por introduções críticas feitas por Charles Baudelaire. Depois se seguiu “As Aventuras de Arthur Gordon Pym” (1857), “Eureka” (1864) e Histórias Grotescas” (1865). Como tradução, estes trabalhos foram clássicos da prosa francesa, e o exemplo de Poe deu a Baudelaire uma confiança em sua própria teoria estética e ideais para a poesia. O poeta também começou a estudar o trabalho do teórico conservador Joseph de Maistre, que, junto com Poe, incentivaram seu pensamento a ir numa direção antinaturalista e anti-humanista.

Do meio de 1850, ele iria se pronunciar arrependido de ser um católico romano, apesar de manter sua obsessão pelo pecado original e pelo demônio. Tudo isto sem a fé no amor e perdão de Deus, e sua crença em Cristo se rebaixou tanto a ponto de praticamente não existir mais.

Entre 1852 e 1854, ele dedicou vários poemas à Apollonie Sabatier, sua musa e amante apesar da reputação de cortesã da alta-classe. Em 1854, Baudelaire manteve um caso com a atriz Marie Daubrun. Ao mesmo tempo, sua fama como o tradutor de Poe aumentava. O fato de ser crítico de arte permitiu que publicasse algum de seus poemas. Em junho de 1855, a Revue des Deux Mondes publicou uma sequência de 18 de seus poemas, com o título de “As Flores do Mal” (“Le Fleurs du Mal”). Os poemas, que ele escolheu pela originalidade e pelo tema, lhe trouxeram notoriedade. No ano seguinte, Baudelaire fechou um contrato com o editor Poulet-Malassis para uma coleção completa de poemas sob o título prévio.

Quando a primeira edição do livro foi publicado em junho de 1857, 13 dos 100 poemas foram imediatamente acusados de ofensas à religião e à moral pública. Um julgamento foi feito no dia 20 de agosto de 1857 e 6 poemas foram condenados a serem retirados da publicação sob a acusação de serem obscenos demais. Baudelaire foi multado em 300 francos (mais tarde, reduzido a 50 francos). Em 1866, na Bélgica, os seis poemas foram republicados sobre o título de “Les Èpaves”. A proibição dos poemas só foram retirados da França em 1949. Como toda polêmica sempre é benéfica, “As Flores do Mal” se tornou um marco por sua obscenidade, morbidez e devassidão. A lenda de Baudelaire como um poeta maldito, dissidente e pornográfico nasceu.

Porém, as vendagens não foram nada boas. Baudelaire nutria uma expectativa gigantesca pelo sucesso, o que não aconteceu e imediatamente se tornou amargo. Os anos que vieram transformaram Baudelaire numa personalidade soturna, assombrado pelo sentimento de fracasso, desilusão e desespero. Após a condenação de seu livro, ele se juntou com Apollonie Sabatier e a deixou em 1859 para retomar seu relacionamento com Marie Daubrun, novamente infeliz e fracassado. Apesar de ter escrito alguns de seus melhores trabalhos nestes anos, poucos foram publicados em livro. Após a publicação de experimentos de prosa em verso, ele se concentrou numa segunda edição de “As Flores do Mal”.

Em 1859, enquanto vivia novamente com sua mãe, perto do rio Sena, onde ela se mantinha reclusa após a morte de Aupick em 1857, Baudelaire produziu uma série de obras-primas da poesia, começando com “Le Voyage” em janeiro e culminando no que é considerado seu melhor poema, “Le Cygne”, em dezembro. Ao mesmo tempo, compôs dois de seus mais provocativos ensaios de crítica de arte: “Salon de 1859” e “Os Pintores da Vida Moderna”. Este último, inspirado por Constantin Guys, é visto como uma declaração profética dos elementos do Impressionismo, uma década antes do surgimento da escola.

Em 1860, publicou “Os Paraísos Artificiais”, uma tradução de partes do ensaio de “Confissões de um Inglês Comedor de Ópio”, de Thomas De Quincey, acompanhado por sua pesquisa e análise das drogas. Em fevereiro de 1861, uma segunda edição, maior e ampliada, de “As Flores do Mal” foi publicada por Poulet-Malassis. Ao mesmo tempo, publicou ensaios críticos sobre Theophile Gautier (1859), Richard Wagner (1861), Victor Hugo e outros poetas contemporâneos (1862), e Delacroix (1863). Estes textos seriam compilados em “A Arte Romântica”, em 1869. Os fragmentos de sua autobiografia entitulada “Fusèes”e “Mon Coeur Mis à Nu” também foram lançados entre 1850 e 1860. É também desta época seu ensaio onde afirma que a fotografia era um engodo, que aquela nova forma nunca seria arte. Mais tarde, o poeta se arrependeu e voltou atrás em suas declarações e chegou a ser retratado por Félix Nadar.

Em 1861, Baudelaire tentou se eleger à Academia Francesa mas foi fragorosamente derrotado Em 1862, Poulet-Malassis faliu e ele foi implicado na falência, o que piorou sua condição financeira. Seus limites mentais e físicos atingiram o topo. Ele definiu aquele momento como “o vento das asas da imbecilidade que passou por minha vida”. Abandonando a poesia, ele foi fundo na prosa em versos. Uma sequência de 20 de seus trabalhos foi publicada em 1862. Em abril de 1864, ele deixou Paris para se instalar em Bruxelas, onde tentaria persuadir um editor belga a publicar suas obras completas. Lá ficou, amargurado e empobrecido até 1866, quando após um ataque epilético na Igreja de Saint-Loup at Namur, sua vida mudou. Baudelaire teve uma lesão cerebral que lhe ocasionou afasia (perda da capacidade de compreensão e de expressão pela palavra escrita ou pela sinalização, assim como pela fala) e paralisia. O dândi nunca mais se recuperou. Retornou a Paris no dia 2 de julho, onde ficou em uma enfermaria até sua morte. Em 31 de agosto de 1867, aos 46 anos, Charles Baudelaire morreu nos braços de sua mãe.

Quando a morte o visitou, Baudelaire ainda mantinha vários de seus trabalhos não publicados e os que já haviam saído estavam fora de circulação. Mas isto rapidamente mudou. Os líderes do movimento Simbolista compareceram ao seu funeral e já se designavam como seus fiéis seguidores. Menos de 50 anos após a sua morte, Baudelaire ganhou a fama que nunca teve em vida: havia se tornado o maior nome da poesia francesa do século 19.

Conhecido por sua controvérsia e seus textos obscuros, Baudelaire foi o poeta da civilização moderna, onde suas obras parecem clamar pelo século 20 ao invés de seus contemporâneos. Em sua poesia introspectivaele se revelou como um lutador a procura de deus, sem crenças religiosas, procurando em cada manifestação da vida os elementos da verdade, de uma folha de uma árvore ou até mesmo no franzir das sobrancelhas de uma prostituta. Sua recusa em admitir restrições de escolha de temas em sua poesia o coloca num patamar de desbravador de novos caminhos para os rumos da literatura mundial.

Fontes: – Enciclopédia Britannica – Site da Universidade de Londres

 

 

“SE UMA MULHER CHEGAR NO HOSPITAL PÚBLICO APÓS O ABORTO O ESTADO CUIDA OU PRENDE?”

A PERGUNTA É ESTA, QUE RESPONDAM TODOS, CRISTÃOS OU NÃO.

MONICA SERRA.

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a ambição do casal é ENORME. veja o “santinho do serra” é o máximo da hipocrisia!

Monica Serra mata criancinha !!

2010 : “ANO NACIONAL RACHEL DE QUEIROZ” / fortaleza

banner caricatura do artista visual gráfico NETTO.

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O ano de 2010 está sendo instituído como Ano Nacional Rachel de Queiroz, em homenagem ao centenário da escritora. A iniciativa foi do Senado Federal, manifestando publicamente o reconhecimento da singular contribuição para a literatura brasileira. Mulher, nordestina, cearense, escritora. Rachel de Queiroz natural de Fortaleza, nasceu dia 17 de novembro de 1910.

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“[…] tento, com a maior insistência, embora com tão
precário resultado (como se tornou evidente), incorporar
a linguagem que falo e escuto no meu ambiente nativo à
língua com que ganho a vida nas folhas impressas.  Não
que o faça por novidade, apenas por necessidade.
Meu parente José de Alencar quase um século atrás vivia
brigando por isso e fez escola.”



Rachel de Queiroz
, nasceu em Fortaleza – CE, no dia 17 de novembro de 1910, filha de Daniel de Queiroz e de Clotilde Franklin de Queiroz, descendendo, pelo lado materno, da estirpe dos Alencar (sua bisavó materna — “dona Miliquinha” — era prima José de Alencar, autor  de “O Guarani“), e, pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente lançadas em Quixadá, onde residiam e seu pai era Juiz de Direito nessa época.

Em 1913, voltam a Fortaleza, face à nomeação de seu pai para o cargo de promotor. Após um ano no cargo, ele pede demissão e vai lecionar Geografia no Liceu. Dedica-se pessoalmente à educação de Rachel, ensinando-a a ler, cavalgar e a nadar. As cinco anos a escritora leu “Ubirajara“, de José de Alencar, “obviamente sem entender nada”, como gosta de frisar.

Fugindo dos horrores da seca de 1915, em julho de 1917 transfere-se com sua família para o Rio de Janeiro, fato esse que seria mais tarde aproveitado pela escritora como tema de seu livro de estréia, “O Quinze“.

Logo depois da chegada, em novembro, mudam-se para Belém do Pará, onde residem por dois anos. Retornam ao Ceará, inicialmente para Guaramiranga e depois Quixadá, onde Rachel é matriculada no curso normal, como interna do Colégio Imaculada Conceição, formando-se professora em 1925, aos 15 anos de idade. Sua formação escolar pára aí.

Rachel retorna à fazenda dos pais, em Quixadá. Dedica-se inteiramente à leitura, orientada por sua mãe, sempre atualizada com lançamento nacionais e estrangeiros, em especial os franceses. O constante ler estimula os primeiros escritos. Envergonhada, não mostrava seus textos a ninguém.

Em 1926, nasce sua irmã caçula, Maria Luiza. Os outros irmãos eram Roberto, Flávio e Luciano, já falecidos).

Com o pseudônimo de “Rita de Queluz” ela envia ao jornal “O Ceará“, em 1927, uma carta ironizando o concurso “Rainha dos Estudantes”, promovido por aquela publicação. O diretor do jornal, Júlio Ibiapina, amigo de seu pai, diante do sucesso da carta a convida para colaborar com o veículo. Três anos depois, ironicamente, quando exercia as funções de professora substituta de História no colégio onde havia se formado, Rachel foi eleita a “Rainha dos Estudantes”. Com a presença do Governador do Estado, a festa da coroação tinha andamento quando chega a notícia do assassinato de João Pessoa. Joga a coroa no chão e deixa às pressas o local, com uma única explicação “Sou repórter”.

Seu pai adquiri o Sítio do Pici, perto de Fortaleza, para onde a família se transfere. Sua colaboração em “O Ceará” torna-se regular. Publica o folhetim “História de um nome” — sobre as várias encarnações de uma tal Rachel — e organiza a página de literatura do jornal.

Submetida a rígido tratamento de saúde, em 1930, face a uma congestão pulmonar e suspeita de tuberculose, a autora se vê obrigada a fazer repouso e resolve escrever “um livro sobre a seca”. “O Quinze” — romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca — é mostrado aos pais, que decidem “emprestar” o dinheiro para sua edição, que é publicada em agosto com uma tiragem de mil exemplares. Diante da reação reticente dos críticos cearenses, remete o livro para o Rio de Janeiro e São Paulo, sendo elogiado por Augusto Frederico Schmidt e Mário de Andrade. O livro logo transformaria Rachel numa personalidade literária. Com o dinheiro da venda dos exemplares, a escritora “paga” o empréstimo dos pais.

Em março de 1931, recebe no Rio de Janeiro o prêmio de romance da Fundação Graça Aranha, mantida pelo escritor, em companhia de Murilo Mendes (poesia) e Cícero Dias (pintura). Conhece integrantes do Partido Comunista; de volta a Fortaleza ajuda a fundar o PC cearense.

Casa-se com o poeta bissexto José Auto da Cruz Oliveira, em 1932. É fichada como “agitadora comunista” pela polícia política de Pernambuco. Seu segundo romance, “João Miguel“, estava pronto para ser levado ao editor quando a autora é informada de que deveria submetê-lo a um comitê antes de publicá-lo. Semanas depois, em uma reunião no cais do porto do Rio de Janeiro, é informada de que seu livro não fora aprovado pelo PC, porque nele um operário mata outro. Fingindo concordar, Rachel pega os originais de volta e, depois de dizer que não via no partido autoridade para censurar sua obra, foge do local “em desabalada carreira”, rompendo com o Partido Comunista.

Publica o livro pela editora Schmidt, do Rio, e muda-se para São Paulo, onde se aproxima do grupo trotskista.

Nasce, em Fortaleza, no ano de 1933, sua filha Clotilde.

Muda-se para Maceió, em 1935, onde faz amizade com Jorge de Lima, Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Aproxima-se, também, do jornalista Arnon de Mello (pai do futuro presidente da República, Fernando Collor, que a agraciou com a Ordem Nacional do Mérito). Sua filha morre aos 18 meses, vítima de septicemia.

O lançamento do romance “Caminho de Pedras“, pela José Olympio – Rio, se dá em 1937, que seria sua editora até 1992. Com a decretação do Estado Novo, seus livros são queimados em Salvador – BA, juntamente com os de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, sob a acusação de subversivos. Permanece detida, por três meses, na sala de cinema do quartel do Corpo de Bombeiros de Fortaleza.

Em 1939, separa-se de seu marido e muda-se para o Rio, onde publica seu quarto romance, “As Três Marias“.

Por intermédio de seu primo, o médico e escritor Pedro Nava, em 1940 conhece o também médico Oyama de Macedo, com quem passa a viver. O casamento duraria até à morte do marido, em 1982. A notícia de que uma picareta de quebrar gelo, por ordem de Stalin, havia esmigalhado o crânio de Trótski faz com que ela se afaste da esquerda.

Deixa de colaborar, em 1944, com os jornais “Correio da Manhã“, “O Jornal” e “Diário da Tarde“, passando a ser cronista exclusiva da revista “O Cruzeiro“, onde permanece até 1975.

Estabelece residência na Ilha do Governador, em 1945.

Seu pai vem a falecer em 1948, ano em que publica “A Donzela e a Moura Torta“. No ano de 1950, escreve em quarenta edições da revista “O Cruzeiro” o folhetim “O Galo de Ouro“.

Sua primeira peça para o teatro, “Lampião“, é montada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e no Teatro Leopoldo Fróes, em São Paulo, no ano de 1953. É agraciada, pela montagem paulista, com o Prêmio Saci, conferido pelo jornal “O Estado de São Paulo“.

Recebe, da Academia Brasileira de Letras, em 1957, o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.

Em 1958, publica a peça “A beata Maria do Egito“, montada no Teatro Serrador, no Rio, tendo no papel-título a atriz Glauce Rocha.

O presidente da República, Jânio Quadros, a convida para ocupar o cargo de ministra da Educação, que é recusado. Na época, justificando sua decisão, teria dito: “Sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista.”

O livro “As Três Marias”, com ilustrações de Aldemir Martins, em tradução inglesa, é lançado pela University of Texas Press, em 1964.

O golpe militar de 1964 teve em Rachel uma colaboradora, que “conspirou” a favor da deposição do presidente João Goulart.

O presidente general Humberto de Alencar Castelo Branco, seu conterrâneo e aparentado, no ano de 1966 a nomeia para ser delegada do Brasil na 21ª. Sessão da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, junto à Comissão dos Direitos do Homem.

Passa a integrar o Conselho Federal de Cultura, em 1967, e lá ficaria até 1985. Depois de visitar a escritora na Fazenda Não me Deixes, em Quixadá, o presidente Castelo Branco morre em desastre aéreo.

Estréia na literatura infanto-juvenil, em 1969, com “O Menino Mágico“, em 1969.

No ano de 1975, publica o romance “Dôra, Doralina“.

Em 1977, por 23 votos a 15, e um em branco, Rachel de Queiroz vence o jurista Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda e torna-se a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras. A eleição acontece no dia 04 de agosto e a posse, em 04 de novembro.  Ocupa a cadeira número 5, fundada por Raimundo Correia, tendo como patrono Bernardo Guimarães e ocupada sucessivamente pelo médico Oswaldo Cruz, o poeta Aluísio de Castro e o jurista, crítico e jornalista Cândido Mota Filho.

Seu livro, “O Quinze“, é publicado no Japão pela editora Shinsekaisha e na Alemanha pela Suhrkamp, em 1978.

Em 1980, a editora francesa Stock lança “Dôra, Doralina“. Estréia da Rede Globo de Televisão a novela “As Três Marias“, baseada no romance homônimo da escritora.

Com direção de Perry Salles, estréia no cinema a adaptação de “Dôra, Doralina“, em 1981.

Em 1985, é inaugurada em Ramat-Gau, Tel Aviv (Israel), a creche “Casa deRachel de Queiroz“. “O Galo de Ouro” é publicado em livro.

Retorna à literatura infantil, em 1986, com “Cafute & Perna-de-Pau“.

A José Olympio Editora lança, em 1989, sua “Obra Reunida“, em cinco volumes, com todos os livros que Rachel publicara até então destinados ao público adulto.

Segundo notícia que circulou em 1991, a Editora Siciliano, de São Paulo, pagou US$150.000,00 pelos direitos de publicação da obra completa de Rachel.

Já na nova editora, lança em 1992 o romance “Memorial de Maria Moura“.

Em 1993, recebe dos governos do Brasil e de Portugal, o Prêmio Camões e da União Brasileira de Escritores, o Juca Pato. A Siciliano inicia o relançamento de sua obra completa.

1994 marca a estréia, na Rede Globo de Televisão, da minissérie “Memorial de Maria Moura“, adaptada da obra da escritora. Tendo no papel principal a atriz Glória Pires, notícias dão conta que Rachel recebeu a quantia de US$50.000,00 de direitos autorais.

Inicia seu livro de memórias, em 1995, escrito em colaboração com a irmã Maria Luiza, que é publicado posteriormente com o título “Tantos anos“.

Pelo conjunto de sua obra, em 1996, recebe o Prêmio Moinho Santista.

Em 2000, é publicado “Não me Deixes — Suas histórias e sua cozinha”, em colaboração com sua irmã, Maria Luiza.

Em novembro deste ano, quando a escritora completou 90 anos de idade, foi inaugurada, na Academia Brasileira de Letras, a exposição “Viva Rachel“. São 17 painéis e um ensaio fotográfico de Eduardo Simões resumindo o que os organizadores da mostra chamam de “geografia interior de Rachel, suas lembranças e a paisagem que inspirou a sua obra”.

Rachel de Queiroz chega aos 90 anos afirmando que não gosta de escrever e o faz para se sustentar. Ela lembra que começou a escrever para jornais aos 19 anos e nunca mais parou, embora considere pequeno o número de livros que publicou. “Para mim, foram só cinco, (além de O Quinze, As Três Marias, Dôra, Doralina, O Galo de Ouro e Memorial de Maria Moura), pois os outros eram compilações de crônicas que fiz para a imprensa, sem muito prazer de escrever, mas porque precisava sustentar-me”, recorda ela. “Na verdade, eu não gosto de escrever e se eu morrer agora, não vão encontrar nada inédito na minha casa”.

Recebe, em 06-12-2000, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Em 2003, é inaugurado em Quixadá (CE), o Centro Cultural Rachel de Queiroz.

Faleceu, dormindo em sua rede, no dia 04-11-2003, na cidade do Rio de Janeiro. Deixou, aguardando publicação, o livro “Visões: Maurício Albano e Rachel de Queiroz”, uma fusão de imagens do Ceará fotografadas por Maurício com textos de Rachel de Queiroz.

Obras:

Individuais:

Romances:

– O quinze (1930)
– João Miguel (1932)
– Caminho de pedras (1937)
– As três Marias (1939)
– Dôra, Doralina (1975)
– O galo de ouro (1985) – folhetim na revista ” O Cruzeiro”, (1950)
– Obra reunida (1989)
– Memorial de Maria Moura (1992)

Literatura Infanto-Juvenil:

– O menino mágico (1969)
– Cafute & Pena-de-Prata (1986)
– Andira (1992)
– Cenas brasileiras – Para gostar de ler 17.

Teatro:

– Lampião (1953)
– A beata Maria do Egito (1958)
– Teatro (1995)
– O padrezinho santo (inédita)
– A sereia voadora (inédita)

Crônica:

– A donzela e a moura torta (1948);
– 100 Crônicas escolhidas (1958)
– O brasileiro perplexo (1964)
– O caçador de tatu (1967)
– As menininhas e outras crônicas (1976)
– O jogador de sinuca e mais historinhas (1980)
– Mapinguari (1964)
– As terras ásperas (1993)
– O homem e o tempo (74 crônicas escolhidas}
– A longa vida que já vivemos
– Um alpendre, uma rede, um açude: 100 crônicas escolhidas
– Cenas brasileiras
– Xerimbabo (ilustrações de Graça Lima)
– Falso mar, falso mundo – 89 crônicas escolhidas (2002)

Antologias:

– Três romances (1948)

– Quatro romances (1960) (O Quinze, João Miguel, Caminho de Pedras,
As três Marias)

– Seleta (1973) – organização de Paulo Rónai

Livros em parceria:

– Brandão entre o mar e o amor (romance – 1942) – com José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Jorge Amado.

– O mistério dos MMM (romance policial – 1962) – Com Viriato Corrêa, Dinah Silveira de Queiroz, Lúcio Cardoso, Herberto Sales, Jorge Amado, José Condé, Guimarães Rosa, Antônio Callado e Orígines Lessa.

– Luís e Maria (cartilha de alfabetização de adultos – 1971) – Com Marion Vilas Boas Sá Rego.

– Meu livro de Brasil (Educação Moral e Cívica – 1º. Grau, Volumes 3, 4 e 5 – 1971) – Com Nilda Bethlem.

– O nosso Ceará (com sua irmã, Maria Luiza de Queiroz Salek), relato, 1994.

– Tantos anos (com sua irmã, Maria Luiza de Queiroz Salek), auto-biografia, 1998.

– O Não Me Deixes – Suas Histórias e Sua Cozinha (com sua irmã, Maria Luiza de Queiroz Salek), 2000.

Obras traduzidas pela escritora:

Romances:

AUSTEN, Jane. Mansfield Parlz (1942).
BALZAC, Honoré de. A mulher de trinta anos (1948).
BAUM, Vicki. Helena Wilfuer (1944).
BELLAMANN, Henry. A intrusa (1945).
BOTTONE, Phyllis. Tempestade d’alma (1943).
BRONTË, Emily. O morro dos ventos uivantes (1947).
BRUYÈRE, André. Os Robinsons da montanha (1948).
BUCK, Pearl. A promessa (1946).
BUTLER, Samuel. Destino da carne (1942).
CHRISTIE, Agatha. A mulher diabólica (1971).
CRONIN, A. J. A família Brodie (1940).
CRONIN, A. J. Anos de ternura (1947).
CRONIN, A. J. Aventuras da maleta negra (1948).
DONAL, Mario. O quarto misterioso e Congresso de bonecas (1947).
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Humilhados e ofendidos (1944).
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Recordações da casa dos mortos (1945).
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os demônios (1951).
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamazov (1952) 3 v.
DU MAURIER, Daphne. O roteiro das gaivotas (1943).
FREMANTLE, Anne. Idade da fé (1970).
GALSWORTHY, John. A crônica dos Forsyte (1946) 3 v.
GASKELL, Elisabeth. Cranford (1946).
GAUTHIER, Théophile. O romance da múmia (1972).
HEIDENSTAM, Verner von. Os carolinos: crônica de Carlos XII (1963).
HILTON, James. Fúria no céu (1944).
LA CONTRIE, M. D’Agon de. Aventuras de Carlota (1947).
LOISEL, Y. A casa dos cravos brancos (1947).
LONDON, Jack. O lobo do mar (1972).
MAURIAC, François. O deserto do amor (1966).
PROUTY, Oliver. Stella Dallas (1945).
REMARQUE, Erich Maria. Náufragos (1942).
ROSAIRE, Forrest. Os dois amores de Grey Manning (1948).
ROSMER, Jean. A afilhada do imperador (1950).
SAILLY, Suzanne. A deusa da tribo (1950).
VERDAT, Germaine. A conquista da torre misteriosa (1948).
VERNE, Júlio. Miguel Strogoff (1972).
WHARTON, Edith. Eu soube amar (1940).
WILLEMS, Raphaelle. A predileta (1950).

Biografias e memórias:

BUCK, Pearl. A exilada: retrato de uma mãe americana (1943).
CHAPLIN, Charles. Minha vida (caps. 1 a 7 (1965).
DUMAS, Alexandre. Memórias de Alexandre Dumas, pai (1947).
TERESA DE JESUS, Santa. Vida de Santa Teresa de Jesus (1946).
STONE, Irwin. Mulher imortal (biografia de Jessie Benton Fremont (1947).
TOLSTÓI, Leon. Memórias (1944).

Teatro:

CRONIN, A. J. Os deuses riem (1952).


Os dados acima foram obtidos em livros de e sobre a autora, sites da Internet, jornais e revistas de circulação nacional.


NESTE DIA INTERNACIONAL DA MULHER: OS PALAVREIROS DA HORA fazem singela homenagem à TODAS AS MULHERES na pessoa fantástica de BERTHA MARIA JÚLIA LUTZ


1894 – 1976

Ativista brasileira nascida em São Paulo, uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil e a quem as mulheres brasileiras devem a aprovação da legislação que lhes outorgou o direito de votar e serem votadas (1932). Filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do cientista e pioneiro da medicina tropical Adolfo Lutz, foi educada na Europa, onde tomou contato com a campanha sufragista inglesa. Formou-se em Biologia na Sorbonne e, voltando ao Brasil (1918), ingressou por concurso público como bióloga no Museu Nacional, a segunda mulher a ingressar no serviço público brasileiro. Empenhada na luta pelo voto feminino, ao lado de outras pioneiras criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher (1919), que foi o embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a FBPF. Representou as brasileiras na assembléia-geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos (1922), onde foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. Finalmente, dez anos depois (1932), em 24 de fevereiro, por decreto-lei do presidente Getúlio Vargas, foi assinado o novo Código Eleitoral, onde estava previsto o direito de voto às mulheres. Dois anos depois, a Constituição (1934), de cujo comitê elaborador participaram ela pela FBPF e Nathercia Silveira, da Aliança Nacional de Mulheres, garantiu às mulheres a igualdade de direitos políticos. Nas eleições parlamentares seguintes, candidatou-se pela Liga Eleitoral Independente, ficando na primeira suplência, mas assumindo a cadeira de deputada na Câmara Federal (1936), pela morte do titular, Cândido Pereira. No exercício parlamentar defendeu mudanças na legislação referente ao trabalho da mulher e do menor, a isenção do serviço militar, a licença de 3 meses para a gestante e a redução da jornada de trabalho, então de 13 horas. No ano seguinte (1937) Vargas fechou as casas legislativas, decretando o Estado Novo. Assim, encerrou-se a sua carreira como parlamentar e arrefeceu-se a capacidade de mobilização da FBPF, de cuja direção ela foi gradualmente se afastando. Porém continuou no serviço público, até que se aposentou como chefe do setor de botânica do Museu Nacional (1964). Anos depois (1975), Ano Internacional da Mulher, estabelecido pela ONU, integrou a delegação brasileira no primeiro Congresso Internacional da Mulher, realizado na capital do México, uma das suas últimas participações públicas em defesa dos direitos femininos. Faleceu no Rio de Janeiro, em setembro do ano seguinte, conhecida como a maior líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras.