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CORPUS CRISTI – Homilia Laica

Hoje, muito simples:  Feriado de Corpus Christi.

“Este é o meu corpo… isto é o meu sangue… fazei isto em memória de mim”.

(Cristo, Ultima Ceia)

CEIA 21

Duvido que alguém saiba exatamente o que isto significa. Dizem que é um feriado religioso, da Igreja Católica. Vou conferir. Também não sei do que se trata. Mas antes de achar o significado da data descubro duas barbaridades cometidas pela mesma Igreja: A morte na fogueira de Jerônimo de Praga e Joana D ‘Arc.  Pura coincidência, pois a celebração do Corpus Christi é uma data móvel , enquanto os assassinatos são datados. Azar da Igreja, que melhor faria enfrentar a coincidência falando sobre o assunto, de resto já consertado ao reconhecer a falha dos processos contra os dois mártires. O silêncio, no caso, é mais um pecado… Ou seria outra? Afinal , não sou muito versado em assuntos religiosos, embora não me faça disso motivo de orgulho. Grandes intelectuais contemporâneos como Max Weber e Karl Yung, além de meu preferido, …, dedicaram longos anos à obras sobre o gênero. Conclusão: O homem não vive sem uma dimensão mística, religiosa, capaz de explicar o que ninguém explica. Daí a fé.

Eis, rapidamente,  os pecados  cristãos desta data há alguns séculos, antes da proclamação da virtude:

1416 – Jerônimo de Praga é condenado à morte na fogueira por heresia, pelo Concílio de Constança, realizado na cidade de Constança, na Alemanha.

Jerônimo de Praga (1379 — 30 de maio de 1416) foi o principal discípulo e o mais devotado amigo de Jan Huss, o célebre reformador religioso  tcheco.

Formação acadêmica

Nasceu em Praga, filho de família de posses. Após tornar-se bacharel na Universidade de Praga em 1398, no ano seguinte iniciou viagens por boa parte da Europa. Em 1402 visitou a Inglaterra e esteve na Universidade de Oxford, onde estudou e copiou as obras Dialogus e CEIA 2Trialogus de John Wycliffe e interessou-se pelo movimento lolardo, inspirado pelo mesmo Wyclif no século anterior. Em 1403 ele foi a Jerusalem e em 1405 estudou naUniversidade de Paris, onde obteve o grau de Mestre. Em 1406 Jerônimo de Praga obteve o mesmo grau na Universidade de Colônia e, um pouco depois, na Universidade de Heidelberg, ambas na atual Alemanha.

Defendendo a Reforma Religiosa

Em 1407 esteve por pouco tempo em Oxford novamente, para voltar novamente a Praga nos anos seguintes, onde suas posições nacionalistas começavam a provocar perseguições por parte da Igreja. Em janeiro de 1410, fez pronunciamentos em favor das filosofias de Wyclif, o que foi citado contra si no Concílio de Constança, quatro anos mais tarde. Em março de 1410, foi editada uma bula papal contra os escritos de Wyclif, o que causou a prisão de Jerônimo em Viena e sua excomunhão da Igreja pelo Bispo de Cracóvia. Conseguindo escapar, voltou a Praga, passando a defender publicamente as teses de reforma da Igreja pregadas por Jan Huss, que por sua vez reforçavam muitas das teses de John Wyclif. Em 1413 Jerônimo de Praga visitou as cortes da Polônia e da Lituânia, causando profunda impressão por seu diferenciado saber e eloqüência.

No Concílio de Constança

Martírio de Jerônimo de Praga, do Livro de Mártires de John Foxe (1563)

Quando Jan Huss viaja para o Concílio de Constança, em outubro de 1414, Jerônimo lhe assegura que o seguiria para ajudá-lo, caso fosse necessário, promessa que logo lhe faria chegar a Constança, em 4 de abril de 1415. Ao contrário de Huss, que obtivera um salvo-conduto para proteger-se, Jerônimo nada possuía para defender-se, razão pela qual os amigos insistiam para que voltasse a Praga. Em 20 de abril foi preso e enviado a Sulzbach, retornando a Constança em 23 de maio para ser imediatamente processado pelo Concílio.

Sua condenação, como a de Huss, já estava pré-determinada, tanto em conseqüência de seu apoio a muitas das idéias de Wyclif (embora discordasse de algumas) quanto por sua aberta admiração por Huss. Assim, não teve a oportunidade de defender-se em um julgamento justo. As condições de sua prisão eram tão severas que ele ficou seriamente doente, tendo sido induzido a retratar-se em duas reuniões públicas do Concílio (11 e 23 de setembro de 1415). As palavras colocadas em sua boca nessas ocasiões fizeram-no renunciar aos ensinos de Wyclif e Huss. A mesma saúde abalada o fez escrever cartas ao rei da Boêmia e à Universidade de Praga em que declarava estar convencido de que era justa a condenação de Huss à morte na fogueira por heresia, o que havia ocorrido em 6 de julho daquele ano. Nem mesmo essa conduta rendeu sua libertação, nem mesmo qualquer diminuição da sua pena. Em maio de 1416 Jerônimo de Praga foi posto novamente em julgamento pelo Concílio. Em 28 de maio, ele veementemente retratou-se de sua retratação, sendo finalmente condenado por heresia em 30 de maio e queimado na fogueira ainda no mesmo dia.

Legado ]

Suas extensas viagens, sua ampla erudição, sua eloquência, sua inteligência e sabedoria fizeram dele um formidável crítico da degenerada Igreja daqueles tempos, que chegou a possuir três papas ao mesmo tempo (ver Cisma Papal). Foram essas qualidades que fizeram repercutir suas profundas críticas à Igreja, contribuindo, mais que qualquer heresia, para sua condenação à morte. Sua morte ocorreu menos de um ano após a morte de Huss, contribuindo para inflamar o movimento nacionalista da Boêmia, que resultou em uma série de movimentos armados conhecidos como guerras hussitas. Jerônimo de Praga, assim como Jan Huss e John Wyclif, é considerado precursor da Reforma Protestante que ocorreria no século XVI. Jerônimo morreu cantando salmos na fogueira.

1431 – Em Ruão, na França, Joana d’Arc é queimada na fogueira aos 19 anos por bruxaria.

Joana foi presa em uma cela escura e vigiada por cinco homens. Em contraste ao bom tratamento que recebera em sua primeira prisão, Joana agora vivia seus piores tempos.

O processo contra Joana teve início no dia 9 de janeiro de 1431, sendo chefiado pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon. Foi um processo que passaria à posteridade e que converteria Joana em heroína nacional, pelo modo como se desenvolveu e trouxe o final da jovem, e da lenda que ainda nos dias de hoje mescla realidade com fantasia.

Dez sessões foram feitas sem a presença da acusada, apenas com a apresentação de provas, que resultaram na acusação de heresia e assassinato.

No dia 21 de fevereiro Joana foi ouvida pela primeira vez. A princípio ela se negou a fazer o juramento da verdade, mas logo o fez. Joana foi interrogada sobre as vozes que ouvia, sobre a igreja militante, sobre seus trajes masculinos. No dia 27 e 28 de março, Thomas de Courcelles fez a leitura dos 70 artigos da acusação de Joana, e que depois foram resumidos a 12, mais precisamente no dia 5 de abril. Estes artigos sustentavam a acusação formal para a Donzela buscando sua condenação.

No mesmo dia 5, Joana começou a perder saúde por causa de ingestão de alimentos venenosos que a fez vomitar. Isto alertou Cauchon e os ingleses, que lhe trouxeram um médico. Queriam mantê-la viva, principalmente os ingleses, porque planejavam executá-la.

Durante a visita do médico, Jean d’Estivet acusou Joana de ter ingerido os alimentos envenenados conscientemente para cometersuicídio. No dia 18 de abril, quando finalmente ela se viu em perigo de morte, pediu para se confessar.

Os ingleses impacientaram-se com a demora do julgamento. O Conde de Warwick disse a Cauchon que o processo estava demorando muito. Até o primeiro proprietário de Joana, Jean de Luxemburgo, apresentou-se a Joana fazendo-lhe a proposta de pagar por sua liberdade se ela prometesse não atacar mais os ingleses. A partir do dia 23 de maio, as coisas se aceleraram, e no dia 29 de maio ela foi condenada por heresia.

A morte 

JOANNA NA FOGUEIRA

 

 

Joana d’Arc sendo queimada viva.

Joana foi queimada viva em 30 de maio de 1431, com apenas dezenove anos. A cerimónia de execução aconteceu na Praça do Velho Mercado (Place du Vieux Marché), às 9 horas, em Ruão.

Antes da execução ela se confessou com Jean Totmouille e Martin Ladvenu, que lhe administraram os sacramentos da Comunhão. Entrou, vestida de branco, na praça cheia de gente, e foi colocada na plataforma montada para sua execução. Após lerem o seu veredito, Joana foi queimada viva. Suas cinzas foram jogadas no rio Sena, para que não se tornassem objeto de veneração pública. Era o fim da heroína francesa.

 

A revisão do seu processo começou a partir de 1456, quando foi considerada inocente pelo Papa Calisto III, e o processo que a condenou foi considerado inválido, e em 1909 a Igreja Católica autoriza sua beatificação. Em 1920, Joana d’Arc é canonizada pelo Papa Bento XV.

Agora, o  “Corpus Christi”:

A data pretende celebrar o Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia, um momento importante da ligurgia cristã referido à última ceia de Jesus com os apóstolos, na quinta-feira anterior à Paixão,  quando lhes distribuiu o pão e o vinho.  Foi instituída pelo Papa Urbano IV com a bula Transiturus de hoc mundo, em 11 de agosto de 1264 – embora decretada cinco anos depois – ,  devendo cair na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade que ocorre no domingo depois de Pentecostes ou 60 dias após a Páscoa. Aos leigos, tudo isto soa  entre o desconhecido e o misterioso. Mas a verdade é que a tradição foi se consagrando em toda a Europa Cristã, especialmente na Diocese de Colônia, hoje Alemanha. Em Roma já se tem dela notícia desde 1350

“O papa Urbano IV, na época o cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège, na Bélgica, recebeu o segredo das visões da freira agostiniana Juliana de Mont Cornillon, que teve visões de Cristo demonstrando desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque.

Por solicitação do papa Urbano IV, que, na época, governava a Igreja, os objetos milagrosos foram para Orviedo em grande procissão, sendo recebidos solenemente por sua santidade e levados para a Catedral de Santa Prisca. Esta foi a primeira procissão do Corporal Eucarístico. A 11 de agosto de 1264, o papa lançou de Orviedo para o mundo católico através da bula Transiturus de hoc mundo o preceito de uma festa com extraordinária solenidade em honra do Corpo do Senhor.”

As procissões de Corpus Christi , no Brasil, iniciaram-se no Período Colonial em Ouro Preto. Hoje disseminam-se por várias cidades nas quais são feitos desenhos litúrgicos com flores, folhas e serragem. nas ruas por onde passam.

No Brasil, a tradição manda enfeitar as ruas com flores e serragem de cores vivas, que formam desenhos simbólicos. Isso acontece principamente nas cidades históricas e nas capitais, como Pirenópolis, em Goiás, São Paulo capital, Jacobina, na Bahia, e Castelo, no Espírito Santo. Mas o costume também se estende por todo o país.

http://dreamguides.edreams.pt/brasil/corpus-christi

A celebração religiosa do Corpo de Cristo merece, porém, uma homilia laica, vez que remete à comunhão de toda a humanidade em torno do pão e do vinho. A homilia é sempre a preleção de um religioso – homiliasta – no decorrer de uma celebração, normalmente após a leitura de alguma parte da Bíblia. Consta que era muito usado do período inicial do cristianismo, seguindo o exemplo do Mestre, tendo sempre um caráter  coloquial no tratamento das questões de fé, Deus e a religião, embora assumindo várias intenções: explicativa, exegética, quando isso é feito através das Escrituras e exortativo, caso em que procura exaltas as verdades aí contidas. Nada impede, porém, que se tome de empréstimo da liturgia esta boa prática que fez com a Igreja Católica tivesse o êxito que teve ao longo dos séculos.

Há na celebração três importantes considerações:

Primeiro, a idéia mesma da comunhão como um ato simbólico da confraternização, em que o sagrado se liga misticamente ao profano – o pão e o vinho – entregando-lhes um significado imaterial. Esta comunhão não se restringe ao Profeta ou seus clérigos mas pretende disseminar-se a todos os fiéis.

E aqui, a segunda observação: Estes fiéis não se restringem ao povo eleito de Deus, como na tradição judaica, de onde nasceu o Cristianismo, mas se estende urbi e orbi, a todos os lugares e a todos, tal como na bênção dominical até hoje feita pelo Papa no Vaticano.CEIA 3 - last supper rafaeli

Sendo destinada a toda a humanidade, a fé cristã, ao contrário da judaica, aqui também, devia ser divulgada através do proselitismo – pregação – , instituído, aliás, por Paulo e levado a cabo depois da Reforma Religiosa com grande afinco por diversas Ordens, principalmente jesuítas.

Muitas das considerações acima foram assumidas, também, por Luthero e os reformadores da Igreja de Roma e se converteram em verdadeiros ideias de reorganização da sociedade O caso mais clássico, curiosamente, foi o das 13  Colônias Americanas que mais tarde dariam origem aos Estados Unidos. Desde sua origem, a sociedade americana foi constituída com base em valores cristãos os quais lhe davam um sentido de conversão da humanidade inteira ao seu modelo de organização e vida. Daí à arrogância do “Consenso de Washington” que consagra pela força a Pax Americana  foi um pulo…

A celebração de Corpus Christi não se esgota, portanto, apenas na valorização da figura de Jesus no campo da doutrina e fé cristãs. Ele remete para a Comunhão da Humanidade como um corpo que deve ser reunido em torno de valores fundamentais, começando pela fraternidade em torno da mesa. Só os mamíferos superiores compartem o produto da caça, muitas vezes obtido pela cooperação coletiva, com sua espécie ou clã. E tivemos que chegar ao Império Romano para aprendermos a comer à mesa. Falta-nos, entretanto, alguns passos para que façamos sentar ao cardápio da civilização, hoje,  a humanidade inteira, com emprego para todos e alimento à mesa sem discriminações e exclusões. Este o verdadeiro sentido do cristianismo, cujo significado é exatamente universalização da condição humana.

Em boa hora, Sua Santidade o Papa, talvez interpretando desta forma a celebração de Corpus Christi, desferiu nos últimos dias 21 de maio, na cozinha ( ! ) do Vaticano e  22, na Casa Dom de Maria (!!), também no Vaticano,  explícita crítica ao capitalismo sem face, selvagem,  que mantém 26 milhões de desempregados na União Europeia enquanto trilhões de dólares, cada vez mais concentrados, não ultrapassando se controle a 0,35% da população mundial são entesourados em Paraísos Fiscais, à salvo de impostos, e de qualquer sentido social. Para não falar no bilhão de pessoas que passam fome no mundo, enquanto os celeiros das tradigns estão repletos de commodities na forma de  alimentos convertidos em fontes de lucro.

Cidade do Vaticano, 22 mai 2013 (Ecclesia) – O Papa deixou críticas ao “capitalismo selvagem” durante uma visita à casa ‘Dom de Maria’, dirigida pelas religiosas de Madre Teresa de Calcutá, que acolhe pessoas necessitadas, no Vaticano.

“O capitalismo selvagem ensinou a lógica do lucro a qualquer custo”, disse Francisco, numa intervenção divulgada hoje pelo portal de notícias ‘news.va’.

A visita, que decorreu na tarde de terça-feira, visou assinalar o 25.º aniversário da entrega da gestão desta casa de acolhimento a Madre Teresa por João Paulo II.

O Papa Francisco elogiou a hospitalidade “sem distinção de nacionalidade ou religião” que se vive na instituição, pedindo que se recupere o “sentido do dom”, da gratuidade e da solidariedade.

A intervenção sublinhou a importância de travar a “exploração que não olha às pessoas”.

“Vemos os resultados nesta crise que estamos a viver”, acrescentou.

                       (http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=95618)

A data, portanto, é um bom momento de reflexão sobre a fé mas, também, sobre a esperança de que o cristianismo, com sua força massiva e inequívoca capacidade de persuasão, ultrapasse os limites da liturgia para ajudar a encontrar uma saída para o difícil momento por que passa a Humanidade.

 

O Mundo vai mal, a Europa pior – por mário soares / lisboa.pt

A crise não é só financeira, é também económica, política, social, ética e ambiental. E se não for atalhada dará origem a um novo conflito

Para qualquer lado que nos voltemos, o Mundo vai mal. A ONU, que nos orientou na segunda metade do século XX, tem hoje uma participação menor. Não intervém em defesa dos Direitos Humanos – o caso da Síria é exemplar – e quase ninguém fala de ecologia. Poucos Estados se dão ao trabalho de pensar no Universo, apesar dos desastres que ocorrem serem cada vez mais graves e preocupantes. As grandes potências só se ocupam dos seus interesses imediatos e, cada vez, querem menos saber do aquecimento da Terra ou das preocupantes mudanças do clima e dos desastres ditos naturais que ocorrem por toda a parte. Recentemente tocou mais uma vez à China.

A ONU, ao que parece, desinteressou-se da ecologia. Os poucos grupos ecológicos que ainda existem, têm pouco apoio dos jornais internacionais, das televisões e das rádios. Parece ser uma temática que deixou de interessar aos atuais dirigentes políticos e que nada lhes interessa o que terão de sofrer os seus filhos e netos. Só o dinheiro – e não as pessoas – preocupa os dirigentes políticos na Europa, na América (dos republicanos) e nos outros continentes, com as honrosas exceções de duas figuras únicas, extraordinárias: Barack Obama e o Papa Francisco, que deixou a inquisição e adotou, ao que parece, o franciscanismo. Olha para os pobres com respeito, quer ajudá-los, visita-os e fala com os católicos mas também com os agnósticos, com os ateus e com os membros de outras religiões.

Mas se o Mundo vai mal, é seguro que a União Europeia (UE) vai pior. Porquê? Porque as duas famílias políticas que construíram a CEE e depois a UE – os socialistas, trabalhistas ou social-democratas e, por outro lado, os democratas-cristãos, partidários ambos de Estados sociais e da solidariedade e igualdade entre os Estados da União – foram substituídos por partidos cuja ideologia política é neoliberalismo e, por isso, são ultraconservadores, só pensam no dinheiro – e na sua importância – e ignoram as pessoas. Daí o empobrecimento dos Estados europeus, o crescimento em muitos deles do desemprego, da emigração, do suicídio e da criminalidade.

Na UE estamos a viver o que se chama uma nova ordem internacional, criada pelo neoliberalismo e pela globalização sem valores – dada a incapacidade dos dirigentes atuais, que só pensam no dinheiro que ganham – que estão a destruir os Estados Sociais e a pôr em causa a Democracia, tal como a pensámos e vivemos antes da crise. Tudo começou pela importância que a chanceler Merkel tomou, luterana, vinda do totalitarismo comunista depois da queda do muro de Berlim e que a pouco e pouco se tornou a figura dominante da União.

O primeiro país atingido foi a Grécia, berço da nossa civilização, graças à importância que os bancos alemães aí tinham. Depois foi a Irlanda, mais por razões financeiras que economicistas e sociais; depois foi Portugal, com um Governo, que dura quase há dois anos e é, em absoluto, subserviente a uma troika, que ninguém sabe bem donde veio e é comandada pelos mercados usurários. A seguir a Espanha que, até agora recusou uma troika, mas cujo regime económico e político está a ficar paralisado. E a Itália, um dos Estados fundadores, apesar de ter um Presidente excecional, o notável Giorgio Napolitano, que está a atingir o fim da carreira (mas foi eleito para novo mandato); e alguns outros Estados, como a Holanda, e mesmo – quem tal diria? – a própria França.

A crise europeia não está só a ser uma nova forma de totalitarismo, mais ou menos fascista. Vai a caminho de destruir a Democracia Europeia e a pôr em causa a existência do Estado Social, da União e do euro. Se não muda de paradigma – como ensina Barack Obama -, vai autodestruir-se e liquidar o euro, como a nossa moeda única (e ainda forte). A crise não é só financeira. É também económica, política, social, ética e ambiental. E se não for atalhada rapidamente – como espero – dará origem a um novo conflito internacional. Haja bom senso e evite-se uma tragédia

Ler mais: http://visao.sapo.pt/o-mundo-vai-mal-a-europa-pior=f725719#ixzz2S5Sn5PKD

O MUNDO COMO ESTUPRO – por zuleika dos reis / são paulo.sp

O MUNDO COMO ESTUPRO 

 

 

Somos, eu e tu, seres de sonho. Pelo sonho nossos átomos se agruparam, em moléculas de sonho, em tecidos de sonho, em órgãos de sonho. O sonho nos compõe o sangue, os ossos, a pele. O sonho compõe nossa alma.

Na Índia, tradições antigas dizem que o mundo é Maya, isto é: Ilusão. Calderón De La Barca escreve “A Vida é Sonho”. Shakespeare o afirma, categórico. O Budismo assim o diz, como também do compromisso que nos cabe para com este sonho-vida. Os místicos do Oriente e do Ocidente viveram e vivem, desde o sangue, tal certeza.

A se crer nesta afirmação como verdade universal, por que afirmar, como o fiz na primeira linha do texto que ”somos, eu e tu, seres de sonho?” Se todos o somos, eu e tu, eles, nós e vós, todos compostos por átomos e moléculas de sonho, não há como particularizar tal condição, torná-la privilégio de poucos.

Entanto, reafirmo: “Somos, eu e tu, seres de sonho.” Pertencemos a uma estirpe que sente o viver dentro da realidade como uma violentação, uma espécie de estupro a sofrer todos os dias. Nós nos sentimos como eternos estranhos, estrangeiros, aportados nesta Terra por algum engano.

Ora, muitos dirão: “Do jeito em que está a realidade, que privilégio há nisso? Todos nós nos sentimos, tanto quanto vocês, violentados pelo real.”  Outros dirão: “Vocês se encontram em pleno processo dissociativo. Urge a procura de um ajuste, de um reajuste entre a psique e o real. “Ainda, terceiros: “Poetas são assim mesmo; não importa a realidade em que vivam, precisam a ela se contrapor.”  Outras tantas falas se multiplicam, pode-se ouvi-las na imaginação.

Sem discordar de ninguém que, como diz um amigo querido “Tudo é Vida.” e reiterando, novamente, o “somos, eu e tu, seres de sonho” quero acrescentar que nos sabemos assim não por filiação a algum Princípio religioso, ou não religioso, ou por alguma vivência mística no seu sentido específico, mas, porque vivemos isso, respiramos isso, nos alimentamos do pão de ser sonho desde a medula dos ossos, desde a raiz do sangue, desde a raiz da alma. Eu, no recesso deste lar ao avesso do mundo; tu a te digladiares no circo de horrores cotidianos. Para nós ambos, para os tantos e tantos da mesma estirpe, o mundo vivido como estupro.

Tu és como um médico-cirurgião que tenha horror à visão do sangue dos doentes e que, apesar desta condição, é capaz de domar o horror em seu âmago, no durante das cirurgias, o horror que, embora sofreado, em momento algum deixa de pulsar, de gritar no seu próprio sangue, no sangue dele, médico-cirurgião. És assim, exatamente assim. Por isso, incomensurável a tua dor de ser. Também eu, a meu modo, por outras vertentes, veredas, caminhos, sou assim, como também assim outros tantos e tantos, infinitos.

O mundo como estupro, o mundo ao avesso do sonho, ao avesso de todos os sonhos. Neste contexto, se mantivermos como verdadeiro que a vida é sonho, urge dizê-lo de outro modo: “A vida, sonho dantesco, o pior de todos os pesadelos.”

E, no entanto, no entanto, presentes desde sempre no mundo, de todos os modos e em múltiplos lugares (muitos ocultos ao mundo) permanecem e agem os seres que guardam a Esperança, os seus guardiães, aqueles entre os quais se alinham os que guardam, por enquanto no interior da Arca, outro “sonho do real”.

 

TRES MESAS – por jorge lescano / são paulo.sp

T R Ê S   M E S A S

 

Para J B  Vidal

Objeto de nosso cotidiano, corriqueiro, insignificante pode-se dizer, se ausente, perturba a nossa vida. Acreditamos que seja dos primeiros criados pelo homem e somos tentados a afirmar que é prévio à sua fabricação. O troglodita utilizou-o – ab ovo! – antes que lhe dessem forma e nome, pois a função faz o objeto. A pedra achada no caminho, um tronco atingido pelo raio, o próprio chão, cumpriram a função de mesa antes do artefato. Este móvel está presente nos mais diversos ambientes da civilização, tão presente que, como já dissemos, só o notamos quando falta. Mesa, a secas, sem atributos funcionais, espirituais, ou quaisquer outros que lhe foram agregados pela insuficiência de nossa língua: mesa de trabalho, mesa redonda, mesa branca, mesa de vivissecção, mesa de negociações, mesa de jogo…

Deste modesto produto da marcenaria se ocuparam um pintor, um poeta e um romancista. Presente como objeto em Jean Dubuffet (Le Havre, 1901-Paris, 1985), canteiro de obras em Francis Ponge (Montpellier, 1899 – Bar-sur-Loup, 1988), apoio do discurso narrativo em Ramón Bonavena (Escritor argentino, sem outros dados biográficos), evocado pelo seu compatriota e sempre bem informado em questões de estéticaBustos Domecq.

Curiosidade à margem: os três personagens têm prosápia francesa, o último apenas intermediário entre oconhecido ainda que não famoso escritor Bonavena, autor do suposto romance Nor-noroeste – a obra trataria deste setor limitado do tampo da mesa – e o leitor de sua entrevista. (Borges, Jorge Luís, Casares, Adolfo Bioy, Uma tarde com Ramón Bonavena in Crônicas de Bustos Domecq– (1967); São Paulo, Alfa Omega, s.d.)

Ensaios eruditos abordam os diversos aspectos da construção da mesa de Ponge(Ponge, Francis, A Mesa; (1981); São Paulo, Iluminuras, 2002 – edição bilingue). Árdua tarefa é desvendar os meandros lingüísticos e estéticos da obra; serve-nos aqui apenas como contraponto de referência de nosso assunto. Da fluída mesa de trabalho de Bonavena, mestre do descricionismo, ele e o cronista Bustos Domecq fornecem elementos suficientes para situar o leitor comum, o homem massa, em um plano de relativa compreensão.Sobra-me (abandono o plural do pronome ao mesmo tempo em que descarto as mesas narradas para assumir, só e desarmado – correlação coerente do ponto de vista óptico e narrativo – o objeto proposto por Dubuffet) a obra em questão: Móveis e objectos, 1952 (sic) reproduzida em livro editado em Portugal, como a grafia deixa evidente (Grandes pintores do século XX, Globus, 1996), mas impresso em Barcelona.

O quadro (óleo sobre Isorel, 92 x 122 cm. Fundação Jean Dubuffet, Périgni–sur-Yerres.) apresenta três figuras da mesma cor sobre fundo escuro As cores variam segundo estejam impressas em papel ou reproduzidas pela luz do computador. A figura maior ocupa o centro da obra e sobre ela – dentro dela – objetos menores – “copo” e “despertador” (o título nos obriga a vislumbrar objetos familiares) – denunciam sua função de mesa. À esquerda do espectador uma superfície mais estreita na mesma tonalidade sugere um cavalete de pintor e algo que poderia ser a tela “em branco”, embora onde se deveriam ver as hastes do tripé uma inesperada transformação do design sugira pernas humanas. Do lado direito outra forma – quadrúpede – indica que deve ser uma cadeira, o respaldo torto e a vizinhança com a mesa sugere esta identidade, caso contrário poderia ver-se outra mesa: criado mudo ou mesa de sala.

O objeto maior – a mesa – pela violação da perspectiva descricionista ganha características zoológicas. Intuo bovino decapitado, a cabeça decepada pela margem do suporte. Vista deste modo a cadeira é seu filhote e o copo e o relógio selo com que se marca o gado, a própria disposição deles – no “quarto traseiro” – reforça a idéia. Continuando a observação por este corte, a figura da esquerda – cavalete – adquire dimensão e densidade humanas – também decapitada, pois se tem pescoço e até gola (nesta espécie de grampo que segura a tela por cima aparece a enigmática inscrição ENCRA: tinta de escrever ou imprimir. – S. Burtin-Vinholes: Dicionário francês-português/portugês-francês, Globo, 1951), falta-lhe a cabeça que as justifique. Neste contexto o quadro tem novo significado: cena bucólica: recolhimento do gado em fim de tarde. Camponês e reses rumo ao curral da fazenda poderia ser o título, caso o autor fosse Corot (Jean Baptiste Camille; Paris, 1796 – Ville d’Avrey, 1875) ou Courbet (Gustave; Ornans, 1819 – La Tour-de-Peliz, 1877).

A presença viva do tampo da mesa – corpo de rês – é tão forte que não sinto a ausência das cabeças das três figuras/personagens. A forma menor – cadeira/ filhote – também partilha desta circunstância. Sendo francesa a obra, posso imaginar que se trate de uma cena de fins do século XVIII: Retrato de família?

 

Os três pintores mencionados neste artigo têm nacionalidade francesa, escolha que revela o desejo do autor de não invadir outras geografias, a menos que oculte (três?) intenções diversas.

A tríade é um Meio e Analogia porque todas as comparações consistem em três termos, pelo menos, e as analogias eram chamadas de meios pelos antigos.

             O cão de Plutão, Cérbero, tinha três cabeças.

            Três coisas melhoram o homem: uma boa casa, uma esposa bonita e uma boa mobília. (Sublinhados nossos.)

(Por se tratar de citação de obra esotérica, o autor declina, excepcionalmente, seu saudável hábito de fornecer a fonte. Nota do compilador.) (1)

Dubuffet disse a respeito da série Mesas-paisagens […] uma mesa não é só um pedaço de terreno, mas está povoado de factos: não são os que pertencem à vida da própria mesa como outros que, misturados com estes, ocupam o pensamento do homem e que este projecta sobre a sua mesa no momento em que a olha. (op.cit.)

O pintor reconhece que sua obra é ambígua, mas já foi dito que em arte a ambigüidade é uma riqueza. Acredito que o meu olhar não distorce nem deturpa a proposta do artista, antes a confirma. Se ele vê paisagem, o olhar-pensamento que projeto sobre a imagem sugere gado; em todo o caso ver Mesa e outros objectos neste quadro é tão subjetivo quanto ver gado/paisagem. A obra – que não depende do título – é um convite à imaginação, não reprodução do cotidiano (a observação cotidiana dos objetos). A rica, porém discreta textura de toda a superfície desta pintura prende o meu olhar com o mesmo poder hipnótico do fogo, da água e das nuvens, revelando sua raison d’étre.

A Mesa de Francis Ponge – sessenta e sete páginas. Nas páginas 33 e 48 v. do original, 243 e 275 respectivamente, da edição brasileira, há apenas uma linha, várias outras são quase tão ermas quanto elas – e os improváveis seis volumes sobre o ângulo Nor-noroeste da escrivaninha de Ramón Bonavena documentam estas viagens ao centro – essência – da imaginação intelectual. Quanta documentação seria necessária para comprimir, com o dom da síntese, um lápis Goldfaber 873 em vinte e nove páginas in octavo (sic)!

 

A mesa é dos objetos mais afáveis, maternal, poder-se-ia dizer, sobre o qual convêm não repisar muito.

É provável que esta obra de Jean Dubuffet não precise do meu comentário (redutor, como todo comentário de uma imagem), contudo, creio que nada impede a um observador o registro de suas ambíguas impressões dela.

 

 

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1 – Com o intuito de oferecermos aos leitores que prestigiam nossa casa editorial obras de envergadura duradoura in totum, não aquiescemos a publicar este ensaio antes de verificarmos todas as suas instâncias. Nossas pesquisas nos levaram ao título sonegado. Trata-se de Os poderes ocultos dos números; RJ, Ediouro, 1987, de autoria de W. Wynn Westcott (o três W), Supremo Mago da Ordem Rosa-Cruz da Inglaterra. Pelo que nos consta e apesar da analogia, este(s) três W nada tem a ver com a mesma tríade da internet cujo significado desconhecemos visto sermos profissionais à respeitável maneira de Gutenberg. (Nota do Editor à guisa de epílogo)(2)

2 – Alguém chamou o autor anônimo de Três Mesas de contador de piadas bibliográficas. Pela nota precedente parece que não é bem assim. PALAVRAS, TODAS PALAVRAS estampou a pequena jóia sem qualquer ressalva, e é bem conhecida a responsabilidade que norteia este site. Enfim, prefiro deixar nas mãos da posteridade e do ilustre leitor a solução final deste nó górdio, para não dizer a última palavra. (Comentário no site mencionado de Jorge Lescano, remetente da miniatura literária em questão.)

DE POEMAS E DA POESIA – por zuleika dos reis / são paulo

            

Se meus poemas são poesia, não o sei com certeza, que nem todo poema é poesia, assim como muita prosa é poesia, tal qual a prosa de Guimarães Rosa, que já a tem desde o próprio nome. Gostaria de ter sobre minha escrita “poética” a mesma lucidez que me ocorre diante da escrita poética das outras pessoas.

Talvez eu seja apenas portadora de uma boa antena poética, que me garante a percepção de muita da poesia que flui das coisas e isto já é cota razoável de bem em um mundo de infinitas miserabilidades, criadas pela nossa Espécie.

Vejo a poesia como um bem de vocação comunitária, ao menos se avançarmos rastro atrás até a sua origem, vocação que se manteve, sob formas diversas, até ainda a Idade Moderna – falo de Ocidente – e que foi, a partir daí, se afastando cada vez mais celeremente dessa vocação e se tornando um exercício mais e mais solitário, para leitura de leitores apenas em seus espaços particulares. A Internet parece-me estar a trazer de volta, em novos moldes, a partilha da poesia, recuperando a sua dimensão social. Se ainda não é um bem para todos – nunca o foi, em verdade, em tempo histórico algum, este sonho é uma Utopia – é pão necessário para muitos, tão necessário para a vida como o são os pães feitos de trigo; água tão imprescindível como a água que permite a sobrevivência do corpo.

Se sou efetivamente poeta, não o sei; com certeza, nutro-me de poesia, da poesia que não se encontra só nos poemas, mas, em outras manifestações da arte. Sem a poesia, neste sentido mais amplo, eu seria um ser deveras miserável, digno de muitíssima pena. Sem a bênção da poesia eu seria, apenas, uma completa e irremediável mendiga, mendiga de mim mesma a me pedir esmolas ao real, ao que chamamos real imediato, com o qual temos os compromissos necessários e obrigatórios, no centro do qual, sem a poesia e o sentimento poético do mundo, segundo a expressão de Drummond, eu – só posso  dar meu testemunho pessoal – morreria por falta de oxigênio.

A ARTE NÔ DE MARGUERITE DURAS – por jorge lescano / são paulo.sp

Durante um encontro para discutir a obra de Marguerite Duras em Paris, a crítica Dominique de Gasquet apresentou um texto com o título L’Ombre du Nô en Durasie (A sombra do Nô em Durasie). Nele, a autora rasteia prováveis contatos, casuais, da obra de Marguerite Duras com aquela modalidade do teatro japonês e recolhe dados sobre a repercussão deste na França. Não é improvável que amplie por sua conta e risco alguma influência que a arte possa ter exercido naquele país. Afirma que A Tradição Secreta do Nô, de autoria de Zeami Motokiio, ator, encenador, dramaturgo e teórico codificador do Nô, impregnou a estética dramatúrgica ocidental do século XX. Cita Paul Claudel e Peter Brook, entre outros, que teriam sido influenciados por aquela estética. Dispensando esta questão discutível, seu texto desperta interesse pela propriedade de suas observações.

Gasquet opina que Duras teria realizado e apresenta exemplos pertinentes. Acredito ser possível levar avante esta interpretação. O número de vezes nas quais aparecem situações, signos, ou funções do teatro japonês, confirmaria tal opinião. Ignoro quais os contatos que a escritora pudesse ter com essa arte, no entanto, são muitas as “coincidências” para atribuí-las ao acaso, como faz a autora do artigo ao dizer que Duras teria feito Nô, sem o saber. Ao mesmo tempo, a importância dos nomes citados no cenário mundial, permite supor que Marguerite Duras conhecia, ainda que de forma indireta, esses meios de expressão e os romanceou e dramatizou conscientemente.

As fontes literárias do são em grande parte do Guenji Monogátari, romance do século XI, de autoria da senhora Murasaki Shikibu, dama de companhia da imperatriz. Também o Ise Monogátari — obra atribuída ao nobre Ariwara no Narihiri, que viveu no século IX — contribuiu para o repertório teatral em questão, assim como a História e a Mitologia. Fica claro assim que desde o início o será uma arte arcaica, metalingüística, intertextual.

Marguerite Duras recorrerá aos mesmos expedientes dos dramaturgos japoneses, com a diferença de utilizar material próprio. Sua obra é uma rede de situações, personagens, lugares, que justificam a denominação Durasie cunhada por Dominique de Gasquet.

Sem desejos de polemizar, chamo a atenção para o fato de críticos (Roland Barthes citado no romance Yan Andréa Steiner; R.J., Nova Fronteira, 1993; pp. 13, 14), tradutores (Fernando Py: O vice-cônsul, R.J., Francisco Alves, 1982) e leitores menos especializados, associarem Marguerite Duras ao noveau roman ou ao romance e teatro psicológicos do século XIX. Apesar das evidências que negam o realismo daquelas poéticas, essas leituras pendem para tal interpretação. Nosso enfoque aproximará seus personagens mais do desenho que da fotografia, o romance e o teatro mais da invenção que do documento. Trata-se mais da concepção da obra que de eventuais efeitos. O teatro de Marguerite Duras é tão artificial (artístico) que torna impossível qualquer julgamento baseado na realidade empírica, que nunca deve ser critério de avaliação da obra de arte, pois quando a obra ficcional se submete às regras da realidade objetiva, põe em questão o conceito Arte.  

Até agora apenas três peças foram publicadas em português, são elas: Índia Song, de 1973 (Lisboa, Quetzal, 1989); Agatha, 1981 (R.J., Record, s.d.) Savannah Bay, 1983 (R.J., Record, s.d.). Existe uma tradução do diretor Emílio Di Biasi, não disponível nas livrarias, de Cinema Éden, de 1977, encenada em 2005 pelo tradutor com Cleide Yaconis no papel principal. Esta deficiência editorial impede estudos mais profundos da obra desta autora que é, sem dúvidas, uma das renovadoras da dramaturgia contemporânea.

Marguerite Duras usa o palco para encenar o discurso. Mais de uma vez a autora enfatizou sua despreocupação com a “misse en scene”. Seus personagens permanecem por longos períodos imóveis, e as rubricas indicam que não devem falar durante os câmbios de postura ou deslocamentos. Como na arte , a fala é considerada uma ação física, que não deve ser perturbada por outra ação. Também seu texto se aproxima do ; ele é narrativo, não dramático à maneira de Strindberg, por exemplo. Mais que viver, os personagens contam situações dramáticas; teatralizam a literatura através do solilóquio, do diálogo, do dueto (em Índia Song será um quarteto). A lentidão dos movimentos, as longas pausas entre falas, as cenas “vazias”, são recursos amplamente utilizados pelo teatro japonês. Cada um deles poderá cumprir mais de uma função, simultânea ou não, dentro da narrativa cênica.

 

Índia Song é obra muito complexa, temática e tecnicamente. A cena é muda, os protagonistas vivem situações que são lembradas-narradas por quatro vozes em off. A distância entre ação e narração – as vozes contam a cena como pertencente ao passado — torna a experiência insólita, quase onírica. Paralelamente à história de amor representada no palco, fica-se sabendo da fome e da lepra que rondam o palco numa Calcutá explicitamente inventada pela autora, segundo ela mesma sublinha nas “Notas Gerais” que antecedem o texto.

Eis um exemplo de rubrica desta obra:

As vozes 1 e 2 são vozes de mulheres. São vozes jovens.

Estão ligadas entre si por uma história de amor.

“[…] as vozes destas mulheres estão atingidas pela loucura. A sua doçura é perniciosa.

(p.11)

Nenhuma conversa terá lugar em cena, nem será vista.

Nunca serão os actores em cena a falar.  (p.54)

A dicção, em geral, deverá ser de uma extrema precisão. Não deverá parecer COMPLETAMENTE NATURAL (sic). Um ligeiro defeito deverá ser aperfeiçoado durante os ensaios e será COMUM (sic) a todas as vozes.

Deveria ter-se a sensação de uma leitura, mas transposta, ou seja: Já representada. É o que chamamos “voz de leitura interior.

Lembramos que em cena, rigorosamente, nenhuma palavra será pronunciada. (pp. 55/56)

 

Aqui o seu equivalente na arte Nô:

“JI: coro. […] São seis a oito pessoas. […] O maestro do coro, chamado ji-gashirá, senta-se no meio da fila posterior. Os coristas sempre obedecem a ele. Se acaso o maestro erra uma nota, todos devem errar juntos. […] O canto do Ji apresenta, às vezes, o sentimento do(a) protagonista ou do coadjuvante.”

(Eico Suzuki; Nô Teatro Clássico Japonês; São Paulo, Editora do Escritor, 1977; pp. 48/49) 

A imobilidade inicial dos dois personagens de Agatha deve sugerir que eles chegaram de viagem separadamente e falaram intensamente antes de ter início o espetáculo. A luz do palco deve surpreender tanto o público como os personagens.

Esta rubrica é um desafio para qualquer ator:

A cena começa com um longo silêncio, durante o qual nenhum dos dois se move. (p.6)

A história de Agatha vai se desenrolando através do diálogo dos irmãos, o tema dramático (o incesto) é sugerido pela narrativa e alguns gestos que se tornam ambíguos em virtude das falas.

A sutileza da ação fica patente no tom das rubricas:

 

Sem resposta. Silêncio. Ela olha pela janela. (p. 8)

Silêncio. Ele fecha os olhos. Ela olha. (p. 9)

Silêncio. Eles se olham. (ib)

Silêncio. Não se olham mais. (p. 10)

Olham-se de novo. (p. 11)

A rubrica também suspende certa prática do teatro que pretende “dramatizar” a cena. Refiro-me a sobreposição de ações físicas, à simultaneidade de fala e movimento corporal.

Silêncio. Depois eles se deslocam, sempre entre as falas, e colocam-se contra as paredes, os móveis, e ficam onde se colocaram, e então , uma vez imóveis, falam. (p. 25)

 

Longo silêncio. Eles se movem sem falar e depois outra vez se imobilizam e falam. Nunca falam em movimento.  (p. 54)

Outra característica do é o uso de máscaras. Estas são esculpidas de tal modo que pode mudar de expressão segundo sua relação com a luz. As mais freqüentes são “nublar” e “iluminar” a máscara. Marguerite Duras encontra uma equivalência para nublar:

Ambos fecham os olhos. Tempo. (p. 13)

Silêncio. Eles se movimentam como que durante o sono e depois não se movem mais; ficam parados, olhos não visíveis fechados, olhando fixo para o chão.  (p. 19)

Silêncio. Ele a chama, de olhos fechados.

ELE — Agatha

Silêncio. Da mesma maneira ela responde, com os olhos fechados.  (p. 31)

Estes “trances” são interrompidos pelo equivalente a “iluminar” a máscara: a fala, ou o olhar:

Ficam muito tempo calados. E depois se movem. Retomada das forças visíveis, momentaneamente abandonadas. A palavra está outra vez presente. (p. 42)

Ele se levanta. Eles se olham. Não se falam. Depois desviam o olhar. E se falam. Então, apenas o texto se move, avança. (p. 70)

Silêncio. Mantêm os olhos fechados. Estão numa rigidez assustadora.  (p. 74)

Esta, a rubrica final. Parece desenhar um círculo em torno da peça ao se reencontrar com a primeira.

 

O palco está quase vazio. Há seis cadeiras e dois bancos cobertos com capas claras, e uma mesa. O chão está nu. Tudo isto deve ocupar um décimo do espaço do palco. É aí que será representado Savannah Bay. Atrás desse espaço da representação, separado dele, encontra-se o cenário. É um palco de teatro muito grande, feito para ser erigido numa paisagem vasta e deserta.   

(Savannah Bay, p. 77)

Este o cenário de Savanah Bay. A cenografia teatral é para uma peça que não será representada: ilustra o passado de Madeleine, ex-atriz. (Também pode ter a função do pinheiro pintado no fundo do palco . Esta árvore não é uma referência espacial, não faz parte do enredo, é um símbolo desta arte, presente em todas as peças. Aqui a cenografia poderá servir para nos lembrar que estamos no teatro — teatro teatral, como queria Meyerhold.) Próximas do público, Madeleine e a Mulher Jovem se reúnem para tomar chá e tentar lembrar — a referência a Proust é óbvia –: revivem a morte de uma criança. O drama é narrado de forma cíclica, com pequenas alterações de cada vez, como se as protagonistas representassem a situação da autora durante a criação. As falas sugerem as circunstâncias daquela morte, provocando imagens pessoais que são, em última instância, o verdadeiro espetáculo. Um espetáculo paralelo ao do palco, virtual, poderia dizer.   

a intensificação de uma única emoção, que constituirá a possível ‘unidade da peça’, visa à expressão de um plano de emoções que transcenda o individual e atinja o universal. O tempo e o espaço convencionais perdem as suas arestas, resultando na abolição das distinções entre sonho e realidade, mundo dos vivos e mundo dos mortos, restando apenas a sensação de um vívido intemporal e a – espacial.

(Darci Yasuco Kusano; O que é teatro Nô; São Paulo, Brasiliense, s.d; pp. 63/64)

Outras ligações com a Arte Nô poderiam ser acrescidas.

O teatro de Marguerite Duras é auto-referente no mais alto grau, como a música. Esta qualidade teatral, intransferível para outra linguagem ou situação, é o que faz da sua obra, e do , algo único. Ninguém poderá confundir uma cena de , ou de Marguerite Duras, com um recorte da vida cotidiana.

Esperamos que os senhores editores corrijam urgentemente a grave ausência destas dramaturgias.

Marguerite Duras, filha de pais franceses, nasceu em 04/04/1914 na Cochinchina, atual Vietnam. Chegou à França com 18 anos, estudou direito, participou da resistência durante a segunda guerra mundial. Sua obra se compõe de romances, contos, teatro (autora e diretora), roteiros para cinema (o mais famoso Hiroshima, mon amour), filmes próprios (realizou 18 filmes como diretora), entrevistas, reportagens, crônicas. Ganhou o Prêmio Goncourt, o mais prestigioso da literatura francesa, em 1984 — também se diz que foi o Goncourt quem ganhou Marguerite Duras. Faleceu em 1996, em Paris.

 

O Pensamento de Parmênides – editoria

 

Seu pensamento está exposto num poema filosófico intitulado Sobre a Natureza e sua permanência, dividido em duas partes distintas: uma que trata do caminho da verdade (alétheia) e outra que trata do caminho da opinião (dóxa), ou seja, daquilo onde não há nenhuma certeza. De modo simplificado, a doutrina de Parmênides sustenta o seguinte:

  • Unidade e a imobilidade do Ser;
  • O mundo sensível é uma ilusão;
  • O Ser é Uno, Eterno, Não-Gerado e Imutável.
  • Não se confia no que vê.

Devido a essas , alguns veem no poema de Parmênides o próprio surgimento da ontologia. Ao mesmo tempo, o pensamento de Parmênides é tradicionalmente visto como o oposto ao de Heráclito de Éfeso.

Para alguns estudiosos, Parmênides fundou a metafísica ocidental com sua distinção entre o Ser e o Não-Ser. Enquanto Heráclito ensinava que tudo está em perpétua mutação, Parmênides desenvolvia um pensamento completamente antagônico: “Toda a mutação é ilusória”.

Parmênides vai então afirmar toda a unidade e imobilidade do Ser. Fixando sua investigação na pergunta: “o que é”, ele tenta vislumbrar aquilo que está por detrás das aparências e das transformações.

Assim, ele dizia: “Vamos e dir-te-ei – e tu escutas e levas as minhas palavras. Os únicos caminhos da investigação em que se pode pensar: um, o caminho que é e não pode não ser, é a via da Persuasão, pois acompanha a Verdade; o outro, que não é e é forçoso que não seja, esse digo-te, é um caminho totalmente impensável. Pois não poderás conhecer o que não é, nem declará-lo.”

Numa interpretação mais aprofundada dos fragmentos de Heráclito e Parmênides, podemos achar um mesmo todo para os dois e esta oposição entre suas visões do todo passa a ser cada vez menor.

Parmênides comparava as qualidades umas com as outras e as ordenava em duas classes distintas. Por exemplo, comparou a luz e a escuridão, e para ele essa segunda qualidade nada mais era do que a negação da primeira.

Diferenciava qualidades positivas e negativas e, esforçava-se em encontrar essa oposição fundamental em toda a Natureza. Tomava outros opostos: leve-pesado, ativo-passivo, quente-frio, masculino-feminino, fogo-terra, vida-morte, e aplicava a mesma comparação do modelo luz-escuridão; o que corresponde à luz era a qualidade positiva e o que corresponde à escuridão, a qualidade negativa. O pesado era apenas uma negação do leve. O frio era uma negação do quente. O passivo uma negação ao ativo, o feminino uma negação do masculino e, cada um apenas como negação do outro.

Por fim, nosso mundo dividia-se em duas esferas: aquela das qualidades positivas (luz, quente, ativo, masculino, fogo, vida) e aquela das qualidade negativas (escuridão, frio, passivo, feminino, terra, morte). A esfera negativa era apenas uma negação da esfera positiva, isto é, a esfera negativa não continha as propriedades que existiam na esfera positiva.

Ao invés das expressões “positiva” e “negativa”, Parmênides usa os termos metafísicos de “ser” e “não-ser”. O não-ser era apenas uma negação do ser. Mas ser e não-ser são imutáveis e imóveis. No seu livro: Metafísica, Aristóteles expõe esse pensamento de Parmênides: “Julgando que fora do ser o não-ser é nada, forçosamente admite que só uma coisa é, a saber, o ser, e nenhuma outra… Mas, constrangido a seguir o real, admitindo ao mesmo tempo a unidade formal e a pluralidade sensível, estabelece duas causas e dois princípios: quente e frio, vale dizer, Fogo e Terra. Destes (dois princípios) ele ordena um (o quente) ao ser, o outro ao não-ser.”

O Vir-a-Ser

Quanto às mudanças e transformações físicas, o Vir-a-Ser, que a todo instante vemos ocorrer no mundo, Parmênides as explicava como sendo apenas uma mistura participativa de ser e não-ser. “Ao vir-a-ser é necessário tanto o ser quanto o não-ser. Se eles agem conjuntamente, então resulta um vir-a-ser”.

Um desejo era o fator que impelia os elementos de qualidades opostas a se unirem, e o resultado disso é um vir-a-ser. Quando o desejo está satisfeito, o ódio e o conflito interno impulsionam novamente o ser e o não-ser à separação.

Parmênides chega então à conclusão de que toda mudança é ilusória. Só o que existe realmente é o ser e o não-ser. O vir-a-ser é apenas uma ilusão sensível. Isto quer dizer que todas as percepções de nossos sentidos apenas criam ilusões, nas quais temos a tendência de pensar que o não-ser é, e que o vir-a-ser tem um ser.

O Ser-Absoluto

Toda nossa realidade é imutável, estática, e sua essência está incorporada na individualidade divina do Ser-Absoluto, o qual permeia todo o Universo. Esse Ser é onipresente, já que qualquer descontinuidade em sua presença seria equivalente à existência de seu oposto – o Não-Ser.

Esse Ser não pode ter sido criado por algo pois isso implicaria em admitir a existência de um outro Ser. Do mesmo modo, esse Ser não pode ter sido criado do nada, pois isso implicaria a existência do “Não-Ser”. Portanto, o Ser simplesmente é.

Simplício da Cilícia, em seu livro Física, assim nos explica sobre a natureza desse Ser-Absoluto de Parmênides: “Como poderia ser gerado? E como poderia perecer depois disso? Assim a geração se extingue e a destruição é impensável. Também não é divisível, pois que é homogêneo, nem é mais aqui e menos além, o que lhe impediria a coesão, mas tudo está cheio do que é. Por isso, é todo contínuo; pois o que é adere intimamente ao que é. Mas, imobilizado nos limites de cadeias potentes, é sem princípio ou fim, uma vez que a geração e a destruição foram afastadas, repelidas pela convicção verdadeira. É o mesmo, que permanece no mesmo e em si repousa, ficando assim firme no seu lugar. Pois a forte Necessidade o retém nos liames dos limites que de cada lado o encerra, porque não é lícito ao que é ser ilimitado; pois de nada necessita – se assim não fosse, de tudo careceria. Mas uma vez que tem um limite extremo, está completo de todos os lados; à maneira da massa de uma esfera bem rotunda, em equilíbrio a partir do centro, em todas as direções; pois não pode ser algo mais aqui e algo menos ali.”

Ser-Absoluto não pode vir-a-ser. E não podem existir vários “Seres-Absolutos”, pois para separá-los precisaria haver algo que não fosse um Ser. Consequentemente, existe apenas a Unidade eterna.

texto original da wikipédia.

 

Claudia Ioschpe publicou no jornal ZERO HORA: “Poses sensuais de modelo de 10 anos causam polêmica.” / porto alegre

“a grande imprensa, familiar, brasileira serve para ISTO. serve também para tentar desgastar governos que não lhe paguem convenientemente, serve para caluniar, mentir, difamar seus adversários, serve para esconder a roubalheira da ditadura (vide: ponte rio niterói, transamazônica e outras centenas), a roubalheira do FHC (vide a privataria), a roubalheira do PC Farias no Collor, porque a “grande imprensa brasileira” estava junto nessas oportunidades, nada divulgando e recebendo propinas de “corruptos e corruptores”. esta publicação é para mostrar aos leitores ingênuos o grande serviço prestado à nação por esse conjunto de lama impressa, digital e televisiva.”

O Editor.

Poses sensuais de modelo de 10 anos causam polêmica

08 de agosto de 20116

Em fotos provocantes, a modelo de 10 anos Thylane Lena-Rose Blondeau está causando polêmica no mundo da moda. A top aparece deitada entre almofadas com estampas de onça e pintando os lábios.

O ensaio na revista Vogue Enfants causou críticas de ONGs de proteção à criança. Segundo matéria publicada no site da ABC News, ativistas criticam duramente a publicação por expôr a menina em situações com temática sensual.

Thylane é considerada uma grande promessa na moda. Nascida na Costa do Marfim, a modelo já foi comparada a Brigitte Bardot, que também causou polêmica ao posar para a revista Elle aos 15 anos.

Postado por Equipe N9ve, às 10:00

Comentários (6)

  • Suzy diz:8 de agosto de 2011

    Os pais deveriam ser processados, no mínimo receberão uma
    bolada as custas da filha, inadmissivel isso, essa menina deveria
    estar brincando de bonecas…revoltante.

  • JAQUE diz:8 de agosto de 2011

    SEI LÁ, UMA COISA E CERTA A MENINA VAI SER MUITO LINDA, JA É…..

  • Oliveira diz:8 de agosto de 2011

    Creio que o fotografo só quis mostrar que menina tem futuro pra moda, e no minimo as outras modelos já estão vendo que vai diminuir os seus caches por conta da menina que tem tudo pra ser sucesso no mundo da moda.

  • Apenas um pai diz:8 de agosto de 2011

    Verdadeiramente um absurdo. Vivemos num mundo em que as pessoas ‘doentes’ procuram justamente este tipo de midia. Já não basta as novelas, realitys, programas de auditorio e humoristicos que exploram a tematica sexual, com mulheres em trajes minimos, agora estão investindo em crianças, nem adolescentes, crianças mesmo. Sei que não é uma publicação brasileira, mas mesmo assim cabe a cada um de nós acessar o site desta revista e manifestar nossa repulsa e indignação.

  • Dorval Petrarca Vignol diz:8 de agosto de 2011

    Um viva aos pais dessas crianças que vendem seus filhos por 30 moedas. Que poupança, hein? Daqui há uns tempos não precisarão mais trabalhar, viverão às custas das filhas. Agora, aqui pra nós, não é o que todo mundo acha bonito e quer?

  • Thiago diz:8 de agosto de 2011

    Que absurdo. Essa adultização das crianças é ridícula. Essa menina deveria estar é brincando de boneca, ela vai ter o resto da vida pra ser adulta depois. A adultização precoce é extremamente prejudicial, muitos passam depois a vida inteira tentando recuperar a infância perdida (ex. Michael Jackson).

O ANJO VINGADOR DOS POETAS RECUSADOS (fragmentos) – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Sentidos pouco sentindo no
marasmo dos dias thorpes. Sentidos vãos quando tudo está certo equilibrado no
tempo do sem-tempo. Para um herói qualquer dia é dia e a vingança não pode
durar mais q. alguns segundos.

Os
mortos vivos vão saindo das tumbas e vindo pro lado do anjo vingador vindo
trançando figas e coroas de flores os mortos vivos alarmados com algo q. não os
deixa dormir em paz algo q. passa pelo vão das pedras e não é formiga algo como
posso dizer estranho por nascença energia branda q. atormenta até morto
redormido. As almas pusthulentas interagem com algo q. está no ar e vagam os
espaços noturnos: estradas, beira de matas, costeando rios e cercas, sob pontes
e viadutos. O anjo cansa de ver as presenças negras nos mapas q. transita e
chega cumprimentá-las nos encontros acidentais. Ver a morte sempre de perto a
morte transnascida naquelas almas noctívagas refresca o pensamento de quem está
vivo :vivo: vivíssimo cheio de energia boa pra queimar pensamento no pensamento
criação na criação poema no poema prosa na prosa melodia na melodia rosto na
argila Cego
um poeta conta estrelas cego um poeta se avizinha do precipício cego uma alma
geme transmundos na fala. Lingüista algum explica!

A
diferença hoje é escrever com signos bólidos tridimensionais no espaço e não
com frases sentenças empoladas onde os signos da composição ficam entremamente
dependentes uns dos outros. Os signos avançam em todas as direções como vespas
autônomas sem destinação e é só apreende-las no espaço e lhes impor contexto
ludoespacial. Poetas gostam de complicar o simples e simplificar o complexo.
Poetas sabem fazer sopa de signos só pra ver no q. vai dar. Poetas refazer o
benfeito desconstruir reprojetar o estabelecido no tempo como forma de animar a
vida e a arte. Poetas, adoram abrir caroços dos frutos pra ver o q. tem dentro.
Poetas, impor significados às coisas não nascidas. Poetas, criar problemas de
entendimento. Contradição na contradição: existe o mundo do incriado, onde as
coisas ainda não nominadas animam sem rigor ou finalidade a vida. Poetas
mergulham nesses pântanos pra pinçar o q. se pode aproveitar, nominar, e fazer
existir pra todos. Comigo é assim e com meus irmãos deve ser muito pior.

De
tanto andar corpo a corpo com o chão o ser impoverteu-se: melhor dizer q. virou
pó.

Subi
naquela velha caixa de maçãs (não sem antes cortar o pedaço duma pro meu
pássaro yogurt) e proferi palavras de baixo calão enquanto moças brancas de Curitiba papel de
celofane no olhar e sandálias plásticas sorriam sobranceiras minha patética
figura naquele estado digamos assim rifutembho de aprofundamento poético
ficto-ético-esthético-existencial. Sim pois pra dizer o q. diria não dava pra
pensar outra coisa um paraíso na terra com belas polakas e um inpherno no céu
com gente te mandando trabalhar te impondo salário subordinação horário pra
cumprir dependência até pra limpar o cu cheio de limalhas pratas com círculos
preciosos do torno mecânico q. as criou por acidente. Um acidente dos sentidos
mentir q. se é o maior de todos os heróis anti-heróis personas erigidas por mentes prodigiosas. Mentir q. se é o maior
pra si mesmo compor filmes apavorantes com muitos corpos destroçados nos campos
de batalha e beber um vinho tinto suave temperatura ambiente depois do almoço
sobremesa de pêssego com calda e creme de leite uma polaka nua no quarto do
andar de cima de cima da terceira nuvem do viajante cósmico (nua e lúbrica
raspando a língua no batom vermelho dos cantos da boca) o anjo vingador q.
chegou pra vingar as polakas recusadas e amar a todas todas todas mantendo um
polakário particular no sítio das estrelas onde se recolhe trezentos e sessenta
e três dias por ano claro q. pelo menos umas horas se deve descansar nesse
pérphido ofício e périplo desregrado inglório de anjo vingador dos poetas
recusados. Afinal de contas ninguém é de estanho e estranho q. as puthinhas da
quinze deram agora de grudar no celular suas orelhas calejadas de golpes de
pica. Não se fazem mais programas como antigamente trintão por pegada boquet’s
grátis e massagem de língua na glande inflada. Vá pra casa mano, cuidar o filho
teu com a empregada, antes q. descubram tudo. Não deixe o piá passar sede
fome… te vira malandro. O anjo vingador dos poetas recusados tem mais de mil
e quinhentos polakinhos por esse orbe infielíssimo e nunca tu ouvirá reclamação
de um dente por fazer nos pirralhos. O anjo toma conta de tudo, claro q. sob a
regência das centenas de polakas q. compõe seu sórdido (e convenhamos
maravilhoso!?) imaginário. É responsa mano. Responsa, sabe o q. é isso!? Sabe
porra nenhuma, nem lavou o cê-u hoje e tá cheirando a sulampra do mês passado.
Sulampra pra quem não sabe é aquela porrinha de mnerda q. fica grudada nos
pentelhos do cu fazendo o maior estrago sujando a cueca às vezes até a calça e
dando ao agente detonador da nathureza (o trouxão) aquele cheiro característico
de prustifructo singular. AH VÁ TE PHODER ESPECTRO REVERTIGO DE SUPREMA
CUTILEDÔNEA SPRIÊNCIA LÚBRICA NUS TREE LENÇÓIS! Vou dizer e digo blasfemo
ensandeço contra o infinito. É só me tirar uma polaka e veja como fico.

Muitas
almas me freqüentam esplendoríndeas muitas almas muitas vidas de contra-favor
onde estou não fico onde fico não estou transmudo-me entre as raízes retorcidas
da paisagem.

Escrever simples e
complexo escrever erudito e popular escrever pra professores e estudantes
escrever pra poetas e pintores escrever por escrever sem ter q. dizer porque
pra que e pra quem eis a vida do anjo no solitário ofício de lançar palavras ao
espaço seus  signos de artifício o anjo e
sua sanha de desvelar os mundos escondidos do saber as verdades q. estavam ali
na pedra sob as árvores e ninguém imaginava o anjo em prospecções inúteis procurando
dar significado e nominação às coisas não-nascidas q. faz nascer a força um
anjo investido de sóis estranhíssimos nessa terça-feira de tédio e tentações.
Os convites são mais q. sedutores: o diabinho da direita diz q. é pra nadar
desnudo no rio o da esquerda incita a mandar um poema pra gata de olhos
amendoados q. tá na garupa do grandão supertatuado da motocicleta. É sempre
assim correr os riscos das tentações a cada momento e nunca deixar a peteca
cair. Todas as vezes q. sentir prazer escondido renegue-o para o bem da vida.
Prazer tem q. sentir-se às claras de olhos bem abertos e com amor amor amor q.
é tudo q. mais interessa nessa porra de vida onde estamos condenados a sofrer e
ser enganados e nos roubarem a moto e nos despedirem do emprego e nos
atormentarem com propostas indecorosas e nos fazerem crer q. o paraíso é pra lá
do mundo dos vivos e nos torpediarem dia-a-dia com aquela história de camisinha
de evitar a aid’s de evitar as nocivas relações promíscuas. O agiota, fia da
putha, tá pouco interessado em algo fora dos juros sobre juros a receber dos
trouxas, o agiota bancado pela vida q. não quer trabalhar. Tudo q. não presta
no olhar do crúsphito encostado no muro do colégio vendendo drogas aos
pequeninos. Uma mnerda a vida em meio a essa corja sem escrúpulos. Pureza nas
relações pureza na vida longe dos pais difícil acreditar q. alguém entenda o
mundo dos q. estão por vir e já devem estar a caminho. Com teus pais uma vida
grampeada no amor amor sobre todas as coisas vivas e mortas desse mundo. Lá
fora, além do pátio só martírio sacrifício de mano só pra ver a vida gemer. Te
liga transfirmotente em meus delírios de vingador te liga q. uma nuvem de
signos obnubla o quarteirão e são de minha lavra os proliferados vociferinos
contra os pulhas a corja as eminências pardicenthas do mal q. não as vejo mas
sinto de próstata inchada e impotência irreversível sobre aquelas velhas
cadeiras de espaldar.

reflexos nos espelhos
espetacular jogo de luz espelhar na sobrevivência. Os mortos vivos impõem o
contraponto do viver na sua inútil condição de seres nacaráctios. Para um anjo
q. viaja todos os orbes nada surpreende. Fogos de artifício nathurais cobrem de
luz os espaços negros da criação. Entre os raios lanchispantes vivas-almas
conquistam espaços novos nas relações, campos onde progridem os pensamentos
bons. Se há campos de pensamentos bons, há também os dos ruins. E ali onde
maltratam poetas, um dia haverá um circo pra mostrar os pulhas ao público. Os
pulhas q. sempre ficam atrás das cortinas, nos gabinetes dos maus espírithos,
elocubrando perversas ações. Os pulhas e seus patrocinadores não menos pulhas,
sem mulheres e sem amor, sem poesia e sem emoção. Os pulhas, cus de peixes,
frios e resistentes, em suas campanhas de tudo aniquilar, quando se trata de
arte, cultura, criação, talento & ímpeto. A garotinha q. tá fazendo Letras,
não entende ou não quer entender minha sacrossanta indignação. Pobrezinha…
nas mãos de tolos acadêmicos, vai perder parte da visão, parte da vida, parte
do entendimento estético, parte da ideologia poética, parte de parte da parte
da partitura. Para um anjo menina de belas intenções uma ópera se compõe em
poucos dias uma ópera como apoteótica revelação da vida abaixo da razão a vida
do mnerda q. somos sobrevivendo como rato de bueiro barata de pia mosca de
potreiro sempre a entornar o podre o q. fede o q. esterquilina. Um gole de água
tônica q. tem quinino pra tirar esse gosto amargo de mágoa na boca esse gosto
de revolta contra o sistema e a vida dos pothenthori’s com suas mãos pegajosas
de betume derretido acrescido de ranhos sangue veneno de cobra cuspe de sapo e
fezes de lagarto.

Muitas
almas me freqüentam esplendoríndeas muitas almas muitas vidas de contra-favor
onde estou não fico onde fico não estou transmudo-me entre as raízes retorcidas
da paisagem.

Escrever simples e
complexo escrever erudito e popular escrever pra professores e estudantes
escrever pra poetas e pintores escrever por escrever sem ter q. dizer porque
pra que e pra quem eis a vida do anjo no solitário ofício de lançar palavras ao
espaço seus  signos de artifício o anjo e
sua sanha de desvelar os mundos escondidos do saber as verdades q. estavam ali
na pedra sob as árvores e ninguém imaginava o anjo em prospecções inúteis
procurando dar significado e nominação às coisas não-nascidas q. faz nascer a
força um anjo investido de sóis estranhíssimos nessa terça-feira de tédio e
tentações. Os convites são mais q. sedutores: o diabinho da direita diz q. é
pra nadar desnudo no rio o da esquerda incita a mandar um poema pra gata de
olhos amendoados q. tá na garupa do grandão supertatuado da motocicleta. É
sempre assim correr os riscos das tentações a cada momento e nunca deixar a
peteca cair. Todas as vezes q. sentir prazer escondido renegue-o para o bem da
vida. Prazer tem q. sentir-se às claras de olhos bem abertos e com amor amor
amor q. é tudo q. mais interessa nessa porra de vida onde estamos condenados a
sofrer e ser enganados e nos roubarem a moto e nos despedirem do emprego e nos
atormentarem com propostas indecorosas e nos fazerem crer q. o paraíso é pra lá
do mundo dos vivos e nos torpediarem dia-a-dia com aquela história de camisinha
de evitar a aid’s de evitar as nocivas relações promíscuas. O agiota, fia da
putha, tá pouco interessado em algo fora dos juros sobre juros a receber dos
trouxas, o agiota bancado pela vida q. não quer trabalhar. Tudo q. não presta
no olhar do crúsphito encostado no muro do colégio vendendo drogas aos
pequeninos. Uma mnerda a vida em meio a essa corja sem escrúpulos. Pureza nas
relações pureza na vida longe dos pais difícil acreditar q. alguém entenda o
mundo dos q. estão por vir e já devem estar a caminho. Com teus pais uma vida
grampeada no amor amor sobre todas as coisas vivas e mortas desse mundo. Lá
fora, além do pátio só martírio sacrifício de mano só pra ver a vida gemer. Te
liga transfirmotente em meus delírios de vingador te liga q. uma nuvem de
signos obnubla o quarteirão e são de minha lavra os proliferados vociferinos
contra os pulhas a corja as eminências pardicenthas do mal q. não as vejo mas
sinto de próstata inchada e impotência irreversível sobre aquelas velhas
cadeiras de espaldar.

não tem ninguém

nessas miragens

heras sobre as pedras

o sangue dos mártires secou

como secará o meu

em teu amanhã de mentiras

Um
anjo vingador vingar passado presente e futuro do q. ainda nem nasceu nascerá
como é de se nascer apto a consertos. Meu périplo de anjo salvador vingador dos
poetas recusados começa num dia de sol soliníssimo de segunda-feira e passa por
noites de pau d’arcos com Augusto dos Anjos Pedrinho da Mampusheira o rude
Orástino da Silva o lírico Meliandro do Ingá o neobarroco Neco Ripo o sexínio
Ertho Murthis o inventor de linguagens q. criou poemas cut-ups (cutapes em
tupiniquim celerado) transgressoras colagens alla literatura de William Burroughs
Carlo Ferri q. esculpe no gelo seco universos paralelos com imensas naves
torres e ovnis Artur Landis q. apavora na noite com seus poemas sinistros de
supra-realidades, sempre depois da meia-noite nos bares, estrepa-se na Ilha da
Magia daqueles tempos com Cruz e Souza transgride com os loucos letargidos, os
pictóricos desassistidos e atola seu cavalo monet na mnerda da mediocridade. Um
quê de anjo todo mundo tem vingador se revelar consertador das coisas
incompreendidas dos atos pensamentos retornados sem sentido da vida q. alumbrou
ser estenuou no não-viver. Em muitos campos desolados brandi minhas espadas de
lata. Aquela vez q. invadi o Projac da Rede Globo Televisions transvi
tressaltos de desencantos. Minha fúria hostil não encontrou escora no entre
câmeras. Madames atrizes diretores bichas produtores pan-livrertinos &
marqueteiros vendedores de mães evoluíram seus desajustes. Siga bem condoreiro
anjo vingador dos poetas recusados. Sigo tresando nos meus dias negros. Esphias
nas esphias séphias, um galo há de brigar sempre pela mesma franga. Falar nisso
mano, manja a farsa dos dias enuviados com absinto falsificado!? Não erijo
transmundos por brincadeira nomino coisas só pro gasto e tudo tem seu ofício de
permanecer em mim. Te
transfiro um pouco de minha ira santa. Desbancar os bancados q. nos oprimem.
Teu bus de papelão vaga essa cidade neferthímora. Quantas vidas entornadas no
lixo!? Minha poesia nossa vossa adentra as searas sujas da periferia. O anjo
vingador está aqui. Me anuncio implume pássaro no carnaval polako. Já deves
estar putho com essa história forjada de um anjo vingador q. vem da linguagem
para a vida do nojo do signo transfimortente para a morte. Vá te cagar pentelho
espectral de aziagas noites. Nada te devo de meus arroubos operísticos. Um
doido convicto inventar conflitos só por prazer confluir as forças anímicas pra
tomar uma gelada no Bife Sujo. Da última vez o cézinha me trocou um cheque
voador de duzentas pratas q. atravessou três vezes a nado o Iguaçu. Vate
transfivatente dou gorjetas aos meus garçons preferidos. Nas vinhas do amor a
polaka espessa de sexo beija minha boca suja. Beija, suga, embaba de língua,
enosa chiclet’s e drops de hortelã untados de saliva energética. Signos
espérios meu garoto lambem o dizer criptofilho do chão.

A
coisa vinha vindo trinha sido tranha signos símbolos na minha língua grossa de
veios thérvios. A cornucópia do poeta é cheia do líquido precioso dê sua língua
à minha língua seu verbo thurvo a minha thurva esphia. Jesus nega os insensatos
e com toda razão des-razão apruma my verbo novo. A nathura q. louca amamos não
é por acaso também insensata em seus cataústricos!? Um poeta esmerilar os
signos nas amplas pedras do deserto. Como uma bala de fuzil cada nominata
dirigida a um inimigo. Nomeio coisas troisas pfscoisais loisas froixsas nos
meus desígnios. Um doido tirando formigas do formigueiro abandonado o anjo
vingador espalhador de ditos tranfusiados nichos de só-pensar. Elos nos elos
desengonçados. Perdida a febre terçã inicial da palavra e dos atos. Não é assim
q. se fazem heróis. Não é assim q. se fazem anjos vingadores. Um anjo vingador
dos poetas e artistas recusados se faz com ação conflito e solução do enguiço.
Este q. te fala é charlatão malquisto não age nada resolve não interage com o povo
e molesta polakinhas desprevenidas. Me entrelaço nas clareaduras de tua fala e
masco ervas amargas pra dizer-se só excluído recusado pelos editores atropelado
pelos mercadores marcado na volta da paleta pelos trívios políticos. Sou-me
risolentho esthertorante reflexímoro no mar do sonhar o ser sonhado e não deixo
visgo no meu rastro imundo. Tortilhas sonethárias nos jantares sob as
santas-bárbaras do norte do Paraná. Desci dali dos cafezais abandonados rio
Tibagi até o Piquiri e depois angulei ao Iguaçu o rio meu por excelência
agrilhoado em usinas.
Teus grilhões meu rio o anjo vingador romperá com dentes de
aço da terceira dentadura q. lhe deram em vida. Thorpes, essas
ogivas nas balas de hortelã não acalmam ninguém. Meu empresário vendeu um poema
por um prato feito em frente ao Passeio Público poema com gosto de carpa
húngara cravejada de poucas escamas douradas q. me roubou no acerto de contas.
Já viram o anjo vingador acertar suas contas com o empresário de sua poesia
recusada!? Só por deus ainda se fazem homens desse naipe enlevados no ofício de
sobreviver. Tangiro vencer o desvencido. Intenciono renovar o embolorado.
Minhas catanas descida dos triminhões das canas. Minhas armas de verdes hastes
embebidas no líquido espesso da cornucópia do poeta. Bom pra ti meu caro, esse
passeio pela língua do poeta o anjo vingador q. mata o passarinho de seu ofício
pra achar a pedra na vesícula.

Uma cobra escorregar pelo
barranco esgueirar pelos porões dos signos como uma língua extensa transverbal
uma língua eu-lúrica & magistral.

Um
pássaro é um pássaro uma formiga uma formiga um phósphoro um phósphoro uma
chave uma chave uma pedra uma pedra um caminho um des-caminho.

Um
anjo, manja de tudo um pouco e quando nada manja, arrisca. Se é pra vingar o q.
há de ser vingado, todas as armas são válidas, inclusive as do pensamento
enlevado. Poeta não pode ser o mnerda alienadão, q. pega uma receita de bolo e
fica naquela. Poeta q. é poeta arrisca tudo no conhecer em sendo, a fim de
trazer do nada o tudo q. ilumina a vida do poema.

Noutra
vez traveis desveis desci as escadarias da ampla Biblioteca de Alexandria e
naquela época pequenas moedas de lata tinham muito valor. Lascas de minha
espada como dinheiro naquelas soledades do deserto, trocadas por especiarias,
tapetes persas, sândalo, damasco, etc e tal. Com meu cavalo e uma criança li
livros herméticos naqueles templos. Livros costurados à mão. Livros dos
impérios do poder e da emoção. Sabe como se lê um libro hermético mi cidadon?
Cheirando-o. Os signos tem cheiro sim. Aprendi isso com as abelhas em colméias
abandonadas. Meu pai sempre fazia isso também cheirar os livros. Um anjo
vingador tem pai meu amigo pai como cada um de vós tranceiros duma figa. Um pai
progride com seu filho em suas loucuras de criação. Quantas vezes meu pai
imaginou seu louquinho-bom ganhando o mundo fudendo-se como espectro ambulante
alla 4Claudinei Ramos no seu périplo de três dias. Dá nojo enganar
polakinhas a troco de sexo, quando se é gerente de loja de eletrodomésticos em plena Marechal Deodoro,
próximo aos Correios. Um pai um sogro tios tias primos primas e amigos q.
desconsolo nos conhecerem em nossos repentes de imaginação. Um louco-bom
repercute em Santa
Felicidade a noergologia: 5Jacob Bettoni. O anjo
vingador dos poetas recusados o encontra escovando a bela égua alazã quarto de
milha. Ele vem noeticamente e enuncia conceitos revolucionários no paradigma
novo da psicologia. Um louco-bom como um arauto dos novos tempos, peripatético
sempre revoluteando as coisas. Jacob Bettoni me acena com a possibilidade da
protonathural philosophia estética e a noergologia comporem um único bloco
monolítico sapienthi’s pra enfeitiçar almas letargidas nas manhãs de
segundas-feiras ante as chaminés do pólo petroquímico. Um louco-bom sou eu
também poeta coça-saco de a pé e a cavalo, como diz o ditado-deitado paradão
cheio de chatos no acrílico onde o bus sosfrega e não vem. Um anjo vingador não
conhecer limites em sua luta de tudo levantar expandir como ofício de viver e
ser vivido amar e ser amado matar e ser matado. Nas barrancas daquele rio (o
Iguaçu) erigi transmundos só pra ver no que ia dar e deu: uma nau de carbono
luminosa crispou de lux trilux overlux o denso da floresta naquela noite. Tenho
certeza q. tinha gente dentro do tribuliço. Gente com olhos grandes e braços
abertos. Focos concêntricos para um mesmo (alvo) ideal, invisível. Um sinal,
era o sinal. E, o sinal era de signo ingos nigos sonigs perdido no
signário-vida e tive q. sair dali conquistar outros espaços com minha arte
singular de tudo transverter. Vem de príscas eras essa ânsia de inventar o
desinventado e interferir nos espaços sagrados da criação como um mephisto
invasor o anjo autoproclamado de salvador dos artistas recusados. Minha ira
santa enlevar o raso o letargido o transvencido como forma de animar a vida.
Meu castigo a incompreensão dos árvios iletrados dos púrcios néscios soberbos
em seus atóis. Para uma polaka de meu amor consagro essa verve: de primeira
insensata de segunda interferente de terceira auto-flagelada. Não se fazem mais
Cândidos ou o optimismo como antigamente, Dom quixotes, Macunaímas, heróis e
anti-heróis integrais em seus ofícios. Rapsódia nóia. Rapsódia nóia, ver,
sentir… tudo com o espíritho da vingança. A farinha q. o anjo vingador come é
q. traz os espectros sígnicos de sua verve alucinada e o pão q. a mesma amassa
é o pão de sua verdade representação esplendorosa do seu ser escroncho.
Inverossímil a linha de uma vida assim como a vertida agora. Nem um anjo
vingador satisfaz público empresário mecenas mídia loquaz pelo contrário um
louco deambulante pelos signos criar problemas de entendimento perverter as
mentes juvenis alardear significação como farsa às coisas não-nascidas.
Nascimento vida morte de um herói super-convicto q. acredita em correção do tempo
dos atos enfins dos homens para com os homens na história. O SOL eleva-se sobre
todos e distribui na mesma proporção quântica seus favores. O anjo vingador
também delibera e vence contra todos os inimigos comuns. Com esse ofício de
fazer poemas muitas almas penaram nos céus inphernos e purgatórios do Sr.
Dante. Selva selvagem selvagínia não há ninguém a minha espera ninguém nem um
sol de contra-favor a enovelar meu grito. Meu cavalo monet galopa por uma
estrada branca como uma polaka estirada em lençóis verdes uma estrada uma
polaka um oásis de prazer muito prazer na pororoquinha da marthininha muito
prazer lubricidade comesura de olhar uma polaka como uma flor sensual em seus
ofícios de amar amar sobre todas as coisas frias dessa cidade esses pontos de bus
cercados de cadeados invisíveis onde as almas esperam esperam o caixote de
papelão chegar combinado com outros caixotes e a vida repetindo-se sempre no
mesmo ritmo. Ritmo de lesa-vida meu irmão, sentido de pouco sentido, persigos
sobre persigos. Meu cavalo uma cancha reta como um louco evadindo-se do
inpherno de Dante. Atrás de nós as silhuetas dos trúmphicos imperiais do baixo
império/espíritho, almas trivilinas, soltando fogos pelas bocas. Siga comigo
seu verme strúnhio nesse domingo aziago. Vamos ver a fonte de onde vertem as
profícuas almas lângues. O que é uma alma lângue? Não tá viva, não tá morta, é
cruiféiz estaca no descampado da vida. Acabas por saber q. é uma expressão de
linguagem recém-criada como posso te dizer nefhertímora (nojenta, escabrosa,
escorchante). Não sabes com quem falas, pobre parvo espiroguentho. Comigo
aprenderás da vida seus melhores momentos. Q. bela polaka estirada no hall daquele hotel de terceira!? Q.
belas ancas no desperdício dos dias!? Já sei, não me venha com esse blá-blá-blá
de q. futebol é o q. interessa. Futebol antes de tudo e depois. Tá por fora
pica de trapo. Olor de creolina exposta ao sereno. O carinha do tênis, nos
iludindo com sua polpuda conta-bancária, bancado pelos nikteiros. Ora vejamos
pronóbis saturno nublinheski monte nardines pega o curtis o cavalo outro cavalo
como reforço providencial ao meu monet o meu crunspício (aquele q. sofre junto)
e vamos enveredar pro Sul. Farroupilhas hastes naquelas clareaduras de campos,
coxilhas, sangas e restingas. Digo q. mato e limpo o jaracatiá borbhota
sorthinífero no topo da canjarana e limpo com farpa de angico. Rude minha lide
nesses vergéis antigos. Na linha desse dizer muitas palavras se perderam nos
cimos das árvores muitos cascos gastos em cavalgadas inúteis. Esse dizer q.
atravessa eras e repousa no ombro esquerdo do anjo vingador dos poetas
recusados, como uma coruja, pássaro de bom ou mau agouro. Não esqueço nunca
daquela dos trezentos viúvos de polakas, lembra? Ou trezentas polakas viúvas de
defuntos vivos até o embate. A procissão dos mortos vivos reage em meus sonhos
quando estou fraco e cansado. A cabeça em recosto nas barbas de pau sob aquelas
árvores. Fraco e cansado, isso pouco acontece, mas enfrento meio-dormindo a
reação escrota dos mortos-vivos. Comigo é assim e com meu irmão o Birão é muito
pior. No asteróide ASPHIZ 8800 só de passagem quando me viram muitos
esconderam-se nos escombros da velha nave muitos morreram de medo do anjo
vingador q. mata e seca só de olhar. Uma vez uma tribo de Panfluetha’s mistura
de panviados com punhethas adentrou um trigal imenso e com minhas espadas
revistentes desnudei-os de um por um. Nada contra e nada a favor o milho cresce
nos amplos espaços do verso livre. Viu como se sai pela tangente!? O anjo
vingador do futuro guturaaaaaa… seu
grito de guerra com papel celofane na boca e um pente carioca pra
convocar legionários ao bom combate. No bom combate há o imperativo odiar
reconhecer o tranho e o perigo não se pode simplesmente atacar o q. sequer se
conhece ofereça perigo e tal e tal isso da guerra da luta fratricida coisas de
peleja tudo mundo deve saber de cor e salteado. A mesa dos Deonísios e
Philosísifos sentam-se os mnerdas das construções sígnicas. Os mnerdas e seus
afiliados sempre pardos eminentes nos gabinetes dos maus espírithos tramando
despautérios sacrifícios. Flagelos de vozes no degelo. Nada se cria e tudo se
copia na mesmasséia dos profedídithes. Massa mano, essas hastes de boas-falas
q. reverbero no espaço como biscoito protonathural. Não tem meu Sr. não pode
não haverá nunca de acontecer um anjo vingador vingar o já vingado amar o já
amado matar o já matado.

Uma
língua aderida de ciscos signos símbolos sinais pós asteriscos uma língua como
uma esteira luminosa na noite grande uma língua antropomística &
polissimbela.

Anjo
vingador dos poetas recusados venho quente na haste núbila abrir clareiras na
floresta escura para um colóquio estranho. Nem só de colóquios vive o homem e
tranço termos de ficar em tua vida pro que der e vier. Nos amplos horizontes a
escatológica vertigem todos mortos: o padeiro, o açougueiro (q. não perturbará
a mulher de mais ninguém), o vidraceiro, a prostituta, o padre, o militar, o
professor, o dentista (q. virou gangster), a enfermeira, a psicóloga (confusa),
o camelô, o advogado, o servidor público municipal, o político… todos mortos
sobre as folhas da relva ainda úmida do sangue dos poetas recusados todos
mortos e a cornucópia do poeta passando de mão em mão com seu líquido espesso
q. não é sangue e não é mel e não é vinho e não é leite e não é refrigerante e
não é cerveja e não se sabe e nunca se saberá ao certo o q. é q. é. Morta a
vida q. nunca nasceu cresceu expandiu como espera o anjo vingador em
conhecimento artístico reconhecimento do artífice q. faz e projeta e delibera e
inventa reinventa a vida como pode e deve. A cornucópia do poeta é invisível e
vc aí esperando o busão já bebeu desse líquido precioso-néctar meu Sr. meu Sr.
de muitas fábulas invertidas, sem moral e sem história. Vais contar tudo amanhã
ou depois, q. ninguém em sã consistência de gente ficará sem verve pra dizer e
oportunizar a todos sua experiência. No líquido espesso derramado em tua língua
a vida a vida de força de investimento nos atos fatos pensamentos te revelará
meu Sr., a glória de dizer o indizível de vencer o invencível tomará conta de
tua anímica força. Somos mais q. muitos imaginam. Mais q. tantos sonharam,
sonhamos. Muitos anjos vingadores nascidos da cornucópia do poeta do beber o
seu líquido espesso e agir e sonhar e deliberar e construir e reconstruir sobre
o lux owerlux trilux da vida e as trevas da morte. Um pai não procura defeitos
nos seus filhos. Um pai toca com as mãos os seus pupilos rumo ao futuro. Eu o
anjo vingador dos poetas recusados, unjo-te menino de boas falas um caminho muitas
sendas desígnios profícuos em tua vida. Naquele bar de beira de estrada parei
com meu cavalo monet. A moça loira (polaka) como era de ser me enovelou em suas
histórias de ficar. Fiquei. Meu cavalo estercou nas pedras da estalagem antiga.
O curió curioso deu uma cagadinha no ombro da bela e ensaiou três coices pra
cada lado, depois em sanha de urutago urucubou as coisas pro meu lado.
Sacatrapo du carilho pequetito estribilho de grilo, te mato fia da putha com
palito de dente afiado! Pra Curitiba hei de ir, pensei, sonhei, despensei,
ergui acampamento e com polaka e tudo parti. Entre um beijo e outro, costuras
de olhar, pegação, zanzeira com barrotranquira e cipó nas coxas grossas e pólem
viajante nos olhos amendoados. Pinecpecki no profhuri. Vindecthine soporhu
ghudam.

um superpesadelo negro nesta noite fria

como um flagelo demoníaco

suspendi a lança & cortei em cruz

três vezes os strúnhios inimigos

os inimigos não se afastaram

(demônios superconvictos)

mas saí pra fora do lúgubre transe

DESCONSTRUÇÕES por martha medeiros / porto alegre

Quando a gente conhece uma pessoa, construímos uma imagem dela. Esta imagem tem a ver com o que ela é de verdade, tem a ver com as nossas expectativas e tem muito a ver com o que ela “vende” de si mesma. É pelo resultado disso tudo que nos apaixonamos. Se esta pessoa for bem parecida com a imagem que projetou em nós, desfazer-se deste amor, mais tarde, não será tão penoso. Restará a saudade, talvez uma pequena mágoa, mas nada que resista por muito tempo. No final, sobreviverão as boas lembranças. Mas se esta pessoa “inventou” um personagem e você caiu na arapuca, aí, somado à dor da separação, virá um processo mais lento e sofrido: a de desconstrução daquela pessoa que você achou que era real.

Desconstruindo Flávia, desconstruindo Gilson, desconstruindo Marcelo. Milhares de pessoas estão vivendo seus dias aparentemente numa boa, mas por dentro estão desconstruindo ilusões, tudo porque se apaixonaram por uma fraude, não por alguém autêntico. Ok, é natural que, numa aproximação, a gente “venda” mais nossas qualidades que defeitos. Ninguém vai iniciar uma história dizendo: muito prazer, eu sou arrogante, preguiçoso e cleptomaníaco. Nada disso, é a hora de fazer charme. Mas isso é no começo. Uma vez o romance engatado, aí as defesas são postas de lado e a gente mostra quem realmente é, nossas gracinhas e nossas imperfeições. Isso se formos honestos. Os desonestos do amor são aqueles que fabricam idéias e atitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e o outro fica ali, atônito.

Quem se apaixonou por um falsário, tem que desconstruí-lo para se desapaixonar. É um sufoco. Exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir, que o seu desejo de amar é mais forte do que sua astúcia. Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento nobre e verdadeiro não chegou a existir, tudo não passou de uma representação – e olha, talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma, por isso ela se inventa.

A gente resiste muito a aceitar que alguém que amamos não é, e nem nunca foi, especial. Que sorte quando a gente sabe com quem está lidando: mesmo que venha a desamá-lo um dia, tudo o que foi construído se manterá de pé

Nada há além da Arte e do belo – por tonicato miranda / curitiba

Chega um momento na vida que nada mais importa. Não faz mais sentido conquistar o amor das pessoas. Muito menos conquistar territórios que jamais nos pertencerão mesmo, a Terra no tempo será dos vulcões e do Sol. Nada faz sentido além da Arte durante nossa permanência planetária. Mas alguns perguntariam, o que vem a ser exatamente Arte? Onde ela se apresenta em sua plenitude? Qual Arte importa construir ou buscar ao nos dedicarmos a alguma forma de representação da estética? Não tenho, tu não terás, ele ou ela não terá, nem todos os plurais terão respostas para tal indagação. Mas é certo de que cada um buscará alcançar alguma forma de Arte, mesmo sendo no empréstimo do olhar, na palavra pronunciada, ou no torcer de narizes.

A Política o que é se não a forma como os homens tentam impor seus conceitos próprios e suas formulações sobre a maneira como deva se dar a organização social dos povos, dos agrupamentos humanos, do gentio. Nos tempos atuais, em especial em países onde as classes populares e médias ainda não atingiram grau cultural medianamente aceitável, o povo ainda elege para se ocupar da Política indivíduos que apenas querem se locupletar das benesses ofertadas pelo poder. Poder este cujos cargos e remunerações os próprios políticos definiram para si. Por isto mesmo a Política foi diminuída ao longo do tempo pelas relações exclusivas do poder pelo poder, não mais pelas ideias e por sua intenção transformadora do coletivo e do indivíduo.

Mas se a Política não é o caminho, o que dizer da Filosofia? Ora, a Filosofia é a forma como o indivíduo se coloca no mundo e no sistema de organização social, refletindo sobre sua participação no seu interior. Ou seja, é a individualidade adaptada à formatação gestada pela política praticada pelos coletivos de todos agrupamentos. Portanto, não há Filosofia sem vinculação a um momento histórico. Embora possa se abster dos fatos históricos isoladamente, não pode prescindir do tempo no qual está inserida. Assim, a Filosofia estará sempre prisioneira da atualidade na qual se reflete, ainda que possa atravessar seus conceitos em tempos passados. Ela sempre será presente e passado, muito pouco a reflexão em direção ao futuro.

Então a História poderia ser a grande motivação humana? Não. Definitivamente, não. A História como a grande tábua das marcas do tempo, contendo a cronologia humana no planeta, prima irmã da Geografia e de outras ciências correlatas, estas capazes de explicar a História do passado da Terra, pouco pode explicar sobre nosso avanço em direção ao futuro. Nada se repete, assim como o tempo não se repete. O homem avança inexoravelmente ao desconhecido. A História, com seu foco para o retrovisor dos fatos, nem mesmo o presente consegue aprisionar. Isto porque passadas algumas décadas, logo parece faltar-lhe algum parafuso na engrenagem e na memória, principiando ela mesma a duvidar do que a alimenta. Assim, a História passa após algum tempo a ser a ciência da dúvida, ou se contenta com uma das versões mais fantasiosa.

Mas então, se não é a Política, nem a Filosofia, nem a História ou a Geografia, o que poderia impulsionar a Humanidade? A Ciência? Não, também não é ela aquela capaz de agrupar os sentimentos dos humanos, transformando-os em raptores ou pitonisas do futuro. Não, a Ciência ainda que cumpra papel de destaque na busca do conhecimento sobre o desconhecido, estaca-se quando visa a aplicabilidade da descoberta, dando ao descobrimento função prática imediata. A única vantagem que leva sobre a Religião é que se apresenta sempre como curiosa, com desconfiança permanente sobre aquilo ainda não revelado. Enquanto a Religião, formadora de dogmas e de conceitos não comprovados, coloca todos numa unidade coletiva emburrecedora, sem questionamentos, totalmente anuladora das virtudes para qual fomos gerados.

Mas depois de tudo isto o que nos sobra? Ora, diria com toda sonoridade das três ou quatro letras onde ela se abriga na maioria das línguas planetária: somente existe a Arte. A Arte é a única entre todas as formulações humanas que tende a perpetuar todos pensamentos e virtudes dos seres. Não fora ela, não haveriam os próprios mitos. Ou alguém duvida que foi graças a ela que as figuras míticas de todas as Religiões se propagaram em todos os cantos da Terra? Desde Buda a Jesus; desde o Vaticano até os templos Hindus no Vietnam, na Índia, no Japão. Pela força das obras de Miguel Ângelo, de Da Vinci, pela grandiosidade das esculturas dos elefantes deuses em Bangkoc; no gigantismo presente nas dezenas de cristos espalhados em muitas cidades mundiais; ou ainda, na força da obra de Dante Alighieri. A Arte sempre emprestou seus virtuoses e seu virtuosismo às causas da Religião. E jamais disto se arrependeu.

A Arte sempre foi a tentativa humana da busca da comparação com o criador. Mesmo nele não acreditando. Mesmo nada tendo para por no lugar de Deus. Mesmo duvidando da própria existência dele. Apesar de todas estas desconfianças, o artista sempre buscou criar imagem assemelhada com sua pretensa virtude. Sempre experimentou o poder de criar. Não é à toa que muitos mais homens há e houve na produção da Arte do que mulheres. Isto porque elas podem, e muitas já experimentaram criar um ser no seu próprio ventre. Assim, ao longo da História é pequena a contribuição da mulher na produção das Obras de Arte, em especial nas Artes Plásticas. Mas existem algumas de alta gramatura na lavra do ouro produzido.

A Arte é de fato a mola propulsora a embalar o desejo de permanência dos seres sobre a pele do planeta. Quando todas as outras motivações já foram experimentadas e não mais sobra entusiasmo para qualquer outra tarefa, eis que aparece a Arte para ser a grande incentivadora dos permanecidos. Está claro que também faz uso da palavra Arte um monte do lixo produzido por cabeças vazias, por pessoas desprovidas de habilidade, de técnica e de talento. E eles, os obtusos, são capazes de gestar experiências formais e não formais, muitas delas consumidas em grande escala na sociedade consumista dos tempos hodiernos.

Mas como toda produção humana, o lixo não sobrevive ao tempo. Este imenso lixo não chega aos museus, não resiste a duas gerações, sendo logo descartado, sobram as sobras dos instrumentos ou bases para a produção da arte besta, da arte menor, da arte um destarte. Assim ocorre com a música pobre, de rápido consumo popular; assim acontece com a literatura produzida na forma de folhetim, transformada a produção de tempos em tempos em papel reciclável no rumo do papelão; ou mesmo nas aquarelas amarelecidas pelo tempo, passando à condição de água em processo de envelhecimento.

A Arte da qual falo é aquela imorredoura enquanto durar a vida planetária e o homem nela. Ela é e sempre será a grande motivação humana. Falo da arte buscada nos museus; nos compêndios das bibliotecas; nas edições especiais das grandes músicas trazidas de tempos em tempos aos nossos ouvidos pelos grandes veículos editoriais; ou presente nos acervos especiais disponibilizados aos nossos sentidos de quando em quando por um grande produtor.

Mas se esta é uma Arte especialíssima, o que a move? Diria que a grande Arte é aquela que busca o belo. Sim, mas o que é o belo em sua concepção plena? O seu belo não é o belo de outro, nem será do seu vizinho, nem da diarista do seu imóvel, nem tampouco do gerente da sua conta bancária; ou do seu filho; do seu pai; e de quem mais quiser individualizar. É verdade. O belo é o intangível. Mas o belo é também o que medianamente fascina a maioria. Quem de pé diante das meninas de Renoir, no MASP,em São Paulo, não se encanta ou não irá ser encantado? Pode ser o mais underground dos sujeitos. Pode ser o mais roqueiro dos indivíduos, ou mesmo cantor de música sertaneja, vai se emocionar. Vai perceber pairando por ali, naquelas luzes e nos vestidos diáfanos, um quê de encantamento impossível de não levá-lo a contrair sua pele, abrir seus poros.

A Arte dita maior é capaz disto. Quem ouvindo Garota de Ipanema, Carinhoso, Samba de Verão, tocadas com flauta doce, não irá se emocionar? Ou quem ouvindo Bach, ou as Bachianas de Vila Lobos, não irá se aperceber de estar diante de uma Arte que transcende? Todas capazes de elevar o espírito. Será não entenderá a luta do artista em busca da sua própria divindade? Assim é a Arte. Assim espera-se seja ela: sublimando o belo. Não há e jamais haverá algo adiante do belo. O belo é assim como o alvo ao qual nosso dardo fura o tempo em busca da ancoragem para nele se cravar. Mas a cada aproximação percebemos faltam-nos mais espaços a percorrer. O alvo parece viajar na mesma velocidade da nossa ânsia em furar o imaginário muro onde ele está. Assim é também a constante insatisfação do artista com a sua própria arte, onde mais um retoque é sempre possível, menos uma palavra ou menos uma pincelada pode aproximá-lo do belo.

Não há saída para a Humanidade. Temos de continuar a buscar o belo. Pelo menos alguns devem continuar nesta corrida, infelizmente apenas a poucos com reta de chegada. Muitos certamente se verterão à Política, à Filosofia, à História, às Ciências e mesmo a arte pela arte. Mas aqueles capazes de se entregar ao belo, à busca da perfeição, depurando textos; pincelando telas; esculpindo um osso, uma madeira ou uma pedra; ou regravando vezes seguidas uma música; repaginando a letra de uma canção; poderá certamente beber da água da fonte do oásis, encontrar uma cacimba no meio do cerrado, ou voar qual Ícaro e Dédalo sem que o Sol queime suas asas. O belo deve ser a meta da Arte e do artista. Aquele que o procurar estará sempre acima de si mesmo, sem cair nas tentações de Santo Antonio ou nas tentações do capitalismo humano. Brincar de ser Deus muitos tentam, mas levar adiante a tarefa de com ele jogar uma partida inteira de damas, estes são poucos. E Deus sempre premia seus opositores. Que o digam os museus e a eternidade dos nossos olhares e ouvidos.

A PALAVRA – por paulo madeira / são paulo

“Da Bíblia (e de outras “escrituras sagradas”), todas ditas “de Deus”, mas com um indisfarçável sotaque de falas míticas e mágicas.   Revelações de Javéh a Abraão, a Moisés, de Alá a Maomé, do “Senhor Jesus” aos “mensageiros” que pontificam por aí, nas TVs e templos-hospitais-shopings, garantindo tudo curar e sempre atender a todos os exagerados desejos de enriquecer…  (Matematicamente, em detrimento dos que continuarem pobres).

É intrigante de se ver (embora a Psicologia explique) como tantas pessoas acreditam tratar-se mesmo de “palavras de Deus” e, não, apenas de sapiências oriundas dos repositórios culturais sedimentados ao longo dos tempos e lugares,  carregados de mitos e crenças, ambos advindos da imaginação.

Mas será que não há revelações divinas “autênticas”?   Bom, quem jura que a “Palavra” é autêntica é a própria Palavra…  Sendo isto tautológico, para os desconfiados, não vale…  Ainda assim, não negamos que muitas dessas palavras sejam portadoras de sabedorias (em meio a ingenuidades compreensíveis).   Estas, porém, não são os pontos a analisar aqui:  nem as sabedorias nem as ingenuidades. O ponto que não podemos deixar de considerar é a AUTENTICIDADE das ditas “Palavras de Deus”.

Mesmo com esta justa dúvida, as “Palavras” eram e são apresentadas como os pilares das doutrinas.   A rigor, isto é, filosoficamente, não poderiam ostentar o status de FUNDAMENTOS.   Pra começar, há divergências entre elas, o que sugere não serem oriundas de uma mesma e única “Fonte Divina”, como já aventamos.   Ainda assim, continuam eficazes como instrumentos de indução e submissão às fés.   Quaisquer fés, mesmo que notoriamente “psicológicas”, subjetivas.

E elas induzem a atitudes de que até Deus duvida, como ditaduras teocráticas, “guerras santas”, homens-bomba, imposições econômicas, de classe, racistas, de costumes, de preferências e outras.   Serão elas autenticamente divinas?   Que falta que Sócrates nos faz…   Ah, se as instituições religiosas tivessem a humildade que pregam aos fiéis e adotassem, contra si mesmas, sistemas socráticos, maiêuticos, de controle de qualidade.   Auditorias internas.   Teriam produzido menos fés e mais sabedorias  –  alicerçadas em verdades naturais, não nas ditas “palavras de Deus”, as quais, por serem assim acreditadas, ficam engessadas, mesmo quando se tornam incoerentes, impossíveis, absurdas, carregadas de preconceitos, intolerâncias etc.   No entanto, teria Moisés alguma chance sem afirmar que “Os Dez Mandamentos da Lei de Deus” foram ditados por Deus?   O que você acha?   Filósofos independentes, munidos com bons instrumentais racionais, são rejeitados para seremauditores fiscais externos dela, da Palavra…  Mas, pudera!   Que audácia!    Auditar e fazer controle externo sobre palavras  “de Deus”…?!

Não!   Não é isso!   Sobre as “de Deus”, se elas fossem Dele, claro que não.    Mas, sobre as palavras dos ditos “Livros Sagrados” e falas dos ditos “profetas iluminados”, sobre estas queandam por aí, em todos os púlpitos e auditórios, sim!    Você sabe como nascem os porta-vozes faladores…?   Aquelas “vocações”?   E quanto aos Livros Sagrados, você sabe como eles forameditados?   Bom, o chanceler alemão Bismark dizia que o povo ficaria muito preocupado se soubesse como são feitas as salsichas e as leis…  Dá para extrapolar essas preocupações para os Livros Sagrados e seus porta-vozes, com todo o respeito…   Mas os religiosos não dispõem de humildade para uma tal análise crítica, de jeito nenhum…”

do livro  Crenças Incríveis de Paulo Madeira.

QUIRERA COM POESIA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


O milho amareliz amarelizarino sempre presente na minha vida de poeta do mato. Ontem colhemos duas carroçadas. O milho fica agora no galpão em espiga até secar bem, pra só após alguns dias ser quirerado. O milho novo pode dar garrotilho nos cavalos e é bom evitar o trato equino, nesses dias. As espigas tombadas no interior do galpão, pálidas estruturas envolvidas em palha, parecem corpos de seres de outro mundo. Amareliz amarelizarino o milho. Visitantes alienígenas vez por outra comparecem pra conhecer re-conhecer o milho, provar do seu amarelíssimo amido, sentir a textura de seus grãos como pepitas de ouro enchendo baldes, cestos trançados de taquara, carroças e caminhões no granel. Vi alguns seres refestelados no milho em noites altas de inverno. A luz forte da navemãe alumbrava a paisagem no entorno do velho galpão de madeira, onde o milho fica estocado. Os olhos do dono do milharal deixam o milho mais bonito, hígido nos grãos, pujante nas espigas. Nas colheitas, chego a deitar no meio do milho. Sentir o tépido e áspero das espigas dispostas irregularmente em montículos pelo chão da terra fresca. O milho amareliz amarelizarino milhante felizino cálido. Lanço poemas novos de cabeça. Eclipsemas fáceis de se entender e arranjar significação. Fugi da escola, me desinteressei pela gramática. Um poeta livre é de tecer sua própria linguagem/linguagens, regras de bem dizer e assim fiz, faço. A multidão de vozes prometida de vir não veio, não vem. A multidão de interlocutores que iria conhecer o meu verbo, debater contemporâneo e futuro da arte que penso, acho domino. As espigas vão sendo tombadas da carroça para o piso de cimento do galpão. Os corpos rolam pelo chão, amontoam-se, em composições aleatórias. Os corpos pálidos na tez pálida da palha seca do milho recém colhido. Entro pra dentro dos grãos amarelizes amarelizarinos do milho e sinto o protéico de sua razão de ser-estar no mundo como alimento primordial. O milho escorre pelas canaletas, distribui-se no recinto. Seus grãos de ouro indo pra maquininha de quirerar, saltitantes, felizarinos, amarelizarinos. A máquina quirera os grãos chegantes, como manda a peneira, se fina ou grossa. A quirera fumaceia, pó de milho no ar. A quirera quentinha saída da máquina, fumaceando o pó do milho, solar, solaríssimo. Na enteléquia da proselitílica conheci você. Ainda não existia o milharal o milho milho moído cangicado moído farinhado em minha vida de poeta. Vagava por avenidas de grandes cidades. E muitas vias passei, estrelas, estrelários conquistei e perdi. Muitas viagens interplanetárias no meu destino de tricoteiro de nuvens. Nem só de milho se vive vivo poemeio eclipsemo. Podia ter feito um colar de milho na safra passada com aqueles grãos maiores. Perfurar grão por grão até atingir as cento e tantas contas/miçangas de um razoável colar. Poemas fiz mais de setenta e manuscritos com caneta Pilot. Meus Ergochãs Espaciais saíram assim correndo da toca, como roedores espantados por algum animal perigoso. Em garranchos fui colocando as formigas pra fora do formigueiro. As formigas vinham manchadas de sol e espaço sideral, crispadas de musgos e alentadas de terra. Sei que isso nada tem a ver com o milho. Sei. Não sei. Também traziam uma carapaça de luz espelhar dourada. Não precisa ninguém vituperar vituperino nas minhas obsessões. Gosto disso dos grãos caídos ao chão, rolando despenhadeiros. Os grãos amareliz amarelizarinos do milho. Como da sua carne fresca ainda no pé, milho verde, ou em casa, pamonhado, ou mais tarde de colhido e seco quirerado na panela de ferro. O pó do milho em polenta, em broa, sempre servido na minha vida, como consagração da vida rural que levamos. Certo dia pisei no farelo de milho e saí pelo chão escuro do pátio, em noite minguante, deixando marcas douradas pelo caminho. O milho, esquenta parece, a quem se aproxima, seja homem, criação, cobra, rato, cães e gatos. No meu galpão uma vez um gato foi achado preso dentro duma bolsa de juta, quase meia de milho. O gato amareliz amarelizarino sobreviveu no dourado de sua pele, olhos, boca, patas. Noutra vez uma urutu preta daquelas encardidas e fétidas, saiu do paiol amarelizarina de pó do ouro de minha terrinha. O milho aquece as criaturas. Escreva aí. O milho sacia a fome e rebate o frio da vida. Meus cavalos babam o ouro do milho que os alimenta. Meus cavalos famintos de grãos amareliz amarelizarinos. No choque contra os dentes, os grãos de milho transformam-se milagrosamente, em líquido dourado. Meus cavalos que reverentes ou nem tanto, escutam meus longos monólogos sobre semiótica, philosophia, esthética principalmente e poesia. Meus cavalos diante de um louco milharante milharino comendo potes de cangica e operariando construções abstratas. Um louco-bom atirado na poeira amarela do milho. O milho entra pelas narinas, amarela os cabelos, os pés, os olhos, o milho, e numa mijada qualquer comparece também no sexo, o pó finíssimo do seu esmerilado, o milho entrando pelos poros, sujando de amarelo amareliz amarelizarino os pelos do corpo. O milho. mIlHo milhAnTE milHaRiNO. O milho já vi isso não se mistura com sangue. Certa vez tivemos que sacrificar uma galinha preta presa nuns ferros dentro do galpão. O pobre bicho entre a vida e a morte sangrava sangrava num membro dilacerado. O sangue escorria pelo chão mas não maculava o milho milharino que alimentou aquele bicho por tanto tempo. O sangue escorria sobre a quirera e a farinha de milho mas não incrustava não colava não adstringia de vermelho o amarelo vivatriz vivalhino do milho. Aquele poema que fiz aquela vez prenunciava minha vivência no pó amarelo vegetal. Minha vivência de verdes e amarelos, manchados de terra. Minha vivência de mato, jaracatiás, uvaias e guavirovas, pés nos chão e olhos/sentidos nas estrelas, pensamento no criado, criante e incriado. Os pirilampos lembram do milho, voante brilharino, pisquepiscante em noites de verão. Cogito, terço, enveredo agora pra eclipsemas difíceis de se entender e arranjar significação. Assim foi que no simplório orei ao milho milharino milhoz milhante milhoardeluzerino:

ELOGIO DO MILHO

 

A primeira vez que te vi:

milho

ouro vegetal em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

milho ouro vegetal

no prato nosso de cada dia

quirera

teus microgrãos triturados

de mão em mão

brilham na louça

ouro em pó

vegetal na palma de minha mão

um comedor de quirera

vivo na contramão

do tempo e da história

os bolsos cheios do pó dourado

de minhas roças

milho: triturados grãos

falso ouro dos que pedem

consolo dos desolados

na louça branca

na mesa improvisada

na cumbuca do bóia-fria

sob a lona do sem-terra

amo a nathura

onde vivo e trabalho

um comedor de quirera

nasce a cada minuto

:também nasci assim:

um comedor de quirera

minha voz entalou no muro

esse grão que se habilita

a matar todas as fomes

não tem pai nem sobrenome

é milho só em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

crescido sempre na luta

das mãos que o semeam e colhem

:quirera: teus microgrãos

triturados de mão em mão

brilham na louça branca

ouro em pó

vegetal

na palma de minha mão.

 

Terminei o poema e vi a poeta quituteira que mais que ninguém escreveu sobre o milho o ouro vegetal: Cora Coralina. Estava em brancas vestes adornada de grãos de milho, amareliz amarelizarinos. Uma aura douratriz milhatriz milhante entornava-a. Assim como surgiu a imagem desapareceu, deixando odor de milho quente, passado em tacho, panela de ferro, feito cuizcuz, bijú, pamonha… Os ratos no canto do paiol roíam o resto de grãos que ficaram do transporte. Cora Coralina deixou uma cesta cheia de quitutes de milho encima da velha tulha de madeira de lei. Agradeci, dizendo como meu tio Nenê caboclinho de sepa do Riograndópolis do Sul, não carecia Dona Cora, não carecia. E me fartei dos quitudes amareliz amarelizarinos túmidos do amido de ouro. Evoquei kaingangues roçadas de milho no toco. Fogo e fumaça, naqueles fins de mundos. Verdes sobre verdes esmeraldados com clareiras plantadas de milho milharino. Evoquei tribos nômades transportando lavouras de milho dum lugar para outro. Tribos grandes. Curumins caras amarelas amarelizarinas do milho fresco comido em gula. Os cavalos corriam pensamentos bons pelos meus campos da Fazenda Poema, e furões e iraras adentraram nos montes de milho roendo a palha e os grãos. A terra joga pra fora as pequenas hastes verdes verdeforescentes do milho plantado a poucos dias. Mais tarde os pendões como pênis juvenis estiram-se pra fora do invólucro verde. O milho é valente e floresce, põe barbas de milho pra fora, avoluma-se na maturidade. Ficamos todos (homens e bichos) rondando o milharal anuviado de verdes, maturar o ouro do seu ser. E assim é, sempre será em nossa vida cabocla, quirera com poesia todo santo dia.

 

A RENDIÇÃO DE BREDA (1625) – por jorge lescano / são paulo

A RENDIÇÃO DE BREDA (Breda, 1625)

A RENDIÇÃO DE BREDA (Madrid, 1635)                          A RENDIÇÃO DE BREDA (São Paulo, 1995)

 

 

 

 

 

Para Abelardo Rodrigues


Antes, a pintura tinha outras funções,

podia ser religiosa, filosófica, moral.

Desde Coubert,

acredita-se que a pintura é endereçada à retina.

É absolutamente ridículo.

Isso tem que mudar; não foi sempre assim

Marcel Duchamp.

A  batalha acabou. Os comandantes se encontram no campo; as tropas que os rodeiam não têm ar belicoso, talvez cansado. O chefe holandês, conde Justino de Nassau, inclina-se diante do marquês Ambrogio Spinola e lhe entrega a chave da cidade. O espanhol pousa sobre o ombro esquerdo daquele sua mão direita, parece sorrir para si. Representação plástica, talvez, dos termos tolerantes da capitulação. Há algo de reconciliação na atitude de ambos; de fato, deixaram de ser rivais: um é o vencedor, o outro o vencido.

Breda foi tomada depois de dez meses de assêdio. O incêndio sobre o qual se recortam as cabeças das tropas holandesas ocorre, presumivelmente, na cidade ocupada, porém, este já não é um problema de Nassau: a administração, agora, será de Spinola. Isto os identifica, daí o gesto conciliatório e o sorriso esboçado. Intui o espanhol que a vitória não é definitiva e por isso se mostra cauteloso? O gesto de Nassau é duplamente simbólico. Entrega momentaneamente a chave (o poder) de uma cidade, contudo, destruída no nível institucional, arquitetônico, urbanístico, populacional. Toda a significação de Breda está em sua mão direita. Na mão esquerda de Spinola o bastão de mando e o chapéu, pois ambos descobriram a cabeça em sinal de respeito pelo outro.

A cidade era um baluarte de importância na luta contra a opressão espanhola. Esta a única razão da presença de Nassau no quadro, e a cena toda, do ponto de vista pictórico, existe apenas para conter o pequeno hexágono irregular e luminoso no qual se inscreve seu gesto. Gesto que se projeta dentro do campo espanhol na diagonal da grande bandeira axadrezada.

A quem olham os quatro soldados (dois espanhóis, dois holandeses)? O chapéu do holandês do segundo plano, na extrema esquerda do quadro, em trajes verde-oliva e ainda portando seu mosquetão no ombro, não oculta, antes desvenda o olhar (sublinhado pela mancha branca da gola da figura de ocre, de costas para o espectador) de outro soldado. Seu único olho visível parece nos interrogar, contrastando com o olhar surpreso e tenso do primeiro. Na região intermediária, entre o centro e a margem direita, desenha-se uma concha formada pelo contorno posterior do crânio, a gola e o ombro de Spinola, contorno este que se prolonga no brilho da manga de uma figura de costas (a cabeça em escorço), a garupa, a sela e a cabeça do majestoso cavalo do primeiro plano, voltada para o interior da cena e espelhada — visão frontal — pela cabeça do cavalo do lado holandês. Da concha surge o olhar do primeiro soldado espanhol. O segundo (o próprio Velázquez?)  nos observa de três quartos de perfil na margem direita. Estes dois personagens — a nitidez das feições e a “hierarquia” luminosa, permite-nos supor sejam retratos de personalidades contemporâneas do artista — encaram confiantes o espectador.

Todos os olhares, ao convergirem no observador, formam um triângulo projetado para fora do quadro, incluindo aquele na composição. Assim, somos testemunhas, se não cúmplices, do fato histórico. Do lado espanhol há ainda o olhar de um homem de traços rijos (diferentes das curvas que modelam os outros dois) dirigido frontalmente ao espectador. A cor “baixa” deste rosto — mais próxima da cor siena — acentua sua expressão séria. Ele está entre o primeiro espanhol e a cabeça em escorço. Contemplamos este olhar e nos parece enigmático. Ficamos indecisos sobre seu objeto.  Se num primeiro momento julgamos estar dirigido a nós, ao nos aproximarmos — nosso olhar no olhar dele — temos a impressão de que está concentrado na cabeça em escorço. Este olhar se encontra na mesma altura — aproximadamente a dois terços da altura do quadro, a contar de sua base — do olho do holandês semi-oculto pelo chapéu do soldado verde-oliva, um pouco abaixo da linha que limita um acidente do terreno. Esta linha é acentuada pela arma de um espanhol que no terceiro plano — a partir de Spinola — a mantém no ombro, como um reflexo do holandês da extrema esquerda. As costas da figura localizada atrás daquele espanhol, reproduzem a cor verde-oliva das vestes do holandês, porém mais escura, para sugerir profundidade. Percebida esta equivalência cromática, não podemos deixar de acompanhar a linha — criada por nosso olhar — que liga as duas figuras numa nova perspectiva, linha que passa por cima das cabeças dos comandantes, unindo, identificando, se quisermos, as tropas dos exércitos inimigos.

Os comandantes, embora partilhem o mesmo plano do quadro, pertencem a categorias diferentes. Sabe-se que Velázquez  chegou a conhecer pessoalmente Ambrogio Spinola — viajou com ele para a Itália –, mas que nunca vira Justino de Nassau. Talvez isto explique a penumbra que envolve suas feições. É de presumir que, para retratá-lo, usasse como referências gravuras e descrições verbais; então, enquanto a figura de Spinola é uma representação baseada na experiência direta, a de Nassau é uma reconstituição documental. Sua ação no quadro confirma tal gênese. Ambos estão “momentaneamente” congelados pela vontade do pintor, quem lhes deu forma e significado, e através daquela vontade permanecem imóveis na retina do espectador. Este, por sua vez, e dependendo das informações que tiver (históricas, plásticas), poderá atribuir aos protagonistas uma hierarquia, solidária com a opção e a importância que der a estas informações.



Nos anos seguintes, a administração catastrófica do Conde Duque de Olivares conduziu a Espanha à decadência.  Essa administração, porém, caracterizou-se pela suntuosidade, evidenciada na construção do Palácio do Bom Retiro e no aumento do patrimônio artístico.

A construção do palácio afasta completamente o rei Filipe IV dos negócios estatais e o monarca passa a dedicar-se à organização de uma galeria iconográfica que deverá mostrar as batalhas ganhas nos primeiros anos de seu reinado. Seu orgulho de rei da Áustria, expoente do catolicismo e neto de Filipe II, encontra nessa obra plena realização.

Além de Velázquez, outros pintores compunham o grupo encarregado da realização da obra monumental: Vicente Craducho, Eugenio Caxés, Juan de la Corte, Juseppe Leonardo, Mayno e Francisco Zurbarán. A cada um deles é atribuído um tema histórico especial. A Velázquez coube representar A Rendição de Breda, cidade holandesa que capitulou frente aos espanhóis em 1625.

Para a realização do quadro, denominado As Lanças, Velázquez inspirou-se na comédia histórica de Calderón de la Barca, escrita dez anos antes. Com poucas figuras e um par de cavalos, Velázquez criou a ilusão de dois grandes exércitos, à direita o espanhol, com suas compridas lanças, à esquerda o holandês. […] O fundo é uma ampla extensão de planície, limitada pelo mar. A luz do sol que ilumina a cena está concentrada sobre os dois generais. Um brilho intenso cai sobre o rosto triunfante mas bondoso de Spinola, enquanto os traços melancólicos de Nassau estão quase imersos na sombra — lampejo de gênio artístico e também de generosidade humana. Na perspectiva,  ressalta a fileira de lanças altas e finas, como uma floresta de galhos secos. A composição vigorosa e o complexo cromatismo atestam a superação de conceitos estéticos que Velázquez, sempre em renovação, logo levará a conquistas pioneiras.

(Mestres da Pintura, Velázquez; S.P., Abril, 1977; pp. 13/14)


Velázquez não teve escolha, os dois personagens já haviam morrido quando iniciou a obra. Deste modo, a representação de ambos seguiu um processo semelhante: Velázquez deve ter recorrido a imagens, se as havia, e às suas lembranças, para reconstituir as feições do militar espanhol. Neste ponto, o valor histórico dos retratos é equivalente: frutos da memória. Podemos pensar que as referências sobre Nassau deverão ter sido mais numerosas que aquelas sobre Spinola, pois para este o pintor terá confiado em sua memória visual. O retrato de Nassau, portanto, poderia ser um documento mais confiável (porque produto da pluralidade) que o de Spinola.Talvez o artista soubesse que sua batalha  individual para documentar estava fadada à retratação.  O triunfo tardio do espanhol — na tela  — se corresponde com o de Velázquez: o tema do seu quadro será contestado pela história político-militar: dois anos após a conclusão da obra (1635) os holandeses reconquistaram Breda definitivamente.

Os protagonistas do quadro ocupam, na superfície pictórica, o mesmo espaço. Se a morte no se interpusesse — impedindo inclusive que eles vissem a obra — poderíamos imaginá-los trocando de lugar, desnorteando o artista e o espectador. Não seria impossível então que a mão de Velázquez se detivesse. Indecisa, interromperia o vôo da paleta à tela, e com tal gesto suspenderia indefinidamente o desfecho da batalha e nosso olhar num ponto neutro do tempo-espaço: a-histórico.

O arranjo da cena (a composição do quadro) raramente corresponde à realidade factual. Este caso não será diferente: Velázquez pintou o quadro dez anos após o acontecimento que, aliás, não presenciou. O que vemos, então, é a “reconstituição sensível” de u fato, não um documento. Vale lembrar, contudo, que em livros de divulgação artística afirma-se — sem dar nomes — que “o quadro é considerado por muitos peritos como o maior quadro histórico do mundo”.

No ângulo inferior direito, onde esperaríamos encontrar a assinatura do artista (provavelmente esta convenção é posterior à obra), vemos a representação de uma folha de papel ligeiramente amarelada, retângulo luminoso porém, em contraste com as cores próximas. O condicionamento do olhar quer ver algo escrito (os termos tolerantes da capitulação?). As dimensões reduzidas de nossa reprodução não nos permitem conferir se o pintor escreveu de fato (uma carta?), ou se apenas se limitou a sugerir a escrita. Preferimos a segunda hipótese. Ela nos permite aventurar a seguinte afirmação: Velázquez nega à sua obra valor documental e o faz dentro da própria obra.

O lugar que ocupa a folha de papel estaria reservado à sua assinatura e à data de realização do quadro — documento, prova de autenticidade do mesmo. A folha em branco no lugar destes dados indica anonimato. Outra interpretação da mesma hipótese poderia ser: a folha encobre “acidentalmente” a identidade do autor. Será este um depoimento por omissão?

A obra, já “anônima”, poderá incluir detalhes que não pertençam à realidade documentada, detalhes estes de diferentes categorias e com diversas funções: históricas (lembremos que Velázquez nunca viu Nassau pessoalmente nem presenciou a cena que retrata) ou estéticas. Esta segunda função parece evidente em relação à folha branca. A luz do manuscrito representado cria uma diagonal com as lanças do lado esquerdo do quadro, onde uma bandeirola atrai o olho para o conjunto. A diagonal corta aquela outra, formada pelo motivo das armas nos ombros dos dois soldados.

O ponto de cruzamento deste X — atrás da cabeça de Nassau — indicaria um “ponto morto”, neutro  ou, se quisermos, o grau zero da percepção do quadro, o marco a partir do qual o espectador percorrerá a superfície pintada criando os “espaços” sugeridos pelas linhas e as cores. É, também, o fim da interpretação histórica (este X seria outro modo pelo qual Velázquez desautoriza a interpretação documental).  Simultaneamente, aí principia a obra pictórica, para a qual o tema é um pretexto. Será a partir deste “ponto cego” indicado pelo X, que o olhar , agora liberado, descompromissado com o documento, iniciará seu caminho de reconhecimento da tela como suporte da obra ficcional.

A rendição de Breda, a histórica, a real, talvez pudesse ser esquecida ou ignorada. Não o permite esta outra, concreta em sua realidade de tela, tinta, linhas e cores, significando gestos humanos e acidentes geográficos e nuvens e um ar enrarecido no qual ainda sentimos o fragor da batalha que já teve seu desfecho. Ainda que a rendição de Breda não tivesse acontecido, o quadro impõe sua realidade e se objetiviza como fato histórico. A representação é sua essência, seu “ser”.

Se a entidade Velázquez não tivesse a consistência de vida atestada por documentos, a simples atribuição desta obra a tal entidade bastaria para torná-la real, pois a obra cria seu autor.

A possibilidade de que o quadro “original” pudesse não existir, não é óbice para a concretude e significação desta “reprodução”. Aliás, a inexistência daquela, transformaria esta (apesar do número de cópias) em original. A não existência de um quadro pintado a óleo por um artista espanhol do século XVII de nome Diego Velázquez, que ocupa uma determinada superfície (3×3,60 m.) numa parede do Museu do Prado, em Madri, não desautorizaria a “cópia”. E esta bastaria para significar Diego Rodríguez de Silva y Velázquez — figura e caráter — porque a ele atribuída.

Ao mesmo tempo — no mesmo nível — a existência deste texto poderá fazer desnecessária a obra de Velázquez, o fato histórico que veiculam e os próprios autores (do quadro, do texto), tornando-nos cúmplices de uma aventura próxima do encantamento. Apenas isto (?) justifica ou separa (ou integra?) a arte da mera realidade, ou o que assim denominamos por convenção de linguagem. A obra se situa no limite entre ficção e realidade. É real enquanto suporte de uma imagem. Também a imagem é real: linhas, cores, texturas ou palavras, criando visualmente ou através do discurso, espaço, volumes, atmosfera, tempo. Mas ela será apenas referência, documento, se admitirmos como original um fato extra-artístico, algo que já não está ali, ou que, permanecendo, não é a própria obra.

Apesar do exposto, A Rendição de Breda poderá ser um documento: da necessidade e capacidade do homem imaginar a história e o seu significado.

ELOGIO DE JACK por jorge lescano / são paulo

 

 

para Sandra Esteves

 

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Era uma vez um menino chamado Daniel.

A bem da verdade, em sua certidão de nascimento constava Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, mas toda a aldeia o conhecia pelo clássico e híbrido apelido de Chapeuzinho Vermelho.

Em tempo, era uma época em que Lenhadores Corajosos e Alfaiates Vivaldinos perambulavam por aqui e acolá. Não esquentavam cadeira na França nem na Alemanha, sequer na Dinamarca. Parecia até que não tivessem o que fazer em prol da comunidade ou em proveito próprio, a menos que suas funções se limitassem às de coadjuvantes em histórias de Princesas Dorminhocas e Sapos Espertinhos, ou a costurar vestes sutis para o Imperador, se acreditarmos no filho de Anders. Época aquela deveras prazerosa, digam o que quiser os defensores do sindicalismo e da industrialização e da aposentadoria ao completar o segurado meio século de existência. Época, também, em que a especulação imobiliária ainda não atingira o interior do reino. Destarte, cada Ogro possuía seu Castelo Branco no planalto, mor de avistar o que corria pelo Gigante Adormecido, toda Fada tinha uma aldeiazinha para exercer sua profissão e, poderíamos dizer, não havia vilarejo cadastrado que não contasse com seu timinho de anões. Época feliz e eu não sabia!

Secundus, por que Diabos um garoto que tem dois nomes tão singelos como Pedro e Daniel, é reduzido à condição de chapéu, e ainda por cima, VER-ME-LHO!, sabendo-se das emoções negativas que tal cor provoca em todos aqueles que não estão apaixonados, hein?

Eu vos direi já já. Acontece que o garoto, traquinas que era, feito todos os garotos na puberdade, em certa ocasião, na qual tinha saído com seu avô paterno para caçar um Lobo Mau, animal de estimação que o velho compositor desejava conservar numa partitura, achou por bem surrupiar a mencionada peça de guarda-roupa, ou figurino, como quiserdes, de uma meninazinha não muito chegada a ouvir conselhos maternos, meninazinha esta que atinou a passar pelas imediações da trilha palmilhada por nossos músicos no interior úmido da Floresta Encantada. Ela, a meninazinha do período, ia ao encalço da moradia da genitora de sua própria genitora. Levava-lhe na cesta bolo, esfiha, chá de boldo e uma manguacinha de alambique muito apreciada pelas três. Há quem considere isto uma compensação, pois terão notado, sem dúvidas, a ausência de homens na família.

O reprovável comportamento do garoto foi bem feito para a mãe dele, deixem-me que lhes diga antes que me esqueça. Ela, como muitas outras mães, acreditava que por denominar o herdeiro de suas dívidas com dois nomes sérios, o de um profeta semítico, e o de um dos apóstolos de Nosso Senhor Jota Cristo, garantem-se contra as dores de cabeça próprias de sua função de parentesco, o que cunhou a famigerada expressão Ser Mãe é sofrer no Paraíso, e fazem como Pilatos, para não perdermos o tom bíblico do parágrafo.

O fato de o menino ter-se apropriado indevidamente do chapéu, que aliás não era chapéu e sim capuz, segundo o ilustrador, não seria coisa de muita monta. Porém, eis que um tio da pirralha, de nome Charles, o tio, claro, se bem me recordo, acabou levando o assunto ao conhecimento da autoridade policial da comarca.

Um jornalista presente na delegacia tornou-o famoso. Ao evento em pauta, não ao tio, após alguns retoques sensacionalistas bem ao gosto dos leitores do seu pasquim. Agora que me lembro, acho que era o jornalista que se chamava Charles, não o tio. Sim!

No B.O consta apenas que na tarde ensolarada do domingo próximo passado, isto escreveu o jornalista, que dizia ter pendores de poeta, o meliante, suspeito que a deixa é do escrivão, com o intuito de, desde o início, incriminar o réu, e/ou predispor o rábula desavisado contra a indefesa criatura, o meliante, prossegue o texto cruel, cognominado Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, filho de Fulana e Sicrano, residentes todos os três mais o avô paterno do indiciado, dito Perengano, residente, digo, por enquanto, na rua Taletal desta megalópole, furtou a peça de vestuário supracitada, sem atenuante, o ato, não o chapéu, digo, diz o auto, sem nenhuma atenuante de ordem prática que justifique seu ato.

Com efeito, na ocasião, o larápio gozava de invejável posição social na aldeia, filho que era do Pizzaiolo-mór do Rei. Esta circunstância arredondará nossa narrativa, podeis crer.

Pedro Daniel gostava pouco de tomar banho. Achava o ritual extravagante, alheio aos seus costumes, com um quê de libertino, além de úmido, imaginai Vossas Mercês o que desejardes.

Não!, o jornalista era Jacob ou Wilhelm, e era irmão do delegado de plantão ou do tio, ou este e o delegado eram irmãos entre si e ele era  irmão do grego, não tenho certeza. É, havia um cego no princípio. Esqueci o nome do mero grego do início da história, graças a Zeus! Não podem querer que lembre de tudo, não é?

Então, pela sua atitude, de todo contrária à higiene pessoal, um modo sutil de desforra às pressões sociais, sugeriu o pediatra local, ou a forma de partilhar seu corpo, na visão de um  psicanalista, Pedro Daniel somente acedia a tomar banho se sua mãe, sentada à beira da tina, se penitenciasse lendo em voz alta, para que a vizinhança ouvisse, histórias infantis, ou as assim classificadas pela industria editorial emergente. Se a boa mulher não cumprisse a tarefa a gosto do mandrião, este chorava à portuguesa.

Tal estilo de lamúria era a preferida não apenas pelo facto do miúdo, de forma subliminar, certamente, haver sido condicionado pela família, pela história da literatura, pelo contexto social, que sei eu!, condicionado, diz o relatório, para reproduzir ipsis líteris, os traços marcantes de sua cultura, como pela instância, não menos profícua e familiar, dele apreciar superlativamente a iguaria itálica da qual, como foi apontado algures, o autor dos seus dias era exímio fabricante. Sim, senhoras e senhores, o delinqüente juvenil amava a pizza à lusitana! É de conhecimento público que tal modalidade prima pelo abuso de cebola em detrimento de outros pertences mais apetitosos para o paladar infantil, os quais sejam, ovo cozido, presunto e azeitonas pretas graúdas, cujo caroço, se bem aproveitado no estilingue, pode fazer misérias nas janelas da vizinhança, como Vossas Mercês estão fartas de saber.

O caso do jurista ou jornalista, não sei bem, talvez exija investigação mais demorada, pois não seria negócio de somenos.

Então, toda tarde de domingo ensolarado, estabelecia-se entre as duas gerações um tácito combate naval. Isto poderia explicar, por vias tortas, aquele primeiro ato delituoso de quem, com o passar dos anos, e após breve carreira de instrutor de lobos na requintada arte da literatura, segundo constata a vasta resenha policial concernente, viria a ser o tristemente célebre Jack, o Estripador.

Nada mal para um franzino garoto de aldeia, pelo qual ninguém dava uma rúpia furada, hein?

 

Há quem diga que Pedro (Daniel) era o próprio Lobo, e que seu sobrenome era Prokofiev. Todavia, nós não acreditamos em  Lobisomem, ainda que exista, anotou à socapa o escrivão de polícia. Algum cronista apresenta Pedro Daniel arrependido. Nesse relato, o facínora teria reencontrado, em suas andanças pelas estepes do Velho Mundo, a Meninazinha do Capuz Vermelho, agora uma starlet de grande sucesso no show-business. Desposou-a imediatamente para agradar Propp e foram morar no Castelo Branco do Rei Bonachão. Acredita-se que ambos foram felizes para Todo-o-Sempre. Contudo, o diretor de teatro Serguéi Korrêa (para manter o clima russo), continuou a escrever o escrivão, afirmava que a versão anterior é mentirosa e foi divulgada pelo indiciado Jack, o Estripador, mor de ocultar seu assassinato de Lulu. Fato este, aliás, já denunciado pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind (1864-1918).

Com gesto discreto mergulhou a caderneta no mais profundo dos bolsos internos de sua japona, sorrateiramente saiu do recinto.

 

 

 

DA ARTE DO ATOR – por jorge lescano / são paulo

DA ARTE

DO ATOR

A fotografia em movimento (cinematografia) criou a ilusão de reprodutividade da vida através da imagem. Esta superstição não diz respeito exclusivamente ao público espectador, e convive com a tendência, cada vez mais agressiva, dos efeitos especiais. Estes, por sua vez, poderão dar origem a outra superstição: a supremacia da ação visual sobre a representação. Nesta, a presença humana nos filmes se tornaria supérflua.

A imagem “abstrata” (não figurativa) em movimento foi a essência da Arte Cinética dos anos 60. Esta corrente das artes plásticas poderia ser interpretada como o último estágio da Arte Concreta, nome genérico com o qual os artistas definiam seu ismo. O conceito objeto substituía as noções de pintura e escultura, unificando-as.

O cinema dito realista, como todo ismo, se tem tabus, também tem seus mitos. O mais popular destes, porque permite que qualquer pessoa lhe avalie a qualidade, diz respeito à representação.  Desta se espera verossimilhança (mimesis),não invenção. Tal julgamento antepõe, à artificialidade da arte, a naturalidade da vida, sem levar em conta a artificialidade dos meios de sobrevivência nos grandes centros urbanos. Nos filmes realistas, tudo deve parecer como na vida.

Em termos de atuação, fala-se, elogiosamente, de um certo ator de cinema norte-americano que, para construir os personagens que interpreta, procura na vida real os modelos e assume suas respectivas profissões. Por que não a cor dos olhos, as nacionalidades ou suas relações familiares?, poderíamos perguntar. Este ator acredita, sem dúvidas, que assim vivencia o que o personagem precisa para agir no seu papel (ser na vida).

Pressupõe-se que isto seja honestidade artística e despojamento profissional. Para representar um trompetista, aprendeu a tocar trompete. Um taxista? Trabalhou de motorista de praça por um tempo determinado e sem depender da feira para sobreviver.

Vendo os filmes, o público sabe que ele não é trompetista nem taxista

como seu personagem, ainda que ignore seu laboratório. Ou, para sermos justos: é um trompetista e um taxista amador.

Para não prejulgar (os elogios da crítica e o sucesso de bilheteria nada tem a ver com o caso), coloquemos em questão o “método” nos seguintes papéis: Édipo, Gulliver, Hitler. Estes personagens fazem parte de contextos diversos: teatro, literatura, política. Limitemo-nos então ao universo cinematográfico.

Um personagem que, embora de origem literária, encontrou sua dimensão “mitológica” no cinema: Tarzan. A grande maioria das pessoas o conhece, ou teve seu primeiro contato com ele através do cinema, são menos os que o viram nas histórias em quadrinhos, e menos ainda o número dos que leram os livros nos quais é protagonista.

Édipo remete ao incesto. Evitemos o lugar comum perguntando: como recuperar as experiências de um cego que foi rei e parricida? Mataria um vizinho da mesma idade do seu pai? Vagaria de olhos vendados pelas ruas de Nova Iorque? Isto é possível mas, como ser grego?

Para ser Tarzan, deveria viver na selva ou ler todas as estórias e ver todos os filmes? Qual a verdadeira vida deste personagem de ficção?

Não pequemos de puristas. Admitamos que a experiência (o laboratório) é válida como simulacro e que depois, por um sistema de acomodação, o ator transfira a experiência contemporânea à época e lugar em que se desenrola a ação ficcional. Admitamos também que a honestidade artística lhe permita aceitar tais papéis.

Se este sistema de transferência é válido e possível, surge a pergunta: por que, então, para interpretar o trompetista, não foi jogar futebol? E para o taxista, não seria igual trabalhar de açougueiro? O público, que conhece, ou ignora, seu laboratório, o vê apenas no seu papel. Esta é a função do ator.

Convenhamos: equivalências (o valor) das profissões são mais “fáceis” que a translação no tempo-espaço. O sistema proposto, tão útil quanto o seu, seria mais rico, pois tocaria trompete como se jogasse futebol e dirigiria o táxi como um açougueiro. Porém, foge à poética do nosso ator.

O resultado da montagem de personagens (Jogador-trompetista, taxista-açougueiro) poderia ser interessante, mas o método é inadequado porque inútil. Nesta alternativa é indiferente que toque trompete ou dirija um táxi como jogador, açougueiro ou ator.

No estágio atual, o cinema realista é subsidiário, suporte ocasional, do teatro e da literatura. Desta conserva a narrativa. Do teatro, a presença visual do tempo-espaço, sem bem que lhe falte a presença factual do acontecimento: aqui, agora. Neste sentido, seria apenas “documento” do teatro.

O cinema raramente permite a re-interpretação de um roteiro sem que pareça parasitária ou paródica, isto é: metalingüística. Assim, de um modo geral, é a “primeira” versão do filme a que fica e estabelece um padrão de interpretação, tanto para a equipe de realização quanto para o público.

Há ainda a leitura que ator faz do seu personagem. Se na versão que estamos analisando (a única que existe na realidade factual) é o ator que incorpora o personagem, outra leitura poderia nos mostrar a versão do trompetista e do taxista, que se “apossam” do ator para viver. Esta a qualidade do personagem ficcional, ainda quando tenta retratar alguém real (personagem histórico). Todo personagem é apenas uma estrutura lingüística.

Agora estamos mais próximos do roteiro original. Este foi criado por um autor que excepcionalmente, ou nunca, exerce ou exerceu a profissão do personagem, ou, em todo caso, não a exerce no momento da escrita. Ainda que o autor conheça por experiência própria as profissões em pauta, ele dará  apenas seu testemunho. E este corresponderá às suas características pessoais, diversas das do ator que as representará na tela.

Recuperar o modelo original é impossível. Mesmo que o próprio personagem-autor as represente, as experiências sofrerão, necessariamente, uma adequação ao médium, que as tornará outras, parasitárias ou paródicas.

Pensamos em duas alternativas. A primeira: documentar a vida (uma parte da vida) do trompetista ou motorista (foi o que tentou o cinema neo-realista italiano); neste caso se corre o risco de que não surja aventura alguma digna de ser filmada, eliminando de antemão o produto (a obra). Claro que é possível se tomar a realidade como objeto do filme sem qualquer pretensão artística, ou reduzir o conceito de arte à reprodução e/ou documentação do gesto cotidiano. Bruce Nauman, ao explicar seu filme Pescando una carpa asiática, exemplifica bem esta alternativa:

Bill Allan calçou as botas e fomos para o córrego. O filme durou até Allan fisgar o peixe… Quando a gente quer fazer um filme, não sabe quanto tempo vai levar. Por isso, o melhor é pegar qualquer coisa que determine a duração. Quando Allan fisgou o peixe, o filme acabou. (Art News, verano 1967; in: Victoria Combalía Dexeus: La poética de lo neutro; Barcelona, Anagrama, 1975; p.72; tradução: J.L.)

A segunda alternativa: o ator representa o personagem segundo sua visão artística (imaginativa, não-documental; documento é a pessoa-personagem) sem abandonar sua condição de ator (intérprete, representador). Só assim o ator será o suporte ou veículo do personagem, sem pretender se confundir com ele. Tampouco dará mais ênfase ao seu virtuosismo que a ação.

No teatro kabuqui (sic), há um gesto que indica “olhar para a lua”, quando o ator aponta o dedo indicador para o céu. Certa vez, um ator, que era muito talentoso, interpretou tal gesto com graça e elegância. O público pensou: “Oh, ele fez um belo movimento!” Apreciaram a beleza de sua interpretação e a exibição de seu virtuosismo técnico.

Um outro ator fez o mesmo gesto; apontou para a lua. O público não percebeu se ele tinha ou não realizado um movimento elegante; simplesmente viu a lua. Eu prefiro este tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se tornar invisível. (Yoshi Oida: O Ator Invisível; S.P., Beca, 2001; p.21)

Aqui não é qualquer pessoa que julga a atuação, mas alguém informado das premissas da arte de representar, ainda que o exemplo seja de outra convenção estética. O público de nosso ator realista, que sabe que ele não é trompetista nem taxista, deveria aprovar ou desaprovar sua representação enquanto ator.

Aos que farejem elitismo (!) nesta afirmação, quero lembrar-lhes que não é Qualquer Pessoa que está capacitada para opinar sobre odontologia ou cervejaria, embora possua dentes e aprecie a cerveja. A realidade factual não é parâmetro de juízo da arte.

Se fosse assim: arte = vida, por que procurar atores para a representação?

Na segunda alternativa proposta, a atuação estaria mais próxima da arte experimental que da representação mimética, isto talvez não seja a função ou intenção do atual estágio do cinema. Afastando-se da ilusão de realidade, o cinema “realista” ficaria mais perto da realidade artística. E deixaria de ser “realista”. Nesta perspectiva, não é improvável que a parafernália dos efeitos especiais esteja indo ao encontro da essência do cinema e acabe descobrindo, ou criando, esta essência.

UM PONTO AVANÇADO DO PROGRESSO – por lucas paolo / são paulo

No conto “Um posto avançando do progresso” de Joseph Conrad, vemos dois homens (Kayerts e Carlier), que são encarregados pela “Companhia” de chefiar um posto de comércio no Congo, ruírem, pouco a pouco, em meio a um sistema colonialista implementado na África. A desgraça desses dois “indivíduos perfeitamente insignificantes e incapazes” começa a se delinear, claramente, após a venda de alguns africanos para traficantes de escravos em troca de marfim – venda que não foi realizada sob a consciência de Kayerts e Carlier.

Assim, no conto, nos defrontamos com dois personagens que não conseguem lidar e entender a realidade que os cerca e, por isso, essa os deforma e os absorve – como também acontece em Bouvard e Pécuchet de Flaubert.

Isso pode ser evidenciado se notarmos que, apesar do narrador se utilizar do discurso direto, este necessita ser explicado na sequência. Uma passagem onde isso se evidencia:

“Já entendi! Eles foram atacados enquanto dormiam profundamente depois de terem tomado o vinho de palmeira que você deixou Makola distribuir para eles. Tudo combinado! Entendeu? E o pior é que alguns dos homens de Gobila também estavam lá, e foram levados juntos, sem dúvida. O menos bêbado acordou, e acabou levando um tiro por causa da sobriedade. Que país estranho. E o que você vai fazer agora?”

“Não podemos ficar com isso, é claro”, disse Kayerts.

“Claro que não”, concordou Carlier.

“A escravidão é uma coisa horrível”, gaguejou Kayerts com a voz trêmula.

“Terrível – tanto sofrimento”, grunhiu Carlier com convicção.

Acreditaram no que diziam. Qualquer pessoa demonstra uma deferência respeitosa perante certos sons que ela própria ou seus semelhantes são capazes de emitir. Quanto aos sentimentos, porém, ninguém na verdade sabe nada. Falamos com indignação ou entusiasmo, falamos de opressão, crueldade, crime, devoção, sacrifício, virtude, e não sabemos o que existe de real por trás das palavras. Ninguém sabe o que significa o sofrimento ou o sacrifício – exceto, talvez, as vítimas da finalidade misteriosa dessas ilusões.

O ressentimento que os personagens sentem com relação à escravidão não é convincente em suas falas e sim na contextualização, na complementação do narrador. Com isso o narrador nos expõe dois personagens que retratam o desconhecimento ou a falta de entendimento sobre o processo colonizador da África – desconhecimento que foi dominante nos homens dos países europeus que aceitavam o colonialismo como uma forma de avanço de progresso da civilização.

Dessa forma, Kayerts e Carlier são retirados do seguinte idealismo:

“Daqui a cem anos, pode ser que aqui exista uma cidade. Um porto, depósitos, e alojamentos, e – e – salões de bilhar. A civilização, meu rapaz, e a virtude – e tudo o mais. E então, as pessoas vão saber que estes dois sujeitos, kayerts e Carlier, foram os primeiros homens civilizados a viver neste exato lugar!”.

E são sujeitados a existência da escravidão, da falta de suprimentos, da negligência da “Companhia”; a civilidade e os valores morais soçobram. Assim, sem conseguirem entender o significado de sua situação, os personagens não conseguem mais lidar com a convivência destituída de valores, de certezas, e acabam ruindo e se destruindo.

A ficção é história, história humana, ou não é nada. Mas também é mais que isso: ela se apóia em chão mais firme, baseando-se na realidade das formas e na observação dos fenômenos sociais, enquanto a história é baseada em documentos e na leitura de impressos e de manuscritos – em conhecimento de segunda mão. Assim, a ficção está mais próxima da verdade. Mas deixemos isso de lado. Um historiador também pode ser um artista, e um novelista é um historiador, o preservador, o detentor, o expositor, da experiência humana.[1]

Pensando, a partir deste trecho peculiar retirado da epígrafe do posfácio de Luiz Felipe de Alencastro ao livro “Coração das Trevas” de Conrad, podemos vislumbrar Joseph Conrad como um historiador ou um pensador da história que colocou em seu conto “Um posto avançado do progresso” toda a problemática da Europa e do homem europeu colonizador e civilizador. Fazendo-nos repensar a relação dialética e instável do seres humanos com as distintas formas de sociedade existentes.


[1] Joseph Conrad, “Henry James: an appreciation”, texto publicado em 1905, incluído em J. Conrad, Notes of life and letters, Londres: J.M. Dent, 1949.

DESCOBRINDO O ICEBERG por lucas paolo / são paulo


– Numa adivinha cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida?

O Jardim de Veredas que se Bifurcam, Jorge Luis Borges

O conto “Colinas parecendo Elefantes Brancos” de Ernest Hemingway, basicamente, nos mostra um casal que está em uma estação ferroviária, próxima ao rio Ebro, aguardando um trem que vem de Barcelona e segue para Madrid. Enquanto aguardam o trem, o casal aproveita para pedir algumas bebidas e apreciar a paisagem (é o momento em que a moça diz que as colinas do vale parecem elefantes brancos). Porém, logo que começam a conversar se desentendem e discutem aspectos relacionados a uma operação que o rapaz sugere e que a moça cogita fazer. A discussão vai se intensificando até que a moça pede ao rapaz para calar a boca.  Nesse momento, a atendente do bar os avisa que o trem está chegando. O rapaz vai colocar as bagagens mais próximas da plataforma e, quando volta, a moça lhe sorri e diz se sentir muito bem. Assim termina o conto.

Ao lermos o conto pela primeira vez, chegamos ao final e não conseguimos vislumbrar um sentido, não conseguimos entender de que realmente se trata o conto. Dessa forma, encontramo-nos perante o que podemos chamar de um conto “charada”. Para desvendar esta “charada”, partimos para uma segunda leitura. Nesta, iremos atrás do que é narrado de modo elíptico. Entretanto, veremos que o conto é construído de forma que o leitor, na procura de um sentindo, seja despistado e distraído por diversos “motivos” que estão cifrados no texto. Tentemos, então, buscar onde se encontram essas distrações.

Podemos apontar como distrações, dois possíveis “motivos” que estão cifrados no texto: as colinas que parecem elefantes brancos, e a operação que a moça cogita realizar. Vejamos onde o “motivo” operação nos leva:

– Você deixará a preocupação de lado se eu me operar?

– Claro que sim, mesmo porque a operação é perfeitamente simples.

– Então eu a farei! Você sabe que não me preocupo comigo mesma.

– Como assim?

– Exatamente assim: não ligo a mínima para mim mesma.

– Mas eu me ligo muito em você!

– Pois eu, não. Farei a coisa e tudo acabará muito bem.

– Já não quero que a faça, se é assim que você sente.

Após vermos, anteriormente, o rapaz insistir para que a moça faça a operação, neste trecho, a situação se reconfigura e a moça acaba aceitando que o melhor é fazer a operação, porém, as razões que impingiam a moça fazer a operação, fazem o rapaz não desejar que ela a faça mais.

– Quero uma vez mais que você compreenda não estar de modo algum obrigada a fazer o que não quiser. Estou disposto a topar o que der e vier se isso é realmente importante para você.

– E para você, não é? Poderíamos nos entender muito bem assim mesmo…

– Claro que poderíamos! Você é a única pessoa a quem realmente quero. Mas que a coisa é simplíssima, bem sei que é.

– Sim, você é quem sabe.

– Pode brincar com as palavras, mas sei mesmo que é.

– Você seria capaz de fazer algo por mim neste instante?

– Faço qualquer coisa por você!

– Então, por favor, cale, cale, cale, cale essa boca!

Neste trecho, vemos que é possível não fazer a operação. Que as coisas poderiam se manter iguais sem a realização da operação. Todavia, vemos uma crescente tensão que se mostra mais ligada à insistência do rapaz do que à necessidade da operação.

Esses são alguns exemplos de como o “motivo” operação é cifrado nos diálogos dos personagens. Até o final não sabemos a razão da operação, se ela é necessária ou não, o que a operação interfere diretamente no relacionamento do casal. Enfim, nos vemos diante de um mistério que não é resolvido e que, justamente, não pode ser resolvido por ser uma ferramenta de distração criada pelo autor.

Com relação ao “motivo” as colinas que parecem elefantes brancos, temos uma distração cifrada em três instâncias: dos personagens, do narrador e do autor. Nos personagens vemos o seguinte:

– Parecem elefantes brancos – sugeriu a seu companheiro.

– Jamais vi algum dessa cor – respondeu ele ao tomar um gole de cerveja.

– Nem poderia ver.

– Eu talvez até pudesse – respondeu-lhe ele. – Sua negativa não prova coisa alguma.

Aqui a moça compara as colinas aos elefantes brancos. O desentendimento dos dois a partir da constatação da moça nos leva acreditar que haja algo por trás dessa possível “metáfora”.

A garota olhou de novo para as colinas.

– São muito bonitas – afirmou. – Nada a ver com elefantes brancos. Eu me referia apenas à cor que apresentam por entre as árvores.

Porém, na página seguinte, a moça já dissipa a idéia de qualquer analogia. Devido à discussão do casal somos levantados a crer que possa haver algo por trás da comparação, o que se prova também, até o final do conto, um equívoco.

Com relação ao narrador podemos apontar, primeiramente, que ele começa o conto colocando as colinas em primeiro plano e descrevendo o cenário; só depois de falar das colinas e do ambiente é que aparecerem os personagens. Também podemos mencionar que nos pontos de maior conflito entre os personagens, o narrador interrompe o diálogo para descrever o cenário. Isso nos faz crer que possa haver algo nas colinas e no ambiente em geral que aponte a chave para descobrir a “charada” do conto. No entanto, por mais que especulemos a respeito da relação entre o cenário e os personagens, até o final do conto não se acha um sentido que ligue um ao outro.

A terceira instância é em relação ao autor, ou seja, Hemingway. Se podemos observar que a “charada” não está na analogia de colinas e elefantes brancos, então, por que colocar o título do conto como “Colinas Parecendo Elefantes Brancos”. Só podemos imaginar uma explicação: que isso também seja uma ferramenta para distrair o leitor e direcioná-lo para os “motivos” errados, ou melhor, infecundos.

Então, se há uma “charada”, onde estaria ela?

Para tentar responder, vejamos o que o escritor e crítico Ricardo Piglia diz em suas “Teses sobre o conto” [1]:

A teoria do iceberg de Hemingway é a primeira síntese desse processo de transformação: o mais importante nunca se conta. A história é construída com o não-dito, com o subentendido e a alusão.[2]

O que seria então o “não-dito”, o “subentendido”, o aludido? Que o que está por trás de todo o conto, na verdade, são os problemas de relacionamento do casal, a incomunicabilidade. Hemingway constrói o conto de forma magistral porque desloca nossa atenção para uma operação, possivelmente insignificante, e para uma comparação casual de colinas com elefantes brancos. Quando o que podemos ver no conto – se afastamos todas as distrações – é um casal de turistas que tem muitos problemas de relacionamento e discutem por vários “motivos” – sendo os que ficam mais evidentes: a analogia feita pela moça entre colinas e elefantes brancos e a operação que, talvez, ela realizará. O que está por trás destes “motivos” nunca saberemos e não devemos almejar saber. Descoberta a parte do iceberg que estava submersa, podemos olhar a pontinha que aparece na superfície de uma perspectiva completamente diferente.



[1] PIGLIA, Ricardo. “Teses sobre o conto”. In: Formas Breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[2] Interessa-nos mencionar aqui outro aspecto que Piglia levanta: “Num de seus cadernos de notas, Tchekhov registra esta anedota: ‘Um homem em Montecarlo vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, suicida-se.’” […] “Que teria feito Hemingway com a anedota de Tchekhov? Narrar com detalhes precisos a partida, o ambiente onde se desenrola o jogo, a técnica que usa o jogador para apostar e o tipo de bebida que toma. Não dizer nunca que esse homem vai se suicidar, mas escrever o conto como se o leitor já o soubesse.”

CLAUDE LEVY STRAUSS – por philomena gebran / curitiba

Reminiscências de um querido Mestre

A triste notícia, dada friamente, como acontece com todas as noticias – afinal é ofício do repórter, apenas informar:

“morre em Paris o grande intelectual Claude Levy Strauss”. Uma notícia como qualquer outra? Para muita gente, sim.      Para mim, não. Ele sempre será uma pessoa muito especial que continua viva, como sempre esteve em minha lembrança e em meus conhecimentos. Muito do que sei devo a ele, quando fui sua aluna em Paris.

Existem pessoas que não morrem. São imortais para nós. Levi Strauss é uma dessas pessoas. A notícia trazia uma lembrança que agora já é saudade. Uma vontade de voltar no tempo e vivenciar tudo outra vez.  A notícia, me fazia mais viva sua presença.

Às vezes é difícil cair na real ou aceitar os fatos e a realidade. A notícia me trazia de volta aquele que foi meu grande e sábio professor no Collège de France Paris. Figura humana impar e muito especial. Para alguns um intelectual polêmico, controvertido, e às vezes, até arrogante e prepotente.

Para mim não.

Impossível não ser reconhecido por todos, como um dos mais lúcidos intelectuais, do século XX; brilhante antropólogo, filósofo, etnógrafo, historiador, enfim, um sábio.

Viajei no tempo e me vi em Paris num pequeno auditório cheios de pessoas, esperando a entrada do famoso        professor. O silêncio era geral. Logo depois entra um homem simpático, muito elegante, terno escuro, óculos, magro, cabelos grisalhos e apresenta-se: “eu sou o professor que vou ministrar esse seminário a vocês”; como se precisasse de apresentação, “meu nome é Levi Strauss”, simples assim. Meu coração bateu descompassado. E acho que nesse dia perdi muito do que foi falado, tal a emoção.

Era o primeiro dia de um Seminário que se tornaria inesquecível para mim. Terminada a aula como é comum entre os franceses, ninguém fala com ninguém, e todos saíram em silêncio. Fiquei perturbada. Não sabendo direito o que fazer, timidamente, falei para mim: é “agora ou nunca”; tomada a decisão, fui lentamente, como fazem os tímidos, me aproximando de sua mesa e muito, sem jeito, mas com a ousadia da juventude, a voz quase nem saindo de tão baixa, pois sentia um misto de emoção, nervoso e medo.

Então, de repente cheia de coragem falei, creio que atropelando um pouco as palavras, tal a emoção; “gostaria de falar com o senhor”. Olhou-me curioso, pois na França não é nada comum alunos se dirigirem ao professor, sem antes, terem agendado um encontro.

Enfim, falei: – mesmo porque, já era tarde, para qualquer arrependimento: _conheço e já li seu livro Tristes Trópicos; gosto muito dele. E imediatamente, antes de perder a coragem, emendei: – sou brasileira e estou estudando aqui.          Passada sua surpresa pela ousada interpelação, ele perguntou, se eu era da Universidade de São Paulo. Disse-lhe que era do Rio de Janeiro e só então me lembrei de pedir desculpas pela informalidade de minha abordagem.

Para minha surpresa convidou-me a sentar, perguntou o que eu estudava, desde quando estava em Paris, se havia gostado de sua aula, etc., etc., e disse que eu ficasse a vontade para falar com ele sempre que precisasse e que depois das aulas, estaria pronto para esclarecer minhas dúvidas ou para debater questões.

Pronto. Era tudo que eu queria; perguntei se poderíamos conversar sobre seu livro, então ele me revelou que considerava Tristes Trópicos apenas um relato de sua viagem pelo Brasil; assim como, uma longa crônica. Contestei logo. –Pode até ser, mas uma crônica ou relato brilhante!

Dando minha opinião contraria, elogiando o livro que foi muito esclarecedor e que todos no Brasil o utilizavam em suas bibliografias. E ainda admirada de minha coragem, fiz tudo para “segurar” a conversa.      Falamos um pouco do Brasil das comunidades nativas, dos meus estudos lá e aqui, e o gelo foi quebrado. Perdi o medo e me pareceu que já éramos amigos; claro, guardando o indispensável distanciamento; em seguida me passou uma lista de seus livros que eu encontraria na biblioteca ou que poderia adquirir em livrarias, ainda brincando que estudante não tem condições de comprar muitos livros. Pura verdade, até hoje é assim.

Estava aberto um precedente, e quando os colegas mais próximos souberam, ficaram encantados com minha informalidade e logo aproveitaram a oportunidade de se aproximar do grande Mestre. Depois das aulas, ficava um grupo para esclarecer questões e a as perguntas eram muitas; os debates se sucediam sem pressa de ir embora; pois como eu todos queriam saber e saber cada vez mais sobre a nova antropologia e, principalmente sobre o novo método criado por ele; o estruturalismo, cujo estudo eu viria retomar e aprofundar no Mestrado, através de outros pensadores que foram por ele influenciados, como Michel Foucault, Marta Hanecker, Jacques Derrida, Louis Althusser e outros.

Porém, foi com ele que aprendi muito, não só sobre estruturalismo, mas sobre antropologia em geral; as aulas eram mais formais, ao estilo “Frances” mesmo; mas os debates que se seguiam, por pura generosidade sua e grande exploração dos poucos alunos que ficavam eram incríveis.E o papo se tornava mais coloquial, descontraído e, nada formal.

Lévi – Strauss se dizia não marxista, assim como, não se considerava um antimarxista, acho que não queria abrir demais sua ideologia. Tudo bem, graças a isso, estabelecíamos grandes e enriquecedoras discussões, já que a maioria do grupo era marxista. E, também não se dizia o pai do estruturalismo; se bem que insistíamos com ele que todos o viam como tal.

Seu objetivo era a criação de uma teoria “formal”, ou seja, partindo da elaboração mental para a realidade; negando assim, a base empírica. Para ele “estrutura significa o sistema relacional latente no objeto.” Estabelece então diferenças entre a noção de “estrutura social e relações sociais”. Dito em outras palavras, o modelo estrutural é uma construção teórica que não se relaciona com dados empíricos, como na História. É quase uma abstração do real, como explicava em nossas discussões.

O problema não depende da etnologia, mas da epistemologia”, dizia ele.

Atribuía a criação do conceito aos pais da lingüística Saussure e Mauss; mas, está claro que Lévi-Strauss “consagrou” o método no campo das ciências humanas, e mais, enunciou os conceitos de “sincronia e diacronia” para as sociedades sem escrita, o que elucida muita coisa.

Foi com ele que tomei conhecimento das teorias antropológicas, como por exemplo, do funcionalismo de Malinowski, do historicismo de Franz Boas, o evolucionismo (cultural) de Tylor e Morgan, etc., não o evolucionismo de Darwin; mas essa já é outra história;

Eu, particularmente, queria discutir com ele as relações entre História e Antropologia, no meu entender ciências que se completam, e uma influenciam a outra. Mas a questão é que por muito tempo, por “falsas” questões epistemológicas eram tratadas como disciplinas e de forma compartamentalizadas, com práticas e métodos, que mesmo no início do século passado  não contemplavam as exigências acadêmicas.

Consegui expor meu ponto de vista levantado à questão do embricamento entre História e Antropologia, pois para uma pesquisa necessitamos de ambas; e para analise de sociedades diferenciadas seria importante nos livrarmos, para sempre, do “mal” do positivismo e propor, não apenas a interdisciplinaridade, mas a colaboração entre História e Antropologia. Confesso que para meu espanto ele concordou plenamente comigo.

Neste sentido, houve uma abertura de Lévi – Strauss em nossos debates que nos permitiu “entrar” em sua obra para discutir seus livros como “Antropologia Estrutural” “Pensamento Selvagem”.

Sua famosa trilogia: “Mythologiques”, três grandes volumes sobre o homem, alimentação, costumes culturais , mitos, símbolos, enfim sobre como as diferentes  culturas se comportam e realizam a construção de suas sociedades, considerando a organização social, os sistemas econômicos e os sistemas míticos e a cultura material, por exemplo, foi extraordinariamente enriquecedor.

Devo porém, acrescentar, que a discussão sobre sua tese de doutorado: “Les Structures Elementaire de La Parente”, para mim, sua obra mais completa e abrangente, foi o ápice do Seminário e de nossas discussões e dos debates sobre estruturalismo. Foi um Curso que deixou muita saudade e que ninguém ficou feliz quando terminou, ao contrário, a tristeza foi geral.

Mas, a compensação é que todos saíram muito mais ricos em conhecimento científico, e em nossas reflexões; claro que muitas obras, não foram abordadas profundamente, como gostaria, porque nem haveria tempo.

Para mim houve um fator ainda mais rico e importante, que eu viria a formular mais tarde em minhas pesquisas; a reformulação de conceitos que considero equivocados e cheguei rapidamente a falar sobre isso com o grande mestre; apesar de ter discordado comigo em alguns pontos, foi mais positivo sua concordância em outros que agregaram em minhas pesquisas e estudos novos valores.

Só para citar um e não me alongar demasiado nesse ensaio, nada científico, mas apenas a expressão das minhas reminiscências. Consegui ao longo de minha vida profissional mudar o conceito de sociedades “primitivas”, como conceituado historicamente pelos antropólogos para sociedades “ágrafas”.

Desprezando, com a aquiescência de Levy- Strauss: “povos sem história” “povos vencidos”, “aculturados” e o pior, “primitivos” e ainda “sociedades simples”, para diferenciar as culturas que sempre foram marginalizadas pela História, das culturas ocidentais, ditas “complexas” como “culturas inferiores”. Nada mais equivocado.

Existem entre nós, culturas ágrafas que guardam grande sabedoria e são muito mais complexas e sofisticadas em suas organizações sócio, político, econômico e mítica que nossa “bela civilização ocidental”, plena de descriminações e preconceitos.

Por isso, graças ao Seminário com o Grande Levy Strauss adquiri a coragem necessária para mudar meu campo conceitual: “primitivo”? Jamais. “índio”? Nunca. Nativos sim, como somos todos. Sofro contestações? Inúmeras. É difícil  as pessoas  aceitarem novas propostas; o novo é sempre complicado, mais fácil ficar acomodado, não pensar muito e ficar repetindo o que já está cristalizado pelo tempo.

Mas, a exemplo do Mestre insisto, e sigo em frente com minhas inovações.

Não tinha intenção de discutir isso aqui, mas foi apenas uma digressão, para ilustrar o resultado do aprendizado; minha intenção é apenas a de prestar uma homenagem ao cientista, que já no início do século passado, soube tão bem chamar a atenção do mundo acadêmico para o absurdo das idéias positivistas ao considerarem que existem homens melhores do que outros, e sociedades superiores e inferiores, seja pela cor, seja pela escrita, seja pelos mitos, seja pelos símbolos, ou seja, pela cultura.

Para terminar uma sábia frase do sábio Homem:

…“hoje meu único desejo, é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele.”

 

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ilustração do site.