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A carta dos soldados israelenses que se recusam a lutar em Gaza

O serviço militar israelense é obrigatório para homens e mulheres. Movimentos de resistência são comuns. O primeiro caso conhecido é de 1954, quando um advogado, Amnon Zichoroni, pediu para ser dispensado por ser pacifista. Em 2004, cinco pessoas foram condenadas a um ano de prisão por não se alistarem.

 

Em março, sessenta jovens entre 16 e 19 anos escreveram um manifesto destinado ao primeiro ministro Binyamin Netanyahu em que diziam  recusar o alistamento pois se opunham à ocupação dos territórios da Palestina.

Agora, são 51 soldados que se levantaram contra as Forças de Defesa, alguns deles na reserva.

Eles escreveram uma carta aberta no Washington Post explicando os motivos. O texto chega no momento em que a violência recrudesce na Faixa de Gaza, com a possibilidade cada vez mais remota de um cessar-fogo nas próximas horas.

Até agora, pelo menos 630 palestinos morreram e 3 mil estão feridos. Mais da metade são civis. Do outro lado, 31 israelenses tombaram, dois deles civis.

A carta é um documento eloquente sobre a tragédia e oferece uma visão da mentalidade das forças armadas israelenses. Para os signatários, o exército usa métodos de regimes opressivos contra a população de Gaza e da Cisjordânia e perpetua as desigualdades na sociedade israelense.

Eis alguns trechos. O original está aqui:

Em Israel, a guerra não é apenas a política por outros meios — ela substitui a política. Israel já não é capaz de pensar em uma solução para um conflito político exceto em termos de força física; não admira que seja propenso a ciclos de violência mortal que nunca terminam. E, quando os canhões disparam, nenhuma crítica pode ser ouvida. 

O exército, uma parte fundamental da vida dos israelenses, também é o poder que governa os palestinos que vivem nos territórios ocupados em 1967. Desde que ele passou a existir em sua estrutura atual, somos controlados por sua linguagem e mentalidade: dividimos o mundo entre o bem e o mal, de acordo com a classificação dos militares.

Os militares têm um papel central em todos os planos de ação e propostas discutidas no debate nacional, o que explica a ausência de qualquer argumento real sobre soluções não-militares para os conflitos de Israel com seus vizinhos. 

Os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza são privados de direitos civis e direitos humanos. Eles vivem sob um sistema legal diferente de seus vizinhos judeus. Isto não é culpa exclusiva dos soldados que operam nesses territórios. Muitos de nós servimos em funções de apoio logístico e burocrático; lá, descobrimos que todo militar ajuda a implementar a opressão aos palestinos. 

Muitos soldados que trabalham longe de posições de combate não resistem porque acham que suas ações, frequentemente rotineiras e banais, não têm relação com os resultados violentos em outros lugares. E as ações que não são banais — por exemplo, decisões sobre a vida ou a morte de palestinos tomadas em escritórios a quilômetros da Faixa de Gaza — são confidenciais, portanto é difícil um debate público sobre elas. Infelizmente, nós nem sempre nos recusamos a cumprir as tarefas que nos foram encarregadas e, desta maneira, contribuímos também para a violência. 

O lugar central do militar na sociedade israelense, e a imagem ideal que ele cria, serve para apagar a cultura e a luta dos mizrachi (judeus cujas famílias são originárias de países árabes), etíopes, palestinos, russos, ultra-ortodoxos, beduínos e mulheres. 

Há muitas razões para as pessoas se recusarem a servir no exército israelense. Mesmo que tenhamos diferenças de formação e motivação, nós escrevemos esta carta. No entanto, contra os ataques a aqueles que resistem ao serviço obrigatório, apoiamos os resistentes: os alunos do ensino médio que escreveram uma declaração de recusa, os ultra ortodoxos que protestam contra a nova lei de conscrição, e todos aqueles cuja consciência, situação pessoal ou econômica não permitem que sirvam. Sob o pretexto de uma conversa sobre a igualdade, essas pessoas são obrigadas a pagar o preço. Não mais.

CARTA DO SENADOR SUPLICY A GILMAR MENDES

Ofício n.º 00113/2014                                           Teerã, 15 de fevereiro de 2014.

Senhor Ministro Gilmar Mendes,

Tendo em vista a correspondência de V. Exa. datada de 12 de fevereiro de 2014, devo externar que não tenho dúvidas de que, como cidadão, tem todo o direito de se expressar sobre essa ou aquela situação da vida política de nosso país. Porém, como juiz da causa que condenou os acusados, caberia a V. Exa. maior reserva.

Quando V. Exa. questiona, sem qualquer prova material, a regularidade das doações a José Genoino, Delúbio Soares, José Dirceu, e João Paulo Cunha, passa-me o sentimento de que não julgou com base exclusivamente na razão. Isso não é bom para o papel que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenha na Organização dos Poderes da República.

Até onde tenho conhecimento, as famílias dos quatro membros do Partido dos Trabalhadores é que tiveram a iniciativa de fazer a campanha para arrecadar fundos e pagar as multas condenatórias. Não vejo ilegitimidade ou ilegalidade nessa conduta.

E foi isso que me motivou a escrever a V. Exa. – a surpresa de tomar conhecimento de um comentário público, questionando doações sem qualquer fundamento probatório que o amparasse.

E tudo isso, considerando ainda que o julgamento da Ação Penal 470 não está concluído no STF, pois encontra-se em curso a análise dos  embargos infringentes.

Noto que V. Exa.  não se referiu ao que considero da maior importância em minha carta, qual seja, as decisões que nós do PT e de todos os demais Partidos devemos tomar para prevenir e evitar os procedimentos que foram objeto da Ação Penal 470. Eis porque tenho me empenhado para que venhamos todos, nas campanhas eleitorais, assumir o compromisso de não utilizarmos recursos não contabilizados, de proibirmos as contribuições de pessoas jurídicas, de limitarmos a uma soma módica as contribuições de pessoas físicas e, de exigirmos, durante a campanha eleitoral, a transparência em tempo real, ou nas datas de 15 de agosto, 15 de setembro e ultimo sábado que antecede o domingo das eleições, com o registro na página eletrônica de cada partido, coligação e candidato, de todas as contribuições recebidas. Desta forma,  os eleitores terão conhecimento dos doadores e poderão comparar as contribuições feitas com os gastos efetivamente realizados em cada campanha.

V. Exa., que acaba de assumir como ministro efetivo do Tribunal Superior Eleitoral, poderia, pela posição que ocupa, incentivar os formadores de opinião da sociedade no que diz respeito à efetivação desses anseios como normas que têm sido apoiadas pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, pela OAB e muitas outras entidades da sociedades civil.

Atenciosamente,

Senador EDUARDO MATARAZZO SUPLICY

BOAS-VINDAS AO PAPA CHICO: Frei Betto

BOAS-VINDAS AO PAPA CHICO

18/07/2013

Frei Betto é um dos religiosos (é dominicano) mais comprometidos com as transformações no Brasil. Acompanha os movimentos sociais de base especialmente as Comunidades Eclesiais de Base. Teve o mérito de ter sido um dos implantadores do projeto inicial do LEONARDO BOFFGoverno Lula da Fome Zero acompanhada do projeto Talher dedicado à educação. Junto do pão deveria chegar tambem a instrução. Foi prisioneiro político por 4 anos e escreveu o belíssimo livro Batismo de Sangue, transformado em filme. Essa saudação expressa o sentimento de muitos cristãos comprometidos, especialmente jovens.

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Querido papa Francisco, o povo brasileiro o espera de braços e coração abertos. Graças à sua eleição, o papado adquire agora um rosto mais alegre.

O senhor incutiu em todos nós renovadas esperanças na Igreja Católica ao tomar atitudes mais próximas ao Evangelho de Jesus que às rubricas monárquicas predominantes no Vaticano: uma vez eleito, retornou pessoalmente ao hotel de três estrelas em que se hospedara em Roma, para pagar a conta; no Vaticano, decidiu morar na Casa Santa Marta, alojamento de hóspedes, e não na residência pontifícia, quase um palácio principesco; almoça no refeitório dos funcionários e não admite lugar marcado, variando de mesa e companhias a cada dia; mandou prender o padre diretor do banco do Vaticano, envolvido em falcatrua de 20 milhões de euros.

Em Lampedusa, onde aportam os imigrantes africanos que sobrevivem à travessia marítima (na qual já morreram 20 mil pessoas) e buscam melhores condições de vida na Europa, o senhor criticou a “globalização da indiferença” e aqueles que, no anonimato, movem os índices econômicos e financeiros, condenando multidões ao desemprego e à miséria.

Um Brasil diferente o espera. Como se Deus, para abrilhantar ainda mais a Jornada Mundial da Juventude, tivesse mobilizado os nossos jovens que, nas últimas semanas, inundam nossas ruas, expressando sonhos e reivindicações. Sobretudo, a esperança em um Brasil e um mundo melhores.

É fato que nossas autoridades eclesiásticas e civis não tiveram o cuidado de deixá-lo mais tempo com os jovens. Segundo a programação oficial, o senhor terá mais encontros com aqueles que ora nos governam ou dirigem a Igreja no Brasil do que com aqueles que são alvos e protagonistas dessa jornada.

Enquanto nosso povo vive um momento de democracia direta nas ruas, os organizadores de sua visita cuidam de aprisioná-lo em palácios e salões. Assim como seus discursos sofrem, agora, modificações em Roma para estarem mais afinados com o clamor da juventude brasileira, tomara que o senhor altere aqui o programa que lhe prepararam e dedique mais tempo ao diálogo com os jovens.

Não faz sentido, por exemplo, o senhor benzer, na prefeitura do Rio, as bandeiras dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. São eventos esportivos acima de toda diversidade religiosa, cultural, étnica, nacional e política.

Por que o chefe da Igreja Católica fazer esse gesto simbólico de abençoar bandeiras de dois eventos que nada têm de religioso, embora contenham valores evangélicos por zerar divergências entre nações e promover a paz? Talvez seja o único momento em que atletas da Coreia do Norte e dos EUA se confraternizarão.

Como nos sentiríamos se elas fossem abençoadas por um rabino ou uma autoridade religiosa muçulmana?

Nos pronunciamentos que fará no Brasil, o senhor deixará claro a que veio. Ao ser eleito e proclamado, declarou à multidão reunida na Praça de São Pedro, em Roma, que os cardeais foram buscar um pontífice “no fim do mundo.”

Tomara que o seu pontificado represente também o início de um novo tempo para a Igreja Católica, livre do moralismo, do clericalismo, da desconfiança frente à pós-modernidade.  Uma Igreja que ponha fim ao celibato obrigatório, à proibição de uso de preservativos, à exclusão da mulher do acesso ao sacerdócio.

Igreja que reincorpore os padres casados ao ministério sacerdotal, dialogue sem arrogância com as diferentes tradições religiosas, abra-se aos avanços da ciência, assuma o seu papel profético de, em nome de Jesus, denunciar as causas da miséria, das desigualdades sociais, dos fluxos migratórios, da devastação da natureza.

Os jovens esperam da Igreja uma comunidade alegre, despojada, sem luxos e ostentações, capaz de refletir a face do Jovem de Nazaré, e na qual o amor encontre sempre a sua morada.

Bem-vindo ao Brasil, papa Chico! Se os argentinos merecidamente se orgulham de ter um patrício como sucessor de Pedro, saiba que aqui todos nos contentamos em saber que Deus é brasileiro!

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS / O N U

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)
da  Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948

Preâmbulo

        Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo,
Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum,
        Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão,
Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações,
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla,
Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a desenvolver, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais e a observância desses direitos e liberdades,
Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso,

A Assembleia  Geral proclama

        A presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

Artigo I

        Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão  e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Artigo II

        Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,  religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Artigo III

        Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo IV

        Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Artigo V

        Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Artigo VI

        Toda pessoa tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecida como pessoa perante a lei.

Artigo  VII

        Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo VIII

        Toda pessoa tem direito a receber dos tributos nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem  os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Artigo IX

        Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Artigo X

        Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.

Artigo XI

        1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

Artigo XII

        Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.

Artigo XIII

        1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo XIV

        1.Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XV

        1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.

Artigo XVI

        1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer retrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.

Artigo XVII

        1. Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2.Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.

Artigo XVIII

        Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

Artigo XIX

        Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Artigo XX

        1. Toda pessoa tem direito à  liberdade de reunião e associação pacíficas.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Artigo XXI

        1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base  da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo  equivalente que assegure a liberdade de voto.

Artigo XXII

        Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo XXIII

        1.Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
3. Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV

        Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas remuneradas.

Artigo XXV

        1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Artigo XXVI

        1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito n escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.

Artigo XXVII

        1. Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios.
2. Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.

Artigo XVIII

        Toda pessoa tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e  liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.

Artigo XXIV

        1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XXX

        Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição  de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

CARTA ABERTA À REDE GLOBO DE TELEVISÃO – por Movimento Organizado pela Moralidade Pública e Cidadania – Moral

CARTA ABERTA À REDE GLOBO DE TELEVISÃO


O Movimento Organizado pela Moralidade Pública e Cidadania – Moral vem manifestar seu apoio à campanha da Rede Globo com denúncias sobre corrupção apresentadas no programa Fantástico.

 

A importância desse tipo de denúncia vem compensar a falta de atividade legislativa no país, onde em todos os níveis não existe fiscalização dos atos do executivo. Assim, as propinas azeitam as milionárias campanhas políticas e as trocas de favores por cargos são tão comuns que o povo vive desesperançado.

No estado de Mato Grosso a grande mídia faz um silêncio pavoroso quando o assunto são as denúncias de quem ordena despesas para campanhas publicitárias que são um escândalo. Só a Assembleia legislativa em 2010 usou de 18 milhões do erário para comprar o silêncio da maioria dos veículos.

 

Por isso vimos pedir que a Rede Globo esclareça ao povo de Mato Grosso e do Brasil, porque em dezembro de 2010 deixou de levar ao ar uma reportagem feita pelo “repórter sem rosto” Eduardo Faustini sobre os processos que envolvem o presidente da Assembleia Legislativa, deputado José Riva, acusado pelo Ministério Público de desviar, em valores atualizados, cerca de meio bilhão de reais dos cofres públicos.

 

O repórter da Globo, acompanhado de um militante da Ong Moral, com veículo locado pela entidade, foi a Campo Verde onde entrevistou os contadores que montaram as empresas fantasmas. No cemitério em Várzea Grande filmou o túmulo do homem que depois de morto assinou cheques da recebidos da Assembleia. O repórter conversou com promotores que promoveram as ações e reuniu-se também com um grupo de dirigentes do Moral, quando as informações foram complementadas.

Porém, na noite do domingo quando todos sentaram à frente da televisão para assistir a reportagem do Fantástico, o que se viu foram quatro inserções de propaganda da Assembleia Legislativa e nada sobre as acusações ao deputado. A reportagem nunca foi ao ar.

 

O repórter Faustini passou a não atender as ligações em seus telefones, não dando nenhuma explicação para o silêncio da Rede Globo ante as graves denúncias. Enquanto os boatos nos meios jornalísticos e políticos davam conta que a negociação do silêncio envolveu a soma de 10 milhões de reais.

 

Não acreditando nos boatos, a direção da Ong Moral enviou uma carta ao Diretor de Jornalismo da emissora no Rio de Janeiro, Carlos Henrique Schroder, sem obter resposta. A falta de esclarecimento é um  desrespeito inclusive aos profissionais sérios do jornalismo desta emissora que atuam  em todo o país.

 

Como é sabido, o deputado José Riva responde a mais de cem processos, entre ações civis públicas e ações penais, que patinam nos meandros do nosso Poder Judiciário. Para se manter no comando do legislativo local por 17 anos, gasta em média 1,5 milhão de reais por mês com propaganda, emprega fantasmas e loteia favores para acomodar a maioria do seus pares calados e acovardados.

 

A Rede Globo de Televisão e o repórter Eduardo Faustini devem uma explicação à sociedade matogrossense. O melhor seria a apresentação a reportagem guardada, cujo assunto continua atual. Se aqui em nosso estado uma reportagem sobre corrupção, carregada de provas robustas foi engavetada, quantas mais pelo Brasil terão o mesmo destino?

 

Cuiabá, 30 de março de 2012.

Assinam os diretores da Ong Moral:

Ademar Adams

Cláudio César Fim

Roberto Vaz da Costa

Gilmar Brunetto

 

PRIMEIRO ENCONTRO MUNDIAL DE BLOGUEIROS divulga a Carta de Fóz do Iguaçu

 

Carta de Foz do Iguaçu

 

O 1º Encontro Mundial de Blogueiros, realizado em Foz do Iguaçu (Paraná, Brasil), nos dias 27, 28 e 29 de outubro, confirmou a força crescente das chamadas novas mídias, com seus sítios, blogs e redes sociais. Com a presença de 468 ativistas digitais, jornalistas, acadêmicos e estudantes, de 23 países e 17 estados brasileiros, o evento serviu como uma rica troca de experiências e evidenciou que as novas mídias podem ser um instrumento essencial para o fortalecimento e aperfeiçoamento da democracia.

Como principais consensos do encontro – que buscou pontos de unidade, mas preservando e valorizando a diversidade –, os participantes reafirmaram como prioridades:

– A luta pela liberdade de expressão, que não se confunde com a liberdade propalada pelos monopólios midiáticos, que castram a pluralidade informativa. O direito humano à comunicação é hoje uma questão estratégica;

– A luta contra qualquer tipo de censura ou perseguição política dos poderes públicos e das corporações do setor. Neste sentido, os participantes condenam o processo de judicialização da censura e se solidarizam com os atingidos. Na atualidade, o WikiLeaks é um caso exemplar da perseguição imposta pelo governo dos EUA e pelas corporações financeiras e empresariais;

– A luta por novos marcos regulatórios da comunicação, que incentivem os meios públicos e comunitários; impulsionem a diversidade e os veículos alternativos; coíbam os monopólios, a propriedade cruzada e o uso indevido de concessões públicas; e garantam o acesso da sociedade à comunicação democrática e plural. Com estes mesmos objetivos, os Estados nacionais devem ter o papel indutor com suas políticas públicas.

– A luta pelo acesso universal à banda larga de qualidade. A internet é estratégica para o desenvolvimento econômico, para enfrentar os problemas sociais e para a democratização da informação. O Estado deve garantir a universalização deste direito. A internet não pode ficar ao sabor dos monopólios privados.

– A luta contra qualquer tentativa de cerceamento e censura na internet. Pela neutralidade na rede e pelo incentivo aos telecentros e outras mecanismos de inclusão digital. Pelo desenvolvimento independente de tecnologias de informação e incentivo ao software livre. Contra qualquer restrição no acesso à internet, como os impostos hoje pelos EUA  no seu processo de bloqueio à Cuba.

Com o objetivo de aprofundar estas reflexões, reforçar o intercâmbio de experiências e fortalecer as novas mídias sociais, os participantes também aprovaram a realização do II Encontro Mundial de Blogueiros, em novembro de 2012, na cidade de Foz do Iguaçu. Para isso, foi constituída uma comissão internacional para enraizar ainda mais este movimento, preservando sua diversidade, e para organizar o próximo encontro.

 

CARTA TESTAMENTO DO EX PRESIDENTE GETULIO VARGAS – 57 ANOS DE SEU SUICÍDIO / rio de janeiro

 

 

Há 57 anos morria Getúlio Vargas

Getúlio Dornelles Vargas (19/4/1882 – 24/8/1954) foi o presidente que mais tempo governou o Brasil, durante dois mandatos. De origem gaúcha (nasceu na cidade de São Borja), Vargas foi presidente do Brasil entre os anos de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. Entre 1937 e 1945 instalou a fase de ditadura, o chamado Estado Novo.

Getúlio Vargas assumiu o poder em 1930, após comandar a Revolução de 1930, que derrubou o governo de Washington Luís. Seus quinze anos de governo seguintes, caracterizaram-se pelo nacionalismo e populismo. Sob seu governo foi promulgada a Constituição de 1934. Fecha o Congresso Nacional em 1937, instala o Estado Novo.

Vargas criou a Justiça do Trabalho (1939), instituiu o salário mínimo, a Consolidação das Leis do Trabalho, também conhecida por CLT. Os direitos trabalhistas também são frutos de seu governo: carteira profissional, semana de trabalho de 48 horas e as férias remuneradas.
GV investiu muito na área de infra-estrutura, criando a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942), e a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945). Em 1938, criou o IBGE ( Instituto brasileiro de Geografia e estatística). Saiu do governo em 1945, após um golpe militar.

Em 1950, Vargas voltou ao poder através de eleições democráticas. Neste governo continuou com uma política nacionalista. Criou a campanha do ” Petróleo é Nosso” que resultaria na criação da Petrobrás.

Embora tenha sido um ditador e governado com medidas controladoras e populistas, Vargas foi um presidente marcado pelo investimento no Brasil. Além de criar obras de infra-estrutura e desenvolver o parque industrial brasileiro, tomou medidas favoráveis aos trabalhadores. Foi na área do trabalho que deixou sua marca registrada. Sua política econômica gerou empregos no Brasil e suas medidas na área do trabalho favoreceram os trabalhadores brasileiros.

Getúlio era chamado, pelos seus simpatizantes, de “pai dos pobres” (título tirado do livro de Jó 29,16), e, por pessoas próximas, de “Doutor Getúlio”. A sua doutrina e seu estilo político foram denominados de getulismo ou varguismo. Os seus seguidores, até hoje existentes, são denominados getulistas.

Suicidou-se, em 1954, com um tiro no coração, em seu quarto, no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Getúlio Vargas foi o mais controvertido político brasileiro do século XX. Sua influência se estende até hoje. A sua herança política é invocada por pelo menos dois partidos políticos atuais: o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Assumiu então a presidência da república, no dia 24 de agosto, o vice-presidente potiguar Café Filho, da oposição a Getúlio, que nomeou uma nova equipe de ministros e deu nova orientação ao governo.

Com grande comoção popular nas ruas, seu corpo foi levado para ser enterrado em sua terra natal. A família de Getúlio recusou-se a aceitar que um avião da FAB transportasse o corpo de Getúlio até o Rio Grande do Sul. A família de Getúlio também recusou as homenagens oficiais que o novo governo de Café Filho queria prestar ao ex-presidente falecido.

Getúlio deixou duas notas de suicídio, uma manuscrita e outra datilografada, as quais receberam o nome de “carta-testamento”.

Uma versão manuscrita da carta testamento, assinada no final da última reunião ministerial, somente foi divulgada ao público, em 1967, por Alzira Vargas, pela Revista O Cruzeiro, por insistência de Carlos Lacerda que não acreditava que tal carta manuscrita existisse. Nesta carta manuscrita, Getúlio explica seu gesto:

“..Se a simples renúncia ao posto a que fui levado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranqüilo no chão da pátria, de bom grado renunciaria. Mas tal renúncia daria apenas ensejo para, com mais fúria, perseguirem-me e humilharem-me. Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas. Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não dos crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes. Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Que o sangue dum inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus…”

Uma versão datilografada, feita em três vias, e mais extensa desta carta-testamento, foi lida, de maneira emocionada, por João Goulart, no enterro de Getúlio em São Borja. Nesta versão datilografada é que aparece a frase “Saio da vida para entrar na história”. Esta versão datilografada da carta-testamento até hoje é alvo de discussões sobre sua autenticidade. Chama muito a atenção nela, a frase em castelhano: “Se queda desamparado”. Assim, tanto na vida quanto na morte, Getúlio foi motivo de polêmica.

Também fez um discurso emocionado, no enterro de Getúlio, na sua cidade natal São Borja, o amigo e aliado de longa data Osvaldo Aranha que disse:

“Nós, os teus amigos, continuaremos, depois da tua morte, mais fiéis do que na vida: nós queremos o que tu sempre quiseste para este País. Queremos a ordem, a paz, o amor para os brasileiros”!

Oswaldo Aranha, que tantas vezes rompera e se reconciliara com Getúlio, acrescentou:

“Quando, há vinte e tantos anos, assumiste o governo deste País, o Brasil era uma terra parada, onde tudo era natural e simples; não conhecia nem o progresso, nem as leis de solidariedade entre as classes, não conhecia as grandes iniciativas, não se conhecia o Brasil. Tu entreabriste para o Brasil a consciência das coisas, a realidade dos problemas, a perspectiva dos nossos destinos”.

No cinqüentenário de sua morte, em 2004, os restos mortais de Getúlio foram trasladados para um monumento no centro de sua cidade natal, São Borja.

Há quem diga que o suicídio de Getúlio Vargas adiou um golpe militar que pretendia depô-lo. O pretendido golpe de estado tornou-se, então, desnecessário, pois assumira o poder um político conservador, Café Filho. O golpe militar veio, por fim, em 1964. Golpe de Estado que os partidários chamam de Revolução de 1964, e que foi feito, essencialmente, no lado militar, por ex-tenentes de 1930.

Para outros, o suicídio de Getúlio fez com que passasse da condição de acusado à condição de vítima. Isto teria preservado a popularidade do trabalhismo e do PTB e impedido Café Filho, sucessor de Getúlio, por falta de clima político, de fazer uma investigação profunda sobre as possíveis irregularidades do último governo de Getúlio.

No dia seguinte ao suicídio, milhares de pessoas saíram às ruas para prestar o “último adeus” ao pai dos pobres, chocadas com o que ouviram no noticiário radiofônico mais popular da época, o Repórter Esso. Enquanto isso, retratos de Getúlio eram distribuídos para o povo durante o dia.

Carlos Lacerda teve que fugir do país, com medo de uma perseguição popular.

E, por fim, o clima de comoção popular devido à morte de Getúlio, teria facilitado a eleição de Juscelino Kubitschek à presidência da república e de João Goulart (O Jango) à vice presidência, (JK) , em 1955, derrotando a UDN, adversária de Getúlio. JK e João Goulart são considerados, por alguns, como dois dos “herdeiros políticos” de Getúlio.

Um político da atualidade que manteve viva a história e o legado de Getúlio Vargas foi Leonel de Moura Brizola, que após anistiado pela ditadura militar, retornou ao Brasil e fundou o PDT – Partido Democrático Trabalhista.

Hoje o PDT esta à frente do Ministério do Trabalho do Governo Lula, com o presidente nacional do partido, Carlos Lupi. Este ministério foi instituído por Getulio Vargas, em 1930.

A CARTA

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”.

 

 Getúlio Vargas

Comando da Aeronáutica repudia reportagem do Fantástico sobre voar no Brasil

Nota Oficial 

Esclarecimentos sobre reportagem do Fantástico exibida em 07/08/2011

O Comando da Aeronáutica repudia veementemente o teor da reportagem do jornalista Walmir Salaro, levada ao ar no Fantástico deste domingo, sete de agosto, e no Bom Dia Brasil desta segunda-feira, oito de agosto.

A matéria em questão parte de princípios incorretos e de denúncias infundadas para passar à população brasileira a falsa impressão de que voar no Brasil não é seguro. A reportagem contradiz os princípios editoriais da própria Rede Globo ao apresentar argumentos com falta de Correção e falta de Isenção, itens considerados pela própria emissora como sendo atributos da informação de qualidade.

O jornalista embarcou em uma aeronave de pequeno porte (aviação geral), que tem características como nível de voo, rota, classificação e regras de controle aéreo diferentes dos voos comerciais. A matéria trata os voos sob condições visuais e instrumentos como se obedecessem as mesmas regras de controle de tráfego aéreo, levando o espectador a uma percepção errada.

O piloto demonstra espanto ao avistar outras aeronaves sobre o Rio de Janeiro e São Paulo, dando um tom sensacionalista a uma situação perfeitamente normal e controlada que ocorre sobre qualquer grande cidade do mundo. Nesse sentido, causa estranheza que a reportagem tenha mostrado a proximidade dos aviões como algo perigoso para os passageiros no Brasil. As próprias imagens revelam níveis de voo diferenciados, além de rotas distintas.

Além disto, o piloto que opta por regras de voo visual, só terá seu voo autorizado se estiver em condições de observar as demais aeronaves em sua rota, de acordo com as regras de tráfego aéreo que deveriam ser de seu pleno conhecimento. Mesmo assim, o piloto receberá, ainda, avisos sobre outros voos em áreas próximas.

Foi exatamente o que ocorreu durante a reportagem, que mostra o contato constante dos controladores de tráfego aéreo com o piloto. Desde a decolagem foram passadas informações detalhadas sobre os demais tráfegos aéreos na região, sem que houvesse qualquer perigo para as aeronaves envolvidas.

A respeito da dificuldade demonstrada em conseguir contato com o serviço meteorológico, é interessante lembrar que há várias frequências disponíveis para contato com o Serviço de Informações Meteorológicas para Aeronaves em Voo (VOLMET), que está disponível 24 horas por dia em todo o país. Além destas, há frequências de ATIS (Serviço Automático de Informação em Terminal) que fornecem continuamente, por meio de mensagem gravada e constantemente atualizada, entre outros dados, as condições meteorológicas reinantes em determinada Área Terminal, bem como em seus aeroportos. Como, aliás, é o caso da Terminal de Belo Horizonte, incluindo os aeroportos da Pampulha e de Confins.

Ressalte-se que, a despeito da operação de tais serviços, todos os pilotos têm a obrigação de obter informações meteorológicas antes do voo pessoalmente nas Salas de Informações Aeronáuticas dos aeroportos, por telefone ou até pela internet.

Ao realizar o voo sem, possivelmente, ter acessado previamente informações meteorológicas, o piloto expôs a equipe de reportagem a uma situação de risco desnecessário. Tratou-se, obviamente, de mais um traço sensacionalista e sem conteúdo informativo.

A respeito do momento da reportagem em que o controle do espaço aéreo diz que não tem visualização da aeronave, cabe esclarecer que o voo realizado pela equipe do Fantástico ocorreu à baixa altitude, em regras de voos visuais, uma situação diferente dos voos comerciais regulares.

Na faixa de altitude utilizada por aeronaves como das empresas TAM e GOL, extensamente mostradas durante a reportagem, há cobertura radar sobre todo o território brasileiro. Para isso, existem hoje 170 radares de controle do espaço aéreo no país. Como dito acima, é feita uma confusão entre perfis de voos completamente diferentes. Dessa forma, o telespectador do Fantástico ficou privado de ter acesso a informações que certamente contribuem para a melhor apresentação dos fatos.

No último trecho de voo da reportagem, o órgão de controle determinou a espera para pouso no Aeroporto Santos-Dumont. O que foi retratado na matéria como algo absurdo, na realidade seguiu rigorosamente as normas em vigor para garantir a segurança e fluidez do tráfego aéreo. Os voos de linhas regulares, na maioria das vezes regidos por regras de voo por instrumentos, gozam de precedência sobre os não regulares, visando a minimizar quaisquer problemas de fluxo que possam afetar a grande massa de usuários.

A reportagem também errou ao mostrar que Traffic Collision Avoidance System (TCAS) é acionado somente em caso de acidente iminente. O fato do TCAS emitir um aviso não significa uma quase-colisão, e sim que uma aeronave invadiu a “bolha de segurança” de outra. Essa bolha é uma área que mede 8 km na horizontal (raio) e 300 metros na vertical (raio).

Cabe ressaltar ainda que a invasão da bolha de segurança não significa sequer uma rota de colisão, pois as aeronaves podem estar em rumos paralelos ou divergentes, ou ainda com separação de altitude, em ambiente tridimensional.

A situação pode ser corrigida pelo controle do espaço aéreo ou por sistemas de segurança instalados nos aviões, como o TCAS. Nem toda ocorrência, portanto, consiste em risco à operação. O TCAS, por exemplo, pode emitir avisos indesejados, pois o equipamento lê as trajetórias das aeronaves, mas não tem conhecimento das restrições impostas pelo controlador.

Todas as ocorrências, no entanto, dão início a uma investigação para apurar os seus fatores contribuintes e geram recomendações de segurança para todos os envolvidos, sejam controladores, pessoal técnico ou tripulantes. É esse o caso dos 24 relatórios citados na reportagem. A existência desses documentos não significa a ocorrência de 24 incidentes de tráfego aéreo, e sim uma consequência direta da cultura operacional de registrar todas as situações diferentes da normalidade com foco na busca da segurança.

A investigação tem como objetivo manter um elevado nível de atenção e melhorar os procedimentos de tráfego aéreo no Brasil, pois é política do Comando da Aeronáutica buscar ao máximo a segurança de todos os passageiros e tripulantes que voam sobre o país. Incidentes e acidentes não são aceitáveis em nenhum número, em qualquer escala.

Sobre a questão dos controladores de tráfego aéreo, ao contrário da informação veiculada, o Brasil tem atualmente mais de 4.100 controladores em atividade, entre civis e militares. No total, são mais de 6.900 profissionais envolvidos diretamente no tráfego aéreo, entre controladores e especialistas em comunicação, operação de estações, meteorologia e informações aeronáuticas.

Para garantir a segurança do controle do espaço aéreo no futuro, o Comando da Aeronáutica investe na formação de controladores de tráfego aéreo. A Escola de Especialistas de Aeronáutica forma anualmente 300 profissionais da área. Todos seguem depois para o Centro de Simulação do Instituto de Controle do Espaço Aéreo (ICEA), inaugurado em 2007 em São José dos Campos (SP). Com sistemas de última geração e tecnologia 100% nacional, o ICEA ampliou de 160 para 512 controladores-alunos por ano, triplicando a capacidade de formação e reciclagem.

Vale salientar que a ascensão operacional dos profissionais de controle de tráfego aéreo ocorre por meio de um conselho do qual fazem parte, dentre outros, os supervisores mais experientes de cada órgão de controle de tráfego aéreo. Desse modo, nenhum controlador de tráfego aéreo exerce atividades para as quais não estejam plenamente capacitados.

A qualidade desses profissionais se comprova por meio de relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA). De acordo com o Panorama Estatístico da Aviação Civil Brasileira, dos 26 tipos de fatores contribuintes para ocorrência de acidentes no país entre 2000 e 2009, o controle de tráfego aéreo ocupa a 24° posição, com 0,9%. O documento está disponível no link:
http://www.cenipa.aer.mil.br/cenipa/Anexos/article/19/PANORAMA_2000_2009.pdf

A capacitação dos recursos humanos faz parte dos investimentos feitos pelo DECEA ao longo da década. Entre 2000 e 2010, foram R$ 3,3 bilhões, sendo R$ 1,5 bilhão somente a partir de 2008. O montante também envolve compra de equipamentos e a adoção do Sistema Avançado de Gerenciamento de Informações de Tráfego Aéreo e Relatórios de Interesse Operacional (SAGITÁRIO), um novo software nacional que representou um salto tecnológico na interface dos controladores de tráfego aéreo com as estações de trabalho. O sistema tem novas funcionalidades que permitem uma melhor consciência situacional por parte dos controladores. Sua interface é mais intuitiva, facilitando o trabalho de seus usuários.

Os resultados desses investimentos foram demonstrados pela auditoria realizada em 2009 pela International Civil Aviation Organization (ICAO), organização máxima da aviação civil, ligada às Nações Unidas, com 190 países signatários. A ICAO classificou o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro entre os cinco melhores no mundo. De acordo com a ICAO, o Brasil atingiu 95% de conformidade em procedimentos operacionais e de segurança.

Sem citar quaisquer dessas informações, para realizar sua reportagem, a equipe do Fantástico exibe depoimentos sem ao menos pesquisar qual a motivação dessas fontes. O Sr. Edileuzo Cavalcante, por exemplo, apresentado como um importante dirigente de uma associação de controladores, é acusado por atentado contra a segurança do transporte aéreo, motim e incitação à indisciplina, e responde por essas acusações na Justiça Militar.

O Sr. Edileuzo Cavalcante foi afastado da função de controlador de tráfego aéreo em 2007 e recentemente excluído das fileiras da Força Aérea Brasileira. Em 2010, também teve uma candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral.

Quanto à informação sobre as tentativas de chamada por parte do controlador de tráfego aéreo, Sargento Lucivando Tibúrcio de Alencar, no caso do acidente ocorrido com a aeronave da Gol (PR-GTD) e a aeronave da empresa Excel Aire (N600XL) em 29 de setembro de 2006, cabe reforçar que elas não obtiveram sucesso devido à aeronave da Excel Aire não ter sido instruída oportunamente a trocar de frequência e não a qualquer deficiência no equipamento, conforme verificado em voo de inspeção. Durante as tentativas de contato, a última frequência que havia sido atribuída à aeronave estava fora de alcance, impossibilitando o estabelecimento das comunicações bilaterais.

Já quando foi consultar o Departamento de Controle do Espaço Aéreo, a equipe de reportagem omitiu o fato que trataria de problemas de tráfego aéreo. Foi informado que se tratava unicamente sobre a evolução do tráfego aéreo de 2006 a 2011.

Por fim, o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica ressalta que voar no país é seguro, que as ferramentas de prevenção do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro estão em perfeito funcionamento e que todas as ações implementadas seguem em concordância com o volume de tráfego aéreo e com as normas internacionais de segurança. No entanto, este Centro reitera que a questão da segurança do tráfego aéreo no país exige um tratamento responsável, sem emoção e desvinculado de interesses particulares, pessoais ou políticos.

Brasília, 9 de agosto de 2011.
Brigadeiro-do-Ar Marcelo Kanitz Damasceno
Chefe do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica

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blog do Nassif

Imortal chama colega da ABL de “macilento boquirroto”

Uma rixa antiga entre dois integrantes da ABL (Academia Brasileira de Letras) ressuscitou nesta semana com ares de folhetim.

Irritado porque o ex-ministro da Educação Eduardo Portella, 78 anos, conversava durante uma fala sua durante sessão na semana passada, o poeta e tradutor Lêdo Ivo, 87 anos, leu aos acadêmicos na sessão de ontem (quinta-feira, 4/8) um texto desancando o colega, sem no entanto citar o nome dele.

Conhecedores do dia a dia da ABL não têm dúvidas de que o alvo dos ataques é Portella –velho desafeto de Ivo. O professor ex-ministro da Educação (governo Figueiredo) estava no auditório quando foi insultado, mas não se manifestou.

No discurso, Ivo chamou o adversário de “macilento boquirroto”, queixando-se que durante 25 minutos ele emitiu “ganidos, gemidos, vagidos, coaxos, grasnidos, uivos, ladridos, miados, pipilos e arrulhos intoleráveis, senão obscenos”.

Sempre em linguagem cifrada, fez chiste com os cabelos pintados do colega, chamado de “tintureiro de si mesmo” (definição do padre Manuel Bernardes).

“Há velhos que procuram enganar-se a si mesmos, pintando os cabelos, embora as florejantes e fartas cabeleiras antigas já tenham sido devastadas pela sabedoria ou impiedade dos tempo, que as converte em insidiosas relíquias capilares”, escreveu.

“No episódio em pauta”, prossegue “o uso imoderado dessa tintura, ou pintura, para esconder o inescondível e disfarçar o indisfarçável, casa-se com a boquirrotice provocadora.”

“Mas, tintureiro de si mesmo e boquirroto, esse personagem bizarro merece e reclama, de nossa parte, não um ato agressivo ou belicoso, ou alagoano [Ivo nasceu em Alagoas], mas a muda expressão dessa piedade e dessa misericórdia que devem habitar sempre os nossos corações.”

Sobrou também para o presidente da ABL, Marcos Vinicios Vilaça, acusado de ser omisso e leniente no episódio –pois, disse Ivo, teria o dever de impor silêncio ao auditório.

Lêdo Ivo diz que, momentos antes de seu discurso, Vilaça queixara-se dos gastos excessivos com táxi de um dos acadêmicos (não o nomeia), mas, durante a sessão, não deu devida atenção ao episódio.

Leia a seguir a íntegra da carta enviada por Lêdo Ivo aos acadêmicos:

“Sr. Presidente,

Senhoras Acadêmicas,

Senhores Acadêmicos,

Nesta Academia, como em todas as corporações que se regem pelas normas da civilização, da boa educação, da polidez e da conviviabilidade, o silêncio do auditório, durante a fala de um dos seus integrantes, é um princípio pétreo.

Esse princípio, Sr. Presidente, foi vulnerado quinta-feira última, quando eu estava falando sobre Gonçalves de Magalhães.

Durante 25 minutos, este auditório ouviu, ininterruptamente, ganidos, gemidos, vagidos, coaxos, grasnidos, uivos, ladridos, miados, pipilos e arrulhos intoleráveis, senão obscenos, de um macilento boquirroto ostensivamente deliberado a tisnar e perturbar a minha exposição.

Momentos antes, Sr. Presidente, V. Exa. exarava o seu zelo por esta Casa versando sobre a quilometragem exorbitante de um dos táxis que servem aos acadêmicos do plenário e que, em seu alto juízo, golpeava as burras fartas desta Academia, a mais rica do mundo.

Esse zelo, que é louvável, ou extremamente louvável, se cingiu na sessão de 5. feira última, a um inquietante item monetário, e não voltou a florescer quando um dos mais antigos integrantes desta Casa discorria sobre Gonçalves de Magalhães.

Entendo que era dever inarredável de V. Exa. impor então ao auditório o silêncio de praxe, exercendo plenamente a sua Presidência.

Esse entendimento, aliás, não é só meu — mas ainda o de outros companheiros que, finda a sessão, e ao longo da semana, estranharam a omissão, leniência ou tolerância de V. Exa.

Houve até companheiros que me externaram a opinião de que eu deveria ter suspendido a minha palestra, já que ela fluía num ambiente toldado pela enxurrada de grasnidos a que já aludi.

E não posso nem devo esconder que outros confrades, apreciadores das soluções surpreendentes ou belicosas que quebram a monotonia da vida e das instituições me interpelaram, surpresos, desejosos de saber onde estava a minha alagoanidade, que não se manifestara.

A todos esses companheiros fiéis à tradição de urbanidade e conviviabilidade desta Academia, onde estou há 25 anos, expliquei o ter lido o meu texto até o fim.

Deus, em sua infinita generosidade, assegurou-me, aos 87 anos, o timbre de voz de minha juventude.

Não pertenço à raça dos velhos trôpegos que, com voz de falsete, emitem arrulhos indecorosos em ocasiões em que a decência reclama o ritual do silêncio.

Mas a razão decisiva que me levou a não suspender a minha palestra é outra. Além de ter mantido em mim a voz de minha juventude, Deus me aquinhoou com o sentimento da misericórdia –que é a compaixão suscitada pela miséria alheia– e da piedade, que é dó e comiseração.

Confesso, Sr. Presidente, que me confrange o coração assistir ao penoso espetáculo dos que, alcançada a velhice, ostentam em seu trajeto os sinais indeléveis e quase póstumos da decadência física, mental e moral aceleradas, e mesmo amparados por bengalas astutas rastejam nos salões, corredores e auditórios tão lastimosamente, com os olhos mortiços fixados no chão, como se temessem resvalar em uma cova aberta.

Há velhos que não sabem envelhecer e, desprovidos da alegria e do amor à vida, e do emblema do convívio, destilam ódio, inveja e despeito, porejam calúnias e intrigas, bebem o fel do ostracismo e da obscuridade.

Há velhos que procuram enganar-se a si mesmos, pintando os cabelos, embora as florejantes e fartas cabeleiras antigas já tenham sido devastadas pela sabedoria ou impiedade dos tempo, que as converte em insidiosas relíquias capilares.

Esses velhos enganosos e enganados, o padre Manuel Bernardes os estampilha de “tintureiros de si mesmo”.

No episódio em pauta, o uso imoderado dessa tintura, ou pintura, para esconder o inescondível e disfarçar o indisfarçável, casa-se com a boquirrotice provocadora.

Mas, tintureiro de si mesmo e boquirroto, esse personagem bizarro merece e reclama, de nossa parte, não um ato agressivo ou belicoso, ou alagoano, mas a muda expressão dessa piedade e dessa misericórdia que devem habitar sempre os nossos corações.

Encerro esta palesta com um verso de Lucrécio: “É doce envelhecer de alma honesta”.

Deus guarde V. Exa. Senhor Presidente, e os demais integrantes desta Casa.

Tenho dito.”

 

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FABIO VICTOR/sp

Comissão Nacional da Verdade: mais uma farsa?

Grupo Tortura Nunca Mais-RJ

O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, mais uma vez, vem a público mostrar sua preocupação e, mesmo, indignação com as desinformações e manipulações que vêm ocorrendo em torno da instalação de uma Comissão Nacional da Verdade a ser votada em breve pelo Congresso Nacional. Importante lembrar que esta 2ª versão da Comissão da Verdade — contida nas reformulações conservadoras do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), em maio de 2010 — apresenta graves e comprometedoras mudanças que mutilam a 1ª versão, anunciada à Nação, em dezembro de 2009, em grande mis-em-scène midiática.

Já havíamos questionado o caráter antidemocrático daquela 1ª versão da Comissão Nacional da Verdade no que dizia respeito à criação de um grupo de trabalho para elaborar o projeto de lei que instituiria esta Comissão. Dentre os 06 membros que formariam este grupo de trabalho, 05 seriam autoridades governamentais e somente 01 “representante da sociedade civil”, escolhido por uma dessas autoridades.

Entretanto, há nesta 2ª versão mudanças muito sérias e graves que mostram um profundo desprezo por nossa história em nome da “conciliação nacional” e da governabilidade. São elas:

• retira-se qualquer tipo de responsabilização em relação àqueles que cometeram crimes contra a humanidade naquele período de terror.

• retiram-se as expressões “repressão ditatorial”, “regime de 1964-1985” e “resistência popular à repressão”, substituindo-as por “prática de violações de direitos humanos no período de 18 de setembro de 1946 até a data da promulgação da Constituição (1988).” Ou seja, retira-se da história do Brasil o período de ditadura civil-militar.

• acrescenta-se ao trabalho de “localização e identificação de corpos e restos mortais de desaparecidos políticos’ a expressão “com base no acesso às informações”. Ou seja, o Estado brasileiro não se compromete nestas buscas e identificações a não ser que ocorram informações. E quem daria essas informações? Como sempre o Estado brasileiro, mandante e responsável por esses crimes, se omite e coloca o ônus das provas nas mãos de entidades de direitos humanos e dos familiares de desaparecidos, sendo que os arquivos ditos secretos da ditadura continuam inacessíveis.

Sabemos que a memória é um campo de lutas e que estas modificações no PNDH-3 com relação à Comissão da Verdade está fortalecendo uma certa história oficial: como se fosse a história única e verdadeira, possivelmente com o apoio das próprias forças que respaldaram o terror em nosso país.

Cabe, ainda, lembrar que este debate para implantação de uma Comissão Nacional da Verdade — mesmo que mutilada e somente “para inglês ver” como forma de aplacar os clamores nacionais e internacionais — fortalece-se logo após a sentença dada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA que condenou o Estado brasileiro em relação à Guerrilha do Araguaia. Por esta sentença, exarada em dezembro de 2010, o Brasil tem até o final do ano para remover todos os obstáculos práticos e jurídicos para a investigação dos crimes, esclarecimento da verdade e responsabilização dos envolvidos. Também, o Tribunal reafirmou o alcance geral de sua decisão, exigindo que as disposições da Lei de Anistia, que impedem as investigações penais, não possam representar um obstáculo a respeito de todos os outros casos de mortos e desaparecidos políticos no Brasil.

Por tudo isto, reafirmamos nosso repúdio a esta encenação de Comissão da Verdade. Continuamos nossa luta por:

• Uma outra Comissão Nacional da Verdade e Justiça.

• Pelo cumprimento integral da Sentença da OEA.

• Pela abertura ampla, geral e irrestrita de todos os arquivos da ditadura.

Rio de Janeiro, 03 de maio de 2011

Pela Vida, Pela Paz

MARILICE COSTI envia carta aberta à presidenta DILMA ROUSSEFF / porto alegre

Querida Presidente:

Hoje pensei numa forma de a contatar para lhe enviar a revista  O CUIDADOR. E, ao chegar em casa, uma pessoa no Facebook, sem saber disso, passa-me o seu acesso. Considero isso o movimento do coletivo, cuja forma de energia desconhecemos, onde está a solidariedade, que é onde nosso trabalho se insere. E ela, a energia, é real.

Sou cuidadora de portador de sofrimento psíquico há 39 anos e por isto é que iniciei este projeto. Há três anos, edito a revista que é para apoiar a qualquer cuidador, dar-lhe orientação, apoio e fundamentalmente, alento e partilha nas dificuldades e nas alegrias. Durante a sua criação, dei-me conta que todos somos cuidadores ou somos sociopatas! Cuidamos do amigo, do irmão, dos pais, de pacientes, de funcionários, de muitas pessoas. Existe um universo enorme de cuidadores invisíveis, os quais procuro trazer na revista, também na área pública.

A revista é também da comunidade, que tem ali seu espaço de “FALA” (e-mails e cartas) e “Depoimentos” onde conta sua história – se, ao cuidar, construiu-se, tornando-se um ser humano melhor – os quais acompanho pessoalmente por e-mail.

Seguimos com recursos próprios e muito trabalho, uma equipe mínima. Mas não abandonaremos esse projeto porque é o motivo atual da minha vida.

Como mãe e amiga de muitos familiares com problemas similares, solicito que amplie o seu olhar direcionando-o também aos cuidadores com filhos com problemas mentais. O problema é muito grave. Há pessoas mal atendidas na rede SUS (diagnósticos inadequados, logo, o medicamente está errado), consultas psiquiátricas demoram muitos meses, há CAPS em muitos pontos do país sem pessoal (apenas o prédio), há falta de leitos para internações, as moradias chamadas de residenciais terapêuticos estão sem regulamentação e sem fiscalização ou não existem, há falta de acolhimento (digo colo mesmo, abraço e empatia!) e cuidados adequados a nossos filhos que, ao morarem nessas casas ficam à mercê de cuidadores despreparados (alta rotatividade), até porque falta regulamentação, subsídio, estímulo para a criação desses lugares de cuidar. É importante quebrar paradigmas: não morar com o filho não é desassisti-lo, mas cuidar de si para ter tempo para amá-lo.

Há muitas experiências novas pelo Brasil, mas pouco se sabe. Na revista, temos espaço para contar e dizer que nossos filhos precisam de exercícios, de arteterapia, de alimentação nutricional, de escuta, sem que se tenha que pagar vários salários mínimos, o que é impossível à grande maioria da população.

Qual a diferença de saírem de manicômios e ficarem desassistidos em casas sem fiscalização? Então, os pais ou familiares, cansados do cuidado intermitente, adoecem junto no ato de cuidar, porque não têm vida social realizadora. As famílias cansam, os maridos vão embora, as mães ficam com tudo. E quando elas se forem?  Este é o maior medo dos familiares, que a mãe morra antes do filho portador, o que é muito comum.

Além disso, saber que nossos filhos são cuidados como cidadãos, é o que dá saúde à toda família.

Coloco-me à disposição, pois tenho plena certeza, que um cuidador bem cuidado, melhor cuidador será!  Este é o nosso mote na revista que está em seu Ano III, que passou a ter o subtítulo “Orgulho de Ser” para aumentar a autoestima dos cuidadores, a qualquer pessoa que exerça o cuidado em qualquer instância, pois quando ele é prolongado gera síndromes (a do Cuidador) que só é reconhecida pelo MT para os profissionais do cuidado. Nunca para as mães, cuidadoras eternas.

Certa de sua atenção,

Marilice Costi, editora-chefe, arquiteta e arteterapeuta – Porto Alegre/RS

http://www.ocuidador.com.br

 

Carta do Zé agricultor para Luis morador da cidade – por “netuno” / belo horizonte

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Prezado Luis, quanto tempo.

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo… hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês. Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro… Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade. To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?

Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né ..) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.

Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do

Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.

(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.)

 

J B VIDAL e sua DECLARAÇÃO DE VOTO

POR QUE DILMA?

28/10/2010

O povo brasileiro, ao término dos governos do Presidente Lula, descobriu-se orgulhoso de sua existência. É comentado e discutido fora das fronteiras geográficas e filosóficas.

É, hoje, respeitado como nação que produz riquezas e lidera a movimentação para a paz no planeta.

O Brasil, hoje, caminha ao lado das grandes economias, discutindo o futuro com o peso da sua moral ambientalista e do esforço para a erradicação da pobreza.

Todo esse presente, entretanto, custou muito caro aos brasileiros ao longo das décadas.

O caminho de mão dupla entre a Casa Grande e a Senzala foi construído com muito sacrifício, dor e sangue, mas que, os brasileiros souberam suportar e superar em razão da fé inabalável em Deus e no trabalho produtivo.

Tal momento grandioso é desprezado e odiado, aqui dentro, pelas organizações e pessoas que se locupletam do estado brasileiro,  pelas “heranças” decorrentes das capitanias hereditárias e mais modernamente pela grilagem truculenta e as reservas de mercado – e arrastam atrás de si uma parcela do povo inocente e crédulo – gerando atrasos e sacrifícios.

Até antes da  Era Lula, o povo brasileiro era tido como “gente de terceira classe”, e não somente os trabalhadores, as classes médias também, repudiadas algumas pela ameaça de ocupar espaços reservados àqueles – hereditários e truculentos.

Enfim, o Brasil É.

Como dar prosseguimento a esta caminhada de crescimento econômico, social, intelectual, tecnológico, de elevação moral e auto-estima? Como enfrentar as adversidades externas e internas? Os interesses espúrios que nos rondam permanentemente montados na “grande mídia familiar” sócia de todas as desordens?

Dilma, a intuição de Lula: “… quando a encontrei pela primeira vez, em uma reunião de trabalho eu pensei: – esta é a mulher para comandar o Brasil, consolidar as conquistas e avançar para um crescimento sem sobressaltos e sacrifícios –“

Dilma, a mulher, avó, mãe, amiga, inteligente, culta, ouvinte, forte, leal, competente, decidida, corajosa, tranqüila e, comprovadamente, com grande amor por seu país e seu povo.

Dilma, com uma história e um futuro que somente o sonho de um povo sofrido pode formular um misto de Anita e Indira.

Por estas razões eu voto, convido meus filhos a votar pelos seus, meus netos, pelo povo brasileiro, pelo Brasil – enfim uma Nação.

J B VIDAL


“…com Lula a esperança venceu o medo, com Dilma a verdade vencerá a mentira!”

PEDRO BIAL sobre Serra e DILMA / são paulo

Carta de Pedro Bial sobre Serra e Dilma

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O Hino Nacional diz em alto e bom tom (ou som, como preferir) que um filho seu não foge à luta.

Tanto Serra como Dilma eram militantes estudantis, em 1964, quando os militares, teimosos e arrogantes, resolveram dar o mais besta dos golpes militares da desgraçada história brasileira.

Com alguns tanques nas ruas, muitas lideranças, covardes, medrosas e incapazes de compreender o momento histórico brasileiro, colocaram o rabinho entre as pernas e foram para o Chile, França, Canadá, Holanda. Viveram o status de exilado político durante longo s 16 anos, em plena mordomia, inclusive com polpudos salários.

Foi nas belas praias do Chile, que José Serra conheceu a sua esposa, Mônica Allende Serra, chilena.

Outras lideranças não fugiram da luta e obedeceram ao que está escrito em nosso Hino Nacional. Verdadeiros heróis, que pagaram com suas próprias vidas, sofreram prisões e torturas infindáveis, realizaram lutas corajosas para que, hoje, possamos viver em democracia plena, votar livremente, ter liberdade de imprensa.

Nesse grupo está Dilma Rousseff. Uma lutadora, fiel guerreira da solidariedade e da democracia. Foi presa e torturada. Não matou ninguém, ao contrário do que informa vários e-mails clandestinos que circulam Brasil afora.

Não sou partidário nem filiado a partido político. Mas sou eleitor. Somente por estes fatos, José Serra fujão, e Dilma Rousseff guerreira, já me bastam para definir o voto na eleição presidencial de 2010.

Detesto fujões, detesto covardes!

Pedro Bial

jornalista.

enviado por M.C. Almeida.

CARTA A UM AMOR PASSADO por vera lucia kalahari / portugal

CARTA A UM AMOR PASSADO

Tu eras a paisagem grandiosa e amena do oásis na solidão da minha vida.

Meu cavalo galopara por todos os desertos meu albornoz se agitara a todos os ventos,

e armara a minha tenda sob todos os céus: nada vira, nada encontrara, nada tivera que me acolhesse, como a sombra das palmeiras, que me encantavam como o mistério luminoso dos astros.

Sabia o que as palmeiras ensinavam entre as dunas inóspitas: que a sua sombra era doce e silenciosa.

Sabia que as estrelas estavam longe e que só os magos entendiam a sua linguagem de beleza e de mistério.

Não sabia que um dia, como o nómada perdido sob o sol escaldante, caminhando sobre as areias, poderia encontrar junto de ti, a doce sombra das palmeiras silenciosas, na amena paisagem do oásis. Nem sabia que no azul das minhas noites, vendo as estrelas reflectidas nos meus olhos, entenderia também a linguagem cintilante dos astros e ouviria o que eles diziam, palpitando no céu distante: Que Alá é grande, que o amor é o maior bem terreno e que a felicidade existe, não no céu distante, mas junto de nós, ao alcance do nosso gesto, perto do nosso coração, e que um dia a encontraremos…Então, sonhava, apertava-te ao meu peito e beijava os teus olhos cheios de estrelas

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ilustração da autora.

CARTA A UM AMIGO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Prezado Walter,

Quando há dias lhe propus a compra de meu livro “O cão noturno”, de poesia, com só duzentos exemplares (obviamente, que não dá para pensar em enriquecer com a venda do livro nem mesmo para juntar alguns tostões para empreender nem que seja uma pequena viagem (ao Rio, por exemplo, onde não vou faz um bocado de anos), fiquei meio acanhado com essa atividade meio estranha para mim de vendedor de coisas. Nunca dei para esse honrado ofício. Sempre fui mal em matéria de negócios. Mas envolvendo um livro e um amigo, quis com a proposta da compra conseguir-lhe um juízo crítico de sua qualidade, inobstante saber que não é exatamente o leitor que aprecie poesia ou lhe dê primazia nas suas escolhas de leituras.

Mas poderia lhe falar sobre meu livro, a qualidade que possam ter alguns poucos poemas, sem faltar à modéstia. Não gosto (até detesto) de falar de mim mesmo, porque podem me tomar por essa coisa terrível: cabotino.

Que lhe direi de meu livro ou de meus poemas?

Costumo dizer que um único poema salva um livro da ruindade absoluta ou de um fracasso total, assim como pode salvar uma cidade ou um país, pode nos salvar de qualquer desventura ou qualquer outra coisa que possamos imaginar.

Há bem pouco, um amigo poeta me disse na lata que eu deixasse dessa tolice de me considerar poeta, quando muito sei dar conta de uma página e meia de prosa, e muito mal (no dizer dele).

Não me entristeço com tal crítica.

Afinal, cada um tem o sagrado direito de exercer a crítica.

Acho que poetas somos todos, cada um a sua maneira. Há poetas sem versos escritos ou publicados. Como dizia um filósofo, se não me engano foi Georges Steiner, “bemaventurado o poeta sem versos”. Esse é, sem dúvida, o poeta mais puro. Porque é poeta para ele, nas suas horas mais silenciosas e recolhidas, em que diz para si mesmo seus secretos poemas.

Que lhe posso dizer (repito) de meus poemas? Haverá um único que valha a pena, que possa ter alcançado essa condição preciosa de poema?

Posso lhe garantir que, no meu livro, você poderá encontrar, sim, esse único poema.

Não vou lhe revelar qual seja. Isso é tarefa que lhe compete.

Se você achá-lo, ó grande compensação, como dizia Emily Dickinson, quando salvou um pássaro de morrer, não terei vivido em vão.

x x x

PS – “O cão noturno”, para quem interessar, está à venda nas livrarias Saraiva (Shopping Beira Mar) e na Livros & Livros, à rua Jerônimo Coelho, nesta capital).

DUNGA envia carta ao RICARDO TEIXEIRA “il cappo”

Dunga desembarcou em Porto Alegre no domingo e foi demitido horas depois (Foto: EFE)

SILVIO TENDLER: “CARTA AO GOVERNO ISRAELENSE”

Recebo carta aberta, assinada pelo cineasta Silvio Tendler, e endereçada ao governo israelense.

O texto, certamente, expressa o sentimento de milhares de judeus humanistas, espalhados pelo mundo, e que não suportam mais ver o seu povo associado à política genocida adotada por Israel.

Uma cultura que gerou pensadores como Marx, Freud, Eistein, e centenas de autores e intelectuais como Stephen Zweig, Amos Oz e tantos outros, não pode ser jogada no lixo pela política fascista do Estado de Israel.

É importante não estigmatizar a cultura judaica, e não permitir que o anti-semitismo se propague, sob impacto desse ataque criminoso promovido pelo governo israelense. RODRIGO VIANNA.

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CARTA AO GOVERNO ISRAELENSE – por Silvio Tendler

Senhores que me envergonham:

Judeu identificado com as melhores tradições humanistas de nossa cultura, sinto-me profundamente envergonhado com o que sucessivos governos israelenses vêm fazendo com a paz no Oriente.Médio.

As iniciativas contra a paz tomadas pelo governo de Israel vem tornando cotidianamente a sobrevivência em Israel e na Palestina cada vez mais insuportável.

Já faz tempo que sinto vergonha das ocupações indecentes praticadas por colonos judeus em território palestino. Que dizer agora do bombardeio do navio com bandeira Turca que leva alimentos para nossos irmãos palestinos? Vergonha, três vezes vergonha!

Proponho que Simon Peres devolva seu prêmio Nobel da Paz e peça desculpas por tê-lo aceito mesmo depois de ter armado a África do Sul do Apartheid.

Considero o atual governo, todos seus membros, sem exceção,  merecedores por consenso universal do Prêmio Jim Jones  por estarem conduzindo todo um pais para o suicídio coletivo.

A continuar com a política genocida do atual governo nem os bons  sobreviverão e Israel perecerá baixo o desprezo de todo o mundo..

O Sr., Lieberman, que  trouxe da sua Moldávia natal vasta experiência com pogroms, está firmemente empenhado em aplicá-la contra nossos irmãos palestinos. Este merece só para ele um tribunal de Nuremberg.

Digo tudo isso porque um judeu humanista não pode assistir calado e indiferente o que está acontecendo no Oriente Médio. Precisamos de força e coragem para, unidos aos bons, lutar pela convivência fraterna entre dois povos irmãos.

Abaixo o fascismo!

Paz Já!

Silvio Tendler

BICHO PREDILETO – por tonicato miranda /curitiba


Prezado Hamilton,

Desde o dia doze de Janeiro não lhe escrevo. Não nos comunicamos desde aquele momento de ousadia em que cismei em meter a colher, o açúcar; e até molhar o biscoito, na sua brilhante crônica de ano novo. É claro, você, com direitos e pompa, recusou qualquer interferência. Pois deixemos o passado guardado nas gavetas do tempo.

Agora vejo no PALAVRAS, TODAS PALAVRAS que você, pela segunda vez, fala em predileção por bichos. Também por uma segunda vez fala da sua preferência pelo urubu. E mais, propõe fundar a SAU (Sociedade de Amigos do Urubu). Devo dizer que mesmo tendo convivido com tais bichos desde minha infância no Grajaú, no Rio de Janeiro, onde sempre proliferavam tais aves, desde o mangue até os morros que cercam toda a cidade, jamais tive muito apreço por eles e não poderei ser sócio ou parceiro nesta sua confraria.

Ocorre que o urubu é o bicho símbolo do maior rival do meu time do coração. Aquele cujo nome me recuso citar nesta carta-crônica. Apesar disto afirmo não gostar também da cartola atribuída ao meu time, o Fluminense. Prefiro a associação que nos fazem ao pó de arroz. Mas também compreendo ficaria difícil adotar o pó de arroz como símbolo do nosso time. Isto porque ele é meio intangível, sem forma, soando mais como atitude, não como uma imagem palpável.

Mas retornando aos bichos-símbolos estou aqui caraminholando sobre prováveis bichos de minha predileção. Ou ainda que tenham ou tiveram comigo alguma afinidade. No entanto, não encontro um capaz de representar todo meu afeto. Pensei inicialmente na tartaruga, virada para cágado, presença constante na minha infância, na casa dos meus avós. Não, não serve. Ela era deles, não minha. Jamais lhe fiz carinhos. Apenas a observava à distância com medo dos seus recuos abruptos para dentro da casca dura.

Em seguida pensei nos cachorros. O primeiro deles não era igualmente meu. Pertencia a um tio. Seu nome: “Zurich”. Era um bulldog folgadão que se sentava à beira de um quarto de televisão vizinho de grande pátio coberto. Era tão próximo à família que por vezes ousava adentrar o recinto, sentando-se no limiar da soleira entre os dois espaços. Quando alguém deixava escapar gases nada agradáveis inadvertidamente, a maioria deles do meu próprio tio, era acompanhado de um “Sai fora Zurich!” Pois bem, este e outros fatos lavaram-me a me afastar por um bom tempo dos cães. É claro que mais tarde tive outros cachorros maravilhosos a quem me afeiçoei. Mas não chegam eles a balançar-me as emoções a ponto de cravá-los como prediletos, assim como os gatos, de uma única e também infeliz experiência.

Pensando nos pássaros os primeiros foram igualmente da casa do meu tio. De início os periquitos, com sua algaravia contumaz. Não, também não seriam animais dignos da minha afeição, apesar das suas plumagens divinas. Depois teve a araponga, com seu martelo estridente, que azucrinou meus ouvidos por longo tempo, impedindo-me a concentração nos estudos. Da mesma época lembro-me de um corrupião incrível comendo na mão de meu tio. Saía para dar uns passeios, passando a manhã fora da gaiola e sempre voltava na hora do almoço, deixando-se aprisionar. Um belo dia foi para nunca mais voltar. Pudera. Quem quer liberdade vigiada ou pela metade? Ao meu tio ele deu – Aquele Abraço!

Pensei também em cabritos, em cotias, porcos, em peixes e até mesmo em mariposas. Mas nada. Pensei numa jacupemba ou jacupema, que matei numa única caçada que fiz em vida. Seria a maneira de retribuir ao animal a afeição como forma de me redimir do ato criminoso. Ou como índios americanos, louvar a morte do bicho abatido. Qual o quê, também não seria este o bicho.

É meu caro, penso não estar preparado ainda para amar um animal especial. Vou prestar mais atenção em meus sentimentos para ver para qual bicho poderia dirigir de forma mais intensa os meus afetos. Acredito ser um bicho talvez incomum. Talvez seja uma arraia, talvez um caramujo, ou mesmo o marimbondo, dos quais já tive oportunidade de tomar ferroadas, mas nem por isto construiu uma antipatia definitiva.

Assim que tiver definido tal predileção farei um comunicado.

Outra coisa ainda. Enviarei esta carta para ser postada no PALAVRAS, TODAS PALAVRAS. Acredito ser ela de altíssimo interesse a Sociedade Protetora dos Animais, assim como também a sua sempre admirável crônica. Penso assim porque poderemos estar ajudando a montar uma grande confraria protecionista, desde os marimbondos até os urubus. Afinal se cada indivíduo proteger uma determinada espécie haverá um planeta mais rico em variedades animais. Muito embora quanto aos bichos homens a variedade já extrapolou o bom senso, principalmente quanto às tipologias e ao número de pulhas que grassam em todos os rincões e desvãos da Terra.

Por fim, devo dizer que há muito estou lhe traindo como missivista. Desde que parei de lhe escrever passei a manter correspondência assídua com Marilda Confortim. A nossa troca tem sido, pelo menos quanto à poesia, mais reconfortante. Isto porque sendo ela uma dama, tratamos de assuntos totalmente impossíveis de conversar com o amigo.

João Antonio fazendo a parte dele.

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A galinha fazendo a parte dela.

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Luis Fernando alimentando seu filhote de estimação.

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Claudio cuida muito bem de seu Escorpião Imperador.

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e eu?…

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esta carta refere-se à crônica URUBU de hamilton alves que encontra-se logo abaixo.

ilustrações do site.

O ator JUCA DE OLIVEIRA envia “bilhete” para o poeta MANOEL DE ANDRADE / são paulo / curitiba

Manoel, querido:

Gratíssimo pelos livros e pelo material que você me enviou. Li quase tudo e gostei muito do que li. O Poesia e Oralidade é uma jóia, um precioso subsídio para o Devaneio que estamos fazendo na BandNews. Claro que vou dizer algum poema seu numa próxima gravação. As gravações são feitas com antecedência e fica um grande saldo até esgotar o “almoxarifado”…

Fiquei muito impressionado com a sua história, Manoel. Também estive exilado com Guarnieri em 64, na Bolívia, mas o que deveria ser uma longa ausência na Europa acabou sofrendo um remanejamento. O Pai do Guarnieri, maestro do Teatro Municipal foi preso no Brasil, Guarnieri insistiu em voltar e eu, companheiro de partido, o acompanhei na viagem de volta. Ficamos em La Paz apenas 8 meses, mas o suficiente para sentir o peso do exílio.

Mas o seu caso, não, foi uma militância política através da qual você conseguiu metamorfosear a sua poesia até se identificar com a luta do povo latino-americano pela liberdade. É um caso fascinante, talvez único de vocação revolucionária. Só me ocorre o Che Guevara, mas ele lutava ao lado de seus iguais, pelo menos iguais na língua. Enquanto você…

Bom, vou continuar lendo os seus livros e torcer para que você se reintegre logo como o grande poeta que é.

Parabéns!

Abração do

Juca de Oliveira

De Todos os Genros a Todas as Sogras – de “o ruminante” / belém

Eu, aqui representando todos os infelizes que tem a obrigação de conviver com suas sogras, venho por meio desta expressar toda a realidade que existe por trás desta guerra, sim se trata de uma guerra que por milênios sobrevive de batalha em batalha e, creio eu, esta  só terminará com o findar da humanidade.

Sou sabedor que todas as sogras negarão o que revelarei aqui, mas não me importo, pois é uma parte da guerra necessária à sua adequada continuidade.

Desde os primórdios da sociedade existe a notícia da existência da sogra, inclusive nos mitos da criação não é incomum termos a alegoria de um representante deste ser tão desprezível aos olhos dos genros.

Quem não conhece a história de Adão, Eva e a “serpente”. As pessoas que brincam que Adão que foi feliz por não ter tido sogra é que se enganam, a desgraçada está representada na serpente que influenciou sua esposa e desgraçou de vez com a vida dele.

As batalhas acontecem no dia-a-dia, não existe a chance de um só momento de paz. Trata-se de uma guerra silenciosa por parte delas, mas cheia  influências e jogos sinuosos incrivelmente inteligentes. Nós genros somos menos habilidosos em esconder a guerra, daí nossa declarada aversão a sogras, somos assim, sempre transparentes.

Essa transparência nos impede de ganhar esta guerra, pois enquanto vamos ao embate frontal, estas víboras se aproveitam disso para se fazer de vítimas e nos colocar como tiranos que tiraram a sua filha do melhor caminho que outro homem poderia ter dado a nossas esposas.

As sogras são tão hábeis em suas artimanhas que conseguem, por vezes, levar membros do mundo dos genros para seu lado, então ouvimos absurdos como: “Eu adoro minha sogra! Ela é uma mãe para mim!”

Pior ainda é quando as sogras treinam suas filhas para se tornarem excelentes cozinheiras, engordando e enfraquecendo um combatente que, por fim, acabara morrendo cedo por problemas de saúde.

Os genros, por outro lado, fazem de tudo para que elas sempre vejam em nosso grupo tudo o que elas jamais desejaram para suas filhas. Desta forma tornamos suas vidas um desgosto total.

Essa luta não gera vítimas diretas, pois as mortes que ocorrem não são por conta de ataques frontais, mas pelas coisas que ocorrem naturalmente na vida. O prazer de um genro é que sua sogra viva muito, assim ele pode atormentá-la por mais tempo. Para uma sogra, o prazer está em viver o suficiente para ficar totalmente dependente dos cuidados de suas filhas, atazanando incrivelmente a vida do casal que elas tanto querem separar.

Para vocês sogras, digo-lhes que não adianta separar sua filha de seu genro, pois outro será recrutado ao lugar do derrotado, porém agora mais voraz nos ataques, pois um companheiro de batalha fora derrotado.

Por fim, gostaria de dizer-lhes que, se acaso um de nós venha a perecer antes de sua sogra, saibam que foi uma grande honra lutar contra tão poderoso oponente. Caso contrário, uma péssima morte para vocês (isso nós vamos tentar garantir).

 

De Todas as Sogras a Todos os Genros*

*Carta em resposta ao texto: De Todos os Genros a Todas as Sogras

Aos nossos prezados genros.

Gostaríamos de expressar nosso espanto ao receber tão ameaçadora carta, pois desconhecemos qualquer guerra em curso que envolva nossas pessoas.Brincadeirinha! Isso foi só para garantir que vocês leiam o resto da carta totalmente irritados com nossa mais poderosa habilidade: a dissimulação.

De fato, desde o princípio da sociedade estamos disfarçando nossas artimanhas, estratégias e truques para mantê-los acuados na posição de defesa que todos vocês vivem. Enquanto isso, seguimos vitoriosas em saber que nenhuma de nós jamais se rendeu verdadeiramente, pois não há entre nós alguém que realmente gostou de um genro.

Quanto à história de Adão e Eva que vocês citam, saibam que assumimos a responsabilidade por tal evento, pois como poderíamos permitir que um ser tão deprimente vivesse em tão belo paraíso. Inadmissível!

Nossa maior vitória é ouvir de um genro que ama a sua sogra. É uma doce e prazerosa vitória que nenhum de vocês jamais poderá ter.

Não entendo quando dizem que em nossa guerra não há vítimas diretas. É só ver as estatísticas que apontam que os homens morrem mais cedo que as mulheres, que a maioria das mortes “acidentais” é de vítimas masculinas.

É claro que adianta separar vocês de nossas filhas, pois o estresse gerado e a pensão que vocês terão que pagar acabará por adiantar sua morte. Enquanto nossas garotinhas buscam outra vítima outro marido.

Não nos importa quem venha a morrer primeiro, pois nossa missão há sempre de ser cumprida. Não gostaríamos que vocês morressem cedo, mas não há como evitar diante a tanta estupidez. Quando um de vocês se vai, uma companheira nossa de guerra fica um bom tempo sem diversão.

Ficamos felizes por vocês nos reconhecerem como grandes oponentes. Infelizmente, para nós vocês são apenas inimigos medianos que servem para nos divertir. Que graça teria a vida sem importunar vocês.

Desde já agradecemos a abertura que nos deram para expressar nossos desafetos, dos quais continuaremos a negar. Inclusive acho que foi um de vocês que escreveu esta carta para nos incriminar, não foi?

Com muito amor e carinho.

De Todas as Sogras

 

A POETA HELENA KOLODY é homenageada por TONICATO MIRANDA no dia de seu aniversário de nascimento.

Hoje, além de ser o Dia da Padroeira do Brasil e Dia da Criança, é dia de se reverenciar a maior poeta do Paraná.

No dia 12 de Outubro de 1912, nasceu em Cruz Machado, aquela que viria a ser a maior poeta paranaense de todos os tempos, faleceu em Curitiba no dia 15 de fevereiro de 2004.

Helena, se ainda estivesse entre nós estaria completando 97 anos. não deu. como ela mesmo dizia já no fim da sua presença entre nós, as pernas já não aguentavam mais, e ela, quando saía à rua, ía “manquitolando”, se ajeitando no seu grande corpo alquebrado, que já não conseguia acompanhar sua cabeça lúcida e sábia.

Deixou-nos, mais do que poemas, uma sabedoria e alegria de viver sem igual.

Para comemorar o seu aniversário, publico uma carta inédita sua endereçada a mim, assim como dois poemas inéditos também enviados a este Palavreiro da Hora.

Folha 1

Folha 2

Folha 3

Tinha o olhar distante,

cheio de saudade.

Um olhar perdido

numa outra idade.

HK/1987

Trova

Para muitos, aventura

é clarão que vem e passa,

um sorriso que não dura,

um reflexo na vidraça.

HK/1988

HELENA KOLODI

HELENA KOLODI

DIDI (RENATO ARAGÃO) recebe carta-desabafo de ELIANE SINHASIQUE / rio branco

Há alguns meses você vem me escrevendo pedindo uma doação mensal para enfrentar alguns problemas que comprometem o presente e o futuro de muitas crianças brasileiras. Eu não respondi aos seus apelos (apesar de ter gostado do lápis e das etiquetas com meu nome para colar nas correspondências).

Eliane Sinhasique

Eliane Sinhasique

Achei que as cartas não deveriam sem endereçadas à mim. Agora, novamente, você me escreve preocupado por eu não ter atendido as suas solicitações. Diante de sua insistência, me senti na obrigação de parar tudo e te escrever uma resposta.

Não foi por “algum” motivo que não fiz a doação em dinheiro solicitada por você. São vários os motivos que me levam a não participar de sua campanha altruísta (se eu quisesse poderia escrever umas dez páginas sobre esses motivos). Você diz, em sua última carta, que enquanto eu a estivesse lendo, uma criança estaria perdendo a chance de se desenvolver e aprender pela falta de investimentos em sua formação.

Didi, não tente me fazer sentir culpada. Essa jogada publicitária eu conheço muito bem. Esse tipo de texto apelativo pode funcionar com muitas pessoas mas, comigo não. Eu não sou ministra da educação, não ordeno as despesas das escolas e nem posso obrigar o filho do vizinho a freqüentar as salas de aula. A minha parte eu já venho fazendo desde os 11 anos quando comecei a trabalhar na roça para ajudar meus pais no sustento da família. Trabalhei muito e, te garanto, trabalho não mata ninguém. Estudei na escola da zona rural, fiz supletivo, estudei à distância e muito antes de ser jornalista e publicitária eu já era uma micro empresária.

Didi, talvez você não tenha noção do quanto o Governo Federal tira do nosso suor para manter a saúde, a educação, a segurança e tudo o mais que o povo brasileiro precisa. Os impostos são muito altos !
Sem falar dos impostos embutidos em cada alimento, em cada produto que preciso comprar para minha família.

Eu já pago pela educação duas vezes: pago pela educação na escola pública, através dos impostos, e na escola particular, mensalmente, porque a escola pública não atende com o ensino de qualidade que, acredito, meus dois filhos merecem. Não acho louvável recorrer à sociedade para resolver um problema que nem deveria existir pelo volume de dinheiro arrecadado em nome da educação e de tantos outros problemas sociais. O que está acontecendo, meu caro Didi, é que os administradores, dessa dinheirama toda, não tem a educação como prioridade. O dinheiro está saindo pelo ralo, estão jogando fora, ou aplicando muito mal.

Para você ter uma idéia, na minha cidade, a alimentação de um presidiário custa para os cofres públicos R$ 3,82 (três reais e oitenta e dois centavos) enquanto que a merenda de uma criança na escola pública custa R$ 0,20 (vinte centavos)! O governo precisa rever suas prioridades, você não concorda?

Você diz em sua carta que não dá para aceitar que um brasileiro se torne adulto sem compreender um texto simples ou conseguir fazer uma conta de matemática. Concordo com você. É por isso que sua carta não deveria ser endereçada à minha pessoa. Deveria se endereçada ao Presidente da República.

Ele é “o cara”. Ele tem a chave do cofre. Eu e mais milhares de pessoas só colocamos o dinheiro lá para que ele faça o que for necessário para melhorar a qualidade de vida das pessoas.

No último parágrafo da sua carta, mais uma vez, você joga a responsabilidade para cima de mim dizendo que as crianças precisam da “minha” doação, que a “minha” doação faz toda a diferença. Lamento discordar de você Didi. Com o valor da doação mínima, de R$ 15,00, eu posso comprar 12 quilos de arroz para alimentar minha família por um mês ou posso comprar pão para o café da manhã por 10 dias.

Didi, você pode até me chamar de muquirana, não me importo, mas R$ 15,00 eu não vou doar. Minha doação mensal já é muito grande. Se você não sabe, eu faço doações mensais de 27,5% de tudo o que ganho e posso te garantir que essa grana, se ficasse comigo, seria muito melhor aplicada na qualidade de vida da minha família.
Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase tudo que meus filhos querem ou precisam?

Renato Aragão

Renato Aragão

Meu filho de 12 anos quer praticar tênis e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para nosso padrão de vida.
Você acha isso justo? Acredito que não.
Você é um homem de bom senso e saberá entender os meus motivos para não colaborar com sua campanha pela educação brasileira.

Outra coisa Didi, mande uma carta para o Presidente pedindo para ele selecionar melhor os professores. Só escolher quem de fato tem vocação para o ensino. Melhorar os salários, desses profissionais, também funciona para que eles tomem gosto pela profissão e vistam, de fato, a camisa da educação. Peça para ele, também, fazer escolas de horário integral, escolas em que as crianças possam além de ler, escrever e fazer contas, possam desenvolver dons artísticos, esportivos e habilidades profissionais. Dinheiro para isso tem sim ! Diga para ele priorizar a educação e utilizar melhor os recursos.

Bem, você assina suas cartas com o pomposo título de Embaixador Especial do Unicef para Crianças Brasileiras e eu vou me despedindo assinando…

Eliane Sinhasique – Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari

Jornalista/Radialista e Publicitária
atuante em Rio Branco – Acre há mais de 19 anos.
Repórter especial do Jornal A Gazeta e Apresentadora do programa Toque Retoque da Gazeta FM 93,3

“SESC CAMPINAS” DORME COM OS COTURNOS DA DITADURA (veja a carta do hélio leites)

o reconhecido artista curitibano HÉLIO LEITES foi censurado e humilhado pelo general/diretor do sesc e viúva da ditadura, de 1964, sr. danilo santos de miranda, representante direto do todo poderoso marechal/presidente, através de seu ajudante de ordens o soldado sérgio conhecido pela alcunha de “conceito” e seus sucessores de plantão na ” guarita”  sesc/campinas, onde exercem, por saudosismo e outros interesses, a ditadura do patrocínio. é necessário que os artistas e pessoas ligadas a arte e a cultura repudiem e se neguem a participar de eventos em ambientes rançosos como este.

leia, abaixo, a carta do artista.

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Ao Sr. Presidente do Sesc

Danilo Santos de Miranda

Sesc – SP

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ref.: “Sesc Campinas censura contador de histórias”

ou “a ditadura do Patrocínio”

ou “Era uma vez outra vez…”

ou “Solidariedade não dói.”

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Eu, Hélio Leites, contador de histórias de Curitiba-Pr, fui censurado no Sesc Campinas pela segunda vez. A primeira vez ocorreu no ano passado quando fui convidado a participar do I Encontro de Contadores de Histórias – organizado pela Cia Narradores Urbanos e impedido de participar do evento, quando me indispus com o funcionário Sérgio “Conceito”, que me proibiu de vender minhas inutilidades artesanais nas dependências do burgo. A alegação foi que era proibida a comercialização de produtos no interior do Sesc, quando no entanto, era permitido vender coca-cola na lanchonete. Neste ano, sem justificativa aparente, tive meu nome censurado pela diretoria cultural do Sesc Campinas, no dia da abertura, no hall do teatro, apesar de meu nome constar na programação do evento. Eu lhe pergunto: até quando vai persistir essa censura? Vim à Campinas este ano porque, quando fui convidado para o evento, alegaram que o funcionário birrento tinha sido transferido para São Paulo. Deve, pensei, deve ter recebido uma promoção pelo seu auto desempenho. Ledo engano, a mágoa ainda lateja, e eu, que acreditava que ela saía na urina.

Nem sei se ele foi, mas deixou aqui sua escola, o ranço de sua intransigência ainda cheira no ar; a intolerância de sua disciplina ainda reverbera nas portas e guardas, bem como a soberba de sua ditadura ainda pulsa nos remanescentes, que me censuraram novamente. Impedir um velho de trabalhar no último ofício que a vida lhe reservou deve ser crime inafiançável moralmente, e passível, espero, de processo judicial. A humilhação, a decepção e a violência moral não tem preço. Quando se adquire cabelo branco, vem junto no mesmo pacote, imunidade para lamentar. Velho não tem vez, nem voz neste país, tanto que qualquer funcionariozinho com seu cetro de rádio-comunicador sente-se autoridade para praticar a censura. Se um Sesc desses, verdadeiro templo erigido ao Deus Comércio, proíbe um pobre artesão de contar histórias num evento coletivo, está no fundo demonstrando necessidade de reciclagem. Não é só lixo que se recicla, educação também. Revela ainda total incompetência para gerenciar conflitos, revela também sua truculência cultural e sua vaidade arrogante e deixa à mostra a ditadura do patrocínio. Quem paga pode censurar. A censura acabou no Brasil, menos no Sesc Campinas.

Depois de viajar sete horas de Curitiba à Campinas, arrastando bagagens e histórias pelas rodoviárias da vida e ser “barrado no baile” e impedido de comungar histórias com meus pares, lhe confesso que isso não me engrandece nenhum pouco, acredite, estou me sentindo um refugo. Uma tristeza profunda me abalou até as varizes e paira sobre o meu coração velho. O que me consola é uma réstia de esperança, nuvem que de Campinas vai até o Pilarzinho onde moro. E é essa nuvem de solidariedade que não me deixa abandonar essa profissão que amo e que o mundo me reservou. Contar histórias é a profissão mais antiga do mundo e a mais nova.  Quando você não conseguir fazer nada na vida e nada em sua vida der certo, vá contar a história de seus fracassos. O povo adora ouvir histórias de fracassos dos outros que é pra não cometer os seus. Desisti sim, mas foi do Sesc Campinas, não dos outros “Sesquis” do Brasil, os quais espero que sejam mais dóceis, receptivos e amigos do que o Sesc Campinas.

Continuo levantando a bandeira de contador de histórias, com o propósito de juntar pessoas, falo de amizade, solidariedade, honestidade, auto-estima, terapias alternativas e vivências de humor, matéria prima tão em falta no mundo corporativista. Espero que este grito seja jogado no ventilador da internet e espalhe essa nuvem de esperança pelo ar. Para que nunca mais na história desse país, um velho precise se humilhar escrevendo um S.O.S. e colocando dentro de uma garrafa e jogando no mar. Só estou procurando dignidade. Alguém viu alguma por aí?

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Saudações

Hélio Leites

“Solidariedade não dói”

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o artesão e contador de histórias HÉLIO e a participação das crianças em suas apresentações pelo Brasil.

o artesão e contador de histórias HÉLIO e a participação das crianças em suas apresentações pelo Brasil. foto de deborah schwanke.

CARTA A NELSON RODRIGUES por sérgio da costa ramos / florianópolis.sc

Meu caro Anjo Pornográfico: Estava escrito há 10 milhões de anos, quarenta minutos antes do Nada, que o Fluminense perderia para o Avaí na Ressacada, aos 48 minutos do segundo tempo, numa intervenção direta do Senhor dos Passos, inconformado com a grave, a cava injustiça que se desenhava em campo: mais um empate sensaborão, mais uma iniquidade do destino. O azurra jogava como nunca e empatava como sempre.SERGIO DA COSTA RAMOS

Junto com um maço de “Caporal Amarelinho”, pito da tua predileção, mando-te o VT do jogo, para que vejas com os teus próprios olhos o “passeio” que o tricolor tomava no primeiro tempo – e os gols que o meu Avaí perdia no segundo, depois de um empate injusto, estimulado por Sua Senhoria. Sim, tens razão: a arbitragem normal e honesta confere a uma partida um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio, dá ao futebol uma dimensão nova e – como dizias – “shakespeariana”.

Pois o Avaí jogava como a Seleção Húngara do Armando Nogueira, deslizando em campo como um cisne de Tchaikovsky. O primeiro gol, de Muriqui, resultou de uma sinfonia bem acabada, uma Nona de Beethoven, uma Sinfonia número 3, de Chopin – sem querer “inticar” com um dos seus virtuoses, o nosso emérito tricolor Arthur Moreira Lima.

Não chorem, caros Nelson e Arthur, lágrimas de esguicho: aquele gol espírita, emanado da canhota de um Gago, não tinha nada a ver com o “Sobrenatural de Almeida”. Era a pura materialização da espada da justiça sobre a Terra. O Avaí jogava futebol – e bem – o tricolor, fazia cera. Acreditem: até o técnico tetracampeão do mundo, Parreira, foi flagrado retendo a bola à beira do campo, tentando fazer o relógio andar.

E se a justiça quisesse impor sua verdade sobre o jogo, os ventos da Ressacada teriam testemunhado um massacre. O placar moral da partida não ficaria por menos de 5 a 2 – tivessem William e Lima consumado gols fáceis, gols que até a “grã-fina de nariz de cadáver” faria, mesmo sem saber “quem é a bola”.

Agora sabes, meu caro Anjo, aí das alturas onde cometes o teu voyeurismo: só há uma “Squadra Azurra” no mundo – e não é a esquadra de Buffon, Gatuso, Cannavaro e Pirlo. A verdadeira “azurra”, a que faz “cosi e tutti quantti”, é a azurra de Martini, Muriqui, Marquinhos e Leo Gago.

Dirão os idiotas da objetividade, os torcedores anticelestiais: comemoram o quê, esses azuis? O primeiro lugar da zona do rebaixamento?

Pois em verdade vos digo, caro Nelson e “amicci” rivais: este campeonato brasileiro ainda ouvirá falar de novas epopeias azurras, de novos “allegros” avaianos, de novos finais intensos e dramáticos, como um “Macbeth”, um “Coriolano”, um “Julio César”, um “Otelo”, um “Hamlet”, um “Rei Lear” – que eu rapidamente adaptaria para “Rei Leão”. Modificando todos os desfechos, é claro.

Daqui para a frente, o Avaí só conhecerá “happy-ends”.

Lobo em pele de ovelha “Cartas para Albert Nane” – jorge barbosa filho / curitiba

Oi, Albert:

Não quero me fazer de vítima ou coitadinho. Eu aprontei muito… Mas tenho certeza que contribuí muito, também, para o cenário cultural e poético de Curitiba, seja formando novos escritores, seja polemizando, na produção de eventos, recitais, divulgando idéias, e principalmente a atitude de minha produção poética. Vale dizer que minha poesia tem mais verdades que minha própria existência!

Mas todo mundo tem seu lado negro… o meu sobressaiu devido a falta constante de dinheiro,incompreensão pública, instabilidade afetiva, e por conseqüência, causando minha

jorge barbosa filho

jorge barbosa filho

instabilidade emocional e concomitantemente, o alcoolismo, que anestesia minha ansiedade, minha depressão e meu tédio.

Mas vamos aos fatos.

No ano passado, eu estava trabalhando como PSS da Secretaria de Educação do Estado. Estava com minha vida normalizada, mas essa Instituição não me pagou por três meses consecutivos em uma das escolas em que eu dava aulas. Contraí dívidas que posteriormente poderia liquidá-las, com a seqüência das aulas. Mas neste ano o PSS só me chamou em Maio… Imagina o tamanho da dívida e da degradação em que fui caindo. Para acumular, problemas afetivos, a humilhação de pedir dinheiro e não poder pagar… Estava sempre tenso, ansioso, deprimido, envergonhado, sem esperança e sem perspectiva…

Mandei meu livro para a Secretaria de Cultura, para ser publicado. Na primeira instância o livro foi aprovado. Na segunda, negaram a publicação. Isso porque essa Instituição não achou conveniente editar um livro com “palavras de baixo calão”.

Nas grandes editoras do Rio e São Paulo, mesmo meu livro tendo prefácios de pessoas com respeitabilidade poética e mercadológica, eu teria de pagar a edição, como é sabido. Não tenho dinheiro nem para editar e nem para entrar com projetos na Lei Rouanet ou na FCC. Concursos de poemas no Brasil e no exterior, desisti…. Trabalhos com Oficinas Poéticas apareceram, mas não garantem minha sobrevivência.

Curriculum para jornais, revistas, escolas e cursinhos foram enviados, mas falta o “quem me indique”. Para fazer produção cultural, tenho de ter estrutura econômica e operacional… tentei várias vezes formar grupos para atuar nesta área, ou como um mutirão poético. Não funcionou.

Acho que ou existe algo errado em minha atitude, ou há medo, inveja, ciúme pela ousadia de minhas atitudes de vida e poesia.

Bem… sem dinheiro e sem perspectiva fui colocado para fora da casa da mulher com que morava e não amava. Meus móveis, textos, documentos e a maioria de minhas roupas foram despachados para um guarda-móveis em Piraquara. Inclusive meu computador, onde está o registro de todo o meu trabalho poético, musical, trabalhos em revista, contos crônicas, etc… Estava trabalhado com produções de evento em bares e restaurante daqui de Curitiba. Mas como trabalhar sem ter onde morar e o que comer?

Dormi vários dias na rua, roubaram-me os registros que fiz em estúdio em São Paulo, Curitiba, Shows, Recitais, até meu irmão se prontificar a me resgatar desta situação. Ele pode ria me abrigar, mas tem família, seus problemas e nunca concordou com minha opção de vida: a poesia. Somos ideologicamente avessos. Nosso convívio não daria certo.

Não tenho para onde ir…

Então a solução encontrada, quando eu estava em estado de choque, bêbado, traumatizado, foi me internar numa instituição de recuperação de alcoólatras. Topei, pois não tinha para quem mais recorrer. Meus amigos moram com pais e mães, ou têm suas vidas conjugais e familiares organizadas e não estariam dispostos a colocar um elemento estranho, muito estranho, dentro de suas casas.

Só me restou essa instituição… Topei e achei legal me tratar.

Me informei como era a rotina e as terapias desta Instituição: Acordar, rezar, lavar banheiro, cuidar do pátio e da cozinha, rezar a tarde, de noite. Perguntei ao pastor da instituição quais eram as atividades físicas, intelectuais, e se poderia levar livros, meus poemas, fazer música.

Bem, os livros e os meus textos só entrariam na Instituição depois de uma avaliação ideológica, religiosa de acordo com as crenças destes. A música só se tiver temática evangélica. Outro tipo de música, não! Perguntei se poderia escrever, eles disseram que só se o pastor liberasse o caderno e a caneta. E mais, que eu apenas teria duas horas por dia para ler e escrever. Ou seja: Censura e discriminação… e ainda, em seus discursos, pregam respeitar as diferenças. Hilário, não?

Sei que não é este o lugar para uma terapia.

Cara, se eu ficar muito tempo lá eu vou pirar ou morrer…

Por isso, estou te pedindo ajuda. Faça um movimento para me tirar de lá o mais breve possível. Fale com poetas, escritores e pessoas influentes. Preciso de um trabalho, casa para morar e comida. Mal ou bem , sou um patrimônio da literatura de Curitiba. Por favor, me ajude.

Obrigado!

Jorge.

UM POEMA DO JORGE:

Cemitério de Pulgas

Você sempre quis ser bonita,

Sair bem na fotografia!

Ser muito bem editada

Só pra ficar na fita…

Da sociedade imbecil de Curitiba…

Eu tenho amigos

Que querem se matar

Por motivos tão breves,

Mas não têm a coragem de se jogar…

Ou recitar um verso honesto!

Ninguém está na minha pele

Para saber se choro ou Rio.

Talvez eu seja São Jorge, São Paulo!

O santo oco quando estou quieto,

Desde o instante que começo vociferar…

Não quero ninguém do meu lado!

Pra me dizer que sou o culpado

Pelos milagres dos incompetentes

Do sorriso Largo da Ordem,

Banguela da Boca Maldita.

A Rua XV é uma reta

Que me atinge como o cinismo

Da mulher que amo, e sangro!

Tanto, tanto! Até morrer por enquanto…

Por enquanto… Por enquanto…

Sou uma sombra vermelha na calçada,

Pisoteada com alegria, dos passantes

Que vem e vão, em vão!!!!!

De lá pra do aqui do aqui mesmo…

Os mesmos…

Você fica com este cemitério de pulgas

Pulsando ao teu lado, uhummm!!!

Se coça… desconfio da mulher que roça…

A xota pra fazer cultura…

Aposta!!!!!! Aposta?????

CARTA DE FERNANDO PESSOA para OPHÉLIA QUEIROZ / portugal

Meu amorzinho, meu Bébé querido:

São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podesfernando-pessoa[1]imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estupida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o somno. É que, sem ter febre, eu tinha delirio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influencia directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermedio de meu primo, que aqui veio ás 7 1/2, uma serie de noticias desagradaveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.

Depois, estar doente exactamente numa occasião em que tenho tanta cousa urgente a fazer, tanta cousa que não posso delegar em outras pessoas.

Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!

Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta – a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d’elle, quando não tens para isso razão nenhuma?

Estou inteiramente só – pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimonia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remedio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sêde e não tenho quem me dê qualquer cousa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.

Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.
Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu

Fernando 19/02/1920

CLUBE BILDERBERG: OS SENHORES DO MUNDO por vera lúcia kalahari / Portugal

VERA LÚCIA KALAARI - fim da humanidade

Considero-me uma pessoa que já não se choca com nada. A minha vivência de perto com a guerra, deu-me a conhecer um mundo que julgo ser desconhecido da maioria do grande público: os obscuros bastidores dos negócios ligados aos conflitos internacionais. Porque, para além do comércio de armamento há muitos outros inerentes a estes flagelos, operações financeiras essas que vão desde a contratação de mercenários por agências especializadas, sedeadas na sua maioria em Londres, às Companhias de Seguro onde se estabelecem as condições em que esses mesmo mercenários ficarão cobertos por tais Apólices, revertendo, na sua maioria a favor das famílias. E aqui
aparece outro negócio que rende milhões. Só que em caso de morte desses mesmos mercenários, tais prémios só serão recebidos, se forem apresentados os corpos dos
mesmos. Por isso, logo se desencadeiam duas frentes de negociações: dum lado, os advogados das Seguradoras, que tudo fazem para que o corpo não apareça. Doutro lado
os representantes das famílias para que o corpo lhes seja restituído. E uma terceira frente de negociações surge: dos países onde os mercenários morreram, que conservam os cadáveres congelados, para, por sua vez, negociarem os mesmos. Na maior parte das vezes, a sua entrega contra prisioneiros do seu país. Terceira onda de negociações de
valores são discutidos,  X por cabeça, ou pela entrega directa dos corpos, consoante
o que for mais lucrativo. E enganam-se aqueles que pensam que estas transacções se reduzem a meia dúzia de dólares. Não… Os valores atingidos cifram-se em milhões, porque os Seguros desta natureza, atingem milhões e milhões de dólares. Esta é, assim
uma das mil e uma ramificações de lucros financeiros, originados por qualquer conflito.
Este intróito, chamemos-lhe assim, foi apenas para vos explicar, que, felizmente ou infelizmente, já nada me surpreende neste mundo cão. E talvez por isso, nestes últimos tempos, resolvi fugir um pouco à negra realidade dos tempos que vivemos e preferi quedar na serenidade que me traz a poesia. Entrei no marasmo de tudo ignorar. Ouvi as manifestações contra a Globalização mas nem me incomodei muito com isso. Na realidade e confessando a minha culpa, nem paciência tinha para aprofundar o que era, afinal, essa tal Globalização. E o que se escrevia sobre ela era tudo em termos tão académicos, numa terminologia tão densa que eu começava a ler e rapidamente me perdia nos maçudos parágrafos cheios de ‘‘palavrões’’ que, para serem decifrados, tinha que, forçosamente, ter um dicionário ao meu lado.
Há três ou quatro dias, alguém me despertou desta apatia, e o que ouvi, vindo de quem veio, uma pessoa extremamente culta e um ‘‘expert’’ no que respeita à política internacional, fez-me entrar quase em pânico, para o que realmente estava a acontecer perante os nossos olhos, sem que, na nossa maioria, nem nos apercebêssemos que, se isto for, na realidade verdade, estamos todos nós a sermos vergonhosamente responsáveis pelo futuro dos nossos filhos e netos. Por isso, duma forma bastante sintética, mas servindo apenas como um alerta, porque quem quiser aprofundar a questão poderá sempre fazê-lo e poderá ter acesso à lista de nomes já do conhecimento de alguns historiadores e jornalistas internacionais que fazem parte deste Clube Bilderberg que tem ao que se saiba, um objectivo único: tornar-se no Governo sombra do Mundo. Isto assemelha-se quase a qualquer filme de ficção científica, mas analisando o que se está a passar diariamente no nosso planeta, parece-nos que a máquina já está em pleno movimento, rumo ao objectivo para a qual foi concebida.
Portanto, a Nova Era, será a Era da escravidão total. E a todos aqueles que estiverem interessados em conhecer os poderes secretos que neste momento governam o mundo e afectam a vida de todos os seus habitantes, atentem nos seguintes detalhes, que
constituem os objectivos principais do Clube Bilderberg – fundado  em  1954 em Oosterback ,Holanda, por iniciativa do príncipe Bernhard desse país – :
1 – Procurar anular todos os países, existindo depois apenas Regiões da Terra e valores universais, isto é, uma Economia Universal e um Governo Universal, nomeado, não eleito, e uma Região Universal. Para tal, defendem mais abordagem técnica e menos conhecimento por parte dos Povos. Isto reduz as possibilidades dos mesmos se inteirarem do plano Global dos senhores do mundo, e criarem resistência.
2-Um Governo Universal Mundial, com um Mercado globalizado, policiados por um
Exercito Mundial, uma Moeda Única Mundial, regulada por um Banco Mundial.
3- Uma Igreja Universal para canalizar a Crença Religiosa que mais convenha na direcção desejada pela Nova Ordem Militar. A propósito: um dos objectivos será abolir a Cruz de Cristo. O Vaticano já foi contactado sobre isso, porque nos corredores de Bruxelas não há apenas rumores sobre propostas da anulação do Símbolo da Cruz por toda a Europa. Há já elaborações concretas em comissões de alguns Estados Membros para rectificarem as suas condecorações, para ‘’não magoarem a sensibilidade de maiorias religiosas que consideram a presença da Cruz como algo funesto’’. É uma nova Cruzada que se impõem porque é, já uma certeza, esta tentativa de auto-mutilação e a anulação do símbolo mais sagrado da Europa, a Cruz de Cristo. Como quem não quer, estão agora a pactuar com a destruição do símbolo cristão.
Mas voltemos aos objectivos do Clube:
4-Reforçar Organismos Internacionais para acabarem com todas as identidades nacionais. Só os valores Universais poderão prosperar.
5-Criação de Sociedades pós-industrialização de crescimento zero. Porá fim a toda a industrialização de energia eléctrica nuclear, excepto para a indústria informática e de serviços. As indústrias serão exportadas para países pobres, como América Latina e África, onde o trabalho escravo é barato.
6-O Crescimento Zero é necessário para destruir o progresso e dividir a sociedade em patrões e escravos. Não interessa a prosperidade porque dificulta a repressão.
7-Despovoamento das grandes cidades.
8-Provocar por meio da guerra, pela fome e pela doença, a morte de 4 mil milhões de
pessoas até ao ano de 2050. São os que os membros do Clube denominam de ´´comedores inúteis’’. Dos restantes 2 mil milhões, 500 milhões serão formados por chineses e japoneses, escolhidos, porque foram povos subordinados a uma disciplina férrea e que estão habituados a obedecer, sem questionar. Aproveito para fazer referência às declarações do Dr. Leonard Horowitz que assegura que a Gripe A tenha sido ‘‘fabricada’’ por bio-engenheiros anglo-americanos do laboratório Novavax.
9-Manter a população num estado perpétuo de desequilíbrio, físico, mental e psicológico, por crises fabricadas com esse objectivo. Isso impedi-la-á de decidirem o seu destino, confundindo-as a tal ponto que se gerará uma apatia colectiva e um sentimento de desinteresse total.
10-Assumir o controle da educação. A juventude actual está na sua grande maioria,
contribuindo inconscientemente para os seus objectivos, ignorando as liberdades individuais. Para os globalistas são adversários que já rotularam de ´’ sem princípios.
11-Assumir as Nações Unidas e promover a criação de um Imposto Directo da ONU, pago pelos cidadãos mundiais.
12-Instituição dum Tribunal Internacional de Justiça com um Único Sistema Jurídico.
13-Instalação dum Estado Único de Providência Social, onde os Trabalhadores Obedientes serão recompensados e os outros abandonados à sua sorte.
Estes, são, pois, os objectivos definidos. Todos sabemos que o domínio do mundo, já faz parte da sua História. Mas este Clube, na sua tentativa de subordinar-nos a todos, é, no meu entender, o pior mal que já enfrentámos, pois exerce um poder de coacção e terror que temo possa acabar com a resistência, onde quer que seja que ela exista para os fazer abandonar as suas eventuais intenções. É a ditadura mundial, porque ao que os mais entendidos asseguram é que Bilderberg é o ´´olho que tudo vê’’. Nas suas reuniões decidem-se a guerra, a fome, a pobreza, as derrocadas dos governos, as alterações políticas, sociais e monetárias. Um Governo invisível que controla tudo: Os E.U.A., o Fundo Monetário Internacional, O Banco Africano de Desenvolvimento, O Banco Mundial, as Nações Unidas, a União Europeia, e os homens mais poderosos do planeta que vão de banqueiros, a industriais, proprietários dos maiores meios da Comunicação
Social, etc. A lista dos seus membros é conhecida dalguns meios. Podíamos inclui-la aqui. Mas por motivos óbvios não o fazemos.
O Clube reúne-se anualmente com os membros, que estão autorizados a levar alguns convidados. Para o efeito, alugam por três ou quatro dias um hotel, que fica exclusivamente ao seu serviço. Em 1999 foi em Portugal, em Sintra, no Hotel dos Seteais. Este ano, terá lugar em Julho, na Grécia.
Este artigo vai longo mas procurei sintetizá-lo o máximo e, principalmente, numa linguagem simples, alertar todos os que me lêem que, no meu ponto de vista, e analisando as profundas mudanças que já estamos a verificar, penso que a verdade uma vez utilizada como arma, espalha-se pelo mundo de forma imparável, neste mundo que devemos estar conscientes, está em guerra. A guerra final entre a Verdade e a Mentira.
Neste momento, não há hipótese, de neutralidade, de ficarmos no nosso canto à espera de quem vence ou perde. Calar-se agora é permitir o nosso desaparecimento e a entrega de todas as conquistas que foram feitas durante séculos. Esclarecer é defender as nossas gerações futuras.
Vera Lúcia
Considero-me uma pessoa que já não se choca com nada. A minha vivência de perto com a guerra, deu-me a conhecer um mundo que julgo ser desconhecido da maioria do grande público: os obscuros bastidores dos negócios ligados aos conflitos internacionais. Porque, para além do comércio de armamento há muitos outros inerentes a estes flagelos, operações financeiras essas que vão desde a contratação de mercenários por agências especializadas, sedeadas na sua maioria em Londres, às Companhias de Seguro onde se estabelecem as condições em que esses mesmo mercenários ficarão cobertos por tais Apólices, revertendo, na sua maioria a favor das famílias. E aqui
aparece outro negócio que rende milhões. Só que em caso de morte desses mesmos mercenários, tais prémios só serão recebidos, se forem apresentados os corpos dos
mesmos. Por isso, logo se desencadeiam duas frentes de negociações: dum lado, os advogados das Seguradoras, que tudo fazem para que o corpo não apareça. Doutro lado
os representantes das famílias para que o corpo lhes seja restituído. E uma terceira frente de negociações surge: dos países onde os mercenários morreram, que conservam os cadáveres congelados, para, por sua vez, negociarem os mesmos. Na maior parte das vezes, a sua entrega contra prisioneiros do seu país. Terceira onda de negociações de
valores são discutidos,  X por cabeça, ou pela entrega directa dos corpos, consoante
o que for mais lucrativo. E enganam-se aqueles que pensam que estas transacções se reduzem a meia dúzia de dólares. Não… Os valores atingidos cifram-se em milhões, porque os Seguros desta natureza, atingem milhões e milhões de dólares. Esta é, assim
uma das mil e uma ramificações de lucros financeiros, originados por qualquer conflito.
Este intróito, chamemos-lhe assim, foi apenas para vos explicar, que, felizmente ou infelizmente, já nada me surpreende neste mundo cão. E talvez por isso, nestes últimos tempos, resolvi fugir um pouco à negra realidade dos tempos que vivemos e preferi quedar na serenidade que me traz a poesia. Entrei no marasmo de tudo ignorar. Ouvi as manifestações contra a Globalização mas nem me incomodei muito com isso. Na realidade e confessando a minha culpa, nem paciência tinha para aprofundar o que era, afinal, essa tal Globalização. E o que se escrevia sobre ela era tudo em termos tão académicos, numa terminologia tão densa que eu começava a ler e rapidamente me perdia nos maçudos parágrafos cheios de ‘‘palavrões’’ que, para serem decifrados, tinha que, forçosamente, ter um dicionário ao meu lado.
Há três ou quatro dias, alguém me despertou desta apatia, e o que ouvi, vindo de quem veio, uma pessoa extremamente culta e um ‘‘expert’’ no que respeita à política internacional, fez-me entrar quase em pânico, para o que realmente estava a acontecer perante os nossos olhos, sem que, na nossa maioria, nem nos apercebêssemos que, se isto for, na realidade verdade, estamos todos nós a sermos vergonhosamente responsáveis pelo futuro dos nossos filhos e netos. Por isso, duma forma bastante sintética, mas servindo apenas como um alerta, porque quem quiser aprofundar a questão poderá sempre fazê-lo e poderá ter acesso à lista de nomes já do conhecimento de alguns historiadores e jornalistas internacionais que fazem parte deste Clube Bilderberg que tem ao que se saiba, um objectivo único: tornar-se no Governo sombra do Mundo. Isto assemelha-se quase a qualquer filme de ficção científica, mas analisando o que se está a passar diariamente no nosso planeta, parece-nos que a máquina já está em pleno movimento, rumo ao objectivo para a qual foi concebida.
Portanto, a Nova Era, será a Era da escravidão total. E a todos aqueles que estiverem interessados em conhecer os poderes secretos que neste momento governam o mundo e afectam a vida de todos os seus habitantes, atentem nos seguintes detalhes, que
constituem os objectivos principais do Clube Bilderberg – fundado  em  1954 em Oosterback ,Holanda, por iniciativa do príncipe Bernhard desse país – :
1 – Procurar anular todos os países, existindo depois apenas Regiões da Terra e valores universais, isto é, uma Economia Universal e um Governo Universal, nomeado, não eleito, e uma Região Universal. Para tal, defendem mais abordagem técnica e menos conhecimento por parte dos Povos. Isto reduz as possibilidades dos mesmos se inteirarem do plano Global dos senhores do mundo, e criarem resistência.
2-Um Governo Universal Mundial, com um Mercado globalizado, policiados por um
Exercito Mundial, uma Moeda Única Mundial, regulada por um Banco Mundial.
3- Uma Igreja Universal para canalizar a Crença Religiosa que mais convenha na direcção desejada pela Nova Ordem Militar. A propósito: um dos objectivos será abolir a Cruz de Cristo. O Vaticano já foi contactado sobre isso, porque nos corredores de Bruxelas não há apenas rumores sobre propostas da anulação do Símbolo da Cruz por toda a Europa. Há já elaborações concretas em comissões de alguns Estados Membros para rectificarem as suas condecorações, para ‘’não magoarem a sensibilidade de maiorias religiosas que consideram a presença da Cruz como algo funesto’’. É uma nova Cruzada que se impõem porque é, já uma certeza, esta tentativa de auto-mutilação e a anulação do símbolo mais sagrado da Europa, a Cruz de Cristo. Como quem não quer, estão agora a pactuar com a destruição do símbolo cristão.
Mas voltemos aos objectivos do Clube:
4-Reforçar Organismos Internacionais para acabarem com todas as identidades nacionais. Só os valores Universais poderão prosperar.
5-Criação de Sociedades pós-industrialização de crescimento zero. Porá fim a toda a industrialização de energia eléctrica nuclear, excepto para a indústria informática e de serviços. As indústrias serão exportadas para países pobres, como América Latina e África, onde o trabalho escravo é barato.
6-O Crescimento Zero é necessário para destruir o progresso e dividir a sociedade em patrões e escravos. Não interessa a prosperidade porque dificulta a repressão.
7-Despovoamento das grandes cidades.
8-Provocar por meio da guerra, pela fome e pela doença, a morte de 4 mil milhões de
pessoas até ao ano de 2050. São os que os membros do Clube denominam de ´´comedores inúteis’’. Dos restantes 2 mil milhões, 500 milhões serão formados por chineses e japoneses, escolhidos, porque foram povos subordinados a uma disciplina férrea e que estão habituados a obedecer, sem questionar. Aproveito para fazer referência às declarações do Dr. Leonard Horowitz que assegura que a Gripe A tenha sido ‘‘fabricada’’ por bio-engenheiros anglo-americanos do laboratório Novavax.
9-Manter a população num estado perpétuo de desequilíbrio, físico, mental e psicológico, por crises fabricadas com esse objectivo. Isso impedi-la-á de decidirem o seu destino, confundindo-as a tal ponto que se gerará uma apatia colectiva e um sentimento de desinteresse total.
10-Assumir o controle da educação. A juventude actual está na sua grande maioria,
contribuindo inconscientemente para os seus objectivos, ignorando as liberdades individuais. Para os globalistas são adversários que já rotularam de ´’ sem princípios.
11-Assumir as Nações Unidas e promover a criação de um Imposto Directo da ONU, pago pelos cidadãos mundiais.
12-Instituição dum Tribunal Internacional de Justiça com um Único Sistema Jurídico.
13-Instalação dum Estado Único de Providência Social, onde os Trabalhadores Obedientes serão recompensados e os outros abandonados à sua sorte.
Estes, são, pois, os objectivos definidos. Todos sabemos que o domínio do mundo, já faz parte da sua História. Mas este Clube, na sua tentativa de subordinar-nos a todos, é, no meu entender, o pior mal que já enfrentámos, pois exerce um poder de coacção e terror que temo possa acabar com a resistência, onde quer que seja que ela exista para os fazer abandonar as suas eventuais intenções. É a ditadura mundial, porque ao que os mais entendidos asseguram é que Bilderberg é o ´´olho que tudo vê’’. Nas suas reuniões decidem-se a guerra, a fome, a pobreza, as derrocadas dos governos, as alterações políticas, sociais e monetárias. Um Governo invisível que controla tudo: Os E.U.A., o Fundo Monetário Internacional, O Banco Africano de Desenvolvimento, O Banco Mundial, as Nações Unidas, a União Europeia, e os homens mais poderosos do planeta que vão de banqueiros, a industriais, proprietários dos maiores meios da Comunicação
Social, etc. A lista dos seus membros é conhecida dalguns meios. Podíamos inclui-la aqui. Mas por motivos óbvios não o fazemos.
O Clube reúne-se anualmente com os membros, que estão autorizados a levar alguns convidados. Para o efeito, alugam por três ou quatro dias um hotel, que fica exclusivamente ao seu serviço. Em 1999 foi em Portugal, em Sintra, no Hotel dos Seteais. Este ano, terá lugar em Julho, na Grécia.
Este artigo vai longo mas procurei sintetizá-lo o máximo e, principalmente, numa linguagem simples, alertar todos os que me lêem que, no meu ponto de vista, e analisando as profundas mudanças que já estamos a verificar, penso que a verdade uma vez utilizada como arma, espalha-se pelo mundo de forma imparável, neste mundo que devemos estar conscientes, está em guerra. A guerra final entre a Verdade e a Mentira.
Neste momento, não há hipótese, de neutralidade, de ficarmos no nosso canto à espera de quem vence ou perde. Calar-se agora é permitir o nosso desaparecimento e a entrega de todas as conquistas que foram feitas durante séculos. Esclarecer é defender as nossas gerações futuras.
Vera Lúcia
ilustração da autora.

DESTINO?…VERDADE OU MENTIRA? por vera lúcia kalaari

Hoje tenho seguido, aliás, como todo o mundo, a tragédia que se abateu sobre o avião da Air France que desapareceu, com duas centenas de passageiros, sem que se saiba o que realmente aconteceu.

E, mais uma vez me interrogo se, na verdade, existe ou não um destino que está marcado para cada um de nós, desde o dia da nossa entrada neste mundo, até ao nosso desaparecimento. Isto pensando naqueles que estavam para embarcar e, por um motivo ou outro, deixaram de o fazer, o que deve ter constituído na altura, um grande aborrecimento, como se poderá calcular.

E melhor do que ninguém o posso fazer, porque eu própria passei por uma experiência idêntica, que me marcou para toda a vida.

Nas minhas frequentes viagens por esse mundo fora, ao serviço do Governo angolano, com o objectivo de angariar investidores que estivessem interessados em fixar-se em Angola, para a sua reconstrução, tive oportunidade de ser procurada por um grande empresário francês, Bernard Bouchaier, que há mais dum ano havia tentado entrar no meu país para ali investir nalgum projecto de utilidade para os angolanos. Com as burocracias que existiam, num país hermeticamente fechado à entrada de estrangeiros, estava prestes a desistir de tal empreendimento, quando ouviu falar de mim e procurou-me para ver se, com a minha ajuda, levava a cabo o seu projecto. Tratava-se da construção de uma fábrica de medicamentos na região do Dundo, no norte de Angola, região extremamente carente de todas as infra-estruturas.

Não foi preciso muito para me aperceber que não poderíamos deixar de aproveitar este

parceiro, que se evidenciava um homem cem por cento africanista que seria uma mais valia para o futuro de Angola.

Resolvemos, pois, trabalhar em parceria não só para esse, como para outros projectos, todos do maior interesse.

Durante cerca de seis meses, desdobrámo-nos entre Africa e França, para ultrapassarmos todas as démarches, para a sua fixação em Luanda. Homem de grandes recursos financeiros, com uma experiência já longa no que se propunha fazer e grandes empreendimentos na Guiné Konakri, tínhamos, de certa forma, a vida facilitada nas constantes deslocações, por dispormos do seu avião privado.

Portanto, como dizia, ao fim de seis meses estava tudo concretizado e passámos então à fase de se contratar pessoal, constituído numa primeira leva, por engenheiros, arquitectos e pessoal especializado para o arranque do projecto.

Escusado será dizer que quando se divulgou na Europa o anuncio de procura de pessoal

para trabalhar em Angola, inúmeros foram as candidaturas que surgiram e depois de se estudarem atentamente as mesmas, foram escolhidos cerca de trinta pessoas para uma

primeira fase. Foi a mim que ele incumbiu de seleccionar os oito primeiros homens a

seguirem na primeira viagem, já que a capacidade do avião era de doze passageiros: O piloto, o co-piloto, o Bouchaier, eu, e os trabalhadores. Uma visão que nunca mais me deixou foi a minha, espalhando os passaportes na secretária, olhando para as pequenas fotos e separando os que achei dever seleccionar para aquela partida, pensando como eles se sentiriam contentes por terem a oportunidade de conseguirem um emprego com tão boas condições.

Estava tudo programado para que a viagem se iniciasse a partir de Bruxelas, onde o avião se encontrava estacionado, numa segunda-feira de manhã, estando prevista a chegada a Luanda na quarta – feira seguinte, já que tinha que fazer escala, para reabastecimento, em Argel e posteriormente Kinshasa.

Nesse domingo, logo pela manhã, inesperadamente, fui acometida dum fortíssimo ataque de malária, julgo que o primeiro e último que alguma vez me atacara.

O mal-estar era tão grande que o médico me aconselhou a não seguir viagem, ainda mais num avião que levaria cerca de quarenta e oito horas a chegar a Luanda.

O pânico que se apoderou do meu amigo ao pensar que iria chegar sozinho a Angola com o grupo, sem o meu apoio, foi tal, que para o tranquilizar, resolvi embarcar nesse

mesmo dia num avião da Sabena que oferecia outras condições e uma viagem mais rápida, de forma a estar à espera  deles no aeroporto de Luanda, no dia da chegada.

E foi isso mesmo que aconteceu. Só que nessa quarta-feira, o avião não chegava e ninguém conseguia contactar, a partir de Luanda, com quem quer que fosse que nos explicasse o que se havia passado. Embora toda a gente envolvida no processo estivesse

completamente tranquila quanto ao que teria acontecido, eu era a única que pressentia que algo de grave se havia passado. Só ao fim desse dia a notícia chegou a Angola:

O avião tinha-se despenhado ao aterrar em Argel, por isso na primeira escala que fizera após a partida. Todos os ocupantes morreram e o acidente nunca ficou muito claro: Uns diziam que tinha sido apanhado por uma tempestade de areia, outros por erro do piloto e outros ainda que tinha sido, pura e simplesmente, abatido. A verdade é que nunca houve um inquérito rigoroso a partir de França, e todos tivemos que aceitar, pura e simplesmente, aquilo que nos foi facultado pelas entidades argelinas.

O meu choque foi tremendo, porque pensei e por vezes ainda penso, que quando fui posta no caminho deste empresário, numa altura em que ele já havia desistido de investir em Angola, o seu destino ficou traçado. E igualmente ficaram traçados os destinos daqueles que eu seleccionei para iniciarem essa viagem que acabaria algures em Argel. E, ironicamente, eu, que tinha sido escolhida pela mão do Destino ou seja lá pelo que tenha sido, fui a única que sobreviveu, porque um ataque de malária, que me fez chorar de raiva e frustração quando se desencadeou, me impediu de fazer aquela viagem maldita.

Ainda hoje me interrogo, se, na verdade, o nosso destino está mesmo marcado e se teremos ou não capacidade para lutarmos contra ele.

Pensando nos infelizes passageiros da Air France que, eventualmente, se encontram sepultados no fundo do oceano, e nos meus amigos franceses, desaparecidos nas areias

desérticas de Argel e, principalmente naqueles, que tal como eu, não estavam ainda predestinados a acabarem a sua viagem , interrogo-me a mim própria  a que forças

incógnitas, malditas ou divinas, estamos nós entregues? E o destino? Existe ou não existe?

Esta é a minha homenagem a todos aqueles que perderam a vida nesta sua última viagem.

 

Vera Lúcia

CARTA PARA ZULEIKA de sérgio oliveira

Cara Musgo
Espero que esteja tudo azul ( e musgo ou pedra ).
Pois é,aqui te encontro depois de tanto tempo.Pedra continua levando as ondas que insistem em bater sempre fortes.Fortes como ele ( Pedra ) parênteses para que os incautos não venham a confundir nada.Continuas macia Musgo? Com tua voz suave que confunde a Medusa?
Continuamos musgo e pedra,mas em lados diferentes da praia.Em comum apenas a agua que quebra e o sol forte que as vezes nos abrasa.Musgo-sereia pedra-sentinela que continuam a espera sem saber do que. Ou será que apenas Pedra espera ? Diga musgo, ainda esperas ? Ainda sonhas com meus campos floridos? As vezes ainda os vejo em sonhos pálidos,em elaborações laboriosas num lampejo de fechar e abrir os olhos  sem nada daquilo enxergar.
Quanto a sermos velhos, ” quem será mais velho ? meu musgo ou tua pedra ?” Somos todos velhos agora.Ou melhor sempre o fomos,so não sabiamos.
Sorria musgo,que verei teu brilho do meu lado da praia e acenarei como faço agora com esta carta.
Desculpe me pelos questionamentos mas os terei enquanto vivo.
mande uma palavra no vento que ele entrega sempre,enquanto isso vou fazer o que sei fazer de melhor,esperar em meu cansaço.
um longo abraço que esta carta carece de rimas
 
P(ha)edra

CARTA DE DESCOBRIMENTO DO BRASIL

pedro-alvares-cabral-cabral41tumulo de pedro alvares cabral em belmonte, portugal.

 

CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA AO REI D. MANOEL A MANDO DE PEDRO ALVARES CABRAL:

 

Senhor,

posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza — porque o não saberei fazer — e os pilotos devem ter este cuidado.

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:

E digo quê:

A partida de Belém foi — como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.

Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser !

Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas… não apareceu mais !

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha — segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas — os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças — ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante — por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças — até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitanisol-postoa. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-posto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.

E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.

O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.

Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças — ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.

E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d’água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.

Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.

Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.

Dos que ali andavam, muitos — quase a maior parte –traziam aqueles bicos de osso nos beiços.

E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.

E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d’escaques.

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.

Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d’água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.

Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.

E com isto nos tornamos, e eles foram-se.

À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu — ele com todos nós — em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que lá tinham — as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.

Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d’água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.

E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.

E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar.

E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.

E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.

Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.

Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.

E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.

Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.

Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.

Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.

Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.

Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.

Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.

E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.

E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.

E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia.

Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem — para os bem amansarmos !

Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram — fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montesinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.

Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre-Douro-e-Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.

Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.

E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.

Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.

Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.

E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.

Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vô-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.

Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.

Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!

E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.

Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar.

Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.

Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá.

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles.

Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.

Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.

Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!

Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pajem; e Aires Gomes a outro, pajem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos — o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.

Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos — um a um — ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado — era já bem uma hora depois do meio dia — viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.

E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior — com respeito ao pudor.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos — terra que nos parecia muito extensa.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.

 

Carta do Cacique americano ao Presidente dos Estados Unidos da América.

 

 

Em 1854, o Governo dos Estados Unidos tentava convencer o chefe indígena Seatle a vender suas terras. Como resposta, o chefe enviou uma carta ao presidente que se tornou famosa em todo o mundo. Seu conteúdo merece uma reflexão atenta pois é uma lição que deve ser cultivada por todos, por esta e pelas futuras gerações.

 

 

 

CARTA DO CHEFE INDÍGENA SEATLE

“O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro: o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro (…).Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem deve tratar os animais desta terra como seus irmãos (…)O que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo. Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a Terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a Terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra. Se os homens cospem no solo estão cuspindo em si mesmos. Isto sabemos: a Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamosirmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos ( e o homem branco poderá vir a descobrir um dia): nosso Deus é o mesmo Deus.
Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível. Ela é o Deus do homem e sua compaixão é igual para o homem branco e para o homem vermelho. A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar o seu Criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam. Onde está a árvore?Desapareceu. Onde está a água? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência. Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los?Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho (…).Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas a idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa,cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo aslembranças do homem vermelho (…).Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, devem ensinar às crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais.Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa.(…). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.Eu não sei. Nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.Não há lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater de asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece apenas insultar os ouvidos. E o que resta da vida de um homem, se não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo.O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.”
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa(…). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.”

 

 

chefe-seattle-foto

MÁRIO QUINTANA – CARTA A UM POETA

 


Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para osmario-quintanacontemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana

 

GUERRA do CONTESTADO – CARTA ABERTA à NAÇÃO

Guerra do Contestado

 

Carta aberta à Nação


Eu, D. Manoel Alves de Assunção Rocha, aclamado Imperador constitucional da Monarquia Sul Brasileira, em primeiro de agosto do corrente ano, com sede no reduto de Taquaruçu do Bom Sucesso, convido a nação pra lutar para o completo extermínio do decaído governo republicano, que durante 26 anos infelicita esta pobre terra, trazendo o descrédito, a bancarrota, a corrupção dos homens e, finalmente o desmembramento da pátria comum.


Comprometo-me:
 
1º – O Em pouco tempo eliminar o último soldado republicano do território da Monarquia, que compreende as três províncias do Sul do Brasil – Rio Grande, Santa Catarina e Paraná;
2º – Para o futuro, anexar ao Império o Estado Oriental do Uruguai, antiga Província Cisplatina;
3º – Organizar um exército e armada dignos da Monarquia e reorganizar a guarda nacional;
4º – Dar ao país uma constituição completamente liberal;
5º – Reduzir os impostos de importação e exportação e bem assim estabelecer o livre câmbio dentro do território do Império;
6º – Fazer respeitar meus súditos, logo que me seja possível, em qualquer ponto do planeta;
7º – Fazer garantir a inviolabilidade do lar e do voto, tão menosprezados pelo decaído regímen;
8º – Fazer respeitar, em absoluto, a liberdade da imprensa, também menosprezada pela antiga República;
9º – Tornar inexpugnável a barra do Rio Grande e todo o litoral do país;
10º – Guarnecer a fronteira como Estado de São Paulo e fronteira argentina, logo que seja reconhecido oficialmente o novo Império e organizado o exército imperial;
11º – O Assumir, relativamente, todos os compromissos do antigo regime, que relativamente couberem ao Império Sul Brasileiro;
12º – O exército imperial será a primeira linha e a guarda nacional a segunda linha;
13º – Unificação da lei judiciária do país;
14º – Restringir a autonomia dos municípios;
15º – Emitir provisoriamente numerário nominal e em seguida a conversão metálica;
16º – A religião oficial será a católica apostólica romana;
17º – Liberdade de culto;
18º – Cogitar do desenvolvimento da lavoura sem desprezo da indústria;
19º – O imposto protecionista a indústria e lavoura do Império;
20º – Livres os portos do Império a todos estrangeiros sem cogitar-se da raça, crença etc;
21º – Serão considerados nacionais todos os estrangeiros que residirem dois anos no país;
22º – Modificar o atual sistema do júri, que não está mais compatível com o século;
23º – O ensino será obrigatório, tanto para a infância como para o exército;
24º – A criação do exército aviador que atualmente está dando resultado na guerra européia;
25º – Edificação da Corte Imperial que será no centro do território imperial;
26º – A bandeira e coroa do império Sul Brasileiro serão adotadas as antigas da decaída Monarquia Brasileira;
27º – A pena de morte em vigor, com a forca;
28º – O serviço militar será obrigatório;
29º – A agricultura nacional será dado uma área de terra independente de pagamento, em terras nacionais;
30º – De lº de setembro em diante entrará em vigor a lei marcial aos inimigos da Monarquia.
 

Viva a Monarquia Sul Brasileira!
Deus guarde e vele pela Monarquia!

Reduto do Taquarussú do Bom Sucesso, em 5 de agosto de 1914.

O Imperador Constitucional da Monarquia Sul Brasileira.

Ass. D. Manoel Alves de Assumpção Rocha

 

teria sido melhor? 

VIÚVA DE PAULO FREIRE ESCREVE CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA

Atualizado em 12 de setembro de 2008 às 10:46 | Publicado em 12 de setembro
de 2008 às 10:38
por CONCEIÇÃO LEMES
Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem O que estão
ensinando a ele? De autoria de Monica Weinberg e Camila Pereira, ela foi
baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há
o seguinte trecho:

“Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe
mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che
Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de
neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem
contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire,
autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização.
Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico
alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade.
Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que
se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos
senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que
talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado”.

Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto
Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha,
em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire,
ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época
Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.

Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de
repúdio:

“Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo
Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE — e um dos maiores
de toda a história da humanidade –, quero registrar minha mais profunda
indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista
VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a
leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do
jornalismo crítico.  Não proclama sua opção em favor dos poderosos e
endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo
desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas
as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou
seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo,
não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da
morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou
a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada
e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele
feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o
apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em
favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não
é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por
sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente
para se sentirem e serem parceiras do “filósofo” e aceitas pelos neoliberais
desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem
grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção
política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como
premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para
desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro
reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas
, sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de
distribuição da renda se baseou – que demonstrou ao mundo que todos e todas
somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas
quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os
participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas
autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da
ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da
Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média
brasileira medíocre que tem a Veja como seu “Norte” e “Bíblia”, esta matéria
revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu
a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a
esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e
inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem
vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo,
eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das
crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as
pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia,
gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o
direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de
Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no
caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo
e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar
que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire”.

Carta de MARIO QUINTANA a um POETA

 


Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana

                                              o poeta MARIO QUINTANA. foto livre.


LAURITA MARTEL escreve a segunda carta para GARCIA de GARCIA.

Meu querido,

Não sabes como me alivia saber que não guardas nenhum rancor. Eu era uma menina ainda quando você me encontrou e eu também guardo as melhores lembranças daquelas noites. Mas eu não podia ficar, aquele lugar era muito pequeno para mim, a minha alma precisava de expansão, eu precisava de experiências novas, descobrir quem eu era. Depois do nosso encontro, já tive muitos amores estrangeiros, e hoje acho que todos eram uma espécie de retorno ao que tínhamos sido e vivido. Um estrangeiro, um homem que vinha do mundo, com as mãos cheias de histórias. E aquele idioma que me ensinava palavras novas, que me nomeava de outros jeitos, E a sua voz, quente, doce, rouca, que eu não esqueço. Que bom que você decidiu viver no Brasil, mesmo não sabendo onde você está, agora sinto que estamos mais próximos, muito embora eu nunca tenha me sentido longe de você. Você esteve dentro de mim todos estes anos, era com a nossa experiência que eu comparava todas as demais. Era com você e com a força que você me transmitia que eu comparava todo o resto. Eu também não planejei a escrita de uma carta, era pra ser um comentário, mas acho que me entusiasmei e decidi contar um pouco de mim pra você. Não vou enviar o meu endereço particular. Vamos nos comunicar assim, se você concordar. Vivo um momento difícil no meu casamento, com um homem que merece todo o meu respeito. Mas agora, não é dele que quero falar, é de nós. Estou tomada pela saudade, imantada com as lembranças daquilo que sei que foi o melhor de mim. Que maravilha você lembrar do meu corpo de mulher jovem, que maravilha ouvir você me chamar de indomável. Foi com você que aprendi sobre isso, meu querido, que o meu corpo ansiava por experiências que respondiam aos anseios da minha alma. A última noite em que estivemos juntos foi um marco na minha vida. Você me ensinado com seu corpo, que eu era a dona do meu corpo, e que com você eu tinha espaço e lugar para crescer, para ser eu mesma. Indomável, quente, carinhosa, arrebatada. E perfumada, para encantá-lo. Meu Deus, que saudade de nós, meu querido, que saudades de mim. Mas é claro que não sou mais a mesma. Me sinto como a personagem daquele filme que diz que é muito jovem pra ser velha e muito velha pra ser jovem. Indomável sempre, saiba. E pronta para você, da maneira, que for, nem que seja esta, através das palavras. Para onde vamos agora? Me conduza nesta dança, me leve com você. Desta vez eu não vou fugir.

Sua Laurita Martel.

 

se o leitor(a) quer saber mais sobre o caso:

primeira carta de Laurita Martel: AQUI

resposta de Garcia de Garcia: AQUI

CARTA ABERTA à JB VIDAL – por helio freitas

 

Carta aberta ao Vidal

 

Se as diferenças unem, como há quem afirme, esta carta aberta dialeticamente contribuirá para solidificar uma amizade recente mas autêntica. Meu caro Vidal: você tem todo o direito de reivindicar fumo e bebida para os poetas nos eventos no espaço do mecenas Cadri (o “Alberto Massuda”, na Trajano Reis, para que ninguém fique por fora). A maioria gosta e também não sou um abstêmio radical, embora anti-tabagista intransigente, pois fiquei órfâo de pai “graças” aos quatro maços que ele fumava por dia. Como idealista, poeta impetuoso e dionisíaco, além de devotado webmaster deste blog, meu respeito é grande por você e não seria eu a atirar a primeira pedra. Pelo contrário, até quero lembrar que vinho e poesia estão ligados há milênios. Seis séculos antes de Cristo, bradava o Vidal grego da época, chamado Alceu:

 

“Bebamos! Por que aguardarmos as lanternas? Já só há

um palmo de dia. Retira, célere, dos pregos as grandes taças.

O vinho que dissipa aflições, doou-o aos homens o filho

de Zeus e de Sêmele (* Dionisos*). Deita-o nas taças, uma parte para duas

cheias até a borda, e que um cálice

empurre o outro”

 

Esta outra tradução parece melhor:

 

“Bebamos; porque a lâmpada esperar? Um átimo o dia.

Empunha as taças, bem-amado, as grandes, multilavradas,

pois vinho o filho de Sêmele e Zeus a esquecer males

aos homens deu; mistura uma de vinho e duas de água

e enche até o gargalo; e que uma outra taça esta outra

empurre…”

 

A particularidade é que na Grécia antiga, como em Roma, ninguém bebia vinho sem misturar com água. Com um pouco de açúcar, foi esse “ refresco”  que várias vezes saboreei na infância. Hoje, não sendo padre, pastor, médico, nem bom samaritano, não vou falar dos males do álcool e do fumo para um amigo já bem crescidinho e ainda por cima gaúcho bravo e brabo. Mas é aí, no gauchismo, que a porca torce o rabo,  já que pretendo rememorar o paralelo entre paranaenses e gaúchos, feito por Arthur Tramujas Neto, promotor de justiça prematuramente falecido, e que não deve ficar soterrado no pó do esquecimento. E, se me for permitido, daqui p’ra frente passo a palavra ao jornalista Aramis Millarch, grande amigo também morto no vigor da idade e que dizia na célebre coluna “Tablóide”, hoje inteiramente digitalizada e disponível na Internet graças ao filho Francisco e viúva Marilena:

“Tramujas diz que o gauchismo é nosso

…Paranaense de União da Vitória, curtindo e valorizando as coisas do Interior, Tramujas Neto não acha que o Paraná esteja se “gauchizando” apenas agora, e faz uma observação interessante… Assim diz Tramujas, que “existem no Paraná duas culturas bastante distintas, e que, na realidade, dividem o país justamente onde o clima muda; no meio, praticamente, do Paraná, onde desaparece o país tropical” e começa um Brasil temperado ou quase isso, um Brasil menos português. A cultura “caipira”, assim chamada e objeto de interessantíssimos estudos, impera no Norte do Paraná, como em São Paulo, maior parte de Minhas Gerais, metade do Espírito Santo e até mesmo boa parte do Estado do Rio de Janeiro. É a cultura do “Jeca Tatu”, do Tonico e Tinoco, do Leo Canhoto e Robertinho, da viola com aquela afinação que tão bem se conhece”.

“Na região Sul do Estado existe uma única cultura, tipicamente sulina, típica dos planaltos frios do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Pode-se chamá-la até de cultura “gaúcha”, desde que não se ligue a palavra “gaúcho” ao Rio Grande do Sul exclusivamente, que é o que normalmente se faz. E desde que se saiba que o termo é castelhano, trazido por espanhóis das ilhas Canárias que por volta do século XVIII foram habitar a região de Montevidéu e que chamavam de “guanches” aos errantes mestiços de índios espanhóis que vagavam pelo pampa”. Tramujas lembra que “gaúcho” é o símbolo nacional da Argentina (como do Uruguai), onde a palavra tem, hoje, ao contrário de ontem, o sentido de lisura, de honradez e até de meiguice (“Juan es un tipo bueno, es un tipo gaucho, macanudo te dás cuenta?…”). “gaúcho” está imortalizado no épico poema “Martin Fierro”.

… Tramujas volta ao nosso Estado para observar:

– “Esqueçamos a região Oeste do Paraná, colonizada por gaúchos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, ainda muito ligados a seus municípios de origem, por tudo muito parecidos com nós do lado de cá. Encaremos o Paraná tradicional, aquele que vai até Clevelândia, até Guarapuava, até Pitanga, até Telêmaco Borba, até Jaguariaíva. Ou seja, o Paraná que existia antes da maravilhosa explosão do Norte, do Oeste, do Sudoeste.

– Que Paraná é esse, o tradicional? Bem, este é o Paraná da erva-mate, do chimarrão, da geada, do poncho, do vanerão, do xote, da vanera, da gaita, do pinhão, do quentão de vinho e gemada, da araucária, do cedrinho, da bracatinga, e, às vezes, da neve. É o Paraná do leite-quente, do polaco, do italiano, do alemão”.

Homem do Interior, orgulhoso de suas origens, diz:

– “Quem cresceu no Interior, como eu, conhece xote e vanerão desde “piá” (a palavra “piá”, guarani, vem de tchê-piá, meu coração, a significar, como “china , vem de tche-ina, para as meninas), tomou chimarrão desde sempre (o Paraná é o maior produtor de erva-mate até hoje no país e a árvore é natural daqui), sem que isso tivesse qualquer ligação com o Rio Grande do Sul, no sentido de que esses costumes tenham vindo de lá. Muito pelo contrário. O chimarrão, por exemplo, seu uso como o fazemos hoje, erva e água quente (e nunca fervendo), os curitibanos aprenderam com os índios que aqui viviam e levaram, quando tropeiros, o hábito para o Rio Grande e o Uruguai; de onde se conhecia o hábito através dos índios guaranis que habitavam as margens dos Rios Paraná (já em território argentino) e Uruguai, porém com a forma de tererê, isto é, tomavam-no com água fria, como usam até hoje no Paraguai. Tão somente os guaranis do planalto frio o tomavam com água quente (quando não o mastigavam), o que, aliás, torna-o bastante diferente do tererê quente quanto a sabor e propriedades”.

Nostálgico, Tramujas Neto recorda que “os ritmos do xote, do vanerão, da rancheira, etc., estão entre nós desde sempre. Curitiba, ao cosmopolitizar-se (infelizmente) perdeu muito. Perdeu suas casas de lambrequins, perdeu o fogão de lenha e com ele a sapecada de pinhão e a chaleira de água quente sempre pronta para um bom mate (O mate está em nossa bandeira estadual, é bom lembrar!). No entanto, em muitos bairros ainda vive o hábito e na minha casa está mais vivo que nunca (meus dois guris tomam). No interior, apesar das redes Globo da vida, impondo sotaques, truques e modismos que nada tem a ver conosco, o nosso som de cada dia jamais morreu, sempre esteve por aqui. O que acontece é que, no Rio Grande, o pessoal já se assumiu há muito tempo e passou a gostar de ser o que é”.

… Tramujas protesta:

– “Já ouvi, desgraçadamente, várias vezes, e de gente que se julga culta, que Curitiba e o Paraná não possuem identidade cultural. Isso só significa que essas pessoas fecham os olhos (talvez porque não gostem do que vejam) para o “povão” (o termo é vulgar e enfadonho, concordo), buscando identificar-se com coisas outras que, talvez na sua infeliz ignorância e falta de amor ao próximo, admirem. Mais, mostra o quanto o salutar hábito da leitura está pouco difundido na cidade. Basta ler textos antigos, basta ler Saint-Hillaire, Roberto Avé-Allemand, etc., em suas visitas ao Paraná, enfim, basta um pouco de atenção a leitura histórica local, para que se compreenda que chimarrão, vanerão, ponchos e até mesmo as bombachas, jamais foram exclusividade do Rio Grande do Sul, que estão presentes entre nós há séculos, arraigados na cultura campeira paranaense, no Paraná tradicional.

É em razão desta identidade cultural, que sem dúvida, une nós paranaenses do Paraná tradicional ao Oeste e Sudoeste do Estado, como ao planalto catarinense e rio grandense, e ainda ao Uruguai e a Argentina – (principalmente à “mesopotâmia”, ou províncias do Litoral – Entre Rios, Corrientes e Misiones, como dizem eles), que o nativismo do Rio Grande está encontrando tanto espaço aqui. Tudo bem. Bem-vindos aqueles gaúchos. Mas o que trazem não é novidade. É só roupa nova. E de ótima qualidade, diga-se”.

E assim transcrevendo, julgando atualíssimas as colocações do Tramujas, coloco ponto final nesta carta aberta, sem nenhum intuito de provocação que não seja o da saudável troca de idéias com os inteligentes amigos palavreiros, aglutinados neste blog do qual você, Vidal, mais do que webmaster, é o enérgico demiurgo.

 

HELIO FREITAS

7/9/2008

                      foto livre. ilustração do site. clique na foto.

CARTA DE AMOR de ludwig van beethoven

 

 

Bom dia! Todavia, na cama se multiplicam os meus pensamentos em ti, minha amada imortal; tão alegres como tristes, esperando ver se o destino quer ouvir-nos. Viver sozinho é-me possível, ou inteiramente contigo, ou completamente sem ti. Quero ir bem longe até que possa voar para os teus braços e sentir-me num lugar que seja só nosso, podendo enviar a minha alma ao reino dos espíritos envolta contigo. Tu concordarás comigo, tanto mais que conheces a minha fidelidade, e que nunca nenhuma outra possuirá meu coração; nunca, nunca… Oh, Deus! Por que viver separados, quando se ama assim?


Minha vida, o mesmo aqui que em Viena: sentindo-me só, angustiado. Tu, amor, tens-me feito ao mesmo tempo o ser mais feliz e o mais infeliz. Há muito tempo que preciso de uma certeza na minha vida. Não seria uma definição quanto ao nosso relacionamento?… Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias. E isso me faz pensar que tu receberás a carta em seguida.

Fica tranquila. Contemplando com confiança a nossa vida alcançaremos o nosso objectivo de vivermos juntos. Fica tranquila, queiras-me. Hoje e sempre, quanta ansiedade e quantas lágrimas pensando em ti… em ti… em ti, minha vida… meu tudo! Adeus… queiras-me sempre! Não duvides jamais do fiel coração de teu enamorado Ludwig.

Eternamente teu,
eternamente minha,
eternamente nossos.

Ludwig van Beethoven

 

 

O Autor é compositor erudito Alemão (1770—1827)

GARCIA de GARCIA comenta em carta de LAURITA MARTEL

 

COMENTÁRIO:

 

GARCIA DE GARCIA

Inesquecível Laurita,

Empezo a acreditar que las cosas não acontecem por acaso ou que haja um regente general sobre todos nossotros, o que não me agrada mucho pois me sinto, quiçás, um marionete de algo invisibile. Te peço desculpas por escrivir mesclado com português e muchas veces errado pois como sabes, e te acuerdas, sou uruguayo e estou em Brasil hace pocos años. Faço grande esforço para escrever em português, já falo bem, por isso estoi escrevendo poesias em português como forma de aprender mejor. Desde aquela vez em que me encontré contigo, a lo mejor, nos encontramos por obra dos deuses mi deseo de vivir em Brasil jamás se apagó. Tinha em meu pensamento um dia encontrar-la. Muchas veces sonhei contigo, de cigana, linda cigana, que ha cometido um único erro o de não ler nuestras mãos e ver nuestro relacionamento cerquita do fim quando imaginávamos que seria eterno. Dias felices! Mucho felices! Te agradeço para sempre. No se sinta culpada de nada. Recordo com muita alegria, ahora más, as vezes em que dava um beso atrás de sua orelha, que tenia um perfume mui hermoso. Recordo também de tudo que escrevistes a cerca de nós, porém o que mais se adelanta a mis pensamientos som las noches…eran o paraíso…el céu, teus dedos longos a mi acariciar la face, mi vontade de morde-la de entrar no teu corpo e encontrar com tu alma e aí si decir-le lo quanto te amava! Mi querida Laurita. No creo que seja verdade que te encontré. Que poderei ver-la, toca-la, besar-la! Diós que estou a decir? Não sei como te encontras ahora. Casada? Soltera? Hijos? Diós no! Pero uma mulher como tu jamás quedaria sem um hombre, caliente como eras, indomable, e com um corpo escultural que atraia las atenciones incluso de mulheres.
Mi querida Laurita, no me vou estender porque era para ser um comentário apenas me identificando em tu carta “abierta”. Porque hicieste assim? Mandaste publicar nel blog? Estou curioso para saber-lo. Indomable todavia! No vou deixar mi email porque otras pessoas podrán escrever como se fuera tu. No sé como me comunicar contigo particularmente. Vamos pensar una manera. No deixes tu datos aqui em la net.
Besos y más besos em todas las partes e em la orilla.
Sempre teu

Garcia de Garcia

 

leia a carta de Laurita Martel: AQUI

 

NOTA DO EDITOR: a leitora Laurita Martel pediu que fosse postado o comentário/carta de Garcia de Garcia pelas razões constantes na carta que ela enviou a ele via site e constantes do comentário dele. alertamos os leitores que não se trata de invasão de privacidade, pelo editor, até porque os comentários são públicos. os emails com tal solicitação encontram-se arquivados.

LAURITA MARTEL encontra, ou não, GARCIA DE GARCIA

Garcia de Garcia, meu querido,

Me pergunto se você será o mesmo que conheci a tantos anos atrás, naquela fria e distante fronteira que foi a nossa casa e a nossa ponte para outros mundos. Não vou me alongar, no caso de que você não seja você. Mas saiba que, mesmo passados muitos anos, ainda lembro com carinho de tudo. E com saudades também. Dos bailes, dos namoros, dos livros lidos juntos, dos amigos que se perderam, daquela vida que era só intensidade e que se foi assim, tanto tempo, e tão rápido. E daquela noite inesquecível quando você me salvou do pior de mim. Uma noite fria apesar de ser fevereiro, e de ser sábado de carnaval. Enquanto eu era coroada a rainha do carnaval, uma cigana de lantejoulas vermelhas e douradas, e vi o meu amor, o meu grande amor, grudado numa enfermeira atrás de uma coluna, vestido de zorro, o cretino. Tudo naquele momento deixou de ter sentido, a brincadeira, o meu reinado, os meus planos de fugir com aquele canalha para a capital e deixar pra sempre aquela vida ordinária de interior. Ele, que era o meu salto para o mundo. Desci a escadaria de mármore, as lantejoulas voando, como insetos brilhantes e perversos a me perseguir, o pesado manto vermelho comido pelas traças de outros reinados e sumi. Cetro em riste, sumi do baile, do clube e do centro da cidade. Não fui muito longe não. Você estava sentado no banco da praça e me amparou como se nos conhecêssemos de toda a vida. Nossa vida em comum começou assim, uma crush e a metade de um cachorro quente pra curar a ressaca. E você que não entendia nada, me disse que eu mais parecia uma vadia com aquela roupa, eu disse que era de cigana e você disse que era de cigana vadia então, e começamos a rir os dois. Eu nem lembrava mais desta história, lembrei dos detalhes agora, o gosto da laranja da crush, as suas mãos grandes repartindo o manjar comigo. Tudo voltou agora, enquanto preparo esta mensagem para atirá-la ao mar, numa garrafa incerta e ir em direção a você que não sei se é você. Você me levou para passear pela cidade naquela madrugada fria e me mostrou algumas portas de casas antigas, pé direito muito alto e as mãozinhas de bronze no lugar da campainha.  Você me salvou de mim e das minhas piores ilusões de menina do interior, você guarneceu a minha alma. E quando tirei a fantasia de cigana, foram tantas as coisas que ficaram para trás. Será que você é você? Quando vi o seu nome navegando pelas mesmas águas que eu, agora, passados tantos anos, um estremecimento me arrebatou. Fui tomada de uma saudade estranha, devo dizer. E de uma culpa que nunca me abandonou.

 

Sua Laurita Martel.

 

 

nota do editor: a leitora laurita martel pensa ter encontrado garcia de garcia, depois de muitos anos, através de seu poema FILOSOFIA postado neste site. laurita escreveu esta carta e solicitou que fosse publicada. o editor atendeu considerando o tempo e o reencontro (?).

DENÚNCIA: A CNTBio vista por dentro. leitura indispensável. – pela editoria

 “A carta de Lia Giraldo é leitura indispensável para entendermos como os impulsos políticos de governo são transformados em “decisões técnicas” pelos já conhecidíssimos “especialistas”.

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Brasília, 17 de maio de 2007.

Excelentíssimo Senhor Ministro da Ciência e Tecnologia

Excelentíssima Senhora Ministra do Meio Ambiente

Ilustríssimo Senhor Presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança

Referente: Notificação de desligamento da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança e declaração de motivos.

Há 31 anos sou servidora pública dedicada à Saúde Coletiva, dos quais 20 anos como médica sanitarista, tendo por esse período trabalhado na região siderúrgica-petroquímica de Cubatão – SP, promovendo a saúde dos trabalhadores e ambiental. Fiz meu mestrado e doutorado investigando biomarcadores para análise de risco. Há dez anos sou pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz e docente do programa de Pós-Graduação do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, onde sou responsável pelas disciplinas obrigatórias de “Filosofia da Ciência e Bioética” e de “Seminários Avançados de Pesquisa”.

Como técnica, gestora, cientista e professora tive que lidar com diversas situações de conflitos de interesses que muitas vezes emergiam de forma aguda e tenho claro que os conflitos são parte do processo social e por isso mesmo devem estar subordinados a regras de convivência civilizada, em respeito ao estado de direito e à democracia.

Sou membro titular na CTNBio como Especialista em Meio Ambiente indicada pelo Fórum Brasileiro de Organizações Não Governamentais, a partir de uma lista tríplice à Ministra do Meio Ambiente, a quem coube a escolha. Hoje, após quinze meses de minha nomeação, peço o desligamento formal dessa Comissão e apresento a titulo de reflexão algumas opiniões críticas no sentido de colaborar com o aprimoramento da biossegurança no país.

Na minha opinião, a lei 11.105/2005 que criou a CTNBio fez um grande equívoco ao retirar dos órgãos reguladores e fiscalizadores os poderes de analisar e decidir sobre os pedidos de interesse comercial relativos aos transgênicos, especialmente sobre as liberações comerciais.

A CTNBio está constituída por pessoas com título de doutorado, a maioria especialistas em biotecnologia e interessados diretamente no seu desenvolvimento. Há poucos especialistas em biossegurança, capazes de avaliar riscos para a saúde e para o meio ambiente.

Os membros da CTNBio têm mandato temporário e não são vinculados diretamente ao poder público com função específica, não podendo responder a longo prazo por problemas decorrentes da aprovação ou do indeferimento de processos.

A CTNBio não é um órgão de fomento à pesquisa ou de pós-graduação ou conselho editorial de revista acadêmica. O comportamento da maioria de seus membros é de crença em uma ciência da monocausalidade. Entretanto, estamos tratando de questões complexas, com muitas incertezas e com conseqüências sobre as quais não temos controle, especialmente quando se trata de liberações de OGMs no ambiente.

Nem mesmo o Princípio da Incerteza, que concedeu o Prêmio Nobel à Werner Heisenberg (1927), é considerado pela maioria dos denominados cientistas que compõe a CTNBio. Assim, também na prática da maioria, é desconsiderado o Princípio da Precaução, um dos pilares mais importantes do Protocolo de Biossegurança de Cartagena que deve nortear as ações políticas e administrativas dos governos signatários.

O que vemos na prática cotidiana da CTNBio são votos pré-concebidos e uma série de artimanhas obscurantistas no sentido de considerar as questões de biossegurança como dificuldades ao avanço da biotecnologia.

A razão colocada em jogo na CTNBio é a racionalidade do mercado e que está protegida por uma racionalidade científica da certeza cartesiana, onde a fragmentação do conhecimento dominado por diversos técnicos com título de doutor, impede a priorização da biossegurança e a perspectiva da tecnologia em favor da qualidade da vida, da saúde e do meio ambiente.

Não há argumentos que mobilizem essa racionalidade cristalizada como a única “verdade científica”. Além da forma desairosa no tratamento daqueles que exercem a advocacy no strito interesse público.

Participar desta Comissão requereu um esforço muito grande de tolerância diante das situações bizarras por mim vivenciadas, como a rejeição da maioria em assinar o termo de conflitos de interesse; de sentir-se constrangida com a presença nas reuniões de membro do Ministério Público ou de representantes credenciados da sociedade civil; de não atender pedido de audiência pública para debater a liberação comercial de milho transgênico, tendo o movimento social de utilizar-se de recurso judicial para garantia desse direito básico; além de outros vícios nas votações de processos de interesse comercial.

Também a falta de estrutura da Secretaria Geral da CTNBio é outra questão que nos faz pensar como é que é possível ter sido transferido para essa Comissão tanta responsabilidade sem os devidos meios para exerce-la? Assistimos a inúmeros problemas relacionados com a instrução e a tramitação de processos pela falta de condições materiais e humanas da CTNBio.

Para ilustrar cito o processo No. 01200.000782/2006-97 da AVIPE que solicitava a revisão de uma decisão da CNBS. O mesmo foi distribuído para um único parecerista pela Secretaria Geral como um processo de simples importação de milho GM para alimentar frangos. Graças à interpretação de um membro de que haveria necessidade de nomear mais um parecerista, em função dos problemas antigos deste processo que sofrera recurso da ANVISA e do MMA junto ao CNBS, é que se descobriu que este processo estava equivocado. Mesmo porque a CTNBio só poderia dar parecer a pedidos de importação de sementes para experimentos científicos. Importação de sementes para comercialização para ração animal, por exemplo, não é uma atribuição da CTNBio.

Outro fato ilustrador é o caso da apreciação do pedido de liberação comercial da vacina contra a doença de Aujeski (em que também fui um dos relatores). Os únicos quatro votos contra a liberação não seriam suficientes para a sua rejeição. No entanto, o fato de não se ter 18 votos favoráveis impediu a sua aprovação e este fato foi utilizado amplamente para justificar a redução de quorum de 2/3 para maioria simples nas votações de liberação comercial de OGM. Ocorre que o parecer contrário à aprovação desse processo trouxe uma série de argumentos que sequer foram observados por aqueles que já tinham decidido votar em favor de sua liberação.

Essa vacina está no mercado internacional há quinze anos e só é comercializada em cinco países, nenhum da comunidade européia. Esta observação levou-me a investigar as razões para tal e encontrei uma série de questões que contraindicam o seu uso na vigilância sanitária de suínos frente aos riscos de contrair a doença de Aujeski e que também são seguidas pelo Brasil.

Infelizmente este fato foi utilizado politicamente no Congresso Nacional como um argumento para justificar a redução do quorum para liberação comercial, mostrando que os interesses comerciais se sobrepujam aos interesses de biossegurança com o beneplácido da CTNBio.

Desta forma, em respeito à cidadania e a minha trajetória profissional de cientista e de formadora de recursos humanos, não poderei mais permanecer como membro de uma Comissão Técnica Nacional de Biossegurança que, a meu ver, não tem condições de responder pelas atribuições que a lei lhe confere.

Faço votos que uma profunda reflexão inspire todos aqueles que têm responsabilidade pública para que os órgãos com competência técnica e isenção de interesses possam de fato assumir o papel que o Estado deve ter na proteção da saúde, do ambiente, da sociedade, da democracia e do desenvolvimento sustentável.

Brasília, 17 de maio de 2007.

Profa. Dra. Lia Giraldo da Silva Augusto

Membro Titular da CTNBio

 

 Meio Ambiente

CARTA AO CANDIDATO por alceu sperança

Sr. Candidato:

Sei que não é psicanalista, mas tens alguma idéia do motivo desse meu medo? Tenho pavor dos moreninhos: é só ver um e já fecho a boca do bolso onde está a carteira. Não aperto mais bochecha de criança com medo que a mãe me denuncie por assédio a ela e pedofilia ao rebento. E esse medo de ser roubado? Desconfio do balconista, do vizinho, do carrinheiro de papelão. O motoqueiro me dá tremeliques e aquela menina magérrima de olhos duros e crackentos me faz sentir o inferno em vida.

V. S. poderia me dizer por que não me sinto cidadão em minha própria cidade, mesmo sendo um contumaz pagador de impostos? Olho para a praça tri-iluminada e não posso usar, mesmo sendo um logradouro pelo qual paguei caro, pois se a freqüentar posso ser logrado por um desses mendigos que exercem sem parar o direito de ir e vir. Eles não poderiam só ir e não vir mais? Será que um dia vou poder usar meu direito à cidade e também ir e vir, e quando vir, não encontrar a casa arrombada e vazia?   

Por que, Sr. Candidato, fala-se tanto em gestão democrática da cidade e só meia dúzia decidem, inclusive para rasgar o Plano Diretor, em reuniões de quadrilha? Por que a gente lê em dezenas de programas de governo coisas sobre a “função social” da cidade e da propriedade, e a cidade me atropela a cada atravessar de rua e é mais fácil construir um palacete que uma casinha para favelado?

Por que tenho que pagar mais caro pelo lixo que pelo IPTU? Pelo que sei, o IPTU paga médico e professor, e a taxa do lixo paga só os lixeiros e os donos da empresa. Posso parecer maluco, mas me sentiria melhor pagando mais IPTU do que lixo. E por que o Estado consegue me cobrar mil vezes mais rápido que devolver meu dinheiro em serviços públicos decentes? Por que em Cuba o lotação custa centavos e aqui custa 20, 30 vezes mais, a gente gastando num dia o que lá gasta num mês? Por que estudante tem que pagar lotação, se ele vai estudar justamente para tirar este País do miserê?

Por que a função social daquela igrejinha e da escolinha no acampamento dos sem-terra foi vandalizada por terroristas e a coisa ficou por isso mesmo? De onde brota esse ódio à religião cristã e à educação? Por que nos terrenos abandonados ao matagal não são construídas casas, postos de saúde, escolas profissionalizantes, creches? Por que toda a riqueza gerada pelo agronegócio não é capaz de eliminar as favelas? Por que andam dando tiros em jovens, assustando as crianças, assaltando os idosos, atropelando as velhinhas, trombando os carros, ofendendo-se uns aos outros?

Até pensei em me mudar para a Europa. Meu amigo Zé mandou uma carta dizendo que é difícil e dá paranóia ficar escondido. Lá, ganha três vezes mais do que gasta, enquanto aqui também ficava sempre com três tipos de medo. Pensando bem, Sr. Candidato, aqui também fico escondido, trancado no barraco, paranóico e assustado, sem poder ir e vir, pois se for não sei se volto e, se volto, já me tomaram até o pouco que eu tinha.

Boa eleição e vê se dessa vez, pelo menos, toma tento e cumpre alguma coisa do que prometeu.

 

                        sem crédito. ilustração do site.

 

CORPORATIVISMO, BRASILIA, CORRUPÇÃO, CEILÂNDIA e CASA DA MÃE JOANA – carta de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

Como estão os ares do sul e os ares de Curitiba? Espero que, embora fria como sempre, a cidade esteja vivendo bom astral, mesmo em tempo de eleições.

 

Sobre eleições considero este o momento mais desprestigiado do País. Aliás, por “bom” costume ainda escrevo País com caixa alta. Bobagem, não existe mais países. O planeta está ferrado e países são ficções mantidas para iludir os incautos. Hoje o predomínio é dos blocos. São blocos de nações, algumas nem isto são. Blocos de continentes; blocos de interesses econômicos fortes, capazes de juntar inimigos figadais; blocos de sem terras; blocos de juízes; blocos de favelados. Parece que o corporativismo se instalou em todos os setores. Marx ensinou ao trabalhador e estes ensinaram aos patrões. Ferrou. Agora todo mundo sabe que aliados são ocasionais. Mas e as eleições, o que têm a ver com tudo isto? Tudo meu caro. Este pascácio barbudo que vos fala insiste na tese, vivemos num paiseco que vota porque a lei impede o cidadão de não votar. Se por um ato sonolento qualquer passasse no congresso uma lei deixando ao livre arbítrio do brasileiro a escolha de votar ou não votar, teríamos certamente mais de 50% de abstenções nas capitais e um bom percentual no interior. Assustaria aos mais assustados dos parlamentares. Se vivo estivesse, Enéas esbugalharia os olhos, cofiaria a barba e iria vociferar para as câmeras de TV toda sua indignação, carregada de perdigotos e palavras deletérias de baixíssima compreensão ao cidadão comum. Mas eles não dormem para estas questões, Caro Vidal. Ali no congresso reside o maior de todos os corporativismos. É questão de sobrevivência. Para eles e para os cartórios eleitorais. Se eleições não houvesse onde empregar tantos juízes que trabalham apenas de dois em dois anos? Uma corporação puxa a outra. Assim, como já disse Fellini – “La nave va”.

 

Mas estes são assuntos mundanos desinteressantes, volto a perguntar: como está passando, meu amigo? Pela sua última missiva percebo que anda um tanto indignado com esta Lei Seca.

 

É verdade, ela nos afastou dos bares e lugares onde um copo e outro podiam nos levar a viagens muito mais perigosas do que aquelas nas vias e rodovias. A lei de fato não é burra, ela é idiota. Digo isto porque a lei anterior já era por demais severa. A diferença é que agora fazem fiscalização. “Pero non tanto”, não é mesmo? Dias atrás deu na TV que a autoridade maior de uma capital de um dos estados do Norte do Brasil – que não cito para não ser injusto com a cidade – atropelou e matou o garupa de uma moto e seu estado etílico estava para lá de Marackech. Está claro, algum advogado impetrou “habeas corpus” e o “cidadão” foi solto. Pobres bebuns nós, que jamais atropelamos a lingüiça dos nossos cachorros nas garagens. Passei a beber mais em casa. Acho que muita gente aderiu a isto. Mas parece que não tem o mesmo prazer. Tomamos uma e logo desistimos. Vamos dormir ou fazer outra coisa. Um terço do prazer da bebida está na conversa; o outro terço está no prazer em pedir mais uma e se quem nos está servindo for amigo, encaixar um tira-gosto ou um comentário pueril; o terço final está em pedir a saideira, que jamais acaba e vai se prolongando até quando não há mais desculpas para o adiantado da hora.

 

Aqui no Planalto continuam roubando muito bem. Para todos os lados e em todos os poderes há uma precatória, uma liminar, uma contenda judicial etc.

 

Apenas quero fazer uma correção, meu Caro Vidal. Brasília não é de forma alguma apenas uma Brasília. Não sei se você sabia, mas existem aqui vinte e três cidades. O território do Distrito Federal tem Taguatinga, Ceilândia, Gama, Paranoá, Sobradinho, Planaltina e tantas outras que iria preencher mais três linhas para citá-las. E nestas cidades florescem vidas, se produz economia, artesanato, serviços e até mesmo um pouco de ciência. É claro que o resto do Brasil vê Brasília como uma ilha. Vê o congresso e suas duas casas legislativas, ou os ministérios e o planalto como casa de mãe Joana. Afirmo peremptoriamente: esta turma é temporária. Mais do que isto, noventa e nove por cento do congresso é constituído de gente que não é daqui. Para cá,  pelo famigerado voto, comprado ou barganhado, todos estados mandam seus representantes. A cácá que eles produzem e espalham pelo país é produzida aqui, mas por cidadãos daí e de todos os lugares. As outras Brasílias se envergonham da lamaceira, mas resiste. Fazer o quê? Tem gente que se aferra ao lugar e dele não sai, nem com reza braba. Torna-se refém, vira pedra. Até um dia quando viram pó, em meio as minhocas, debaixo da terra.

Deixemos os políticos e Brasília de lado, falemos de amenidades, sejamos mais terrais. Como vai passando Dona Beatriz? Espero que muitíssimo bem. Caso encontre uma peça boa para o próximo fim de semana me avise, pois estou voltando e pretendo levar a “frau” para passear.

 

Lembro do nosso último encontro dominical e da peça teatral que assistimos. Eu fiquei totalmente apartado, por força das contingências da venda dos ingressos. Assisti a peça num balcão do Teatro Positivo. Certamente ali é o pior lugar para ver qualquer coisa naquela casa de espetáculo. Muito tempo depois arrisco a comentar a peça. Acho que ela é uma paródia bíblica interessante, com montagem estudada e alguns personagens hilários. Mas não precisava ir tão distante para traçar paródias da nossa desgraça cultural e política. Qualquer fábula gaudéria ou mesmo um cordel nordestino, consegue ter tanto ou mais graça do que as histórias bíblicas apresentadas.

 

Também já vou passando deste para outro assunto. Como vai nosso “blog” e desculpe-me por minha possessividade, ao me arvorar em proprietário do alheio. E logo no alheio que pertence ao amigo.

 

Ocorre, Vidal, que a linguagem tem sido companheira de muitos momentos em minha vida. O gosto pela literatura não somente vem do conteúdo dos textos, muitas vezes vêm como na música, do arranjo da frase ou do improviso na interpretação. Esta minha queda, ou cachoeira despregada do paredão para o poço musical é tão forte que a maioria dos meus poemas foram feitos ouvindo canções, a maior parte jazz. Como é o caso agora, que ouço Winton Marsallis tocando “Round About Midnight”. É um sax barítono entrando dentro dos ouvidos e dos sentimentos, como lêndea invisível gerando coceiras as quais não há remédio ou creolina capaz de aplacar o incômodo. Mas qual o quê, bobagem cheia, besteira de mais para tanta conversa que poderia ser.

 

Vou fechando a conversa Vidal, como sempre prometo novo encontro em breve, acompanhado de uma garrafa de vinho. Levarei a garrafa na minha bicicleta, com certeza. Levarei o vinho, o saca-rolhas, o pão e a vontade. Somente não levarei o azeite, o prato e o sal. Mas que isto seria bom, com certeza seria. Não deixe de ir porque tenho tantas novidades que até as moscas parariam de voar para escutar. Conversa para boi e mateiro dormir. No entanto, tem conversas mais, de boa prosa. Certamente convidados mais viriam, se soubessem deste meu retorno. Mas caso queira, marque encontro na feirinha no próximo domingo. Leve a Marisa, o Lago e outros que faltaram aos últimos encontros.

 

Grande Abraço.

Ánton Passaredo

 

Brasília, 5 de Agosto de 2008.

ilustração do site. “boteco ambulante” pega, leva e traz.

LEI SECA, TRÁFICO, GRIPE, PSIQUIATRA, INFAME – carta de jb vidal a ánton passaredo

caro ánton,
sua carta me alcançou em um momento muito confuso da vida nacional. aliás o nosso país desde o início sempre foi muito confuso. por quê? não sei, tenho apenas algumas desconfianças. afinal sou do povo, não sou da corte. mas a corte, dizem, quer o bem do povo e governa para ele…se for assim, qual a diferença em morar num aterro sanitário? estou exagerando? talvez. o odor da semana foi terrível. prendem e soltam os magnatas (que pertencem à corte). a TV Globo arma o circo; acho que ela mudou para o Ministério da Justiça. tem informação privilegiada. o que é isso? sei que eu não posso ter sob pena de ser preso por formação de quadrilha caso faça uso dela em meu próprio benefício. ela usa. não acontece nada. eu sou povo ela é corte. e daí? sempre foi assim, estou malhando em ferro frio. também não é verdade que a Justiça solta só os ricos. todos os dias vemos que foram presos marginais favelados e que daí alguns dias estão cometendo seus crimes nas ruas. não vou discorrer aqui sobre prisão temporária, prisão preventiva e prisão condenatória. iria aborrecê-lo com isso. mas o espetáculo durou a semana toda.

como vai a família? espero que encontres todos bem quando chegares de viagem.

outro assunto que tomou a semana foi a discussão sobre a LEI SECA. como tudo no país discute-se depois, nunca antes. ou melhor, para justificar a medida a corte discute en petit comité, com “especialistas” que servem aos interesses da corte.
seria eu contra a medida? claro que não. mas contra a “parafernália” da lei. como assim? bastava criminalizar o motorista que “contivesse” álcool no sangue, APÓS o acidente.
crime sem fiança, com pena de 05 a 20 anos, dependendo da gravidade. o cidadão decide se bebe ou não e dirige. o direito de decidir, a liberdade de optar.
prevenir a ingestão de álcool nas ruas é provocar “aquilo” do que vive a corte: CORRUPÇÃO. a mordida para você que foi almoçar com a família e consumiu uma cerveja não será mais o famoso “cinquentinha” vai depender do modelo do teu carro (carro velho vai preso para entrar na estatística, carro e motorista). quanto um cidadão irá pagar ao “corrupto” insinuante para não ter a carteira presa por um ano, multa de $975,00, o veículo recolhido e dependendo do caso, preso? ahn? pois é. e a cadeia da corrupção que irá se formar com a tal “prevenção” entre os policiais, “guardadores” de carros, garçons, porteiros de bares, restaurantes e até de moradias, comunicando, por celular quem está saindo e que consumiu alguma quantidade de etanol? estarão na próxima esquina com a mão indicando o meio fio.
já pensastes nisso? não? “eles” já. e está em formação a rede. você não fará mais aquele programinha de levar a família almoçar em restaurante aos domingos e tomar sua cerveja ou seu vinho predileto. não. poderá ser muito aborrecido voltar de táxi ou metrô, ou não voltar para casa. a menos que você acompanhe seu camarão à paulista com um refrigerante diet.
a corte muda a cultura numa penada. ainda bem que eles são sábios e honestos.
o grande chefe e seus áulicos, agora, vão degustar seus “churrasquinhos”, na granja do Torto, com coca zero e direito a sair no FANTÁSTICO com discurso e tudo. sem contar que eles têm motorista da vez 24 horas. valha-me Deus.

Como vai o trabalho? evoluindo bem?

lembrei de uma nota publicada nestes dias das companhias de seguros afirmando que agora vão querer BO dos acidentes, se algum envolvido tiver 0,1mg (uma colher de xarope expectorante) de álcool acusada no bafômetro, elas não mais pagarão os danos materiais e/ou pessoais. veja só os absurdos que decorrerão dessa “prevenção”, você está retornando de seu almoço, em restaurante ou em casa de amigos e tomou uma cerveja, em um cruzamento alguém avança o sinal e acaba com seu carro e fere seus acompanhantes, o que você tem de fazer? fugir cara! fugir! você tem razão no episódio, você é inocente e tem que fugir! mesmo todo mundo sabendo que uma cerveja durante a refeição não altera os sentidos, inclusive “os especialistas.” é meu amigo, sinais…sinais…quando você tem razão, é inocente e tem de fugir da Lei, são os sinais…sinais…a lei passou a proteger o infrator! e se levar seus feridos a um hospital você será pego pelo policial de plantão! e o infrator ainda irá cobrar de você os danos causados! o Estado apodreceu, os legisladores (sic) bah! dizer o que dessa corja? um congresso…

espero que tenhas melhorado da gripe ou era uma alergia?

para encerrar, meu caro, vou tocar no pior. é o crime organizado dominando o Estado, um pouco mais do que já faz. não me venha dizer que estou possuído pela teoria da conspiração. te conheço, um pouco, não pensaria isso. acho que não.
pois é, o TRÁFICO AGRADECE! como assim? explico, os nossos jovens que antes iam para a balada e tomavam suas cervejas seus uísques mas transpiravam ao som do “bate-estacas”, como fazer agora? taí o bafômetro! “limpeza cara! guaraná e cocaína ou guaraná e ácido!”. é meu amigo, a rapaziada para “fazer a cabeça” vai pra droga química (ecxtasi, patetinha, letrinha, lsd e etc) que não acusa no bafômetro e vai sair da balada muito mais louco do que saia com a cerveja. vai aumentar a gravidade dos acidentes! O TRÁFICO AGRADECE! se por um lado vai gerar o desemprego de maitres, garçons, cozinheiros, porteiros, por outro, irão aumentar os empregos de traficantes, “aviões”, mulas, enfermeiros, psicólogos, psiquiatras no atendimento para a quantidade de clínicas de tratamento de dependentes químicos que serão inauguradas por esse brasilzão a fora. a destruição do jovem e da família.
há quem afirme, que teria havido uma queda de braço entre as industrias de bebidas alcoólicas e o tráfico de drogas e que este levou a melhor. a lei passou rápido! temos projetos de leis que se arrastam décadas para serem aprovadas, esta não, zas-tras, em vigor!
é, acho que teremos novos impostos pela frente. a arrecadação com impostos de bebidas é altíssima, VAI CAIR, e como o TRÁFICO não paga imposto o que vai acontecer? claro.
o assunto requeria mais atenção, mas agora já era, vamos aguardar que além dos dados de diminuição de acidentes por bebida alcoólica a corte publique, também, os dados de crescimento do uso de drogas, só para matar a curiosidade desse pobre e infame povo.
Jb Vidal

14/07/0 oito

p.s. nosso vinho com ostras na praça do Casal Nu, aos sábados, SECOU. a banca vai fechar.

 

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vou acrescentar, aqui, a título de ilustração, esta notícia de 21/07/2008 da rpc. on-line:

Acidentes de trânsito caem 20% no primeiro mês da Lei Seca

21/07/2008 | 20:23 | Gladson Angeli

O número de acidentes no trânsito de Curitiba caiu 20% no primeiro mês de aplicação da Lei Seca, em relação aos trinta dias anteriores. Os acidentes, no entanto, ficaram mais violentos, pois a quantidade de mortes aumentou de nove para 11. Segundo dados do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran), no período em que a nova legislação está em vigor 130 pessoas foram notificadas por dirigirem depois de consumir álcool e 115 pessoas acabaram na delegacia.

 PUBLICAÇÃO DE 01-9-08 (observem que a carta foi publicada em 15-7-08):

 

Motoristas embriagados não terão direito a usar seguro, diz STJ

Embriaguez passa a ser um agravante no risco do seguro. Decisão da 3ª Turma foi tomada após o julgamento de um caso de SP

01/09/2008 | 12:46 | G1/Globo.com

Uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou que os motoristas que dirigirem sob o efeito de álcool não terão direito a utilizar o seguro do carro, em caso de acidentes. O entendimento dos ministros da 3ª Turma do STJ foi tomado após julgarem um processo em que interpretaram que a embriaguez passa a ser um agravante no risco do seguro.

No julgamento em questão, os magistrados analisaram um recurso especial contra uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, que havia excluído o prêmio de um segurado que, segundo laudos oficiais, tinha em seu organismo uma dosagem de álcool acima da permitida por lei.

A 3ª Turma arquivou o processo, sob a alegação de que “a seguradora não pode suportar riscos de fato ou situações que agravam o seguro, ainda mais quando o segurado não cumpriu com o dever de lealdade”.

O relator do caso no STJ, ministro Ari Pargendler, alterou decisão da 2ª Turma do mesmo tribunal, que havia fixado uma jurisprudência para o assunto. Pelo entendimento anterior, o consumo de bebida alcoólica antes de dirigir não tirava o direito de o segurado acionar o seguro em casos de acidentes de trânsito.

Ari Pargendler disse que agora a regra é muito clara. “Se beber, não dirija”, ressaltou. Ele se baseou no Código Civil, que fixa que segurado e segurador são obrigados a guardar no contrato a mais estreita boa-fé e veracidade. Sua posição foi seguida pelos demais membros da 3ª Turma. A decisão foi tomada na última terça-feira (26), mas tornada pública só nesta segunda (1º).

 

…preciso de copos quebrados para sobreviver! – carta de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

Belíssima carta a sua, em resposta às minhas do mês anterior, ele que já se foi assim como afastou a memória de São João e de São Pedro para as festividades juninas do ano que vem. Interessante esta frase, não? Como pode a memória se ocupar com fatos futuros? Somente na cabeça de escritores distraídos e desassuntados pode nascer uma construção dessas. Bobagem grossa. Deixa pra lá.

 

Queria tecer breve relato do nosso último sábado, quando ali, na Feira do Litoral, ao lado do homem nu e da mulher nua, tivemos o prazer de ter mais duas companhias que se juntaram ao nosso vinho e às ostras. Aliás, para conseguir comê-las – infelizmente apreciá-las ainda não –, levei um pão de linhaça fatiado, comprado na antiga Padaria Vianna, quase esquina da Tiradentes.

 

O poeta Osvaldo Wronski se juntou a nós, logo nos primeiros goles, contribuindo com um espumante gelado que neste momento não aflora a minha memória a marca do produtor do precioso líquido. Além de Osvaldo chegou, momentos depois, Marilda Confortin. Esta, meu caro Vidal, você conseguiu arrancar da cama às 11h da manhã. Estávamos vivendo um sábado frio, onde o sol logo apareceu mostrando sua força. Mesmo assim não conseguiu ele espantar o ar entristecido e sisudo dos curitibanos.

 

Lembro que Marilda entrou em discussão acalorada sobre o Poetrix e o “haikai” com Osvaldo, ensaiando debate sobre um poema mostrado por ele, onde a análise girou sobre o carimbo de ser ou não o poema um “haikai” correto ou não, por serem as sílabas tônicas ou átonas importantes para se estruturarem dentro do rigor do 5-7-5. Bobagem obtusa esta.

 

Lembro também que em determinado momento prometi a Marilda um desafio e o envio de um texto voltado à desmistificação dos poemas curtos. Besteira longa da minha parte, agora, Vidal. Marilda tem razão, os tercetos sempre existiram e sempre existirão. Fazem parte da nossa cultura lusitana, desde os tempos dos cavaleiros andantes, e mesmo antes, nos jograis medievais. Por causa de Marilda estou relendo Bashô, de Leminski, vinte anos depois “primavera não nos deixe/pássaros choram lágrimas/ no olho do peixe” – Bashô.

 

Voltando do Japão a Curitiba, lembro de dias atrás, quando almocei com um amigo português. Conversamos sobre o Brasil. Concluímo que não temos um país, mas sim um conglomerado diverso de interesses e culturas, onde a única ligação entre os territórios é a língua portuguesa. Pois neste país lingual, tão vilipendiando pelos políticos e pela comunicação massificada, ainda sobram rasgos de cultura espontânea que nos levam para algum orgulho em ser daqui.

 

Digo pertencer a todo este grande espaço continental, não apenas ao sul brasileiro. Interessante falar de sul. Tenho alguns conhecidos, desde meus primórdios em terras curitibanas, que consideravam como norte todos estados situados acima de São Paulo. Uma visão estereotipada e preconceituosa deste imenso país. Para eles não há Norte, Nordeste, Sudeste ou Centro Oeste. Tudo se divide entre sul e norte. O sul vai do Chuí a São Paulo, e o resto é o norte eunuco.

 

Voltando ao amigo português, Vidal, explico que ele vive de vender copos. Então, te assustaste? Eu sempre tive curiosidade. Mas, sem ter antes a oportunidade, nunca havia perguntado como ele vivia uma vida tão boa vendendo copos. Estando com a minha mísera adega residencial sem copos, resolvi perguntar se me venderia alguns recipientes de vidro. Ele, com um sorriso matreiro no canto da boca, respondeu-me que não vendia copos. Espantado, perguntei, como não? E ele adiantou que tinha uma equipe de vendedores, não aceitando encomendas inferiores a 500 copos. Acho que não preciso de tantos copos.

 

O mais interessante foi a aula de qualidade e técnicas de venda de copos que ele me deu. Pegando sobre a mesa quatro copos utilizados por nós durante o almoço; dois deles utilizados para tomamos duas doses de cachaça e só isto de álcool, devido a Lei Seca; e dois outros copos, onde tomamos água, demonstrou porque aquele vendido por sua empresa era o melhor. Batendo os copos que representava um contra o outro, observou que eles bateram ao meio, numa parte mais resistente e espessa. Enquanto isto os outros dois copos tocaram-se no bordo, região mais fina e frágil do copo. Disse que o argumento era infalível para o convencimento dos donos do estabelecimento. E adiantou ainda, infelizmente, aquele era um copo muito bom. Se isto ajudava a vender inicialmente os copos, por outro lado, ajudava o pessoal desastrado das cozinhas, que demoravam a quebrar os copos vendidos por ele, diminuindo as vendas de reposição desse tipo de mercadoria. E adiantou – preciso de copos quebrados para poder sobreviver.

 

Lembrei neste momento, meu caro Vidal, das nossas taças deixadas na Barraca das Ostras, e de que uma das moças, logo em nossa chegada, nos comunicou ter uma delas quebrado na viagem. Será que a taça fazia parte do “portfolio” do amigo português? Ficou a dúvida. De qualquer maneira, no próximo sábado teremos mais vinho, ostras e literatura ao vivo na última barraca do Homem e da Mulher Nus na praça da vida. Ali, onde coisas naturais estão ou nas bancadas das ostras ou presas aos meios fios da via pública, enquanto o imaginário anda solto em nossas cabeças. Apenas teremos de cuidar das doses para não ultrapassarmos os limites da Lei Seca, ou ajudar meu amigo português quebrando mais copos.

 

Ánton Passaredo

Curitiba, 2 de Julho de 2008.

 

                                                

                                               sem crédito. foto da época. ilustração do site.

 

 

FERNANDO PESSOA, E-MAIL, CELULAR, BATE-PAPO, CARTAS, VIVER NÃO É “PRECISO,” CLEÓPATRA E JULIO – carta (resposta) de jb vidal para tonicato miranda

 

caro tonicato,

como você também cheguei a pensar que as cartas haviam sido superadas, uma vez pelo telefone, depois recados pelo fax, mais tarde pelo e-mail, celular e ultimamente pelos sites de bate-papo em tempo real e tudo isso “sem selo.” mas não, o que e como você pode se expressar em uma carta creio que nunca o faria através dos meios a que me referi. não, não faria. estou convencido que por algum (muito) tempo a escrita impressa se fará necessária senão pela cultura, pelo hábito, pela questão econômica, porquanto os investimentos necessários para que se acesse o mundo virtual ainda são muito altos para quem quer um PC em casa, considerando-se os níveis salariais do mercado de trabalho. eu observo pelo site, os dias de maior acesso são de segunda a sexta, sábado, domingo e feriados a quantidade cai, por quê? os usuários não tem computador em casa. acessam do local de trabalho. creio que ficará assim, até quando não sei; os correios continuarão a entregar além das drogas e das encomendas, as cartas, milhares de cartas diariamente.

devo desculpar-me com você com respeito ao convite de comermos algumas ostras, não sabia que não te apeteciam, que não fazem parte da tua cultura gastronômica; mas, acho que com a continuidade de se preencher o sábado, no final da manhã, acabarás por identificar algo “familiar” naquelas preciosidades que, por essa razão, terminarão por te conquistar o paladar. o BOSCATO/merlot estava excelente. degustar ostras com vinho na praça do “homem nu”, realmente, pensando bem, não é para os fracos de caráter.

devo te dizer que aquela referência, na primeira carta, à igreja no final da rua, que a vistes desde onde te encontravas, fez-me lembrar das “buscas” em que o homem vive o tempo inteiro de sua vida. engraçado, não é? eu costumo dizer que existindo Deus ou não somos seus “prisioneiros.” coisas do livre pensar.

não posso me alongar, já que o tempo corre e eu só caminho, em razão de compromissos assumidos e intransferíveis, mesmo assim queria fazer um rápido comentário sobre a célebre frase “navegar é preciso, viver não é preciso”, a que te referistes, na última carta, após um comentário sobre o poema “Todas as Cartas de Amor são Ridículas” do nosso grande Fernando Pessoa. da maneira como falastes sobre aquela frase, é óbvio que a lestes pelo menos no poema de Pessoa; ele realmente utilizou tal frase e, por isso, uma grande maioria de pessoas que o leram acreditam ser dele a autoria quando não é. o autor da frase chama-se Julio César, o Romano, que ao dirigir-se Mar Mediterrâneo à dentro para conquistar o Egito viu-se diante de terrível tempestade que obrigava a todos seus generais e soldados pedirem para retornar, no limite do amotinamento, quando então, ele mal seguro a um mastro grita: “navigare necesse, vivere non est necesse!” recuperando a confiança de seus homens a ponto de invadir e conquistar a pátria de Cleópatra. há ou houve, não sei, uma discussão, moderna, de que Julio César teria afirmado no sentido de “precisão” e não de “necessidade.” mas se ocorre ou ocorreu tal discussão, para mim, são filigranas inúteis ou coisa de pensador desocupado. o grande Pessoa não é responsável por isso.

era só.

JB VIDAL

23/06/08

o homem nu na praça 19 de dezembro. foto sem crédito. ilustração do site.

DE OSTRAS e VINHO carta de ánton passaredo

Caro Vidal,

Cartas são em geral continuadas, por isto escrevo esta terceira carta, ainda que nenhuma resposta tenha recebido do amigo para as duas anteriores. Interessante registrar, recebemos cartas na maioria das vezes de amor ou de parentes distantes, quase nunca de amigos, jamais da amante, quando ela existe.

A carta caiu mesmo em desuso, virou forma decrépita, carregada do estigma de “coisa velha”, “ultrapassada”. Pérfido engano. A causa pode ser atribuída ao agito dos tempos modernos, à rapidez da linguagem onde “não” é “naum”… mas espera, se a linguagem atual é reducionista, por que os jovens substituíram o “não” por uma expressão maior? Vá entender os jovens. Acho ser a razão deles tanto para ser diferente, como para ter língua própria, distante de nós, os antigos, ainda presos a cânones e regras. Pois que seja: ABAIXO ÀS REGRAS!!! Abaixo às normas. Como se fosse fácil para nós, lançarmos o brado e laços fora para tal libertação. Bobagem grossa, senilidade querendo ser rebelde ainda, 40 anos depois de 1968.

A Internet mudou tudo e a todos. Pena que ainda não tenha mudado os políticos, dissimulados como sempre, eternamente oportunistas, que fazem carreirismo, pulando de representatividade para representatividade, desde a liderança estudantil, para o cargo de vereador, numa seqüência até chegar a senador. Mas deixemos os políticos e seus eleitores cativos de lado. Definitivamente sou partidário do voto nulo, até o dia em que houver clima para um levante no rumo da construção de um socialismo, dentro de um governo plural, com representantes populares detentores de único mandato para toda uma vida.

Arghhhhh!!! Meu caro Vidal, cretinice aguda deste seu parceiro de vinhos e ostras. Esqueçamos os políticos por ora, uma vez que logo logo eles irão invadir nossas mídias e nos perturbar por meses seguidos, não nos permitindo olvidá-los.

Escuto Tom Jobim semi-inédito no som do meu Windows Media Player, de agora em diante WMP. Trata-se de uma sinfonia feita para Brasília. Nela existe uma parte que mostra a saga da construção da cidade, desde os primeiros momentos quando o homem descobre a natureza do cerrado e toda a sua variegada compleição. Depois vem outra parte apresentando a chegada dos primeiros candangos. Em seguida, a fase da construção. Para finalizar, a apoteose do realizado. Bonito e pouco divulgado. Desde já está prometida uma cópia do CD. Tom é impressionante mesmo, faz lembrar outros grandes maestros que fizeram a mixagem do clássico com o popular, como Bernstein e George Gershwin. Não saberia dizer dos outros, mas o que Tom Jobim é para nós mostra como é fantástica esta aproximação do clássico ao gosto do popular.

Queria ainda falar de ontem, quando estivemos juntos na última barraca da Feira do Litoral, ali na esquina da Praça do Homem Nu com a antiga zona do Baixo Meretrício de Curitiba, a Rua Riachuelo. Cheguei ali num táxi. Antes tinha ido ao mercado, dele até em casa, depois em direção ao nosso encontro. Neste trajeto um tanto longo pude saber que o taxista era de Caruaru, em Pernambuco, terra que briga com Campina Grande para ser reconhecida como a capital brasileira do forró. Pois o pernambucano, ao estilo dos curitibanos, em certo momento “lascou” a pergunta tão comum entre os nativos daqui.

__ “O Senhor não é daqui, não é mesmo?

Antes de responder, perguntei qual o porquê da pergunta. E ele:

__ É porque nunca vi alguém de Curitiba ir a um encontro levando uma garrafa de vinho aberta e duas taças. Isto não é coisa da gente daqui, só pode ser mesmo de pessoa de fora. O povo aqui é muito fechado e recatado, os gestos deles são mais discretos.

Pois foi assim, com a garrafa de vinho e duas taças na mão que cheguei até você, meu Caro Vidal. Devo dizer, um dia depois do nosso encontro, que não sou muito afeto às ostras, nem por carinho pessoal, nem fazem elas parte dos meus mais recônditos desejos gastronômicos. Mas vou ao próximo encontro pretendendo superar a dificuldade. Acredito que, depois de cinco ou seis sábados, serei capaz de sentir algum prazer na degustação dessa iguaria, ainda que seja difícil incluí-las na minha afetividade pessoal. Isto porque não saberia assobiar como o vento praiano, marulhar como as ondas, agitar-me como as marés. Mas a conversa superou minhas expectativas. Nossos entendimentos sobre este “site” fabuloso dos palavreiros vão além dos prazeres das ostras. Estamos cada vez mais afinados e encantados com as possibilidades das novas e velhas linguagens, elas com suas vísceras expostas na página do nosso “blog”. Estou mais do que entusiasmado, estou me sentindo parceiro e autor da idéia.

Aproximando-me do fim desta carta, queria tecer algumas palavras sobre o poema do Fernando Pessoa “Todas as cartas de amor são ridículas”. Maravilha. Espanta-me sua capacidade de garimpagem, Vidal. Incrível como você consegue arrancar dos alfarrábios mais escondidos essas pérolas que não encontramos em nossas ostras degustáveis nas feiras das ex-ruas das putas curitibanas. Pessoa nos surpreende por seu jogo de caminho à frente e para trás. Ora afirmando, ora negando. Ah, quanto mar e navegos precisos e até imprecisos são eternos neste poeta para o qual somos todos órfãos na linguagem e na paisagem. Navegar é preciso, escrever cartas também é preciso, desde Caminha até Vidal.

E sigamos navegando o barco, degustando ostras, ali na Praça do Homem Nu, que também é da Mulher Nua, mas que o povo somente lembra do primeiro, pelo gigantismo do seu membro mais dileto.

Meu Caro Vidal, até sábado que vem, quando nova garrafa de vinho, ostras e conversas beberemos com as taças que lá deixamos para uma nova jornada.

Ánton Passaredo

Curitiba, 15/Junho/2008.

CHINA. foto sem crédito. ilustração do site.

SEGUNDA CARTA para JB VIDAL – de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

 

Esta é a segunda carta que lhe escrevo em menos de quinze dias.

Bobagem Grossa, diria você, quem quer saber de estatísticas ao pretender navegar na literatura? É verdade, adianto. Perdoe-me, é fraqueza do espírito ou excesso de influência do mundo moderno. Interessante que muitos de nós ainda insistimos em querer ser pós-modernos. Bobagem mais grossa ainda, melhor é ser sempre tempo presente. Falo do tempo Presente da Gramática. Eu estou, eu sou. Somente um dos dois ”to be” de Shakespeare!

Não sei por que, mas hoje estou particularmente triste. Não sei se é por conta da morte do Senador Jéferson Perez, paladino da ética na política; ou porque estou sem amigos com quem conversar; ou ainda porque descobri tardiamente a inutilidade da vida. Coisa Kafniana, parecido com o significado da frase “se era para morrer, porque passamos tanto tempo enganando o corpo e o espírito de que teríamos a eternidade”. Esta história de que o importante é a obra, é outra Bobagem Grossa, cortem-me os “possuídos”, como dizem no Nordeste. Todo ser humano, o genial ou o mais simples dos mortais, quer ser lembrado pelo que é não por sua obra. Até porque a maioria não tem obra nenhuma para ser lembrada que não seja seu sorriso, sua luta pela sobrevivência. E mesmo assim, quer ser lembrado “pelo que é”, muito mais do que “pelo que foi”.

Faço estas observações porque ainda ontem um profissional da câmera esteve comigo tirando fotografias na Praça Espanha da minha triste figura, hoje mais próxima de um Sancho Pança. O objetivo é ligar minha imagem à entrevista que concedi sobre o uso da bicicleta no Brasil e que será publicada num livro sobre mobilidade e trânsito.

Depois do ensaio fotográfico comentei com ele estar muito triste com a cidade e com o fato da atual administração me ter imputado uma multa gigantesca sobre o ISS que não concordo de forma alguma esteja a mim sendo cobrada. Aliás, aqui não presto serviços. Nesta cidade tenho mais atuado como turista de fim de semana. Sou o melhor dos contribuintes, pois ganho dinheiro em outras cidades e Estados brasileiros e trago os recursos para consumir aqui. Estou pensando seriamente em partir desta Curitiba ingrata, governada por políticos que colocam a sua imagem acima de qualquer outra coisa. A maioria possuidora de vaidade exarcebada, muitos deles usam ternos caríssimos, se portam como se estivessem indo receber um Oscar em noite de gala.

Mas deixemos estas considerações deletérias e um tanto babaquaras de lado e falemos ainda do sábado, mas do final da tarde, quando liguei para você e soube que estava em Morretes, provando de uma cachaça artesanal sem comentários. Pois quando liguei para você estava sobre minha bicicleta e estava caçando alguém para tomar uma. Depois de ligar para uns quatro amigos além de você, combinei com um deles me encontrar naquele bar onde tivemos nosso primeiro encontro, quando a Bia havia partido. Pedalei até lá e constatei que o bar fechou. Como estava perto, liguei novamente para o amigo e disse que estava indo para a Mara (Capelle). Fiquei por ali, por cerca de quarenta minutos, puto da cara, vendo o bar iluminado, a porta fechada, encostado à bicicleta, corujando algumas janelas iluminadas do edifício à frente. Nelas, várias mulheres apareceram nessa espera, mas todas cerraram as cortinas antes de fazer qualquer troca de roupa. Todas muito recatadas, nenhuma como sua amiga – a “Intelectual Pelada”. Azar delas, deixaram de servir como munição para a breve literatura de um literato menor.

Continuando a história, depois desses quarenta minutos enchi a paciência e resolvi bater palmas porque a boca e o fígado já estavam sedentos. Depois de vinte palmas eis que apareceu a mãe da Mara para me informar que o bar abre às 19h. De pronto informei que meu relógio, de forma insistente, mostrava: 19h 5min. Ela disse que a moça que abre o bar tinha saído para o mercado, estando atrasada no retorno; informou estar sem a chave da porta; e a Mara… dormindo.

Após mais dez minutos de espera tomei decisão drástica. Pedalei ao mercado, comprei queijos, uma caixa de pistache, um bom vinho argentino, e me dirigi para casa. Que jeito. Na falta de amigos – que se danem os amigos, fui beber solitariamente, em casa.

Desfecho da história. No sábado, o amigo que iria encontrar comigo na sexta-feira me liga e diz que passou no Capelle, mas às 22h. Também que havia acabado a bateria do seu celular. Mesmo assim me deu uma bronca. Como já era tarde também no sábado, resolvi ir dormir. Pensando bem, não era nem 22h, mas solitários dormem sempre cedo para não estender a solidão.

 

Curitiba, 25 de Maio de 2008.

CARTA ao amigo JB VIDAL – de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,                                                                                                                  

 

Você me pediu para inaugurar um novo estilo literário em  “nosso blog”, tão ricamente construído nesses seis meses de atividade ininterrupta. Ontem voltei do “Stuart”, agora transformado em Bar Portenho, pensando cá com meus zíperes – será que devo aceitar tal desafio? Serei eu a pessoa indicada para realizar tal tarefa? Sem elucidar a dúvida, eis-me aqui no Escritório das Penas Eternas a dedilhar palavras missivistas. Entendo estar arriscando apenas a possibilidade da escolha sobre minha pessoa para este tão intrigante compromisso. No entanto, mesmo sendo ela apenas mera hipótese, sigamos à lira, toquemos o barco.

 

Queria, então, meu caro amigo, bordar comentários livres sobre nosso encontro na tarde/noite de ontem. Começo pela visão tida ainda no táxi, ao virar da Visconde de Guarapuava para a Marechal Floriano. Lá no final da Marechal, para os altos da Praça Tiradentes, coroando a passarela de prédios, de carros e pedestres em disputa pelo horizonte baixo, a figura majestosa da Igreja do Rosário. Sem dúvida, uma das belas imagens de Curitiba. Contrastando com a algaravia dos automóveis e do concreto dos edifícios, com suas linhas retas e comuns em direção a um céu sem pombas: a igreja. Ela, com suas linhas ligeiramente curvas, a torre pontiaguda, fincou em definitivo a beleza arquitetônica sobrevivente dos portugueses de outrora. Magnífico!

 

Lembro que comentei com você do livro “Traçando Porto Alegre” do Veríssimo e da oportunidade em repetir aqui, não com desenhos, mas com literatura vinculada à imagem o que o autor gaúcho já fez com um arquiteto em terras mais ao sul. Pois adianto, meu caro Vidal, cantar e mostrar os recantos de cidades em forma de crônica, conto ou outra forma de expressão é sempre tarefa a ser repetida. Ainda mais quando se consegue, minimamente, atingir os bordos da arte. E digo bordo porque a arte é um espaço indefinido, jamais decifrado no seu todo. Às vezes conseguimos ligeiramente tocar sua pele, outras vezes nem sequer a alcançamos.

 

Lembrando ainda da nossa conversa, recordo que tecemos considerações sobre as agruras do trânsito e da sua dificuldade em chegar ao “Stuart” no horário combinado. Devo revelar, e desculpe-me pela indiscrição, mas você se atrasou meia hora. De fato, marcar compromisso às 17h 30m para quem ainda está atrelado às quatro rodas é um pouco cruel. O trânsito maluco de uma sociedade doente e cada vez mais motorizada torna aquele que chega ao compromisso, mesmo que atrasado, um sedento por algo forte, um uísque ou uma cachaça. E nós somente queríamos tomar uns vinhos, como de fato tomamos.

 

Interessante os tempos modernos. Não faz muitos anos atrás, acho que menos de dez, escrevi várias cartas para a Helena Kolody e o fazia do próprio punho, de forma manuscrita. Agora tento escrever no micro e o alto-corretor me ajuda sublinhando de vermelho a todo instante que cometo um erro. Quando fazia manuscritos quase não errava, e se o erro ocorria logo uma pequena rasura se interpunha, ou entrava em cena o “Erro-ex”. Lembra? Agora não. Tudo está diferente. A maravilha da informática para mim, já seu criado há mais de quatorze anos, é o “back-space”, o “delete”. Maravilha! Por isto apanhei um pouco com a palavra “uísque” já aportuguesada. Não precisei consultar o Aurélio de papel, pois meu dicionário de bordo me conduziu a um porto seguro gramatical. Muito bom, mas confesso ainda sou viciado em papel, para horror dos ambientalistas e dos ecologistas.

 

Sobre este último assunto lembro que também comentamos no “Stuart” a nossa renúncia à compra de jornais de papel, sendo ambos adeptos da leitura das notícias pela Internet. Parece claro, se temos um “blog”. Mas se há o “blog” por que não iríamos fazer uso dos outros instrumentos que a Internet nos oferece? Coisas como as notícias frescas, sangue ainda quente espremido das más notícias, além de novidades a todo instante, entre futebol, mulheres peladas e fofocas dos artistas, muito lixo misturado à arte, que por sua vez mistura-se à boa informação e à oportunidade de pesquisa.

 

Meu caro Vidal, esta é apenas uma primeira carta e sinto que devo começar a brecar o carro das palavras. Se tivesse uma máquina de escrever das antigas, teria de “puxar ou travar o carro”, efetivamente. Mas teclando no “notebook” o termo terá de ser outro. Terei de parar com a barra de espaço, colocar ponto final, acessar a Internet e encaminhar como anexo as palavras já salvas num arquivo de nome igual ao título da carta. É isto. Adianto que foi um grande prazer tomar duas garrafas de vinho com você ontem no “Stuart”. Quem sabe para o mês não possamos repetir a dose? Mas certamente em outro horário menos congestionado e até mesmo com outras companhias de gente amiga. Porque gente, como já disse Maiakovski foi feita para brilhar.

 

Um Grande Abraço!

Saudações @palavreirosnobardostuart.comliteratura

Ánton Passaredo

CARTA a um amigo que sofre de “GOTA” por marilda confortin

Ao saber que sofrias de gota, procurei o Aurélio
para saber quão sério era teu problema.
Ele me respondeu de um jeito feio,
que Gota era um avião alemão usado para bombardeio.

Fiquei deveras preocupada…
Um avião do século passado caindo em cima do dedão

do meu amigo do coração?

Que estrago! 

A princípio achei meio ridícula aquela explicação e resolvi então

ler mais um pouquinho.
Mais abaixo estava escrito que gota também podia ser

“uma partícula de líquido em forma de esfera ou pêra”.

Pêra? Péra aí! 

Todo esse tititi por causa de uma gotícula minúscula

Que caiu no dedão do teu pé? qualé? 

O que é uma gota para um oceano?
Isso não pode causar tanto dano!

Os homens são mesmo fracos.
(vai vê que é por isso que Deus lhes deu saco).
Aurélio já perdendo a paciência me disse que gota dolorida

 é outra história, bem mais comprida:
Uma forma hereditária de artrite caracterizada por hiperuricemia e recidivas paroxísticas agudas que ocorre numa articulação periférica.”  

Tem dó, dotô!
Eu sô só uma caipira, pira, porra!

Pelos palavrões que ele me disse, essa tal de gota,

deve dar uma dor da gota serena!
Fiquei com pena de você, gotoso.

Perguntei na internet qual era a causa do castigo que caiu sobre meu amigo:

“Elevação do ácido úrico no sangue com depósito de cristais de monourato de sódio”

Ai cacete! Minotauro não mija, não?
Tem que mijá mais, home.     
E guardar cristais, pra quê? que mania de acumular riqueza! 
Gaste tudo em cerveja que você vive mais. 

“A crise inicial dura 3 a 10 dias e desaparece completamente. O paciente volta a levar vida normal. Fica sem tratamento porque não foi orientado ou porque não optou pelo que foi prescrito”

Que bonito isso. Igualzinho à dor de amor.  

Quando a dor passa, o vivente esquece, até que acontece tudo de novo

e o infeliz entra num círculo vicioso.

“Usar um antiinflamatório não-esteróide  intramuscular ou endovenoso. Quando a dor diminuir, passar para via oral”

Ta aí uma boa notícia: O gotoso pode usar a boca.

Por ora, desejo melhoras desse mal,

mas se precisar de ajuda na fase oral, tô dentro.  

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