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M E N I N O C O M G O L E I R O S – por jorge lescano / são paulo.sp

M E N I N O   C O M   G O L E I R O S

 

Eu salvei um pênalti que vai ficar na história de Leticia.

Ernesto Che Guevara: Primeiras viagens.

 

São dois garotos chutando uma bola na pracinha deserta. O homem os observa de vez em quando e volta para seus livros. Está sentado no banco verde e consulta os volumes distraidamente, como quem os conhece demais ou se reservando para estudá-los com atenção em local mais apropriado. Fuma e olha em volta.

A tarde de outono está chegando ao fim. As vozes dos garotos chegam de longe, de uma distância maior que a da realidade da praça, dir-se-ia uma distância temporal.

São dois garotos diferentes. Um tem por volta de dez anos, o outro é menor, seis anos talvez. Este é branco, o outro negro e toma os cuidados de um irmão mais velho. Agora amarra os cadarços dos sapatos do pequeno e voltam a chutar a bola. Fazem comentários. O homem fuma e os contempla por trás dos seus grandes óculos.

O pequeno chutou a bola com força desproporcional ao seu tamanho e ela se elevou carregada pela brisa por cima dos braços esticados do outro, deixando vazias as mãos abertas. O homem vê a bola vir em sua direção. Muito alta, impossível detê-la sentado. O garoto maior que corria para alcançá-la estaca esperando que o homem detenha seu percurso.

O homem parece indeciso da atitude a tomar. Seus livros estão sobre as coxas. A bola se aproxima. Com calma o homem põe os livros de lado e no momento oportuno dá um pulo e segura a bola com as duas mãos. O salto foi lento, preciso, elegante, como de alguém que sabe dominar a situação por experiência. Devolve a bola ao garoto maior que o observa com curiosidade.

— Ô, tio! – diz o garoto recebendo a bola.

Presta-se a virar para continuar com a brincadeira, mas algo parece intrigá-lo. Não sabe como expressar o que sente.

— O senhor, hein, tio! – é o seu comentário cheio de admiração esportiva pela defesa espetacular do homem magro que olha o garoto de uma distância imprecisa, difusa na penumbra de fim de tarde que tanto se parece a uma lembrança.

Antes de chutar a bola para seu companheiro de jogo, ainda com ela nas mãos, o garoto contempla com calma o goleiro improvisado.

— Obrigado! – diz, e chuta em direção do garotinho que espera fazendo pose de goleiro na hora do pênalti.

O crepúsculo invade a praça.

A Copa Nacional versus Não Copa golpista – Dom Orvandil

A Copa Nacional versus Não Copa golpista – Dom Orvandil

Vive-se hoje verdadeira tensão desequilibrada entre a maioria que torce e apoia a Copa do Mundo no Brasil e uma minoria mesclada entre fingidos que publicamente dizem não se interessar pela Copa, mas que na intimidade torcem por ela e os que a ligam ao Governo Dilma e pressionam pela derrota da Seleção Brasileira tentando alvejar a candidata à reeleição. Há os que alegam que a Copa não deve se misturar com política, numa falsa dicotomia entre coisas que são políticas e outras que não são.

Torcedores e Seleção Brasileira - selfie

 

Querido Rudá Morcillo

Sou-te imensamente agradecido pelo convite que me fizeste para escrever para teu maravilhoso site (Meu Blog de Política). Este é o primeiro artigo que compartilho prazerosamente contigo, meu amigo. Abordo aqui o problema da luta política em torno da Copa do Mundo no Brasil.

Vive-se hoje verdadeira tensão desequilibrada entre a maioria que torce e apoia a Copa do Mundo no Brasil e uma minoria mesclada entre fingidos que publicamente dizem não se interessar pela Copa, mas que na intimidade torcem por ela e os que a ligam ao Governo Dilma e pressionam pela derrota da Seleção Brasileira tentando alvejar a candidata à reeleição. Há os que alegam que a Copa não deve se misturar com política, numa falsa dicotomia entre coisas que são políticas e outras que não são.

É preciso entender a vinculação política histórica entre os grandes esportes e as lutas dos blocos que defendem interesses contraditórios. A Copa sempre foi política, mesmo que o Felipão, treinador principal da Seleção, não saiba disso. O que é lamentável é que a Seleção do Brasil não receba um direcionamento deliberado como política de Estado na defesa dos interesses nacionais e sociais de nosso povo, como o Presidente Nelson Mandela fez na África do Sul, usando o futebol como fator de unidade nacional e de cura das feridas abertas e sangramentos divisionistas pelo racismo nazista, que separou negros e brancos, pobres e ricos, opressores e oprimidos.

Quando a direita dominou usou abertamente o esporte como fator de propaganda. Assim aconteceu no dia 1º de agosto de 1936 na Alemanha, evento olímpico aberto Adolfo Hitler. Com advento da TV o principal teórico de marketing e comunicação do ditador nazista o “ministro nazi Joseph Goebbels (blog Esquerda.net) como meio de propaganda política, encomendou um filme que retratasse a supremacia dos atletas “arianos” frente aos outros desportistas. Sob a direção de Leni Riefenstahl, foi rodado o filme Götter des Stadions (Deuses do Estádio), que registrou em mais de 300 quilômetros de película os principais resultados daquela Olimpíada para os alemães.” Os Estados Unidos, contudo, sem intervenção de Hitler, que não desejava isolar-se do mundo, enviaram para a competição mundial negros e judeus. Foi aí que a intenção política clara do nazismo de ressaltar a superioridade branca e ariana fracassou. “… a maior revelação das competições foi Jesse Owens, um atleta americano e, ainda por cima, negro.” Jesse Owens, negro, subiu ao centro e no alto do pódio.

Durante a ditadura civil-mediática-militar no Brasil o carniceiro general Garrastazu Médici usou e abusou da Copa e, principalmente da vitória dos Canarinhos em 1970, para fazer propaganda política da ditadura e calar os gritos e gemidos que emergiam das prisões e dos porões sujos de sangue, onde patriotas sofriam sob o tacão opressor do terrorismo adotado pelo Estado, por lutarem contra o fascismo.

Pelo lado do povo os países socialistas contaram com o esporte, notadamente o futebol, para unir seus povos. Assim aconteceu com a extinta União Soviética e acontece com Cuba, com a China e com todos os outros. Os grandes eventos esportivos sempre foram fatores políticos, de um lado ou de outro.

Aqui no Brasil nesse ano grupos de direita e a mídia, igualmente de interesse colonial e fascista, usa o povo e setores inocentes sociais para boicotar o governo Dilma, disso os esclarecidos sabem. A barulheira do “não vai ter copa” (até na frase há ignorância. Porque não dizer com simplicidade “não haverá copa”?) tem a intenção escondida o denuncismo sem provas, que nada fundamenta quanto à corrupção e gastos excessivos com o grande evento mundial. Os ruídos, felizmente cada vez mais abafados pela paixão nacional, intencionam evitar o sucesso dos jogos e, sublinhe-se, o “risco” de a Seleção sair-se campeã e de isso ajudar a campanha da reeleição da Presidente Dilma.

No fundo, essa campanha, ignorante não somente na formulação da frase, é contra o Brasil, é contra a comunhão internacional que se dará aqui nesses dias, é contra os milhares de empregos gerados direta e indiretamente pelas grandes obras que se edificam. É contra a enorme projeção cultural e econômica do Brasil. É uma torcida contra o Brasil e contra o nosso povo.

A TV Globo e os demais bobos da corte da casa grande, numa política perniciosa e antipatriótica, falam mal das obras e do legado que a Copa entregará ao nosso País. Mentem deslavadamente e de modo hipócrita, até para esconder os antros de corrupção de seus negócios, das sonegações e mentiras junto da Receita Federal. Esses órgãos, que são concessões do povo através do Estado, massacram a verdade ao mentir e tentar jogar o povo contra o mundo, que crava seus olhos em nós, impondo uma propaganda criminosa e ainda impetram mandatos judiciais pedindo que o STF libere os tais “protestos” durante os jogos, num verdadeiro arroubo de oportunismo.

Sinceramente, penso que o Ministério dos Esportes e a Presidenta Dilma deveriam ser mais enfáticos na orientação da Seleção Brasileira e exigir que os jogadores e toda a equipe de apoio tivessem aulas de política nacional, de posturas políticas em campo e de gestos que ajudassem nosso povo e lutar por mais dignidade, como nos ensinou o grande jogador Sócrates, que sabia como deveriam se comportar os jogadores conscientes de sua cidadania e dos compromissos com a Pátria, mesmo jogando.

Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz.

Dom Orvandil: bispo cabano, farrapo e republicano, também na Copa.

25 de maio, 2014 – por jorge lescano / são paulo.sp

25 de maio, 2014

Do outro lado do vidro, batia de leve o chuvisco de inverno. Ele fazia algumas pausas na leitura para apreciar melhor aquele som miúdo, música de câmara se comparado com as tempestades de verão, ribombantes, texturadas por fachos de luz iridescente, raios e trovões numa sinfonia romântica.

Desfrutava a leitura de modo diverso. Não procurava o final do relato, ao contrário, saboreava cada frase como um fruto isolado numa árvore carregada de frutas suculentas, douradas, aromáticas.

O resfriado obrigava-o a permanecer quase imóvel e bem agasalhado. Cobria as pernas com uma manta felpuda e bebia seu chá com prazer ostensivo, como se alguém estivesse presenciando a cena; melhor, como se ele estivesse representando para alguém invisível.

Contra seu hábito, lia um relato atrás de outro, como se todos eles formassem uma história única. Até a monotonia da tarde de domingo contribuía para saturar o clima de paz. Uma paz que raramente sentia.

Sentia-se na sua mítica Noruega, terra de trolls, criaturas dos bosques sombrios, de Ibsen, de Munch, de Grieg…, e de Peer Gynt!

Contemplou a capa do livro onde uma borboleta temporã adejava sutilmente, lembrando uma paixão do autor. Nabokov, apesar de redondamente russonário, era um grande escritor. Reconhecia que as sensações daquele momento eram em grande parte produto dos seus relatos.

Lembrou-se de uma tarde de cinquenta anos antes. Tinha ido visitar de improviso um amigo croata que morava na estação terminal de uma linha férrea. Depois daquela paragem era o deserto. Chovia molemente, Dentro da casa havia um aconchego de cobre salpicado pela luz de uma lamparina. Ele olhou pela pequena janela da sala enfeitada com uma modesta cortina estampada com pequenas flores e viu a chuva caindo no quintal de terra onde algum matinho balançava quando as gotas pousavam nele. Sentiu o calor do ambiente matizado pelo sotaque da mãe do seu amigo, que se afanava para servir chá e bolinhos e vodka.

Estou numa aldeia russa, pensou, numa isbá da estepe.

Um sentimento de gratidão o invadiu.

Bebeu mais um gole de chá, não queria estragar a sua sensação com qualquer comentário.

AS ELEIÇÕES E AS CARTOMANTES – poe wanderley guilherme dos santos / são paulo.sp

AS ELEIÇÕES E AS CARTOMANTES

Há quem morra acreditando que o fim do mundo está próximo. E há quem viva crente de que será o beneficiário de riquezas inesperadas, conquistas inauditas.

Cartomantes, videntes, intérpretes de pesquisas eleitorais e, muito especialmente, editorialistas e colunistas muito mais especialmente ainda, não são interpelados sobre a inexatidão dos prognósticos e profecias com que assustam ou embriagam seus clientes. Certo, vez por outra recebem leves críticas pelo fiasco das previsões, sem serem acionados por charlatanice ou falsidade ideológica. E a maioria dos viciados volta a procurar todos, e todas, sempre que temem o futuro.

Convenhamos, é coisa de enorme fragilidade emocional acreditar que o que lhe está desde já reservado, caso existisse de fato, se revela na manipulação matreira de valetes de copas, azes de espada e as cobiçadas damas de alcova, quero dizer, damas de outros, ou melhor, damas de ouros. Há modos de entender o fenômeno sem a necessidade de convocar entidades sub metafísicas ou supra psicanalíticas.

Há pouco, boatos de nobre origem alimentaram a expectativa de que os computadores iriam desarranjar-se sem conserto com a passagem do século. De 1999 para 2000 ou deste para 2001, contudo, nada aconteceu. E nessa dúvida cronológica já se encontra metade dos subterfúgios com que fracassados profetas justificam o escandaloso vexame, a saber: a volubilidade do tempo e a pobreza dos calendários. Esse negócio de contar o tempo não é fácil, como se comprova por consulta ao Google ou à Wikipédia. Papas e imperadores sempre desejaram aprisionar em métricas comedidas aquelas anomalias da natureza disfarçadas de micro milionésimos de segundos ou minutos e que, quando menos se espera, viraram algumas horas, dia até, ocasionando “bolos” históricos e rupturas matrimoniais. Calendários ditos Julianos, Gregorianos, lunares, sub-lunares, solares, maias e astecas, é vasta a oferta do modo de contar o tempo. Steven J. Gould, em Questioning the Millenium, faz erudita e bem humorada recensão de todas as tentativas.

Pois é ao caráter fugidio do tempo que os profetas apelam para justificar a decepção de suas apostas. Tratar-se-ia de erro de contagem nas mensagens cifradas das cartas, nuvens, borras de café, vísceras de aves e teclados de computador. Quem sabe o 1 era 2 e o 2, 3, e o dia do Juízo Final dos computadores se dará na passagem do ano de 2 999 para 3 000? Isso, claro, se o mundo não for destruído, antes, por herético conciliábulo entre reis, rainhas, damas e valetes de heterogêneo e pecaminoso conjunto de naipes.

Ao explicar o normal andar dos dias oposto aos reboliços prometidos por mais cuidadosa leitura do tempo, preservam a suposta dádiva da antevisão e a reputação do visionário, culpando os cosmólogos por não traduzirem corretamente os indícios emitidos pelo movimento e duração dos astros (Ponho aqui “indício” de caso pensado, termo tornado célebre por juízes e repórteres ao tomá-lo, tal como as cartomantes, por equivalente a “evidência”. Nos tempos que correm, conforme o calendário Juliano ou Gregoriano, não importa, indício quer dizer evidência, ou não, só quando convém, é evidente). No caso, defendem-se os catastrofistas com a desculpa de que os indícios não apontavam para evidências e, portanto, a data anunciada ficou comprometida. Pena só se ter tomado ciência disso depois de queda nas bolsas, suicídios antecipados e uísques tomados por conta. No próximo fim de mundo, ou de governo, asseguram, não falharão.

A outra muleta de profetas do não acontecer chama-se, petulantemente, dissonância cognitiva. Trocada em miúdos, a dissonância do mal arrumado profeta refere-se ao óbvio descompasso entre o que ele vê e o mundo real dos paralelepípedos e procissões religiosas. Se cismar de perceber nestas últimas a obscenidade de ritos pagãos não há santo que os persuada do contrário.

Cantochões tomados por convites à devassidão, paramentos anunciando a variedade de strip-tease que será apresentada, e por aí vai. Em suma, reinterpreta-se o mundo para fazê-lo conferir com a pretensa cognição. Nas seitas milenaristas, que anunciam o fim dos tempos, quando a desculpa não é o calendário que teria sido mal composto, é a dissonância cognitiva, isto é, os sinais ainda não teriam atingido sua forma derradeira e estaríamos ainda às vésperas dos grandes acontecimentos.

Há quem morra acreditando que o fim do mundo está próximo. E há quem viva crente de que será o beneficiário de riquezas inesperadas, conquistas inauditas e glórias, e poder, prestígio e pesquisas. Andaço muito comum em períodos eleitorais, levando os fiéis a permanente romaria entre a dissonância e o calendário. Nada a fazer além de deixar o tempo passar e só tocar no assunto no ano seguinte. A ressaca é longa.

A FILOSOFIA DO ÓDIO por marco vasques / florianópolis.sc

A FILOSOFIA DO ÓDIO

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [12/05/2014]

Antes que alguém nos acuse de apocalípticos, já vamos explicando que não. Ao contrário, o mundo está até ordenado em demasia e, de alguma maneira, gostaríamos que ele estivesse mais revoltoso, mais radical. Seríamos capaz de desfilar um rosário de motivos pelos quais a revolta se faz urgente. A fome que assola todos os cantos do mundo. A corrupção generalizada e institucionalizada. As guerras criadas e deflagradas nos gabinetes. A presença de uma elite econômica cada vez mais reacionária. O preconceito – o silencioso e o violento.  A falta de políticas públicas efetivas para a saúde e a educação. Enfim, da calçada esburacada do bairro a uma simples compra no supermercado. Sim. Temos mais motivos para irmos ao protesto do que para ficarmos sentados à frente de uma televisão vendo a Copa do Mundo.

No geral, somos absorvidos pela rotina e acabamos amortecidos com tantos afazeres. Trabalho, escola, academia, oficina do carro, filhos, aluguel, plano de saúde, animais, amigos, família, e assim segue a roda viva de sempre. Os dias, os meses, os anos passam e quando nos damos conta, estivemos praticamente toda a vida correndo atrás da vida. No entanto, dispomos de uma infinita maneira de demonstrar nosso desconforto e, digamos assim, nosso ódio com tudo que está posto. O uso do ódio, fruto da indignação, para que haja um efeito real na vida prática, precisa estar pautado pela inteligência e por algum princípio de razão. Mas como assim? Usar o ódio com inteligência? Se podemos usar o amor com inteligência, e, infelizmente, raramente o fizemos, por que não o ódio? Não há nada mais clichê e chavão que afirmar que o ódio é tão humano quando o amor. E é mesmo.

Aqui poderíamos, ainda, abrir categorias de ódio. Do ódio privado, aquele que é gerado por uma insatisfação íntima, por uma inadequação à vida. Sim. Existem pessoas que são inábeis à vida. Ao ódio coletivo, ao ódio das causas comuns, que são muitas. O fato é que nem tudo é tão binário e compartimentado. Nossas emoções oscilam para um lado e outro, quando não para o acúmulo. Porém, um dado sobre o nosso exercício do ódio a ser observado é que ele quase sempre atinge o alvo errado. Os linchamentos de mendigos em praça pública; os assassinatos e esquartejamentos de nossas meninas; os estupros diários sofridos por crianças, adolescentes, jovens e mulheres. A nossa intolerância com quem opta por orientações religiosas e sexuais distintas das nossas são exemplos de que exercemos o imperativo do ódio como método de opressão, não de libertação. Temos que domar a filosofia do ódio para esmagar o uso da força e da violência contra quem já é, constantemente, violentado.

Crónicas da Infâmia – por maria josé vieira de souza / lisboa.pt

Crónicas da Infâmia

Portugal no Coracao

2 – Do ( Des)amor
Portugal foi sempre o meu país  e a minha pátria. Todavia, creio que país e pátria já não são coincidentes, nem tão pouco complementares. Não sei se alguém  o afirmou. Digo-o, apenas porque senti.
Um país preenche e  ilustra um mapa.  Uma pátria habita e adorna um coração.
A guerra começa quando se pretende apô-los e se descobre  que essa pátria não veste aquele país e esse país não tem corpo para aquela pátria. Ficar sem pátria é,então, ter um coração apátrida. São os laços que se quebram num coração que passa a sobreviver sem essas amarras.
Assim ficou o meu coração. Apátrida de um país que me dá a nacionalidade. Apátrida de um país que me inclui na população residente. Apátrida de um país que existe ausente de mim. E nessa ausência, tento  descobrir  o que fez deste  Portugal  um país de tantas pátrias expatriado. Confirmo, atónita,  que foi também uma outra ausência. A maior talvez, porque é uma ausência vital – a ausência do amor. Sem ele,  a infâmia vinga.
O amor, sentimento exigente, volatilizou-se adquirindo uma  forma estranha  que  enviesa os dias  e as gentes deste país. Arredou-se,  em degeneração profunda, dando lugar ao (des)amor.
(Des)amor que se implantou sem que fosse regulamentado, exigido, recomendado.
(Des)amor que se infiltrou sem pedir licença, mas entrando , invadindo, espalhando-se , qual erva daninha que brota sem ser semeada.
(Des)amor que reina, que dispõe, que exige, que quebra, que anula, que separa, que mata.
(Des)amor, a nova infâmia  deste  canhestro  e ancestral país.
As loas que, ao longo do tempo, os poetas  foram tecendo ao amor, jazem, agora, nas obras  maiores de Camões, de Shakespeare ,de Neruda ou de  tantos outros grandes poetas.
E se o  (des)amor  grassa e prospera pelo mundo, porquê invocar a infâmia?
Impossível não invocar a infâmia, quando se entra num Hospital apinhado de doentes nos corredores da urgência.
Impossível não invocar a infâmia, quando se não tem pão para matar a fome de um filho.
Impossível não invocar a infâmia,  quando se abandonam  quatrocentos mil desempregados à sorte de uma anunciada penúria extrema.
Impossível não invocar a infâmia, quando se coloca um pai, uma mãe, um avô, uma avó num Lar de idosos. Nesta situação, não se invoca apenas a  infâmia, confirma-se  a dolosa evidência do (des)amor. Basta entrar nesses Lares, áridos ou confortáveis, para verificar que são os  armazéns  dos  idosos. A dor magoa-nos sem reserva e sem defesa. Perante nós, desfia–se, em terrível surpresa, o verdadeiro estiolamento da família. São os pais , os avós,  abandonados, espoliados por filhos e por netos que foram desejados e amados na teia dos laços familiares, no  seio de uma família que todos incluía. E ei-los , empurrados para o último e mais confrangente lugar da degradação do amor: a sepultura dos vivos.
A finitude da vida apresenta-se na sua forma mais vulnerável e mais trágica . Roubar o tecto de uma vida inteira para  um chão que não se ajusta aos pés gastos por outros soalhos é invocar a morte e exercer  uma despudorada violência em nome  de uma solução sem qualquer outra alternativa.
Os lares deste país estão cheios de idosos, esquecidos, rejeitados, prostrados a um destino que não escolheram. O olhar de cada um perde-se na memória de um tempo que já não existe e de outro que se estiola. Feriu-me, logo que entrei num Lar.
No último que visitei, fui ao encontro de uma das mulheres mais notáveis do combate ao antigo regime fascista: Cândida Ventura.
Mulher corajosa, mulher histórica com um passado relevante e de referência na luta pela defesa da Liberdade. Uma das primeiras mulheres comunistas a atingir o topo da hierarquia marxista. Presa , exilada , viveu anos de clandestinidade ao longo da sua militância partidária. Ei-la , aos 95 anos, clandestina, confinada  e esquecida num Lar.
Inteligente, activa , em pleno  uso de todas as suas faculdades mentais, rejeita viver emparedada num Lar. Retirá-la , é- me impossível. Denunciar esta atrocidade é minha obrigação.
Cândida Ventura está viva, mas impossibilitada de viver a sua própria vida. Como ela , vivem milhares de idosos deste país.
País que deixou o meu coração apátrida.
Haverá infâmia maior?
                                                           Praia da Rocha,  4 de Fevereiro de 2014

CADÊ O AMARILDO? CADÊ MARIA DO ROSÁRIO? – por paulo timm / torres.rs

CADÊ O AMARILDO? CADÊ MARIA DO ROSÁRIO?

                        Paulo Timm – Torres, julho 31 – copyleft

Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado

Tiago: 4. 17

 

Há duas semanas o auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza, brasileiro, morador da Rocinha-RJ, foi “detidoparaaveriguações” e ela Polícia Militar do Estado do Rio e sumiu.Ele não pode estar entre os 3,3 milhões de pessoas que saudaram o Papa. Mas, desde então, por todos os cantos do país, com grande impacto na mídia, todos se indagam:

CADÊ O AMARILDO?

O país está inquieto com o desaparecimento do operário nas mãos de órgãos de Segurança. Parece que voltamos PAULO TIMMaos anos de chumbo da ditadura. Ou, quem sabe, nunca saímos realmente dela? Mais precisamente, quem sabe ela sempre existiu para quem é negro, mulato, pobre e  morador de periferia? Ou gay? Lembro, com emoção do dia em que o General Geisel, Presidente da República, demitiu o Comandante do II Exército, em São Paulo,  Gen. Enardo D´Avila ,depois do episódio das torturas e mortes no DOI-CODI. Foi um momento dramático no processo de redemocratização. O país rumava para o Estado de Direito Democrático e se tinha grandes esperanças em que em breve veríamos o fim das arbitrariedades policiais. Com a Nova República em 1985 e com a Constituição de 1988 houve avanços: Os líderes de movimentos políticos e sociais são mais respeitados, apesar da criminalização de manifestações desde o Governo FHC. Mas a truculência nunca arrefeceu. Os métodos, a filosofia de atuação dos órgãos de segurança e a ação da Polícia continuam os mesmos quando tratam com pessoas simples do povo e mesmo com eventuais delinqüentes ou condenados ou simplesmente membros de uma minoria discriminada. No fundo, a questão social ainda é tratada, apesar dos afagos de um governo federal de inspiração popular em suas origens, como caso de Polícia, tal como na Velha República ou no Império. Ou na ditadura. Isso tem que mudar! O povo hoje mais esclarecido, mais consciente de seus direitos já não suporta este tipo de Política e de Polícia. Metade dos eleitores brasileiros já têm secundário ou superior completo, nas grandes metrópoles todos têm acesso à INTERNET e Redes Sociais, um terço dos municípios brasileiros, segundo IDHM recém publicado pelo IPEA/PNUD, é  alto e comparável ao de países desenvolvidos, nossa vida média também é comparável à deles, 73 anos. Estamos vivendo mais, sabendo das coisas e de olhos e ouvidos muito abertos. Por isso queremos saber:

CADÊ O AMARILDO?

Chega a ser comovente, ver e ouvir familiares de sua família dizendo que não querem proteção governamental. Querem é saber do Amarildo. Até porque se dizem protegidos pela comunidade. Que coisa impressionante! Sentem-se protegidos pela comunidade. Então, existe comunidade na Rocinha. E existe consciência e solidariedade na favela. A favela é humana…Isso, acima de tudo, é lindo! Isso é o verdadeiro Brasil! Não o mundo artificial dos Políticos e outras autoridades públicas deste país que continuam a achar que seus cargos lhes conferem privilégios de Príncipes: salários altíssimos, assessorias incontáveis, mordomias, conluios altamente sospechosos  com interesses privados como se vivêssemos nas cortes absolutistas. Pior: eternização na vida pública tansformando de instrumento da sociedade em meio de vida pessoal.

Aí vem o Governador Cabral,  tocado pelas palavras do Papa e pede perdão pelos pecados cometidos. Reconhece que foi soberbo e prepotente.  Agora vai ouvir as ruas: O Museu do Indio será preservado, ao lado do Maracanã. As passagens de ônibus não aumentarão. Eotras cositas más…Tocante! Mas tragicômico. Teve que ter o menor reconhecimento público (12%) e submeter o Brasil aos vexames dos desencontros na vinda do  Papa Francisco para se dar conta de que havia “ algo de podre no Reino da Dinamarca”. A ele meu  veredicto:

                                               FORA CABRAL!

Mas ao longo de todas as manifestações de junho e julho, me ocorre outra indagação:

CADÊ A MARIA DO ROSÁRIO, Ministra dos Direitos Humanos?

A diligente Ministra, tão ciosa de suas responsabilidades na Comissão da Verdade parece achar que os atentados à pessoa humana só aconteceram na ditadura. Será que ela não sabe que não há Governo sem crime? Particularmente em sociedades com elevado passivo social e evidente histórico de violência policial? A OAB e Defensorias Públicas do Rio e São Paulo, até de outras cidades que também têm visto manifestações de rua, não arrefeceram em seu ofício de proteger a cidadania. Mas jamais vi ao lado deles a Ministra. Nem lhe ouvi uma só palavra sobre os exageros do Estado contra manifestantes ou mesmo contra  meros transeuntes, vítimas de balas de borracha e gases  intoxicantes. Isso se chama omissão. A mesma omissão do antigo comandante do II Exército, à época dos generais, que o levou ao desterro:

É evidente que estamos falando de omissão, que nada mais é do que nos silenciar diante de determinadas coisas, ficarmos mudos diante de fatos onde deveríamos nos posicionar, deixar de lado aquilo que não poderia ser deixado.

(O pecado da omissão – http://www.palavrafiel.com.br/?p=3865)

 

Ora direis ouvir estrelas, responderão alguns. Isso é pura poesia teológica. Recorro, então, ao dicionário e ele é ainda mais contundente:

Omissão, no direito, é a conduta pela qual uma pessoa não faz algo a que seria obrigada ou para o que teria condições.

Deduzo, pois, que Maria do Rosário foi e continua sendo OMISSA diante do que vem ocorrendo no país e, principalmente, diante do desaparecimento de Amarildo. Ela deveria ser sempre a primeira voz em defesa dos Direitos Humanos ameaçados. E a primeira a exigir providências, na forma da Lei. Se não o fez e não faz, cabe à Presidente Dilma a responsabilidade de chamá-la ao Ofício. Enquanto isto, nos continuaremos gritando, a plenos pulmões:

                               C A D Ê   O   A M A R I L D O?

E lamentando o fato de que uma área tão delicada quanto Direitos Humanos tenha sido entregue, não a uma lutadora ou  lutador eméritos desta nobre causa, como é Perez Esquivel, como é Paulo Sérgio Pinheiro, como é José Gregori, como foi Dom Paulo Evaristo Arns,  mas a uma militante partidária,  eventualmente respeitável  mas sem vulto, nem desenvoltura  na área. Muito menos independência.  Decididamente, Dilma está só. Muito só!

Senhor, rogai por ela! Por Amarildo! Por todos nós..!!!

PRESENÇA DO PAPA – por paulo timm / torres.rs

PRESENÇA DO PAPA
Paulo Timm – Torres 23 julho – copyleft
Francisco I , Papa há apenas quatro meses, chegou ao Brasil numa mensagem de grande otimismo à juventude.  Seu estilo parece ter agradado: simplicidade. Nas palavras, nos gestos, nos aparatos. Nada de ostentação, o que cai como uma luva na conjuntura nacional, mobilizada precisamente em torno de uma mudança na cultura política do país. PAULO TIMMNisso, Francisco I  tem tudo para se consagrar como um ídolo carismático. Ídolos dificilmente são homens ou mulheres sofisticados, de grande erudição. As grandes massas preferem, sempre, alguém que se confunda com ela e que expresse uma mensagem singela, mais de sentimentos que falam ao coração do que fortes argumentos sustentados pela razão. Cristo mesmo, tinha esse perfil, mas isto ocorre em outros campos da vida social. O ídolo é uma espécie de herói,  sem se deixar envolver pelo excesso de familiaridade, marcado com o carisma como uma espécie de graça divina.
O herói é sempre – ele também – um mediano dotado de superpoderes. É a aplicação (ou o sinal da Graça) do arquétipo do herói a uma pessoa dotada de misteriosas fluxos e comunicações empáticas.
Pela leitura ideológica, o estrelato é uma apropriação pelo sistema produtor das qualidades empáticas e de certos dons gratuitos de atores tomados pela magia do estrelato. Pela leitura psicológica o estrelato é uma relação profunda entre pessoas com um “self” extrovertido capaz de simbolizar valores patentes, latentes , ou jacentes no público. São seres marcados por alguma forma particular de Graça, identificados com o mistério e o sagrado. Daí o carisma, marca peculiar, “graça extraordinária concedido pelo Espírito Santos” segundo a definição do cristianismo
                                                          Arthur da Távola – Talento e Carisma
O Papa Francisco reúne todas essas características. É um homem sem grandes mistérios, de origem definida, de prática sacerdotal  aparentemente inatacável. A tentativa de intrigá-lo com as esquerdas latinoamericanas, em razão de uma suposta omissão durante o regime militar na Argentina, não se confirmaram. Perez Esquive, Nobel da Paz, foi o primeiro a sair em defesa do Papa. Se porventura ele não foi um combatente, nem mesmo resistente como “ As Mães da Praça de Maio, tampouco foi colaborador dos militares. E está se saindo bem nos primeiros pronunciamentos no Brasil :–“ Não trouxe ouro nem prata. Trago Jesus Cristo”. Palavras óbvias, mas, por isso mesmo oportunas e convenientes. O Brasil vive um momento delicado e exige cuidados. Ele demonstra que os tem.  Parece até ter escutado aquele famoso conselho de Jung que recomendava sempre à alma que fala lembrar-se de que falava à outra alma humana. De resto, chega ao Brasil numa nova Era da própria Igreja, já muito distante dos Poderes terrenos e mais aberta  ao diálogo com ideologias de forte caráter social. Não por acaso, registrou a imprensa a afinidade do discurso de Dilma Roussef  com os ideais cristãos, malgrado  o pequeno deslize da sua referência exclusiva à década  petista da inclusão social.
Ao mesmo tempo, estamos recebendo um Papa diplomático. Diante de um discurso meio desleal da presidente Dilma Rousseff, que aproveitou o momento para promover os dez anos de trabalho do PT, o Papa argentino ofereceu uma fala moderada, de extrema simpatia, sem abrir o seu estoque de críticas à sociedade moderna, que cria e abandona excluídos.
Teremos mais seis dias de programação, pelo visto com o mesmo nível de risco na circulação do ilustre visitante, que imagina estar seguro no Brasil, mesmo sendo o Rio de Janeiro uma cidade minada pelo crime organizado e por manifestações a cada momento mais violentas.
Seja o que for, realmente, o primeiro dia do Papa deixou para o mundo uma imagem de um Brasil humano, alegre e até seguro. Rezemos para que permaneça assim.
                              (Jorn. Renato Riella – BSB – FB)
Bem Vindo, pois  Francisco! Que suas palavras alimentem este momento de renovação e esperanças do Brasil!

POEMA SONHADO – ALHO-PORÓ – por jorge lescano / saõ paulo.sp

ALHO-PORÓ

(poema sonhado)

 

Para Maria Aparecida

In memoriam Marguerite Duras

As folhas

finas

as nervuras

a cor

das folhas.

Verde.

Folhas e folhas

de alho-poró.

O talo:

fino

esbranquiçado.

O bulbo:

arredondado

fiapos ásperos

levemente amarelados:

A verdura.

O vento

nas folhas.

O cheiro

trazido pelo vento

nas folhas finas

da verdura.

O cheiro da verdura.

Na cozinha

O alho-poró

nas mãos

da mulher

que amorosamente

condimenta

a sopa da família.

Eis o poema sonhado nesta manhã nórdica de São Paulo. Quis transcrevê-lo como o recuperei na vigília antes que o dia me tomasse a mente. Com certeza mais tarde escreverei sobre as vertentes que reconheço como origem do sonho porque me apraz investigar essa coisa que alguns chamam de inspiração. Agora, no entanto, preferi referi-lo como eu o traduzia para duas ouvintes.

O engraçado do caso é que eu o traduzia do castelhano para duas mulheres bolivianas que poderiam ler o original. Curioso também que elas tivessem essa nacionalidade, pois não tenho contato com ninguém da Bolívia.

Na leitura onírica havia elementos visuais que embora não correspondam à realidade, a enriqueciam. As folhas sonhadas eram mais largas que as do alho-poró e tinham uma variação de cor que ia do verde escuro ao amarelo, esta variação cromática era observada pelos três personagens e devidamente apreciada. Isto tornava a planta, e o poema, mais sutis. Para ilustrar esta qualidade do sonho deveria aproveitar a imagem da folha de outra planta, com outro formato e outra textura.

Há, na gênese deste sonho, circunstâncias familiares e pessoais que o formaram. Estou trabalhando num relato que trata da tradução e por uma situação dolorosa penso constantemente em minha mulher, da qual estou separado há vinte anos, especialmente na hora em que preparo o modesto jantar na minha mansarda.

Três pessoas se apresentaram à memória para a dedicatória. A primeira é a que está estampada, as outras duas por motivos diversos. Uma é poeta e creio que apreciará esta minha incursão no seu quintal. A outra fez o seu doutorado em letras francesas com tese sobre Marguerite Duras, razão pela qual com ela compartilhei a leitura das obras de nossa amada escritora durante um longo período e que certa vez, para “ilustrar” um evento realizado com textos dela, me telefonou pedindo que localizasse uma receita de sopa de alho- poró em um dos seus livros.

Para que o leitor desta nota não fique em suspense digo que esse texto tem o título de A sopa de alhos-porros e se encontra no livro Outside (São Paulo, Difel, 1983).

Triturar calçadas ou preservar o mangue / amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

 

Sou realmente um ignorante irretocável em assuntos de administração pública e gestão do meio ambiente. Vejo atitudes, ações, omissões e declarações e não consigo assumir uma posição nem formar um juízo ao menos razoável Amilcar Nevessobre os acontecimentos: tudo pode ser tanto uma coisa como o seu extremo oposto. Não consigo assumir uma posição a não ser levado por uma revista, uma televisão, um pastor ou um líder carismático (especialmente se esse líder pagar o meu sacrossanto salário mensal).

 

A dialética se instala e nada concluo sequer com mediana clareza. De acordo com o Houaiss, noplatonismo a dialética é um “processo de diálogo, debate entre interlocutores comprometidos com a busca da verdade, através do qual a alma se eleva, gradativamente, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias”. O problema em Platão é descobrir quando os interlocutores buscam honestamente a verdade e quando atuam segundo um papel predeterminado, seja político, filosófico ou religioso, mas sempre de olho nalguma vantagem. No fundo, todos queremos ganhar mais dinheiro, independente de quanto tenhamos e de quanto efetivamente necessitemos. Me darei por feliz se conseguir te ludibriar, inclusive intelectualmente.

 

De fato, hoje todos os idealismos estão sepultados, todo mundo esconde um interesse, muitas vezes inconfessável, por detrás das palavras, pensamentos, atos e omissões. Não há para onde correr, seja para o Executivo, o Legislativo, o Judiciário, a Igreja ou o Ministério Público: tudo é relativo e depende de interpretações que hoje são pétreas e amanhã serão reformadas sem qualquer escrúpulo, respeito ou consideração pelos prejudicados. Melhor dizendo: pelos atropelados.

 

Afinal, a vida se faz assim, não é mesmo?, de acertos e erros, de vantagens e prejuízos, de momentos e oportunidades, de ganhos e perdas. Sinto muito. Se faz de trapaças e desonestidades. No fundo, a questão básica é posicionar-se (custe o que custar) como o homem certo na hora certa e no lugar certo; qualquer desvio em uma dessas três circunstâncias levará para o brejo a tua causa (por mais nobre que seja) feito vaca atolada.

 

Vejo, por exemplo, uma gigantesca lagarta e um leve lince a revolver as águas e as margens do Rio do Sertão à saída do bairro Santa Mônica, operação que já realizaram manguezal a dentro pelos baixios pantanosos do Itacorubi. Rio e regatos dragados para cima e para baixo. Humm… Imagino que seja uma operação necessária e, até, indispensável: se as águas não tiverem leito onde rolar, subirão às margens e transbordarão, inundando em volta casas, ruas e lojas (construídas, um dia, sobre o mangue).

 

Lagarta e lince (caterpillar e bobcat, no original), retroescavadeiras de esteira de aço, avançam devastando o caminho que percorrem e empilham, ao lado, o lodo com vegetação retirado das margens e leitos dos córregos. Mas ali vivem jacarés, tartarugas e peixes de 40 centímetros. Fora caranguejos e a fauna miúda. Onde irão parar, durante a operação que ocorre a cada seis meses, esses animais, seus ninhos e seus ovos?

 

Além disso, para chegar ao local de trabalho, ao cruzá-los esse maquinário tritura em diversos locais meios-fios, ciclovia e pista de caminhada, inclusive uma calçada que fora refeita há semanas, depois de passar meses detonada. Não haveria formas de criar alguma passarela móvel, por exemplo, que preservasse os bens públicos?

 

Burro que sou, não encontro respostas. Porém, dialeticamente falando…

A MORADA DO SER – por paulo timm / torres.rs

A MORADA DO SER

Paulo Timm – junho,10-Torres RS 

 

 

 

Palavras sempre sabem o que querem” . (Adriana Falcão , Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento)

Hoje , dia 10 de junho celebra-se o Dia da Língua Portuguesa, data da morte de Luiz de Camões, “Pai da Língua”, autor de “Os Lusíadas”, em 1589. É com a língua que resistimos e existimos como espécie. E que nos diferenciamos na Babel de povos distintos. O próprio português PAULO TIMMdo Brasil, distanciando-se do lusitano,  é um amálgama do poder colonial com  a malemolência tropical, obrigada, por duas vezes, a discriminar o tupi, amplamente falado no território até o final do século XVIII: Pelo Marquês do Pombal, em  17 de agosto de 1758,  e por Dom João VI, em 1808.  A língua é, de resto,  nossa primeira prisão, nas malhas da  razão que a própria razão desconhece; mas é também, nossa única possibilidade de alforria, pelo exercício da liberdade.

Em 1968, por exemplo,  às vésperas do AI-5, uma canção, de Geraldo Vandré, sintetizou este poder da língua, ao ser interpretada nas eliminatórias por ele próprio no III Festival Internacional da Canção, transformando-se no maior hino de repúdio à ditadura militar: “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” ou “Caminhando“. Até hoje, para quem viveu, mesmo de longe, aqueles momentos, não há como sufocar  à forte emoção que evoca e que bem demonstra o importante papel da cultura, em seu vasto espectro, na redemocratização do país, independentemente do grande enigma que Vandré ainda representa em sua poética solidão.(É patética sua fala, mas digna de respeito, tanto pelo personagem humano, como pelo gênio artístico ineludível,  na recente entrevista concedida a Geneton de Moraes Neto, na GloboNews):

 

“Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…(2x)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…(2x)

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora”

 

Lamentavelmente,  os comentaristas da grande mídia obnubilaram a data da língua, preferindo as estatísticas da economia, no melhor estilo da velha tradição,   tão condenada pelos verdes: a maldição do PIB. Mas se a moeda forte nos mercados globais não é o real; se a tecnologia, até mesmo do provecto automóvel  “nacional” , vem de fora; e  se a economia está se desindustrializando, sob o fascínio da exportação de commodities que nos aferra à matriz colonial, tão condenada por Caio Prado Jr., desde seus primeiros escritos econômicos da década de 30 do século passado, o vernáculo é nosso.  Fernando Pessoa, Poeta Maior da língua, ia mais longe. A língua, para ele se confundia com a própria pátria, no melhor estilo heideggeriano, para quem a palavra é a morada do ser:

“As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho – , transmudou-se o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramos ao vento , num delírio passivo de coisa movida.         (…)

Não tenho sentimento político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enjoa independentemente de quem o cuspisse.

 

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da trasliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

 

(Fernando Pessoa –  Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Lisboa, Ática, 1982)

Mauro Santayana, decano do jornalismo brasileiro, não vai tão longe. Mas defende a língua escrita como  fundamento da soberania e tem uma posição de defesa intransigente da pureza do idioma:

“Demolir a linguagem é demolir o homem. Quando se trata de política de Estado, é crime contra o povo.”

(Mauro Santayana, Linguagem e Soberania – www.maurosantayana.com)

Mais do que         morada, pátria e essência da soberania de um povo:  A linguagem escrita é um momento do processo civilizatório que potencia a comunicação humana elevando-a culturalmente. A importância da Grécia Antiga consistiu precisamente no fato de que foi a simplificação da sua escrita , de base fonética, mais avançada do que as paralelas,   que proporcionou uma  inédita sinergia  da inteligência da época naquela região, culminando no requinte do helenismo.   E, mesmo sucumbindo ao poder de Roma, foi esta cultura que forjou os valores fundamentais da cultura ocidental, demonstrando o poder da palavra trasliterada na “última flor do Lácio”:

Língua portuguesa

Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

            ( “Poesias”, Livraria Francisco Alves – Rio de Janeiro, 1964, pág. 262)

 

É pelas palavras escritas e pela língua falada que nos identificamos como um povo no seu cotidiano. Por elas  nos eternizaremos como cultura, sendo, portanto nossa maior riqueza, aquela que se projeta como mito. Podemos não comer palavras, no sentido literal, nem chegar com elas, literalmente, às estrelas. Para tanto, farse-ão indispensáveis a boa matemática, a física e a tecnologia. Mas pela palavra dizemos do nosso espanto e descobrimos o logon da  fina teia de Ariadne. E pela palavra cantamos nossos sentimentos, suportando a dor e revalorizando a existência. E quando a palavra corta, abre-se o silêncio que grita:

“A última palavra é a palavra do poeta; a última palavra é a que fica.
A última palavra de Hamlet:
O resto é silêncio.
A última palavra de Júlio César:
Até tu, Brutus?
A última palavra de Jesus Cristo:
Meu pai, meu pai, por que me abandonaste?
A última palavra de Goethe:
Mais luz!
A última palavra de Booth, assassino de Lincoln:
Inútil, inútil…
E a última palavra de Prometeu:
Resisto!”

(José Antonio Küller  – Liberdade, Liberdade – http://josekuller.wordpress.com/3-liberdade-liberdade/)

A besta na jaula – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

O ano é 1916.

 Amilcar Neves

O mês: agosto.

 

O dia: a sexta-feira 11.

 

O local: uma sala escurecida, fedendo a cigarro, poeira e tinta, na rua Jeronymo Coelho nº 5. Silenciosa e vazia, os sons e ruídos da cidade, escassos, não conseguem vencer venezianas, vidros, postigos e as gastas cortinas aveludadas, menos ainda as grossas paredes da edificação.

 

Um barulho seco e brusco tira os móveis da modorra noturna. Embaixo, as máquinas silenciaram há muito e o alarido dos moleques vai longe, anunciando as maravilhas espantosas estampadas pelo jornal vespertino. Quase se pode dizer que a cidade honesta se prepara para dormir. Aqui e ali se vão encerrando os serões das famílias, as pessoas a se despedirem respeitosas. Logo o Teatro Álvaro de Carvalho concluirá outra encenação de uma revista musical de vibrante sucesso, escrita por consagrado autor da terra.

 

Nesse silêncio ordeiro de gente devota e virtuosa, de cidade comportada, o barulho embaixo se repete, agora mais seco e impaciente, e a fechadura da porta externa cede sob a pressão, rangendo num guincho agudo que perfura a noite. A Ilha treme um pouquinho, uma luz se acende na casa em frente, uma janela se abre no sobrado e uma dona assoma sonolenta, o roupão descuidado, aberto, deixando à mostra um seio de alabastro que jamais recebeu o calor do sol; coroando-o, um mamilo escuro desponta impudente.

 

Oclândio Ramos faz um sinal para Lindaura Consuelo e lhe dá as costas. Ela, por sua vez, afasta-se do ar frio da noite e, em segundos, a luz do quarto no sobrado está apagada.

 

Para mesas, máquinas de escrever e cinzeiros atulhados de xepas de cigarro na sala do nº 5 da Jeronymo Coelho, porém, a tensão aumenta a tal ponto, com o barulho que vem de baixo, da porta da rua, que nem a poeira suspensa no ar abafado se sente em segurança. Agora são como que passos escalando degrau a degrau. Um vulto surge nebuloso no topo da escada.

 

Dito vulto cruza o local como se conhecesse cada obstáculo como o corpo da amante, mete a mão no trinco da porta de vidro, escancara-a, senta a uma escrivaninha, acende um cigarro, liga um abajur de mesa, da sua mesa, pega uma lauda em branco e alimenta a máquina de escrever. Analisa a folha vazia à sua frente e então datilografa no alto da página, em capitais, as palavras A Besta na Jaula.

 

O vulto é Oclândio Ramos, redator chefe e diretor comercial deO Estado, o “Jornal de maior circulação em Santa Catharina”. Oclândio olha para a mesa vazia da sua secretária, ao lado, e conclui que é melhor assim, “com a Lindaura Consuelo por perto, e sem ninguém na redação, não ia sair matéria alguma”, e ele tinha que trabalhar no furo que iria estremecer a cidade e, em seguida, todo o estado.

 

Oclândio acabara de ver Joaquim Adeodato, recém-chegado à cidade pelo vapor Max, da companhia de navegação de cabotagem do alemão Hoepcke. Mandou fotografar para o jornal o último chefe dos fanáticos no Contestado: descalço, em mangas de camisa, ladeado pelo tenente Cabreira e por um cabo do Regimento.

 

Vai ser o furor do fim de semana!, avaliava Oclândio, a cidade vai falar nisso até o Natal!

 

Entusiasmado, “é isso que o povo quer”, considerou, pôs-se a teclar com fervor quase religioso, numa fúria santificada:

 

“Desde que se soube aqui, por via telegráfica, que havia sido preso, pelo tenente Cabreira, o célebre bandoleiro Joaquim Adeodato, a população está vivamente interessada em conhecer esse homem, sobre quem pesam os mais graves crimes.

 

“Ontem, circulou na cidade a notícia de que o célebre chefe dos fanáticos vinha para esta capital, a bordo do ‘Max’.

 

“A curiosidade pública se acentuou, então, e grande massa popular se avolumou no trapiche Rita Maria, onde atracou o ‘Max’, às 11 horas, esperando ver o indigitado facínora.

 

“Mas, a polícia, previdente, havia partido, em sua lancha, ao encontro do ‘Max’ e, no canal do Estreito, o abordou, recebendo a bordo da ‘Santa Catharina’ o terrível fanático que desembarcou, escoltado, pelo trapiche da Praia de Fora.

 

“Dali Adeodato foi conduzido à cadeia pública, onde está recolhido.

 

“Mesmo assim, pelas ruas por onde transitou a escolta que trazia o indigitado criminoso, foi se reunindo grande número de curiosos que vieram, na retaguarda da escolta, acompanhando Adeodato até a cadeia.

 

“Adeodato será interrogado hoje pelas autoridades.”

 

Oclândio recostou-se satisfeito na cadeira, jogou os olhos sobre o texto fresco, acendeu o oitavo cigarro, pensou com volúpia nos seios brancos de mamilos pretos e atrevidos de Lindaura Consuelo e sorriu de bem com a vida.

 

Sob a mesa, no cesto de lixo, amassado com raiva e picotado em dezenas de fragmentos, jazia o texto de duas colunas da entrevista exclusiva que “esse imbecil do Teotônio Almeida”, correspondente em São Francisco, conseguiu com Adeodato, “o sicário e temível assassino do Contestado”, na cadeia pública da cidade.

 

Começava assim, a matéria: “Nós, que esperávamos ver nesse instante o semblante perverso e hediondo de um bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar a sua filiação entre os degenerados e os desclassificados do crime, vimos, pelo contrário, diante de nós, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física admirável, esbelto, fronte larga, lábios finos, o superior vestido de um buço pouco denso, cabelos negros, olhos de azeviche, pequenos e brilhantes, dentes claros, perfeitos e regulares, ombros largos, estatura mediana, tez acaboclada e rosto levemente alongado”.

 

– Porra! – exclamou Oclândio Ramos no meio da redação vazia. – Por que cargas d’água o bosta desse Teotônio queria fazer de Adeodato um ser humano, caralho?

 

 

 

N.S.Desterro, março de 2013

O TAC. De novo?! – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Os abris não têm sido benevolentes com o Teatro Álvaro de Carvalho, o nosso TAC. Nosso porque é um bem público, um patrimônio da Amilcar Nevessociedade – e uma bela edificação tombada, um dos poucos resquícios arquitetônicos do século XIX que sobraram na Ilha de Santa Catarina. O resto foi abaixo.

 

Em abril de 2007 o TAC estava na linha de tiro para ser privatizado. Não só o Teatro como a Biblioteca Pública do Estado e dois museus, todos administrados pelo governo estadual, que tem a obrigação legal de mantê-los e fazê-los funcionar. Dispunha de pessoal e orçamento para isso, mas o governador achava que a iniciativa privada tudo resolve melhor e mais eficientemente do que a administração pública. Na verdade, desejava fazer caixa com a venda do terreno da Biblioteca e com o repasse do prédio do Teatro.

 

Notável humorista e exímio nomenclador, Luiz Henrique da Silveira iniciava seu segundo mandato em 2007. Quatro anos antes, para o órgão estadual que “cuidaria” da Cultura deu o nome de Secretaria de Organização do Lazer (o lazer, então, andava que era uma esculhambação só), para a qual forjou a criativa sigla SOL, e propôs a extinção da Fundação Catarinense de Cultura. Não conseguiu matar a FCC e, em 2005, mudou o nome da pasta para Secretaria de Cultura, Turismo e Esporte, à qual atribuiu o mesmo SOL como sigla. Tudo a ver. Quando teve a brilhante ideia de suprimir das obrigações estaduais a Biblioteca, o Teatro e os museus (também não conseguiu matá-los, apesar de lutar bravamente cortando-lhes os repasses de verbas e não repondo o pessoal que saía), renomeou o órgão como Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte, uma mudança fundamental refletida já na sigla que lhe conferiu: SOL.

 

A maior piada de LHS foi criar 36 secretarias regionais, idealizadas para abafar ou cooptar lideranças que surgissem em qualquer ponto do Estado, chamando-as “de desenvolvimento”. Outra, recente, foi publicar sexta-feira neste DC o artigo A Capela Sistina, a Torre Eiffel e a Ponta do Coral, onde afirma que a Ilha perderá seu “novo ícone” se continuar opondo-se à construção de um hotel privado, ao estilo Dubai, na Ponta do Coral; esqueceu que o ícone já existe, chama-se Ponte Hercílio Luz e, durante suas duas gestões, ele não a recuperou nem como ponte, nem como monumento. A Ponte só não caiu porque não quis.

 

Agora, neste novo abril, o TAC volta a ser ameaçado. Vazou, e a imprensa local tem publicado, que há um acerto costurado com o SESC para repassar-lhe o Teatro. Gente da SOL e gente da Fecomércio, a federação dos sindicatos patronais dos comerciantes, que administra o SESC, desconversa dizendo que ainda não se chegou aos detalhes operacionais do acordo. Apesar disso, confirma-se que a assinatura do repasse se dará no próximo dia 8 de maio. Onde? No próprio TAC, é claro, de carona em solenidade de lançamento de editais para a Cultura. Era para ser surpresa.

 

Fala-se desde um comodato de 45 anos até algum compartilhamento de pauta durante 100 ou 200 semanas. Pelo uso do bem público, a entidade do Comércio faria reformas necessárias no prédio. Como de hábito, aqui fora ninguém sabe de nada: nem o respeitável público, nem os nobres artistas.

 

Além de se alinhavar essas coisas a portas fechadas, o que é muito feio, o pior é que se ignora a existência de um Plano Estadual de Cultura em gestação (a despeito do governo atual), que deveria orientar esse tipo de iniciativa. Mas seria no mínimo ingenuidade acreditar, aqui, em planos e em Cultura.

GUIMARÃES ROSA – por paulo timm / torres.rs

“Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
PAULO TIMMvivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos e escuros
como o sofrimento dos homens.”

Então, Guimarães é notícia em destaque?

Por quê…?

Aconteceu alguma coisa? Ganhou o Nobel de Literatura Post Mortem? A patrulha descobriu que ele era racista, homofóbico, ou vice-versa?

Nada disso, apenas Guimarães — eterno — e uma resenha ao léu no Blog do Milton Ribeiro, que não resisti a comentar. Daí a cobrança dele por esta aventura que se segue: falar sobre o maior autor moderno do país. Aquele que ultrapassou o modernismo e o regionalismo para entronizá-los na literatura mundial, com a mesma envergadura de “Cem Anos de Solidão”. Talvez mais original, mais ousada. Advirto o editor: – Não sei nada de literatura, a não ser como leitor. Penso comigo: – Devorei a “Biblioteca Lar Feliz” que minha mãe, professora primária em Santa Maria, guardou com tanto zelo, até morrer. E havia outra coleção: “Terremarear”… Como esquecer esses nomes todos? Mas, curiosamente, lá não havia muitos clássicos. Até hoje não li sequer um livro de Shakespeare. Conheço-o, como diria Machado, de vista e de chapéu. Ainda assim, pra mó de me compreenderem saibam que “ Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória.”  No Cícero Barreto e Colégio São Luiz, em Santa Maria, anos 1950/53. E o fiz até cansar, porque era muito fraquinho, não dava pra esportes coletivos, mal brincava na rua. Sempre escutando minha mãe: ” Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim”.

Mas Milton me anima: — Trata-se de depoimentos, fã clube!

Levo medo. “Abriu em mim um susto. Mal haja-me!”  Afinal respondo:  :“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só : o Que-Diga.”

“Parece até que ficou o feliz, que antes não era…”

Pois assim funciona o Guimarães, pra mim:  Como um desencontro de palavras  que escorre em melodia, como a fala de todo mineiro. Outra lógica.

Decididamente, me retombo como água caindo em cachoeira. E me vou, retórico, vaidoso e despido de vergonhas a caminho da crônica, embebido de diadorices .

Grande Sertáo, Veredas foi o melhor romance que li:  Lhe digo, à puridade.- Pois não sim…?”

A primeira vez na juventude e não consegui entender nada. Nem o título. Sertão, pra mim, ficava no Nordeste do país: “Vidas Secas”, “O Cangaceiro”, “O Pagador de Promessa”. Glauber, “Os Retirantes”. Guimarães não é minero?, perguntei ao Fabinho, um de meus gurus, comunista visceral, com quem repartia o verdadeiro “aparelho” na Demétrio Ribeiro, 1094. Meados da década de 60. Aliás, outro cadáver da ditadura. Homenagem. Ele me disse que sim, mas não explicou mais. Tudo é e não é…” Passei décadas sem voltar ao livro. Mas, perto dos 60 anos, fui morar num ermo de Goiás: Olhos d‘Água. Afinal, um homem nessa idade “ carece de aragem de descanso. Solito e Deus. Cuidando de plantar mandioca, cuidar das galinhas e fazer poesia. Cansado de guerra!

“Sofro pena de contar não….Melhor se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandio-brava, que mata?

Lá convivi com muitas gentes oriundas das Gerais, pessoas simples, rudes e sábias. E também com um mineiro, meu senhorio, Betão, de Cordisburgo, cidade de Guimarães, cujo pai havia sido dele colega. Eu lhe ensinei a tomar chimarrão nas madrugadas, ele me devolvia com mineirices.  E susseguinte… sem remediável, ”percebendo a maneira curiosa de toda aquela gente pensar e falar, ocorreu-me voltar ao “Grande Sertáo”. Pois “ponho primazia é na leitura — eu gosto muito de moral — ajudo com meu querer acreditar. De sorte que carece de se escolher. Que no causo, é reler com o jeito, agora, de poder entender. Porque aprendi com aquela gente do Planalto Central, que o excesso de argumentos e a falta de jeito falecem a razão. Que redescoberta! Comecei a entender tudo. Há sertão nas Gerais, um sertão misterioso e encharcado durante as águas, que são abundantes; há uma filosofia popular profunda entre mineiros e goianos (estes, dizem, mineiros fugidos depois de matar alguém…) Hoje, Grande Sertão, é um dos meus livros de cabeceira. Vez por outra roubo-lhe uma expressão. Ou um parágrafo inteiro – aí cito…-. E coisa incrível: Oferecendo-me para ler em grupo com algumas pessoas o livro, aqui em Torres, descobri duas mulheres devotas da obra, uma psicóloga, Angela, a outra professora, Vera. Nem precisou reler o livro com elas. Elas o sabiam melhor do que eu… Coisas deste mundo que ninguém, nem o mais o desinquieto, desentende… “Só um e outro, um em si juntos. O viver em ponto sem parar (consegue). Coração-mente. Pensamento. Avançam parados dentro da luz.

Parece que aqui, mesmo com o mar a tiracolo, com a Serra Geral subindo ao longe, também tem sertão…Pois ele está é dentro da alma de cada um de nós.

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A REPÚBLICA SANGRA – por paulo timm / torres.rs

“Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.” Franz Kafka

Tomo o título de um comentário de M.Aurélio Nogueira, num comentário sobre a atual PAULO TIMMconjuntura , feito no FaceBook.
A tensão entre os Poderes Judiciário e Legislativo não chegou ontem, com a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, de Emenda – PEC – introduzindo restrições do Legislativo sobre o Supremo Tribunal Federal. Ela percorreu todo o processo dito “Mensalão”, chegou à gravidade no final do ano passado, quando o então Presidente da Câmara ofereceu apoio e “refúgio” a deputados eventualmente condenados naquele processo e, agora, chega ao paroxismo com exaltações de todos os lados. Tomara que não chegue às vias de fato, com sopapos e bofetões visíveis no ar, nos noticiários da noite. Isto seria fatal para nossa ainda jovem democracia. Afinal, ela nasceu mesmo com a Constituição de 88. Não chegou sequer `a beleza dos 35, hoje cantada pelo escritor gaúcho F. Carpinejar em bela crônica inspirada na bela Carla Bruni DEPOIS DOS 35 ANOS  “A cantora e ex-primeira dama da França, Carla Bruni, falou em entrevista para a revista Veja algo que acredito muito. Que depois dos 35 anos, a beleza é resultado da simpatia, da elegância, do pensamento, não mais do corpo e dos traços físicos. A beleza se torna um estado de espírito, um brilho nos olhos, o temperamento. A sensualidade vai decorrer mais da sensibilidade do que da aparência. Uma mulher chata pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher burra pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher egoísta pode ser bonita antes dos 35 anos.
Uma mulher deprimida pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher desagradável pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher oportunista pode ser bonita antes dos 35 anos. Uma mulher covarde pode ser bonita antes dos 35. Depois, não mais, depois acabou a facilidade. Depois o que ilumina a pele é se ela é amada ou não, se ela ama ou não, se ela é educada ou não, se ela sabe falar ou não. Depois dos 35 anos, a beleza vem do caráter. Do jeito como os problemas são enfrentados, da alegria de acordar e da leveza ao dormir. Depois dos 35 anos, o sexo é o botox que funciona, a amizade é o creme que tira as rugas, o afeto é o protetor solar que protege o rosto. A beleza passa a ser linguagem, bom humor. A beleza passa a ser inteligência, gentileza. Depois dos 35 anos, só a felicidade rejuvenesce.”
Nossa democracia, enfim, é pouco mais do que uma adolescente e já enfrentou desafios dignos de mulher madura: O impeachment de Collor, em 92, a República de Juiz de Fora, sob o comando de Itamar Franco, a vaidade de FHC, que contrariando muitos entendidos, não chegou a salvar seu Governo, apesar do grande feito do Plano Real, que na verdade, lhe foi anterior, a eleição, posse e governo (como dizia Carlos Lacerda, duvidando de JK, nos idos de 55) de um operário do PT, e a eleição, posse e …difícil governo de uma mulher guerrilheira, e uma problematica Comissão da Verdade. Êta mulher…!!! É verdade que todo o processo de construção da democracia no Brasil foi “devidamente” calculado. Jamais saiu dos eixos. Começou com a “ Lenta, Segura e Gradual distensão do Presidente General Ernesto Geisel , sob o crivo do bruxo Golbery do Couto e Silva. Culminou aquela fase, depois de cinco longos anos, nos quais não faltaram mortos sob tortura, com a Anistia controlada de 1979 e uma rigorosa reorganização partidária que acabou ferindo mortalmente Leonel Brizola. Tiraram-lhe o PTB e obrigaram-nos a começar quase do zero. Pagou caro. Talvez com a Presidência, cargo para o qual, até o final de 80 era o mais viável, dentre os quadros da esquerda. Depois de Geisel, para consolidar a obra, sobreveio um velho e cansado General de Informações, mais afeito às estrebarias do que às praças públicas. Ficou longos seis anos. Nem ele agüentava mais: “Me esqueçam”, foram suas palavras ao sair do Palácio do Planalto. Como isso durou tanto? Onze anos…? Nem eu sei. Só sei que ele – Figueiredo, entrou em 79 , arrastou-se em meio à segunda Crise do Petróleo durante aquele ano e mais os anos 80, 81 e 82 e acabou enfrentando galhardamente a posse de Governadores de Oposição pelo país inteiro. Aí “encarou” os comícios das Diretas Já e, com certo enfado, tratou de sepultar a Emenda Dante de Oliveira que as consagrariam ao final de seu mandato, no dia 25 de abril de 1984. Com direito a colocar o General Newton Cruz, do SNI nas ruas de Brasília dando porrada a torto e a direito nos manifestantes. Então sobreveio, o fator alfa: Maluf que viria complicar um pouco os cálculos do “ancien regime”. Ele comprou o colégio eleitoral da ARENA (Partido do Sim, Senhor General) que deveria manter o esquema por mais vinte anos e abortou a eleição indireta pelo PMDB de Tancredo Neves , cuja posse deveria ocorrer em 1985.
Aí o fatídico : Morre Tancredo e assume Sarney, dissidente do regime militar, sob cujo comando terá continuidade a transição, que deveria culminar na eleição direta para Presidente imediatamente, mas que acabou se arrastando até 1989. Cinco anos de Sarney ( 85-86-87 – 88 -89 ) graças à bondade da Constituinte em lhe dar um ano a mais do que o inicialmente previsto. Bom… Nem vou continuar recontando datas. O que desejo, apenas, é mostrar que nosso processo de transição não foi apenas longo. Foi penoso. E extremamente excludente. Ele conseguiu liquidar ao longo desse tempo as grandes lideranças do passado, consolidando um dos objetivos do Golpe de 64: Romper com o passado. Só não conseguiu romper, logicamente, com as conquistas daquele passado, que se incorporaram como feitos civilizatórios na Sociedade e no Estado brasileiros: a regulação do trabalho e do capital, as grandes estatais que operaram como suporte da industrialização, a vontade do Brasil em se modernizar.
Digo isto para reiterar uma coisa óbvia: Não houve uma ruptura no processo de redemocratização do Brasil. Saímos de uma institucionalidade precária, da Constituição militar de 1967 e ingressa no regime Constituinte de 88 sem muitos traumas. Até a Constituinte de 46 havia sido conseqüência de uma ruptura, com a derrubada de Vargas em 1945, além do grande impacto da vitória aliada na II Guerra. A Constituinte de 87/88 teve imensa participação de movimentos sociais, muitos debates internos e grande efervescência política, mas não foi fruto de uma grande vitória popular anterior. Essa, aliás, a nossa diferença com outros processos de abertura no Continente. E nossa crucial diferença, por exemplo, com a Revolução dos Cravos, em Portugal, que soterrou a ditadura salazarista. Aqui, vivenciamos um processo peculiar quase insólito, tipo das Coréias, em 1953: Chegou-se a um armistício de paz não formal, em que os antigos dirigentes recuaram do Poder, sem admitir qualquer culpa, e os “novos” foram ocupando o terreno, meio sem-cerimônia, açodados até pela perspectiva de ocupada da “máquina governamental”. Rigorosamente, até hoje não existe uma análise clara sobre como acabou a ditadura no Brasil. Ela sumiu, enquanto proscênio. Mas seus gerentes continuaram onde sempre estiveram: No Poder…Eles estão no Estado. Na Grande Imprensa. Nos órgãos de classe patronal. Nas Forças Armadas. E sempre que existe uma possibilidade de ruptura maior, a esquerda, seja ela qual for, recua, porque sabe que não tem como enfrentar as adversidades. A esquerda, no Brasil, ficou “hábil”. Hábil em contornar o “Mercado”, como fez Lula na famosa Proclamação que resultaria na manutenção de Henrique Meirelles no Banco Central. Hábil em recuar diante da questão da democratização da Mídia. Hábil em lidar com Chavez e Cristina Kirchner. Hábil até em promover o Brasil como um oásis de prosperidade num mundo em crise. A esquerda brasileira, entretanto, só não foi hábil em manter sua unidade interna. Preferiu, no Poder, ceder à tentação da governabilidade através do “caro”, aqui no seu pior sentido, conceito de Base Aliada. Com isso, vem despedaçando-se aos poucos, não sem proclamar, sempre, o seu direito à verdade como representante de uma Política Econômica e Social avançada em benefício dos mais pobres. Brizola nunca embarcou de bom grado nesta canoa. Engoliu, indigestamente, o “Sapo Barbudo” no segundo turno de 89 e em 94. Desconfiado, afastou-se, até vir a falecer em 2004. O que sobrou do PDT, nas mãos dos dirigentes atuais, nada tem a ver com Brizola, como o PTB de Jefferson nada tem a ver com Vargas e Goulart. Roberto Freire, herdeiro do PCB, perdeu-se no meio do caminho. Heloísa Helena e Marina caíram fora, junto
com outros grandes nomes do PT. Agora chegou a vez da turma do Arraes, com a defecção do seu neto, Governador de Pernambuco, virtual candidato do PSB à Presidência. Só falta, mesmo, agora, uma grande ruptura, de maior vulto , dentro do próprio PT, tal como já se cogita entre dentes, no sul do país… Todo este processo político de consolidação da democracia no Brasil está em jogo na crise atual entre Legislativo e Judiciário. Tanto um como outro destes Poderes são estruturantes do Estado brasileiro. E reforçam sua natureza. O Judiciário, certamente, é mais conservador e republicano, no sentido da valorização da coisa pública. O Legislativo, mais progressistas e democrático, no sentido de atender à demandas populares. O Judiciário, porém, é mais estável e, consequentemente, mais estabilizador do que o Legislativo. A irritação entre esses dois Poderes, aos quais o Executivo olha de camarote, é , portanto, extremamente perigosa à democracia e deve ser cuidadosamente analisada, pois pode acarretar uma grave crise institucional. Lembro, aqui, a propósito , o famoso discurso de Márcio Moreira Alves, na Câmara, em 1968, preâmbulo do AI-5. Mais além de interesses Partidários em jogo na atual crise – e muito menos pessoais -, creio que se deve sopesar melhor as forças reais que atual sobre a conjuntura de forma a evitar atropelos. O medo não deve jamais ser conselheiro nestas horas, mas a prudência, se sabe, é o olho das virtudes e que, se não garante o melhor, evita também o pior. A quem interessa na verdade, colocar lenha na fogueira da crise entre o Judiciário e o Legislativo? Será à democracia brasileira, mesmo!? Leio, por acaso esta passagem, que me parece singular, de Josias Teófico, sobre arte, Publicado na Revista Continente e noSul21 em 20 de outubro de 2012, para ilustrar o que é o Judiciário , como ícone, e o Legislativo como ídolo: No livro O ícone – Uma escola do olhar, Jean-Yves Leloup faz uma distinção entre ídolo e ícone. O primeiro seria qualquer forma de representação religiosa que prende o olhar em si mesmo, pelas formas, cores ou movimentos que chamam a atenção, provocando emoções. O ícone, ao contrário, não tem movimento nem profundidade, as cores e formas obedecem a padrões tradicionais. Nele, a transcendência é o fator essencial, a intenção é mostrar o “Invisível no visível, Presença na aparência”
Recorro à anotação sobre Arte porque a Política tem mais a ver com ela como praxis do que com as ditas Ciências, embora guiada remotamente pelo logos. A esquerda, entretanto, não raramente inverte esta equação. Para os velhos comunistas, a razão histórica da proclamação do socialismo como etapa superior do capitalismo estará , sempre, na vanguarda de sua práxis. O imperativo democrático, no sentido das aspirações populares, é sempre mais importante do que as instituições. Daí seu desprezo, embora sempre oportunamente aproveitados, pelas instituições republicanas, dentre as quais o Judiciário é das mais sólidas.
Todo cuidado, nesta hora, é, portanto pouco… As simplificações abundam na ordem do senso comum com ares de senso crítico, atropelando o bom senso…

Paulo Timm é economista da UNB.

1964 – “O ano que nunca acaba…” – por paulo timm / torres.rs

11 de abril

 

1964 – “O ano que nunca acaba…”

 

O título não é meu. É do meu amigo escritor A. Brandão  Brandão, que diz que não agüenta mais tanta falação sobre o fatídico 1964. Mas não resisto. Volto ao assunto. Sorry Brandão…

A verdade é que o 1964 não vai acabar nunca. Sempre haverá o que dizer. Contra ou favor, estes em número cada vez menor. Já foram os PAULO TIMMmais, outrora. Hoje se resumem a alguns  saudosistas da caserna e um ou outro radical de direita. E por que volto ao tema? Porque há uma tendência em se concentrar a crítica  ao Golpe apenas nos militares e, com isso, safam-se todos as suas “vivandeiras” e defensores oblíquos.

Nesta data, 11 de abril, por exemplo, em meio à prisões, ameaças, algumas mortes e pressões de todo tipo, no ano de 1964, o Congresso Nacional referendava, através do voto, o nome do General Castelo Branco , chefe do golpe, como   Presidente da República,  cargo declarado vago com o exílio de João Goulart. Insólito. Inacreditável. Ele deveria “completar”o mandato da Presidência, declara vaga. O golpe se institucionalizava, já naquela época, de forma semelhante ao que aconteceu no ano passado com o Presidente Lugo, no Paraguai.  Mas como…?

Muito simples: Primeiro, porque o país estava dividido, não entre comunistas, aliados de Jango, como pretendiam os golpistas, e não comunistas, eles próprios, mas entre uma parte significativa  da sociedade brasileira, que apoiava o Programa de Reformas de Base, em curso no país, sob o comando do Presidente da República, e uma parte que reagia às mudanças democraticamente encaminhadas, os “reacionários”.  O Congresso Nacional refletia esta divisão. Uma parte, liderada pelo antigo PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO – PTB – , ao qual pertencia o Presidente, o apoiava;  outra, com epicentro na UNIÁO DEMOCRÁTICA NACIONAL o combatia ferozmente. Era um tempo de grandes mudanças na sociedade brasileira e de intensos debates e mobilizações populares, envolvendo sindicatos de trabalhadores, camponeses, estudantes, intelectuais e até militares. O país se urbanizava rapidamente, a população crescia, as demandas explodiam. No fundo, tratava-se do coroamento de um processo de incorporação de massas populares à economia e à política que vinha se intensificando desde o final da II Grande Guerra, em 1945, ao qual um Governo de esquerda moderada, de corto social-democrata, liderado por Jango, procurava responder positivamente, olhando para o futuro. No dia 13 de março, o Presidente, à frente da Central do Brasil, no Rio de Janeiro,  havia anunciado uma ampla  reforma agrária. Foi a gota d ‘água para os setores conservadores. Já articulados aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, lançaram-se ao golpe, com amplo apoio da Igreja Católica, da grande mídia, dos líderes de direita, como Carlos Lacerda, Governador do Rio,  Magalhães Pinto,  Governador de Minas, ambos da UDN, de Ildo Meneghetti, no Rio Grande do Sul  e Ademar de Barros, do PSP, ideologicamente ambíguo , grandes empresários e setores expressivos da classe média. Não fora, aliás, o apoio nestes Governadores  de Estados grandes e fortes, o golpe dificilmente teria tido sucesso.  Quando o Governo caiu sob o Golpe, líderes do então PSD ,  um Partido que iria dar a base e os contornos do futuro MDB/PMDB , como Juscelino, Tancredo , Ulysses Guimarães e muitos outros, mesmo aninhados na “Base Aliada” do Governo, o abandonaram imediatamente. Aderiram ao golpe. E , com ampla base parlamentar no Congresso, deram seus valiosos votos em apoio à sufragação do General Presidente. Isto foi trágico, porque “legitimou”pelo Congresso a violência das armas. E permitiu aos militares , mediante artifícios legais,  permancerem no poder por 21 anos.

Têm razão, pois, os militares, quando dizem que não atuaram sozinho.

Realmente, eles foram a ponta de lança de um complô conservador que tinha seu epicentro nos interesses americanos no continente e que se armara no Brasil com o apoio financeiro e político a diversas entidades que operavam livremente no país angariando adeptos e apoios.

Tampouco foram todos os militares , os que se envolveram no golpe. Pelo contrário, havia no Exército Brasileiro uma ampla tradição de debates e de presença da instituição em torno de grande projetos como a siderurgia, petróleo e até mesmo a construção de Brasilia no Planalto Central. E foi precisamente por causa da divisão interna das forças armadas quanto à conjuntura nacional que a repressão  se deu primeiro dentro delas, levando ao afastamento , às vezes à liquidação, dos oficiais democratas. Dessa forma, seria possível engolfar o conjunto delas numa ideologia de segurança nacional que acabaria levando aos anos de chumbo, depois do 13 de dezembro de 1968, quando os órgãos da inteligência passaram a controlar a vida nacional. Lamentavelmente, esta lavagem cerebral , apesar de quase três décadas da redemocratização, ainda persiste nos  quartéis.  E o centro dos ataques da esquerda às forças armadas, como responsáveis exclusivas pelo Golpe, sem a explicitação dos grandes interesses que lhe sustentavam, só faz acirrar a animosidade. Tempo, pois, de pensar esta data de 11 de abril, como tão ou mais importante do que a do 31 de março, pois ela reflete , com mais nitidez, o que ocorreu realmente no país naquele ano de 1964.

 

Aos que não creem: para procurar inverdades – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Trata-se de um documentário. Um documentário repleto de despachos, Amilcar Nevestelegramas, cartas, informes, relatórios, avaliações e sugestões. E mais: pleno de gravações, fotografias e filmagens. São conversas, encontros, reuniões, confabulações e conspirações expostas às claras.

 

E se, de repente, uma potência estrangeira decidisse invadir o Brasil e tomar militarmente o País, de que lado ficaríamos?

 

E, para piorar, se essa decisão de invadir o Brasil, de nos submeter pelas armas, não tivesse nenhuma motivação nobre, como a defesa da democracia, das liberdades, dos direitos humanos ou de princípios filosóficos, mas apenas a proteção dos interesses comerciais e econômicos do invasor, como nos veríamos e nos portaríamos frente a isso?

 

E se nem ao menos fossem levantadas vagas e difusas questões religiosas (a religião tantas vezes usada como pretexto para as guerras levadas a cabo sempre de olho nos negócios e nos lucros) para tentar justificar a invasão do Brasil por uma potência estrangeira, invasão que só visasse os objetivos do comércio exterior do invasor, o que faríamos então e, especialmente, o que diríamos, na hora e depois, aos nossos amigos, aos nossos filhos e aos nossos netos?

 

E se, para atingir a meta planejada – a invasão militar do Brasil por uma grande potência com fins escusos e rasteiros, ou seja, por dinheiro -, fosse empregada uma quantidade enorme desse mesmo dinheiro para mentir, subornar, forjar, enganar, iludir e tapear a opinião pública, qual seria o nosso grau de revolta com uma situação dessas?

 

E, além disso tudo, qual seria a nossa taxa de indignação e de repúdio com relação aos brasileiros que apoiassem essa invasão militar do Brasil para atender aos interesses econômicos da potência invasora, tenha esse apoio sido dado por ingenuidade ou, conhecendo os bastidores da ação, por interesses políticos, financeiros e de assalto ao poder?

 

Alguns daqueles poucos que chegaram até aqui podem estar se dizendo que só acreditam em evidências não contaminadas por ideologias. Com isso, estarão a dizer que só creem naquilo que provier dos Estados Unidos, única nação insuspeita do mundo. Que ótimo.

 

E se tal documentário estiver recheado de papéis, fotos, gravações e imagens, até há pouco classificados como top secret, liberados pelos Estados Unidos, e for conduzido por três pesquisadores, a saber, Peter Kornbluh, Coordenador dos Arquivos da Segurança Nacional dos EUA, James Green, Historiador da Brown University, dos EUA, e Carlos Fico, Professor de Teoria e Metodologia da História na UFRJ?

 

O plano dessa invasão existiu e, em março de 1964, uma formação da Marinha de Guerra estadunidense deslocou-se para fundear em frente ao porto de Santos. Só não deu um único tiro porque, cá dentro, não se deu um único tiro para reagir ao golpe de Estado planejado pelos EUA, com surpreendente participação do embaixador Lincoln Gordon na defesa dos interesses comerciais das empresas do seu país. Só se começou a dar tiros contra o golpe muito tarde, depois do AI-5, de 1968, quando os tiranos se fizeram ainda mais sanguinários.

 

O documentário, de título O Dia que Durou 21 Anos (está hoje num cinema e não pode ser perdido!), é uma vigorosa aula de História que deveria ser levada a todas as escolas do Brasil. Só poderá falar de 1964 e de ditadura (ditabranda, no deboche de alguns) quem assistir a esse filme que, pela origem insuspeita da sua matéria-prima, está isento de conotações ideológicas.

E DEUS CRIOU PORTO ALEGRE – por paulo timm / torres.rs

   Paulo Timm – 2010 (Da Série Prévidi
E assim foi: Longos anos, décadas, longe do sul e então o retorno.

ChegueI piá em Porto Alegre, em pleno inverno de 1955. Mas não reclamei do frio. Santa Maria era muito pior. E me aquerenciei no perímetro do bonde “Duque”, morando logo abaixo do Alto da Bronze. Ali me ambientei, numa rara ecologia humana que ia do cais do Porto à Pantaleão, numa orla carregada de álcool, prostituição e até uma Casa de Detenção, subindo gradativamente a Vasco Alves, para se recuperar social e moralmente, ao longo de toda a Duque de Caxias, até o Viaduto Borges de Medeiros. Um período maravilhoso, em meio PAULO TIMMaos “Anos Dourados”, em cujas férias eu me atirava na velha “Maria Fumaça”  para reviver  minha antiga morada. E assim passaram anos e anos,  nos quais me reencontrava com os primos e primas na casa grande de minha amada avó, Romilda, transformada em Clube da meninada. Quando me dei conta, tinha passado pelo Colégio das Dores, pelo “Julinho”, pela antiga Escola de Cadetes da Redenção. Era um porto-alegrense.  E já era homem. Ou, pelo menos, pensava que era..

Era 1966. Estava na Faculdade de Filosofia, em pé, junto ao umbral que separava o salão de entrada do Bar interno,  ao lado do Flavio Koutzii, do Clovis Paim Grivot, do André Foster, da Mercedes (então) Loguercio iniciando-me nas teias  da subversão, para horror de uma família conservadora estrelada  de militares de alta patente. Durou pouco: o tempo de me formar e , cagado de medo  pelos rumos que a velha dissidência estudantil comunista ia tomando, rumar para o Chile.  Paulo Renato Souza, colega de Faculdade, na Economia, me esperava e me daria, generosamente, o seu emprego como “ayudante” do José Serra (esse mesmo!!!) na Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais – FLACSO. Começava o ano mais terrível da ditadura:1970.

Muitos anos depois vim a saber-me, pela crônica de Sergius Gonzaga, hoje Secretário de Cultura, sobre a década de 60 ,em Porto Alegre, que eu fora um guru do marxismo-leninismo na cidade, já àquela época contaminado pelo vírus do “ Discreto Charme da Burguesia”, na inclinação  por carros esporte, roupas finas, vinho e charutos da melhor qualidade e queda irresistível por mulheres bonitas e amantes castelhanas…Mas esquerda, como toda a geração daquela época.

Esta Porto Alegre, por quatro décadas, ficou nos meus sonhos e devaneios.Do Chile fui para Brasília e lá fiquei 35 anos.  Certa feita, um amigo, Heitor Silveira, já falecido, de quem me aproximara na Planisul de todas as cores e malucos, também em Brasilia, retornara, em caráter definitivo, e me esnobava: “Aqui eu não ando, eu flutuo…”  Eu morria de inveja. Era o suficiente para eu conseguir umas férias matrimoniais, com ou sem permissão do empregador, e mergulhar dias sem fim naquela que  sempre foi a minha cidade. E sofregamente tomava alguma aventuras amorosas como quem  se agarra ,não ao passado,mas à própria cidade. Sentia-me, então , embriagado de estranha felicidade naqueles dias em Porto Alegre.

Agora estou aqui ao lado, em Torres. Já nada me impede de estar “em  casa”. Digo  ao filho e família que temo o excesso de frio e chuva. Outras vezes, digo que já não suporto a cidade grande, cujas vias  nem reconheço e novos bairros nem sei chegar. Vezes há , ainda, que a cidade não é segura. Tudo mentira. Guardo as vindas a Porto Alegre como uma primícia, de sabor sensual e convidativo. Como quem freqüenta furtivamente a  proibição. Quem inventou a saudade, me disse uma vez uma amiga, não conhecia a distância. Nunca saberei , ao certo, se a máxima era ou não dela. Mas valeu…Saboreio a pequena distância que me separa de Porto Alegre com  uma pitada de saudade.

Aí escolho o Hotel. Tem que ser no Centro, no meu velho perímetro do “Duque”, onde me sinto em casa. E, quase sempre, procuro as pegadas do Mário Quintana, em busca de inspiração poética. Já não há o Majestic, onde ele morava,  que me foi tão misterioso na juventude, pelos arcos, arcadas, sacadas que contemplava , lá de baixo. Hoje pego o elevador no Centro Cultural Mario Quintana , vou àquelas sacadonas  e  me sinto senhor  de um tempo que se foi. Não importa. Disseram-me que o Falcão levou meu ídolo para o Hotel Royal, na descida do Sevigné, então lá eu fico.

Chego em Porto Alegre , quase sempre, à noite. E aí redescubro o prazer de ouvir Lupicínio pelo seu filho, a gratidão de me sentir perto do Uruguai, através de uma parrillada, de andar pela boemia da Cidade Baixa como quem anda no Quartier Latin. Já não vejo os velhos amigos. Muito raro. Acho que nos evitamos  sem querer, querendo. Mas encontro novos e nos regozijamos com os mesmos profundos papos que nos anos 60 povoavam nossas tertúlias quando saíamos do Festival de Cinema Tcheco, na Praça da Alfândega, para discutir, sob inspiração do último artigo do Pilla Vares,  a diferença entre consciência e ódio de classe, como critério de discernimento da ação revolucionária.

Pela manhã uma longa caminhada ao longo dos  imaginários trilhos do “Duque”. Atavismo. Reapropriação do tempo e do espaço. Casas, casarões, a escadaria da Fernando Machado relembrando a ampla vista que se tinha do Guaíba, o cumprimento aos lugares vividos numa espécie de oração matinal , um velho, como eu, irreconhecível,  por trás de uma janela. Naquele tempo banhávamos no gasômetro. E entrávamos e saíamos do Porto como queríamos. Eu sempre com um SPICA debaixo do braço para vender no  Colégio e fazer uma graninha. Na primeira vez que subi no convés de um navio fiquei impressionado com a altura até a superfície da água. Desci correndo.

São oito e meia da manhã e já percorri minha juventude, com uma passagem pela Redenção para reviver os ideais soterrados pela barbárie stalinista.  Estou na frente do Mercado  com os sentimentos à flor da pele. Ali entrei , pela primeira vez, muito menino. Para provar o morango com chantili na Banca 40, que desconhecia. E mordiscar uns camarões ultra-salgados expostos na banca ao lado. Fascinado. Entro solenemente, como se fora numa feira  medieval.

Primeiro uma parada na Banca de Revistas e Livros usados. Salta aos olhos um exemplar de Cícero, sobre Obrigações Civis. Cícero a essa hora? Nada melhor. Procurar um lugar para sentir o momento mágico e folhear o opúsculo alentador. Aí o Café do Mercado, um balcão simples , com mesas altas e bancos suspensos defronte.  Mas, lá dentro, o segredo do café cremoso apojado de tetas sibilantes numa variedade rara no resto da cidade. –Tem café Jacu, pergunto hesitante?  – Sim , senhor! Um expresso?  – Pois sim!  E me sento num dos  bancos para folhear  o capítulo sobre o “Decoro”, ao sabor do melhor – e mais caro café – do mercado brasileiro. Cagado por uma ave, o jacu, e retirado depois de secas as fezes…(!) Degusto o café sem pressa. Nem olhares curiosos. No passal das gentes a única preocupação é o dia que vem pela frente. Fico eu, apenas, com o prazer. O prazer de estar no Mercado de Porto Alegre. E deixar escoar o tempo… Certo de que, na saída, levarei para Torres um belo pedaço de charque de ovelha para um carreteiro.

Deixo o Mercado, retorno à Rua da Praia e rumo para a Jerônimo Coelho. Fazer barba e cabelo num daqueles  machadianos salões que prometem funcionar dia e noite! Escutar o falar acalorado de adversários ferrenhos sobre as virtudes dos novos jogadores do Grêmio e do Internacional.  “ Sou do Força e Luz”, digo. Não entendem bem. “Depois torci pelo Cruzeiro, pelo qual joguei no time de basquete”. Eles me olham desconfiados, de cima pra baixo, e eu, do meu 1.60m completo: “ No infantil…”

Aí resolvo subir a ladeira, ver uns sebos, e me reconheço uma vez mais no céu. Acho dois livros que já havia perdido numa das inúmeras mudanças e lá me vou para o reencontro com “A Razão Cativa “ e “Razões do Iluminismo”, de um dos maiores filósofos brasileiros, marcado para morrer por ter sido Ministro da Cultura do Collor: Sergio Paulo Rouanet. E nem se dão conta que Collor , foi , depois de Jango, o único Presidente a ter Ministros irretorquíveis. Várias livrarias, o mesmo encanto. Então, carregado, me sento num pequeno restaurante da Riachuelo, à hora do almoço, para um copo de vinho. E me convenço de que “Deus criou Porto Alegre”, como diz o Prévidi.

E tenho um dia inteiro e um domingo,  ainda, pela  frente. Mas não vou contar mais nada  hoje. Fica para outro dia…

Costumes nacionais – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Costumes nacionais

 

Apenas para registro, antes que me esqueça: o título que o Autor efetivamente deu à crônica de quarta-feira, 30 de janeiro, foi Como dinheiro perdido no bolso de um casaco, e não Com o dinheiro, etc. Mas vamos ao que interessa.

 

Na semana passada, uma onda de indignação, digamos assim (à falta de melhor classificação), varreu este País de Sul Amilcar Nevesa Norte, de Oeste a Este, por conta da candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado. Ficha limpa no Congresso!, era a tônica da campanha. Cada um de nós recebeu pelo menos oito mensagens eletrônicas de repúdio à situação que se punha, com o pedido de subscrição e repasse do protesto ao maior número possível de concidadãos.

 

E qual foi a consequência de tamanha movimentação? Aliás, uma movimentação que não requer das pessoas que se mexam, sequer que levantem seu nobre assento da cadeira em que o instalaram, bastando-lhes apertar um ou outro botão do seu computador, um ou outro ponto da tela do seu celular ultrainteligente. Assim, todos nós pudemos participar de mais um fantástico espasmo da cidadania enquanto aguardamos sequiosos o próximo escândalo que, se Deus quiser, não há de tardar.

 

Sim, mas… e a consequência da mobilização? A de sempre: nada. Nada mudou. Conforme longamente gestado, Renan foi eleito presidente da Casa e, semana que vem, já teremos esquecido quanto nos indignamos com tão profunda sinceridade enquanto ele permanecerá no comando, chefe de um dos três poderes da Nação, por dois longos e recheados anos de, cada um, doze meses inteiros (serão, pois, 24 salários assim usufruídos, fora o resto das vantagens – e resto, aqui, é mera figura de retórica, já que elas se sobrepõem milhares de vezes ao principal; o resto, na verdade, o troco, a esmola é o salário).

 

Todo mundo sabia há muito que Renan seria o presidente, mas, ocupados com a vida, só o percebemos nos derradeiros dias – quando saímos a campo; todo mundo sabe há muito que não é isto que o fará arredar pé da cadeira que enfeixa tantos e tão sedutores poderes, e que ele a ocupará a despeito da nossa cara feia: ele sabe que nós, como povo em geral, o elegemos ou, ao menos, elegemos os que o elegeram.

 

Se Alagoas até mereceria ser expulsa da Federação por votar e revotar em Renan e Collor, poluindo nosso conceito de ética e de higiene dos fichários, nós reelegemos políticos que votam neles para cargos no Congresso. Ainda que refutemos em nome pessoal que eu não, eu não votei nesses caras, o meu candidato, ético, limpo, decente, até honesto!, foi derrotado, isso não exclui nossa responsabilidade de povo que elege essa gente.

 

Daqui a pouco teremos nova jornalista (não mais a Mônica Veloso, já velha demais para isso, manjadíssima), ou outra profissional qualquer, a meter-se na vida de Renan e, depois, nas páginas daPlayboy – não para relatar, indignada, o que viu e soube, mas para mostrar os bens, pagos por empreiteiras ou por desvios de verbas públicas, de que o senador desfrutou, se é que, nas condições dele, desfrutar ainda seja o verbo. Talvez melhor será dizê-lo bens que o alagoano viu e apalpou, embora mais certo mesmo pode ser que seja o que apregoa um amigo:

 

– Comer? Que nada! Aquilo quer é participar: diz que estivemos juntos, eu assumo contrariado e tu me passas 45% do que a Playboy te pagar, cash pra mim.

 

Nossa culpa é não brigar o tempo todo para que o voto seja consciente, ou seja, não brigar o tempo todo por uma educação decente e uma formação cultural que nos honre e eleve.

MENINO COM CARRINHO – por jorge lescano / são paulo.sp

M E N I N O   C O M  C A R R I N H O

Na rua dom José de Barros, no centro de São Paulo, não trafegam veículos, é intensamente ocupada por pedestres durante todo o dia. Ela é povoada de lojas, barracas, quiosques e quaisquer outras locações que permitam a exposição e venda de produtos. Estes também são os mais diversos, Há utilidades domésticas e adereços de mágica, aparelhos eletrônicos e comida feita na hora.

No horário do almoço é quando a rua ganha um ritmo frenético. Os edifícios de escritórios jorram na rua multidão de funcionários ávidos de comida e de liberdade entre dois períodos de escravidão. O sol de verão desértico ameaça fritar os passeantes desprevenidos.

Nesta hora é que de forma insólita aparece a figurinha deslocada do contexto citadino: um garoto negro de aproximadamente três anos, sozinho, anda tranquilamente, ignorando a multidão apressada. Numa das mãos um barbante, no extremo deste, um carrinho de madeira. Concentrado em sua atividade, segue reto um itinerário que só ele conhece.

A figura chama a atenção dos pedestres que olham, procuram algum adulto próximo dela, fazem comentários inaudíveis e seguem seu caminho, coincidente ou oposto ao do garoto. O velho para e contempla a cena como se fosse um espetáculo maravilhoso. Com certeza lhe chama a atenção o fato dessa cena tão familiar e corriqueira numa rua da periferia, estar se dando em pleno centro da cidade mais populosa da América do Sul.

Lembra-se de seu filho, há muito tempo, enfileirando carrinhos numa ladeira criada por uma tábua e uma caixa de sapatos e lhe dando instruções de como se comportar quando você quer brincar de carrinhos.

O velho também está intrigado pela ausência de um acompanhante da criança. Enquanto isso o garoto segue em frente, fiel ao destino do seu veículo, condutor consciente, deve levá-lo sem percalços até o lugar designado por alguma autoridade invisível. Portanto, vez por outra para e observa o carrinho para se certificar de que tudo está em ordem. Feito isto, continua com a calma própria que só dá a consciência de estar fazendo sua tarefa corretamente. O silêncio do menino cria um vácuo na sordidez escandalosa do meio-dia paulistano.

Finalmente o velho percebe na entrada de uma pequena loja uma mulher magra parada, observando o menino. Com certeza é a mãe dele. Só esta relação pode explicar a paciência com que aguarda o andar parcimonioso do pequeno condutor. Ele a olha como se estivesse comprovando a existência de sinais de trânsito no seu caminho. Não muda de rumo nem aumenta a velocidade. O velho observa o menino. Não quer ver nenhum gesto de impaciência de quem quer que seja. Quer guardar na memória a atitude digna e responsável deste garoto que em silêncio dirige seu veículo pelos recantos do seu país mágico, indiferente à turbamulta da cidade.

Desconectado – por amilcar neves / ilhe de santa catarina.sc

Desconectado

 

Confesso-vos, com um orgulho que não consigo bem dissimular, que desde sexta-feira ando desligado do mundo. Quero dizer, desde sexta, quando enfrentei com o Tibi Laus uma maratona das 14 às 2
Amilcar Nevesmanhã, mal parando para um lanche à noite, em respeito ao dinheiro público vindo de um contrato temporário assinado com o Ministério da Cultura, até esta segunda de Carnaval, oportunidade em que vos escrevo esta crônica de Cinzas.

 

Desliguei-me para poder escrever, ou para tentar escrever uma novela, tarefa que não se mostra (que nunca se mostrou) nada fácil. Não, a dificuldade anotada aí atrás não se trata das dores e dos bloqueios inerentes ao ato de escrever, a dificuldade é desligar mesmo. Imbuído dessa determinação há precisamente uma semana, quando, no dia 4, dei início ao texto, isso não me impediu de ver-me forçado a passar uma tarde inteira em profícua e agradável conversa no bairro da Barra do Aririú, na Palhoça, e a noite do mesmo dia entre pizzas e novas conversas igualmente instrutivas na Pedra Branca, da mesma Palhoça. Ou seja: o difícil não é escrever, mas arranjar o tempo e o necessário retiro para tanto, especialmente quando se projeta uma obra de fôlego apenas um pouquinho maior do que a crônica ou o conto, como a novela.

 

E antes que dois ou três me perguntem, como sempre fazem, se é na Globo e em qual horário vai passar, quero deixar solenemente claro que novela é um gênero literário, enquanto a telenovela é coisa completamente diferente e não tem nada a ver com literatura. Não estamos aqui falando de dinheiro, embora minha intenção mais secreta seja dar à luz o meu primeiro best seller, vocês verão (nem que seja no verão europeu, digamos assim).

 

Quando vos digo que me desliguei do mundo vos digo que não acessei internet, não liguei televisão, não ouvi rádio, não fui à Ressacada (mesmo porque o Avaí não joga neste imenso feriadão), não telefonei nem fui telefonado, não teclei um enter que fosse no celular (que, aliás, ridiculamente ultrapassado que é, de avançado apenas recebe e envia mensagens de texto – e nem isso com ele eu fiz -, não tem nada disso de entrar em redes sociais e páginas eletrônicas). Pra vos ser bem sincero, embora correndo o risco enorme de passar por descarado mentiroso, sequer liguei meu computador, sequer na sua função mais prosaica de máquina de escrever, posto que tudo que escrevi escrevi à mão, letra por letra desenhada no papel, consumindo na tarefa três canetas importadas de ponta em esfera metálica e tinta líquida ou gelatinosa.

 

No entanto, saí para a minha caminhada habitual nesta segunda de manhã, coisa que não fazia desde quarta a fim de deixar um pouquinho mais de tempo para a novela, e fui abordado apenas por um ciclista com cara de universitário que disse desconhecer o lugar e queria saber como chegar na Penitenciária. Ignoro se levaria na mochila às costas algum sortimento de celulares, baterias e carregadores, artefatos tão úteis para mandar tocar fogo em ônibus e carros estacionados na sede do governo estadual.

 

Ao chegar, a Vitória me aborda:

 

– O Papa, soubeste?

 

– Não, não soube nada. Morreu, é isso? De qualquer forma, ele foi eleito para durar dois ou três anos e passou muito do prazo.

 

– Não, vai renunciar. No dia 28.

 

– Meu Deus! – exclamei. – E se calha de ele morrer dia 27, como fica a situação?

 

De qualquer forma, mesmo desconectado parece-me que sou talvez o primeiro cronista semanal a registrar a renúncia papal. O mundo, definitivamente, não nos deixa em paz.

O sorriso de Mona Lisa – por jorge lescano / são paulo.sp

© Lescano

 

Mona Lisa deixou de ser apenas o quadro mais famoso do mundo para ser tema de escritos e pesquisas as mais disparatadas.

Na década de 1970 um médico japonês, utilizando os mais recentes recursos tecnológicos detectou na esclerótica do olho esquerdo da matrona – talvez fosse nos dois olhos – uma tonalidade esverdeada que denunciaria alguma afecção biliar. Concluía com seriedade científica: Algo muito perigoso numa mulher de sua idade.

Além de não se ter certeza se a obra retrata alguém – alguns a consideram uma espécie de equação matemática – o quadro foi pintado entre 1503-1506, uns 470 anos antes de este arguto médico ter nascido.

O interessante é que por um dia – e nisto refutava Andy Warhol – sua descoberta circulou por todo o mundo.

 

Já no início do século XXI, ou seja, 500 anos depois da feitura do quadro, dois pesquisadores italianos “descobriram” onde se localiza a paisagem que aparece no fundo da obra. O nome do lugar já esqueci. Grande erro de minha parte!

 

Em 2012 veio à luz outra Mona Lisa pintada por Leonardo. Qual é a réplica? Parece que os mistérios se acumulam à medida que vão sendo desvendados. Paradoxos das grandes obras.

 

Há também duas Mona Lisa “de Duchamp”. São reproduções em ofsete adquiridas em papelarias, uma delas mostra a matrona italiana com bigode, a outra, barbeada, isto é, como saiu da gráfica.

 

Nos últimos séculos por várias vezes o quadro ocupou as páginas policiais, fosse por agressões ou roubo, mas como boa filha adotiva sempre voltou ao Museu do Louvre, sua residência oficial, virgo intacta.

 

O romancista francês Pierre La Mure, que cultivava o subgênero histórico, publicou nos Estados Unidos, em 1975, A vida Privada de Mona Lisa, no qual a personagem título não é a mais interessante. Pessoalmente prefiro seu retrato do fanático monge dominicano Girolamo Savonarola:

Savonarola era realmente feio e fraco do peito, com uma testa baixa e um nariz enorme, curvado, que mergulhava sobre lábios grossos e úmidos. Sua feiúra era espantosa, inesquecível, e se tornava ainda mais impressionante por causa dos olhos brilhantes, profundamente recuados, que podiam ser os de um louco ou de um santo.

A descrição sugere um personagem dos Caprichos de Goya, se não um de Arcimboldo, ou mesmo uma das figuras grotescas dos cadernos de esboços do próprio Leonardo.

 

Em 1961 o pintor colombiano Fernando Botero vendeu ao Museu de Arte Contemporânea de Nova Iorque sua obra Mona Lisa aos doze anos. Na época o mundo não vivia ainda a psicose da obesidade – quem escreve isto segue todas as dicas de alimentação, usos e costumes errados porque teoricamente engordam, e não consegue aumentar 100 gr. à sua esquálida figura de cavaleiro sedentário. A pintura de Botero foi vista com condescendência bem humorada e em conseqüência deu ao artista excessiva fama internacional. Dentre suas figuras infláveis, a mais conhecida é a caricatura da obra de Leonardo da Vinci.

 

Alguém batizou o quadro de La Gioconda – a sorridente, em italiano – e aditou ao sorriso o epíteto de misterioso. Os séculos não passam em vão. Quem se atreveria, hoje, a negar-lhe tal qualidade?

Circulam diversas versões sobre o significado do sorriso de Mona Lisa – se pressupõe que o sorriso não signifique apenas sorriso.  Especula-se que o artista teria contratado bufões para entreter a modelo e lhe fixar os músculos faciais na posição exibida no quadro. Também se diz que a ela faltariam alguns dentes.

Em 2006, cientistas canadenses utilizaram alta tecnologia para descobrir que a modelo vestia roupas usadas unicamente por mães renascentistas e italianas. Segundo estes pesquisadores o mistério do sorriso se deve à gravidez de Lisa Gherardini, esposa de um abastado comerciante de Florença e provável modelo do quadro. Se ela não estava prenhe, diz a pesquisa, teria acabado de dar a luz o seu segundo filho. Neste caso a obra poderia ter sido encomendada para comemorar a efeméride familiar.

A Comunidade Internacional, com sua autoridade imanente, opina que nem a família Gherardini nem o próprio Leonardo podem ser responsabilizados pelo estardalhaço do retrato nos séculos seguintes. Não cabe a eles o mérito nem a culpa, conclui o relatório sobre o assunto.

Os Teóricos dos Astronautas do Passado suspeitam que o sorriso de la gioconda oculte sorrateiramente conhecimentos interplanetários confiados em sigilo ao pintor. Isto explicaria o ricto levemente irônico da matrona.

Talvez Mona Lisa, premonitoriamente, sorria da ingenuidade das massas que se aglomeram na sua frente em postura ritual de contemplação devota, alheias ao fato de estarem cumprindo um ato regido pela alma do negócio. De qualquer modo ela faz tanto sucesso quanto Madonna.

 

Na última exposição de Mona Lisa nos Estados Unidos, o número de visitantes foi extremamente alto. Alguém dividiu este número pelo tempo de exibição. O resultado é alarmante: cada espectador ficou diante do quadro – separado por um cordão de isolamento a mais de um metro de distância, com a obra protegida por um vidro a prova de balas que, previsivelmente, devia refletir as luzes da sala – entre seis e sete segundos. Cabe a pergunta:

— O quê foi que viram estas pessoas?

 

De Washington, DC, recebo este e-mail de um leitor:

hehe, exatamente isso… eu tive oportunidade de ir até o Louvre, e na sala da Mona Lisa tinha tanto, mas tanto coreano louco tirando fotos que eu resolvi ir comer uma baguete…

Um abraço, Manuel.   

 

Não quero finalizar a minha crônica – almejo que ela tenha divertido o meu leitor sequer secretamente, como a Mona Lisa se diverte – sem aportar ao tema o meu modesto descobrimento: O sorrir, como todas as coisas do universo, é tudo aquilo que não é outra coisa.

Ostravacância – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Tio Otácio mora em São Ludgero desde que se entende por gente. As primeiras luzes do saber, como aprecia dizer, adquiriu-as no famoso Seminário da cidade. Aliás, o primeiro seminário do Estado. O Amilcar Nevesque ninguém sabe ao certo é até onde ele foi nos seus estudos teológicos nem até que ponto chegou na carreira eclesiástica, se é que a tenha iniciado algum dia. À força de tanta leitura saborosa servida pela vasta biblioteca do Seminário, veio a tornar-se um intelectual, ou seja, alguém que procura pensar pela própria cabeça. Era inevitável. Tio Otácio adora ler, a ponto de sentir-se mal, muito mal mesmo, quando passa um dia inteiro sem ler ao menos dez ou doze páginas de algum livro. Mas de livros que valham a pena, faz questão de completar. Tio Otácio também adora ostras, mas não chega ao exagero de passar mal se não conseguir deglutir dez ou doze desses saborosos moluscos bivalves num mesmo dia.

 

Para munir-se de ostras frescas, tio Otácio precisa deixar sua São Ludgero, onde é figura política influente e respeitada, e buscar uma beirada de mar. Muitas vezes Otacílio Osório, seu nome de batismo e de registro civil, aproveita para visitar a Capital, onde conta com o suporte logístico do sobrinho Manoel Osório, que muito aprecia os papos com o parente.

 

Tio Otácio aproveitou a primeira folga que teve no início do ano para conferir a situação, levado pela notícia de que 11,6 mil litros de óleo escorreram de dois transformadores de uma subestação desativada para as águas da Baía Sul no distante dia 16 de novembro de 2012, embora o vazamento só tenha sido descoberto e comunicado à Fundação do Meio Ambiente em 19 de dezembro. A Baía Sul, que vai da Ponte Hercílio Luz até o extremo sul da Ilha de Santa Catarina, é uma das duas maiores regiões produtoras de ostras e mariscos do Brasil. A outra é a Baía Norte. Nas duas baías há inúmeras fazendas marinhas que cultivam os moluscos e abastecem São Paulo e restaurantes no exterior, além de servirem ao consumo local. Nos restaurantes à beira-mar da Freguesia do Ribeirão da Ilha, no sul, e de Santo Antônio de Lisboa, no norte da Ilha, podes acompanhar o sujeito pegar o barco e retirar da água a ostra que te servirão em seguida.

 

– E o que diz a companhia de luz? – quer saber Otacílio Osório.

 

– Disse duas coisas – esclarece Manoel Osório. – Disse que o terreno da subestação já tinha sido repassado à Universidade Federal, a qual alega não ter ainda recebido a sua posse, e que o óleo derramado era inofensivo, praticamente inerte.

 

– E não era.

 

– Não, não era. Trata-se do Ascarel, marca comercial da notória Monsanto para um produto já proibido até no Brasil por ser altamente tóxico e cancerígeno, além de outras formidáveis propriedades negativas. Tão danoso quanto os mais deletérios pesticidas vendidos pelo mesmo fabricante.

 

Após circularem por um Ribeirão de casas todas em luto fechado, com bandeiras e faixas pretas, pessoas entristecidas pelas ruas e restaurantes entregues às moscas no auge do verão, pois a extração, o consumo e a reposição dos moluscos da região estão proibidos até a avaliação precisa do tamanho do estrago, tio Otácio apenas comenta:

 

– É obsceno, não? Quando o pessoal consegue desenvolver uma atividade econômica forte e sustentável, sem destruir a arquitetura do lugar, vem uma empresa do Estado e abandona na beira do mar equipamentos cheios de líquido mortífero. Então é isso que se vê, essa ostravacância, essa síndrome de restaurantes vazios por falta de ostras.

Provações – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Apresentou-se para tirar sangue. Apresentou documentos, carteiras, cartões, fotos e comprovantes. Ninguém haveria de tolerar que se passasse por quem não é. Mas tirar sangue não é só chegar e dizer, Amilcar Nevesvim aqui para tirar sangue. Exige-se requisição de médico competente, isto é, credenciado. Exige-se alguém doente ou, pelo menos, um sujeito passível de adoentar-se. Desde que identificado por impressões digitais digitalizadas, quer dizer, eletrônicas, e coisas assim.

 

Passada toda a provação, ou melhor, superadas todas as provas a que se teve que submeter, após formulários e assinaturas, refugiou-se no assento da cadeira mais discretamente afastada de tudo, ignorou a tela tagarela de televisão à sua frente, às suas costas e aos seus lados, selou os ouvidos e abriu o livro que trazia, um pequeno volume em edição de bolso, pondo-se, alheio, a lê-lo.

 

Livro de bolso só faz sentido em terras frias, habitadas por gente que não tira um sobretudo, sobretudo na rua e no metrô, o que não é o caso, supõe-se, quando o cara vai fazer amor com sua legítima senhora e, especialmente, quando se vai banhar. Sobretudos costumam ter, acima de tudo, vastos bolsos onde se podem acomodar com prazer e conforto um ou mais livros de bolso, sem qualquer incômodo para ditos livros nem para os seus felizes (e eventualmente cultos) portadores.

 

Nos trópicos, tal costume não pode mesmo vingar. Como portar nos bolsos – em quais bolsos? – qualquer tamanho de livro? Se muita gente já acha estranho que alguém use camisa polo com bolsinho do lado esquerdo, onde mal cabe uma caneta esferográfica de feira e no qual dinheiro e documentos encharcam-se de suor mal ameaçam despontar os primeiros calores do verão (que costumam insinuar-se, precoces, já em pleno inverno), o que dirá de um pobre mortal que carregue livros nos bolsos? Livros serão sempre objetos de biblioteca até o dia em que algum cupim deles inevitavelmente dê cabo, como mandam os usos e os costumes.

 

Ainda assim, aquela pessoa que saiu de casa disposta a tirar sangue sentou-se surda no banco mais distante e abriu o livro de bolso que trazia na mão (à falta sobretudo de bolsos adequados, como cá já se demonstrou à exaustão) e pôs-se a ler por escassos minutos até que a moça de guarda-pó branco tocou-lhe o ombro e, em tom admoestatório, perguntou-lhe se não sabia que, para ser atendido, deveria ter deixado no guichê apropriado o papelucho que lhe entregaram.

 

Ante suas negativas, ela lhe disse, a fim de evidenciar o prejuízo que tivera em não atentar para as orientações recebidas, que devia estar ali, estupidamente, esperando há muito tempo. Nada disso, respondeu, não deu tempo de ler nem mesmo uma única página do livro. E que livro é esse, ela perguntou, espiando a capa e interessando-se pelo título. É um romance. Humm, ainda está no início do livro, já apareceu o casal? Casal? É, não é um romance? Sim. Então, todo romance tem um casal, de que trata esse? De um cara que decide matar o pai. Que horror, como alguém pode pensar em tirar a vida de quem lhe deu a vida? Isso às vezes acontece. E é um romance, hein, imagine se fosse uma tragédia: seria uma catástrofe, um dilúvio, o fim do mundo! Bem, o pai passou a vida toda tentando acabar com a vida do filho. Isso não justifica, me desculpe.

 

Terminou o seu trabalho e disse, vou procurar e ler esse romance, mas se não gostar, para o seu próprio bem: não me apareça na minha frente pra eu lhe tirar sangue de novo. Sabe como é, quem avisa amiga é.

Velhinhos não merecem Cultura? – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

A presidenta Dilma Rousseff sancionou na última semana do ano passado a lei que cria o Vale-Cultura,
no valor de 50 reais, destinado a trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos. Desde ontem, este teto é de R$ 3.390,00, o que certamente abrange expressiva parcela da mão de obra assalariada no Brasil; no caso dos aposentados do setor privado, o limite alcança praticamente todas as pessoas com direito ao benefício. Entre estas não há aposentadorias de 25 ou 28 mil mensais, como aquelas que pagamos com o nosso imposto a servidores públicos graduados que, muitas vezes, pouco tempo contribuíram e menos tempo ainda trabalharam pelo bem público, pelo interesse coletivo – e ainda não estamos, aqui, falando de corrupções, prevaricações e crimes que tais.

 

Antes, porém, que vozes encrenqueiras se alevantem para tudo questionar e denunciar submissões servis até no uso de uma vírgula, imploro-lhes que me permitam dizer que o substantivo feminino presidentaé termo antigo do nosso vernáculo, vem lá do século XIX (embora, em pleno século XXI, alguns iluminados achem que foi “inventado” pela nossa mandatária maior, eleita por um partido do qual têm verdadeiro pavor como se a vontade do povo brasileiro só tenha de ser respeitada caso coincida com os interesses desses esclarecidos), registrado já no dicionário de Cândido Figueiredo nos idos de 1899, dez anos apenas após a proclamação da República.

 

Aliás, para fins de reflexão geral, dentro do mesmo capítulo das “intromissões por decreto” na língua portuguesa falada no Brasil, cabe aqui, aproveitando os parêntesis abertos, uma pequena informação: “A lei federal 2.749, de 1956, do senador Mozart Lago (1889-1974), determina o uso da forma feminina para referir-se a cargos públicos ocupados por mulheres“. Isto foi há 57 anos, quando Juscelino estava iniciando o seu mandato presidencial.

 

Assim, Dona Dilma tem todo o direito de pedir para ser tratada de presidenta e de determinar que, no âmbito do governo, seja este o tratamento a lhe dispensar.

 

Mas voltemos ao Vale-Cultura antes que ele esfrie de vez. Trata-se de incentivo fiscal, ao qual empresa ou pessoa alguma é forçada a aderir. Vai funcionar assim: a empresa entra com 45 reais por trabalhador todo mês e desconta o total dos impostos federais a pagar, enquanto o empregado contribui com os outros cinco reais, os quais também abaterá do imposto de renda. Assim, todos os envolvidos naquilo que os economistas gostam de chamar de “cadeia produtiva”, neste caso da Cultura, serão diretamente beneficiados por esses recursos: o escritor, o pintor, o fabricante do papel para o livro, o fabricante de molduras, o ator, o teatro, o laboratório de processamento das imagens. O incentivo não pode valer para a pirataria, situação em que todos perdem e supostamente ganha apenas o pirata, que surrupia obras alheias.

 

Então vem a pergunta, como muito se diz atualmente, “que não quer calar”: por que aposentados e pensionistas não são favorecidos por essa benfazeja legislação? O governo, via INSS, renunciaria a 45 reais e o beneficiário da Previdência que desejasse contribuiria com os outros cinco paus. Se fosse comigo, eu sairia correndo para abraçar a oportunidade: poderia comprar, todo mês, um livro de 38 e um filme em DVD de 12 reais, por exemplo. Todo mês!

 

Aliás, cada auxílio-moradia de 4,3 mil reais pago em Santa Catarina poderia ser convertido em vales-cultura para 95,5 aposentados – sem prejuízo para ninguém.

A BONECA DE NATAL – de jorge lescano / são paulo.sp

In Memoriam Luanda.

As lojas tentavam a população com seus produtos estrategicamente expostos nas vitrines para criar a ilusão de que todos podiam proporcionar alegria ao levar para casa o objeto desejado por aquela pessoa querida. Tal, mais ou menos, a linguagem utilizada nos anúncios.

Mesmo nos bairros mais afastados do centro comercial, as lojas acenavam com um esboço de felicidade pré-datada até para o mais necessitado ou imprevidente dos mortais. Os preços e as facilidades do crédito convidavam a se endividar, e a data justificava o endividamento.

Postado ao lado da porta de uma destas lojas da rua Butantã, encontrava-se um homem magro, modestamente vestido, carregando uma espécie de valise com fecho de zíper, que ele fazia correr num sentido e noutro. Difícil dizer se experimentava o seu funcionamento ou se a ação correspondia a nervosismo.

Várias caixas com brinquedos de plástico se encontravam na entrada do estabelecimento. O preço – módico – unificava os objetos. Cada caixa ostentava uma placa com o valor genérico. Pelo valor de cinco reais podia-se adquirir tanto um trenzinho como uma boneca de plástico marrom vestida com um macacão vermelho e um lenço na cabeça, amarrado à moda africana.

Por duas vezes, nas lojas populares da rua Direita, vira a conseqüência do furto. A primeira, duas moças que haviam furtado peças de lingerie, a segunda, uma boneca dentro de uma caixa.

O caso das moças se deu esquina da praça Clóvis Beviláqua. Ele viu no momento em que o empregado da loja fez que elas abrissem as bolsas e de lá retirassem as peças furtadas. Alguns curiosos pararam para olhar. Uma das moças abaixou cabeça e deixou a mão escorregar ao longo do rosto, ocultando-o. Era metade da tarde e nessa hora a multidão se apinhava no local.

O homem que se apropriara da boneca era magro como ele. Pelo que havia podido observar, enquanto circulava pela loja entre as mesas de exposição, o homem cometeu o erro de prestar atenção excessiva ao brinquedo, chamando a atenção do funcionário encarregado da segurança. O movimento rápido que fez a caixa desaparecer no interior da sacola, provocou um deslocamento sincrônico do empregado, e apesar do homem ganhar a rua em alta velocidade, sem correr, contudo, para não chamar excessivamente a atenção, porém a passos mais rápidos que os usuais nessa rua, permitidos porque nessa hora o comércio já começara a abaixar as portas, foi alcançado pelo segurança e outro funcionário, que devia servir-lhe de escudeiro. Sem resistência, o homem entregou a boneca. Isto não satisfez os guardiões da ordem comercial, que fizeram questão de levar o larápio para os fundos da loja.

A testemunha ainda teve tempo de ouvir o comentário de um passante Sujar-se por pouca coisa não vale a pena! Ele pensou na filha do homem, que inutilmente esperaria seu presente.

O homem magro não deixaria que sua criança pensasse haver sido esquecida por Papai Noel. Com passo firme entrou na loja

ARTISTAS E VACAS – por jorge lescano / são paulo.sp

O analista revelara à paciente que ela sofria de falsa identidade – ou como esses profissionais da escuta esotérica chamem esta perturbação da personalidade –: era uma vaca presa num corpo de mulher. Ela decidiu assumir seu verdadeiro EU. Começou a mugir e se fazer tatuar grandes manchas negras na pele branca.

Sem que se conhecessem, ela vivia a metamorfose almejada pelo poeta. Este, em protesto pelo descaso da plebe ignara com a ninfa Eco, sonhava ser uma vaca, malhada, de nome Gertrudes, como os irlandeses chamam as fêmeas do seu gado bovino, segundo James Joyce num romance do argentino Ricardo Piglia

 

O pintor Paul Klee, nascido na Suíça, herdou do pai a nacionalidade alemã e só recebeu a cidadania do seu país natal, solicitada sete anos antes, um dia depois de sua morte.

Alguém comentou – talvez seja apenas uma boutade, com esta ressalva figura numa biografia do artista – que a demora teve origem em um quadro no qual o pintor retratou um rebanho de vacas empilhadas, sugerindo que o país não tinha espaço suficiente para sua pecuária. Isto numa nação que se orgulha da qualidade do seu queijo e criou um gênero de canções dedicadas a este ruminante.

 

O romancista acordou e deu pela falta do seu manuscrito. O jornal não fornecia o título do romance. Um pouco afastada da árvore sob a qual o escritor dormira sua sesta de verão, uma vaca ruiva ruminava a sua merenda.

Tarde demais ele ficou sabendo que os nutrientes que este animal encontra no capim também estão no papel.

 

Com o passar das gerações a anedota ficou mais ou menos assim:

A senhora interrogava Claude Debussy sobre o método utilizado para suas composições.

– É muito fácil, eu pego todos os sons e retiro aqueles que não desejo usar – teria respondido o músico.

– Confesso que não entendo as suas melodias – disse a dama. – Eu apenas sei do que gosto e do que não gosto.

E o compositor:

– Como as vacas, minha senhora!

 

 

O ator dirigia a sua motocicleta em alta velocidade quando o ruminante estacionou no meio da estrada. Não houve tempo para desviar ou frear. O veículo bateu em cheio na massa de carne que na hora do impacto ganhou solidez de concreto.

A polícia rodoviária contou com a serra e a habilidade de um magarefe para extrair a cabeça e os ombros do motoqueiro do flanco da vaca.

Aquela noite foi de consagração do ator substituto. Em turnê pelo interior do estado, a companhia representava Androcles e o leão, de George Bernard Shaw.

 

Como descrever o assombro da vaca solitária ao contemplar com seu olhar bovino o jovem negro atravessar a cerca, armar seu saxofone e totalmente concentrado improvisar alguns compassos na sua frente e para seu exclusivo prazer, enquanto seus colegas, não menos surpresos que ela, esperavam o final do breve concerto à beira da estrada?

Quem disse que as vacas gostam de música?, deve ter pensado o animal ao ver o carro se afastar levantando uma nuvem de poeira.

A cena foi narrada por um integrante da banda de Charlie Parker presente na ocasião.

Autoajuda. Está tudo resolvido – por luiz fernando pereira / curitiba.pr

Nunca tinha me dado conta do incrível avanço das publicações de livros de autoajuda (sim, aqui a reforma, sob meu protesto, sacou o hífen). Especialmente nas livrarias mais modernosas, há sempre um enorme departamento luiz-fernando-pereiraespecialmente dedicado. Não é o caso do nosso Chain, livreiro que ainda resiste um pouco ao subproduto. Chain vende autoajuda – é inevitável -, mas os livros estão um pouco escondidos, revelando saudável constrangimento.

Achei alguns números. Há dez anos a revista Veja já mostrava que a publicação de obras do gênero havia tido um crescimento de mais de 700% nos últimos oito anos, contra um aumento de 35% do mercado geral de livros. Dez anos depois e os livros de autoajuda tomaram conta do mercado. Notem que as listas de mais vendidos estão divididas em três categorias: ficção, não ficção e autoajuda. Por que atraem tanto? É simples: prometem resolver tudo de forma rápida e simples.

Dizem que foi o americano Dale Carnegie que deu início ao gênero. E convenhamos: faz todo o sentido que tenha começado no fértil ambiente dos americanos. Nos anos 30 Carnegie publicou Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. Vendeu mais de cinquenta milhões de exemplares. É muita coisa. Nemesis, livro de despedida de Philip Roth, tem uma tiragem de sete mil exemplares aqui no Brasil. Carnegie vende muito mais porque sabe simplificar. Costuma dizer: “Acredite que você pode mudar sua vida, e isso se concretizará”. Fascina multidões.

Bem analisado o fenômeno, autoajuda faz em boa medida o que a religião sempre fez. Confira comigo: Quando você diz que é impossível, Deus observa: “tudo é possível” (Lucas – capítulo 18, versículo 27). Quer mais? Quando você diz: Eu não posso, Deus discorda: “tudo podes” (Filipenses 4:13). Não por acaso a bíblia vende ainda mais do que Dale Carnegie. É auto-ajuda do início ao fim. Os budistas criaram o mesmo papinho cinco séculos antes de Cristo e os muçulmanos cinco séculos depois. Na essência é tudo autoajuda.

Não tenho capacidade e não quero fazer análise sociológica do fenômeno, é claro. A curiosidade dos títulos é o que me motiva. Já pensando em escrever o artigo, anotei alguns bem interessantes. Como são incontáveis as publicações, se você tiver tempo ou dinheiro para apenas um, sugiro Como Conquistar Tudo o que Você Deseja mais Rápido do que Jamais Imaginou. Conquistar tudo que deseja. E rápido. Esse é perfeito.

Entre os mais focados, estão os orientados para o assim chamado mundo corporativo. Lançado em 2011, o título (sempre autoexplicativo) é Consiga um aumento e seja promovido com rapidez. Se você leu, entendeu e seguiu os conselhos, mas não foi promovido e muito menos conseguiu aumento, não se preocupe. Tente Como se destacar em seu ambiente de trabalho, de Joe Calloway. Novo insucesso? Aí é o caso de apelar para um tal John Hoover e culpar o chefe: Como trabalhar para um idiota, já na décima primeira edição pela Saraiva. E se você por acaso for o próprio chefe, Bruce Tulgan lançou título encorajador: Não tenha medo de ser chefe.

Gosto muito dos que tratam das questões de alcova, a começar por um clássico: Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo… Mas Tinha Medo de Perguntar. Leu e está sabendo tudo, mas perdeu um pouco o entusiasmo na relação? Pamela Lister, pela Editora Gente, tem a solução: Sexo no casamento: dez segredos para manter viva a atração. De acordo com a autora, “o desejo a longo prazo está ao alcance de todos os que se empenharem”. Como não pensamos nisso antes? A mulher já não é mais tão nova? Sem problemas. Gail Sheehy, agora pela Rocco, explica tudo em O sexo e a mulher madura. Bem, se eventualmente os livros anteriores não ajudaram, resta gastar um pouco mais com o livro de Rosaura Rodriguez: Bem-vinda ao clube do divórcio. Li a contracapa. Rosaura explica que “não se deve confiar em conselhos estapafúrdios de amigas solteiras”. No final a incrível conclusão: “é possível ser feliz sozinha ou acompanhada”. Genial a Rosaura.

Com o crescimento do mercado, é natural que aumente o grau de especialidade dos títulos. Gostei de alguns realmente bem direcionados. Antônio Fonseca Jr., orientado pelo aumento do percentual de obesos, publicou: Tudo que um gordo deveria saber (atitudes de um gordo). No anúncio promete uma visão holística da matéria. Fico a pensar: o que pode ser uma visão holística do gordo? Você não é gordo, mas se acha muito tímido e introvertido, ponha sua vida nas mãos de Susan Cain e seu novo livro: O poder dos quietos. A autora critica “o ideal da extroversão do século XX” (?!) e, também como está na síntese apresentada, “oferece inestimáveis conselhos sobre como os tímidos podem tirar vantagem das suas características”. Para os não raros casos de gordos tímidos a saída é ler os dois livros. Até pelo menos que alguém lance algo mais específico: “sucesso total ao alcance imediato dos gordos tímidos” (fica minha singela sugestão de título).

No fundo eu desconfio que todos os livros são escritos por heterônimos de um mesmo autor – que só muda um pouco a ordem das palavras. Viva o Chain – que ainda mantém intacta a vergonha e quase esconde os livros de autoajuda.

PAULINHO DA VIOLA completa 70 anos hoje – por zuleika dos reis / são paulo.sp

ANIVERSÁRIO DE PAULINHO DA VIOLA

                                                         

 

Paulo César Batista de Faria, nosso Paulinho da Viola. Poeta, príncipe, rei, mestre do samba, venho saudar-te, humildemente, por toda a beleza que sempre nos trouxeste a todos; venho para saudar-te neste dia 12 de novembro de 2012, quando completas 70 anos.

Ah! “Foi um rio que passou em minha vida”: Portela querida; “Coisas do mundo, minha nega”: sempre as coisas do mundo, meu nego; “Sinal Fechado”: de quantos sinais fechados se tecem as múltiplas vidas! Os nomes de tuas obras-primas poderiam continuar a ser aqui citados… ah… poderiam… por muitas linhas e linhas…

Paulinho da Viola e a Velha Guarda da Portela. Paulinho da Viola e dos azuis sem fim, e das rodas de samba sem fim… e da saudade dos sambas partilhados, compartilhados… tantos sambas… tantos…

Paulinho da Viola, artesão, em sua oficina, em casa, a fabricar com as mãos tão hábeis, instrumentos musicais.  Paulinho da Viola, a tocar junto com o filho e com o pai César de Faria, grande músico do conjunto Época de Ouro. Paulinho da Viola, presença ímpar nos mais autênticos pagodes da Música Popular Brasileira; Paulinho da Viola, de tempos mais limpos e mais felizes, de tempos de Outras Esperanças para este país do futuro.

Paulinho da Viola, em cuja voz e sambas ecoam muitas saudades infinitas de mim mesma. Ave, Paulinho da Viola, poeta, príncipe, rei, mestre do samba, cantor dos sentimentos mais fundos e autênticos da alma do povo brasileiro.  Com minha hoje tão parca voz venho saudar-te, neste 12 de novembro de 2012, saudar os teus 70 anos, saudar-te a ti que não tens idade, eterno que és. Por tudo o que representas e sempre representarás na nossa história musical venho saudar-te, com o abraço mais fundo do meu coração. Esta fã desconhecida de Sampa, esta fã que já cantou músicas tuas, esta para sempre anônima de si mesma, mas com palavra ainda para saudar-te. Ainda. A ti, patrimônio musical do Brasil: Paulo César Batista de Faria: Paulinho da Viola. Feliz aniversário.

 

2057. UMA CRÔNICA MARCIANA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

“Vem cá Brasília, deixa eu ler tua mão menina, 
tem grande destino reservado pra você”.
Adaptação do samba do Zé Catimba (carnaval de 1974)

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Logo que cheguei a Marte em 2055 tive que responder a uma pergunta que me deixou encafifado: onde anda o Edgar? Perguntou-me um escritor marciano. Não dei muito papo, porque escritores, sabem como são, gostam de conversar fiado e metem o focinho em tudo, preferi marcar um café mais tarde no meu bangalô. Diz ele que vai processar o Edgar, como nunca li o tal Edgar, pensei, por que será? Deve ter sido briguinha de intelectuais ou alguma criticazinha a Marte. Os marcianos são tão bairristas quanto os brasilienses, eles acham Marte o suprassumo do Sistema Solar, eu acho isto aqui uma merda, sem falar que não tem praia, se bem que, como trabalho pro Itamarati, moro perto do Mare Sirenum (um lago artificial criado pras elites daqui), bem próximo ao “Monte Olimpo”, com seus 26 km de altura. Em Marte é assim, ou você está por cima, nos píncaros, é um DAS-8, ou vai morar nas ‘Fossas Marianas’, para além da “Cratera do Schiaparelli”, na periferia da periferia, e leva horas no metrô para chegar ao batente. Nos últimos anos, dizem que Marte mudou, falam em tempestades solares, mau-olhado, macumba, poluição. Há os que culpam os alienígenas, dizem que tudo começou a dar errado depois que nós chegamos, que Marte era uma tranquilidade, um sossego, com os alienígenas veio a violência, a poluição, os ventos mudaram de direção, e os morros começaram a desmoronar na periferia, é claro. O “trágico acidente”, como diz o telão, foi para os lados da “Terra de Malboro”, onde a poeira vermelha sobe em redemoinhos gigantes, porque em Marte tudo é gigantesco, tudo é super, tudo é mais bonito, mais espetacular, mais trágico. O acidente foi por volta de meia noite, acordando muitos moradores de seus sonhos freudianos, os desejos reprimidos de sempre: ganhar na loteca, comprar uma TV de 50 polegadas, conseguir um emprego no governo, desfilar na Unidos do Cruzeiro, e ir pro céu. Muitos foram nessa. Confesso que me adaptei em Marte melhor do que esperava, não é dos piores lugares em que estive. Primeiro, fui mandado pra Amazônia, era como se fosse Marte, antes dos americanos baixarem lá (vazia, calor infernal, sem falar nas doenças). O pior era a distância do Rio, que, naquela época, era o centro do meu universo. Depois fui pra Brasília nos inícios, aí era Marte mesmo, sentia falta de ar, meu nariz sangrava, faltava tudo, a poeira vermelha cobria até a Esplanada dos Ministérios. Faltava até mulher, que no Brazyl (agora com z e y, é a nova nomenclatura, fazer o quê) havia em profusão nas praias lotadas, depois inventaram essa de mulheres trabalharem para adquirir liberdade, e agora estamos nesse impasse, elas querem voltar pra casa e querem liberdade. Aqui em Marte raramente são vistas, e quando aparecem, são como os pardais, andam em bandos, chilreando e com o dedinho iluminado, sinal que estão na fase fértil. Outro dia, pensando em encontrar uma marciana mulata e tentando matar a curiosidade sobre a fisiologia sexual delas, dei uma volta pelos subúrbios, fui conhecer a “Terra de Marlboro”, queria ver os tais redemoinhos gigantescos, peguei um carro-voador blindado, com dois robôs, vi muitos homens armados, usando aquelas máscaras do Darth Vader, dando bascolejo, sem mais nem menos deitavam os suspeitos no chão, pisavam nos ovos dos caras com aquelas botas pesadas, metiam a porrada e os transeuntes aplaudiam. Este passeio pelos subúrbios de Marte me deixou muito triste, tive que tomar um rivotril que trouxe do Brazyl, é recomendado pra tristeza e amargura. É que a pobreza me deixa amargurado, é a coisa de que mais tenho medo: voltar a ficar pobre, sem dinheiro, vocês podem imaginar, Nelson Rodrigues já dizia: “dinheiro compra até amor verdadeiro”. E compra mesmo, até em Marte. Paramos numa esquina barulhenta e poeirenta, e logo me apareceu um menino com uma telinha, onde a cada toque se via uma marciana, algumas belíssimas. Quanto é? Ele abriu a mão de treze dedos. Treze? Fez uns sinais dando a entender que eu poderia negociar direto com ela. Hoje não, tomei o comprimido pra ficar alegre, mas o meu tesão foi pro brejo, efeito colateral e, depois, meu motorista disse que estava escurecendo e que seria perigoso continuar naquela área.
Próximo a minha casa, nas margens do Mare Sirenun, reencontrei o escritor, disse chamar-se Lorquas Ptomel, pedi à robozinha (coisa linda, só vendo), pra servir um café, estava um tanto curioso para conhecer a cultura local. Ele era o rei das perguntas chatas: perguntou-me pelo Ray, eu nem consegui dizer que ele morreu em 2012, insistiu com a pergunta sobre o Edgar, pensei que ele queria saber alguma coisa do Tarzan ou então estava falando do outro Burroughs, filho do inventor da máquina de escrever (acho que vocês não sabem o que é), mas não, me disse que o cara escreveu vários livros sobre Marte. Fingi que já sabia, fiquei saboreando o café e apreciando a bunda da robô, nem ouvia as abobrinhas que o marciano falava, com aquele ar entediado, comum aos escritores, sejam de Marte ou de Brasília. Botei a vassoura atrás da porta e aguardei (é o verbo mais usado por aqui). Assim que o escritor marciano deu a entender que ia embora, pensei: hoje eu pego essa robô de qualquer maneira. Vocês não fazem ideia do que seja fazer amor com uma robô, sim, porque com ela eu fiz amor e não sexo, é como se tivesse voltado aos inícios dos anos 70 do Brazyl. Não fazem ideia do que seja fazer amor olhando pro céu estrelado de Marte, sem nenhuma nuvem, nada, céu azulíssimo. Agora começo a entender porque os dois Impérios que mandam na Terra gastaram bilhões de dólares e outros tantos de Yuanes pra se estabelecer aqui. Só fazer amor em Marte com a Seane (coisa mais linda) já teria valido a pena. Lembram-se da Rachael, do Blade Runner, é a cara e o corpo dela, só que “com uns quilinhos a mais” como ela me disse, quando a escolhi na tela da minha sala, olhando-me com aquele olhar marrom-claro e os cabelos presos na nuca. Quando ela levanta a cabeleira negra liberando a nuca, é o céu, o céu de Marte. Depois de uma noite de sono, que há muito não tinha tido, sem ter nem porquê, meu pensamentos voaram pro Brazyl, tenho essas recaídas, dizem que a palavra só existe na língua marciana: saudade. Nessas horas, sempre lembro de uma frase do Gregório de Matos (não deve haver mais vestígios nem no Google): “Que me quer o Brasil, que me persegue?” Parece papo do Lorquaz Ptomel, o escritor marciano, mas a frase me empurra para o passado distante, mesmo que eu não queira ir. Acordei tarde, botei meus óculos protetores, sapatos de chumbo, pra me segurar no chão, olhei pela janela e quem estava na porta pra me importunar? O Ptomel, com aquela cara de interrogador, querendo saber como era Brasília. Pensei: porra, esse cara vai infernizar minha vida por aqui, logo agora que a minha robozinha está no período fértil. Vou contar logo o básico e ver se me livro deste chato.
Houve uma época em que se imaginou que seríamos um Império grandioso: “O Império do Meio do Mato.” Lá se vão cem anos, foi no reinado de Ramsés de Oliveira e Marte ainda era chamado de Planeta Vermelho e só existia nos sonhos do Schiaparelli (deve ter no Google) e nas histórias do Bradbury, que não tenho saco pra ler, detesto ficção científica. Para entender o presente, e o que vim fazer em Marte, é preciso dar uma olhada no passado. Infelizmente, é o passado que cria o futuro, se o passado foi uma merda, porque o futuro seria diferente? Está nos livros de história, tudo começou com o príncipe Ramsés, que subiu no Morro do Cruzeiro e disse com a pompa de sempre: “daqui, deste curral, que será o palco das grandes decisões nacionais, fica criada esta ilha chamada Brasília, onde, como disse Dom Bosco, correrá muita grana e muito mel”. Desculpe Ptomel, mas li a frase antes de derrubarem a Rodoviária, não me lembro com exatidão. Chamou então o grande arquiteto do universo (Deus), e disse-lhe ao pé do ouvido: “Oscar, quero uma cidade bem egípcia, muitas pirâmides, muitos palácios e o Rio Nilo em volta, não importa quanto vai custar”. Está claro nos textos bíblicos que ele se referia ao grande Oscar Niemeyer, que hoje está com 200 anos, completamente lúcido. Oscar convocou seu compadre, o resto, todo o mundo sabe: ele fez uns rabiscos e um pouco de literatura. Alguns criadores de caso avisaram: “isto vai dar merda”. Os empreiteiros e fazendeiros berraram bem alto, cada qual defendendo seus pastos. Ramsés não quis nem saber, pediu grana emprestada aos gringos pela tabela Price, os gringos achavam que valia o risco, queriam ordem no seu quintal, pensavam que poderíamos ser um grande “mercado” para seus produtos. Ramsés chamou os pelegos-chefes do IAPI, IAPETEC, IAPC e outros IAPs e exigiu a grana acumulada na CAIXA para pagar a aposentadoria dos trabalhadores. Não, príncipe, é para o nosso futuro, disseram os pelegos. Ramsés retrucou na bucha: o futuro é agora, lasca o pau e manda rodar a manivela. Por essas e outras é que chamam a cidade de “O Túmulo do Faraó”. O problema é que o príncipe que sucedeu Ramsés, um magrelo apelidado “Vassourada”, um dia acordou de ressaca e cismou que não ia morar mais no Palácio da Alvorada, reclamava daquele silêncio de túmulo e do frio cortante do cerrado. Dizia que mandava menos que o prefeito de São Paulo e tinha razão, como alguém ia comandar um continente de dentro de um palácio a beira do Lago Paranoá, sem o Google, sem Facebook, sem o MSN e sem o Badoo? Era o problema de sempre, as legiões não o levavam a sério. Resultado: foi varrido do poder. Renunciado. Um espanto, nunca se soube de alguém que tivesse renunciado a nada em Brasília, no máximo o sujeito pede licença sem vencimentos. Enquanto rolavam essas complicações nos altos escalões, o povo (sempre mal informado, só viam o programa do Chacrinha e ouviam o futebol), chegava aos borbotões, em busca da grana e do melado, mal sabiam que a grana tinha dono e o melado estava sendo disputado em recinto fechado, no Palácio das Duas Tigelas, também conhecido como Vinte e Oito, em homenagem aos 28 que caíram lá de cima na sua construção (alguns, de vez em quando, saem da tumba e desempatam a votação). Os gringos, que já andavam ressabiados por causa dos cubanos, a essas alturas começaram a desconfiar que não receberiam a grana, e que aqui dentro, caberiam umas seiscentas Cubas. Se uma, comandada por um lunático, já dava um trabalho danado, calcule seiscentas. Então chamaram os militares. Estávamos na época do “nacional-devedorismo” (devo, não nego, pagarei quando puder), doutrina criada pelos militares nos anos 40 do século passado. A proposta era crescer endividando-se, como faz o povo até hoje no Ponto Frio e nas Casas Bahia, confiando que amanhã vai estar tudo muito mais caro. A ideia era construir uma cidade que fosse o contrário da bagunça brasileira. Tudo certinho, organizado (cada coisa em seu lugar, um lugar para cada coisa). Só que a bagunça brasileira também foi planejada, não se cria uma esculhambação como o Rio, Salvador, São Paulo, Recife, Belém, de uma hora pra outra, são coisas planejadas, de séculos. No final do mandato, Ramsés fez uma viagem (ele gostava muito de viajar) pra Paris. Os milicos entraram e trataram de consolidar a cidade, afinal iam morar nela por muitos anos. Logo notaram que O Vassourada nada tinha feito e Jango, como percebeu Glauber Rocha, era um fazendeiro-poeta, mais fazendeiro que poeta, queria mudar o imutável sem sair da fazenda. A capital cresceu mais do que qualquer outra cidade em todos os tempos, os súditos do príncipe Ziror, que governou a cidade nos começos, passaram de 140 mil almas, em 1970, para mais de 10 milhões. O problema é que as cidades tem o péssimo hábito de mudar o tempo todo. São como caleidoscópios (uma metaforazinha que o Lorquas Ptomel gosta, ele adora também o verso do poeta Saint-John Perse: “As cidades crescem, enquanto as mulheres sonham”), diz ele que os sonhos femininos são confusos. Pensei: este Ptomel parece misógino, acostumou-se mal com a obediência das robôs, vive no passado distante, talvez pra se proteger, quem sabe, ou talvez porque os marcianos são assim mesmo, quando ficam velhos. Os marcianos são pessimistas, só falam em problemas, o Ptomel chegou ao ponto de me dizer que problema algum tem solução definitiva, diz ele que apenas mudam a forma. Ele falando estas abobrinhas e eu pensando na minha robô (coisa mais linda), depois que ela dorme fico observando Brasília aqui de cima, o mais interessante é que ela dorme com os olhos abertos. O Ptomel quer saber quais são nossos problemas. Sei lá, a minha robozinha deitada me esperando e eu tendo que falar de problemas em Brasília, quero lá saber daquela politicagem, esse Ptomel tem cada uma. Acho que o problema principal de que acusam o príncipe Ziror é a “Grande Muralha Medieval”, construída em 2030, para controlar a entrada dos bárbaros. É que não só os DAS estão dentro da Muralha, mas também os hospitais, cinemas, teatros, universidade, restaurantes, lago, zoológico e até o melhor cemitério. Até o samba está do lado de dentro. De vez em quando, alguém pula a “Muralha”, geralmente no Natal e Carnaval, mas logo as legiões do príncipe Ziror III tratam de expulsá-los. Apesar dos contratempos, tudo ia bem, mas como diz um ditado marciano: “depois da tempestade, sempre vem outra”. O horóscopo do príncipe Ziror III dizia que Netuno estava na sua casa e que sua eleição estava garantida, aí, não mais que de repente, os centuriões do Rei Lulácio, também chamado “Sapo Barbudo”, o matador de andróides, mandaram prender o príncipe Ziror III, período que ficou conhecido como “Arrudaço”. Daí pra frente, as coisas se acalmaram e a vida continuou como sempre foi, Marte brilhando no firmamento, Vênus tranquila desfilando sua beleza e minha robozinha dormindo de olhos e pernas abertos. Confirmando o ditado marciano, aconteceu o improvável, a inflação voltou com tudo, pegou a Rainha Dilma com as calças na mão, não teve jeito, a Rainha, apelidada de “a imutável”, jogou nas telas o plano “Real Novo 2.0-Turbo Flex”. Isto foi bem antes da Copa do Mundo de 2052. Brasília sediou uma das chaves, construíram um estádio pra um milhão de torcedores. O Rei Lulácio VI, que voltou a governar, deu o pontapé inicial, errou a bola, mas acertou no discurso, dizendo ser candidato a Imperador de Marte. Já me cadastrei (em Marte você não faz nada sem se cadastrar), pra votar. Mas vocês devem estar perguntando: por que fui transferido pra Marte? Simples, é que morri, e pra lá vão os espíritos superiores. Ou não leram o livro do Ramatis, o escritor preferido do Lorquas Ptomel, meu vizinho?

Omar e o Bolo de Côco – por omar de la roca / são paulo.sp

 

” Quando cheguei na cozinha, ao contagem regressiva estava e dez e descendo rápido.Fiquei olhando para o relógio imaginando coisas sabendo que  eu não ia sair dali. Quatro,três, dois, um…Um apito,e a água para o meu chá estava quente.”  Disse Omar rindo. Mas é preciso deixar bem claro que entre ler e ouvir ele contando havia uma grande diferença. Ele fazia questão de interpretar cada palavra. Estava sério ao entrar na cozinha, de olhos arregalados ao ver o relógio contando para baixo, a cara de espanto sem saber o que fazer e o sorriso ao retirar o copo plástico de água quente de dentro do microondas e colocar um saquinho de chá dentro. Era sua veia artística que as vezes falava alto.Ele era reservado e normalmente quieto.Mas não dispensava um brincadeira de vez em quando.O problema é que gostava de brincadeiras inteligentes e piadas que fizessem as pessoas pensarem.Mas as vezes as pessoas queriam o riso fácil,debochado com preguiça de fazer a associação correta. E as vezes era uma piada particular que só ele entendia e ria sem que ninguém entendesse o porque. Agora ia fazer uma verdadeira preleção sobre o chá. Era um chá,ou melhor uma tisana, palavra antiga que quer dizer uma infusão de ervas,já que não havia sabor de chá  que  folha de chá propriamente dita, estava ausente.Ou tisana. Como outros muitos rótulos, dava-se um nome inapropriado para algumas coisas. Era uma mistura importada de alcaçuz, menta e limão, muito saborosa que dispensava açúcar,e como Omar estava com o nível alto e precisava se conter para não sair devorando tudo que fosse doce que cruzasse seu caminho.E que apesar de ser importado custava tanto quanto um bom chá nacional. E o custo benefício era compensador. A caixa com 25 custava em torno de 8 reais.Quando achava,  e num supermercado só, comprava duas. O açúcar era um caso sério. Com freqüência, ao começar a comer já estava pensando na sobremesa. Ansiedade, stress, ele sabia o que isso tudo era. De uns tempos para cá estava tendo uns apagões e consultou um neuro que pediu exames e receitou tarja preta. Ele ficou surpreso ao comprar o produto já que não sabia que tinha tal tarja. E surpreendeu-se com os progressos da medicina já que o remédio o fazia sentir-se bem. Sono ele já tinha bastante, um pouco mais, tudo bem. Mas vamos lá, preciso estar bem mesmo que tenha que tomá-lo,pensou antes de iniciar o tratamento. Era tido como o mais sério dos três. Persignava-se três vezes ao passar por toda e  qualquer igreja, mas não entrava nelas. Só se fosse para rezar para São Jorge, o que fazia em qualquer lugar. No fundo era corinthiano mas não confessava esta paixão a ninguém dizendo que não gostava de futebol. Com certeza abominava a bagunça que faziam em seu bairro quando o timão ganhava . Dizia que fitas pornô eram indecentes. Mas assistia a um DVD escondido  em casa, nas raras vezes em que ficava sozinho e podia se            “ divertir “ . Nesse ponto era parecido dom Kevin, mas a diferença entre os pornôs… bom, é melhor deixar pra lá qual era . Gostava de música clássica e de pintura. Mas também só podia ouvir quando estava sozinho já que apenas ele gostava. Pintura a óleo estava sujeito a fazer sujeira já que ele não era tão cuidadoso assim e as vezes limpava a ponta do dedo na barra da cortina da sala, e produziam um cheiro forte,que ele camuflava misturando terebintina com secante de cobalto. E a cachorrinha estava sempre por perto pronta para pular no colo dele ou dentro da caixa de tintas. Conseguir pintar era uma ginástica. Mas o relaxava e nestes tempos nos quais ele estava, precisava disto. Mas  duas coisa fazia questão absoluta de esconder de todos. Era um incorrigível romântico. Acreditava em finais felizes. Emocionava-se ao ver um filme quando os personagens finalmente de entendiam. E detestava injustiças  Assistiu A Beira do Abismo e no fim,quando o herói afronta o bandido , ficara tão descontrolado que quase rasgou a perna da calça de tanto puxá-la de nervoso. E tinha certo talento para poesia erótica. Nestes dias estava pensando e começara a escrever uma

Escrevi  lentamente todos os meus versos de amor com a ponta do dedo em tuas costas nuas. E quando passava da cintura você ria e apertava o corpo contra o colchão. E eu apagava tudo e escrevia outra e mais outra só para ver a tua reação. Uma vez pedi que escrevesses nas minhas costas. Mas escrevias rápido e eu não conseguia ler. E você perguntou se eu queria que você desenhasse. Beijei a tua nuca.  Pensei na tua idéia, pedi que deitasses e comecei a desenhar com alguns fios de teu cabelo, enfiando na orelha de vez em quando para que não dormisses. Você disse  rindo que desenhos eróticos não valiam. E eu apaguei tudo. E comecei a desenhar uma flor com um longo caule que descia pelas tuas coxas.. Mas você não queria que eu terminasse o caule. Em determinado ponto você não deixou mais que eu continuasse. Tudo bem, eu disse, vou apagar tudo. E você disse tudo não apenas o caule. Escrevi outro poema que começava com“ Teus olhos brilham como o reflexo das estrelas na espuma do mar,e me encaram como  o  vento de calmaria,” . Teus olhos se nublaram e você disse que você não era tudo aquilo.Que você se sentia como Lady de Shallot, condenada a ver o mundo através do reflexo de um espelho,que refletia outro e mais outro até não distinguir mais realidade de fantasia.Beijei tuas espáduas.E quebrei os espelhos que refletiam o salgueiro no lago. Com jeito te deitei de costas e você meio que escondeu os seios com as mãos. Eu disse que queria escrever naquela folha também mas você resistia. Fui passando o dedo até onde alcançava, até você relaxar e segurar minha mão e escrever com ela a palavra que você queria, aonde você queria. E eu me deixei guiar.Já conhecia as rimas todas. Fui escrevendo, um pouco aqui, um pouco ali . Até que a página ficou inteira, a estória fazia sentido e eu podia continuar apenas passando o dedo em tuas costas enquanto cochilavas. E eu prestava atenção na chuva que caia. Aquela chuva  que você tanto esperava,.mas que agora não vias em teu sono. Aquela chuva que me trazia lembranças de outras chuvas, outras épocas. Épocas de águas mágicas caindo das  folhas em nossos corpos abraçados,respingando nos cabelos,nos ombros,no peito, ventre chegando aos pés nus que brincavam nas poças.

Omar olhou o relógio.Ouviu um rebuliço na cozinha.Era aniversário da loira da contabilidade e o pessoal tinha comprado um bolo para comemorar. Um bolo branco coberto com fitas de côco. “ Que pena, ia gostar mais se fosse de chocolate… “ . Mas levantou-se depressa , afinal, açúcar era açúcar !!! E, com certeza, repetiu mais de uma vez. Com dois copos de Coca Zero.

HOMENAGEM FINAL à GAUCHADA PELAS COMEMORAÇÕES DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

Uma cortesia dos Torpedos ao facebook.

Pois é meus amigos, temos que aceitar a situação, o mundo não é mais de professores, muito menos dos políticos, e olha que eles se esforçam. E muito menos de escritores, filósofos ou de artistas plásticos ou de músicos ou poetas. De economistas, de sociólogos, antropólogos? Nem pensar. Já foi tempo em que até arquitetos ficavam famosos, cansei de dar entrevistas no Correio e na Tv, nos anos 70 e 80. Isso tudo já era. O mundo agora é dos jogadores de futebol, dos cantores populares, dos atores de Tv e das chamadas celebridades, uma profissão nova que circula por aí e acumula funções com as outras, inclusive com a mais antiga de todas. Pra vocês verem, até uns programinhas bem discretos sobre literatura que havia na Tv a cabo, de repente foram tomados pelos Caetanos, Gils e Chicos e Martinhos, etc. É a Tv em busca de audiência. Até o Paulo Coelho, que veio da canção popular (fazia letras pras maluquices do Raulzito), e diz ter sido escritor, está tendo que dizer umas coisas de quando ele se internava no Pinel, pra tentar atrair o olhar da mídia.

Então, nesta última homenagem, me desculpem os gaúchos mais letrados, mas vou ter que apelar. Vou falar um pouco de um grande cantor popular do Rio Grande. Vou logo avisando: não é o Lupicínio, muito menos Kleiton e Kleidir, que têm sotaque dos Beatles, que, como vocês sabem, iniciaram o processo de aveadagem do rock, com aquelas franjinhas e terninhos abichalados, cantando, “deu pra ti, baixo astral, Ciao”. Devem ser de Pelotas, não sei não.
O cara a que me refiro, começou com um “tiro ao alvo” em Passo Fundo, tinha um programa de rádio por lá, foi passear em Porto Alegre, voltou, vendeu o “tiro ao alvo”, gravou “Coração de Luto” que o pessoal mais refinado, fã dos Beatles e do Michael Jackson, chamava pejorativamente de “churrasco de mãe”. Teixeirinha comprou uma produtora de cinema, e fez doze filmes, felizmente ainda não vi nenhum. Bem, Teixeirinha foi o sujeito que mais vendeu discos no Brasil, e quiçá no mundo, vendeu mais do que o Michael e a Madona. Falam em 120 milhões de cópias, sabem como são os gaúchos. Pois é, entre ele e o Michael e a Madona, fico com Teixeirinha. Quer dizer, sugiro que a gauchada fiquem com Teixeirinha, porque eu fico mesmo é com a Angelina Jolie.

 

TÔ NEM AÍ PRO PORTUGUÊS ! – por renoir pereira da silva

Aquela Feijoada Baiana estava cheirosa, aquele feijão estava gostoso, aquele feijão estava charmoso, aquele feijão estava uma uva. Não era qualquer feijão. Aquele feijão tinha cheiro de quê? Aquele feijão é para quem gostava de feijão, é para convencer quem não gostava. A feijoada passou, mas na memória ficou. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Um bocadinho mais. Não coma quaisquer feijões, coma com folhas de coroas olímpicas. O Manuel pôs só cinco folhinhas? Um bocadinho mais. Aquele feijão estava um arco-íris, em cores, aquele feijão estava a cores. O pessoal comeu bem, à custa do trabalho do Manuel, que além de cozinheiro é um belo advogado, que ganhou um bom dinheiro com as custas de um processo e pagou a bebida. Só 700g de charque? Eu disse “um bocadinho mais”. Ai! Que saudade da feijoada, saudades da cenoura e da linguiça e do último prato. 200g de toucinho salgado? Hum! Um bocadinho mais. Eu, que voltei a estudar, pedi um prato de Phaseolus vulgaris, Manuel se confundiu, depois de eu explicar, todo mundo riu. 500g de carne bovina? Um bocadinho mais. Em vez de uma cabeça de alho amassado, foi posta inteira, ele disse que é melhor. Mas só uma cabeça? Ao invés de cair os preços, com a chegada da safra, os preços aumentaram. Bela desculpa para o pão duro, que é o Manuel. Manuel escreveu para mim: “Minha namorada, que mora em Joinville, virá amanhã”. Sábio Manuel, que pôs “que mora em Joinville” entre vírgulas, caso ao contrário ele teria várias namoradas, e só viria aquela que mora em Joinville, ai ele se complicaria. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Depois não reclama. Perguntei: Posso vir aqui pegar mais, Manuel? E ele disse: se eu vir tu não pagarás. Sem ele ver… mais do mesmo. 400g de rabo de porco? Olha! 300g de orelha de porco? Mais pares. 600g de pernil de porco? Logo pernil. 600g pé de porco? Mais pares. 600g de costela de porco defumada? Logo costela. Vai faltar porco. Numa provável sobra fiquei rodeando. Numa eventual mudança do mau humor do cozinheiro, eu pensava em pegar mais. Que feijão! Manuel prefere fazê-lo a comê-lo. Vai entendê-lo. Eu, já prefiro comê-lo que fazê-lo. Manuel pediu-me para ser discreto, agir com discreção, ir devagar, mas sou indiscreto, agi naturalmente, com discrição. Era um prato atrás do outro. Nem dei bola para o Manuel. A bagunça? Não foi culpa minha. Foram eles quem fez. Eu nem havia saído da mesa, ainda. 400g de paio? Um bocadinho mais. 200g de tomate picado? Depois não reclama. 250g de cebola picada? Põe 500g. São indescritíveis os cheiros por que tive de cheirar. Por que aquele feijão é tão cheiroso? Aquele feijão é tão gostoso por quê? Até ali, ninguém sabia o porquê daquele gosto. Eu fui perguntar àquele homem o motivo do feijão ser tão gostoso. Manuel não revelou o porquê. Ninguém sabia por que ele não explicou. Ninguém sabia porque ele não explicou. Chamaram-me. Hum! Não fui porque estava comendo. A minha tia não veio, porque estava doente, e, como ela come três pratos, mas três sobraram, e sobraram para mim. Eu toda hora ia aonde a feijoada estava e ficava ali onde a feijoada estava. E ficava ali à-toa. Dito assim parece à toa. 5 ramos de hortelã? Um bocadinho mais. 2 colheres de coentro picado? Põe três. Aquele era o feijão ao qual me refiro. A feijoada do Manuel. A todo poderosa feijoada dele tem feitiço, aquilo não era panela, era um caldeirão. Aquele é o feijão que eu gosto. Manuel é o cozinheiro de quem lhes falo. Ele é brabo, pois tem brabeza. Ele é bravo, pois tem bravura. Manuel, quem faz um ótimo feijão. 10g de pimenta do reino moída? Põe 15g. A féria do final do dia, ou seja, o acumulado no final do dia foi um cansaço enorme do Manuel. Ele já estava pensando nas férias. 4 colheres de extrato de tomate? Que estranho!Mas põe seis. O sal é a gosto. Há bastantes razões para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Há razões bastante irresistíveis para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Meu caro leitor, a feijoada de sua mãe não chega perto da feijoada daquele cara. A dele seguem anexas linguiças temperadas, seguem anexos segredos, seguem, em axexo, as especiarias do gajo. Após muita insistência, Manuel explicou como se faz: deixe as carnes de molho de um dia para o outro, trocando a água para retirar o sal. Refogue as carnes no toucinho, acrescentando o feijão e a água necessária. Tempere com tomate, cebola, alho, hortelã, pimenta do reino, extrato de tomate e louro. Retire as carnes que forem amolecendo até que o feijão fique cozido. Faltou feijoada, eu bem disse. Comi tanto, que fui processado por Manuel a limpar as panelas. Limpei só uma e fui embora. Tô nem ai pro português.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA -HOMENAGEM NÚMERO 2 – à GAUCHADA e ALAGOANOS, PERNAMBUCANOS, BAIANOS E PARAENSES – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

 

Uma “nova” interpretação para a Revolução Farroupilha, menos Marx e mais Weber e Freire.

Quando penso no Rio Grande do Sul, por incrível que pareça, penso em Alagoas. Destes dois lugares, aparentemente tão díspares, saíram os homens que moldaram o Brasil moderno. Para os menos informados, basta lembrar Floriano, Hermes da Fonseca, Getúlio e Prestes, mas, se preferirem podem ficar com Corisco (que Glauber imortalizou no seu “Deus e o Diabo…”) e um certo Capitão Rodrigo Cambará(que Érico Veríssimo tornou real). Há alguma dúvida sobre os homens citados, ou preciso explicar? Podem não gostar deles, mas isso é outra história. Há dúvidas sobre a importância de Prestes? Sem a chamada “Intentona” o Brasil seria outro, porque a partir dali o exército mudou, e o exército talvez seja a mais importante das nossas instituições, qualquer tre-le-lé: chama o exército. Quando digo aparentemente dispares, me referindo a Alagoas e Rio Grande, é porque há algo em comum de grande importância: são lugares de gente áspera, basta ler os dois grandes escritores representativos destes lugares. Se vissem um gaúcho cavalgando em alta velocidade tentando capturar uma rês, como eu vi certa vez em Dom Pedrito, ou um boiadeiro alagoano rasgando a caatinga, na tentativa de garantir sua “carne de sol” cotidiana, como vi em Palmeiras dos Índios, iriam entender bem o que estou dizendo. Parece que estou ouvindo alguém dizer: “não é mais assim”. Entendo.
Dizem que a Revolução Farroupilha tem a ver com Carne de Sol, ou de Charque. Eu, como baiano não aceito uma explicação simplista desta, isso é reduzir a heroica Guerra do Farrapos a “pó de traque”. Não aceito. Seria reduzir o Rio Grande a um digamos, Goiás, que alguém divide ao meio e ninguém fala nada. Primeiro porque nunca acho que as coisas são simples e se forem, trato de torná-las complicadas. Quem me explicou há muito tempo, em 1985, como funcionava a produção e exportação de charque, foi o Roberto Cavalcanti, até então imaginava que a carne de sol era coisa nascida e criada no Nordeste e sequer supunha que um nordestino transferiu a tecnologia para os gaúchos que passaram a dominar a produção. Nunca soube que exportavam charque há tanto tempo e pra tão longe, e que o produto representava tanto para a economia do Rio Grande. Pois bem, é comum que os historiadores afirmem, com certa convicção, que a causa da revolução farroupilha foi a entrada do charque argentino e Uruguaio no Brasil, tirando o mercado dos estancieiros gaúchos, e que a revolução interessava apenas aos estancieiros. É uma explicação excessivamente materialista, coisa do pessoal que reza pela bíblia marxista, e não condiz com as tradições gaúchas, nem baianas, nem pernambucanas, vou explicar por quê.
Quem dera que as coisas fossem assim tão simples. Se assim fosse, a Revolução dos Farrapos não teria levado 10 anos, não teria mobilizado tanta gente e tampouco alcançaria a extensão territorial que alcançou. Ocorre que a Região Sul do Brasil sempre foi instável sob o ponto de vista político e militar, devido a muitos fatores, entre os quais, a formação política do Rio Grande (que só recentemente, com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, tornou-se um estado da Federação, de fato), a questão do Uruguai (criação da Província Cisplatina que mexeu com o Rio Grande), a Guerra do Paraguai, que contou com 1/4 de soldados do Rio Grande e portanto mobilizou militarmente o Estado, isto sem mencionar os problemas do Brasil com a Argentina, que é um país instável e beligerante desde sua criação. Vou contar um segredinho pra vocês: quando estive na ESG em 85, soube que a ordem de Guerra nº 1 do Brasil era contra a Argentina. Sabem o que isso significava? Nosso principal inimigo não eram os ingleses ou americanos como os intelectuais marxistas achavam, eram os argentinos e isso implicava que nossa “máquina de guerra” estava virada para o Sul o tempo todo, pra invadir a Argentina. Daí veio o Mercosul que matou vários coelhos(melhorou a economia do Sul, integrou a Argentina, etc.) e antes, veio Itaipu que nos vinculou ao Paraguai para o bem ou para o mal, mais para o bem. E, devido às circunstâncias, nós deveríamos pagar muito bem ao Paraguai pela energia, porque como todos sabemos desde o Beira-Rio até o Maracanã, não dá pra confiar nos portenhos.
Daí quando o Grêmio ou Internacional joga contra o Penarol ou o Boca, o pau quebra. Por que? São povos belicosos. Coloque no caldeirão: cavalos (a verdadeira felicidade está no coração das mulheres e no lombo dos cavalos, sei que a maioria dos meus leitores jamais montou, a não ser nos parquinhos, portanto, não têm a menor ideia), sangue espanhol, distância de centros civilizados, desleixo do governo central, clima hostil (frio infernal e calor infernal), deixe cozinhar ao sol e veja o resultado. Mas ainda não chegamos na questão central das causas da Guerra dos Farrapos, e ela pode ser resumida numa palavra, e que palavra, vão saber daqui a pouco.
Em 1985, fui assistir uma palestra do Gilberto Freire na casa dele em Apipucos, no Recife, onde tomei um licor de pitanga do quintal. Estava arrastando os pés, mas lúcido como sempre. Anotei várias coisas, uma delas nunca tinha cogitado. Ele disse textualmente: “Nordeste faz fronteira com a África”. Fronteira? Pois é, recente, lendo os livros do Costa e Silva é que fui entender bem, mas já desconfiava (“eu quase não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”). Pois é, meus amigos, FRONTEIRA é uma palavra muito complexa. Na Fronteira (como vocês devem ter notado no texto anterior que publiquei aqui), você tem que estar preparado pra o que der e vier. E lá no Sul são três. Por isso, os gaúchos, assim como os nordestinos, assim como os paraenses, são tão briguentos, ou melhor, beligerantes. Se não tem ninguém pra brigar, brigam contra eles mesmos. Lembrem-se da Revolução Federalista, foram mais de 10 mil mortos, isso no final do século XIX.
Todos sabemos que o Rio Grande sempre teve uma tradição separatista, que diferentemente dos pernambucanos, baianos, maranhenses e paraenses, era mais fácil de ser insuflada, seja pela geografia, pela cultura, e até pela língua (lembrei do Dicionário Farroupilha do Vidal) e sobretudo pela beligerância e também, porque não, pelo caráter fanfarrão, que depois, a migração europeia tratou de acalmar. Lembro sempre da história do gaúcho que se afogava no Guaíba e berrou: “sai da frente Guaíba, senão te engulo todo”.
Voltando à Guerra dos Farrapos, seria mais pertinente dizer que houve um conjunto de causas, não saberia dizer qual a mais importante (ou estrutural, concedendo alguma coisa à Marx), contudo é bom considerar que o Brasil viveu o “período regencial”, quando o poder central estava enfraquecido e o exército fraturado por facções, dai a ocorrência, não somente da Revolução Farroupilha, mas também da Sabinada, Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Malês, etc. Vejam que, quando o país se reorganizou, Caxias foi lá e acabou com o bafafá. É, meus amigos, quando até baiano faz revolução é porque a coisa estava esculhambada, mas isso não é novidade.

INEDITORIAL – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Gaúcho que é gaúcho é assim:  maula, mas sensível à poesia, hiperbólico mas llano,  como o pampa que lhe faz morada. Mesmo que pareça para muitos,  “Para Nada”, como vaticinou Ascenso Ferreira em seus versos satíricos. O gaúcho é grande:

 

“Eu sou maior do que História Grega, Eu sou gaúcho e me basta…”

 

Por via das dúvidas, estamos no dia 20 de setembro, data máxima do civismo rio-grandense. Haverá, além do Acampamento Farroupilha, no Parque da Harmonia, em Porto Alegre,  muita cavalgada pelo interior, muita discurseira, tanto de palanque , quanto de beira de chão, e fortes doses de folclore. Alguns, como o cientísta politico Dilan Camargo, ridicularização mais um vez os feitos de 35;  Juremir Machado reiterará seu ceticismo diante de qualquer Revolução, Farrapa ou não;  um ou outro historiador lembrará Bento Gonçalves. Mas, curiosamente, há pouco debate sério sobre o 20 de setembro.

 

Ah que falta faz o Décio Freitas! Ele alíás, sentenciou : “A historiografia dos Farrapos não é crítica. Há uma massa enorme de documentos que nunca foi utilizada pelos historiadores. Por quê? Porque os historiadores têm medo de mexer em verdades estabelecidas” – DÉCIO FREITAS, NA APLAUSO 46 (2003) . Nos falta também o Joaquim Felizardo, tanto ou mais iridescente do que o Décio, mas também fumante inveterado e senhor de papos homéricos. Resta-nos, pois, na data, o regozijo com o folclore, farto por todo o Rio Grande e até na China, com a proliferação de CTGs, ficando a lacuna da reflexão.

 

Por certo, náo é este o lugar para teses aprofundadas. Mas pior é a omissão.

 

Comecemos por separar o que é tradição – e aí se enquadra o movimento propriamente chamado de “Tradicionalista”, cuja maior expressão sáo exatamente os CTGs, do que é cultura riograndense, aí situando a questão do separatismo .

 

Há uma confusão muito grande entre o FOLCLORE gaucho, que acabou se concentrando na valorização da Revolução Farroupilha e a questão do sentimento separatista do gaucho.

O folclore é e sempre será RETROSPECTIVO  e nisso ele cumpre – e cumpriu-  importantes papeis. Não fora ele, nós seríamos identificados, no sul, como fazem os australianos, pelo canguru, ou canadenses, por uma árvore. Os paranaenses, aqui ao lado padecem do mesmo estigma. São simbolizados por um pinheiro… O folclore, principalmente depois dos grandes esforços de Paixão Cortes , deu-nos uma expressão antropológica. Forçou a barra. Mas reconstruiu um modelo típico ideal do gaúcho – não o inventou – e o propôs como paradigma no meio de um processo da formação multicultural, que a geografia e a economia só  acentuaram entre 1824 e meados do século XX.  . Funcionou! Aí está. Não foi imposto por nenhum Partido Político ou Igreja sectária. Rebrotou naturalmente do ventre do pampa para a sociedade gaúcha como um Manifesto. E se instalou definitivamente como um dado da cultura.

 

Eu tive minha infância em Santa Maria entre 1945 e 1955, vindo depois para Porto Alegre, filho de um militar de origem alemã e uma prendada professora. Todos de cultura eminente urbana. Nunca montei num cavalo- as tentativas de meu avô, fazendeiro em Tupanciretá, foram desastrosas…- nem me adentrei nas profundezas do sertão pampeano. Sou, rigorosamente, um europeu: branco, supereducado, louco por livros e cinema, socialista. Nem sequer chimarrão se via nas nossas tertúlias portoalegrinas nos anos 60. Às vezes pintava um João, asmático e gauchesco,  de cuia na mão nas rodas da Livraria do Arnaldo,  na Praça da Alfândega. Mas era raro. Mesmo os que chegavam do interior e ganhavam alguma projeção, como um dos melhores tribunos daquela época, vindo de Quaraí, onde fez política, logo se socializavam na cultura eminente urbana de Porto Alegre. E víamos, sempre, a movimentação tradicionalista, cujo epicentro era exatamente no “Julinho”, onde eu estudei e de onde provinha grande parte da elite da época, com distanciamente e até preconceito. – “Era a indiada”, como se dizia. Hoje, malgrado a globalização, o gauchismo foi entronizado pelas elites como um dado da cultura riograndense. E basta ir à Redenção para ver a infinidade de gente de cuia na mão. Até bombacha…Vitória do “tradicionalismo”…

 

Mas é claro que o tradicionalismo, para se firmar, apoiou-se mais no feito da Revolução Farroupilha, que pouco conhece em profundidade, sendo até suspeito para fazê-lo porque o toma como ato de fé ,  do que no próprio folclore. Acabou nesta sobrevalorização do 20 de Setembro, quando, se tivesse sido mais cuidadoso com a História,  teria valorizado mais o 11 de setembro, data da fundação da República Riograndense. A tarefa, porém, de pesquisa cuidadosa no terreno sobre música, danças, indumentária e estilos de vida antigas , são dignas de um prêmio de Antropologia. Eles não revelaram apenas formas de uma outra era, mas a própria alma de um povo rústico em sua formação.

 

Outra confusão do tradicionalismo foi misturar folclore com ideologia. Antes de 64 o Movimento era francamente “trabalhista”e deixou não raros registros desse alinhamento em suas canções. Depois… Melhor nem falar…

 

Mas voltemos ao  separatismo, muitas vezes suscitado no 20 de Setembro.

 

Se ele ocorreu no passado, ou não, cabe aos historiadores comprová-lo. O que é certo é que , quando a Independencia foi feita, em 1822, o Rio Grande era uma vastidão incerta, com uma população muito pequena e, certamente, poucas convicções nativistas. O resto do Brasil, nesta época, com mais de três séculos de vida, já tinha desenvolvido seus próprios interesses, contrários ao domínio colonial, do qual padeciam severas discriminações. O Rio Grande, porém, ocupado por militares portugueses retirados do serviço militar, com epicentro (deslocado) ainda na cidade de Rio Grande, estava longe de participar ativamente, como Minas, Rio de Janeiro e o Nordeste todo, do estado de espírito que levou à Independência. Desconheço como se deu, ela, aqui no Rio Grande, e estranho que, tal como houve  em outros pontos do país, a guarnição lusitana não tenha tomado os brios de quem lhe pagava os soldos…: a Coroa Portuguesa.

 

De qualquer forma, o SEPARATISMO no Rio Grande, se tem um olho no passado, o outro será sempre  PROSPECTIVO, embora , inevitavelmente recorra ao FOLCLORE como justificação e propaganda. . Assim fazem aqui na Europa catalães, bascos , escoceses e todos os demais povos que se separaram , não sem dores, da antiga YUGOSLAVIA.  E também os que se separaram da Uniáo Soviética. Um olho no padre, outro na missa. Porque o projeto POLITICO de emancipação é eminentemente  IDEOLÓGICO, e deve nutrir –se de sólidas  razões para a construção de um futuro independente  melhor.

 

Discutir o separatismo não é também mover uma guerra pela independência do Rio Grande do Sul, tout court. Trata-se, na verdade, de se discutir o federalismo no Brasil. E se ele , tal como está implantado, é bom ou mau para os gaúchos. Nessa discussão, temos que entrar com argumentos e determinação. Não será um convite para um jantar, nem um piquenique, ao qual levamos sanduíches. Trata-se de levantar argumentos e entrar de sola para rediscutir várias questões do federalismo no Brasil: a representação parlamentar no Congresso Nacional, o sistema tributário, o regime de subsídios ao capital e ao trabalho, segundo as regiões do país, os critérios de redistribuição do produto da arrecadação da União no Estado, os meios de comunicação e a industrial cultural, a importância dos resultados na educação , o balanço de produtos estratégicos , como petróleo e outros do subsolo, etc. Daí poderá até haver uma nova concertação federal. Mas se não houver conserto (…) a atual deve ser veemente combatida, nem que seja através de uma luta pela autonomia riograndense. Vivo , aliás, em Portugal, um país “pequeno, mas muito grande”, como lembra José Saramago , em “Viagem a Portugal” e com uma qualidade de vida exemplar, apesar da Crise.  Pois bem, o Rio Grande é até maior do que Portugal, em população, em diversidade geográfica, em PIB industrial , em tecnologia e até em exportações. Só não é  maior em glórias, apesar do Movimento Tradicionalista…

A data do 20 de setembro, portanto, deve nos resgatar parte destas glórias do passado, mas deve, sobretudo, lançar-nos com o olhar para o futuro de forma a nos perguntarmos: O que queremos do Rio Grande. Um Novo Nordeste, como profetizou em série de reportagens memoráveis Franklinde Oliveira, nos anos 1960, mercê da perda de substância no processo econômico em curso no país? Ou ficar a Pátria Livre, e morrer … pelo Rio Grande, senão independente, autônomo.

FACEBOOK – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

FACEBOOK. O veículo desgovernado vai passando, entra o Leonardo com o adágio do dia (hoje ele abriu o baú e mostrou o peitão da Ella). Benício entrou pautando com um link, pra variar. Entrou o Ribondi com uma mulher nua do Ingres, acho que é a Dominique, atrás uma centena de seguidores, o ônibus passa debaixo dos Ipês (azuis, amarelos, brancos), todo mundo curte, e tome cervejas, depois o Bolivar

 com a política e a musica, ultimamente dá pra ouvir a risada dele. Nem parece o cara que citei na minha tese há 30 anos. O Cassio deve estar doente, não botou nada, logo entra no ônibus o pessoal do amor romântico: pelos cachorrinhos, gatinhos, leõezinhos. Finalmente a Silvia aparece, acompanhada pelo Flósculo, sai fora Silvia. O Walter reapareceu. A Silvia curtiu uma flor branca. Ah, o Luis Áquila, volto, Proust. A Gauchada chegou, entra o Vidal, e o Timm direto de Torres. Ishh, baixou o pessoal das músicas. Douglas entrou com suas orações, botou um Cristo do Mantegna, ainda bem. O Bruno e Prdl Saldanha a essa hora? Devem ter caído da cama. Tadeu aparece de boné correndo a maratona do Texas, e o Torelly, onde andará? O Evangelos ativa os neurônios dos arquitetos, aí entra minha filha e diz pra eu parar de falar palavrões. Agora tu vê. Dalvinha e Lee dos EUA e suas meninas lindas. João e sua paixão: MENGOOO. Giselle Moll hoje está curtindo adoidado, e a Patricia Melasso mostra mais uma vez o belo rosto com sardas, no espelho. Patricia Doyle compareceu discretamente com a trilha dos “intocáveis”, Toledo sai do Sarah-Rio e nos bombardeia com uns desenhos fantásticos e uma foto do sítio Alecrim(fui Papai Noel numa festa lá).Instituto Moreira Sales diz que falta sexo, aqui em casa acho que não. Giselle Mancini em inglês, nossa! Como diria o Ribondi. Paulo Cesar da UnB quer um dia mundial sem carro, faz isso não Paulo. Timothy reaparece. Carlos Fernando, que não vejo há um tempão, curtiu “La Règle de Jeu”, está passando em Paris, de graça. Aí entram uns garotos, já chegam kkkkkk. O pessoal do Rio deve estar na praia. Rochana Rams entrou com um ditado indiano. Estou sentindo falta da piada do Fabiano. Aí entra outra carrada de cervejas e logo a seguir o time da política, Rollemberg quer regular o uso da rocha moída. Imagine que até FHC me aparece recebendo alguém no seu Cafofo, será que é candidato? Eu entro com uma historinha do Marquês, ninguém curtiu, pesada demais. O veículo é desgovernado, mas nem tanto. E tome cerveja. Vou pro Badoo.

O FURTO DO ALECRIM – por olsen jr / rio negrinho.sc

O FURTO DO ALECRIM

Olsen Jr.

   A garagem tinha sido adaptada para receber as celebrações de aniversário do primogênito da casa que estava comemorando 13 anos. Os balões coloridos (mobilizaram a família toda na tarefa de enchê-los) estavam onde deveriam estar. Uma plotagem meticulosamente realizada felicitava publicamente o dono da festa. Antes que me perguntem, sim tinha os indefectíveis “brigadeiros” e os indispensáveis “canudinhos recheados com maionese” o que, sem isso, nenhuma comemoração é digna de nota. Aos refrigerantes tradicionais somava-se a coqueluche do lugar, a famosa “Gengibirra” uma bebida cujo ingrediente principal é o gengibre e é muito apreciada.

O dono da festa está como gosta, ora compartilhando os seus jogos eletrônicos com alguns convidados, ora animando pequenos grupos de amigas onde pontifica como o centro das atenções.

Observo o vizinho da casa em frente que acaba de chegar. A residência possui um jardim bem organizado mesclando plantas ornamentais e também outras de utilidades domésticas. Tudo bem cuidado e deixando claro que o morador do lugar é alguém com mentalidade prática e bem determinado.

Depois de cumprimentar a todos enquanto experimenta um canudinho de maionese, fica prestando a atenção no que diz uma das convidadas da festa exibindo dois belos ramos de alecrim… “Olhem só que coisa mais linda, nunca vi um alecrim tão bonito, viçoso, com estas folhas verdes brilhantes… Já tentei de tudo lá em casa e não consigo fazer eles vingarem, deve haver algum segredo, afinal sei que se dão bem em solos mais secos e nem precisam de tantos cuidados”… “E onde você achou estes?” Indaga outra convidada interessada naquela planta… “Ali no jardim daquela casa em frente” – responde ingênua e prontamente…

Foi quando o dono do jardim onde a planta fora retirada resolveu intervir, depois de limpar a boca com um guardanapo, dar uma pigarreada chamando a atenção para si, timidamente, mas seguro do que estava fazendo, afirmar “então a senhora gostou do meu alecrim”… Um breve silêncio açambarcou o grupo de mulheres, e antes que alguém se manifestasse, continuou “o alecrim já era cultivado pelos romanos que o chamavam de rosmarinus, nome em latim e que significa “orvalho da noite” e além de servir de tempero também era usado para fins medicinais, religiosos e até em perfumaria… E não se confunda com o rosmaninho que é outra coisa de gênero bem diferente”…  Aquela breve intervenção deu tempo da mulher que segurava os ramos de alecrim cair em si, e levemente sem graça confessar “olha só e eu me exibindo com a beleza da planta que peguei do teu jardim sem pedir autorização”… Não terminou o pensamento e todos a estas alturas começaram a rir… “Não tem importância – disse o homem – eu sempre distribuo para quem gosta e sabe dar valor e depois, considero um grande elogio para mim que estas coisas (referia-se ao furto), às vezes, aconteçam…

Depois, a mulher se desculpou e tudo acabou em gargalhadas… ”Quem iria supor, brincava ela, que logo o proprietário daquele belo jardim fosse aparecer e me flagrar em uma confissão dessas?”…

Mais tarde pouco antes de ir embora, pensei que alguns pés de alecrim poderiam ficar bem lá em frente da minha casa, para isso deveria esperar o dono das plantas se retirar, então, sem que percebesse, me apropriar de alguns ramos de alegrim… Claro, como bem lembrou, seria mais um grande elogio ao bom gosto e a excelência de seu jardim!

Aquelas circunstâncias me fizeram lembrar um conto “Os Crisântemos”, de John Steinbeck onde a planta é usada como um símbolo que codifica o amor de sua cultivadora para compensar a ausência deste sentimento entre ela e o marido, mas é outra história…

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NOTAS:

A música poderia ser esta…

Composta por Horace Ott…

Tem a letra de Bennie Benjamin, Gloria Caldwell (mulher de Horace) e Marcus Sun…

Foi concebida para a cantora Nina Simone que a gravou em 1964…

Uma versão lenta e introspectiva bem ao seu jeito, aliás uma artista muito visada por ser considerada uma “ativista” pelos direitos civis, etc, etc…

A Novela que já se conhece…

Mas quem “matou a pau” foi o grupo “The Animals”…

A revista Rolling Stone inclui esta “Please don’t let me be misunderstood” entre as 500 melhores músicas de todos os tempos…

Muitos artista já fiseram versões dela…

Santa Esmeralda, Joe Cocker, Moody Blues, Cyndi Lauper, Elvis Costello, Dire Straits… Entre outros…

Vai com o carinho do poeta, sempre!

http://www.youtube.com/watch?v=HHjKzr6tLz0&feature=related

NEM SEMPRE FREUD EXPLICA por olsen jr / rio negrinho.sc

Estou no consultório odontológico esperando a minha vez. Procuro ler alguma coisa (qualquer coisa) para aliviar a tensão. Pego uma revista “Status” (remake)… Na década de 1970 uma publicação com este nome era o melhor que se tinha para a satisfação do público masculino. Guardo um exemplar temático (só Drinks) daquela época. Agora, a edição que tenho em mãos é uma pálida evocação do que a memória ainda retém.

Não deveria ter mais “certas” preocupações, mas tenho… Vejo a senhora que sai do gabinete, caminha lentamente em minha direção… Afirmo para descontrair “não doeu nada, certo?”… Ela parece surpresa com a minha observação, afinal tudo ali é asséptico e sério… “Não, meu filho, não doeu”…

Digo para ela que certos “traumas” ou “má vontade” se preferir, com algumas situações a gente leva da infância e não muda mais… A ela junta-se a atendente e ficam me ouvindo… Continuo, “dentista, cortar cabelo e comprar roupas sempre foram questões a serem resolvidas para mim”. O primeiro por não suportar o ruído que a broca faz (e a gente não vê o que ela está fazendo), o segundo porque nunca me deixaram ter o cabelo comprido na época em que isso era moda (na década de 1960 quando os Beatles mandavam na música pop) e por último, se antes era porque a minha mãe escolhia o que iria vestir, agora simplesmente porque não suporto a constatação sempre quando me vejo num provador de que preciso perder peso, e todo o drama continua…”

A mulher e a recepcionista começam a rir e naquele momento esqueço que sou o próximo a ser atendido. Ela concorda comigo e lembra que na sua infância a broca nos consultórios era acionada por pedais e claro, dependia das flutuações da energia do dentista despendidas no ato… Penso que as alterações de rotação da dita cuja deveriam provocar “dores” de intensidades variadas em curto espaço de tempo… E, “quanto aos provadores, acrescentou ela, tenho verdadeiro pavor… Menos porque não goste de comprar roupas, porque gosto, mas não sou compulsiva como uma amiga que já deve ter perdido a conta de quantos sapatos tem em casa”…

Intervenho e afirmo que deve ser algo no componente genético das mulheres porque não conheço uma que não goste de sapatos…

Ela assente com a cabeça e continua a história afirmando que sua amiga teve de ir a uma festa e comprou uma sandália para combinar com a roupa… Quando já em casa foi procurar a peça descobriu que tinha guardada outra sandália, da mesma cor e modelo… Mas eu estava falando dos provadores, porque os detesto… Algum tempo atrás fui provar uma roupa… Estava lá dentro me preparando para vestir a roupa que pretendia comprar quando escorreguei e tentei me apoiar no que eu pensava ser uma parede daquela cabine… Para minha surpresa, levei um susto, eram apenas cortinas dispostas em “U” e caí de costas no provador ao lado… Naquele momento havia um homem só de cuecas que iria também vestir alguma roupa… Caí por cima dele e foi um “Deus nos acuda!”…

Aí foi a minha vez de juntar-me as gargalhadas da recepcionista… A mulher pareceu não se abalar, disse já ter superado o “trauma”, mas não esquecia o caso… Alguém avisou que o motorista dela já estava esperando e ela saiu, não sem antes abraçar a secretária e a atendente do gabinete… Depois olhou para mim e afirmou “não se preocupe, meu filho, não vai doer nada!”

Agradeci aquele conforto moral e depois que ela saiu fiquei imaginando que nada é melhor que o bom humor para encorajar um homem recalcitrante (sem nenhuma vocação para herói) num gabinete de dentista!

NOTAS:

O cantor e ator Ricky Shane é um mistério…

Filho de pai libanês e mãe francesa…

Foi para Paris com 15 anos…

Gravou  “Mamy Blue” em 1971 e literalmente “matou a pau”…

Depois sumiu… Dedicou-se ao cinema e teatro…

Casou, teve filhos…

Nunca mais ouvi falar dele… Uma pena!

Tinha talento, esta composição é um exemplo, vai…

http://www.youtube.com/watch?v=-lgpC4NTr0Y

A“INVENÇÃO” DO 7 DE SETEMBRO – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Culminando a  Semana da Pátria, neste 7 de setembro, quecelebra o aniversário da Independência do Brasil, tropas militares, estudantes,organizações cívicas e alguns poucos  remanescentes vivos da Força ExpedicionáriaBrasileira – FEB- na II Guerra Mundial desfilarão pelas ruas de cidades de todoo país. Neste dia, em 1822, o Príncipe Regente de Portugal, indo ao encontro dos anseios da nação teria dado o famoso Grito do Ipiranga, que nos separou dePortugal.  Isso posto,  o 7 de setembro, está inscrito, hoje, como adata da Independência do Brasil. Não obstante, esta é apenas parte da verdade,senão, segundo alguns pesquisadores mais críticos, pura invenção. Por quê? Porque, na História, os acontecimentos passados são sempre pensados e transmitidos pelos recursos de cada época e, a partir destas redefinições, se renaturalizam, como se tivessem ocorrido exatamente como são contados.

 

Diversos autores já discutiram a moldura geral da nossa Independência, que se consagrou mediante um pouco glorioso Tratado com a Potência Colonial, mediado pela Inglaterra, justo no dia 07 de setembro de1925.

 

Outros pesquisadores procuram precisar com mais rigor o efetivo significado desta data três anos antes, no suposto Grito da Independência de D.Pedro I.  Demonstram eles  que houve poucos registros do  ato. E pouco crédito sobre ele, embora sempre fosse registrado como um momento importante, mas não “o momento” da Independência. Datam de 1862, data em que se viria  inaugurar a estátua eqüestre de D.Pedro I na Praça da Constituição no Rio de Janeiro, então capital, os depoimentos do Coronel Marcondes e do Tenente Canto, testemunhas do feito, os quais reproduziram outro relatório, do Padre Belquior, de 1826, este considerado peça chave do  momento da fundação do Brasil.  A verdade, porém,  é que só por volta de 1830, no auge da crise do I Império, que resultaria na saída de Dom Pedro I do trono, o 7 de setembro se consolidaria como data nacional.  Foi  Gottfried Heinrich Handelmann quem observou em sua Historia do Brasil, publicada  em1860, este fato, destacando que  “a princípio não se lhe ligou tanta importância (…)”. Outra data, a da Proclamação do Imperador, em 12 de outubro, lhe ofuscava, embora tenha  suscitado preocupações na Europa, que temia, na época, os excessos populistas.

 

Até 1930 , pois,  duas  datas eram celebradas como fundadoras da nação, por ordem de importância: Dia 12 de outubro e o  07 de setembro .

 

Por trás destas duas datas, a tensão política que dividia as opiniões entre liberais e conservadores. Estes, sintonizados com a vaga conservadora do Congresso deViena, em 1815 – e provavelmente mais próximos dos interesses remanescentes da Coroa Portuguesa na Corte de Dom Pedro I, optavam pela cerimônia protocolar, de caráter mais palaciano e militar, preferiam o 7 de setembro. Os liberais,inflamados pelo jornal Aurora Fluminense, que depois de 1927 seria editado por Evaristo da Veiga, preferiam o 12 de outubro, data em que a população teria participado festivamente da independência.

 

As duas datas foram largamente celebradas na primeira década da Independência do Brasil como fundadoras da nação e  ambas eram igualmente  prestigiadas pelo Imperador, mas com distintos significados.  Não foi  por acaso que a celebração do Tratado da Independência, mediado pela Inglaterra, acabou sendo  firmado a 7 de setembro de 1825. Contra ele,  , aliás, levantaram-se indignadas muitas vozes liberais, vez que assinalava a concessão, à penas (!),  da Independência e não sua conquista como resultado de anseios populares. Mas Dom Pedro I soube administrar durante este tempo a controvérsia, não sem os desgastes que o levariam à abdicação. Firmemente, com medidas extremas como a dissolução da Constituinte, e a draconiana repressão à Confederação do Equador,  foi  impondo, não só os diktats do referido Tratado, como, também,  o 7 de setembro como data nacional, amplamente reconhecida em todo o território. Não por acaso, também, contrariamente à data nacional em outros países, bastante festivas, esta sempre foi tomada como festividade cívico-militar.

Chegada a Regência, enfim, já não havia o que discutir, embora nenhum documento, nenhum monumento, nenhum registro viesse a demarcar o 7 de setembro como DATA NACIONAL.

Nos últimos anos,soterrada a história sob o peso dos anos, Governo e Sociedade vêem procurando popularizar mais o 7 de setembro, retirando-o dos quartéis, para uma celebraçãode tipo mais festiva, como deveria ser. Mas a timidez das celebrações demonstra que o esforço ainda levará algum tempo. Até lá, o brado do cronista…

Leitor e Chuva – por jorge lescano / são paulo.sp

Chovia com violência e as pessoas se recolhiam na entrada do banco. Esperavam impacientes que o temporal amainasse para ir embora rumo aos seus afazeres; aparentemente resignado ao capricho do clima, o homem tirou um livro de sua bolsa a tiracolo.

Chuva torrencial.

Sob a laje de concreto

um casal de pardais.

Um leve sorriso modificou-lhe as feições, a turma de garotos comemora a chuva dançando na tormenta entre gritos e gargalhadas. Mesmo interrompida no espaço por prédios, domesticada por encanamentos, civilizada, enfim, a chuva é uma festa da natureza. Repentinamente o leitor decidiu contemplar o primitivo espetáculo do aguaceiro.

A ventania cria vagas que desabam sobre as pessoas apinhadas no refugio acanhado. A rua alaga-se, os carros levantam pequenas ondas ao passar espirrando naqueles que se atrevem a andar no temporal. Os carros perfuram a tarde. A chuva é tão densa que se pode sentir os esforço do veículo para abrir caminho, e este espaço é quase visível quando o carro perfura a massa líquida que cede na parte anterior e vai se fechando novamente a medida que ele avança, de modo que se o carro não estivesse alguns metros adiante no momento seguinte se poderia pensar que é a massa de água que se movimenta em sentido contrário envolvendo o veículo do capô ao porta-malas. As vagas são oblíquas pela ação do vento, isto aumenta a sensação de imobilidade do trânsito de veículos. Tudo acontece em um instante, a sua percepção é simultânea a ponto de ser quase imperceptível no momento em que acontece, e só depois, ao lembrar o fato, é que a observadora toma ciência do fenômeno.

Na outra calçada, na janela de um primeiro andar, alguém está imóvel contemplando a rua. Talvez um homem atarefado que vê frustrar-se uma reunião importante para seus negócios – quando chove o trânsito na cidade vira um caos –, ou uma mãe preocupada com seu filho que ainda não chegou do colégio. Talvez uma criança que se maravilha ao perceber pela primeira vez que a chuva é um espetáculo musical de beleza mágica, embora preocupe o homem de negócios e a mãe do rapaz que demora em chegar.

A figura permanece imóvel além da densa cortina líquida, bem protegida pela vidraça. Não importa quem é. Faz parte da paisagem – monocromática agora – deste início de outono.

Árvores antigas balançam suas frondosas copas ao sabor da ventania, um arbusto baixo se sacode feito cachorro depois do banho.

O catador de papel, provável morador de rua, atrelado às barras de madeira, puxa sua carroça contra o vento, sob o veículo, seu cão de estimação de raça indefinida acompanha o passo lerdo do patrão. O chapéu do homem despeja grossos fios de água diante dos seus olhos. Todo seucorpo está encharcado, tomou banho em plena rua.

Um flash de luz celeste ilumina todo o cenário, por um instante a cena fica congelada, o espectador postado na janela tem uma instantânea do grupo.

O leitor conserva seu livro aberto e olha a chuva. A moça de vestido preto protege seu peito do vento com uma pasta branca. No horário do almoço a jovem havia consumido protetor solar e sabonete e dentifrício e talco para os pés e para o corpo e creme para as mãos e para prevenir rugas no rosto e xampus e tinturas para o cabelo e fixador e creme umectante e desodorante em pasta e aerossol e esmaltes para as unhas e batons para o dia e para a noite e sombra para os olhos e rímel para os cílios e supercílios, pois ela está ligeiramente acima do peso e é oportuno completar a ausência de gorduras na comida com cosméticos,mesmo quando se é apenas heroína de uma história literária. 

Um motociclista veste a brilhante roupa impermeável e as galochas para enfrentar a intempérie, deve entregar documentos ou mercadoria antes do fim do expediente comercial. Nada mais pode ser visto no lampejo do raio. O trovão estremece o ar, afasta-se ribombando em ziguezague.

A moça estica a mão espalmada para conferir se a chuva parou, como as horas, a água lhe escorre entre os dedos. Diminui a força d’água, ou é a fúria do vento que decresce e dá a sensação de que a chuva está amainando. Lentamente o grupo acorda. Em câmera lenta os personagens retornam à vida. De fato, a chuva está mais leve. A figura da janela desaparece.

Não havia o cheiro de terra molhada que tanto lhe agradava quando criança e ainda não era noite para contemplar o rastro lusco-fusco das rodas dos carros sobre o asfalto. Brilhos fugitivos, um dos prazeres visuais da chuva noturna na cidade. Os guarda-chuvas, apesar de perigosos para seus óculos, especialmente se portados por mulheres, sempre mais baixas que ele, também mereceriam a atenção do pintor. Amava a chuva e sabia que não poderia viver numa cidade dominada pelo sol. A chuva sempre lhe trazia lembranças de sua cidade que lhe parecia nórdica com o céu de nuvens baixas e escuras de abril e agosto,

No fim do outono a cidade vive sua época mais bela, com as árvores que perdem a folhagem enfeitando o chão com cores que vão do amarelo ao terra-sombra passando pelo ocre, o sépia, o laranja, e ouve-se o crepitar das folhas ao andar sobre elas. O sol pálido cria longos crepúsculos feéricos que convidam a passeios distraídos sem rumo, perambular a esmo até as luzes serem acesas. Quando o chuvisco apressa a noite, ele veste a sua velha capa de chuva e sai a vagar. Nesses anoiteceres sente-se na Londres dos romances de mistério do século XIX. Longe dela percebe que ama a sua cidade que provavelmente nunca mais verá. O homem fechou o livro, guardou-o na bolsa, levantou a gola do casaco, abaixou a cabeça e adentrou na massa líquida da tarde.

As árvores conservariam em suas copas agitadas os rastros da tempestade e por longas horas continuariam a despejar gotículas iridescentes de cores variegadas ao ritmo das luzes que aos poucos se acendem na cidade e dissolvem os objetos em massas indefinidas de cor pastel. O crepúsculo distribui seu cromatismo sobre formas evanescentes que aos poucos desaparecem pela invasão das sombras noturnas. À luz dos faróis, o chuvisco é um redemoinho de alfinetes.

Portugal e Brasil: apáticos ou tolerantes? Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa. – por graciano coutinho

Às indignidades de que são alvo diariamente, portugueses e brasileiros reagem com uma indolência irritante. Será isso necessariamente mau?

 

 

 A decisão do regulador das telecomunicações no Brasil, a Anatel, de proibir as operadoras Claro, TIM e Oi de vender novos chips de telemóveis deixou o país de boca aberta. Afinal, um órgão estatal enfrentar, em nome do bom serviço à população, o poder dos gigantes mexicano, italiano e brasileiro (com forte participação portuguesa) não acontece todos os dias. Na manhã seguinte à decisão já três delegações dos operadores, que, até há uma semana, dizia-se, faziam o que queriam do regulador, estavam à porta da Anatel para tentar minorar estragos.

Enquanto as três empresas (a Vivo escapou com advertência) não apresentarem um plano de investimento em antenas que melhore as condições de rede dos consumidores, a Anatel não permitirá a venda de mais uma linha sequer.

A propósito desta medida, um correspondente britânico no Brasil comentou que é uma medida histórica e necessária “porque o consumidor brasileiro é o mais maltratado do mundo”. “O brasileiro é de uma apatia incrível na defesa dos seus direitos”, acrescentou um jornalista americano. “E essa apatia alastra a tudo, incluindo, à política”, rematou uma correspondente francófona.

O correspondente português presente na conversa não disse nada. Mas pensou. Lembrou-se de duas fotos colocadas propositadamente lado a lado nesse mesmo dia nas redes sociais. Numa, via-se uma praça de Madrid invadida por manifestantes a protestar contra as medidas de Rajoy; noutra, uma praia da Costa de Caparica invadida por manifestantes a protestar contra a onda de calor. Os comentários às fotos eram de portugueses indignados com a “apatia” (a mesma palavra do americano e da francesa) dos compatriotas que não reagem à forma como são “maltratados” (a mesma palavra do britânico) pelos seus governantes.

Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa.

E segundo o Mahabharata, a Bíblia do hinduísmo e maior livro da história (200 mil versos, o equivalente a 20 Odisseias), a apatia é um dos piores defeitos do ser humano. Uma das conclusões do tratado filosófico indiano é que “os equilibrados elevam-se, os ativos ficam na região intermediária e os apáticos descem, envolvidos nas piores qualidades porque a preguiça, a ilusão e a ignorância nascem da apatia”.

Mas a fronteira entre uma qualidade e um defeito (persistência-teimosia, autoridade-violência) é muito mais ténue do que se supõe. Talvez a apatia seja apenas a face negativa da tolerância (e o protesto a face positiva da intolerância).

Os correspondentes em causa e os madrilenos em manifestação convivem ou conviveram com siglas e nomes como IRA, Ku Klux Klan, Le Pen ou ETA; Brasil e Portugal são dois países praticamente imunes a separatismos e em que os grupos radicais intolerantes são absolutamente residuais.

No Brasil, convivem nas mesmas cidades pretos e brancos, árabes e judeus, católicos e protestantes, sem sinais de violência por esse motivo – a violência é motivada quase exclusivamente pela desigualdade económica. Em Portugal,  demorou mas fez-se uma revolução após 50 anos de ditadura – uma revolução simbolizada por uma flor num cano de espingarda.

Os brasileiros e o portugueses são apáticos com as injustiças diárias mas talvez saibam reagir com firmeza no momento certo. Como a Anatel, que até à semana passada era considerada uma agência apática.

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Crónicas de um português emigrado no Brasil

UMA FARMÁCIA DENTRO DO CARRO – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

Na medida em que vamos passando pelo tempo (detesto a palavra envelhecer) estamos adquirindo e incorporando hábitos.  Quando se é jovem fazemos pouco desta prática ao constatá-la nos outros. Principalmente quando o fato se dá em cima de algo que julgamos não  precisar tão cedo, ou melhor, sequer nos imaginamos em situação de “necessitar”… Estou pensando em “remédios”, por exemplo.

Não lembro quando percebi isso, mas acredito que foi enquanto esperava o frentista abastecer o carro, “the good and old Hägar, o Horríve”l (é o nome dele, herdado do Dick Browne)… Arrisco em contar a história.

Primeiro foi um inocente colírio “Moura Brasil”, apenas para refrescar e clarear a vista já antecipando uma hipotética necessidade em uma viagem em função de minhas novas atividades pelo estado de Santa Catarina…

Depois, quando um check-up detectou uma hipertensão e tive que regularizar isso diariamente com um medicamente tradicional, the big and famous “Captopril”… Como sempre me lembrava de tomar o remédio quando já estava dentro do carro, não tive dúvidas em deixar uma caixa ali à mão para não deixar passar batido…

Mais tarde fui contagiado pela mania de limpar as mãos com um gel anticéptico antes de tocar no volante, segundo se afirmava era uma maneira de não se contaminar com a tal gripe “H1N1” ou Gripe “A”… O contato estava resolvido, mas e o ar?… Não sou médico, estava fazendo o que recomendava a vox populi vox dei…

Acreditando que o tal gel poderia ressecar as mãos, adicionei o hidratante, por recomendação de uma amiga, um creme da Natura, com odor de maracujá, belo, caro, mas eficiente, um odor agradável compensava todo o mise-en-scène em aplicá-lo…

Seguindo a máxima de que “vale mais prevenir que remediar” após três ataques de gota em tempos diferentes com uma dor insuportável, tive de me precaver… A gota era considerada antigamente, a “doença dos reis”, o excesso de proteínas no organismo gerando um ácido úrico além da conta e que se não tratado acaba em “gota”…  Depois de ler sobre o assunto, não é difícil imaginar, aqueles senhores diante de uma mesa farta com carne de javali, coelho, ovelha assada e aves silvestres acompanhadas com vinho tinto… Ingerindo com a pele, o couro, além dos miúdos de aves, coração, moela, fígado onde se concentram os mais altos teores de toxinas e de onde se origina o tal ácido úrico… Well, levava comigo sempre uma caixinha de “Colchicina”… Três comprimidos ao dia, de preferência antes de comer qualquer daquelas comidas apreciáveis por um descendente de viking…

Com a mudança de clima oriunda da altitude (800 m acima do nível do mar) um frio de inverno, lugar úmido e desencanto o velho “Vick – VapoRub” de guerra para melhorar a respiração… À noite, o igualmente imbatível “Neosoro”, no meu tempo de guri era “Rinosoro”, no fim, mais do mesmo…

Todas às vezes que estou num posto de gasolina constato a presença de todos estes medicamentos à minha disposição… Semelhantes àquelas equipes que acompanham os ciclistas na disputa do “Tour de France” estão presentes e correm paralelamente, em algumas etapas não se precisa deles, mas ninguém adivinha qual e por isso andam todos juntos… Depois, se servir de consolo, lembro de Bernard Shaw quando diz “Use toda a sua saúde a ponto de esgotá-la. E gaste todo o seu dinheiro antes de morrer. Não vale a pena sobreviver a essas coisas”… O humor cáustico do escritor irlandês, no entanto, apenas abranda a consciência de que enquanto aquela etapa da prova não for cumprida o atleta não muda, mas a equipe de apoio está constantemente em transição!

lembrei do Mencken “Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria”.

 

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NOTAS:

A música poderia ser essa, “Summertime Blue”, de Eddie Cochran…

Gravada em 1958, foi um dos grandes sucessos daquele ano…

A canção foi trilha do filme “Caddyshack’ (1980)…

Foi classificada em 73 lugar entre as maiores 500 de todos os tempos pela Revista Rolling Stone…

Também gravada por inúmeros artistas, entre eles, os grupos “The Beach Boys” e “The Who”…

Eddie Cochran morreu em 1960, aos 22 anos num acidente de carro…

Este formato que deu para a gravação de “Summertime Blue” acabou moldando o que viria depois…

Do rockabilly ao rok’n roll…

http://www.youtube.com/watch?v=MeWC59FJqGc

Paca, tatu, cutia não! – por olsen jr. / rio negrinho.sc

Prometi que não ia falar sobre o assunto, mas não resisto. A notícia da separação daquela artista e modelo, depois de oito “longos” meses de casamento me faz lembrar a história de duas amigas que se encontraram num shopping após quase 15 anos sem se ver.

– Olá querida, quanto tempo?

“Muito tempo mesmo”, pensou a outra, fazendo um breve cálculo, mentalmente, enquanto procurava o que dizer.

– Como você está bem…

Surpreendida com aquele encontro, nem pôde dimensionar o elogio que recebia, mas estava atenta à indumentária da amiga. Não tinha muita noção de etiqueta; intuia, entretanto, que aquele vestido negro não era a roupa mais adequada para se usar em uma tarde de um dia de semana para simples compras.

– Qual é a fórmula para permanecer jovem assim?

As palavras saíam em golfejos, como se tivessem ensaiadas durante muito tempo apenas para preencherem aquelas ocasiões.

“Muito trabalho… muito trabalho”, pensou, sem no entanto dizer nada. A amiga parecia não lhe querer ouvir.

– Mas que blazer bonito este seu, onde você comprou?

“Pois agora”, pensou, fazia pelo menos dez anos que tinha aquela roupa, não percebia nada de mais, era comum. O que será que ela estava pretendendo?

– Você está bem mesmo, hein? Sempre invejei esta sua postura, tudo o que você veste fica muito bem.

Enquanto ela falava, não pôde deixar de observar aquele batom vermelho carregado, o que tornava a boca da amiga uma provocação desnecessária.

– Há! – exclamou – como tudo isso me cansa.

E aquela sombra no olho? O conjunto era por demais chamativo.

– Estou aqui há três horas e não gastei ainda os R$ 2 mil que ganhei ontem.

Como havia mudado, não parecia ser a mesma com quem convivera em outros tempos.

– Você casou? Tem filhos? Como está a vida?

Ela falava muito rápido, em pequenos arranques, olhando para os lados, como se estivesse fazendo um esforço por estar ali, tendo de bancar aquela “quase obrigação” de conversar e ser agradável. Fez menção de responder, mas a amiga insistia com outras referências.

– Eu consegui ficar casada por três meses, imagina, não sirvo para ficar fechada num apartamento, não dou para a coisa, entende? Quer dizer, dar eu dou, mas não… você sabe? Perguntou sorrindo e revelando os dentes (outrora brancos) com a cor amarelada da nicotina levemente pigmentada com o vermelho do batom.

A amiga tinha mudado muito, percebia sem esforço, punha um toque de vulgaridade em tudo o que fazia, falava ou gesticulava, parecia muito confiante na beleza do rosto ou do corpo, o quê, apesar da idade (faziam aniversário no mesmo mês, dezembro, e do mesmo ano, 53), sabia-o ainda era cobiçado.

– Gosto da vida que levo, sem horário para acordar, sem compromisso para fazer ou deixar de fazer isso ou aquilo, sem explicar nada para ninguém. Vou onde quero, à hora que quero, com quem eu quero. Ganho meu dinheiro, não devo nada para ninguém. Viajo, passeio, tenho minhas aventuras… tudo sem compromisso. Quem quiser, tem de me aceitar como sou, livre, desimpedida, sexy, gostosa, cheia de vida, romântica, sonhadora, com tudo para ser “curtido” ainda… Ah! Quer saber se sou feliz? E como, querida… A propósito, fale um pouco de você.

Dizer o quê? Não sabia por onde começar, principalmente porque todo aquele interesse parecia falso.

– Não vejo a hora, interrompe a amiga, de chegar em casa, ligar a banheira, encher de sais, e me deitar naquela espuma… sei que deve ter pelo menos dois buquês de flores, cartões apaixonados, de admiradores que não dou a mínima, mas faço com que pensem serem especiais, serem únicos, todos os homens gostam… como são tolos estes homens. Suspirou, e como se lembrasse de algo, repetiu:

– E você, querida? Fale de você, o que tem feito?

Compreendendo o cinismo de tudo aquilo e no que sua amiga se transformara, não teve dúvidas:

– Ah! Eu… Bem, eu também sou puta!

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NOTAS:

Vai a da semana com o carinho de sempre…

A música poderia ser esta…

http://www.youtube.com/watch?v=ifMuAvaPOd0&feature=related

O “Trio Galleta” foi uma banda argentina fundada em 1969…

Iniciaram fazendo covers (Creedence, Ray Charles) depois criaram o seu próprio som…

A música “I’m so Happy” gravada em 1972 foi uma das mais tocadas no Brasil, deixando o Rei Roberto Carlos em segundo lugar…

Teve uma versão “Sou Feliz” feia por “The Fevers” que também emplacou…

Só para “matar” a saudades…

INCONFIDÊNCIAS, INCONVENIÊNCIAS – por amailcar nevesw / ilha de santa catarina.sc

 

– Não deviam permitir que envelhecesse! – Ela disparou, os olhos injetados.

– Fazer o que? – Ele contrapôs. – Se as pessoas não morrem, elas envelhecem.

– Nem tolerar que chegassem jamais perto de qualquer igreja! As religiões, todas, não fazem mais do que amolecer o caráter e curvar a espinha! Tarefa ainda mais fácil se o elemento se tornou um velho: por idade, por escassez de saúde ou por opção de vida – Ela ignora o comentário que Ele fez.

– Como se fosse fácil tratar todo mundo com o suprassumo da gerontologia. Como se fosse só lhes dar pílulas da eterna juventude – Ele resmunga.

– Não se trata disso, não te faças de desentendido – agora Ela o escutou. – Como é que sempre se fez? Como é que sempre se evitaram os conflitos potencialmente comprometedores?

– Aposentando compulsoriamente com vencimentos integrais? – Ele arrisca. – Dando férias perpétuas como adido cultural da Embaixada na Letônia? Internando num manicômio judicial?

– Eu é que ainda vou acabar um dia te internando num manicômio! – Ela explode. E suavizando em seguida o tom da voz e a rudeza do rosto: – Parece que hoje nasceste só pra me contrariar, só pra me irritar. Qual foi o bicho que te mordeu?

– Acho que andas meio nervosa – Ele apalpa cuidadosamente o caminho, as palavras, o sorriso desenxabido.

– E não hei de andar?! Não viste isso, por acaso? Então não precisavas nem perguntar – Ela mal se contém. – Não podiam permitir que gente assim envelhecesse!

– E fazer o que com elas? – Ele decide ser direto.

– O que sempre fizeram, o que sempre fizemos: matá-las antes de entrarem na imbecilidade, antes de saírem por aí dizendo asneiras, antes de apanharem um microfone para pregar a palavra de Deus. Neopastores neoevangélicos de almas arrependidas, bah! Fizeram o que fizeram de livre e espontânea vontade, porque acreditavam no que faziam e ganhavam muito dinheiro para fazer tudo direitinho e, depois de velhos, saem-se com essa de consciência, reconciliação e busca pela paz. – Furiosa, Ela: – Deveriam é ter buscado a paz eterna no momento em que ainda estavam lúcidos, isto é que sim!

– O General teu pai, com todo o respeito, deve estar agora se revirando no túmulo – Ele enfim concorda com Ela.

– O General – que Deus o tenha! – teria resolvido isso há muito. Assim que esse delegadinho de Guerra abrisse o caderno para escrever a primeira palavra, a primeira letra do título do livro, ele teria deixado de ser gente, de ser deste mundo – Ela continua exaltada. – Não fizeram o que Papai teria feito de imediato para preservar a pele e a memória de todos, e o que acontece? O que acontece, hem?

– O General é citado no livro com todas as letras do nome, na patente de Coronel, como torturador, assassino e incinerador de cadáveres numa usina de açúcar em Campos dos Goitacazes – Ele fala como se tivesse decorado o texto.

– Isso mesmo! – Ela aplaude, entusiasmada. – Isso mesmo! E, no entanto, ele apenas honrava seu juramento de defender a Pátria contra o inimigo, contra esses solertes lacaios pagos com o ouro de Moscou! Se o Alto Comando fraquejava, o General impunha sua linha, dura porém eficaz, e o Brasil tornou-se um oásis de paz e prosperidade num mundo mergulhado em sabotagens, greves, atentados, conflitos internos e guerras fratricidas.

– É verdade – Ele parece perplexo. – Como é que falharam assim, deixando vivo um delegado do DOPS que sabia de coisas para abrir o bico? Será que foi só porque ele vivia meio escondido lá no Espírito Santo?

 AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

LIVROS – por omar de la roca / são paulo.sp

Livros

Sim.Foi no dia que não acordei encostado.Mas fui revirado e sacudido e conto tudo tim tim por tim tim.Depois que saí do Consulado,passei de raspão de Cultura.E o peso de todos aqueles livros caiu como uma avalanche por cima de mim.Quantos e quantos,incontáveis.E fui colhendo os títulos.Cada um mais estranho que o outro.Destaco apenas um “ A sociedade literária e a torta de casca de batatas.”E me pergunto,como alguém pode dar um nome destes? Bom,ao menos me fez curioso.Mas não o peguei,já que estava na entrada e eu queria ver mais.E aos poucos fui tomado pela imensidão de livros,pela musica de Vivaldi que tentava suavizar a presença atordoante dos livros.Nem que tivesse dez vidas e vivesse cem anos cada, não conseguiria le-los todos.E pensar que um dia eu acreditei que poderia encontrar tudo que eu quisesse nos livros.Os livros,para quem se escreve?Comercialmente ? Sim,é o que desconfio quando vejo aqueles títulos esdrúxulos.Para exorcizar antigos demônios?Sim,aprendi isso com meus contos.Contos ou seja qual for o nome.Que me mostram suas caras de repente e logo se escondem me instigando a descobri-los inteiros dentro de mim e expo-los ao sol.Pobres contos.Quem os lerá?Que eu saiba apenas o espelho,que mantenho suspenso por um fio num quarto espaçoso e arejado e o visito todos os dias.Para aprender alguma coisa aqui,outra ali quando observo meus cabelos que insistem em branquear.Voltando a livraria,percorro meio assustado a galeria repleta.Estranho,não é a primeiras vez que venho aqui e não me senti assim da outra vez.Acho que começo a ver tudo com novos olhos.Acho os livros que queria ler.Ulisses de James Joyce e A Montanha Mágica de Thomas Mann.Mas são tão grossos que compra-los é uma impossibilidade absoluta.Pelo menos agora.E muitos outros desfilam suas capas coloridas,e eu que tenho um fraco por cores,me aproximo para aprecia-las.Vi Jane Austeen e pensei em falar com ela.Mas não quis interromper,que ela estava escrevendo com uma longa pena de pavão.Quase pedi um autografo,mas resolvi não pagar o mico.E a capa do livro dela,um livro chique,bilíngüe me mostrou um lírio que ela trazia escondido. Andei mais um pouco na direção da saída e um livro de lombada azul perdido entre outros me chamou a atenção.Era uma compilação de contos de amor de Gibran.E eu o folheei saboreando os poemas com avidez e me envergonhei com o que escrevera e tentei  guardar alguns de memória para anota-los aqui,mas falhei.O que ficou foi,” se o inverno dissesse que tinha a primavera no coração,alguém acreditaria nele?” De outro só me lembro da essência,falava de falcões presos em gaiolas enquanto viam os passarinhos voando livres pelos céus da campina. Me lembrei então dos meus ventos que  percorriam céleres os campos descampados,as clareiras mágicas onde um beija flor pousou num céu de maio ,ventos que iam colhendo folhas e se desculpando com as arvores,quando em sua pressa quebravam alguns pequenos galhos secos e elas não gostavam.Ventos que circulavam as pedras e as pessoas que se abrigavam em suas roupas,mas não eu que os acolhia com prazer e abria meus braços alegre para que eles me possuíssem por inteiro.E tudo isso abrindo um pequeno livro.Coloquei-o no lugar.Não sei mais se era o lugar que ele estava acostumado.Senão espero que tenha encontrado boa companhia,que ele merece.Fui caminhando devagar pela geleira que eu temia desabasse sobre mim como uma avalanche de papel picado e folhas soltas,perdidas, reviradas e esquecidas.E depois do que li, entre revirado e sacudido me encontrei encantado e encontado e apesar de tudo,cantos e desencontos  achei que valia a pena continuar escrevendo.

Nem que fosse apenas para o espelho que pendurei por um fio,numa parede nua de um quarto amplo arejado.Meus contos serão condenados a serem como uma fonte de água limpa porém escondida entre as pedras,que a poucos,muito poucos mata a sede e mesmo assim tem medo de falhar,de secar e busca incessantemente no seio da terra a água com a qual ira ao menos mitigar a sede de alguns viajores que se arriscarem pelo caminhos pedregosos que levam a ela. E que vê a água secar logo depois que cai,sem ninguém para aproveita-la.Ou devo  aprender a manter a água presa,sem desperdício,nem que faça barreiras com areia,folhas secas, ventos e livros?Que agora,longe da livraria, posso falar deles sem medo de temporais e ventanias.

MOMENTO II – por olsen jr / rio negrinho.sc

NEM SEMPRE FOI ASSIM

 

Coincidências à parte, aliás, como já disse em outro lugar, coincidência é o acaso premeditado. Foi em novembro de 2004, quando ocupava o cargo de gerente de projetos da Fundação Catarinense de Cultura, em conversa com o escritor e editor, Francisco José Pereira, justamente no ano em que se lembravam os 40 anos do golpe militar no Brasil, ato que baniu o regime democrático que havia e se instalou o obscurantismo que vivenciamos durante 21 anos, que sugeri para ele a idéia de que deveríamos publicar uma antologia de contos “temática” tendo como leitmotiv os anos de chumbo. Não apenas para marcar a data, mas também e principalmente, para não descuidarmos de nossa própria participação nesta história.

O Francisco Pereira ouviu atentamente afirmando “(…) Foi uma pena que não tenhamos lembrado em tempo para fazer ainda este ano (…)”… Como o bate-papo continuou, comecei dizendo que o importante naquela situação era marcar a presença, contar a história, que mais não sirva, disse: para que esta juventude que está aí submetida à internet, vai e volta para qualquer lugar quando bem entende, diz o que quer a hora que quer, enfim, que tudo está pára ser feito, não há restrições nenhuma e pouco se está fazendo, mas principalmente, para que saibam que tudo isso nem sempre foi assim…

Quando ouviu a última expressão, Francisco teve um brilho no olhar, repetiu “nem sempre foi assim”, está aí um bom título e já pegou uma folha de papel com uma caneta e começamos a fazer uma lista de escritores. Antes de responder a pergunta “quem vamos convidar?”, deveríamos definir os critérios para estas escolhas. Na verdade tudo foi muito claro, deveriam ser escritores que tivessem “uma questão com a ditadura”, seja de prisão arbitrária, de constrangimento, de cerceamento de liberdade, de perseguição política, de algo que houvesse estigmatizado o “protagonista/autor” dentro do regime estratocratico imposto pelo arbítrio. Começamos pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A primeira lista pareceu alentadora, pelos nomes e pelas qualidades dos escritores mencionados. O tempo passou e realizamos mais duas reuniões com os mesmos propósitos, uma no Café Matisse e mais outra na FCC… Novamente o tempo correndo célere, e tudo aquilo me pareceu mais o sonho romântico de dois idealistas que primeiro precisam se encharcar de idéias, reviverem casos, amargar desilusões novamente, repassar o que poderia ter sido e não foi, e finalmente, cair na realidade dos novos tempos e tratar tudo com o mesmo desvê-lo, mas com a razão possibilitada pelo distanciamento histórico dos fatos e claro, ter a consciência de que se trata do testemunho de (sobre)viventes de um tempo mal.

Mantivemos mais dois contatos, desta vez por telefone, já tratando dos prazos das entregas dos contos. Agora, três anos (e daí a coincidência referida na primeira linha deste texto) depois daquela conversa inicial, será dada ao público a antologia “Nem Sempre Foi Assim” – contos dos anos de chumbo, com lançamento no dia 04 de dezembro, a partir das 19h30min, na Saraiva Mega Store do Shopping Iguatemiem Florianópolis. Osautores convidados (por ordem alfabética): Amilcar Neves, Cristovam Buarque, Emanuel Medeiros Vieira, Francisco José Pereira, Mario Prata, Olsen Jr., Sérgio da Costa Ramos, Sérgio Faraco, Silveira de Souza e Urda Alice Klueger.

A propósito, lembrei agora, quando perguntaram ao Abade de Siéyès o que tinha feito durante a Revolução Francesa, simplesmente respondeu: “Eu sobrevivi!”.

Bem, camaradas, este livro trata de alguns “sobreviventes” e de suas histórias.

 

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NOTAS:

 

Segue o Momento II da homenagem ao camarada Francisco José Pereira…

Morto no dia 02 de julho…

Um  pouco da história…

A música pode ser esta…

Pouca gente sabe, mas o Hino do Estudante Brasileiro foi composta por Vi nícius de Moraes…

Porém (e sempre tem um “porém”, diria o amigo dramaturgo Plínio Marcos) o que ficou consagrado como Hino foi “Caminhando” (ou para não dizer que não falei das flores) de Geraldo Vandré…

Vai…

http://www.youtube.com/watch?v=gVmmgvgB8Ms

 

A LIBERDADE ENFIM (a morte de Francisco José Pereira) – por olsen jr / rio negrinho.sc

Morreu no dia 02 de julho o camarada Francisco José Pereira. Dois dias antes da celebração de independência dos EUA. Só uma alusão uma vez que não podemos escolher a hora, nem local e muitíssimo menos o dia para partir. O “Chico” como era conhecido entre os amigos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro, advogado de profissão, defensor dos trabalhadores em causas inerentes durante a década de 1960, empenhado dentro dos sindicatos e fora deles. Em algum tempo dos “anos de chumbo” esteve exilado e trabalhou como adido cultural na Unesco.

Um Homem (assim mesmo com “H” maiúsculo) de fibra, para dizer pouco, com um código de ética irrepreensível… Quando foi assessor do prefeito Sérgio Grando em Florianópolis, por conta de sua eficiência, ganhou certo dia um presente de algum contribuinte… Francisco, antes mesmo que o gesto pudesse ser tomado como um “agradecimento” ou mesmo uma “preparação para futura demanda”, na condição de quem conhece a “psique” envolvente de tal ação, não teve dúvidas e mandou devolver a oferenda sob a alegação básica de que “já era remunerado pelo trabalho que fazia” dispensando outros emolientes capazes de questionar o seu fulcro.

O Francisco não tergiversava. Como era um Ser íntegro cobrava esta integridade de todo o mundo que compartilhasse de sua amizade. Não estou autorizado e sequer tenho procuração para “ressuscitar” fatos e pessoas que participaram (ou deixaram de) de circunstâncias de cujo comportamento poderia redundar em benefícios sociais para outras pessoas dentro da legalidade… O que não impede de citar o fato omitindo o “santo”…  Houve um momento na história que o Francisco precisava de um depoimento/declaração de certo escritor catarinense para que um conhecido militante do Partido pudesse ser beneficiado com a Lei da Anistia… O “tal” escritor (ele próprio um beneficiado com a Lei) se recusou em fazê-lo… Mostrando toda a sua contrariedade, Francisco Pereira – a partir daquele momento – jamais voltou a dirigir a palavra ao dito escriba… E quando indagado sobre tal comportamento, sempre explicava as razões para manter tal comportamento… A verdade com ele jamais era escamoteada.

Fomos apresentados pelo poeta C. Ronald em uma cerimônia de entrega de prêmios na Casa do Jornalista no antigo endereço (na Deodoro…) o lugar havia sido escolhido para a cerimônia, o Senador Jayson Barreto havia doado o seu “hipotético jetom” (calma que já explico) para que se organizasse um Concurso Literário (alô Remy Fontana) dando uma destinação social a uma excrescência (porque aquele seria um pagamento para os Senadores irem pela última vez ao Colégio Eleitoral, a forma que a estratocracia tinha arranjado para se escolher o futuro presidente do País)… Por pressões populares o tal jetom acabou não saindo, mas o Senador Jayson Barreto manteve a palavra e bancou o Concurso do seu próprio bolso… A cerimônia foi  prestigiada, naquele tempo o (P)MDB era muito respeitado e lembro da manchete do jornal “O Estado” (o mais antigo) “Na falta de eventos culturais se prestigia até entrega de prêmios’… Matéria assinada pelo jornalista Paulo Clóvis… O vencedor do Concurso foi o escritor Olsen Jr. com o conto “Marcas da Solidão”…   Lembro que o poeta C. Ronald me pegou pelo  braço e disse, venha cá que vou te apresentar um “verdadeiro comunista”… Um homem honesto, íntegro…

Desde então, formamos uma amizade que nunca se dissipou nos maus “entendimentos da vida”… Isso decorre também porque nunca permiti que os fatos e as coisas da história em que faço parte não sejam todos bem esclarecidos… Sou alguém que sempre toma posição, faço a escolha (à maneira sartriana, porque a vida é sempre o resultado de “escolha” e “consequência”) e assumo a ação daí decorrente… Em minha casa nem o detergente da cozinha é neutro…  “Almas gêmeas”, penso, foi isso… Uma convivência íntegra muitas vezes com opiniões divergentes, sim, mas com respeito às convicções de cada um…

Na Academia Catarinense de Letras, Francisco ocupava a Cadeira 05, cujo Patrono foi o jornalista Crispim Mira (que morreu assassinado por suas convicções)… Nasceu na rua que leva o nome do Patrono da sua cadeira e também publicou um livro biográfico sobre ele… Na Instituição não existe outra combinação astral que reúna tantas coincidências…

Agora preciso confessar: quando pretendi a Cadeira 05, fui o primeiro a fazer a inscrição e nunca me detive em analisar as tais “coincidências” que por si só, tornariam o Francisco imbatível na disputa… Quando alguém sugeriu que eu deveria “retirar a candidatura”, me pareceu um convite para um ato de covardia… Tudo menos isso… Tomada a decisão, feita a escolha vou até o fim… Cinco candidatos inscritos disputando os 20 votos necessários para o ingresso na Academia… Os dois mais votados foram para o segundo turno e o Francisco foi eleito com alguns votos (dos oito que fiz) naquele escrutínio…  O Francisco ficou reconhecido com isso e, à exceção desta tive o seu apoio sempre até ser eleito por minha vez à Cadeira 11… Hoje, à luz da maturidade que a convivência possibilitou, o gesto de “renúncia” naquela época poderia ser considerado como um ato de elegância e reverência…

Mas, considero “quando alguém está se afogando não diz “gostaria que um gentil cavalheiro me observando nesta situação delicada e acreditando ser justo o seu envolvimento me auxiliasse a sair desta”… O cara grita apenas por “socorro”… A necessidade imediata da ação prescinde das boas maneiras que em outras circunstâncias o ato talvez requeresse… Meu caro Francisco José Pereira já conversamos sobre isso, homens de ação, você entendeu o gesto, e elegantemente me perdoou… A  reverência lhe presto agora!

NOTAS:

Segue o Momento III da homenagem ao colega Francisco José Pereira…

Foi escrito agora a pouco…

Outra lacuna aberta…

A música poderia ser esta, do “America”, outro grupo que admiro…

A solidão não tem monopólio…

Vai…

http://www.youtube.com/watch?v=IRDnEqW1vAc&feature=related

Preocupações com o livro e a Literatura amanhã – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc


Este ano a Biblioteca Nacional da Espanha celebra o seu terceiro centenário.


Aqui, tivemos um governador que decidiu ser sua missão acabar com a Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, que contava apenas a metade da idade da sua congênere madrilenha – completou 158 anos no dia 31 de maio. Ele desfraldava um argumento que considerava arrasador e definitivo: “Por que a biblioteca de Joinville é municipal e a de Florianópolis tem que ser estadual?” Como não conseguiu extingui-la, mudou o nome para Biblioteca Pública de Santa Catarina (ou seja: ela está pronta para deixar de ser do Estado desde que o novo proprietário se comprometa a mantê-la pública…) e sustou a liberação de verbas até para a manutenção do acervo. Hoje o homem é senador da República e relata o projeto do novo Código Florestal Brasileiro, ancorado em opiniões pouco próprias sobre essa mania nacional de se querer preservar meio ambiente às custas da produção de alimentos.


Claro que bibliotecas têm tudo a ver com a preservação do livro, da Literatura e do salutar hábito da leitura. Ainda outro dia, o peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, declarando seu amor incondicional pelas bibliotecas, revelou que o fato mais importante da sua vida foi ter aprendido a ler. A paixão pela leitura desde criança, conforme afirmou, permitiu-lhe, a partir de então, viver “grandes experiências” graças aos livros.


O mesmo Vargas Llosa participou neste 9 de maio de um ciclo organizado por aquela biblioteca espanhola em comemoração aos seus 300 anos. Durante o debate com um jornalista, ele desabafou: “É um temor, tomara que não aconteça”. Referia-se ao advento dos mais diversos aparelhos eletrônicos que têm surgido nos últimos anos e se propõem a operar como suporte ao livro e à leitura. O mais recente deles constitui a família dos tablets, palavra que, em inglês, significa precisamente tabuleta, tabuinha, bloco de papel (assim como um notebook nada mais é, no vernáculo anglo-saxão, do que um mero caderno de notas, uma simples agenda, o velho e tradicional caderno escolar).


A preocupação do escritor latino-americano é que, segundo ele acredita, o suporte eletrônico acabará por influir decisivamente no conteúdo da escrita; neste caso, afetando comprometedoramente a qualidade do texto. Ele dá um exemplo: “a literatura criada diretamente para os tablets” pagará o mesmo preço que o texto escrito para a televisão, “pois se banalizará e cairá na frivolidade”. Seu argumento é claro: “A televisão banalizou tanto os conteúdos […] porque aponta ao mais baixo para chegar ao maior número de pessoas.”


Na verdade, não se pode considerar Literatura uma telenovela, tanto quanto nunca se deu essa condição à velha radionovela. Mesmo um texto teatral será ou não obra literária dependendo da perícia, do engenho e da autocrítica que o seu autor colocar no trabalho. De forma idêntica, um escritor jamais escreverá sua literatura de maneira apressada (e irresponsável) para “postar” o texto no segundo seguinte querendo que se trate de uma peça efetivamente literária. A obra literária exige tempo, maturação, revisões infindas e um enorme grau de exigência até chegar-se mais ou menos perto do resultado ideal.


Assim, jamais se escreverá um conto teclando-o diretamente num dispositivo eletrônico e publicando-o no ato. Literatura é outra coisa, e até poderá ser lida num tablet, mas nunca produzida nele para consumo imediato.

AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA DE LETRAS DE SANTA CATARINA.

Mapa astral e outras adivinhações – por luis fernando pereira / curitiba.pr

Era criança lá em Cascavel quando um primo um pouco mais velho me explicou que o futuro já estava definido. Todo o futuro. Falava meu primo das profecias de Nostradamus. Fiquei meio desconfiado, mas acreditei. Aquela imagem de um velho sisudo e com longa barba branca ajudava a impressionar uma criança. Como há um bom tempo deixei de ser criança (mais tempo do que eu gostaria), parei de acreditar em Nostradamus ou qualquer outra forma de futurologia. Impressiona-me como até hoje muitos amigos (já bem crescidos) insistem em acreditar na possibilidade de se predizer o futuro. Resolvi escrever sobre tema.

Há várias modalidades de adivinhação. Dizem que os caldeus (aquela turma do sul da Mesopotâmia) prediziam o futuro analisando as entranhas dos animais. Hoje isso já não seria mais possível, imagino. A Brigitte Bardot e outros protetores dos animais não permitiriam o sacrifício dos bichinhos apenas para revelar o futuro a humanos ansiosos. Em tempos atuais a adivinhação se dá por intermédio das cartas de tarô, búzios, astrologia, quiromancia (leitura das mãos, explico aos não iniciados) entre outros “métodos” menos votados. Em um conto de Rubem Fonseca (reunido no ótimo “Secreções, Excreções e Desatinos”), li a possibilidade de se adivinhar o futuro por meio da análise das fezes. Não pesquisei, mas acho que a adivinhação escatológica era pura ficção do nosso grande Rubem (melhor contista brasileiro vivo, aproveito para anotar).

Ainda sobre os “métodos”, tem um amigo meu que acredita que tudo pode ser revelado pela borra do café (cafeomancia, outro método moderno de adivinhação). É só eu terminar de tomar o meu café que ele fixa o olhar no fundo da minha xícara para fazer a leitura da borra. – Mês bom para fechar acordos, disse ele uma vez. Eu acho que no futuro ele vai confessar que está me gozando com este papo de borra de café, mas como eu não me arrisco em adivinhações, simulo certa atenção. Como há vários métodos, pesquisei para ver se havia alguma hierarquia. Por exemplo: os búzios prevaleceriam em relação ao tarô que, por sua vez, estaria acima da cafeomancia? Não achei nada neste sentido. Isso só aumenta minhas dúvidas. Fico pensando: se por acaso os búzios revelarem período bom para acordos e a cafeomancia (o negócio da borra de café) disser que devo apostar em conflitos, como devo proceder? Cheguei à conclusão que o ideal é que cada adepto da adivinhação se concentre em apenas um método, evitando que o maldito do tarô possa eventualmente desmentir a leitura das mãos, gerando certa desorientação.

Bem, como meu espaço aqui na Revista Ideias é pequeno, permitam-me agora um corte metodológico. Vou me concentrar um pouco na análise da astrologia. É o método mais popular entre meus amigos. Fazer um mapa astral é quase uma obrigação hoje em dia. Se entendi bem a explicação sobre o funcionamento deste método de adivinhação, na essência a pessoa é definida (personalidade, caráter etc.) a partir das posições do sol, da lua e dos planetas no instante do nascimento. Ao ouvir a explicação, me perguntei por que não levam em conta o momento da concepção; ou quem sabe da primeira mamada? Não compreendi bem o porquê, mas o fato é que vale mesmo a hora do nascimento. Dia desses, ao tentarem me convencer a fazer meu mapa astral, disseram-me que bastaria eu informar o horário e a data do nascimento que o astrólogo (não confundir com astrônomo) me entregaria o tal mapa pronto. Falaram na influência das constelações zodiacais, se me recordo. O mapa astral, com suas casas astrais e trânsitos astrológicos (nomes pomposos, devo reconhecer), seria um guia a revelar períodos futuros propícios para determinadas atividades. Para resumir, é um horóscopo mais sofisticado. Com todo o respeito que devo aos meus amigos adeptos da astrologia, não vejo nenhum sentido nisso.

Certa vez, fiz uma conta interessante para uma amiga que não saía de casa sem ler o horóscopo diário (parece que mais recentemente ela migrou para o i-ching). Como somos mais de sete bilhões de humanos andando pela terra e apenas doze signos, mais ou menos seiscentos milhões de pessoas acabam tendo o mesmo tipo de dia (bom para os negócios; ruim para o amor, por exemplo). Não por acaso as “previsões” do horóscopo são genéricas o suficiente para não frustrar a expectativa da turma. Mesmo genéricas, há casos de inevitáveis equívocos. Quando pergunto sobre os erros, meus amigos do mapa astral chamam a atenção para a influência do signo ascendente. Eu mesmo nem sabia que existia o tal do ascendente. Existe e tem gente que chega a cancelar viagem se o mapa astral, levando ou não em consideração o ascendente, indicar um período impróprio. Gente importante acredita nisso. Os mais velhos lembram bem da estranha relação do casal Reagan com a astrologia. O ex-presidente americano chegou a ficar um tempo sem sair da Casa Branca com medo de ser assassinado. Era um sinal do mapa astral.

Eu simplesmente não consigo acreditar em rigorosamente nada disso. Acho sinceramente que não se trata propriamente de métodos de adivinhação, mas métodos de ganhar dinheiro. Para cada método há um “sensitivo”. São os intérpretes dos métodos. São pessoas que se vestem diferente para compor o tipo esotérico. Não duvido que haja gente séria metida com isso. Muitos realmente acreditam, mas a grande maioria tem a adivinhação como ganha-pão e pronto. O número de adeptos é tal que se trata de um ofício que dá um futuro certo aos “intérpretes”.

Apesar de tudo, antes de enviar este texto, resolvi consultar meu horóscopo. Entre outros conselhos, dizia que era para eu aproveitar o ensejo do ingresso de Júpiter em Áries para ampliar horizontes. O astral favorece a flexibilidade e a abertura mental, dizia outro trecho. Foi confiando nestes conselhos que eu enviei o texto. Não gostou? A culpa não é minha; é do mapa astral ou, noutras palavras, da bendita posição das constelações zodiacais na hora exata do meu nascimento.

O CICLO QUE SE FECHA – por olsen jr / rio negrinho.sc



Entrei na ruazinha de terra batida com o pensamento fixo. Relutei no princípio, o lugar me trazia boas lembranças. Talvez por isso hesitasse, o temor da decepção rondava o desavisado. Quando desci do carro, um solzinho medroso esgueirava-se por entre as pedras do barranco onde uma vegetação ainda espreguiçava-se estendendo seus braços ao acaso.

As pessoas que estavam comigo se espalharam buscando as novidades que o lugar prometia. Permaneci por momentos observando a casa de madeira bem construída no alto da elevação do terreno e que era a mesma da última vez que ali estive com os meus pais. Eles buscavam um mel diferenciado, puro, que só era encontrado ali. O encarregado era amigo da família, meu pai e ele tinham boa convivência e o encontro entre ambos era sempre uma celebração. Naquele dia não fora diferente. Depois dos cumprimentos, efusivos pela própria natureza, subiram a pequena encosta caminhando vagarosamente e tentando por a prosa em dia. As notícias caindo como novidades semelhantes a um conta gotas aspergindo alívio a um par de vistas cansadas. Distanciando-se dos curiosos e compartilhando de uma conversa de homens vividos com muitas coisas em comum. Para nós, crianças na época, a parada era mais um contratempo que uma alternativa de entretenimento. Permanecíamos inquietos até servirem os favos ainda dentro do  caxilho onde eram produzidos, vinham cheios de mel, levemente refrescados por um acondicionamento em geladeira pouco antes de serem levados ao consumo. Mastigar aquelas favas em pequenos nacos, sentir o líquido doce escorrendo pela boca e sorvê-lo em bocados era uma sensação divina. Porque os adultos costumavam afirmar que aquele alimento líquido era o néctar dos deuses e, portanto, aquele “divino” acrescido ao prazer sentido em absorvê-lo era um reconhecimento mundano ao olimpo onde era usualmente apreciado.

Enquanto estávamos assim entretidos, os adultos aproveitavam para beber uma aguardente misturada com porções daquele mel e servido à temperatura ambiente. Naquele tempo as pessoas se adaptavam facilmente ao que possuíam tirando partido das circunstâncias e eram compreensíveis os rumos que a conversa tomava escorrendo como as águas de uma fonte ocupando todos os desvãos do terreno sem um destino específico, apenas fluindo.

Depois havia uma despedida… A próxima visita poderia demorar, talvez nem acontecer, o importante era os vínculos afetivos reavivados sempre como as chamas brandas de um acampamento cigano sem tempo para extinguir.

A pequena venda aberta ali no pé do morro era uma novidade. O garoto que atendia o balcão estava ocupado em montar pequenos dispositivos elétricos enquanto esperava os clientes.  Responde as minhas perguntas como se já estivesse habituado a elas… Fico sabendo que o amigo do meu pai era seu avô… Também que eles não vendiam mais mel ali…

Estava diante da terceira geração…

Observo as prateleiras do mercadinho, busco com os olhos alguma coisa para amarrar a minha memória ao presente, mas não encontro nada… Talvez aquele garoto fosse o último liame com o passado… Sufocando a própria infância…

Digo que o meu pai foi grande amigo do avô dele… Ele sorri, talvez não consiga ver a ligação daquelas reminiscências com o que estava fazendo ali atrás do balcão… Despeço-me dele e do local…

Ali fora ainda observo a casa na colina… Esforço-me para ver os meus pais e o avô do garoto conversando enquanto subiam a pequena encosta… Foi muito rápido, por momentos senti naquela quietude um laivo de saudades e logo uma voz me tirou daquele devaneio… “Vamos!”… Ouvi…

… Um homem é ele e sua memória… Penso enquanto me afasto do lugar aderindo ao convite para ir embora e repetindo a expressão: “vamos!” Para ter certeza!

 

NOTAS:

Olá, camaradas, salve!

Com este texto começo algo diferente…

Na condição de cidadão rionegrinhense… A palavra é feia, mas as pessoas são acolhedoras…

Well, vamos regularizar o envio semanal… Espero…

A música poderia ser esta…

 

http://www.youtube.com/watch?v=r4wiF1qnPlY&feature=related

 

O Grupo “The Walkers” (Os Andarilhos) é holandês, do início da década de 1960…

A composição “There’s no More Corn on the Brasos” foi um dos seus maiores sucessos…

Folk, country, rock… O de sempre para a época…

Com o carinho do poeta!

 

DIÁRIO DA PROVYNCIA III – por olsen junior / rio negrinho.sc


 

CÍNICO, CÉTICO E EFICIENTE!

Foi somente depois que o carro passou sobre a água empoçada num desvão (de um trabalho mal feito anteriormente) nas lajotas oitavadas da Avenida das Rendeiras, salpicando com água barrenta uma família inteira que caminhava no passeio em frente é que me dei conta: tínhamos de ser muito otimistas para acreditar que havia alguma esperança para o ser humano.

O veículo trafegava com o dobro da velocidade permitida naquele trajeto no bairro boêmio da Lagoa da Conceição. Compreende-se que as pessoas de férias possam distrair-se com o ambiente enquanto passeiam, mas é injustificável que um motorista não tenha a dimensão de uma atitude imprudente. Seja pelo excesso de velocidade ou pela visão embotada do percurso. O que é pior, que encare ambas com naturalidade como se estivessem incorporadas ao “seu fazer” e até, a danação, que sequer tenha consciência da imperícia e da infração cometida.

Sei! Alguém pode lembrar que uma ação isolada não serve de parâmetro para avalizar um comportamento humano. De tanto observar atitudes desrespeitosas como essa, me tornei um cético. Então, resta o quê?

Lembrei de um texto do Paulo Francis na Folha, década de 1970 “Resta o consolo do trabalho. São Paulo estava errado e São João certo. A salvação é pelas obras e não pela fé. Esta matamos há muito tempo”.

Parte do meu aprendizado foi aperfeiçoada num texto do mesmo Paulo Francis (já que mencionei o trabalho) comentando o filme “Mississippi em Chamas”, de Alan Parker e a atuação de Gene Hackman.

O filme é baseado no assassinato em 1964, de três ativistas dos direitos civis no sul segregacionista dos EUA. O foco está na investigação de dois agentes do FBI, o sulista Rupert Anderson (Gene Hackman) e o nortista Alan Ward (William Dafoe) e os métodos de cada um para chegar a verdade: o primeiro com suavidade e o segundo agressivo. No fim triunfa a astúcia do primeiro e a perseverança do segundo. Em 2005, um ex-integrante da Ku-Kux-Klan, Edgar Ray Killen, então com 80 anos, foi condenado a 60 anos de prisão pela morte dos ativistas no qual o filme se baseou, corroborando a tese de seu diretor, que acreditava que um filme pode ter funções políticas.

Francis ressaltava que a atuação de Gene Hackman era a expressão pura do que o crítico Edmund Wilson chama de Jobbism num ensaio em que afirmava  “só nos resta neste mundo corrupto fazer nosso trabalho bem feito, sem tomar conhecimento de causas e pretensões iluministas”.

No filme, as pessoas se recusam a falar. Quem diz alguma coisa é espancada. Lá como aqui, uma realidade que se repete no mundo e no submundo da impunidade. Mas o Francis afirma que “Hackman olha e ri nos falando uma enciclopédia britânica sobre a natureza humana. Não se vangloria e nem tem ilusões. São pessoas assim que avançam as causas, poucas ainda em que acreditamos, e não ideólogos e idealistas. São céticas, cínicas e eficientes. Nossa única esperança, e Gene Hackman é emblemático de nossa condição”.

Esse “jobbism” que pode ser traduzido como “mãos-à-obra” descoberto pelo Francis no ensaio de Edmund “Bunny” Wilson que ele tomou conhecimento no início da década de 1960 e só foi assimilado na de 1980 pode ter raízes no médico e poeta transcendentalista americano Oliver Wendell Holmes… A uni-los, a descoberta da dignidade profissional enquanto último e inoxidável instrumento de participação social.  Não será a pólvora, como lembrou a jornalista Ana Claudia Vicente, mas para mim o jobbism foi um achado. Que funcionará, quando muita gente o achar também.

É isso, desde então, na cabeceira da minha cama, além de um champanhe e do livro que estiver lendo, está o trípdico: cínico, cético e eficiente…

Justifica-se: a bebida, como lembrou Zózimo Barroso do Amaral “enquanto houver champanhe, há esperança”; um livro, porque como afirma o poeta que habita em mim “é a melhor companhia quando você não quer ver ninguém” e as palavras, para manter uma atitude enquanto não se põe mãos-à-obra!

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NOTAS:

Olá, camaradas, salve!

Tempo curto, dinheiro escasso…

Segue o texto da semana…

Com o abraço fraterno!

http://www.youtube.com/watch?v=zC4poOpZG9w&feature=related

Gilmar não é o Supremo – por mauro santayana /são paulo.sp

Engana-se o Sr. Gilmar Mendes, quando denuncia uma articulação conspiratória contra o Supremo Tribunal Federal, nas suspeitas correntes de que ele, Gilmar, se encontra envolvido nas penumbrosas relações do Senador Demóstenes Torres com o crime organizado em Goiás.
A articulação conspiratória contra o Supremo partiu de Fernando Henrique Cardoso, quando indicou o seu nome para o mais alto tribunal da República ao Senado Federal, e usou de todo o rolo compressor do Poder Executivo, a fim de obter a aprovação. Registre-se que houve 15 manifestações contrárias, a mais elevada rejeição em votações para o STF nos anais do Senado.
Com todo o respeito pelos títulos acadêmicos que o candidato ostentava – e não eram tão numerosos, nem tão importantes assim – o Sr. Gilmar Mendes não trazia, de sua experiência de vida, recomendações maiores. Servira ao Sr. Fernando Collor, na Secretaria da Presidência, e talvez não tenha tido tempo, ou interesse, de advertir o Presidente das previsíveis dificuldades que viriam do comportamento de auxiliares como P.C. Farias. Afastado do Planalto durante o mandato de Itamar, o Sr. Gilmar Mendes a ele retornou, como Advogado Geral da União de Fernando Henrique Cardoso. Com a aposentadoria do ministro Néri da Silveira, Fernando Henrique o levou ao Supremo. No mesmo dia em que foi sabatinado, o jurista Dalmo Dallari advertiu que, se Gilmar chegasse ao Supremo, estariam “correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional”. Pelo que estamos vendo, Dallari tinha toda a razão.
Gilmar, como advogado geral da União – e o fato é conhecido –, recomendara aos agentes do Poder Executivo não cumprirem determinadas ordens judiciais. Como alguém que não respeita as decisões da justiça pode integrar o mais alto tribunal do país? Basta isso para concluir que Fernando Henrique, ao nomear o Sr. Gilmar Mendes, demonstrou o seu desprezo pelo STF. O Supremo, pela maioria de seus membros, deveria ter o poder de veto em casos semelhantes.
Esse comportamento de desrespeito – vale lembrar – ocorreu também quando o Sr. Francisco Rezek renunciou ao cargo de Ministro do Supremo, a fim de se tornar Ministro de Relações Exteriores, e voltou ao alto tribunal, re-indicado pelo próprio Collor. O episódio, tal como a posterior indicação de Gilmar, trouxe constrangimento à República. Ressalve-se que os conhecimentos jurídicos de Rezek, na opinião dos especialistas, são muito maiores do que os de Gilmar. Mas se Rezek não servia como chanceler, por que deveria voltar ao cargo de juiz a que renunciara? São atos como esses, praticados pelo Poder Executivo, que atentam contra a soberania da Justiça, encarnada pelo alto tribunal.
A nação deve ignorar o esperneio do Sr. Gilmar Mendes. Ele busca a confusão, talvez com o propósito de desviar a atenção do país das revelações da CPI. O Congresso não se deve intimidar pela arrogância do Ministro, e levar a CPMI às últimas conseqüências; o STF deve julgar, como se espera, o processo conhecido como mensalão, como está previsto. Acima dos três personagens envolvidos na conversa estranha que só o Sr. Mendes confirma, lembremos o aviso latino, de que testis unus, testis nullus, está a Nação, em sua perenidade. Está o povo, em seus direitos. Está a República, em suas instituições.
O Sr. Gilmar Mendes não é o Supremo, ainda que dele faça parte. E se sua presença naquele tribunal for danosa à estabilidade republicana – sempre lembrando a forte advertência de Dallari – cabe ao Tribunal, em sua soberania, agir na defesa clara da Constituição, tomando todas as medidas exigidas. Para lembrar um autor alemão, Carl Schmitt, que Gilmar deve conhecer bem, soberano é aquele que pratica o ato necessário.

GILMAR MENDES CONDENA WAGNER MOURA / brasilia.df

The piauí Herald

  • Gilmar Mendes condena Wagner Moura

    30/05/2012 19:02 | Categoria: Brasil


    Gilmar Mendes condena Wagner Moura

    Gilmar Mendes exigiu também que Wagner Moura fizesse trabalhos vocais forçados com Susana Vieira

    NAS FAVELAS, NO SENADO – Indignado com um falsete emitido por  Wagner Moura na interpretação de A Via Láctea, o ministro Gilmar Mendes, do STF, condenou o ator a fazer uma ponta em Malhação por 6 anos. “Os gângsters da MTV organizaram essa homenagem aos bandidos da Legião  Urbana com o claro intuito de desviar o foco do julgamento do mensalão”, vociferou, em si bemol.

    Ao se deparar com outro maneirismo vocal na canção Teorema, Gilmar Mendes perdeu o controle: “Maneirismo ignorante! Coisa de gente de gente burra, de uma nota só! Vamos parar com isso! Quem precisa disso!? Eu e a música popular brasileira não precisamos desses recursos para sobreviver”. A seguir, ainda exaltado, completou: “Esse show é uma orquestração do Lula com o setores radicais da MPB para desmoralizar o Supremo”.

    Ainda fora de si, o ministro balbuciou palavras desconexas em alemão, tais como “mensalonen”, “marmeladen”, “Demostenen und Ich”. “Era uma menção ao pacto com o Demo, no Fausto, de Goethe”, explicou depois o assessor para assuntos germânicos do STF.

    Socorrido com um copo de água benta, o ministro recobrou a consciência e perguntou “Que país é esse?”. Depois, bateu palmas e, ainda pálido, comentou: “Puxa, não tocaram Faroeste Cabloco‘. É a minha predileta!”

DIÁRIO DA PROVYNCIA II – por olsen jr /rio negrinho.sc


  

A INFÂNCIA QUE NOS PERSEGUE

 

Já está virando moda por aqui. Lugares públicos tocando discos de vinil. Pode ser bizarro num primeiro momento, mas é um diferencial. Sei disso porque não abri mão dos meus discos, tenho dois aparelhos para tocá-los e estou namorando um terceiro que vi em um antiquário.

O “Canto do Noel” é um boteco situado na Rua Tiradentes, no centro de
Florianópolis, onde funcionava o “Pettit” e que volta a ser um ponto de intelectuais que resolveram dar um tempo no disque-me-disque do Mercado Público com o seu cheiro de peixe característico e os pedintes e bordejadores de sempre. Pois é, o “Canto do Noel” tem produzido alguns diferenciais, um deles é este, precisamente, você ouve grandes intérpretes nacionais, começando logicamente pelo que empresta o nome ao local, em discos de vinil, claro tem outros compositores brasileiros de qualidade, mas também a história ou parte dela é mantida com as imagens, fotografias, recortes de jornal emoldurados e dispostos nas paredes criando verdadeiros nichos de saudades onde se vê como essa cidade era bonita. Desde o casario antigo até uma população que parecia mais romântica e pacata. O fotógrafo Édio Melo certamente tem muito a ver com todo aquele acervo.

Parte da memória da cidade está ali naquelas paredes zelosamente guardada pelo carinho dos novos proprietários Edson e Sônia. O Rio de Janeiro e Florianópolis irmanadas por reminiscências, composições musicais, talentos e o que cada um dos clientes acrescenta com a própria experiência.

No Empório Mineiro no Boulevard da Lagoa da Conceição, outro lugar aconchegante, vejo o disco de vinil rodando no toca-disco de cor alaranjada onde o poeta Vinicius de Moraes e o violonista Toquinho acabam de cantar “Meu Pai Oxalá” que tinha sido uma das músicas da trilha sonora da novela “O Bem Amado”…

O disco terminou e continuou girando, a agulha acompanhava as voltas do vinil naquela faixa neutra que não tinha nada gravado nela e somente se ouvia o rodar do acetato. Ao invés de ir até lá e erguer a agulha, trocar o disco ou quem sabe por o mesmo para tocar novamente, fiquei observando o brilho da luz refletido no vinil rodando ali na minha frente e logo aquele aparelho é substituído pela eletrola lá de casa, em Chapecó quando os discos caiam um a um após tocarem naquele pino automático onde estavam empilhados (até cinco recomendavam os especialistas, para não arranharem uns com os outros)… E já não era mais o Vinicius de Moraes e sim o Billy Vaughn tocando “Look for a Star”.    Composta por Buzz Cason, nascido em Nashville (Tennessee) e que passou a assinar com o psudônimo de Garry Miles e, em 1960 compôs a música que o consagraria.

“Look For a Star” que, aliás, está completando em 2010, 50 anos, era uma das preferidas da minha mãe. Também andei assobiando uma versão interpretada pelo Roberto Carlos “… Duas noites são teus lindos olhos, onde estrelas estão a brilhar, que ternura olhar mil estrelas, em teu olhar”…

Outro dia assisti ao filme “Circus of Horrors” e a trilha sonora era Look for a Star na composição original de Garry Miles, e viajei novamente ouvindo aquilo associado a minha infância enquanto lia um dos 30 volumes da obra do Karl May, naquela edição encadernada da Ed. Globo de Porto Alegre e que vinha em caixas retratando em maravilhosos bicos de pena os personagens e o mundo criado pela mente prodigiosa do escritor alemão que marcou a minha juventude (minha, do Fernando Sabino, do Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, entre outros)…

Num dos filmes do Harry Potter, a música Look for a Star também aparece de fundo, está muito impregnada na minha infância e parece que de muito mais gente…

Em fração de segundos lembro de tudo isso enquanto observo ainda o disco de vinil ali sem que ninguém tome uma providência, acredito que foram aquelas faixas girando que me transportaram, como uma máquina do tempo…

Alguém passou em frente e cortou o meu fluxo de pensamentos, mas ainda tive a sensação de ver por ali, a minha mãe com um pano tirando o pó de cima do móvel e afirmando que gostava muito daquela música!

 

 

NOTAS:

 

 

Não faço ideia o que seria a música brasileira sem o Noel Rosa (1910-1937)…

Nascido em Vila Isabel, aprendeu a tocar bandolim de ouvido, mas logo passou para o violão…

Abandonou a Faculdade de Medicina porque acreditou que a música era a “sua” vocação…

Conseguiu legitimar o samba de morro fazendo uma ligação entre a classe média e o rádio…

O primeiro sucesso veio com a composição “Com que roupa” em 1930, produto de uma situação inusitada, sua mãe havia escondido suas roupas para tentar impedi-lo de sair para outra noite de boemia…  E ele exclamou “com que roupa que eu vou?” criando a partir daí um samba que está mais vivo do que nunca…

“Conversa de Botequim” é outro de seus muitos sucessos…

http://www.youtube.com/watch?v=in9W6vHyI5k&feature=related

 

Noel Rosa morreu aos 26 anos com tuberculose…

 

OLSEN JR  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

 

REGINA, a mulher-loba do Brasil – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Regina, mulher-loba do Brasil

 

Lobas são extremamente ciosas dos seus filhotes. Ou então: lobas são selvagemente ciosas. São mansas e pacíficas enquanto o mundo se lhes apresenta manso e pacífico. O problema é que elas se dão ao hábito de pensar e, ao pensar, tomam partido e definem-se criticamente frente a esse mesmo mundo. E ele que se comporte! Nem sonhe em sair da linha!

 

Os filhotes da Regina são os seus alunos, a Literatura (mais necessária e carinhosamente aquela próxima, feita em Santa Catarina) e, por consequência dos cuidados anteriores, os escritores catarinenses. Estes filhotes é que lhe importam.

 

Regina, loba, preocupa-se. Tem consciência política (não se trata aqui de partido político, é importante deixar bem claro), posiciona-se filosoficamente no meio em que vive, em que trabalha com uma dignidade que muita gente não tem para mostrar, no meio em que paga seus impostos como penitência para viver e participar da sua rua, do seu bairro, da sua cidade.

 

Com esse dinheiro, com seu imposto, paga o salário de vereadores e servidores públicos que têm a obrigação de considerar suas opiniões, ao invés de, numa forma simplista, demagógica e autoritária, ameaçá-la de processo judicial por “entravar a máquina pública” ao impedir, com sua força de mulher e sua coragem de ser humano, a “limpeza de um terreno público” no Estreito.

 

O terreno público em questão é uma área com árvores que abriga um sítio arqueológico protegido pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

 

Acontece que a gerente da loja vizinha ao sítio, loja que vende a mais famosa marca de motos do mundo, decidiu limpar o terreno público ao lado. “Vive cheio de usuários de droga”, foi a bandeira que ela levantou. Como o local estaria “desocupado”, dita senhora dá a qualquer um o direito de supor que ela imaginava abrir ali um espaço informal e gratuito para servir de estacionamento exclusivo aos seus abastados clientes. Já que a loja naturalmente será contribuinte dos cofres públicos, a gerente achou-se no direito de acionar seus “contatos”, de maneira informal (por que tanta burocracia, não é mesmo?), a fim de conseguir autorização para a limpeza – limpeza arrasadora com patrola, como um corte de cabelo com máquina zero.

 

Um vereador, que já deixara a secretaria municipal ligada ao caso para candidatar-se à reeleição, autorizou verbalmente o desmate, o desmonte, a “limpeza” de tolerância zero com o terreno – atribuição e autoridade de que ele já não mais dispunha, da mesma forma que não disporia ainda que estivesse no exercício do cargo, simplesmente por tratar-se de um sítio arqueológico: um patrimônio público (não do poder público) de interesse histórico.

 

Regina Brasil, mulher-loba, escolada, que dá um monte de aulas, educa pessoas e ensina-lhes cidadania, desconfiou quando retiraram a tela que protegia o terreno. No dia seguinte, bem cedo, a patrola iniciou a devastação. A professora correu, pôs-se à frente da máquina e impediu que o crime se consumasse em sua totalidade. Ela foi fotografada (as fotos saíram na imprensa e circulam pelos caminhos da internet), aplaudida e consagrada como heroína.

 

Mas as pressões sobre ela aumentam, e serão maiores assim que baixar a poeira da publicidade que envolve o seu ato. Como a ameaçou o pessoal da loja de motos, o que a forçou a registrar Boletim de Ocorrência na delegacia do bairro, “Você não sabe do que somos capazes! Você tem certeza que quer essa incomodação para o resto dos seus dias?”

 

 

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AMILCAR NEVES é membro da ACADEMIA  CATARINENSE DE  LETRAS

BRASÍLIA 52 ANOS DA CAPITAL DO PODER – por almandrade / salvador.ba

BRASÍLIA 52 ANOS DA CAPITAL DO PODER

“Nenhum rosto é tão surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade”
Walter Benjamin

Mais de cinqüenta anos depois, a bossa nova da arquitetura e do urbanismo,mostra suas rugas e os sintomas de um envelhecimento precoce. O
símbolo maior da modernidade e da ideologia desenvolvimentista que
projetou o Brasil como um país novo, revela o que é a cidade moderna,
o lugar da afirmação e do poder da máquina e das restrições do domínio
público. Com uma malha rodoviária e amplos espaços que ultrapassam a
escala humana, Brasília foi concebida nas pranchetas de Oscar Niemeyer
e Lúcio Costa sob a orientação do presidente Juscelino Kubitschek para
responder ao desenvolvimento industrial, em particular, a indústria
automobilística em ascensão, e hoje representa o fim do sonho e das
ilusões desenvolvimentistas.

Sem dúvida, Brasília é uma das mais importantes contribuições
brasileira para a arte do século XX, juntamente com a Bossa Nova, a
Arte Concreta e o Cinema Novo, que resiste aos escândalos políticos
que assolam a capital. As estruturas de suas construções permanecem
intactas, o concreto armado parece eterno. Uma cidade cartesiana
implantada no interior do país, sob o cerrado, distante do litoral,
uma aventura quase que impossível. Nas palavras do critico de arte
Mário Pedrosa, “se Brasília foi uma imprudência, viva a imprudência”.
A nova capital era uma resposta à crítica de um Brasil litoral, de
costas para o seu interior, desde os tempos do Marques de Pombal. Esta
experiência urbanística foi estimulada por uma opção de
desenvolvimento que se desejava para o Brasil o qual estamos sofrendo
suas conseqüências.

Mais do que uma simples cidade, Brasília é um discurso, símbolo de uma
nova situação que direcionou a vida e a economia do país. Uma cidade
com uma arquitetura governamental, monumental e moderna. O trançado
urbano e a arquitetura arte criaram a cidade como uma realidade
moderna, imagem e símbolo do Brasil industrial, país da tecnologia e
da democracia para os que dispõem de meios mecanizados para dominar os
grandes espaços vazios. A cidade que arquiteto francês, nascido na
Suíça e mestre dos arquitetos brasileiros, Le Corbusier não teve a
oportunidade e o privilégio de construir. O centro principal e
simbólico da capital do poder é a praça dos três poderes, na
organização do espaço as hierarquias e os interesses de classe não
ficam ausentes.

Falar de Brasília não se pode deixar de lado as manobras processadas
na economia e da política dos anos de 1950. “o avanço dos 50 anos em
5 anos” meta do governo JK. A sede de democracia, agitações, debates
inflamados e o avanço da indústria. A população vivia o impacto da
confiança no futuro. A nova capital refletia uma sociedade otimista
disposta a realizar utopias. Brasília foi pensada para ser um centro
político, cultural e administrativo para o desenvolvimento do
Centro-Oeste, mas não contava com o crescimento desordenado e
populacional, que acabou comprometendo o plano urbanístico de Lucio
Costa e trouxe os problemas e os desastres que assolam os grandes
centros urbanos. Com o regime militar, implantado em 1964, a cidade
criada em um período raro de democracia acreditando que a sua
localização no interior estaria mais protegida de ataques militares,
foi associada ao totalitarismo, mas resistiu com seu chame como uma
expressão artística que colocou o Brasil internacionalmente num
patamar de respeito.

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

 

DOS BEATLES… PAUL MCCARTNEY! – por olsen jr / rio negrinho.sc

DOS BEATLES… PAUL MCCARTNEY!


   Talvez quem mais tenha sofrido com a separação dos Beatles tenha sido o Paul.

Os historiadores costumam situar os Beatles num espaço cronológico de 1962 (quando gravaram o primeiro disco) até 1972 (quando venceu o contrato que os mantinha unidos enquanto grupo) num lapso de tempo menor que dez anos. Acontece que John e Paul, George em seguida, se conheceram em 1957 e paralelamente aos ensaios, também compunham. A música “Love me Do” é desta época, uma das raras que se salvou depois que Jane Asher (namorada de Paul) em uma faxina despachou um caderno onde ele costumava anotar suas criações.

Durante o período em que a banda existiu, os Beatles eram muito gregários, andavam sempre juntos, compunham, trabalhavam, divertiam-se, faziam festas, viviam como uma família… Bonitos, bem sucedidos, ricos, famosos, além de trabalhadores (mais criativos que Beethoven, segundo uma crítica da época), revolucionários, tornaram-se uma referência mundial.  A juventude copiava seus cortes de cabelos, modos de vestir, irreverência, desprezo pelas instituições que tinham envelhecido sem acompanhar os apelos do seu tempo, eles mostravam novos caminhos onde certamente a paz e o amor tinham lugar assegurado e onde tudo era permitido, exceto a indiferença.

.  As intermináveis sessões fotográficas da banda (porque não existe na história da música pop mundial um grupo que teve tantos registros fotográficos como os Beatles) eram organizadas por Paul, também o projeto de fazer um filme e lançar dois álbuns por ano…

Paul McCartney raciocinava como um escritor, disse mesmo em uma entrevista que pensava os discos como se fossem livros, desde o título às ideias que norteavam suas feituras, os álbuns conceituais “White Album” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” , são exemplos.

A morte de Brian Epstein, descobridor e primeiro empresário dos Beatles em 1967 – tido por muitos como o “Quinto beatle” deixou um espaço livre para o surgimento das “diferenças” entre os componentes da banda.. E foi de Paul o fantasioso e incompreendido projeto da gravação do “Magical Mistery Tour” dentro de um ônibus, sem roteiro… O primeiro vídeoclip a ser mostrado na televisão. Uma tentativa de mantê-los ocupados e adiando o conflito que estava por vir.

Antes de o John Lennon proferir a célebre frase “The dream is over”, os Beatles individualmente já tinham consciência disso.

Natural, portanto, que passada aquela euforia onde tudo parecia possível, sobreviesse um tempo de angústia, de desespero, um não saber como continuar seguindo adiante sem os outros.

Em 1971, os Beatles mostraram ainda por que eram os melhores, Paul McCartney lançou “Another Day”, John Lennon “Mother”, George Harrison “My Sweet Lord” e Ringo Starr “It Don’t Come Easy”… Todas as composições fizeram enorme sucesso e indicavam o caminho e o momento que cada um estava vivendo… Paul que tinha dado a volta por cima; John buscando na perda da mãe a origem de sua angústia; George um reencontro com a espiritualidade e Ringo, a arte de representar que lhe era latente.

Os Beatles continuam sendo um marco a ser batido com mais de um bilhão de discos vendidos… E seus integrantes já fazem parte da história musical do mundo, alguns ainda podem ser vistos e admirados, como Sir James Paul McCartney em Florianópolis, finalmente!

BOX I

O COMEÇO DO FIM

   Quando morreu Brian Epstein (em 1967) as fissuras dentro do grupo começaram a aparecer. A Apple, empresa que haviam criado para dar sustentação aos negócios deles como músicos e de outros que tivessem talento (um caos com muitas possibilidades) estava perdendo dinheiro. Eles também gastavam sem conta, principalmente o John. Aliás, foi o próprio John Lennon quem disse numa entrevista que se tudo continuasse daquele jeito eles e a Apple estariam falidos em pouco tempo. Foi o contador deles que se demitiu deixando um bilhete: “Suas contas pessoais estão uma zona”.

Para retomar o caminho, Paul tinha escolhido para gerir os negócios, Lee Eastman o sogro (pai da Linda Eastman com quem estava casado) e John (com Yoko que o apoiava em tudo) preferia Allan Klein (que tinha sido empresário dos Rolling Stones e que Mick Jager detestava e alertou os Beatles “evitem este cara”). Mas Klein estava assediando a banda fazia muito, até conseguir uma audiência com John/Yoko e tomar a frente os negócios do fab four. Paul foi o único que não concordou, mas os outros três assinaram um contrato por três anos, o que deixava, na prática, os Beatles vinculados até 1972.

A história, no entanto, mostraria que Paul estava certo. Mais tarde os outros três Beatles processaram Klein.

.

 BOX II

O ÚLTIMO SHOW PELA ARTE

Em 1968 eles foram fazer meditação transcendental na Índia buscando uma autoavaliação do que eram e do que poderiam se tornar… Cerca de 40 composições foram produzidas no período, boa parte do “Álbum Branco”.

Na verdade Paul tentava dar um rumo para a banda. Este esforço parecia aos outros, uma tentativa de dominação, eram considerados ofensivos e davam a entender sempre ser “mais um projeto” de Paul McCartney que, aliás, era meticuloso, detalhista, sempre premiando a habilidade, fazendo diferente… A composição “Ob-ladi, Ob-lada” foi gravada mais de 40 vezes, para se ter uma ideia…

Ringo disse em uma entrevista que “O Paul queria que trabalhássemos o tempo todo… Era um viciado em trabalho”, um workaholic…

Para o produtor George Martin “Paul era mandão e os outros caras detestavam… Mas era o único jeito de mantê-los juntos… Num processo de desintegração generalizado”.

Enquanto gravavam o disco “Let it Be” (que deveria se chamar Get Back, originalmente) os Beatles tocaram 52 músicas novas… Muitas destas acabaram entrando no “Abbey Road” (o último disco deles) ou fazendo parte do melhor material dos álbuns solos dos membros da banda.

Para completar o filme/documentário que saiu com o mesmo nome do disco “Let it Be”, o diretor Lindsay-Hogg queria um final e, por sugestão de alguém foi marcado para o dia 30 de janeiro no telhado do escritório da Apple um show com os Beatles… Acompanhados por Billy Preston, foi o primeiro show desde agosto de 1966 e também foi o último… “Também foi o melhor o que diz muito sobre o poder coletivo da afinidade musical e do carisma que os quatro cultivaram, e que nem suas desavenças mútuas seriam capazes de apagar.”

Paul declarou a um jornal: “Ringo saiu primeiro, depois George, então John. Eu fui o último a sair! Não fui eu! (Revista Rolling Stone Brasil/setembro de 2009).

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BOX III

O RECOMEÇO

   Paul ficou arrasado com a separação dos Beatles, era a banda da qual ele fazia parte desde os 15 anos…

No final de 1969, afastado dos holofotes, casado com Linda, vivendo seu retiro na Escócia… Bebia pela manhã, de tarde e á noite, parou de compor, ficou irascível entregando-se a uma depressão paralisante… Foi com o apoio da mulher que tinha pedido para ele voltar ao trabalho e retomar a carreira que o ex-beatle reacendeu para o mundo, porque a vida deveria continuar desta vez sozinho e no natal daquele mesmo ano Paul começou a trabalhar no seu primeiro LP solo.

Depois de gravar dois álbuns, “McCartney” (1970) e “Ram” (1971) tentando ainda provar que poderia ter êxito na carreira sem ser um “beatle” , forma outra banda, “Wings” que tinha como princípio não tocar nenhuma composição dos Beatles.

Ao todo, sete álbuns (1971/1979) e o sucesso chegou já no segundo com a canção “My Love” que foi logo ao primeiro lugar, depois o “Band of the Run” que se tornou o maior sucesso da banda e foi eleito o disco do ano (1974)… A catarse que precisava para existir sem os Beatles estava feita e surgiu daí um novo artista predestinado a bater recordes: em 1979 o Guinness declarou-o como o compositor de maior sucesso da história da música pop mundial de todos os tempos… Em 1990 tocou pela primeira vez no Brasil, foi no “Maracanã” para 184 mil pessoas, batendo o recorde de público em uma única apresentação de um artista solo.

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OLSEN JR é membro da ACADEMIA DE LETRAS DE SANTA CATARINA

O movimento internacional contra as coisas-lixo (junk things) – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc



A partir de um desconforto crescente, a ideia surgiu recentemente na velha Albion, o nome que teve em tempos remotos a ilha da Grã-Bretanha, assim batizada talvez pelo aspecto que causavam aos argonautas, à entrada Sul do território, os penhascos escarpados de Dover, que caem na vertical, branquíssimos, direto sobre o mar. O estopim da causa foi o tema da obesidade: “48% dos homens e 43% das mulheres do Reino Unido serão obesos em 2030”.


Não só lá, cá também.


Cá: “No Brasil, 40% da população está acima do peso. Estudo recente realizado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia revelou que 15% das crianças brasileiras são obesas.” Há quem diga, porém, que a situação tupiniquim seja muito mais lancinante:


Segundo dados da pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), do Ministério da Saúde, divulgados no dia 10 de abril do corrente, o número de brasileiros acima do peso passou de 42,7%, em 2006, para 48,5%, em 2011. No mesmo período, a proporção de obesos aumentou de 11,4% para 15,8%.”


Lá: num manifesto velado em que abordam o aspecto mais nobre, ou mais passível de aceitação, do movimento, “cirurgiões, psiquiatras, pediatras e médicos de todas as especialidades do Reino Unido lançaram neste domingo, 15 de abril, uma campanha contra a obesidade e centraram suas críticas às empresas de junk foods (comidas-lixo, em livre tradução). A Real Academia das Faculdades de Medicina do Reino Unido, que representa cerca de 200 mil dos profissionais do país, pediu a proibição de marcas como McDonald’s e Coca-Cola patrocinando eventos esportivos como os Jogos Olímpicos e que famosos façam propaganda de comidas que não são saudáveis para as crianças.”


A proposta do movimento, em suma, é bastante simples e eficaz: que se crie um suculento “imposto sobre a gordura”, ideia surrupiada de alguns países escandinavos que já a aplicam, no sentido de inibir o consumo de produtos não saudáveis. A fórmula é conhecida: mais tabaco, mais álcool, mais sódio, mais colesterol, mais açúcar ou mais gordura = mais imposto.


A gordura é apenas a parte visível do iceberg, para usar uma imagem batida e desgastada que volta à tona por ocasião das celebrações do centenário de naufrágio do Titanic. O objetivo, depois, é mobilizar os povos do planeta contra todas as coisas cujo consumo faz um mal danado à saúde, ao bom senso, à inteligência e à sanidade das pessoas. Passaremos então para as fases de combate às músicas-lixo (junk musics), com perdas enormes, no Brasil, para a indústria dos sertanejos, sertanejos-universitários, axés, pagodes e gêneros afins. Em seguida, entrarão na linha de fogo as propagandas enganosas (junk marketing, o lixo da publicidade), com a quebra de milhares de publicitários maiores e menores ao redor do globo; os políticos que já deveriam ter sido expurgados da vida social (junk politicians, os políticos-lixo, espécie da qual todos nós conhecemos ao menos uma vintena de espécimes); os malditos livros-lixo (junk books), a fim de isolar do mundo todas as obras, no sentido de obrar, defecar, de autores de bestsellers que só fazem mal à saúde; e assim por diante. A lista vai longe, podemos bem imaginar o seu incomensurável tamanho.


Por fim, alçaremos o topo, o máximo, a purificação santificante: combateremos e eliminaremos do alcance dos olhos os junk people, a gente-lixo que, claro, não vale nada.

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AMILCAR NEVES é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

O BAR do CICCARINO – por luis fernando pereira / curitiba.pr

O Bar do Ciccarino

 
Não sei se orgulhoso ou envergonhado, à exceção de um curto período, nunca tive o “meu Bar”. Aquele do dia a dia; de todos os dias. Mas com vergonha ou
orgulho, a verdade é que sempre tive uma inveja danada dos frequentadores diários do mesmo Bar (não é por acaso, mas por deferência que grafo “Bar” sempre iniciando a maiúscula). Lá estão sempre os mesmos amigos e, inevitável, os chatos de sempre. Bar sem chato não é Bar. E há também os chatos amigos. Até porque, como dizia o Mario Quintana, há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e… os amigos, que são os nossos chatos prediletos. Com amigos e chatos, é realmente admirável a fidelidade devotada a determinados Bares.

Como ia dizendo, à exceção de um curto período, nunca fui de frequentar Bar todos os dias. Muito menos o mesmo Bar. A exceção foi o Bar do Ciccarino – comandado pelo Vicente. À época eu trabalha com o grande Sérgio Toscano de Oliveira, no escritório do Professor Machado. Sérgio, este sim, era admiravelmente fiel aos Bares que frequentava (ponho no passado porque já não é mais o mesmo, andam dizendo). Com o Sérgio estive quase diariamente no Ciccarino. Isso durante o tal curto período da exceção (não tão curto quanto estou sugerindo).

Para quem não conheceu o Ciccarino, devo esclarecer que era um Bar – e não um Boteco (também vai com maiúscula no início). E a diferença não é pequena. O Boteco (ou Buteco, como preferem alguns) é outra coisa. O legítimo Boteco, pé-sujo como tem de ser, deve necessariamente apresentar potes de conserva com rollmops atrás do balcão. O banheiro tem de ser sujo. O garçom desleixado. O Ciccarino definitivamente não era um Boteco. O Bar do Ciccarino inaugurou em Curitiba os Bares “metidos à besta”. Coisa fina. E não era só Bar. No ambiente de entrada, onde ficava o balcão, havia um belo armazém com tudo do bom e do melhor para comer e beber.

Por falar em balcão, o Ciccarino tinha o melhor da cidade. Que balcão! E isso é muito importante. O verdadeiro frequentador de Bar (ou de Boteco) gosta mesmo é do balcão (fiquem de olho; quem prefere a mesa pode ser um falso frequentador de Bar). O Sérgio Toscano, por exemplo, não admitia sentar- se à mesa. Não abria mão do balcão. E para o lado de dentro deste imenso balcão estava sempre lá o nosso Vicente Ciccarino. O comandante. Obrigo-me a dedicar parágrafo especial ao Vicente. Sem conhecer um pouco o Vicente é impossível compreender o Bar.

Dizem que o dono de Bar deve ser simpático. Vicente não levava isso a sério. Na medida exata, ironizava, esculhambava, gozava de todo mundo. Vicente vendia fiado, mas era mais pelo prazer de cobrar os devedores publicamente. – Como é Fulano, quando vai acertar a conta, gritava o Vicente (eu mesmo fui vítima). Era isso que nós gostávamos do Vicente. O simpático é quase sempre um falsificador. Vicente era autêntico. Inteligente e vivido, Vicente, além de dono e gerente, era também o programador cultural. Sim o Ciccarino, sobretudo aos finais de semana, tinha uma programação cultural. Uma vez o Ciccarino trouxe a Curitiba o Miéle. Advirto aos mais novos que não falo aqui do Carlos Miele, estilista (o Vicente, aliás, não admitiria um estilista lá dentro). Falo, é claro, do Luís Carlos Miéle. Principal parceiro de Ronaldo Bôscoli. Chegaram a dividir o mesmo apartamento, onde também morou João Gilberto. Ator, diretor, humorista, produtor dos melhores espetáculos cariocas, Miéle é, sobretudo, um showman. Eu estava viajando e acabei não indo no dia do Miéle. Logo na segunda-feira seguinte, balcão lotado, perguntei ao Vicente como tinha sido o show. Ao seu estilo, Vicente disse que tinha sido muito bom, mas que os curitibanos (que não entendiam da animação cultural carioca) não tinham entendido nada. Os clientes do balcão riram, como se Vicente brincasse. Ele não brincava, é claro. Este é o Vicente. Os ofendidos que procurassem um dono de Bar simpático.

Vi cenas incríveis do Ciccarino. Uma noite o Nêgo Pessoa, assíduo no Bar, pegou o Pedro Longo pelo pescoço apenas em função de uma divergência em torno da questão indígena no Brasil. Retire esta opinião em favor dos índios, retire, gritava o Nêgo. Juliano Breda e Carlos Nasser (habitués no Ciccarino) são testemunhas. O Bar não abria aos domingos. Abriu uma vez para a festa infantil de aniversário da filha do Sérgio Toscano. Cheguei lá e havia uma mesa com vinte amigos do Sérgio, já bem embalados. Procurei as crianças. Isoladas em um canto, eram apenas três ou quatro. O Sérgio notou que estranhei a presença de poucas crianças em um aniversário infantil e foi logo anunciando: no próximo ano a festa da minha filha também será aqui e sem nenhuma criança! Nenhuma, deixou claro. Que eu saiba, foi a única festa infantil do Ciccarino.

Um dia o Ciccarino fechou. Todo Bar que se preze fecha, cedo ou tarde. O Ziraldo uma vez disse que o carioca Antônios era o “único bar definitivo do país”. Fechou um tempo depois. Assim é para todo nós o Ciccarino. Definitivo. Ou infinito enquanto durou, para terminar citando Vinicius.

 

números escritos ( I ) – por omar de la roca / são paulo.sp

Pus me a cismar…
Quer dizer,estava pensando na geometria das letras.Redondas como
círculos,angulosas como triangulos,retas como retas.E na aritmética
das palavras que vão somando as letras,os sentidos,eta palavrinha
dificil, sentidos.
Na matemática das sentenças, em sua densidade fluída,escorrendo para
dentro de nós, devagar ou rápido,de acordo com nosso entendimento,com
nossa vontade,com
nossa sede.
Na inexata exatidão das palavras,na precisão,necessidade,premência,com que
vem forçando passagem para se exprimir,nas expressões que vão se
formando e a gente nem sabe de onde vem.Só sabe que vem.
Como arteiras gotas de chuva,que vão se acumulando na calha esperando
alguem passar,para brincar de pega pega.E elas sempre pegam.
Assim como as palavras,que vão se acumulando na calha do pensamento
esperando para despencar sobre algum incauto.Que possa lhes mostrar o
brilho.Ou melhor,para mostrarem a ele o seu brilho.
Ou como as palavras,suspensas em galhos pesados,como frutas
aduras,esperando a brisa para cantarem com ela,enquanto aguardam
redondas pela colheita.Algumas na certa irão passar do ponto e
cairão.Quase sempre aquelas que não valhem a pena a colheita.Mas
sempre é bom dar uma olhada no conjunto que fica no chão.As vezes
formam figuras geometricas assimétricas,que valem um segundo olhar.As
vezes deixamos que os insetos as comam por serem indigestas ou
assustadoras.As vezes precisamos delas e as pegamos do chão,passamos
um paninho e colamos aqui ou ali para dar um sentido ou para esconder
outros.
Difícil esta profissão de matemático.Dar sentido a palavras sem
sentido algum.Ou lhes dar um sentido oculto,que revele tudo mas
esconda tudo também.Ou fazer apenas somas simples,que a todos
agradem,sem compromisso.  Ou então subir ate o alto da escada e ir
forçando pela garganta abaixo ( dos outros ) seus pensamentos
obtusos.( É, voce acertou,peguei obtuso do chão ha dois minutos
atrás).E me ocorreu mais uma soma.Uma soma ética como Aritmética,exata
como Humana.Somos todos produtos de somas diversas,multiplicações
complexas,divisões internas ( ate a sétima casa decimal ),e subtrações
frequentes.Normalmente a favor dos outros.Esquecendo do numero Pi
primordial que somos nos mesmos.Pares ou primos,seguimos a linha do
caderno,singulares ou plurais,vamos escrevendo para a frente.Ou para
trás.Ou de cima para baixo.Ou de tras pra frente.Mas sempre nos
expressando,calculando,acertando,errando. Com a borracha bem a mão,
para quando for necessário e possível.Para quando valer a pena.

EM TORNO DAS 1001 NOITES – por jorge lescano / são paulo.sp

Em torno das 1001 Noites

© Jorge Lescano

 

 

 

Dahlmann había conseguido, esa tarde,

un ejemplar descabalado de las Mil y Una

Noches de Weil […] algo en la oscuridad

le rozó la frente, ¿un murciélago, un pájaro?

[…] la mano que se pasó por la frente salió

roja de sangre.

Jorge Luís Borges: El Sur

Em aula sobre as 1001 Noites transmitida pela televisão, o professor de língua e literatura árabe Mamede Mustafá Jarouche, recontou um episódio narrado por Jorge Luís Borges em vários dos seus textos. Trata-se de um acidente pessoal que ele relacionará com aquele livro. O episódio teria acontecido na infância de Borges. Nesta versão Georgie, como era chamado em família, havia corrido dentro de casa para receber uma nova edição das 1001 Noites que acabava de chegar pelo correio; na sua afobação não teria visto o batente de uma janela recém pintada, chocando a testa contra ela. O acidente teria acelerado o processo de cegueira que, nas palavras do próprio Borges, foi um lento crepúsculo que durou mais de meio século.

O fato é verídico, porém ocorreu de modo diverso.

 

Foi na véspera do Natal de 1938 – o mesmo ano em que meu pai morreu – que tive um grave acidente. Subia correndo uma escada e de repente senti alguma coisa roçar meu couro cabeludo. Eu me esfolara no batente de uma janela aberta, recém pintada. Apesar do tratamento de urgência a ferida ficou infeccionada e por um período de mais ou menos uma semana passei as noites desperto e tive alucinações e febre alta. Uma noite perdi a capacidade de falar e fui levado às pressas ao hospital para uma operação imediata, declarara-se uma septicemia e por um mês eu vacilei, completamente sem o saber, entre a vida e a morte. (Muito depois iria escrever sobre isso no meu conto O Sul.) –  (Jorge Luís Borges: Perfis, Um ensaio autobiográfico; Porto Alegre, Globo, 1971; p. 106.)

Naquela data, Borges contava 39 anos e já havia sofrido várias cirurgias nos olhos; em algum lugar fala de oito operações. Se o fato não acelerou a cegueira, propiciou a Borges o início definitivo de sua carreira de ficcionista. O acidente fez com que ele temesse pela sua capacidade mental. Pierre Menard, Autor do Quixote, foi o desafio que se propôs para testar esta capacidade. Não devemos confiar demais no seu depoimento, que não inclui Aproximação a Almotásim, nem o as 1001 Noites; o livro é acréscimo posterior, um modo de aproximar a experiência à sua poética do fantástico. Sintomaticamente, no entanto, aqueles dois textos serão publicados no mesmo volume, Jardín de senderos que se bifurcan, em 1941. Já conhecemos os resultados do Pierre Menard: una técnica nueva (d)el arte detenido y rudimentario de la lectura.

Jorge Luís Borges, em hoje célebre citação, afirmou que há uma noite em que o rei Shahriar ouve da boca da rainha sua própria história, dessa forma chegará a vez em que outra Shahrazad narrará a história de uma Shahrazad que narra a história do rei Shahriar, e assim indefinidamente, à maneira das bonecas russas. O original diz assim:

 

¿No es portentoso que en la noche 602 el rey Shahriar oiga de boca de la reina su propia historia? A imitación del marco general, un cuento suele contener otros cuentos, de extensión no menor: escenas dentro de la escena como en la tragedia de Hamlet, elevaciones a potencia del sueño. (Jorge Luís Borges: Prosa Completa; vol. 1; Barcelona, Bruguera, 1980; p. 390)

 

Eu, como todos os leitores, fui buscar a tal noite, que, naturalmente, não encontrei. Repito as palavras do Professor Jarouche porque já antes havia realizado seu gesto. Durante algum tempo atribui minha frustração à qualidade das traduções consultadas, soube depois que a tal noite seria uma “invenção” de Borges. Interpretei o fato como sua contribuição ao livro, à maneira de Galland, Burton e outros tradutores, segundo ele mesmo aponta no artigo Os Tradutores das 1001 Noites. A respeito desta investigação sou menos otimista que o Prof. Jarouche: não acredito que todos os leitores fossem tão minuciosos. No conto El Jardín de senderos que se bifurcan, o sinólogo Albert  diz:

 

Recordé también esa noche que está en el centro de las 1001 Noches, cuando la reina Shahrazad (por una mágica distracción del copista) se pone a referir textualmente la historia de las 1001 Noches, con riesgo de llegar otra vez a la noche en que la refiere, y así hasta lo infinito. (op. cit. p.470)

Sendo um personagem de ficção, Albert tem o direito de lembrar um fato que não se encontra na obra real. Ou como Tzvetan Todorov, segundo Mariza Werneck, citada por Júlio P. Pinto (Uma Memória do Mundo, S.P. Estação Liberdade, 1998), estaria legitimando a criação borgiana sem desconfiar da armadilha?

A este respeito, o Professor Jarouche revela que essa noite, aceita, como vimos, por alguns críticos como real e não criação ou acréscimo do autor argentino – e simultaneamente  questionada por outros críticos -, existe. Afirmou que na edição Breslau, que ninguém lê e provavelmente nem Borges conhecia, essa noite tem o número 999. Borges adivinhou essa noite? Não. No artigo já citado, tratando de uma versão alemã de 1895-1897, fornecida por Max Henning, arabista de Leipzig e tradutor do Curán (sic), à Universalbibliothek de Philipp Reclam, ele escreve:

Las ediciones de Bulak  y Breslau están representadas, amén de los manuscritos de Zotenberg y de las Noches Suplementarias de Burton. (op. cit., p. 388)

Portanto, Borges conhecia a edição de Breslau. Sua contribuição estaria então no deslocamento do episódio, situando-o no entremeio do livro, alterando, assim, a arte estática da leitura.

A história pessoal de Jean Antoine Galland, leitor de línguas orientais de Luis XIV, a vida venturosa do capitão Sir Richard Burton, e especialmente a participação criativa do famigerado Hanna (pois ele foi atingido pela fama através de sua colaboração com Galland), deveriam ser acrescidas ao corpo da narrativa de Shahrazad. De algum modo quer me parecer que isto já aconteceu, de forma não oficial. De fato, com cada tradução estas histórias vêm à tona.

O sírio Hanna “inventa” contos que não constavam no livro “original” (o manuscrito árabe que Galland havia adquirido em Istambul). Isto não invalida sua versão, antes, deveria legitimá-la. Hanna é uma espécie de rawi (rapsodo) que, pela sua função, tem o dever de interessar seus ouvintes, e para tal utiliza repertório próprio.

A controvérsia faz sentido no contexto do século XIX. A imprensa diária (a letra impressa) começa a impor sua autoridade sobre a expressão oral, a verdade tem que passar pela gráfica. O jornalismo inicia seu pontificado. A partir de então esta nova força, “independente”, será um divisor de águas. O jornalista passa a ser o árbitro do que seja verdade histórica, descartando os fatos que não se enquadrem no seu programa pré-estabelecido. É verdade que se as discussões transcorrem entre especialistas, a publicidade dos confrontos fica por conta da imprensa, que cada vez mais se arroga o direito de julgar os fatos, quando deveria limitar-se a noticiá-los.

Galland-Hanna serão acusados de falsificar um original desconhecido até aquele momento, e mais tarde questionado por diversos leitores. Este enredo secular não mereceria fazer parte da leitura das 1001 Noites?

A respeito do título, alguém sugeriu outra leitura. Livro das mil noites e uma noite: as mil noites em que Shahrazad narra suas histórias (os árabes preferem contar histórias à noite) mais a noite 999, que corresponderia à noite do leitor (com cada leitor o livro recomeça). Admitindo tal hipótese, o título poderia ser interpretado assim: Livro das mil noites e esta noite.

Para finalizar, o Professor Jarouche confessou que há vários anos vinha postergando a tradução do livro. A superstição rege sua atitude, solidária com a tradição da obra. Narrou os casos de editores e tradutores que não chegaram a completar a tarefa, interrompida pela morte ou por algum acidente, como o de Borges. Haveria uma espécie de fatalidade relacionando estreitamente a vida do livro à daqueles que se ocupam de sua divulgação. O Professor Jarouche, então, compreende que o livro é um talismã. Isto eu deduzo do seu comportamento: como Shahrazad, o tradutor não evita o trabalho para esquivar a morte, antes o assume, postergando-o, porém. A equação é digna do livro: adiar a tradução é adiar a morte.

Nota carnavalesca do Professor Mamede Mustafá Jarouche:

Caro Jorge:

Somente hoje, com muitíssimo atraso, pude ler o seu texto, do qual gostei muito. As aulas na Cultura são de 2002 — e, na época, eu citava de oitiva a história do acidente com Borges. Foi somente depois que li o texto de Perfis. Quanto à “troca” que Borges operou na localização da noite, não tinha me ocorrido que ele tivesse consultado a tradução de Burton, da qual só tenho o primeiro volume. Não sei se nos volumes suplementares de sua tradução ele inclui a versão final da edição de Breslau. É possível.

Enfim, é isso. Agradeço-lhe o envio de seu excelente e arguto texto, e mais uma vez me desculpo por somente ter podido ler hoje, nesta terça de carnaval.

Grande abraço,

Mamede.

(28/02/2006)

P.S.: A nota inclui um mal-entendido que poderia ser acrescentado à história paralela à narrativa de Shahrazad. Deixo ao meu leitor, mezcla rara de Museta y de  Schaunard (cf. José González Castillo: Griseta, tango, 1924) a tarefa de corrigi-lo.

DIÁRIO DA PROVYNCIA I – por olsen jr / rio negrinho.sc

DIÁRIO DA PROVYNCIA I

 

A IDEOLOGIA (NOSSA) DE CADA UM

 

Nunca escondi de ninguém as influências que tive no meu fazer jornalístico. Acredito que no livro “Confissões De Um Cínico”, elas estão escancaradas.

O editor, e também poeta, Joel Gehlen se deu ao trabalho de computar, diz a propósito da obra: “…Este é um livro radical, implacável, provocativo e vigilante, retrato inequívoco do cronista. Aliás, para um autor que confessa ter recebido todas as influências possíveis, de Gregório de Matos a Bocage; de Swift, Twain, Rabelais, Voltaire, passando por H.L. Mencken, Jorge Jean Nathan, William C. Fields, Ogden Nash, Bernard Shaw, Woody Allen e Art Buchwald até Paulo Francis, bem, não era de se esperar que oferecesse refresco”.

Mas não esqueço o Groucho Marx, Ambrose Bierce, Noël Coward, Aparício Torelly (o Barão de Itararé) de onde todo o humor brasileiro descende, Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) e Millôr Fernandes, onde este termina e o outro começa.

Houve um tempo em que pensei que iria fazer humor.

O casamento entre o humor e a filosofia era algo a ser perseguido. Como disse o Bertrand Russel “O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por algo tão complexo que ninguém entenda”.

Ou, para simplificar, vox populi, perde-se o amigo, mas não a piada.

Estou repassando isso mentalmente enquanto me lembro da reunião de ontem. Foi na casa de um professor universitário de nossa gloriosa UFSC (pronuncia-se em bom manezês, Uféiiisqui – Universidade Federal de Santa Catarina) e foi um convescote interessante. Uma tertúlia de indivíduos – ditos de esquerda – o que se depreendia pelo jargão nas conversas. Não fosse pelo fato de conhecê-los daqui e dali, diria estar em um museu. A palavra que mais ouvi foi “burguesia”, dita no sentido pejorativo de uma classe a ser extirpada do planeta. Curioso é que estávamos fazendo um churrasco onde se observava além do trivial, uma ovelhinha uruguaia, picanha, maminha, costela… E a uma profusão de bebidas, incluindo espumante argentino uma deferência minha, tequila mexicana, bondade do anfitrião, e uísque Jack Daniels e cervejinhas tantas, de outra classe, dita média (ou mérdea, como lembrava sempre o amigo escritor João Antônio) que de indigente não tinha nada.

Questão de nomenclatura. Filhos remediados da classe média fazendo pouco de suas próprias origens. Berço é destino.

Digo que está para nascer ainda um “comunista” que recuse um bom salário mensal, férias, décimo terceiro e décimo quarto, possibilidade de uma casa, carro na garagem e viagens por aí, ainda que pseudo-culturais porque no fundo (ou só na superfície mesmo) é o que todo mundo ambiciona… Mas para isso é necessário financiá-lo e dinheiro como se sabe é coisa de capitalista… Ninguém me contestou. O duro para alguns indivíduos é que “eles” sabem quando alguém lhes adivinha as segundas intenções antes que nos revelem as primeiras… É sempre alguém tentando derrubar alguém pela mesma razão e fins… A peça do Sartre “A Engrenagem” nunca esteve tão atual.

O cineasta Vittorio de Sica costumava dizer “Toda a indignação moral, na maioria dos casos, é 2% moral, 48% indignação e 50% inveja”.

Está aí o Paulo Francis me cutucando, diga a eles que “não há país democrata que não seja capitalista”… Mas era incrível o grau de intolerância no grupo com relação as diferenças, começando por preferências clubísticas, a mais popular delas e nem precisava chegar as “convicções” ideológicas, as mais pernósticas dentre elas…

Falando nisso, acredito que o papo só engrenou quando alguém me instigou em declinar como me “definia” ideologicamente… Well, afirmo, na década de 1970 tive de confessar em um interrogatório no 23º BI que era “marxista” e mesmo acrescentando que era da “tendência Groucho” (fazendo alusão a um dos irmãos Marx da conhecida família de humoristas norte-americanos) ainda assim “penei” um bocado…

Hoje, sinceramente, gosto muito do Woody Allen…Risos.

 

OLSEN JR é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

ANTES do JOGO – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Antes do jogo

Fazia tempo, já, que não chovia. Depois, começou a chover uma vez por semana apenas. Chovia por hora e meia, se tanto tempo, enchia tudo, alagava o cruzamento das avenidas e as esquinas da cidade, encharcava as pessoas na rua e os bichos encolhidos nas calçadas, e logo o sol voltava – o calor nem se tinha ido – e secava tudo. Mais meia hora e era como se não chovesse havia tempos.

Então, inesperadamente, no domingo de Páscoa, apenas três ou quatro dias da última chuva, a tarde começa a escurecer, aos poucos ainda, por enquanto, iluminada pelo clarão súbito e fugaz de relâmpagos aqui e ali que se despedaçam sob uma camada espessa de trovões ameaçadores e sinistros, que no entanto latem mais do que mordem. Haverá de chover em breve e, provavelmente, será muita chuva. Com toda a certeza, haverá de ser um pequeno dilúvio a despencar bem na hora do jogo, exatamente quando estiver prestes a iniciar a partida de futebol.

Como aconteceu ainda outro dia, sob um furioso vendaval de Oeste que levou a chuva, de frente, até o último degrau das arquibancadas do setor D, levantando, arrancando e arremessando a longa distância partes metálicas retorcidas da cobertura das cadeiras. Mais quinze minutos e o estrago seria memorável. Por sorte, o que se soltou da estrutura, devido à ferocidade insana do vendaval, correu rolando por sobre o telhado – uma só peça daquelas que voasse por baixo do telhado, uma só lasca daquele ferro, e aço, e alumínio, e zinco, que se soltasse e se projetasse sob a coberta, seria lâmina afiada e sedenta para uma cortante destruição em massa. O que se soltou, rolou sobre a cobertura e caiu atrás do estádio, nos locais onde passam as pessoas e estacionam-se os carros: por sorte, o time vinha mal no campeonato e não havia, por isso, gente caminhando antes do jogo nem carro parado naquele terreno baldio em que se cravaram, no solo, pesados restos de metal arrancados pela tempestade.

Está agora quase começando a partida desta tarde pascoal e o vento sopra furioso, o céu não cessa de espocar luzes coruscantes que buscam ávidas o chão de terra ou de água, o ronco da trovoada é então quase um rugido constante e incansável – e a chuva chega, desvairada e forte, açoitando todo mundo com rajadas cambiantes até fixar sua direção, seu Norte: ela vem precisamente de Nordeste e lava os degraus das arquibancadas encurralando o pessoal, os torcedores, nos derradeiros níveis de cadeiras, em busca inútil de uma cobertura, um abrigo que os proteja da borrasca. A chuva vem fria e consigo despeja o granizo.

O efeito mais imediato da água que nos metralha quase na horizontal é a suspensão forçada da redação deste texto: homem de arquibancada de estádio, não disponho dos vidros e paredes de um camarote para observar o espetáculo e seus atores, exatamente, de camarote. Sou parte da trupe, mero figurante, é verdade, no meio de outros nove mil torcedores anônimos.

Na hora do jogo, porém, o temporal já se tinha ido sabe-se lá para onde, o gramado perfeito escoara toda a água que se acumulara, o sol já iniciava seu retorno de detrás das nuvens e a partida começou sem atraso.

Chuvas de Norte vêm sempre de Joinville, cidade em que chove sempre, mesmo em tempos de seca geral. E foi justamente o Joinville que entrou em campo, mas de nada lhe valeu a chuva trazida consigo, derrotado que se viu por 1 a 0 pelo Avaí, completando 11 anos sem conseguir vencer o Leão da Ilha na Ressacada, faça chuva ou faça sol, faça frio ou calor.

 

AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS com 8 obras publicadas.

MEU ENCONTRO COM MILLÔR FERNANDES (*) – por olsen jr / rio negrinho.sc


   Estava passando por um corredor no Centro de Cultura e Eventos da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, quando ouvi o amigo Dilvo Ristoff contando uma história hilariante envolvendo o Millôr Fernandes (**) em que “eu” aparecia como o homem certo no lugar errado. Ouvi atentamente e exclamei “espera aí, não foi bem assim”. Só intervi porque na plateia estavam os escritores Silveira de Souza, Flávio José Cardozo e Jair Francisco Hamms (***).

Não ia deixar “barato” aquele relato. Já havia passado quase dez anos e o cara não “esquecera”, ou pelo que constatei, atinha-se a “sua” versão do ocorrido.

O Millôr havia aberto a Primeira Semana de Comunicação e Expressão, início de 1996, e havia ganhado algumas “notas extras” nos jornais por conta de duas perguntas de uma jornalista. A primeira, “como você vê o quadro político-econômico do País?” Respondeu: “o quadro tem uma moldura boa, mas o conteúdo é precário”; a segunda, “Como você avalia a comunicação brasileira hoje?” Disse (simulando meditar): a Rede Globo deve valer um bilhão de dólares… A entrevista terminou aí…

Depois do evento, Dilvo (um dos idealizadores daquele Encontro) convidou o Millôr para almoçar na Lagoa da Conceição. Era uma segunda-feira, a maioria dos restaurantes fecha para o descanso semanal. Estou ao lado da minha casa, num dos poucos lugares abertos quando vejo um táxi parar em frente. O Dilvo se aproxima para ver se o local serve almoço e me vê. Após os cumprimentos, afirma que está com o Millôr Fernandes e pergunta se poderiam sentar à mesma mesa. Afirmo que seria uma honra. Logo após, estamos reunidos, o Millôr com a mulher, Cora (filha do grande crítico literário, Paulo Ronai), a escritora rio-grandense Ieda Inda, a Michelle (minha filha) e este poetinha que vos fala. O Millôr consegue manter aquele humor o tempo todo, coisa rara, de maneira que dois cínicos se dão bem, e logo parecia que nos conhecíamos há mais de 20 anos. Acredito que a “mágoa” do Dilvo (se houve alguma) deva ser atribuída a esse fato, embora “ele” próprio consiga manter um apurado senso de humor.

Terminado o almoço, perguntei se o Millôr poderia autografar alguns livros. Cora, a mulher, disse que não haveria problema. Em menos de cinco minutos, trouxe 23 obras da minha biblioteca. Motivo de gozação. O Millôr brincou “Pô! Não pensei que tivesse escrito tanto”… No livro “O Homem do Princípio ao Fim”, ele escreveu “Para o escritor Olsen Jr. que é do meio”… Cada dedicatória era uma peça, todas lidas depois em voz alta e “curtidas” pela mesa…

O tempo passou, e agora estou ali, ouvindo a “versão” do Dilvo. Tenha paciência, brinquei você foi muito gentil, aquele encontro foi memorável, ao contrário de alguns “coleguinhas” que quando trazem alguém de fora, nestas paragens, procuram isolar-se, não compartilhando de “suas” presenças. Coisa de gente pequena. Lembro que já te agradeci por isso, no que o Dilvo concordou. Depois o Jair Hamms afirmou que iria escrever sobre o fato, disse que também o faria, afinal, tenho “a minha reputação a zelar”. Aliás, aquela “nota” sobre as “respostas” do Millôr Fernandes para a jornalista, confesso, fui eu quem enviou para o Cacau Menezes (19/03/1996), o Millôr disse apenas “o quadro tem uma moldura boa, mas o conteúdo é precário”… Botei a minha colher e acrescentei “ignora-se se o conteúdo é precário porque o esboço é ruim, ou o esboço é ruim porque o conteúdo é precário”… “Fi-lo” como diria o Jânio Quadros,  porque a bolinha estava quicando na área e tinha de marcar o gol, afinal, agora o que ficou foi a minha versão, lembro a expressão clássica do Leonel Brizola “não é verdade!”.

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(*) – Esta crônica inicialmente com o título de “O que importa é a versão” foi publicada originalmente no Jornal “A Notícia”, de Joinville (SC) no dia 08 de abril de 2005.                

(**) – O humorista, escritor, tradutor, cartunista, crítico e filósofo Millôr Fernandes morreu no dia 27 de março de 2012.

(***) – O escritor Jair Francisco Hamms faleceu no dia 11 de janeiro de 2011.    

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NOTAS:

A música poderia ser esta: “Beatles in Pepperland”…

A inspiração veio do Álbum “Revolver” e da música  “Yellow Submarine” , uma das faixas,  ambos de 1966…

Em 1967, Lee Minoff escreveu uma história baseada em algumas letras dos Beatles.

Essa história foi transformada em filme.

Um desenho animado onde o produtor dos Beatles, George Martin participa com algumas músicas instrumentais.

Estas músicas foram adicionadas a trilha sonora do filme…

O Álbum com a trilha sonora foi lançado seis meses após o filme, contendo apenas algumas músicas do filme e mais as composições de George Martin…

Em 1999, o desenho animado foi reeditado digitalmente e foi lançado o Álbum Yellow Submarine Soundtrack, desta vez com todas as músicas dos Beatles que fazem parte do filme,

mas sem as compostas pelo George Martin.

A história do desenho animado era sobre PEPPERLAND, um paraíso situado a oitenta mil léguas submarinas cercado por cor e música (qualquer alusão aos livros “Vinte Mil Léguas Submarinas” e a “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, de Júlio Verne não será mera coincidência)…

Os vilões denominados BLUE MEANIES atacam Pepperland para acabar com as músicas…

Os Beatles vão salvar Pepperland dentro de um Submarino Amarelo…

A música “Beatles in Pepperland” é instrumental, de George Martin que anima esta parte do filme…

Não conto o final do filme…

Aí está parte da trilha sonora, com o carinho do poeta, sempre…

http://www.youtube.com/watch?v=gbsVySv5UAU

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OLSEN JR é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS com 8 livros editados.

Sexta-feira Santa – por olsen jr / rio negrinho.sc


 

SEXTA-FEIRA SANTA

 

O “dia não é de alegria!”…

Foi a primeira frase que ouvi, logo seguida de um complemento:  “as pessoas costumam meditar, fazer uma auto-análise daquilo que pretendem com a vida que levam, também se impõe uma espécie de penitência em que se inclui o jejum”…

Meu pai disse aquilo ao mesmo tempo em que me entregava uma obra “O Mais Belo Rabi”, com a recomendação “leia este livro”. A indicação vinha como uma ordem, e lá em casa se respeitava uma determinação paterna, pelo menos na infância. Era a primeira vez que ele me impunha uma leitura. Normalmente apenas comunicava os livros que havia comprado e estavam disponíveis na biblioteca. Sempre fui um rebelde e não gosto de imposições. Mas, acredito, naquele dia devia estar com um semblante indefinido, naquela incerteza que acompanha um “não saber qualquer”, a dúvida que antecede uma nova escolha, no caso, de recomeçar a leitura ou de descobrir uma obra interessante para se ler, mas voluntariamente, sem indicação externa. Tinha entre 9 e 12 anos e sabia, por experiência própria, que quando se tem uma tarefa para cumprir, o melhor era acabar logo com a incumbência e se livrar do peso de um remorso, a posteriori, e a maldita consciência do dever não cumprido. E já estava encarando a leitura como um compromisso e não um prazer pessoal dela decorrente. É Sexta-Feira Santa e existe uma aura no ar, como convém a um dia especial. Dia de consternação, de ficar só…

Tudo passa num instantâneo enquanto observo um pai levando um filho pelas mãos em frente do banco onde estou em uma praça no centro da cidade, a criança vem sorrindo alheia ao que se celebra hoje, está contente – como disse Bertolt Brecht, porque ainda não havia recebido a má notícia… Mais além, outro garoto caminha sozinho, não tem a quem recorrer, por isso recorre a todos.  Aquela mãozinha estendida era de cortar o coração. Que espécie de sociedade permite tal desempenho? De repente me descubro nela, dentro dela, sou ela, logo a lembrança de Sartre, a respeito da obra “A Náusea”, afirmava que enquanto uma criança passasse fome no mundo, aquele livro não tinha o menor sentido. Era retórico para chamar a atenção sobre outra realidade, o que conseguiu…

Descubro-me, igualmente, sem ter a quem recorrer, estou tão só como aquele garoto, e por isso me lembro do meu pai e daquele livro, “O Mais Belo Rabi”, que tratava da vida de Jesus Cristo. Uma leitura gratificante, edênica, menos dolorida que o filme “A Paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson. Depois, no ano seguinte voltei a relê-lo, e hoje apenas folheio as páginas detendo-me em parágrafos aleatórios alimentando a consciência de que a liberdade que permite essas elucubrações só faz sentido porque ainda não perdi a capacidade de me indignar!

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OLSEN JR  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

Livros pra se ficar rico, muito rico – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Maria Vitória me chama:

– Rápido, olha só isto aqui. Acho que vais gostar do que está passando.

A rapidez se justificava pelo fato de que o homem falava na televisão (o “isto aqui” a que ela se referia) e podia, portanto, mudar de assunto de um instante para outro, como sempre acontece quando queremos compartilhar uma notícia com alguém da sala ao lado (por isso que, em oposição à televisão, a internet tanto cresce como fonte de informações, pois ela é sabiamente paciente, sempre se submetendo aos caprichos do cliente e sempre lhe entregando o que ele busca). Mas não foi o caso, o homem me aguardou com incrível espírito de perseverança, sem cessar jamais de comunicar-se com sua ênfase esmagadora, dessas de tirar o fôlego, o raciocínio e o juízo de quem se deixe apanhar por palavras retumbantes e tons de voz autoritários e urgentes. Ele prosseguiu contando suas maravilhas por um longo tempo: o tempo afinal era dele, pago para que falasse quanto lhe conviesse. E, como sabemos todos nós, quanto mais se repisa uma ideia estonteante ou se ressaltam as magníficas virtudes de um produto, mais o interlocutor, ouvinte ou telespectador se convence da veracidade das palavras proferidas com tanta e tamanha solenidade.

Assim era o homem: tanto e solene, tamanha a sua certeza das verdades da vida.

Falava de livros – melhor, de um livro específico (depois deitou a falar de uma profusão de outros títulos publicados por uma editora que até parecia ser de sua propriedade, e talvez o fosse mesmo). O homem discorria sobre a obra de um certo Rev. Louis P. Sheldon (seria este um parente do notório Sidney, autor de tantos livros que vendem milhões mundo afora?), supostamente intitulada, em inglês, The Agenda e traduzida no Brasil como A Estratégia, com o subtítulo sintomático e assaz importante para a correta difusão do trabalho, e afim de não deixar qualquer dúvida sobre suas inclinações e intenções, de O plano dos homossexuais para transformar a sociedade.

Sobre o livro, o sítio da editora alerta que está em curso uma “estratégia gay, que visa erradicar a estrutura moral da sociedade e promover relações promíscuas”, as quais identifica como “abominação”, e incita os cristãos a “denunciar o pecado e combater esse plano diabólico para destruir o ser humano”.

Daquela mesma Editora Central Gospel fica-se sabendo da existência de outra obra pouco sutil já no título:Nascido Gay? – Existem evidências científicas para a homossexualidade?, assinada por um tal Tay (nãoGay), um Dr. John S. H. Tay. A tese é clara: esse negócio de alguém dizer que nasceu gay masculino (que, livrando por ora as mulheres, parece ser um alentado foco de preocupações para a igreja do homem que falava dos livros na televisão, o qual vem a ser um conhecido pastor evangélico) é pura sacanagem só para minar a família e, com certeza, obrigar a todos nós, em breve, a termos exclusivamente relações homossexuais.

Isso assusta um bocado de gente temente a Deus (temente a ponto de se borrar nas calças), uma turma que está chegando à classe média brasileira e descobre uma graninha sobrando para comprar alguma coisa mais, como uma cadeira cativa no céu e um livro do agrado divino – seja através da igreja ou dos títulos do pastor, um escriba prolífico que promete na TV solenes descontos de 5% e pede dinheiro, dinheiro, dinheiro para ajudar suas obras de caridade.

E que escreve livros de autoajuda no sentido reflexivo do ponto de vista do autor…

Amilcar Neves é escritor com oito livros de ficção publicados, e membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

NÓS, OS SOLITÁRIOS – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

Você me pergunta: “como a vida está te tratando?”. Well! Exclamo (como alguém do interior de New Orleans, habituado com a boa música, the good old jazz, mas descrente de que tal prática possa sepultar a discriminação racial mesmo entre aqueles que admiram a grande arte) sem muita convicção, continuo esgrimindo contra mil fantasmas, a maioria deles, existentes só na minha imaginação. Não me importo, afinal de contas, é dela somente que preciso para fazer o que acredito, ainda posso fazer. Se fosse o Sartre, diria: “para emprestar uma justificativa para a existência injustificável dos meus semelhantes”… No fundo, nós os poetas, escritores, queremos ser aceitos… Sofisticando um pouco, ou pedindo muito, pretendemos ser amados, é isso. Lembrei agora da atriz Ava Gardner, num momento de introspecção, disse: “no fundo, sou bastante superficial”, não consigo deixar de rir, embora nada conspire para a existência deste riso, mas é o que restou, quando perdemos o senso de humor não temos mais nada para perder.

Um homem sozinho não tem chance, profetizou o velho Hemingway no livro “To Have and Have Not” e que originou aquele belo filme, segundo a lenda, produto de um desafio de um diretor que teria instigado “Papa” a lhe dar o que considerava o “seu pior livro” e “ele” faria um bom filme. Acertou, com Humphrey Bogart e Lauren Bacall e que foi traduzido como “Uma Aventura na Martinica”… Pois é, hoje estou pensando naqueles ensinamentos, frases soltas ditas aqui e ali, minha avó era pródiga nisso, afirmava que as pessoas estão neste mundo para alguma coisa, uma espécie de “missão” a cumprir, depois disso, partem… O que significava não poder questionar o destino de ninguém, quando partiam era porque a hora tinha chegado. Agora, sem ninguém para me ouvir, penso, se todas as pessoas estão aqui para alguma coisa, no meu caso deve ter havido um engano. Não me sinto imbuído de “missão” nenhuma. Claro, se estou aqui, então preciso fazer alguma coisa. Digo que sou escritor, me atocho de heroísmo, me dou  ao luxo de ser um solitário, uma atitude tipicamente burguesa, sou independente dos outros, se não fosse pelo fato de vê-los como personagens, não teriam importância nenhuma. É duro, mas é o que penso. Isso tem um preço, e é alto. Pago a minha cota, e é muito para compartilharmos a “nossa” indiferença mútua. Estou identificado no poema de Sidônio Muralha, em seus últimos versos “… E que ninguém me dê amparo nem pergunte se padeço. Não sou nem serei avaro – se caráter custa caro, pago o preço!”…

Tudo isso para tentar responder a tua pergunta, amigo Fausto Wolff, porque ser “durão” significa sacrificar aqueles a quem amamos para realizar a nossa arte, afinal, de quem iríamos escrever?  Ser amado, constatou Paulo Francis, falando de T.S. Elliot, é um sentimento que supera qualquer depressão, desespero ou impotência, concordo. Não foi a indiferença quem me prostrou, foi o temor em ser aceito naquela sociedade, só!

Adélia e o seu pai Severo – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc


Quando Adélia dos Santos Ferreira morreu, seus pais já estavam separados. Naquele tempo isso era muita coisa, essa coisa de separarem-se marido e mulher, pai e mãe casados, era caso para escândalo público e vergonha familiar. Na época, a mãe ficou na casa da Prainha, com sua religiosidade beata e a filha única que teimava em viver lendo e estudando, enquanto o pai se mudou para a Agronômica, onde morava amancebado, porém como cônjuge verdadeiro, com uma dona de nome Luzia.


A história da morte de Adélia, atropelada por um ônibus no meio da Ponte Colombo Salles, e das consequências desse trágico acontecimento foi contada em um livro publicado em 1984 e nunca mais reeditado, de título Dança de Fantasmas. O caso andou um tanto esquecido porque pouca gente leu o livro e – desgraça suprema para soterrar qualquer acontecimento! – o fato aconteceu justo num sábado de carnaval.


O fato referido no parágrafo anterior é a circunstância de que Adélia ejetou-se – ou foi ejetada – de um carro em movimento que transitava pela segunda pista da ponte; logo após aquele veículo, na primeira pista, a da beirada, aquela que corre olhando para a Hercílio Luz, ponte que naqueles anos ainda existia de pé, subia o ônibus que atingiu a garota plena e irremediavelmente, prostrando seu condutor em estado de choque. O carro em que a menina se encontrava perdeu-se no continente defronte.


Adroaldo Ferreira adorava aquela filha e era na casa do pai que Adelinha se sentia mais gente, como se diz, mais à vontade, com espaço para leitura, com estante repleta dos seus livros de estimação e sem a perseguição implacável do odor de vela santa, da umidade de água benta, da ameaça dos cruéis castigos eternos nem do rosário sempre rezado das obrigações eclesiásticas recorrentes. Foi daquele ambiente de vida e realização pessoal que ela saiu para encontrar a morte. O pai sofreu dor profunda, assim covardemente apunhalado pelo destino.


Tempos depois, já em 2003, a história foi filmada num curta-metragem de 18 minutos produzido pela Laine Milan e dirigido pelo Chico Caprario, levando o título As Diversas Mortes de Adélia – porque cada pessoa que conhecia a jovem de 17 ou 18 anos tinha a sua memória muito pessoal de Adélia e via uma razão ou justificativa muito própria para a sua morte: como se ela fosse ao mesmo tempo várias e todas tivessem morrido subitamente.


Severo foi o pai de Adélia no curta. Vendo-o preparar sua participação no filme, qualquer um era capaz de jurar que ali estava o personagem vivo, não um ator. Ali estava um pai completamente arrasado, destroçado, acabado, com as roupas e o rosto em desalinho pelo pesado golpe recebido: uma voz embargada, ainda que firme, uns olhos úmidos pousados na face idealizada da filha querida que se fora, uma expressão de dor difusa e autêntica a cortar-lhe os traços, um ser humano alquebrado e, naquele momento, totalmente desesperançado. A participação de Severo Cruz conferiu uma dimensão humana marcante ao filme.


Agora, em fevereiro deste ano de 2012, esse pai sofre novo golpe ao ver sua casa na Costa da Lagoa totalmente consumida pelo fogo. Amigos e admiradores se organizam e marcam um Tributo a Severo Cruz – Renascer das Cinzas, espetáculo com mais de 30 músicos, cantores e grupos musicais no palco do Teatro Pedro Ivo no sábado, 31 de março, para juntar dinheiro e comprar nova casa para o ator e também cantor.


E para que Severo continue a fazer o pai de muitas outras Adélias no cinema.



Amilcar Neves é escritor com oito livros de ficção publicados.

Subitamente – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc


De súbito fez-se noite. De um momento para outro estava escuro que nem breu. Algumas estrelas brilhavam, uma lua se insinuava para breve mas não tanto, pois a fase era minguante e, minguando, ela só surge mais tarde, cada vez mais tarde até praticamente não mais surgir quando se faz nova. Nova, não passa de esboço de lua no céu diurno, uma coisa pavorosa. Não se sabe de esboço de sol no céu noturno.

 

Fora as estrelas e a promessa de lua, a rua tomava-se da luz esfuziante dos carros, dos postes, das casas (cada vez menos), dos apartamentos (cada vez mais e mais altos). Mas era noite. E era escuro. Disto ninguém duvidava, pois tinha de fato anoitecido assim de repente.

 

Em verdade, não foi bem assim, se fores honesto conosco e contigo mesmo – o mais difícil, e cada vez mais, é encontrar honestidades vagando por aí. De tão raras no pedaço, são disputadas a tapa, a socos e pontapés, para que aprendam de vez a serem desonestas e safadas como todo mundo. Que é isso de andar honestamente por aí? Pensas que isto aqui é a casa da mãe joana para te fazeres de santo? Ainda mais: fazer-te de honrado, digno e decente em ano de eleição municipal? Era o que me faltava – o que nos faltava -, tem a santa paciência!

 

O fato é que te embrenhaste pelos meandros de um desses grandes mercados que espalham por aí, e lá tinhas ido, sabes, apenas para comprar um pão decente e honesto, mas decidiste te perder absurda e irresponsavelmente a esquadrinhar a prateleira de doces e chocolates como se te fosse dado consumi-los assim sem um motivo muito consistente e inarredável. Ao saíres, ao cabo de todos os procedimentos inerentes ao mercadejamento capitalista, a noite se fizera, se fechara frente aos teus olhos surpresos.

 

Olhaste então para o outro lado da rua e viste a fazendola que ali esteve pelos últimos 35 ou 40 anos, tempo durante o qual sempre te propuseste a fotografá-la antes que o dono a vendesse, antes que os herdeiros a torrassem (para comprar carros e fazer festas e ficar sem nada em pouco tempo, bem menos do que esses 35 ou 40 anos em que ela resistiu com seus bois e vacas, suas galinhas e plantações, para o trabalho solitário do pobre velho já doente mas teimoso, teimoso até morrer, como diziam sempre suas noras, genros e cunhados que não se conformavam de saberem-no com uma mina de ouro nas mãos e, no entanto, disposto a sair no frio, na chuva e na lama para tratar do gado como se isso fosse serviço de gente). Mas não, nunca pegaste uma câmara, sequer teu celular de baixa resolução, para fazeres as fotos que sempre te prometias e ali estava, agora: subitamente tudo viera abaixo.

 

Já não havia mais fazenda, mas uns lotes enormes marcados para a construção de prédios residenciais enormes, com nomes como Maison de France ou coisa assim, com 12, 14, 16 andares para tapar a vista dos morros em volta e com a finalidade única de derramar mais e mais carros, com crianças para a escola e adultos para o trabalho, nas ruas estreitas de sempre que há muito já não davam conta de escoar tanto veículo, onde nem o transporte público, raro, precário e caro, conseguia circular.

 

Subitamente as coisas mudaram – mudam -, assim como subitamente um dia morrerás – morreremos -, e já devias te dar por satisfeito de não teres sido abortado de aborto espontâneo ou provocado. A partir dali, tudo aconteceria de súbito na tua vida: pouco a pouco, devagar, construindo-se – mas ainda assim dizes que aconteceu tudo tão subitamente que nem tiveste tempo.

 

 

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AMILCAR NEVES é membro da Academia Catarinense de Letras com   oito livros de ficção publicados.

“ For the world is more full of weeping than you can understand “ – por omar de la roca / são paulo.sp

 

Se quebraram meus vasos de porcelana rara. Eu peguei os cacos e vi que não eram nada além de barro comum. Estalaram as cordas da harpa que se cansou da conhecida música. A ultima rosa de verão, tão acalentada, mirrou e suas pétalas se transformaram em pó. Nada mais resta de meus sonhos exaustos. Só o cansaço me acompanha fiel. Este cansaço “de todas as coisas”, ancestral,velho de milênios. Cansado de si mesmo, arrastando-se pelo sol em cega caminhada. De um lado a água profunda e escura do outro o deserto escaldante. A trilha estreita que me empurra ora para um lado ora para outro. Sem me dar chance de escolher, de dizer, é este que eu quero e não aquele. Meu coração, como o espelho, partiu-se de lado a lado. E cada lado se partiu em outros dois pedaços numa seqüência fractal indefinida. Espero com os pés na areia,mas a estrela não cai mais.A primavera congelou no tempo.Me cortaram as asas.Só eu continuo por aqui. Mas não sei como. Não sei como sou. Não sei quem sou nem o que importo. Nem se importo. Eu quem ? Mas a impossível continuidade segue em frente, e me carrega com ela. Como uma onda que varre tudo pelo caminho e vai levando, vai levando. Sem dizer para onde e nem se vai parar. A canoa  solta das amarras, insiste em ficar no mesmo lugar. Só vai balançando de um lado para o outro. Não vira e nem segue em frente. Não segue a corrente de água (límpida? turva? não sei ). Os dedos do salgueiro continuam tocando de leve a água do lago. Mas eles não escrevem mais, apenas observam as gotas escorrendo deles como as lágrimas que não chora. Nada mais me importa. Nem me interessa mais agradar a ninguém. Nem me interessa me dar bem com ninguém. Será apenas um momento? Será apenas este infinito, irremediável cansaço? Serei capaz de suportar este azul que insiste em se mostrar? Mas o azul não esta mais dentro de mim.  O falcão refugiou-se na gaiola e não quer mais voar pelas campinas amarelas. As borboletas, as flores de cerejeira, o beija flor, ficaram só na fotografia. Nada restou. Algo virá para ocupar o vazio? Há bastante espaço. Mas o vazio não quer ser incomodado com mágoas e sonhos destruídos. Nem as minhas. O vazio quer apenas o vazio e nada mais. Quer ficar vazio para sobreviver. Quer sobreviver?  Não sei.

Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery hand in hand,
For the world’s more full of weeping than you can understand

Vá embora, criança,                                                                                                                                   Vá para os lagos e floresta                                                                                                                   com uma fada em cada mão,                                                                                                                deste mundo cheio de tristeza e choro,                                                                                             além de sua compreensão.

E este interminável cansaço. Cansado de si mesmo e dos outros.. A última fibra de rompeu. Cansaço, companheiro inseparável de todas as horas. E eu, que pensava ser forte, cai em mim e percebi que não sou nada além de apenas mais um .Sem direito a nada mais do que meu cansaço me impele a conseguir. Será que vai ser só isso? Sem esperança de ir mais além? Só sei que cada vez estou mais triste, com menos esperanças. Era mais fácil quando eu acreditava que algo mais viria. Agora, não sei. Será só esta inexistência insossa? Só me resta esperar que meu cansaço me responda. Dá me tua mão cansaço,vamos seguir mais um pouco.

PARECE FÁCIL, MAS NÃO É! – por olsen jr / rio negrinho.sc


   Cansei da maçaroca. Lembrei de um livro do Salim Miguel ”Sezefredo das Neves, poeta”, que começa com o narrador afirmando que recebeu um “original” para ser lido mais tarde e que o apelidou logo de “a maçaroca”.

A maçaroca, no meu caso, é constituída de uma série de anotações feitas por aí e guardadas em um dos bolsos da calça. As calças mudam e as tais anotações continuam se amontoando sem que tome uma providência. São ideias para uma crônica, um conto, um dito espirituoso feito na hora apropriada, uma frase que capta um momento bem humorado, enfim, algo que pode ser trabalhado posteriormente. O suporte para tais anotações pode ser um guardanapo, um extrato bancário, um comprovante da medida de peso/altura de uma farmácia, uma nota de compra, um ticket de supermercado ou de posto de gasolina, o verso de um cartão de visitas, e se não tiver nada, a palma da mão também serve.

Hoje peguei aquela papelada toda e disse: chega! Só tomei a iniciativa, entretanto, quando um amigo me viu deixar cair tudo quando fui pagar o café no bar… Ele indagou “que maçaroca é essa?”.

Well, é de assombrar como se parte de coisinhas simples para se construir uma obra.

Muitas vezes é só um lembrete mesmo: “policial Henrique (livro)”… Lembrei que fui socorrido por um policial num acidente de carro. Quando soube que era um escritor disse que gostava muito de ler e eu prometi um livro. Na hora não tinha nenhum. O bilhete deve estar a uns quatro anos passando de bolso em bolso sem que cumpra com o prometido, vou fazer isso hoje; um outro diz: “filme do Cantinflas/ajudante de circo/pesos”, trata-se do comediante Mário Moreno, ele fazia o papel do ajudante, a atração principal era um fisioculturista (vestido com pele de tigre) que levantava vários artefatos em que estavam escritos em cada um o “seu” peso (150kg, 200kg,) e depois da encenação, o Cantinflas entrava e pegava todos eles com uma das mãos (eram de isopor) e o cinema vinha a baixo de riso, lembro a propósito de um colega de ginásio que assistia ao filme na cadeira de trás da minha e passava o tempo todo cantarolando a música “Leva eu Sodade”, um dos versos que dizia  “Oi leva eu…  eu também quero ir”… Dos “Cantores de Ébano” que fez sucesso na década de 1960… No outro lado do papel, um lembrete: “Eliane & Elias/ Piano” seguido de um número de telefone para contato… Cenas que poderiam integrar uma obra de ficção.

Numa comanda de hotel indicando como chegar a feijoada do Bar do Zé em Joinville, estava o texto “A mesma “coisa” feita de outro jeito, tem novo sentido”. Não me lembro do que se tratava, a “mesma coisa” para mim sempre foi um caminhão carregado de melancias, mas depois que os japoneses “criaram” a melancia quadrada (vi isso na internet) nem se pode usar mais a tal expressão.

Tinha elucubrações bem feitas e que só estavam ali porque não tivera disposição para transportá-las para um caderno onde faço tais registros, por exemplo, “Procuro ignorar os elogios e as críticas que fazem ao meu trabalho porque ambos são mendigos que me pedem esmolas: o elogio de minha vaidade e a crítica de minha ira. Tanto um como outro me empobrece”.

O meu favorito era um que afirmava “Os homens de talento, digo, os gênios, deveriam ser mais pacientes, afinal nós temos a eternidade pela frente”…

Tudo isso parece afetação, mas o que é que se pode esperar de alguém que pensa o dia inteiro? Claro, tinha os bilhetes que me faziam cair na realidade, esse que está em minhas mãos agora, para ilustrar, dizia “Pagar a ótica (R$175,00) no dia10”, consulto o calendário e já estamos no dia 22… O que “eles” iriam pensar do meu atraso? Talvez, na melhor das hipóteses: “paciência, os filósofos são distraídos mesmo, não são?”.

 

NOTAS:

 

A música poderia ser essa, “In the Summertime”, do Mungo Jerry…

Grupo inglês formado por Ray Dorset, Colin Earl, Paul King e Mike Cole…

http://www.youtube.com/watch?v=zc9wIzi96_E&feature=list_related&playnext=1&list=AVGxdCwVVULXdYIqsgEqjJnN0mDqo59BJK

Fizeram sua estreia no início dos anos 1970 no Festival Hollywood, Newcastle-Under-Lyme em Staffcorshire… A música “In the Summertime” foi direto ao topo, foi a número um em 26 países ao redor do mundo…

O nome do Grupo foi inspirado no poema “Mungojerrie” , de T. S. Eliott…

Segundo Joseph Murell no livro “O Livro dos Discos de Ouro” (1978) a “Mungomania” foi possivelmente o mais importante fenômeno pop a chegar a Grã-Bretanha desde os Beatles…

 

NELSON RODRIGUES, 100 ANOS – por luis fernando pereira / curitiba.pr

É só isso? Foi a minha pergunta ao funcionário da acanhada sala do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro, escolhida pela Funarte para abrigar a recente exposição “Nelson Brasil Rodrigues – 100 anos do anjo pornográfico”. Não havia quase nada exposto na tal exposição. Alguns recortes de jornais sobre Nelson e a sua Remington Portable (uma máquina de escrever, explico em atenção aos mais novos). Patético. No final da década de setenta, já com saúde debilitada, Nelson Rodrigues foi do Rio a Florianópolis de carro (não andava de avião) para lançar O Reacionário. Pois na hora do lançamento não apareceu uma viva alma para comprar os livros autografados. Nelson estava em baixa. A exposição lá no Rio lembrou-me da sessão de autógrafos de Nelson em Florianópolis. Coisa triste. E muito injusta!
Exagero pouca coisa quando digo, vez ou outra, que Nelson é o escritor brasileiro mais importante de todos os tempos. Dramaturgo, cronista, romancista, frasista, polemista, ninguém escreveu tanto e tão bem. É claro que poucos concordam com a minha opinião. E Machado? Questionariam alguns. Não chega perto de Guimarães Rosa, afirmariam outros. Com certa razão, pode-se dizer que Érico Veríssimo produziu mais. Para mim é o Nelson porque eu acho que é e ponto final. Algo que o próprio Nelson classificaria como opinião de torcedor do Bonsucesso. Ou, ainda Nelson, “se os fatos são contra mim, pior para os fatos”. O Nelson é o maior e não se fala mais nisso.
E digo que é o maior praticamente desconsiderando o Nelson dramaturgo. Aqui fico com o polonês Ziembinski – que disse o seguinte ao ser apresentado ao texto de Vestido de Noiva (peça que ele depois dirigiu): “Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso”. Mesmo jogando fora toda a produção teatral, Nelson segue com o título do “melhor escritor brasileiro de todos os tempos” (título que eu mesmo criei e entreguei, em homenagem póstuma). Sobretudo agora, em desagravo pela exposição anoréxica lá do Rio.
O Nelson legítimo é o cronista-contista-frasista. E ainda poderíamos deixar de lado toda a crônica de futebol – que é deliciosa. O que há de mais importante em Nelson é a sua crônica do cotidiano. Joguem tudo fora (os romances, inclusive) e levem em conta apenas a Vida como Ela é. É o suficiente para garantir o título a Nelson. Por dez anos consecutivos (de 51 a 61) o sábio Samuel Wainer deu-lhe o espaço para as colunas diárias no jornal Última Hora. A coleção de crônicas e contos é admirável (há quem diga que eram ensaios; os mesmos que dizem que Nelson era o Montaigne do Brasil. Eu quase concordo). Na sua Remington Portable Nelson escrevia de forma alucinada (fumando e usando só dois dedos). Antes que critiquem o veículo das publicações, lembrem que Balzac também publicou boa parte da sua Comédia Humana em capítulos de revistas. Nelson é o nosso Balzac. Um Balzac de linguagem simplificada e um pouco mais pornográfico. São, aliás, as duas acusações preferidas dos críticos de Nelson.
“Reclamam que a minha linguagem é pobre”, dizia Nelson para logo em seguida complementar, com boa ironia: “não fazem ideia do esforço que faço para empobrecê-la”. Com esta linguagem pobre Nelson era sim pornográfico. Era nosso Marques de Sade sem o ressentimento da prisão; mais solto, irônico e caricato. Hoje é fácil ser pornográfico. Mas retratar moças virgens violentadas (Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária) na década de sessenta era um pouco mais complicado. Nelson não se importava. Tratou de sexo e adultério o tempo todo. “Se cada um conhecesse a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, dizia o nosso anjo pornográfico; que também dizia: “sexo é coisa para operário”.

Hoje em dia o adultério perdeu um pouco a graça. Quase não escandaliza. Não era sim nos dez anos da coluna no Última Hora (adultério ainda era crime previsto no Código Penal). Por isso ele impressionava quando dizia com frequência: “não existe família sem adúltera”. Ou, “ninguém se interessa por uma família sem adultério. É muito enfadonha”. Para logo em seguida poupar a mulher (“não se chama uma adúltera de adúltera, jamais” – dizia), explicando: “o adultério não depende da mulher, e sim do marido, da vocação do marido. O sujeito já nasce enganado”. Assim era Nelson Rodrigues.
Nelson era insuperável na frase. Ruy Castro (autor da biografia do escritor) disse que o nosso Nelson talvez fosse o maior frasista da história da língua portuguesa. Por que só da língua portuguesa? Leiam outros bons frasistas como H. L. Mencken, Karl Kraus, Oscar Wilde e mesmo Bernard Shaw (este último muito admirado por Nelson) e comparem com tudo que está reunido pelo próprio Ruy em Flor de Obsessão (Companhia das Letras). Nelson é melhor e pronto. Aqui no Brasil há quem prefira Mencken ou Shaw, mas é Nelson quem explica a razão: “o Brasil é muito impopular no Brasil”. Ou “o brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma; nem mesmo em cuspe a distância”. E mais: “O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nelson era e é vítima deste complexo de vira-lata” (expressão de Nelson, é claro).
Aqui meu desagravo a Nelson. Aproveito para dedicar o texto ao único paranaense que com ele realmente conviveu: nosso amigo Carlos Nasser (citado em algumas crônicas). A propósito, um dia Nelson descobriu que Carlos Nasser era nascido em São Paulo e comentou espantado (sempre ao seu estilo): “Meu Deus, o único paranaense que eu conheço é paulista!”.

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A notícia mais importante da semana – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc



Para um bom punhado de gente, tanto contra como a favor, a melhor notícia da semana foi a informação de que o Ministério Público Federal trabalha há tempos para indiciar acusados por crimes cometidos durante a ditadura como autores de sequestro e ocultação de cadáver. Sequestro e ocultação de cadáver são crimes permanentes, ou seja, continuam a ser cometidos até que os corpos apareçam ou que se saiba o que de fato aconteceu. Como a Lei da Anistia abrange o período de 1961 a 1979, os responsáveis pelos desaparecimentos ocorridos naqueles anos estariam ainda hoje cometendo os crimes e, portanto, colocando-se ao desabrigo da referida Lei que tanto lhes vale.

A turma de pijama – oficiais da reserva, militares reformados e civis aposentados – está esfregando as mãos: “Se somos agredidos e atacados, temos o direito divino de nos defender”, e pensa em sequestrar, eliminar e ocultar mais arquivos da época e acelerar os planos de um novo 1º de Abril redentor. “Vamos botar ordem na tropa! Ou isto aqui é uma manada?”

Mas estão todos redondamente enganados (redondamente enganado é expressão muitíssimo anterior às campanhas publicitárias que rolam por aí). A notícia mais promissora da semana é uma fria: vem da Groenlândia.

Erik, o Vermelho, um viquingue da gelada Islândia, exilado do seu país por ter assassinado um vizinho, foi condenado a passar três anos naquelas terras hostis – melhor, naqueles gelos hostis, já que o gelo cobre 84% do território da maior ilha do mundo; será a segunda maior se considerarmos ilha a Austrália, praticamente um continente inteiro.

O islandês assassino chegou ao destino em 985 com uma tal caravana que lhe permitiu pensar na colonização do pedaço. Se vai haver colonização, dois requisitos são indispensáveis: braço colono para amanhar as terras e nome da colônia para todo mundo saber onde é que ela fica. Em atenção a esta segunda necessidade saiu o nome que Erik, o Vermelho, deu à ilha: Terra Verde, que é o que significa Groenlândia. Sendo verde a terra, ficava mais fácil convencer, ou induzir, ou ludibriar o candidato a colono a empreender enorme viagem pelos mares gelados vizinhos ao Ártico.

Como se vê, data de mais de milênio o uso de propaganda enganosa.

Mas o que nos veio de tão bom esta semana lá da gélida Verdelândia?

Veio a notícia, no domingo, de que a Groenlândia está derretendo e que o derretimento completo – completo! – da sua camada de gelo se fará com temperaturas mais baixas do que antes se pensava (só isto causará o aumento do nível do mar em 6,4 metros). Estimava-se que essa liquefação total da cobertura groenlandesa aconteceria quando a temperatura global subisse de 1,9 a 5,1 graus acima daquela que se media quando não havia indústrias sobre a face da terra. Recentes estudos rebaixaram essa faixa para 0,8 a 3,2 graus, com robustas estimativas de que o ponto de fusão total ocorra aos 1,6 graus – hoje, o aquecimento global já atingiu 0,8 graus desde a Revolução Industrial.

O bom da história, além de virmos a ter no futuro mais água para navegar, é que vastos territórios se abrirão para a Engenharia brasileira, conduzida pelas caçambas das grandes empreiteiras nacionais que vivem a vasculhar o planeta: a Groenlândia mede um quarto da superfície do Brasil e, descascada, verde, revelará paisagens de tirar o fôlego, nunca dantes vistas, virgens para a construção de um inferno de obras no atacado.

É ou não é coisa de se comemorar com júbilo empreendedor?


D O B A I L E – por jorge lescano / são paulo.sp

A primeira dama havia lido a resenha de um grande baile de gala […]

a leitura propunha o questionamento e solução das sete seguintes fases:

Primeira: o baile como foi realmente oferecido há um século.

Segunda: o baile resenhado pelo cronista da época.

Terceira: o baile como a primeira dama imagina que foi,

com a resenha do cronista.

Quarta: o baile como a primeira dama imagina que foi,

sem a resenha do cronista.

Quinta: o baile como ela imagina dar.

Sexta: o baile como é realmente dado.

Sétima: o baile que pode ser levado a cabo,

utilizando a lembrança do baile como é realmente dado.

 

Virgilio Piñera, O baile, 1944

 

Segundo o encarregado do cotillon – a escolha do termo franco em detrimento do ianques coloquial, denotava o anacronismo do decorador e o habilitava para o cargo – , dever-se-ia respeitar as premissas do baile original se bem que acrescidas da técnica de última geração. A grande sala receberia iluminação indireta, porém, conservar-se-ia o grande lustre central, apagado. As fontes luminosas seriam arandelas douradas, devidamente guarnecidas de lâmpadas fluorescentes. O resto da ambientação não poderia violar este princípio. Por que a luz em primeiro lugar? O sorriso enigmático sugeria alguma causa mística – e nisto ele era perfeitamente contemporâneo – imaginasse a primeira dama os adereços correspondentes a partir desta causa não revelada.

O fashionista de moda (sic) sustentava opinião diversa. Para ele, a autenticidade da reprodução (sic) residia precisamente no uso do design e materiais pós-modernos – o itálico dava caráter de citação ao termo e habilitava o usuário para o cargo –, visto o idealizador do baile que se pretendia reeditar haver tido como referência um look prévio (vide V.Sa. o book & folderzinho anexos). De acordo com o cronista do baile (segundo nesta cronologia), os kits dos convivas eram exclusivos, criados especialmente para a ocasião, não streetwear nem week-end, com apenas um flashback da fashion do século retrô. Por tal motivo estavam, ele e seu competente team de fashionistas, ao inteiro dispor da primeira dama e seu wonderful catálogo de partners.

O músico da corte, tentando um caminho conciliatório – evitou a palavra alternativa por estar muito em voga –, sugeriu a inclusão de ritmos dançantes que remetessem aos bailes originais, melodias lights e um toque leve de música animal (sic). Acreditava que deste modo permitiria aos presentes a leitura simultânea do baile atual, devidamente justaposto à(s) lembrança(s) do(s) baile(s) original(is). Apreciasse a primeira dama o Song Book de artistas nacionais que acompanhava o parecer. Uma forte tendência para a simetria deu-lhe fama de espírito equilibrado, o qual o habilitava para o cargo.

Inúmeras objeções e conjeturas nutriram as tertúlias dos eruditos locais. Algum ficcionista cubano, de passagem por K, registrou as sete versões do baile, ou sete bailes possíveis, e as peripécias metafísicas e antropológicas vividas pela primeira dama e sua corte de senhoras bem nascidas. Seria cansativo referi-las neste parco resumo. Recorreu-se então à iconografia da(s) época(s)em questão. Saiu-seà caça de depoimentos de cidadãos provectos e de partituras mais ou menos consumidas pelas traças, uma vez que o Museu do Homem, em Paris, pegou fogo naqueles dias.

O patchwork party de ontem à noite nos Gardens de Calcutá City foi badaladíssimo. A iluminação light empolgou quem esteve lá. As teens vibraram com os mega insight do Luto Gacaz, que instalou spots Luiz XV munidos de psicodélicos pisca-pisca. O efeito alinear só foi superado pelo som, que circunviajou do hit Jesus Alegria dos Homens à oldfashioned tecno com paradas no country-rock& música étnica. A wearable Lulu Fueda Sertã estava diafânica. Vestiu saiote rodado, chapéu de plumas & peruca empoada à Maria Antonieta, com direito a fita de veludo blood no pescoço & franja irregular escorrendo para o decote free. Quem esteve animal foi Roland Small Pinto, 12. Seu black-tie, as polainas de verniz & hat a La Jack, o Stripper, compuseram um look zen. Arrasou! A promoter do evento passou a velada à margem esquerda de Sua Excelência. Digno de nota seu coque retrô. Vez por outra o sorriso spleen surgia por trás do leque de plástico made in Taiwan, decorado com graciosas figurinhas de Watteau. Sua Excelência vestia bermuda verde, óculos escuros, camiseta regata amarelo sorriso, tênis grunterssauro azuis, meias brancas com estampas de coqueiros & bonezinho Mickey Mouse. Spirit vídeo-clip, seu travel is do planalto to baía. Era-lhe impossível conservar a dignidade oficial, sempre identificada com a pose ice da pintura careta.

            O agito foi antológico, Yeah! Todos pediram bis. Uau!

Assim resenhou o baile um jornalista creditado no Palácio de Governo.*

*cf. Niu’s (Jornal Nacionalista) de 29/07/1997 (Nota de JL)

A caserna volta a se coçar – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc



A imprensa nacional reproduziu declarações que o aposentado Gilberto Barbosa de Figueiredo deu na quinta-feira passada, 1º de março. Disse ele:


– Não vou aceitar ser cerceado do meu direito de expressar minha opinião. Não ofendi ninguém. Estou exercendo meu direito de expressar minha opinião, como todo e qualquer cidadão.


Suas palavras traduzem um brado retumbante, digamos assim, em favor do Estado de Direito e da Democracia, um juramento de respeito à Justiça e à Constituição. Belas palavras.


Figueiredo pronunciou-se deste modo após assinar um manifesto de título altamente belicoso, maniqueísta e provocativo: Alerta à Nação – Eles que venham. Por aqui não passarão!, com ponto de exclamação marcial e tudo. Eles quem, camarada? O texto do manifesto não deixa claro a quem são dirigidas tais ameaças.


Abrindo um parêntesis: segundo o maniqueísmo, “o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo”. Não há meio termo: se te opões ao golpe militar de 1964 e à ditadura que se seguiu, então és favorável à implantação de uma ditadura cubano-sino-soviética no Brasil. O maniqueísta não consegue conceber uma democracia e não entende como ela pode abrigar uma opinião contrária à sua. Fechando o parêntesis.


O manifesto citado, de 28 de fevereiro, referendava um outro, do dia 16, de título circunspecto: Manifesto interclubes militares. Neste, oficiais da reserva das Forças Armadas censuravam a presidenta Dilma por não ter censurado uma ministra sua que opinou sobre a possibilidade de surgirem processos judiciais em decorrência do trabalho da Comissão da Verdade, por não ter censurado outra ministra que opinou sobre a ditadura militar de 1964 a 1985, e por não ter censurado o seu partido, o PT, que decidiu realçar sua luta contra a repressão e o terrorismo de Estado promovidos pela mesma ditadura.


Como chefe das Forças Armadas, Dilma considerou quebra de hierarquia os termos do manifesto do dia 16, mandando tirá-lo do portal do Clube Militar (associação de oficias da reserva do Exército), o que resultou no manifesto do dia 28 – e aqui o cinismo – publicado no sítio A Verdade Sufocada (no qual, como na ditadura, se abusa da bandeira do Brasil, tentando associar o País às causas que defende), mantido por Maria Joseita Silva Brilhante Ustra, esposa do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, o mais notório torturador de presos políticos e opositores do regime ainda vivo.


No novo manifesto, os militares de pijama endossam o documento anterior, não reconhecem autoridade ao ministro da Defesa para retirá-lo do ar e – eis o cerne da questão! – investem contra a Comissão da Verdade, um “ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo”. Embora tenham feito tudo dentro da legalidade, embora tenham defendido a Pátria, embora tenham salvado a democracia, como dizem, esses senhores não aceitam que os arquivos da ditadura sejam abertos nem que a História seja conhecida, o que joga suspeita e desconfiança sobre todas as fardas, inclusive aquelas que se opõem às barbáries cometidas. Se não há o que esconder, por que escondem tudo?


Figueiredo, general reformado e ex-presidente do Clube Militar, brada pelo seu direito à opinião mas não o reconhece sequer para ministras de Estado. Como é que eu, humílimo aqui no meu Contexto, vou poder opinar sobre tal assunto?

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Amilcar Neves é escritor com oito livros de ficção publicados.

QUANDO O GARÇOM É POETA – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

Surpresas! Ninguém está livre delas. Não naquele sentido emprestado pelo Barão de Itararé (Apparício Torelli) quando afirmou, “de onde você menos espera, daí mesmo é que não sai nada”. Mas, de repente, o sujeito com quem você conversa esconde, em uma ocupação mundana, um grande talento para uma área totalmente diversa. Um garçom, por exemplo, que é escritor.

Quando cheguei, o restaurante estava quase lotado, seis garçons se revezavam no atendimento. Ele me vê no balcão, apressa-se em dizer, “consegui baixar na internet, a Divina Comédia”… Retorna pouco depois da mesa que está servindo, as mãos ocupadas com pratos, copos e garrafas… Indago, mostrando interesse no assunto, que livros? Ouço, ou pareço ouvir, enquanto ele passa apressado em direção da copa, “a terra, o céu e o inferno”… Imagino aquele cidadão com mais tempo para se dedicar àquilo que, de fato gosta, livros e leituras. Também, da música, da qual já tinha notícias, após comprar um cd que ele próprio gravara, depois de um ano de “economias”, muitas “horas extras” na alta temporada em Florianópolis no ano passado… Na volta, já com a bandeja cheia, continua a conversa, “tive sorte, consegui o livro em versos, melhor que a prosa lançada, tempos atrás, aqui no Brasil, a poesia é superior”… Não deu tempo de corroborar com a descoberta dele, logo vislumbro seu corpo arqueando-se sobre uma das mesas para servir as bebidas. Sujeito dedicado estava ali. Aceitava com desenvoltura os seus desígnios presentes, uma espécie de preparação para, quem sabe, vôos futuros. Tento me concentrar neste roteiro não escolhido, para pegar o mesmo vôo que aquele homem condenado a servir os seus iguais…

Logo que passou o “sufoco”, ouço a voz dele, às minhas costas, no balcão, “descobri um sebo, numa galeria aqui na cidade, alguns autores que estava a muito procurando, Rimbaud, Bukovski, Kerouac… Conheces?”… Respondo, huumm! Alguma coisinha, estes caras da “beat generation” como ficaram conhecidos, li quando tinha 17 anos, faz algum tempo, Allen Ginsberg, Thimoty Leary, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs, Gary Snyder, Neal Cassady, Peter Orlovsky, Ken Kesey, este, escreveu “Um Estranho no Ninho”… “Bah!” Ouço a exclamação, enquanto ele ri, “esqueci que você é um escritor”… E se afasta para atender um novo chamado na mesa em frente da janela, no outro lado do salão… Aquele sujeito não tinha interlocutores ali… Depois que voltou, com a comanda nas mãos, antes de fazer o pedido para o copeiro, sugeri para ele, rapidamente, precisamos conversar qualquer hora, faço um churrasco, convido alguns jornalistas e escritores, que tal? “Topo”, afirmou ele, se afastando novamente.

Enquanto pagava a minha conta, comentei no balcão, para o caixa, feliz do restaurante que tem poetas como garçons… O proprietário me olhou, surpreso, mas não se fez de rogado, “do jeito que bebem, preferimos os poetas como fregueses”… Estava rindo ainda, quando me deu o troco.

 

 

 

NOTAS:

Olá, camaradas, salve!

O  que posso dizer para vocês é que não  está sendo fácil…

Não,  não vou falar de mim, mas de alguém que conheci atendendo mesas de bares…

Surpresa, claro…

Um homem talentoso condenado a servir os seus “iguais”…

… E a vida continua…

Amigo e cultuador do “Folk”, assina como Johnny Folk o seu primeiro CD…

Pequeno preciosismo para um grande talento…

Para homenageá-lo, um de seus ídolos, Willie Nelson interpretando “You are Always on my Mind”…

Canção de Johnny Christopher Depp, Mark James e Wayne Carson…

Para quem não associou ainda, Johnny Christopher é o pai do ator Johnny Depp… (o que não quer dizer nada, nesse caso)…

A canção que já foi gravada originalmente por Brenda Lee… Depois,  Elvis Presley, Shakira, Jon Bon Jovi…

Uma versão mais intimista, também gosto muito… Vai…

http://www.youtube.com/watch?v=R7f189Z0v0Y&feature=related

À DERIVA – por olsen jr / rio negrinho.sc

Todos nós já passamos por determinadas situações “não escolhidas” que, se tivéssemos o conhecimento prévio, sequer ousaríamos cogitar em se fazer presentes. Mais ou menos o que, no direito, se chama de vício redibitório. Em outras  palavras, é aquele defeito que o objeto que se pretende adquirir possui, mas que se você tivesse conhecimento antes, não compraria. O caso de um automóvel com o motor fundido, por exemplo.

Bem, estou assistindo a um filme com Clark Gable (1901-1960) e Carol Lombard (1908-1942), provavelmente da década de 1930. Um filme dentro de outro filme. Como aquelas latas de azeite (de antigamente) que estampavam no rótulo uma mulher segurando uma lata de azeite, e nesta, outra mulher mostrando outra lata de azeite que trazia nova mulher com outra, assim, indefinidamente… Minha mãe, fã de Gable, já deveria ter visto aquilo. Todos os protagonistas estão mortos, e não canso de imaginar a maravilha que é o cinema. De repente, entra um comercial, em seguida uma chamada para o BBB, e logo a conversa zôo-técnica de alguém se reportando a manipulação de reses e outras lides campeiras, a título de “ilustrar” sua permanência ao lado de uma piscina na clausura de uma casa na qual não tenho o menor interesse. Desligo em seguida, quando percebo não ter curiosidade nenhuma pelos animais, nem os bípedes que observo e tampouco, pelos quadrúpedes a que eles se reportam. Minha afinidade com animálias, não passa de uma paleta de ovelha na churrasqueira, assim mesmo, se eu preparar o tempero e assá-la. Tudo a ver, diria o velho Horácio Braun, salve!

Não sei como terminou o filme e isto me chateia.

Já se pensou em realizar um BBB só com pessoas “cabeças”. Fizeram um teste nos EUA e foi um fracasso. A audiência caiu em níveis intoleráveis para os patrocinadores. As massas (ou o senso comum) não encontram acolhidas naquilo que não se identificam. Uma existência supra-real não é palpável, ainda que real num outro plano. Sugeriu-se aqui, incluir a Vera Fischer, a Sônia Braga, o Nelson Motta, Chico Buarque, Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor, Ziraldo… Bem, seria a primeira vez que as duas atrizes não precisariam fazer o papel de “mulher que trai o marido” ou de “prostituta”, quer dizer, o meio-habitat nestas circunstâncias; o Nelson falando em sintonia fina, do “novo” disco dos Beatles, “Love”, duca; o Chico que não quer ser avô, e “deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa”; o Mainardi afirmando que não agüenta mais bater no PT, não tem interlocutor (e nem ouvinte); o Jabor acreditando que há uma revolução em andamento, mas ninguém sabe onde; o Ziraldo afirmando que nunca brochou na vida, risos, macho uma barbaridade… Macho não quer dizer mucho lembra a atriz Zsa Zsa Gabor…

Quer saber? Gostaria de ter visto aquele filme, a despeito da grande audiência do BBB, estatística esta, da qual não faço parte, e diante de tais licenciosidades, sou mais o Glauber Rocha, é preciso acabar com este liberalismo feminista e estabelecer (logo) o machismo revolucionário.

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NOTAS:

A música é esta e diz respeito, naturalmente, ao momento em que estou vivendo…

http://www.youtube.com/watch?v=-Tu2eZpA4yo&feature=related

Esta composição foi elaborada quando os Beatles freqüentavam a Academia de Meditação Transcendental do guru Maharishi, no Himalaia.

Havia palestras todos os dias seguidas de meditação…

Aquela calmaria toda seguida das complicações do fuso horário, a ausência de bebidas ou qualquer droga, ao mesmo tempo que deixava a cabeça livre para a criação, também facilitava um extremo cansaço, afinal não se conseguia dormir à noite e não se dormia de dia…

Some-se aí, o fim do casamento, no caso de John Lennon que não sabia como dizer isso a primeira mulher (Cynthia Powell) e também não contava com a presença de Yoko Ono…

Isso tudo foi deixando-o cansado… Muito cansado e acabou sobrando até para Sir Walter Raleigh (1552-1618) explorador e poeta inglês (para John era um babaca e idiota) que também era camponês e conseguiu o título de “Sir”  bajulando com insistência a Rainha Elizabeth I… Atribui-se a ele a introdução do tabaco na Europa (levado da América)…

Neste período os Beatles compuseram mais de 40 letras… Parte delas está no que ficou conhecido como Àlbum Branco (The White Album) de 1967…

Esta “I’m so Tired” (“Estou tão Cansado”) é apenas uma delas…

Vem a propósito!

DITADURA: “GENERAIS DESCONTENTES NO CLUBE MILITAR” – paulo henrique amorim / são paulo

Tá parecendo o vôvo que briga com a enfermeira porque ela limpou a mdele.

POR QUE OS GENERAIS SEM DIVISAS SE MIJAM NOS PIJAMAS?

Quantas divisões têm os generais de pijama ?, perguntaria Stalin sobre oPapa.

Na Argentina – Oh !, que inveja ! -, não têm divisão nenhuma. E ainda estão na PRISÃO PERPÉTUA!!!

E, condenados e encarcerados, limitam-se a blasfemar contra os presidentes Kirchner.

Aqui, não.

O Forte Apache dos TORTURADORES é o Supremo Tribunal Federal.

Com a inesquecível relatoria de Eros Grau, o Supremo, por maioria, anistiou os TORTURADORES uma segunda vez.

Mas, a COMISSÃO de 1/2 VERDADE pode RECONTAR metade dessa história – e levar alguns deles, sobreviventes, ao CÁRCERE.

Se não antes, com o Tribunal que a DESTEMIDA LUIZA ERUNDINA montar na Câmara dos Deputados, para concluir, desde já, a metade que faltar na Comissão.

Os GENERAIS DE PIJAMA atacam o alvo errado.

Hoje, o problema deles é menos a Comissão do que Erundina.

Paulo Henrique Amorim


GENERAL VIDELA, ex-Ditador assassino argentino: “Nosso pior momento chegou com os Kirchner” – Nestor e Cristina, presidentes do povo argentino.

Em uma entrevista para a revista espanhola Cambio 16, o chefe da última ditadura argentina, Jorge Rafael Videla, reivindicou a chegada dos militares ao poder em 1976 como um “ato de salvação” de um país com “vazio de poder, paralisado institucionalmente e sob risco de anarquia”.

Ele enfatizou o apoio prestado pelos EMPRESÁRIOS E PELA IGREJA CATÓLICA para o GOLPE e criticou o que chamou de “revanchismo” do casal Kirchner que o colocou ATRÁS DAS GRADES PARA O RESTO DA VIDA!

STEVE JOBS, Presidente da APPLE. Um mes antes de morrer – eua.us

No final da existência. Um mês antes de morrer.

“Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.”

“Às vezes a vida te bate com um tijolo na cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me fez continuar foi que eu amava o que eu fazia. Você precisa encontrar o que você ama. E isso vale para o seu trabalho e para seus amores. Seu trabalho irá tomar uma grande parte da sua vida e o único meio de ficar satisfeito é fazer o que você acredita ser um grande trabalho. E o único meio de se fazer um grande trabalho é amando o que você faz. Caso você ainda não tenha encontrado, continue procurando. Não pare. Do mesmo modo como todos os problemas do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer relacionamento longo, só fica melhor e melhor ao longo dos anos. Por isso, continue procurando até encontrar, não pare”
“Não tenha medo de seguir o seu coração ou sua intuição, pois eles sabem o que você pode se tornar e até onde pode chegar. Todo o resto é secundário”.
“Você não pode conectar os pontos olhando para a frente; você só pode conectar os pontos olhando para trás. Assim, você precisa acreditar que os pontos irão se conectar de alguma maneira no futuro. Você precisa acreditar em alguma coisa – na sua coragem, no seu destino, na sua vida, no karma, em qualquer coisa. Este pensamento nunca me deixou na mão, e fez toda a diferença na minha vida.”
“Seu tempo é limitado. Por isso, não perca tempo em viver a vida de outra pessoa. Não se prenda pelo dogma, que nada mais é do que viver pelos resultados das ideias de outras pessoas”
“Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso não querem morrer para estar lá. Mas, apesar disso, a morte é um destino de todos nós. Ninguém nunca escapou. E deve ser assim, porque a morte é provavelmente a maior invenção da vida. É o agente de transformação da vida. Ela elimina os antigos e abre caminho para os novos”

A MIDIA NÃO É INEVITÁVEL – por jorge lescano / são paulo.sp


Sim, é possível.

Livro das cinzas e do vento.

Neste fim de semana a notícia sensacional è a morte da linda cantora pop Whitney Houston aos 48 anos. Espécie de fenômeno de vendas de discos e com carreira em vários ramos do espetáculo há mais de trinta anos. A notícia é repetida com insistência em todos os canais de televisão e pela internet e eu me perguntava quem seria esta celebridade, como se diz hoje. Só ao ver um retrato da artista quando jovem é que a reconheci. De fato, eu havia visto o filme O guarda-costas dez dias antes num canal de televisão especializado em filmes “antigos”, como se costuma dizer. Para mim ela morreu com dez dias de idade, pois antes de ver o filme nunca tivera notícia de sua existência.

Parece que existe uma hierarquia criada pelos meios de comunicação que vai de ídolo à celebridade e desta ao mito. Um leitor me adverte que Whitney Houston não era uma celebridade e sim uma cantora, aí eu me perco e não sei mais como tratar o tema, pois parece que se alguém é cantor não pode ser celebridade, e/ou vice versa.

A minha ignorância do assunto se deve ao puro desinteresse por esse ramo do jornalismo e das artes do espetáculo? Não tenho certeza.

Interrogando-me sobre o assunto notei que nunca assisti o famigerado BBB, tão popular, ironizado e vilipendiado por uma fração da imprensa e alguns internautas. Contudo, precisamente por esta insistência, estou desconfiando que eu acabe sendo mais um número na estatística do IBOP do tal programa. É de domínio público a frase: Falem mal de mim, mas falem? Parece que funciona. Se eu ceder à tentação televisiva prometo comunicar isto ao gentil leitor com o intuito de ele tirar suas próprias conclusões sobre a propaganda boca a ouvido (não boca a boca, por favor!).

Não me lembro de ter lido qualquer comentário dos críticos do BBB sobre a violação de leis trabalhistas brasileiras praticada pela rede Mcdonald, ou sobre a provável relação entre celibato e pedofilia na igreja católica, ou do crime contra a educação representado pelos livros destinados a alunos da rede pública vendidos como sucata (a autoridade responsável declarou que os livros obsoletos – do ano anterior – são vendidos para ser picotados e que os atuais serão distribuídos oportunamente. Assim anda a educação: o conhecimento é descartável ano a ano.). Isto para não falar dos aparelhos médicos e ambulâncias retidas em depósitos pela burocracia.

Estes assuntos circulam pelos mesmos meios que divulgam os programas de TV. Não costumo freqüentar as mídias mais sofisticadas. Sou uma pessoa à moda antiga, que lê manchetes de jornais, ouve rádio e assiste telejornais, portanto posso estar sendo injusto com esses críticos. Ainda assim a quantidade de referencias a estes assuntos (que aqui servem apenas de exemplos, há muitos mais) são menos volumosas que às do BBB. Sobre este programa não tenho opinião contra nem a favor, antes pelo contrário, isto pela simples razão de que nunca o vi. Acho que nisto minha consciência leva vantagens sobre as dos seus críticos.

Os políticos em geral não têm tempo para se ocupar da mídia (a não ser para aparecer nela) e tratam dos seus próprios negócios (graças a Deus, se não seria o caos). No congresso fazem política partidária acusando e/ou defendendo colegas e ministros corruptos dos outros partidos (fidelidade partidária é fundamental) e batalham duramente para conseguir cargos no governo. Assim, a mídia corre solta ao gosto dos patrocinadores e da Democracia Compulsória.

A coisa não merece texto mais longo. O que pretendo dizer é que a mídia não é inevitável, isto é, pode-se viver nos grandes centros urbanos, freqüentar a internet e, no entanto, permanecer moderadamente a salvo da influência da cultura de massas (!?) e dos meios de comunicação para as mesmas massas. Reconheço a existência da mídia – o seu questionamento pressupõe este reconhecimento – mas contesto a sua prepotência que direciona e controla inclusive a opinião dos seus críticos. As drogas existem e estão ao nosso alcance, não preciso consumir ou traficar para constatar a sua realidade. Negar a mídia seria como negar a existência das estrelas.

Por falar em estrelas, quem, que não seja especialista, criança ou morador de rua se preocupa com a existência delas? Serei eu um fenômeno isolado, único?

Senhoras e senhores, respeitável público, eu vos garanto: não sou um ET!

DESENCONTROS – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

Foi na arrumação de uma caixa que percebi o envelope, era uma carta entre duas mulheres contendo um perfil de alguém que uma delas parecia interessada, não fosse… Afirmava: “… Se você pretende ser uma pessoa nom grata na casa dele, basta fazer estas coisas, não necessariamente nesta ordem: depois de comer, limpar a boca ou as mãos no pano de enxugar pratos; utilizar o garfo com que está comendo para esgravatar uma salada ou qualquer outro à mesa; terminada a refeição, indagar se na casa não existe palitos; servir-se de uma fatia de pão e sair espalhando migalhas pela casa; esquecer o cigarro aceso no balcão do bar (o seu canto favorito depois da biblioteca) de maneira que a xepa queime e atinja a madeira”…

Fui lendo distraidamente o texto e achando curioso que alguém se desse aquele trabalho, continuo… “Mexer nas peças de barro que representam o nosso boi-de-mamão e perguntar se pode levar esta ou aquela figura de recordação; pedir um livro emprestado de sua biblioteca; no banheiro, fazer xixi e não acionar a descarga ou lavar as mãos e respingar a água num raio de10 cmao redor da pia; tentar beliscar a carne na churrasqueira antes que ela esteja assada; pedir se não dá pra gelar um pouco o vinho tinto”…

Comecei a prestar mais atenção naquele comportamento sistematizado, até porque estava constatando certa familiaridade com o que eu próprio fazia, sigo… “Fazer a seguinte observação, sem ofender, mas não dá pra por um pouco de açúcar no chimarrão; cortar o queijo com a mesma faca com que você usou para passar geléia no pão; adoçar o café com a colher do açucareiro; perguntar se “ele” já consertou o desgraçado do telhado”…

Já estava identificado com muita coisa ali, ou então era uma grande coincidência, avanço… “Indagar quando irá por uma maldita lareira naquela casa; questionar se é bom morar sozinho naquele paraíso; especular se “ele” não gosta de outro grupo musical além dos Beatles; descobrir se “ele” não tem um interesse honesto por outra coisa que não sejam os livros e a literatura; ousar conhecer os segredos do “feiticeiro”, ou seja, saber se “escrever é fácil”; confirmar o que disse o poetinha Vinicius de Moraes, se o cachorro é o melhor amigo do homem ou se o uísque é o cachorro que vem engarrafado; finalmente, você sabe que “está na hora de ir embora” quando, imitando o mais nobre sotaque ilhéu, “ele” pergunta: — “Já vais? (pronunciando como um manezinho: — “Já vásss?”.

Se este cara aí não for minha “alma gêmea” então sou eu mesmo. Não contenho o riso. A carta estava datada de 1995 com a recomendação de me ser entregue depois que sua autora estivesse viajado para os Estados Unidos… Nunca dei importância, talvez a encarregada da incumbência não me inspirasse confiança e tivesse pensado que a tal carta fosse dela… Cá entre nós, não mudaria nada, afinal a cretina tinha feito uma radiografia acurada, claro, passado tanto tempo poderia ser acrescentado outros detalhes, aliás, o detalhe é a sofisticação do método, mas ela concluiu bem na carta para a amiga “… Meu anarquismo plebeu não combina com as esquisitices de um intelectual”…

E se fosse o contrário, penso, com esta sensibilidade, a escritora poderia ser ela!

 

 

NOTAS:

 

Olá, camaradas, salve!

Com esse texto me despeço…

Vamos manter a comunicação…

Em breve retomo, de outro lugar… Assim espero…

 

http://www.youtube.com/watch?v=CKHA2AGbXtI

Essa música “You’ve Got to Hide Your Love Away”, dos Beatles integra o

álbum “Help” (1965) e também faz parte da trilha sonora do filme de igual nome…

Sempre tive um carinho especial por ela, pela sonoridade, eles eram muito musicais…

Foi a segunda música em que convidaram alguém de fora (o flautista John Scott) para participar de uma gravação…

A primeira vez foi com “Love me Do”…

A letra diz que “você deve esconder o seu amor”…

Well, não é fácil… Nem esconder “o seu” amor e tampouco partir… Ir embora…

Dói…

Dói mesmo!

Até breve in another place…

 

UM DIA DE O. HENRY – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

(para Júlio de Queiroz)

 

 

 

O escritor norte-americano William Sidney Porter, conhecido como O. Henry foi o criador de tipos e de uma técnica narrativa que durante muito tempo cativou leitores em todo o mundo. Até hoje uma das láureas mais cobiçadas nos EUA para quem escreve ficção é o Prêmio O. Henry. Bom observador, imaginação fértil, conseguiu, com fluência, captar o romantismo, a mesquinhez e o que move a gente simples, da ambição ao altruísmo, enfim, o que faz a grandeza e a pequenez dos seres humanos. Daí a empatia com os leitores fascinados, invariavelmente, com os desfechos inesperados e engenhosos de suas histórias.

No conto “O Guarda e o Hino”, por exemplo, o personagem, um mendigo diante do inverno rigoroso que se avizinhaem Nova York, decide cometer algum delito para ser enviado a uma prisão (que ele chama de “A Ilha”) por três meses. Preso, teria um lugar para ficar: teto, cama, banho e comida. Enfim, tudo sem precisar humilhar-se com as instituições de caridade. Decisão tomada começa apedrejando uma vitrine e esperando ser preso. O guarda não acredita que ele tenha feito aquilo e persegue outra pessoa que está correndo nas proximidades para pegar um ônibus; depois ele decide jantar em um restaurante e sair sem pagar a conta, os seguranças do lugar limitam-se a jogá-lo na calçada; tenta assediar uma mulher que finge contemplar algo exposto em uma loja, a mulher topa o convite e o policial não pode fazer nada; mais tarde, furta um guarda-chuvas (de alguém que já o tinha encontrado em outro local) e acredita que ele seja o legítimo dono, e nada acontece… Depois de tentar outros expedientes do gênero, passando por uma igreja, ouve um hino que lembra sua infância. Emociona-se com os acordes, percebe que teve uma família, amigos e ainda tem tempo de mudar a vida que leva. Empolga-se e decide recomeçar… Quando sente os braços de um policial que indaga sobre o que ele está fazendo? – Afirma “nada”, então é preso por vadiagem e enviado a tal “Ilha” (prisão) que tanto ambicionara antes…

Ironias à parte leio que o cidadão Marcelino Alves, 21 anos, pouco mais que um adolescente, simula um furto para ser preso e comer um cachorro quente, a primeira refeição decente depois de 15 dias, descontando o que comia catando no lixo… Aconteceu em Florianópolis, mais de 100 anos depois da narrativa escrita por O. Henry.

Que País é este que um cidadão deve sonhar com um presídio para dispor de um teto, uma cama, um prato de comida e um banho no final de um dia duro a procura de um trabalho que lhe subsidie este pesadelo?

O sujeito toma alguns goles de cana pra criar coragem, mas na “hora H” a moral fala mais forte e ele pensa “podia”, mas não vou “roubar nada”, gostaria que me prendessem para ter o que preciso: cama, comida e banho… Claro, enfatiza, gostaria de trabalhar…

Muitas pessoas me perguntam se “escrever é difícil?”, pô! Diante desta realidade toda a ficção é supérflua. Este País (basta ficar uma semana fora para saber) me traz idéias de esperança e sentimentos de desprezo, quando a arte recria a vida, eu sonho… Mas quando a vida imita a arte naquilo que denuncia, dá vontade de sair por aí, arregimentando homens de boa vontade para começar logo a revolução, tão prometida, tão esperada e que nunca acontece!

 

NOTAS:

A música poderia ser esta, depende de cada um…

“He Ain’t Heavy, He’s My Brother”, do “The Hollies”… (video no final)

A banda britânica formada no início dos anos de 1960. O nome foi uma homenagem ao compositor e cantor americano Buddy Holly…

Composta pelos amigos de infância Allan Clarke (vocalista), Grahan Nash (posteriormente membro do grupo “Crosby, Stills and Nash” que também já foi “Crosby, Stills, Nash and Young”), Don Rothbene (bateria), Eric Haydock (baixo), Vic Steele (guitarra solo) que foi logo substituído por Tony Hicks…

Contratados pela Palophone em 1963 foram coletas dos Beatles na mesma gravadora e durante muito tempo o grupo de maior sucesso depois dos Beatles na Grão-Bretanha…

Tinham um impecável trabalho vocal (duplos e triplos)… Emplacaram vários sucessos, entre eles: “Bus Stop”, “Sorry Suzanne”, “Stop in the Name of Love” e naturalmente, a indefectível “He Ain’t Heavy, He’s My Brother”…

Em 2010 entraram para o Hall da Fama do Rock and Roll…

http://www.youtube.com/watch?v=C1KtScrqtbc

 

 

OS EMPEDERNIDOS DE AMANHÃ – por olsen jr / ilha de santa catarina

 

Havia um par de chinelos na entrada do restaurante, no primeiro degrau da escada que dava para a calçada. Era de uma criança. Os dois pés deveriam estar alinhados no lado direito da porta, não fosse alguém ter chutado o esquerdo,
sem o perceber, quando entrou. Era um calçado de material sintético e não destes comuns, de tiras que quase todo o mundo na região usava. Faço aquelas observações mentalmente enquanto cumprimento o garçom, acreditando no inusitado daquela atitude: típica da população interiorana. É o que me ensinaram na década de 1950, quando era guriem Chapecó. Todasàs vezes que ia visitar alguém, num gesto instintivo (de uma educação que lhe era anterior) tirava os sapatos e os deixava na porta de entrada.

Entro e vejo o relógio na parede dos fundos marcando 21h50min, estranho penso, alguém ter esquecido aqueles chinelos lá. Quando me aproximo do balcão, quase não dou por elas, duas crianças com menos de nove anos de idade, tendo nas mãos o que parecia ser estas embalagens de isopor onde se leva o que os comensais não conseguiram degustar em uma refeição, ou eles próprios pedem para levar para comer em outra hora.

Ao ver os dois pequenos ali em frente faço logo a advertência de que não deveriam deixar os calçados por aí, que alguém poderia levar, e um deles arregala os olhos e tive a sensação de que uma vida inteira lhe passou pela cabeça antes de certificar-se de que estava falando dos “seus” chinelos e sair em disparada, driblando os garçons entre as mesas, não sem antes agradecer o que viera fazer ali e ser secundado pelo outro garoto que repetiu o gesto, do agradecimento e da desabalada correria ali dentro.

Pergunto para um garçom se eles queriam comida. — “Não sei” – respondeu… Indago para outro sobre o que “eles” pretendiam. — “Quem?” Devolve-me a indagação dando a entender que não tinha visto nada… Hei! Interpelo um terceiro, o que as crianças estavam fazendo aqui sozinhas há esta hora? — “Estava atendendo uma das mesas, não prestei atenção nelas “…

Vou para o balcão, enquanto aguardo, fico imaginando o quanto estamos ensimesmados com nós mesmos. Duas crianças entram num restaurante lotado e ninguém dá por elas. Estavam ali sozinhas, aparentemente sem nenhum responsável… Sou interrompido pelo barman que me pede “vai o de sempre?”, aceno com a cabeça e resolvo fazer mais uma tentativa para saber o que os dois pequenos queriam ali àquela hora… “Estavam vendendo alho” , responde-me o caixa que os havia atendido, erguendo à altura da cabeça, uma bela réstia contendo várias cabeças daquele tempero. Antes que fizesse algum comentário, ele próprio acrescentou  (ainda com a amostra do que tinha adquirido nas mãos) “onde já se viu, duas crianças trabalhando a esta hora”… “E nem é o trabalho, mas eram duas crianças”, ratifica “vai ver que os pais estão por aí, em algum bar, esperando elas chegarem com algum dinheiro para beber mais”… Ele, após aquela observação, volta-se para o seu trabalho como se nada tivesse acontecido.

Beber ou não beber, não tem importância, o que deveria importar é o que estamos fazendo com as “nossas” crianças? Estas criaturinhas que tiveram as “suas” infâncias suprimidas, que ficaram “adultas” antes do tempo, vão se tornar os “durões” de amanhã, sem formação, sem sensibilidade para interromperem aquela seqüência hereditária, apenas reproduzindo de maneira ambígua a velha lição, aprendida nas ruas, no infortúnio: diante da vida, sobreviver é o que importa e se há um paraíso aos homens de boa vontade, bem, então vamos descobrir por nós mesmos, embora, claro, ninguém acredite nisso por que: primeiro, negamos-lhes a infância com a nossa caridade; depois, sustentamos-lhes a adolescência com a nossa indiferença; mais tarde, suportamos-lhes a maioridade com o nosso medo. Ontem, lhes demos o que tínhamos de menos: o excedente do nosso egoísmo; hoje, pensamos ouvir-lhes os gritos com o que temos demais: o zelo pelo que acumulamos e amanhã, pretendemos perdoar-lhes devolvendo-lhes a cidadania com o que ainda resta, trocando o nosso desprezo pelo desprezo deles!

NOTAS:

 

A música é esta…

“I Started a Joke”, do Bee Gees…

Lançada em 1968, foi a primeira canção deles a fazer sucesso no Brasil e primeira colocada na lista da Billboard…

Também integrou a trilha sonora da novela “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso em 1969…

A primeira novela a romper com os cânones do que até então se fazia na área, a primeira a incluir cenas aéreas, em fazer tomadas de rua, a incluir a gíria, a usar o merchandising…

A  insolência do cotidiano cabe aqui, acredito, combina com o texto, o que procuro fazer sempre…

http://www.youtube.com/watch?v=Dq6YmSVAOG8&feature=related

 

ELA – por olsen jr / ilha de santa catarina

Não lembro o dia exato em que comecei a pensar nela. Tampouco, o porquê. Francamente, nenhuma destas dúvidas tem importância. Mas o pensamento ficou, como uma advertência falsamente descompromissada de que “ela” existia, poderia se fazer presente ao seu bel prazer, sem aviso prévio, sem data marcada, sem dia, hora ou local. Semelhante a uma visita indesejável, simplesmente aparecia.

Não costumo dilapidar energia com aquilo que não entendo. Procuro assimilar o fenômeno, aceito o inevitável, mas insubordino-me com o previsível, o que é o princípio do pensamento científico, e pode ensejar outros caminhos.

Agora, é revoltante a maneira como “ela” se apropria, envolve, consome, afasta, isola, tantaliza e despreza todas as pessoas que amamos. Senhora de si, nunca questionada, mais um espectro que ronda a nossa pequenez, por isso parece tão soberana e ao mesmo tempo, tão desprezível.

Aliás, “ela” é a senhora do tempo, uma vez que o tem integralmente, ignorando por esta razão o que nós mortais chamamos de “momentos” (sempre associados à felicidade)… Quer dizer, costumamos conceituar a “felicidade” como uma sucessão de “bons momentos” num determinado tempo, a consciência disso é que faz com que externemos tal convicção. Mas para “ela”, esta (in)distinta senhora a quem me refiro, que é o “seu” oposto, não há convicção que lhe faça frente, a não ser, é claro, a convicção de que não há convicção, tautologia.

Outro dia, tive a sensação de que “ela” estava aqui. Senti em todo o meu corpo o incômodo de sua presença. Algo estranho, a existência de dois olhos invisíveis me observando de algum ponto do universo, digo para mim mesmo que ainda não é chegada a hora e afasto aquele peso sinistro dos meus ombros, com atitudes práticas, metapreferências, se quiserem, facilmente constatáveis.

Feita a escolha, me sinto leve, como o fundista que no sprinter derradeiro, vence seus oponentes, porque (já exausto) não se espera nada mais dele… Talvez, se for um vencedor, que seja alguém diferente, o que pode ser o caso.

Precisamos da crença de que “somos” diferentes, senão a vida seria insuportável.

Apresento agora a “vetusta senhora”. Desprovida dos cinco sentidos, portanto, entre outros, não enxerga, não fala e não ouve: a morte! Que, periodicamente, leva, de uma só vez, várias pessoas de uma mesma família, não fazendo nenhuma distinção particular: se homem ou mulher, se velho ou jovem. Diz-se que é o destino quando acontece com os outros e pouca importância se dá, embora os jovens sofram mais. Mas naquele ano foi a vez de nossas famílias… E éramos jovens.

Uma sucessão de imagens, um volume avassalador de quadros, lembranças, figuras, ações, sonhos, frustrações, conquistas, fracassos, pessoas indo e vindo, tudo se misturando e confundindo enquanto faço o café e aspiro aquele odor familiar, uma vida em segundos, inacabada e perversa, e no rádio, quase imperceptível, a voz do Gilberto Gil cantarolando “… Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria”…

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NOTAS:

A música é essa: “A Day in the Life”, dos Beatles…

Em muitos lugares a canção sofreu restrições porque se supunha era uma apologia as drogas…

Na verdade, foi a primeira vez que Lennon e McCartney fundiram duas composições inacabadas de cada um…

Lennon havia lido o jornal dentro do ônibus sobre a morte de um amigo dos Beatles (num acidente de carro)… E rabiscou alguma coisa aludindo a outras notícias do mesmo jornal…

Paul McCartney anexou uns versos em que lembrava o fato de acordar cedo, fumar um cigarro e sair correndo para pegar o ônibus para ir para à escola…

Well, a fusão das duas partes gerou “A Day in the Life”… Uma bela canção… E claro, tanto o Lennon como o McCartney devem ter ficado surpresos com as “razões” de cada um para escrever o que escreveram e mais ainda, pelo “casamento” perfeito com os versos deles fundidos  no resultado do trabalho…

Parece que até os equívocos favorecem os gênios, digo, aos homens de talento, ou será que é o contrário?

http://www.youtube.com/watch?v=P-Q9D4dcYng&feature=related

O TEMPO (RE)VISITADO – por olsen jr / ilha de santa catarina

Já tentei livrar-me disso em outros tempos. Esta atitude de (re)visitar lugares, de repetir gestos e atitudes na expectativa de ( quem sabe) recapturar  uma emoção no antigo sítio  onde ela foi gerada… Só que muito tempo depois quando já está sublimada, quase esquecida. É algo involuntário, quando dou por mim já estou ali, fazendo de conta que é pela primeira vez esperando que tudo se repita.

Esta sensação vale para um restaurante, para uma cidade, uma rua, enfim, quando percebo que já estive no lugar em outros tempos e isso me traz recordações, pronto, já caí na armadilha. Palavra de escoteiro, muitas vezes não faço nada para provocar aquela catarse, mas por outro lado também não faço nada para evitá-la.

Assim, sem me dar conta, estou parando o carro em frente de um restaurante ao pé da serra “Dona Francisca”. Passa um pouco do meio-dia. Poderia ter almoçado antes, poderia ter seguido viagem, mas estaciono ali, precisamente.

Faz algum tempo que não apareço, entro e ouço a música “Yesterday”, dos Beatles, antes mesmo de cumprimentar a recepcionista e os outros atentendentes. Depois de lavar as mãos, quando saio do banheiro está tocando “Bridge Over Trouble Water”, com  Simon & Garfunkel. Mais tarde, já à mesa, percebo “I Can´t Stop Lovin´You” na voz do Ray Charles… Uma sensação agradável. Comento com a senhora no balcão, digo que pareço estar ouvindo os meus próprios discos. Ela faz uma cara entre alegre e triste e menciona o fato de que aquelas músicas eram de um tempo em que tudo parecia mais romântico, descompromissado e melhor. Finjo concordar porque quero continuar fazendo a “minha” própria viagem sozinho, ela se afasta e deixo os meus olhos vagarem nas paredes ornadas com fotografias antigas, em sépia, molduradas em preto com personagens de outros tempos. De onde estou não posso distinguir os rostos, assim, ponho os meus avós naquelas imagens, os meus pais em outros e eu também me vejo ali fixado na memória daquela parede sendo contemplado por outras pessoas que talvez estejam pensando o mesmo em algum dia do futuro…

Peço algo amargo para beber e não me atrevo a ir ao bufê me servir enquanto aquelas músicas entram em sucessão nostálgica, “Help” (Beatles) sorrio mentalmente pensando que quem precisa de ajuda naquele momento sou eu; “Satisfaction” (Rolling Stones) e sem quebrar o embalo “I´m Believer” (Monkees), quem se dispusesse a visitar os meus pensamentos naquele momento teria a certeza “o cara era um crente” pelo menos a música corroborava com a idéia, rio cinicamente, “The House of the Rising Sun” (Animals), “Whiter Shade of Pale” (Johnny Rivers)  e “Stand by me”  (John Lennon)… O que anoto mentalmente, acrescentando logo “era só o que me faltava pedir para alguém esperar por mim” afinal a minha vida andava tão amarga quando aquele bitter, mas a vida não era função hepática, desta vez tenho que rir pensandoem Ulysses Guimarãesquando usou a mesma expressão referindo-se a política. Falei de “discos” e a mulher lá no balcão concordou, não mencionamos CDs e nem DVDs, era “vinil” mesmo… A nossa geração estava impregnada de memória, estávamos sobrando onde esta “geração mais nova” estava faltando, semelhante aquele poema “Triunfo Supremo” do Cruz e Sousa e que está numa placa lá no Aeroporto Hercílio Luz, em seus últimos versos: “… Quem florestas e mares foi rasgando/ e entre raios, pedradas e metralhas,/ ficou gemendo, mas ficou sonhando!”.

O casal que entra no restaurante acompanhado dos dois filhos traz embalado pelo vento lá de fora, a fragrância do Dolce & Gabbana e todo o ar ali dentro vai desenhando as lembranças dela, na cadeira em frente, na mesa ao lado, nos fundos, mas tenho consciência de que já se passaram muitos anos e antes que sucumba àquele fascínio novamente, num último resquício de consciência, peço a conta. Ninguém entendeu quando saí sem tocar na comida. Lembrei do Kafka, não havia mérito em jejuar uma vez que não encontrara ainda a comida que me satisfizesse… Embora os sentimentos fossem os mesmos, o que mudou (neste tempo todo) foi a maneira de sentir, mas isso só descobri depois, quando este sentir já não pode mudar mais nada!

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NOTAS:

A música é esta “If”, do Bread e diz tudo…

As paixões do poeta continuam as mesmas… Talvez um tanto mais cético, mas receptivo… Sempre acreditando…

A literatura, a música, os amores que nunca se realizam ou a frase celebrizada no livro “Memórias de um Fingidor” … “Os  sonhos irrealizados e os desejos insatisfeitos”…

A família, o trabalho bem feito, os amigos… O compartilhar da boa mesa e das boas bebidas… Uma boa prosa que não tem preço, o idealismo e o sonho que tudo justificam..

Tudo embalado pela ânsia de fazer melhor, de chegar em outro lugar, de vislumbrar novos horizontes em toda a iniciativa para sair do lugar comum… De continuar tentando sempre, embora tudo pareça conspirar contra…

Estamos vivos e isso conta muito… E se  houver aí algum sonho ainda, melhor…

O “Bread” foi um grupo formado em Los Angeles em 1968 e que foi até 1973 e depois fizeram mais um disco de despedida…

Formado pelo  David Gates, Robb Royer (os dois que ainda estão vivos da formação original), Jimmy Griffin e Michael Botts…

Estouraram em 1970 com o single “Make it with you”… Foi primeiro lugar na parada norte-americana da Revista Billboard…

E a banda que era de estúdio viu-se obrigada a cair na estrada fazendo shows pelos Estados Unidos…

Depois vieram outros sucessos, “If”, “Everything I own”, “Baby I want you”. “Guitar man” e “Aubrey”, entre outros…

Conflitos entre egos fez a banda terminar em 1973… Voltaram em 1976 e lançaram um último álbum “Lost without your Love”…

E isso tudo encerra com o velho truísmo: não há bem que dure para sempre e nem mal que nunca termine…

Vai com o carinho do poeta, sempre…

http://www.youtube.com/watch?v=WBcVebmt1Mk

O PÔSTER NA PAREDE – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

Recebo poucas visitas aqui em casa. Não é que esteja me tornando (as)social ou misantropo. Ou então, pior, em uma ação premeditada tentando “criar” um tipo mais ou menos como o do escritor Dalton Trevisan ou J. D. Salinger, porque a imaginação aguça a curiosidade e assim se pode mitificar o desconhecido tornando, quem sabe, a obra mais interessante.

A verdade é que pretendo deixar o “mundanismo” lá fora mesmo. Para se discutir obviedades há os botecos da vida. Claro que se pode fazer de qualquer canto uma espécie de taberna privilegiada, ou como disse outro dia, bem anotado pelo Horácio Braun em seu eclético cardápio “sou um boêmio, está certo, mas adoro minha casa, para mim é o meu segundo bar”. Não escondo o riso, assim posto, tudo parece muito simples.

Portanto, quando o meu sobrinho ligou indagando se podia me visitar porque tinha um trabalho para fazer na universidade e precisava discutir algumas idéias comigo, assenti. Costumava brincar afirmando que ele era o meu sobrinho favorito, o que era verdade. Inteligente, educado, com interesse igual por literatura, música, artes. De certa forma me enxergava nele quando tinha a sua idade.

No começo falou rapidamente sobre a importância das bebidas para a formação e consagração de talentos (ou não) desde o café e o álcool, passando pelo renascimento até nossos dias. Disse que era um ponto de vista interessante e tinha muito material. Mas percebi que não era bem aquilo que ele pretendia falar comigo, parecia ser mais um aquecimento antes de entrar no busílis (gostaram? Sempre quis usar esta palavra em algum lugar) da questão.

Depois o surpreendo em frente de um pôster na parede, representando num bico de pena, o Cavern Club, lugar onde os Beatles tocavam quando foram descobertos por Brian Epstein que viria a ser o seu primeiro empresário.

O quadro tinha uma história, aliás, como tudo ali. Fora presente de um marujo inglês que o trouxera de Londres e dado a Trude, proprietária de um bar à beira do cais na cidade de Itajaí. O bar era todo decorado com bandeiras de navios de dezenas de países. O pôster do Cavern Club era uma raridade e ficava em frente do balcão. Várias pessoas tinham tentado comprá-lo, inclusive eu, na primeira vez em que lá estive. A proprietária era inflexível, “não estava à venda e pronto”.

— Como ele veio parar aqui, então? Quis saber.

— Explico: o bar era freqüentado por médicos, advogados, prostitutas, gente do lugar, estrangeiros, turistas e a marujada que batia ponto ali. No dia em que pretendi comprar o dito, diante da negativa, pus-me a falar dos Beatles para o amigo que me acompanhava, ali mesmo no balcão, bebericando cerveja, olhando para o pôster na nossa frente e monologando sobre os Beatles. Falei, acredito, durante mais de duas horas sobre o assunto. Parecia que estava conversando sobre a minha própria família, tal a intimidade com fatos e coisas deles. Enquanto falava, percebi que a Trude estava sempre nas proximidades, ouvia o que estava dizendo, e para surpresa de todos ali presentes, quando terminei, ela foi até a parede, tirou o quadro, passou um pano devagar, com carinho, como se estivesse em uma cerimônia de adeus, e me deu de presente. “Toma, é teu!”. Não acreditei. “A senhora sabe o que está me dando? Questionei”. “Sim, é teu”. Um médico que estava vendo tudo me disse, “não sei o que você fez, mas meus parabéns fazem mais de três anos que venho tentando comprar este quadro”.

Depois da história sobre o pôster, a conversa se descontraiu um pouco, mas ele não dizia a verdadeira razão para estar ali, o que queria comigo? Também, não sabia como podia ajudá-lo. Nisso toca o celular, ele atende, afirma que a sua mãe veio buscá-lo e ele não pode perder a carona. Combinamos então, para hoje, a tal conversa, daqui a pouco ele deve estar chegando, penso!

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NOTAS:

A música é esta “Im My Life”, do disco “Rouber Soul” (1965) dos Beatles…

John Lennon a considerava “sua” primeira obra-prima…

Refere-se as perdas que vamos acumulando na vida (amigos, pessoas que amamos) e também aos lugares que vão sendo desfigurados, das nossas referências que são alteradas… Nem sempre para melhor…

Mas, de tudo sempre resta algo, talvez aquele amor, você, ele ou ela… Que não se esquece…

Embora a via continue e no fundo, continuamos também, sempre sozinhos…

É uma das minhas canções (dos Beatles) favoritas…

DA UTOPIA E DO CRIME – por jorge lescano / são paulo


 

Para Urda Klueger

 

Não há nada de quixotesco nem romântico em querer mudar o mundo.

É possível. É o ofício ao qual a humanidade se dedicou desde sempre.

 Não concebo melhor vida que uma dedicada à efervescência, às ilusões,

à teimosia que nega a inevitabilidade do caos e à esperança.

Gioconda Belli

Em termos gerais concordo com o pensamento da escritora nicaragüense, de quem conheço apenas esta frase, remetida por uma companheira de utopia. O que me motivou a escrever a nota são os conceitos quixotesco e romântico, citados por ela como pejorativos, ao gosto da mentalidade liberal burguesa.

Nada mais humano que o homicídio premeditado, o matricídio, o parricídio, o fratricídio, o latrocínio e a tortura. Nenhuma outra espécie comete estes crimes em sã consciência, eles são atributos exclusivamente humanos. O que um homem fez, a espécie faz. Nenhum indivíduo pode se declarar isento das características da manada humana. Nada mais humano, também, que o anseio de conhecimento, de liberdade, de justiça, de felicidade.

A sombra de Hitler nunca ofuscará a luminosidade de Mozart, a inquietante clarividência de Kafka. A prepotência de Mussolini não apagou a alegria de Vivaldi. Os crimes de Stalin só ressaltam a verdade da obra de Dostoievski que denuncia o absurdo da violência dos homens. O obscurantismo de Franco nunca empanou a lucidez de Cervantes. A desfaçatez de Obama que pretende justificar guerras injustificáveis, não perturba o reconhecimento das românticas viagens de Poe à região nebulosa da mente, não pode ocultar a melancolia dos quadros de Hopper nem o bom humor da música de Cage. É óbvio que tais nomes não esgotam o elenco de protagonistas da eterna luta entre a luz e as trevas. Eles perambulam anônimos ao nosso redor.

Toda revolução é romântica porque pretende mudar o mundo, realizar a utopia.

É revolucionário – não importa qual seja o teor da atividade nem o volume de sua tarefa – todo aquele que sonha com a justiça plena, isto é: os mesmos direitos para todas as diferenças. Muda-se o mundo menos pela gestão política que pela consciência individual que obrigará o político a obedecer.

Descreio de instituições cuja única função é disputar cargos públicos. A diferença entre um partido político e o movimento político é que aquele concorre ao governo do Estado (entidade semidivina na atualidade) e este educa, forma as pessoas para a autogestão. Em geral é trabalho realizado individualmente porque o poder político sempre acaba institucionalizando (entenda-se encampando, neutralizando e manipulando) os frutos da tarefa coletiva.

Se não podemos mudar de mundo, mudar o mundo é a única alternativa, única utopia válida. Deve-se pretender o máximo para conseguir o mínimo. Assim funciona a sociedade humana.

O Quixote era uma sátira na época de Cervantes, tornou-se paradigma moral e moralista por algum tempo, volta a ser exemplo de estupidez, de ingenuidade e loucura (?) nos tempos que correm porque não produz lucros monetários, valor máximo da comunidade ocidental e cristã.

A arte, por revolucionária que seja, não muda o mundo, apenas ilustra a doutrina de que a pensamento não deve ficar preso a preceitos estabelecidos pela “autoridade”. Isto é válido em todos os ramos, para todas as categorias. O conhecimento científico também caminha assim, desrespeitando a autoridade estabelecida pelo poder político das academias. O pensamento deve ser campo aberto para o cultivo. Somente os dogmas afirmam possuir verdades imutáveis.

Reivindico para mim os motes de romântico e quixotesco pelo que eles têm de inconformismo, e não é preciso que ninguém aprove ou adira à minha escolha. Tenho o mau costume de ver a realidade pelo avesso. Não fosse assim e teria me dedicado a vender apólices de seguros de vida e estaria em paz com os deuses (todos eles!) e com o mundo.

Atribuem-me a (má?) fama de iconoclasta. Não sei se isto é verdadeiro, sei sim que nunca pactuei com o culto à personalidade de nenhum ídolo, que sempre acaba servindo ou criando seitas, clubes, partidos apenas diferentes nas cores e tamanhos. Isto não impede que reconheça o valor de pessoas e obras sem que, necessariamente, deva render-lhes culto.

Em meus rascunhos abundam nomes de artistas. Suas obras, de diversos modos, moldaram a minha escrita. Também Natividad Cardozo, minha mãe e lavadeira analfabeta, colaborou com ela; e se não deixou frase memorável para ser citada formou o homem que sou hoje, com todos meus defeitos.

Talvez o sentido da vida de cada um seja procurar a perfeição (?), esta a utopia individual. Nisto acreditam diversas seitas de todas as latitudes. Eu me reservo o direito à dúvida.

O SIGNIFICADO DO NATAL – por manoel de andrade / curitiba.pr

 

          Nestes dias que precedem o Natal, ocorre-me pensar nas tantas portas que se fecham para o seu real significado, mascarado por estranhas personagens natalinas e maculado por poderosos interesses mercadológicos. Ocorre-me também pensar que se o Cristianismo fosse verdadeiramente interpretado não haveria tantos sectarismos e o simbolismo da manjedoura de Belém seria fraternalmente reverenciado no mundo inteiro, além da barreira das religiões.

 

Jesus não fundou nenhuma igreja, nem dogmatizou nenhuma religião. Trouxe-nos a imagem de Deus como um pai, mostrou a importância da religiosidade e nos revelou o significado incondicional do amor. Não escreveu nada, mas deixou, na memória de seus discípulos, a sabedoria de suas parábolas e, no Sermão da Montanha, toda a essência do cristianismo, falando do amor aos inimigos, do perdão das ofensas e da importância de dar a outra face como um caminho aberto para a reconciliação. Resumindo, quis dizer-nos que ser cristão é saber transformar o orgulho em humildade e o egoísmo em amor.

 

A ênfase de sua filosofia propunha a redenção humana pela educação e não pelo constrangimento. Embora abominasse o pecado, Ele amava o pecador e acreditava que educar é despertar o senso da justiça, do amor e da beleza moral que existe, potencialmente, em cada ser humano. Nesse sentido, entre tantos fatos de sua vida pública, exemplificou sua tolerância e sua caridade diante da mulher adúltera e do bom ladrão, no alto do Calvário.

 

Passados vinte séculos hoje perguntamos qual o significado do seu nascimento para cada um de nós. Sobretudo perguntamos quantos já leram e estudaram o seu Evangelho. Nesse singelo banco escolar que é o planeta,  — onde ainda somos espiritualmente crianças  — seu conteúdo é uma cartilha insubstituível para soletrarmos o beabá do amor, da paciência e do perdão. Diante das sabatinas diárias da vida é imprescindível aprendermos o que significa “orar e vigiar” e não fazer a ninguém o que não queremos que nos façam. Quantos são capazes de vivenciar suas lições e seus exemplos, ante as provas e os embates do dia a dia, oferecendo a outra face ante o agressor e perdoando sempre? Se já começamos a ensaiar essa difícil conduta então Jesus já nasceu para nós e temos um Natal para comemorar. Mas muitos ainda trazemos o coração fechado a essa realidade, tais como as estalagens de Belém, cujas portas se fecharam ao seu nascimento.

 

Se perguntássemos a Paulo de Tarso onde nasceu Jesus, ele certamente diria que foi diante das Portas de Damasco, onde chegou para aprisionar alguns cristãos da cidade. Se perguntássemos a Maria Madalena onde Ele nasceu, com certeza, responderia que Jesus nasceu para ela na casa de Simão, o fariseu. Foi ali que depois de lavar e enxugar seus pés ela ouviu sua voz compassiva perdoando-lhe os pecados.

Onde predomina o orgulho e o egoísmo — essas patologias crônicas da alma humana — Ele não poderá renascer, ainda que invocado em rituais e ladainhas. É imprescindível que façamos do coração uma manjedoura humilde para que Jesus possa renascer em nossas vidas. Caso contrário, além da beleza sentimental da fraternidade e o significado envolvente do Natal no seio da família, temos apenas uma data histórica para comemorar, com muitos presentes, a figura patética de um Papai Noel, um banquete de sabores e aparências e o apego às ilusões do mundo.

 

 

 

CRÔNICA DO MENINO DEUS – por vera lucia kalahari / lisboa.pt

 

 

Nasceste. Chegaste num dia frio de sol cadente. Dormiras sobre
estrelas e trazias no cabelo o ouro que tiraras delas. Nas mãos, um
tesouro: O peso assustador, esmagador, do mundo… Nos olhos, a pureza
duma açucena, o brilhar de prantos que jamais choraste.
Nasceste. Não vieste para reinar entre pratas, ouro e pedras, como
aqueles que se intitulam teus seguidores.  Chegaste só, com a chuva
que tombava num telhado em ruinas. Agora, dormes num monte de feno
quente, cheirando a campo. Perto, tua ma~e vela docemente com o peso
dum filho que é seu mas que o mundo roubará. Nasceste, menino,
Homem-Deus, mas não ficaste. Encontraste em cada esquina, um Judas
para te trair e uma coroa de espinhos para te ferir com o peso dos
pecados a curvar-te, a enterrar-se até ao fundo do teu coração. Estás
em tudo, Menino-Deus… Pena teres partido. Não teres mantido o teu
reinado, Tua humildade imensa de cordeiro, entre os homens.
Porque então, Menino-Deus, esta não seria a terra de rios entumescidos
de prantos e de gemidos.
E nós, não seriamos estes vermes rastejantes, de olhos suplicantes
virados para Ti, numa ânsia agónica de Te tocar, sem termos forças
para Te alcançar.

AS MULHERES AO REDOR – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

Estou na cama. As dores provocadas por uma crise de gota não se justificam, uma vez que sequer estou bebendo, mas o médico me irá esclarecer. O que importa agora é a constatação de que os meus atos passaram a ser pautados pela presença invisível de várias mulheres…

Batem à porta. Vou manquitolando atender pensando que o médico chegou cedo. Para surpresa minha, recebo a visita do jornalista, Valdir Alves. Chega com duas garrafas de vinho. Um dos meus poucos amigos, o Valdir “é da casa” como se diz, explico a situação e volto para o quarto. Ele aparece em seguida, puxa uma cadeira e senta-se ao lado da cama. Vai bebendo o seu “Cassillero Del Diablo” enquanto relato o que me atormentava antes dele chegar: as mulheres!

Ele escuta com um sorriso malicioso e certo brilho no olhar, percebo que está interessado e exponho o tal assédio. “Veja o caso da Dolores, por exemplo, vem aqui em casa, é metódica, fica ali no pé da cama, à minha direita, quase imperceptível, preciso me esforçar por dar por ela; depois tem as gêmeas, Janice e Janete, são tímidas, me lembra a minha infância, quando chegavam pessoas estranhas, a gente corria para se esconder, pois bem, elas ficam ali atrás daquela porta de vidro, espiam, fazem algum ruído e crêem que me divirto com isso, não digo que não, mas é curioso; tem a Gioconda, mais pretensiosa, metida a intelectual, ela prefere aquele nicho entre o balcão e a escrivaninha, já a surpreendi bisbilhotando os meus escritos, faço que não sei, mas sei. Não gosto quando vem acompanhada das três filhas, que já apelidei de Lalá, Lelé e Lili, uma alusão às sobrinhas do Pato Donald, porque são enxeridas, ficam bulindo os tabuleiros de xadrez, aquele de vidro (que ganhei do Horácio Braun) e aquele artesanal (presente do artista Telomar Florêncio), preciso intervir, quando então “as queridinhas” se contentam em pular em cima do tapete aqui em frente da minha cama…”

O Valdir continua sorrindo e esperando para ver onde aquela conversa iria dar. Como não diz nada, continuo: “Aí vem a Domitila, caseira, prefere ficar lá na cozinha, não sai da frente do fogão, tudo bem se gosta disso, penso; mas a mais terrível é a Claudia Castañeda, não precisa rir, porque parece que ela está sempre “chapada”, demorei em entender que aquele era o “seu jeito”, e com todo o respeito, há muito deixei de pretender reformar o mundo, mas o “duro” são as amigas, a trupe quando resolve reunir-se em frente da televisão. Abstraindo a Dulcinéia que prefere a permanência ao lado da escultura do Dom Quixote na sala, as outras tartamudeiam todas ao mesmo tempo sem o menor decoro; a Angélica prefere o espaldar do sofá, esbaforida e barulhenta, a Genoveva, aristocrática só no nome, foi reprimida em outros tempos, mas ali se esbalda e parece que se multiplica; A Christininha, uma incógnita porque a chamo no diminutivo, parece três e açambarcar toda a mesa de centro quando resolve se manifestar. Quer saber? Parece um bando de peruas planejando um assalto…”

Nesse ínterim, a chuva recrudesce, ouvimos um estalo seco ao lado da cama. O Valdir indaga: “o que foi isso?”. Digo que é apenas o espraiar guloso de uma gota de água estatelando-se num pote de sorvete que ele não pode ver e concluo: “esta é a Dolores, de quem já falei, e que acaba de chegar”.

Ele começa a rir… Digo que todas as goteiras aqui em casa têm nome de mulheres…

Está rindo é? A coisa é séria. Dia desses uma amiga esteve aqui com o filho, e quando soube disso, pediu para ser homenageada. Pensei na goteira na sala que cai em cima de uma cadeira de couro e faz um som diferente. Disse a ela e que seria a primeira batizada com o nome de alguém conhecida: Georgia! Que bom afirma, assim você pode pensar em mim, lembrei do Ray Charles,e tasquei, claro, sempre: “Georgia on my Mind”!

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NOTAS:

A canção é essa, “Georgia on my Mind”,

Música de Hoagy Carmichael com letra de Gorvel Stuart (1930) que escreveu-a para a irmão de Hoagy, chamada Georgia Carmichael…

A letra, no entanto, foi suficientemente ambígua para se reportar tanto ao Estado da Georgia (USA) como a mulher chamada Georgia, que foi a homenageada pelo compositor…

Ray Charles a gravou em 1960.

A canção também foi reverenciada pelos Beatles em “Back in the USSR”, com o verso “A Georgia está sempre em nossa mente”, alusão ao RSS, da Georgia (Georgia Soviética)…

Muitos intérpretes gravaram a música, Billy Holiday, Aretha Franklin, Willie Nelson…

A minha versão favorita é a de um grupo sul-africano que fez muito sucesso na década de 1970, chamado “The Square Set”, gravou “Georgia on my Mind” em ritmo de rock… Eles também ganharam notoriedade pela canção “That’s what I want”… Infelizmente, por razões que desconheço, não consigo encontrar a dita cuja no Google… Tenho o compacto simples aqui comigo, uma preciosidade, mas é outra história…

Fica a versão do soul man, Ray Charles, clássica, se vocês me entendem…

http://www.youtube.com/watch?v=_3clBZqaA54&feature=related

 

OLSEN JR  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

Paisagens partidas – por amilcar neves / ilha de santa catarina


 

Tinha a cidade aos pés desde a noite anterior, uma cidade sobre rodas motorizadas (não se via uma bicicleta sequer, somente rodas ou os pés da gente que anda a pé). Ao fundo, barcos: lanchas, veleiros e um iate fundeados no Iate Clube Veleiros da Ilha, uma ou outra lancha pequena passando preguiçosa a longos intervalos no mar cinzento, reflexo de um céu forrado de nuvens escuras e varrido por um nordeste que mexia o ar mais do que esquentava, um clima ótimo para deixar toda arrepiada na beira da praia uma mulher de biquíni.

 

Apesar do ângulo aberto contado a partir do morro, nas encostas do Menino Deus, não via tudo o que havia: o prédio ao lado obstruía-lhe a visão das pontes e suas circunvizinhanças. Espiar a Hercílio Luz, então, só na imaginação: como o fazem há tempos aqueles que um dia a conheceram como ponte que suporta o trânsito cotidiano da cidade e como o farão, daqui a pouco, aqueles que chegaram a conhecê-la como monumento em acelerada decrepitude por obra da omissão de vários governantes, cujos nomes deverão ser gravados a fogo num monumento que se erguerá no lugar da estrutura metálica pênsil, e por desobra de muito dinheiro que, endereçado à HL, nunca chegou ao destino, como se a ponte já não houvesse mais e, portanto, nada nem ninguém pudesse chegar ao destino, sequer o dinheiro destinado a salvá-la (quando, antes, bastava mantê-la).

 

Diz o Houaiss que, em Estatística, dá-se à “falta de atividade, de trabalho; inércia, inatividade” o nome de desobra. Estatisticamente a Ponte cairá um dia, e nossos governos têm trabalhado arduamente para antecipar o quanto possam tal data fatal. Esquecem que, quando a queda da Ponte acontecer, ela deixará de lhes ser um valioso pretexto para, digamos assim, canalizar verbas e recursos outros.

 

À esquerda, o que resta de Mata Atlântica ao redor da subida do Senhor dos Passos bloqueia a visão das bocas Oeste do túnel duplo que liga a Prainha ao Saco dos Limões, desprezando o José Mendes à sua direita, para quem vai do Centro para o Sul da Ilha, para satisfação e tranquilidade do Júlio de Queiroz, que mora de frente para o mar sem o barulho contínuo e irritante de cidade em seu portão. Alguém teve a inspiração de dar ao caminho pelas entranhas do Mocotó o nome de Antonieta de Barros, uma mulher bem negra que foi professora respeitadíssima (quando se respeitavam os professores, para não dizer mais) por seu trabalho no magistério durante a primeira metade do século passado, mas o corporativismo da Assembleia Legislativa resolveu puxar um pouco a si a homenagem, batizando o túnel como Deputada Antonieta de Barros – ainda que ela tenha sido eleita a primeira deputada de Santa Catarina, sua obra mais significativa foi a de professora.

 

Restaria o mar à frente, com a Baía Sul toda desdobrada aos olhos – desde que o Fórum e o Tribunal de Justiça, de alturas excessivas, não fragmentassem de novo a paisagem, ladeados por construções mais humildes que afastam o mar de quem está em terra, a pé ou mesmo motorizado: uma passarela do samba, de costas para o mar, que não para de crescer cada vez mais feia, tendo já atropelado o local em que um papa rezou missa, e uma imensa caixa de sapatos toda fechada, de tampa verde, a que se dá o nome de centro de convenções ou algo similar. Na borda do mar desenhada já por aterros, construções desnecessárias para o local bloqueiam a simples visão do mar; em paralelo a elas, pistas de alta velocidade bloqueiam o mero acesso ao mar.

 

POR QUE O NATAL ME DÓI? – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

(Para Itamar e Marcelina, Luis e Carmem).


 Em uma tarde destas, logo após as chuvas, estava num mercado aqui na Lagoa, buscava um tipo de requeijão que meus avós faziam. Uma maneira creio, de estreitar minhas saudades com um passado de quando tudo ia bem. Ao meu lado um casal procura algo na mesma gôndola. Não pude deixar de ouvir o comentário que o marido fez para a mulher, “essas músicas de natal são um saco”. Presto atenção e ouço uma versão em português, muito ruim da música “Happy Xmas (War is Over)”, do John Lennon. A letra era mais longa que a melodia, doía mesmo ouvir aquilo.

Tinha uma versão audível com a Simone. Melhor mesmo era ouvir o original com o ex-beatle. Caso raro de uma música de natal que ainda faz sucesso fora da data para a qual foi composta.

Lembro de um mês de dezembro, entre 1966 e 1969, em Chapecó em que ficava em uma sala lendo a obra infantil (17 volumes) de Monteiro Lobato enquanto a minha mãe arrumava a casa e ouvia músicas de natal. De tal maneira isso ficou no inconsciente que, todas às vezes que pego a literatura infantil do Monteiro Lobato já começo a ouvir “…Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai-noel”…   As músicas eram brasileiras, muito boas. Versos simples de grande apelo aos sentimentos. Li em algum lugar um ensaio crítico sobre o tema do natal, e as nossas composições sobressaiam-se sobre os outros países, notadamente os Estados Unidos, que era o referente com o indefectível “Jingle Bells”.

Meus avós, Eugênio Harald e Rosa Cabral eram católicos praticantes. Acreditavam em Deus e na unidade familiar. O natal, portanto, era uma data celebrada com todo o ritual que a ocasião exigia. Uma árvore era cortada no campo (já era plantada para essa finalidade), enfeitada com velas, algodão, bolinhas, anjos, estrelas, barba de velho tirada no mato, e embaixo, um presépio com a manjedoura, a criança recém nascida, Maria e José, os reis magos, enfim, tudo lembrando o que deveria ter sido quando o filho de Deus veio ao mundo.

O papai-noel chegava, fazia sua prédica, as orações de praxe, minha tia começava a cantar “Noite Feliz”, quem sabia a letra acompanhava e só mais tarde os presentes eram distribuídos. Depois, uma ceia, também precedida de agradecimentos e uma oração, e a festa que ia até o amanhecer.

No dia seguinte havia um churrasco de ovelha, e apareciam outros membros da família, chegavam para confraternizar. Era um clã numeroso, unido, feliz. Os almoços não tinham fim, o velho gene viking, ou nórdico recessivo, aflorava. Os adultos passavam o dia à mesa, bebendo cerveja, comendo, conversando… Vinha o café… Chegava o jantar e ninguém tinha arredado o pé ainda do lugar. Música contemplando vários gostos, mas imperava o velho nativismo gaúcho.

Bem, como nada dura para sempre, aquela tertúlia familiar também não durou. Estávamos saindo da adolescência quando meus avós morreram… Nunca mais foi a mesma coisa. Tentamos prosseguir com o ritual, mas parece que a essência tinha esvaído… A família foi se distanciando… Depois os meus pais também morreram… Foi então que eu me tornei arredio porque a reunião significava prantear os ausentes, na cabeça de um poeta isso é uma tortura… Olhar aquela mesa na sala, onde várias gerações tinham passado à cabeceira ninguém mais para agradecer o pão em nome de todos, ninguém mais para apaziguar a nossa ansiedade diante da franqueza do bom velhinho que parecia conhecer todas as nossas travessuras, e daquele coração gigante que nos compreendia sempre, desde que prometêssemos não reincidir nos erros… Prometíamos claro, mas sempre fazíamos tudo de novo, e éramos perdoados novamente com a vigilância bondosa e serena do meu avô.

É por isso que o natal me dói… Porque já não posso dizer para aqueles que me amaram, de verdade, que também os amava do meu jeito tímido, como são os poetas!

 NOTAS:

A música poderia ser “Happy XMas”, do John Lennon,  mas por razões de direitos autorais (com a gravadora EMI) foi tirada do Google, no Brasil…

Se alguém preferir “matar a saudade” da melodia, a versão brasileira interpretada pela Simone ainda é a melhor, fácil de encontrá-la…

Mas em épocas de “amor”, “fraternidade”, “compartilhamento”, “humanidades”… Lembrar da Utopia também é válido…

http://www.youtube.com/watch?v=fAOjvL3C_QM&feature=related

Mesmo um tanto cético, nessa época abrimos a guarda, acreditamos, eu também…

Por questões contratuais, os Beatles se separaram (oficialmente) em 1972… Desde 1969 viviam às turras, John Lennon foi o primeiro a gravar um disco independente do quarteto…

A música “Imagine” foi gravada em disco de igual nome, em 1971… Em 1972 só dava “ela” em qualquer lugar que se fosse, o que demonstra, no fundo, que todos gostam de acreditar em uma Utopia…

olsen  jr.

CURITIBA, pastelão e chuva – por wagner de oliveira mello / curitiba.pr

Mentira é tudo mentira! Nunca tive uma estante, cama, mesa ou quarto; desde que fralda era um pedaço de pano que segurava minha merda presa à bunda eu divago por ai, sem burro, sem alça, às vezes um tênis, em outras uma calça. À merda com essa rima estúpida, ta pensando que tua vida é a Odisséia rapá.
• Acordei atrasado como sempre, sai apressado sem nem escovar os dentes ou dizer bom dia pro espelho; chegando à portaria fui invadido pela mesma duvida que me assombra todas as manhãs, então voltei tropeçando escada acima conferir se tinha trancado a porta,  -É claro que trancou, complexado idiota -. Tomei um cafezinho com pastel podre no china koreano e corri pra estação tubo porque além de tudo chovia pra caralho naquela hora. Incrível como todo usuário de guarda-chuva insiste em andar embaixo das marquises obrigando quem esta sem a desviar? Gente ignorante! Bem curitibana mesmo. Prefiro andar na sarjeta, até porque na calçada tem aquelas pedras soltas que quando você pisa jogam lama nos calçados, nas calças, podendo subir até a camiseta dependendo da intensidade da pisada e como eu sou azarado é melhor prevenir. Mas enfim, chegando semi ensopado no tubo, advinha? “O palerma aqui esqueceu o cartão de transporte e obvio que estava duro. O cobrador que já me conhece bem olhou pros dois lados antes de liberar.” Entra pela portinha lateral, da nada não, você ta sempre ai, outro dia me paga um café e ta tudo certo. “Porra cara, valeu, valeu mesmo.” Às vezes encontramos gente santa, e geralmente são as mais simples. Eu no seu lugar teria mandado o sujeito passear. O mundo não é bom, as pessoas não são boas e quando são acabam se fudendo, ou acha que se o fiscal da URBS, escondido atrás de um poste lá do outro lado da rua visse essa ação não teria delatado o pobre coitado; ai já era rapá! Não faz dessas coisas não filho, que Deus não abençoa!
Transito parado, ônibus lotado, cheio de gente encasacada, molhada, empunhando guarda chuva com olhar ameaçador como quem diz: esse canto é meu, não chega perto que te bato com isso na cabeça! E eu numa ressaca infernal, sonhando com minha cama, uma garrafa de água com gás e possíveis falecimentos que impedissem o expediente. Nada! A porta se abriu e, com muito custo consegui sair do coletivo, na verdade não sai, fui expelido porta a fora com a pressão dos que entravam pela outra. Alivio e desconcerto juntos. Mal desci do ônibus, um carro buzina ao meu lado, haha advinha quem era? Meu chefe é claro, e nem pra me dar carona o maldito, jamais daria, esporro sem platéia não é esporro.

 

 

RESTOS MORTAIS – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

 

Tinha 14 anos quando tomei conhecimento da existência do poeta Cruz e Sousa. Estava na Escola Agro-Técnica  Lysímaco Ferreira da Costaem Rio Negro, no Paraná e o livro era da editora Nova Aguillar, obras completas. Fiquei só na poesia: Broquéis, Faróis, Últimos Sonetos e o Livro Derradeiro.

Foi amor à primeira vista. Todo o meu tempo livre era dedicado a ler e reler aqueles poemas… Até o professor Venceslau Muniz me por nas mãos o “Eu”, de Augusto dos Anjos (assunto para outro dia).

Dois anos depois, em 1972 já em Curitiba prestando vestibular para arquitetura, na prova de português caiu uma interpretação do soneto “Vida Obscura”, do livro “Últimos Sonetos”. Acertei a questão relativa ao texto e me senti orgulhoso por ser catarinense e por perceber que todos os meus colegas tinham feito uma leitura equivocada do poema. O poeta faz a descrição do sofrimento de alguém e através de uma metáfora remetendo, no paroxismo, a crucificação de cristo, descreve os seus últimos momentos… Ele se referia (e foi a resposta certa) a um amigo… Na condição de artífice sei que ele estava imaginando a própria morte, claro, se esta alternativa estivesse nas respostas teria criado um impasse. A maioria dos candidatos foi ludibriada pelo verso “sei que cruz infernal prendeu-te os braços” e assinalou a resposta que aludia a Jesus Cristo…

Em 1994 fiz uma ponta no filme “Alva Paixão”, da diretora Maria Emília em que trata da vinda do corpo de Cruz e Sousa, que morreuem Minas Gerais, para o Rio de Janeiro num vagão de trem de transporte de animais. A mulher Gavita veio junta.

Faço o fiscal da estação ferroviária que recebe o corpo do poeta. Aquela cena me marcou, não só pelo fato de quase ter perdido a falange do polegar da mão direita prensado na porta emperrada de um vagão de trem no interior de Rio Negrinho onde as locações se deram, mas pela interpretação da Zezé Mota (assunto para outro dia) que fez Gavita, a mulher de Cruz e Sousa, também pelo realismo da situação. Hoje podemos ver com a clareza facultada pelo distanciamento histórico, um dos maiores poetas brasileiros, seu maior simbolista, morto com tuberculose na mais completa miséria que sofreu durante toda a sua vida a discriminação de seus contemporâneos, que foi protelado em cargos públicos e até da Academia Brasileira de Letras por um mestiço chamado Machado de Assis, que a história lhe faça justiça longe da literatura, trasladado num vagão de transporte de animais é dose. Nem na morte lhe deram compaixão, foi um maldito até o fim.

No dia 29 de novembro de 2007, depois de uma batalha que levou mais de 30 anos, finalmente o governo do Estado de Santa Catarina consegue resgatar os restos mortais do Sr. João da Cruz e Sousa.

Trazido agora de avião e depois por um caminhão do corpo de bombeiros, uma mala de aço contendo uma urna de madeira com os restos mortais do poeta que finalmente volta para casa, recebidos no Palácio Cruz e Sousa, bela construção arquitetônica com o seu nome, com direito a um coral entoando música clássica, louvado por autoridades acadêmicas e políticas, a promessa de um grande Memorial em sua homenagem onde se possam recitar poemas, onde sua obra nunca será esquecida e onde as lembranças de seu calvário serão sepultadas junto.

Foi diferente hoje, não era mais a cena de um corpo chegando em situações precárias numa estação do interior, era o poeta mesmo, mais de 100 anos depois, recebido em sua terra natal, o filho de escravos alforriados, o  “ser humilde entre humilde seres”…  Aquele para quem o “… mundo foi negro e duro”… O cidadão que chegou “… Ao saber de altos saberes”, “tornando-te mais simples e mais puro”…

Estive lá num canto observando tudo a distância, não suporto que me vejam emocionado em público, de poeta para poeta com a mesma dor, estava precisando de um trago, saí dali rumo ao mercado público, “… E neste conciliábulo mundano/ Pelos botecos da vida, confesso:/É solitário que eu me sinto humano!”.

Requiescat in pace!

O HOMEM E SEU DUPLO – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

   O que vou escrever não tem nada a ver com a obra “O Homem e o Seu Duplo”, de Alexandre Figueiredo, tampouco com “O Homem Duplo” (que originou o filme “A Scanner Darky”) de Philip K. Dick (o mesmo autor de Blade Runner) e menos ainda com “O Homem Invisível”, de H. G. Wells.

   O assunto aqui é mais leve.

É vox populi que todo o homem tem em algum lugar um sósia. Em outras palavras, alguém que é a sua imagem e semelhança, pelo menos no estereótipo.

Mas também não é isso do que pretendo tratar.

Só abrindo um parênteses, o escritor Christopher Lash (conhecido pela obra “A Cultura do Narcisismo”) escreveu uma espécie de continuação dela em outro livro “O Mínimo Eu” em que fala do narcisismo passivo e que o Paulo Francis emendava, referindo-se ao autor “acha que o mundo de hoje é dominado de tal forma por um complexo de burocracias todo poderosas que é difícil a alguém ganhar a individualidade”, mais “a vida é um constante comercial de TV ao qual o espectador tenta se segurar e tenta seguir, mas não consegue”, concluindo “ teme a idade e a morte de maneira infantil, nunca sai da infância”.

Começo por aí, pela infância. Quando éramos crianças, nós inventávamos um mundo de mentirinha e nos refugiávamos nele. A partir daí as brincadeiras faziam um sentido especial o que as tornavam necessárias. Nós não estávamos muito conscientes da duplicidade dos mundos, o que era “real” de onde provínhamos e do outro “imaginado” que acabávamos de criar. Os dois mundos até poderiam se confundir, embora sempre preferíssemos aquele outro o do faz de conta e sobre o qual tínhamos o domínio absoluto, inventando personagens e situações que parodiavam a vida adulta (ou não), mas nesse caso era apenas uma representação que poderia ser abandonada quando estivéssemos cansados dela.

O importante era ter uma ingerência na fantasia que criávamos diferente do mundo “real” onde aquelas aventuras oníricas não tinham guarida.

Nessa vida, dita adulta, o escritor que habita em mim está fazendo esse papel, o mesmo daquela criança que ontem fui e que ainda não me abandonou (porque sempre a tratei bem e nunca a deixei sozinha o suficiente a ponto de ela me ignorar como companheiro de viagem) o que permite a criação de um mundo paralelo aonde vou quando escrevo.

Ao contrário dessa criança, tenho consciência da fronteira entre ambos os mundos (um que eu suporto e o outro que criei) e o curioso agora é que nunca preciso cruzar a ponte de maneira clandestina, sei que consegui cobrir o trajeto quando essa solidão que me condena de um lado me absolve do outro, então escrevo, sozinho, mas livremente.

Agora, recebo um telefonema de uma amiga que está lendo os meus livros, e ela afirma: “não é justo… Assim não é justo”, repete e explica: “fico aqui lendo… Estou me apaixonando”…

Interrompo aquele monólogo e digo que ela pode se apaixonar pelo escritor, que está inteiro nas mãos dela, nas obras que lê, mas o homem por trás do autor é demasiadamente comum, não vale a pena alimentar um interesse por uma natureza humana que pode ser encontrada em cada esquina. Ela não se conforma, mas é a realidade, o escritor foi o sujeito que inventei para melhor suportar o homem comum que eu sou.

Para as pessoas que se crêem normais é muito estranho fazer essa discriminação entre a criança, o homem e o escritor e constatei isso enquanto limpava uma coleção de soldadinhos de chumbo reproduzindo os templários e as cruzadas e comecei a perceber o fragor da luta entre sarracenos e cristãos e, palavra de escoteiro, naquela hora, juro, senti o zunido de flechas e as batidas secas de cimitarras nos escudos que tinham uma cruz pintada em vermelho, diante das muralhas castigadas por catapultas, enquanto uma lança me espetava e tombei ferido de morte antes de afirmar que aquelas distinções não faziam sentido e aquela carnificina era inútil!

 

O NOME DA DEUSA – por jorge lescano / são paulo.sp


Não há provas de que esta criatura constitua uma espécie. O exemplara que registramos é, conforme declaração textual, o único avistado pelo autor do manuscrito compilado e comentado, provavelmente, pelo ilustre bibliotecário cego; versão esta que ora apresentamos em tradução livre. Acreditamos que o leitor, por pouco erudito que seja, poderá identificá-la entre suas lembranças de juventude.

 

“Lucádia ou Dulcáia, a Princesinha, tal a estirpe, e a alcunha, pelas quais é conhecida entre os tcharooas, na terceira margem do rio Cunaimama. Todavia, por motivos que a história omite, os francos e certo autor hebreu-germano-sueco, a denominam Charlotte, a Coxa.

“Presume-se que seu nome, como o da América (Amerik: elevação de terreno não vulcânico na atual província de Chontales, Nicarágua), foi transferido para solo europeu por navegadores espanhóis do século XVI. Como Amerik, foi rebatizada e devolvida ao Novo Mundo com a função de vestal.

“Eis a descrição suscinta legada pela tradição:

Cor: mourisca; cheiro: de felino silvestre de pequeno porte; cabelos: liga de cobre e ouro velhos; nariz: cleopátrico; olhos: sarracenos; voz: damasco em salva de cobre.

“Dadas as referências orientais, é-nos lícito suspeitar que o Império Otomano não esteve ausente na sua reconstituição. Há quem insista no caráter esotérico (alquímico, cabalístico) da passagem citada. conjeturou-se que era uma versão abreviada do simurg proposto pelo persa Farid ud-Din Attar. Talvez fosse previsível que alguém associasse a Princesinha à Zoraida do capítulo XL, da primeira parte do Quixote.

“A antiguidade clássica guarda silêncio ao seu respeito. Platão não a menciona em suas obras, o que induz a não poucos helenistas apressados a adjudicá-la, de forma pueril, ao culto de Eros. Outros, não menos anacrônicos, optam por oferenda-la a Dionísio. Deve atribuir-se isto à sua tendência a pousar sobre as mesas na posição de flor de lótus? A imobilidade, contudo, não é sua característica principal.

“Um velho mendigo a quem consultamos, interrompe seu zazen para sussurrar,  olhando para os lados, que, ‘devido às suas minúsculas proporções e aos seus passos miúdos, quando surge no crepúsculo dos corredores dos teatros pode ser confundida com um castorzinho assustado. E ainda: ‘Recomenda-se ceder-lhe a passagem desviando os olhos, sua mirada tem poderes ígneos’.

“Os chineses a admitem como justa equivalência do atroz monstro Aqueronte, avistado apenas uma vez, no século XII, por Túndalo, jovem e dissoluto cavaleiro irlandês.

“Para os tcharooas personifica Oolan-Naooëv, a lua nova de sirënev (sexta-feira). Nessas ocasiões, genuflexos, entoam poemas para sua natureza úmida no leito do Cunaimama, pois o que está acima está embaixo, acreditam. Porém, se a divindade mostra a face na sétima noite (Oolan-Naël, a jornada vermelha das semanas de treze dias), seu sacerdote empreende o Caminho do Norte pela margem direita do rio. Solitário, chora ou canta em silêncio.”

DANTE MENDONÇA: “Nosso novo cidadão” – por adherbal fortes de sá júnior


O título é redundante.

Ninguém é mais curitibano que o Dante, co-fundador do verdadeiro Carnaval Curitibano, sócio atleta do Bar Botafogo e do Ao Distinto Cavalheiro, sem falar no apoio que nunca negou à feijoada do Bar do Pascoale.

Mas o bordão latino determina: quod abundat non nocet, o que abunda não prejudica.

Então ta. As abundâncias são o principal assunto do livro que Dante Mendonça acaba de concluir e está mostrando a alguns amigos.

Finalmente temos uma extensa, confiável e bem humorada pesquisa sobre a cidade, em seus três séculos de libidinagem. De dia e de noite.

Com o título de Maria Batalhão – Memórias Póstumas de uma Senhora Cafetina, o livro acompanha os passos de uma Messalina de dois continentes atravessando a cidade, do Beco do Inferno, atual Travessa Tobias de Macedo, às casas do Parolin, passando pelas bocas da Cabral e pela famosa Casa da Uda.

O romance é uma história sociológica e picaresca da Curitiba, percorrida por Saint-Hilaire e Debret, habitada por Dalton Trevisan, Wilson Martins e Poty Lazzarotto. E também da Curitiba de hoje, porque a Casa da Mile é recente, o Morguenau está lá, o Operario ganhou sobrevida.

E sobram pelas ruas senhores capazes de testemunhar sobre famosas profissionais do sexo que habitaram Curitiba e foram colegas de sua personagem Maria Batalhão. Desde Maria Sem Calça até Avila Quadros, dona de estabelecimento no Parolin e prima do ex-presidente Janio Quadros.

Dante especula sobre os Anais da Mirlei, dona da mal afamada chácara em Colombo. Até hoje nas mãos de um delegado, os Anais contém revelações capazes de derrubar gabinetes e abalar reputações.

Vocês verão que só esse livro justifica todas as homenagens que Dante Mendonça recebe dos vereadores. Adicione-se a isso os anos dedicados ao jornalismo no Estado do Paraná e na Tribuna do Paraná. E os trabalhos que fez pela cidade como escritor, cartunista e figura pública. O crédito é imenso.

Enfim, Dante é mais do que cidadão – é uma personalidade curitibana que merece busto na praça, nome na placa da esquina e samba enredo no próximo desfile da Banda Polaca, que ele ajudou a inventar e ainda há de ressuscitar.

o cartunista e escritor DANTE MENDONÇA com o TITULO DE CIDADÃO HONORÁRIO DE CURITIBA ao lado do ex prefeito e ex governador Jaime Lerner no dia da solenidade na Câmara de Vereadores da cidade, em 17/11/2011.

foto sem os créditos.

ENQUANTO OUÇO SEGÓVIA – por zuleika dos reis / são paulo.sp

       

O tempo em que todas as coisas já não são. O tempo em que todas as coisas estão fechadas dentro de si mesmas, elas próprias conteúdo e continente. O baú trancado do qual se perdeu a chave.

                Segóvia toca e a musica é perfume que entra pelas frestas do que fui. O tempo flor de metal mais que cristal ou sopro de vento. O tempo um calafrio entre os dedos.

                Alguns antigos sabiam de coisas que quase todos de nós perdemos há muito. Os dedos de Segóvia vão recuperando o possível disso, mas a hora é velha demais para qualquer descobrimento.

O gato tem sete fôlegos, sete vidas. Eu tenho só uma vida e nem esta é minha. O gato pisa manso, não desperdiça nada de suas sete vidas. Eu piso denso e vou perdendo cada passo da única que tenho.

Segóvia toca e o gato não compreende. Os pensamentos são as ondas de um mar inútil. A tarde também passa e desaparece todos os dias sem decifrar nada, porque não há nada a decifrar: não há qualquer fratura no cristal do tempo.

O tempo de uma vida… o que é o tempo de uma vida? Sabemos do mundo o universo de fantasmagorias chamado palavras. Nele matamos, morremos, nos perdemos do que julgamos nós mesmos, como se significasse alguma coisa perdermos isso.

Há os que meditam, há os que sempre buscaram e buscam e em todos os vindouros tempos continuarão a busca de escapatórias desta casca, desta crosta a que chamamos eu, este eu que é nada. Nomes e nomes e nomes para dizer algo desse OUTRO que buscam. Nomes e nomes e nomes para que algo deste OUTRO INDIZÍVEL INCOMUNICÁVEL seja o MESMO para os demais homens ou, pelo menos, a aspiração de cada um deles.

Segóvia para de tocar, a noite caiu há tempo, nada se quebrou nem se partiu. Tudo parece coeso onde o mundo é apenas uma infinita saudade do mundo; uma infinita e sem saída saudade de mim.

OS NOVOS BEATNIKS ‘Ou um elogio à liberdade’ – por olsen jr / ilha de santa catrina

Nos finais e começos de ano, é sempre assim, há um mecanismo inconsciente que faz com que abramos a guarda. De repente ficamos dóceis, ternos, receptivos. É uma constatação que faço e isso nada tem a ver com o cristianismo, apenas com a época, uma vibração diferente. A observação é uma das ferramentas de um escritor, já a sensibilidade para captar a nuance do que é observado pode ser atributo de um poeta. Se você conseguir reunir os dois quesitos em uma pessoa só, melhor. Mas isso ocorre o ano inteiro, então por que lembrar isso apenas agora?

Well, penso que ao afrouxar um pouco o ceticismo contemplativo com que a maioria das pessoas leva a vida, a realidade não parece ser tão soturna como imaginamos quando estamos mais pessimistas que o habitual. Percebi isso agora, vendo aquele grupo. Na verdade acompanho todos eles individualmente andando por aí, a esmo, sem destino e nem objetivos determinados.

Um grupo de pessoas, seis ao todo, lembra aquele livro “Cannery Row”, do John Steinbeck, escrito em 1945 e que integra uma saga do escritor norte-americano que já tinha publicado “Tortilla Flat”, em 1935 e prosseguiu com “Sweet Thursday”, em 1954.

Sim, foi um vislumbre da obra de Steinbeck, dadas as semelhanças, porque aqui na Lagoa da Conceição como lá em Monterey (na Califórnia) estes meio-habitats se parecem. Alguns indivíduos que estão unidos por laços comuns, quer dizer, nenhum deles tem um trabalho fixo, aliás, são os novos beatniks, agora os do século vinte e um. Todos têm certa habilidade em alguma área, seja carpintaria, artesanato, alvenaria e outras ocupações que exijam o emprego das mãos. Só o fazem, entretanto, quando não há mais alternativas para conseguirem o mínimo necessário para levar a vida numa boa.

Na última sexta-feira encontrei-os em um terreno gramado à beira da Lagoa. Na calçada mostravam o trabalho em jóias de arame, prata, bijuterias transformadas em brincos, braceletes, pingentes, camafeus, cordões, prendedores de cabelos, uma variedade de ornamentos capazes de satisfazer qualquer vaidade feminina menos sofisticada, mas de bom gosto para a simplicidade combinando sempre com o velho jeans de guerra. Também, o chimarrão passando de mão em mão enquanto alguém cuidava do fogo, sim, porque havia carne sendo assada, tudo isso ao lado de uma banca de revistas, embaixo de algumas árvores numa manhã de sol claro depois de toda a tragédia que se abateu sobre alguns lugaresem Santa Catarina.

Aspirei aquele odor de carne assada, me deu saudades de ver a família reunida, e aquele dolce far niente a que eventualmente dávamos ao luxo de nos entregar. O momento vivido era único. O futuro é um espaço que não existe. Caminho devagar quando passo por eles, também por momentos queria ter a sensação de viver aquela heresia, de não pensar no “depois”…  A despreocupação está nos rostos, pelo menos naquela hora.

Que País infernal é esse Brasil, penso.

Registro esse encantamento com a espontaneidade para celebrar a livre escolha, para eternizar a ação de se fazer o que se pode mesmo em uma situação que, muitas vezes, não deveria nem possibilitar esse “poder”: uma escolha apenas, mas vocês que estão chegando agora, que não precisaram viver o que nos foi imposto “como natural” durante o regime militar, leitores, não imaginam o que é viver essa liberdade, o que é desfrutá-la assim, como companheira de viagem, porque se não vamos chegar a lugar nenhum, então ela deve vir junto, afinal, de tudo o que nos podem “tirar” na vida: o vínculo com os nossos pais, o amor que se dizia eterno ou o que conseguimos com o nosso esforço, do homem revoltado às paixões inúteis, é a liberdade o único bem que não suportamos perder na vida… É por isso que todas as ditaduras caem, não importa por quanto tempo dissimulem ficar em pé!

Olsen Jr. é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

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