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UMA CIÊNCIA – por luis fernando veríssimo – porto alegre.rs

Uma ciência

Decidiram fazer um churrasco para as famílias se conhecerem. Do lado da Bea havia seu pai, sua mãe, um irmão mais moço e uma tia solteira. Do lado do noivo, Carlos Alberto, mãe viúva, duas irmãs mais velhas, sendo uma com uma Luis-Fernando-Veríssimo-01namorada, e um irmão com a mulher e dois filhos menores. O churrasco seria na casa da Bea, que tinha um pátio grande com churrasqueira, e o Carlos Alberto se prontificou: seria o assador.

Acertaram a logística do encontro Os donos da casa forneceriam as saladas e a cerveja, os visitantes trariam a carne, a sobremesa e os refrigerantes, inclusive zeros para quem estivesse controlando a glicose. E o assador. Tudo transcorreu bem. Uma das crianças ralou o joelho e, segundo o consenso geral, exagerou um pouco nos gritos para chamar atenção, a tia solteira da Bea bebeu demais e caiu da cadeira, mas fora isso, tudo bem. Todos se entenderam, se divertiram – a namorada da irmã mais velha do Carlos Alberto tinha um repertório inesgotável de anedotas – e conversaram bastante. Menos o pai da Bea, o seu Vicente, que passou todo o churrasco emburrado. Sem dizer uma palavra.

Naquela noite, Bea perguntou aos pais se tinham gostado do Carlos Alberto. Seu Vicente e dona Nininha se entreolharam.

– Sei não… – disse o seu Vicente.

Bea se surpreendeu. “Sei não” por quê?

– Para começar – disse seu Vicente – ele botou a carne em espeto baixo com o fogo ainda alto. Não esperou o carvão virar brasa. Vi que ia ser um desastre quando os salsichões vieram queimados.

– Ora, papai. O…

– Outra coisa. Ele usou salmoura na carne, em vez de sal grosso. Ninguém mais usa salmoura. A salmoura foi usada em churrasco no Brasil pela última vez na administração do Washington Luiz.

– Papai, você está dando importância demais ao…

– Tem mais! Ele botou a picanha com a gordura para cima. O certo, o clássico, é com a gordura para baixo. E a costela ele botou com o osso pra cima!

– Está bem, papai. Eu prometo que o Carlos Alberto nunca mais fará um churrasco para vocês.

– Não se trata disso, minha filha.

Não se tratava só daquilo. O importante era o que aquilo revelava sobre o caráter do assador. Alguém que se apresenta como assador sem ter a mínima ideia de como se assa não é apenas pretensioso e irresponsável. É um estelionatário. Demonstra desonestidade, arrogância e descaso pelos outros.

– O churrasco é uma ciência, minha filha. Não é para qualquer impostor.

– Mas papai…

– E o que ele inventou? Corações de galinha num espeto intercalados com pedaços de abacaxi. Não há hipótese de eu deixar minha filha casar com alguém que intercala corações de galinha com pedaços de abacaxi!

– E as sobremesas não estavam grande coisa – acrescentou dona Nininha.

O casamento foi adiado. Bea disse ao Carlos Alberto que precisava pensar.

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O DIA A DIA DA INFORMÁTICA – karlos bettega / ilha de santa catarina

Haroldo tirou o papel do bolso, conferiu a anotação e perguntou à balconista:– Moça, vocês têm pendrive?

– Temos, sim. 

– O que é pendrive? Pode me esclarecer? Meu filho me pediu para comprar um. 

– Bom, pendrive é um aparelho em que o senhor salva tudo o que tem no computador. 

– Ah, É como um disquete… 

– Não. No pendrive o senhor pode salvar textos, imagens e filmes. O disquete, que nem existe mais, só salva texto. 

– Ah, tá bom. Vou querer. 

– Quantos gigas? 

– Hein? 

– De quantos gigas o senhor quer o seu pendrive? 

– O que é giga? 

– É o tamanho do pen. 

– Ah, tá. Eu queria um pequeno, que dê para levar no bolso sem fazer muito volume. 

– Todos são pequenos, senhor. O tamanho, aí, é a quantidade de coisas que ele pode arquivar. 

– Ah, tá. E quantos tamanhos têm? 

Dois, quatro, oito, dezesseis gigas… 

– Hmmmm, meu filho não falou quantos gigas queria. 

– Neste caso, o melhor é levar o maior. 

– Sim, eu acho que sim. Quanto custa? 

– Bem, o preço varia conforme o tamanho. A sua entrada é USB? 

– Como? 

– É que para acoplar o pen no computador, tem que ter uma entrada compatível. 

– USB não é a potência do ar condicionado? 

– Não, aquilo é BTU. 

– Ah! É isso mesmo. Confundi as iniciais. Bom, sei lá se a minha entrada é USB. 

– USB é assim ó: com dentinhos que se encaixam nos buraquinhos do computador. O outro tipo é este, o P2, mais tradicional, o senhor só tem que enfiar o pino no buraco redondo. O seu computador é novo ou velho? Se for novo é USB, se for velho é P2. 

– Acho que o meu tem uns dois anos. O anterior ainda era com disquete. Lembra do disquete? Quadradinho, preto, fácil de carregar, quase não tinha peso. O meu primeiro computador funcionava com aqueles disquetes do tipo bolacha, grandões e quadrados. Era bem mais simples, não acha?

– Os de hoje nem têm mais entrada para disquete. Ou é CD ou pendrive. 

– Que coisa! Bem, não sei o que fazer. Acho melhor perguntar ao meu filho. 

– Quem sabe o senhor liga pra ele? 

– Bem que eu gostaria, mas meu celular é novo, tem tanta coisa nele que ainda nem aprendi a discar. 

– Deixa eu ver. Poxa, um Smarthphone! Este é bom mesmo! Tem Bluetooth, woofle, brufle, trifle, banda larga, teclado touchpad, câmera fotográfica, flash, filmadora, radio AM/FM, TV digital, dá pra mandar e receber e-mail, torpedo direcional, micro-ondas e conexão wireless….

 Blu… Blu… Blutufe? E micro-ondas? Dá prá cozinhar com ele? 

– Não senhor. Assim o senhor me faz rir. É que ele funciona no sub-padrão, por isso é muito mais rápido.

– Pra que serve esse tal de blutufe? 

– É para um celular comunicar com outro, sem fio.

– Que maravilha! Essa é uma grande novidade! Mas os celulares já não se comunicam com os outros sem usar fio? 
Nunca precisei fio para ligar para outro celular. Fio em celular, que eu saiba, é apenas para carregar a bateria… 

– Não, já vi que o senhor não entende nada, mesmo. Com o Bluetooth o senhor passa os dados do seu celular para outro, sem usar fio. Lista de telefones, por exemplo. 

– Ah, e antes precisava fio? 

– Não, tinha que trocar o chip. 

– Hein? Ah, sim, o chip. E hoje não precisa mais chip… 

– Precisa, sim, mas o Bluetooth é bem melhor. 

 Legal esse negócio do chip. O meu celular tem chip? 

– Momentinho… Deixa eu ver… Sim, tem chip. 

– E faço o quê, com o chip? 

– Se o senhor quiser trocar de operadora, portabilidade, o senhor sabe. 

– Sei, sim, portabilidade, não é? Claro que sei. Não ia saber uma coisa dessas, tão simples? Imagino, então que para ligar tudo isso, no meu celular, depois de fazer um curso de dois meses, eu só preciso clicar nuns duzentos botões… 

– Nããão! É tudo muito simples, o senhor logo apreende. Quer ligar para o seu filho? Anote aqui o número dele. Isso. Agora é só teclar, um momentinho, e apertar no botão verde… pronto, está chamando. 

Haroldo segura o celular com a ponta dos dedos, temendo ser levado pelos ares, 
para um outro planeta: 
– Oi filhão, é o papai. Sim. Me diz, filho, o seu pen drive é de quantos… Como é mesmo o nome? Ah, obrigado, quantos gigas? Quatro gigas está bom? Ótimo. E tem outra coisa, o que era mesmo? Nossa conexão é USB? É? Que loucura. 
Então tá, filho, papai está comprando o teu pen drive. De noite eu levo para casa.

– Que idade tem seu filho? 

– Vai fazer dez em março. 

– Que gracinha… 

– É isso moça, vou levar um de quatro gigas, com conexão USB. 

– Certo, senhor. Quer para presente? 

Mais tarde, no escritório, examinou o pendrive, um minúsculo objeto, menor do que um isqueiro, capaz de gravar filmes! Onde iremos parar? Olha, com receio, para o celular sobre a mesa. “Máquina infernal”, pensa. Tudo o que ele quer é um telefone, para discar e receber chamadas. E tem, nas mãos, um equipamento sofisticado, tão complexo que ninguém que não seja especialista ou tenha a infelicidade de ter mais de quarenta, saberá compreender. 

Em casa, ele entrega o pen drive ao filho e pede para ver como funciona. O garoto insere o aparelho e na tela abre-se uma janela. Em seguida, com o mouse, abre uma página da internet, em inglês. Seleciona umas palavras e um ‘havy metal’ infernal invade o quarto e os ouvidos de Haroldo. Um outro clique e, quando a música termina, o garoto diz: 

– Pronto, pai, baixei a música. Agora eu levo o pendrive para qualquer lugar e onde tiver uma entrada USB eu posso ouvir a música. No meu celular, por exemplo. 

– Teu celular tem entrada USB? 

– É lógico. O teu também tem. 

– É? Quer dizer que eu posso gravar músicas num pen drive e ouvir pelo celular? 

– Se o senhor não quiser baixar direto da internet… 

Naquela noite, antes de dormir, deu um beijo em Clarinha e disse: 

– Sabe que eu tenho Blutufe? 

– Como é que é? 

– Bluetufe. Não vai me dizer que não sabe o que é? 

– Não enche, Haroldo, deixa eu dormir. 

– Meu bem, lembra como era boa a vida, quando telefone era telefone, gravador era gravador, toca-discos tocava discos e a gente só tinha que apertar um botão, para as coisas funcionarem? 

– Claro que lembro, Haroldo. Hoje é bem melhor, né? 

 Várias coisas numa só, até Bluetufe você tem. E conexão USB também. 

– Que ótimo, Haroldo, meus parabéns. 

– Clarinha, com tanta tecnologia a gente envelhece cada vez mais rápido. Fico doente de pensar em quanta coisa existe, por aí, que nunca vou usar. 

– Ué? Por quê? 

– Porque eu recém tinha aprendido a usar computador e celular e tudo o que sei já está superado. 

– Por falar nisso temos que trocar nossa televisão. 

– Ué? A nossa estragou? 

– Não. Mas a nossa não tem HD, tecla SAP, slowmotion e reset. 

– Tudo isso? 

– Tudo. 

– A nova vai ter blutufe?

– Boa noite, Haroldo, vai dormir que eu não aguento mais…


MENINO E DEUS – por jorge lescano / são paulo.sp

O menino estava sentado no centro da nave do templo, mantinha os olhos fechados. O local vazio lhe dava um ar solene. O silêncio em volta aumentava a sensação de concentração do rosto moreno. Estava absolutamente imóvel, na penumbra poderia ser confundido com algum dos ídolos que se espalhavam pelo altar, ladeando o corpo esquálido e ensangüentado da figura principal.

Pelo silêncio e imobilidade poderia se acreditar que estava ali por não ter para onde ir. As roupas modestas e a trouxinha ao seu lado, os sapatos gastos, sugeriam que poderia ser um retirante, um dos tantos que nesses dias percorriam os campos e as estradas fugindo da violência das cidades devastadas, saqueadas, bombardeadas. As mãos juntas descansavam sobre as coxas.

Um grupo de pessoas entrou ocupando os bancos com murmúrios e cochichos. Desse grupo surgiu um rapaz que foi direto para o menino que deve ter sentido a sua presença, mas não abriu os olhos.

— O que você faz aqui? Este não é lugar para bandidos.

— Estou rezando – respondeu sem olhá-lo.

— Aqui? Você é um infiel!

— O templo estava vazio e eu precisava orar.

— Mas você é um infiel!

— Deus é um só, clemente e misericordioso e está em todo lugar – salmodiou o menino. – Por que não atenderia as prezes de um muçulmano na casa dos cristãos?

“AO MENINO QUE BRINCAVA DE AVIÃO” – por omar de la roca / são paulo

 

Kevin então pigarreou, ajeitou as jóias da coroa para reunir coragem. Queria contar uma história mais leve.Mas o que vinha a cabeça dele agora eram os antigos e sempre presentes relatos sobre a grande fome , sobre os gigantes , “ banshees” que passavam voando baixo aos gritos.Humilhação e sofrimento. Corpos abandonados,sexo atrás dos muros da igreja quando ninguém estava olhando,ou nas praias durante os curtos verões.Longas viagens de navio para a América,das quais muitos não sobreviviam. Levantou a mão para persignar-se mas parou a mão no meio do caminho . A boa e velha culpa católica,incutida pelos padres de sua cidadezinha num recanto perdido da Hibérnia. Para disfarçar, abanou o rosto com a mão dizendo que estava com calor e só iria conseguir falar alguma coisa depois de mais uma cerveja. Pediu para que Sergio tomasse sua vez.

Sergio pediu um minuto,já que a cerveja fazia efeito rápido. “ Cambiare l’acqua de l’olive “, ele disse e retornou em poucos minutos. Jogou o chiclete que mascava para tirar o amargor da cerveja,era o que ele dizia, mas era dependente de açúcar e por isso comprava chiclete diet para enganar. Tossiu um pouco para chamar a atenção e começou a história, jurando que não era autobiográfica.

Já há alguns anos ele  elegeu como sua primeira memória de infância,ele mesmo saindo correndo pelo portão de casa na antiga Rua da Consolação com os braços abertos querendo ganhar o ar. E se maravilhava ao ouvir histórias de quem já havia voado. Naquela época, fim dos anos 50 as coisas eram mais difíceis. Ia-se a biblioteca para pesquisar biografias e, pasmem, havia um campeonato de carrinhos de rolimã que desciam a Av. Rebouças aos domingos.A pegadinha era que só ganhava o menino que trouxesse o carrinho até o ponto de partida, subindo a avenida. Mas ele só foi uma ou duas vezes.Naquela época,havia uma sessão de cinema matinal aos domingos com o Pica Pau,que ele raramente ia.É, as coisas eram mais difíceis. E não só para ele.” Mas não quero transformar este conto em livro, disse Sergio,até poderia mas ia ser difícil de contar .Para que colocar no papel todas as agressões sofridas? Todos nós tivemos más experiências na infância.”  Mas aquele episódio de violência sexual o marcou tão fundo que lhe perseguia através dos anos. Anos e anos querendo ser “ normal” mas sempre com aquela sombra,estigma e a inevitável depressão. A primeira namorada,que durou um dia, a segunda, que lhe  deu o fora no dia de seu aniversário , deixando-o arrasado.O retraimento. A introspecção. A miopia a falta de recursos para o óculos,a repetência na segunda série ,aquela sombra pesando cada vez mais.Agressões,auto agressões.O quanto não fez para sobreviver ? Foi como uma árvore criada entre muros, que o protegiam mas não lhe deixavam ver nada. E  não lhe protegiam deles mesmos. E sempre o peso ,o medo , a falta de orientação.A falta de alguém para conversar. Amigos poucos, quase nenhum. Um primo,que tinha que ter sempre razão e ia bem na escola.Mas ele não . Fez amizade com um rapaz e começou a freqüentar a casa dele que morava com a irmã e os pais. E para ele, era como um refúgio estar lá. E para ele eram todos amigos. Viajavam juntos, tinham coisas em comum, foi uma época bem legal. Estava tão escaldado do peso de tantas coisas que vivia meio desligado, com a cabeça na lua . As namoradas que nunca davam certo. Os amores platônicos sem continuidade. Para ele,  era apenas uma sólida amizade. Mas  faltou percepção para ver que para a irmã dele, as coisas não eram bem assim. Jurou que não foi por maldade,que não fazia a menor idéia. Um dia, estava na casa deles quando receberam visitas.Uma amiga de anos com o namorado. E uma voz falou ao  ouvido dele, “ Olha ai a tua mulher. “ .Estas coisas as vezes  acontecem a ele. Achar uma pessoa que o estava  esperando em um lugar que ele  não esperava encontrá-la. E muitos outros acasos os quais agora não cabem aqui. Passou algum tempo, voltou a encontrar aquela amiga,que já estava sozinha. E foi como se dois pólos opostos se atraíssem com força. Foi ela que o fez pensar que  poderia ser “ normal”,após tantos anos de sofrimento. Dali a uns anos se casaram e foi só ali que ele  percebeu que seus problemas haviam apenas começado.  “ Sergio fechou os olhos e roçou o dedo de leve por debaixo dos óculos.E nestes breves segundos passearam pela sua memória anos de rejeição, repressão e auto agressão.De depressão e auto controle. De fogo e gelo. “ Tossiu de leve e voltou a narrativa :  E sempre aquela ânsia pela normalidade,pela tranqüilidade.” Resolveu deixar de lado o relato de muitos anos,mesmo que o psicoterapeuta dissesse que conversar era uma forma de terapia e de compreender que muitas vezes não somos os únicos com aquele problema.Não ia interessar aos seus amigos ouvir as dificuldades de um terceiro.” Passados tantos e tantos anos assistiu ao filme “ O menino do pijama listrado “,e adaptou a música de início, quando o menino “ voa “ pelas ruas de Berlin  ( que na verdade era Budapeste ou Praga na versão do filme , ele não se lembrava bem) a sua primeira memória elegida, e quando não está bem retorna a ela   “ ouvindo “ a música junto . Fica se pegando em mínimas alegrias para manter a sanidade .Apega-se a pessoas , uma pessoa no escritório ( uma loura que não aquela da contabilidade ) a um amigo inglês que pescou na Internet há muitos anos atrás e que por coincidência tinha o mesmo problema de relacionamento com a mulher ( coisas do inconsciente coletivo )que ele tem. Sergio achou que devia explicar e o fez  dizendo que  o amigo,na época, entrou em um site que relacionava pessoas interessadas em trocar correspondências e enviou quase 20 e mails pedindo por amigos para escrever. Alguns poucos retornaram inclusive Trawets , que continua até hoje e se tratavam como Bro ( irmãos ). Então voltou a história .Perto do fim do ano recebeu um texto que falava sobre  Fênix   e renascimento e percebeu que na verdade tudo dependia dele. “ Sergio parou por um segundo e lembrou-se de um trecho do  conto de Omar que dizia ‘ vivi muito tempo em minha própria sombra,agora quero um pouco de luz.’ “E continuando o conto ,não quero mais arrastar minhas correntes, ninguém quer ouvir o barulho delas. Quero que elas se partam e caiam ao chão . Lembrou-se dos  quadros inacabados no alto da prateleira da cozinha. Não era um bom pintor,mas gostava da arte,do cheiro da terebintina e da mística que envolvia os pintores.Pintar o que conseguia era sua maneira de se vingar pela falta de oportunidade de estudar arte.Tinha adorado “ Meia Noite em Paris “.Gostaria de ter suas esculturas em bronze,mas o preço era proibitivo. A menos que conseguisse um mecenas que o patrocinasse.Mas também não era bom nisso. Mas para se vingar fazia as esculturas em argila e revestia com epóxi para criar resistência,e as cobria com folha de ouro para melhorar a apresentação . Deu-se conta de que as quedas se sucederiam, mas que teria que resistir a elas e ,a cada uma, ele iria se levantar mais rápido e mais sábio. Não deixaria mais de aprender algo com cada situação que a ele se apresentasse.  ‘” Sergio viu que os outros dois esboçavam uma cara de sono, tirou os óculos, fingiu que os limpava na gravata meio solta e disse que por enquanto era só.”

Sampa é uma festa (auto)móvel. Sumpa, uma festa junina. – ewaldo schleder / ilha de santa catarina

Sampa é uma festa (auto)móvel.

Sumpa, uma festa junina.

 

Presente célere: passado. Instala-se o inverno, 24 de junho, dia de São João.

Mas faz calor de primavera em São Paulo – posso ficar em casa

de camiseta e bermudas (acostumado com Florianópolis).

Na rua venta um pouco e deixa o sábado especialmente agradável.

Tati descansa de nosso percurso solo: ônibus urbano e demorada espera

pós-aeroporto, depois da viagem tranquila desde Curitiba.

Incongruências no transporte, na interação entre ar e terra =

uma hora de avião + 40 minutos no desembarque e bagagens

+ uma hora e dez de espera do ônibus urbano + 35 minutos

entre aeroporto e Tatuapé + 15 minutos de táxi até a Mooca.

Sampa, sumpa – o que vim fazer aqui?, além de acompanhar a Tati

em sua transição de trabalho daqui a curita.

Moro em floripa e lá eu deveria estar, em minha casa, sossegado.

Arrependimento não se aprende, ouso concluir.

Noutro dia faz frio e chove. Gelam os pés, a alma, as cobertas.

Só Tati, minha namorada, é preciso, somos precisos.

As atrações culturais e boêmias da metrópole não compensam

as aberrações da sub-urbe densa de gente. Os apelos da famosa

movida paulista não valem o impacto poluente

(som, imagem, movimento, detritos) de lata e borracha, do ar chumbado,

proporcional à escala automobilística: e o consumo estimulado

nas classes sócio-econômicas ascendentes, sofisticado nas elites,

consagrado nas camadas compactadas pela vox media, vox populi.

Emergente realidade no País novo-rico e mal-educado;

grande por fora e pequeno por dentro – como a Casa Feres, lá dos pinheirais.

Domingo na paulicéia – a desvairada, a airosa. Garoa. Mudo de assunto, mas nem tanto.

Penso nos brasis: dos pinheiros, das palmeiras, da soja, das matas,

das águas doces e salgadas. A fartura natural incomoda a tecnologia e o capital;

ainda que, respectivamente, a sirva e o sustente. Escassez, finitude, nem pensar.

Aceleramos a demolição: tijolos partidos, madeira aos retalhos, vidros trincados,

 ferros retorcidos, cimento rachado, pedras lascadas, entulhos;

a energia motriz da industrialização a recortar a natureza, a extinguir espécies;

os cálculos estruturais superam a sensibilidade, a sabedoria popular,

o instinto animal dos trópicos. Nada de novo debaixo do sol.

De janeiro a janeiro corre o rio Tietê.

Repartimos o que há no horizonte mais próximo. Buscamos e nos acomodamos,

enfim, aos nossos dois metros quadrados de felicidade. Ou de possibilidade.

De segurança? Locamos e assistimos filmes, lemos livros, revistas e jornais,

Ouvimos músicas. Bebemos. Mastigamos. Ruminamos. Mergulhamos na internet.

Bate o pânico, síndrome planetária.

Tati, paixão hibernal, colo! Teu colo. Sou hóspede da centenária

Mooca (tupi: fazer oca), bairro do clube ítalo-brasileiro Juventus.

Vila adotada por imigrantes lituanos e iuguslavos. Espaço histórico,

do Cine Santo Antonio, anarquista e comunista, berço da pizza tropical.

Pedimos uma de 2 sabores: nota dez. Durmo até achando que aqui mesmo

terminam os descasos brasileiros: a velha, a boa, a cúmplice pizza.

Nostalgia do futuro: – éramos cordiais aqui, Tati, minha paixão transcendental!

DIANTE DA TESTEMUNHA – por zuleika dos reis / são paulo


 

 

É verdade que, todos os dias, Ana fica em frente dele alguns minutos, mas, o tempo urge para o feijão no fogo, o preparo das misturas, o rearranjo dos desarranjos diários, a lavagem das sujeiras que intrépidas se renovam, a supervisão dos exercícios dos filhos, o preparo de suas mochilas, o embarque dos meninos na perua escolar, o elevador que demora, a ladeira para os passos já cansados desde a planície, o ônibus, as esperas no Banco, o pagamento das contas, as compras no supermercado, as multidões nas calçadas, o suor, os faróis sempre muito vermelhos, as buzinas sempre mais barulhentas, as palavras por dentro gastas como as solas dos sapatos, o silêncio cada vez maior diante da TV, das músicas, dos retratos, dos livros, das ideias, do futuro. O silêncio, à mesa, na sala, na cama.

É verdade que Ana jamais fica diante dele o tempo suficiente, mas nem se dá mais conta. Os minutos galopam, a noite todas as noites chega. As novelas sempre adiam para a noite seguinte a cena decisiva na qual a personagem revela ao marido que há outro homem, a cena em que o marido a expulsará de casa ou a perdoará, desde que ela abandone o outro. Depois do jantar, a louça é lavada e os utensílios guardados cada qual em seu respectivo lugar.

A água corre pelo corpo, o corpo se enxuga, veste o roupão. Planejam-se as sequências do dia seguinte. Os corpos se envolvem nos lençóis, as crianças dormem, o sono chega para todos, com os sonhos dos quais Ana jamais se lembra na manhã seguinte.

É verdade que quando Ana olha para ele, os gestos são sempre meio inconscientes, o olhar não se detém e já se lança para o corredor, a mão abre a mesma porta com a mesma chave de todos os dias, os pés repetem os mesmos passos para o sol lá fora, que também caminha com a regularidade cotidiana, assim como a lua e as estrelas. Nenhum cataclismo à vista.

É verdade que houve um tempo em que Ana olhava para ele e havia muito o que ver. Os olhos vivenciavam a transparência, as mãos se erguiam para lhe acariciarem os cabelos, a curva do queixo, a suavidade dos ombros, a sensualidade ereta dos seios. Os sorrisos brilhavam como um Sol. Nesse tempo a vida era um Novo Continente à espera dos navios de sonho que aportavam todas as noites, no eterno presente de palavras sempre renovadas, recém-emergidas do Jardim Primordial.

Ana não se lembra bem da vez primeira em que,  olhando para ele, percebeu a pequenina fenda, quase imperceptível fenda, alteração levíssima a modificar algo na forma e na expressão do olhar, culminando neste rosto de hoje. Irreversível.

gilmar mendes, ministro do stf, QUE ONTEM, 29/09/2010 PEDIU VISTAS DO PROCESSO QUANDO A VOTAÇÃO PARA NÃO EXIGÊNCIA DE DOIS DOCUMENTOS PARA VOTAR JÁ ESTAVA 7X0 , PORTANTO, MATÉRIA ENCERRADA, GILMAR MENDES TOMOU ESSA ATITUDE APÓS RECEBER TELEFONEMA PESSOAL DE JOSÉ SERRA.

REPUGNANTE.

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Quinta, 30 de setembro de 2010, 11h12  Atualizada às 12h01

Líder do PT: Espero que Mendes não tenha atendido Serra

Eliano Jorge


Serra, no momento em que teria telefonado para Gilmar Mendes
(foto: Rodrigo Coca/ Fotoarena/ Especial para Terra)

Líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza prefere acreditar que não foi por interferência do presidenciável tucano José Serra que o ministro Gilmar Mendes interrompeu julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quarta-feira (29), sobre a necessidade de apresentação de dois documentos para votar em 2010.

Ele mede as palavras para não criar problemas com o STF:
– Temos muito cuidado em fazer uma guerra contra o Supremo. A esperança que tenho é que o ministro Gilmar Mendes não tenha tomado esta decisão por conta de um pedido do candidato Serra – afirmou, em conversa com
Terra Magazine.

Afirmando que aguarda a conclusão do julgamento nesta quinta-feira, Vaccarezza imagina que será confirmada a permissão para se votar apenas apresentando um documento com foto, algo visto como favorável ao PT, por incluir a participação de pessoas mais pobres.

Leia a entrevista.

Terra Magazine – Como o PT reagiu à notícia de que o ministro Gilmar Mendes interrompeu o julgamento do Supremo Tribunal Federal após telefonema do candidato do PSDB, José Serra? O partido tomará algum providência sobre isso?
Cândido Vaccarezza –
Nós temos muito cuidado em fazer uma guerra contra o Supremo. A esperança que eu tenho é que o ministro Gilmar Mendes não tenha tomado esta decisão por conta de um pedido do candidato Serra. Acho que o ministro Gilmar Mendes vai devolver o voto dele hoje (quinta-feira, 30) e está resolvido o problema.

Há possibilidade de a votação, que estava em 7 a 0, ser modificada. Os ministros podem mudar seus votos.
Não, os votos podem ser modificados, mas vamos aguardar o voto hoje do ministro Gilmar

O senhor acredita que a votação seguirá do jeito que estava, sem interferência?
Eu acho que seguirá do jeito que estava porque o fundamental que a Constituição garante é o direito do eleitor votar.

AS TRES PENEIRAS (enviado por rô stavis). ilha de santa catarina

Olavo foi transferido de projeto.
Logo no primeiro dia, para fazer média com o novo chefe, saiu-se com esta:

– Chefe, o senhor nem imagina o que me contaram a respeito do Silva. Disseram que ele…..

Nem chegou a terminar a frase, e o chefe, aparteou:

-Espere um pouco, Olavo. O que vai me contar já passou pelo crivo das Três Peneiras?

– Peneiras, que peneiras, chefe?

– A primeira, Olavo, é a da VERDADE.
Você tem certeza de que esse fato é absolutamente verdadeiro?

– Não. Não tenho, não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram. Mas eu acho que…

E, novamente, Olavo é interrompido pelo chefe:

– Então sua história já vazou a primeira peneira.
Vamos então para a segunda peneira que é a da BONDADE.

O que voce vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?

– Claro que não! Deus me livre, Chefe! diz Olavo, assustado.

– Então, – continua o chefe – sua história vazou a segunda peneira.
Vamos ver a terceira peneira, que é a da NECESSIDADE.

Voce acha mesmo necessário me contar esse fato ou mesmo passá-lo adiante?

– Não chefe. Pensando desta forma, vi que não sobrou nada do que eu iria contar – fala Olavo, surpreendido.

-Pois é Olavo! Já pensou como as pessoas seriam mais felizes se todos usassem essas peneiras? – diz o chefe sorrindo e continua:

– Da próxima vez em que surgir um boato por ai, submeta-o ao crivo das Três Peneiras:

VERDADE – BONDADE – NECESSIDADE….

– Antes de obedecer ao impulso de passá-lo adiante, porque:

PESSOAS INTELIGENTES FALAM SOBRE IDÉIAS

PESSOAS COMUNS FALAM SOBRE COISAS

PESSOAS MESQUINHAS FALAM SOBRE PESSOAS!!!

HOMEM SENTADO por ronnie von martins / pedro osório.rs

Engolia todas as dores. E já se acostumara. Não havia dor que não estivesse acostumado a engolir. Todas. Friamente às engolia. Às vezes mastigava-as. Lentamente. Tudo ao seu redor era lento. Denso. Tudo era denso. Densidades estratificantes que lhe cobriam, envolviam em camadas. Como uma cebola. Não comia cebolas.

Os movimentos eram raros, da cama ao assento frente a parede que não se abria em janela, mas que se fechava em parede. E mesmo assim, seus olhos paravam ali. No espaço que só o olho do homem sentado conseguia ver. Ver? Seria uma frincha? Existiria a possibilidade de o olho buscar e se esgueirar pelos interstícios invisíveis e “impossíveis” da parede?

Comia dores e bebia chimarrão. Amargo e quente. E não escuta o rádio. Mas sempre ligava o aparelho. Uma estação além das vozes chiava dialetos singulares e vetustos. E seus olhos por breves instantes pareciam brilhar.

O tempo era impreciso, já não era possível determinar se era presa de Kronos ou Aion, ou se decidira deixar o corpo para um e o resto para o outro. Mas parecia que já havia preenchido seu quinhão de real com várias toneladas de memória e delírio.

Pelo substantivo louco, era definido pela família. Nunca apareciam, mas pagavam uma funcionária para limpara o pequeno apartamento. Ela chegava lépida, faceira, pequenas e infames piadinhas nos lábios, barriga volumosa e satisfeita, espantando fantasmas e poeira com seu espanador encantado.

Ele ordenava a sua máscara que forçasse um sorriso. Cordialidade. E o que saia era uma careta engraçada que fazia a mulher sorrir e dizer mais besteiras.

A funcionária era um vento. E soprava  com força todo o silêncio e a solidão do espaço do homem, mas quando saia, a gravidade puxava-os para baixo. E ele realmente não sabia se gostava do agora ou do antes.

“O que estás vendo?” às vezes a mulher perguntava e ele respondia que via a cidade da memória. E ela ria. Aquecia mais água para a térmica, perguntava se ele não queria trocar a erva. “Uma carteira de cigarro” ele dizia, mais que pedia. “Eles disseram que você não pode fumar” e ele sorria. E ela trazia a carteira e ele incendiava o lugar. O fósforo incandescente por segundos frente aos olhos e em seguida a fumaça se esvaindo e abraçando o ar em valsa erótica. Lascívia. “Eles se amam.” Ele dizia. “Quem?” perguntava a mulher. “A fumaça e o ar.” A gargalhada era dela, o silêncio dele. “Você é esquisito mesmo, hein?” “É.”, dizia o verbo pensando na conjunção “e”. Este era o problema. A finitude das coisas e de si mesmo começavam a lhe causar estranhamentos. Gostaria de se ligar a outra oração, acrescentar eternamente. O meio das coisas. O verbo ser. A palavra “é” definia, estagnava e prendia tudo que não deveria ser nas estruturas  sedimentares do “é”. O ser.

Ria desta suposta unidade. E se esvaia em fumaça. E dissolvido em nevoa, qual vampiro, perdia-se inteiramente pelas frestas do seu corpo real e organizado.

BICO de josé alexandre saraiva / curitiba


Era chefe do serviço de protocolo em importante repartição pública de Curitiba. Anos 80. Elegante no físico, roupas moderadas, sereno nos gestos. O polaco magrelão era o mais atencioso com os colegas e com o público. Cinquentão, ganhava o suficiente para manter a casa e os dois filhos na faculdade. Fusquinha impecavelmente encerado, tinindo de novo. Um barnabé feliz. Contas em dia, aposentadoria bem ali, pertinho. Gabava-se de suas qualidades de orador. Certa vez, em brincadeira de fim de ano na seção, foi eleito “O Mais Mais” na arte de Cícero.

Ano 2000. Vejo-o agora carregado com os fardos do tempo. Voz minguada, distribui folhetos comerciais nas esquinas da cidade. Inexplicavelmente, valendo-se da multidão, ele tenta esquivar-se de mim. Não consegue. Dêmo-nos as mãos. O mesmo sorriso recatado, a mesma simplicidade. Parece conter uma história pessoal. Incontável, talvez. Ares de resignação, diz: “Somando com os panfletos da noite, ganho mais que a aposentadoria. Sem imposto de renda na fonte e com direito a vale-transporte”. Pergunto sobre o fusca. Nostálgico, responde: “vendi há três anos”.

Num gesto discreto mas suspeito, que ele tenta disfarçar encostando-se à parede, coloca um papel colorido e acetinado no bolso do meu paletó. Com uma mão côncava no canto da boca, como quem revela algo secreto, sentencia baixinho, porém convicto:  “Aproveita, vale a consumação!”

PRAEMONITIONE e SESSÃO À MEIA LUZ – de raymundo rolim / morretes.pr

Praemonitione

Primeiro desceu as escadas correndo feito um maluco. Depois andou oito quadras e meia sem respirar direito. Precisava a qualquer custo vencer os próprios limites. Titulara-se no trigésimo quinto e sexto idiomas – aramaico e dravídico – que passou a falar, escrever e arriscava-se mesmo a compor alguns poemas nessas línguas, que de tão antigas estavam quase a morrer. E já pensava numa nova loucura, quando algo lhe tocou o ombro. Estremeceu. Voltou-se lento, vagaroso, temeroso, na direção da mão que fendia o ar e se transfigurava numa coluna de fumaça branca. Pressentiu que dessa vez seria ele a reencarnação final de Copérnico, o novo papa; e não um outro!

Sessão à meia-luz

Sabia e muito bem, que teria de se apressar, se não quisesse chegar atrasado para a sessão de “desencarne”. Bem, pelo menos era este o nome que davam lá nas sessões, num bairro que ficava longe, na periferia. Chegou e foi logo convidado a ficar no canto esquerdo, ao lado da médium, que respirava de modo esquisito, pressionando o ar e bufando feio. Pediram-lhe que se sentasse e não cruzasse mãos ou pernas, que fechasse os olhos. Ficou um pouco ressabiado. Sabia das muitas histórias de “receber o santo”, e que nesse estágio, as pessoas faziam coisas horríveis, como girar, rolar no chão, falar com voz que não a própria…eu hem, pensou! Logo ele que se achava o próprio santo e de modo algum carecia de receber um outro -. E também, não era muito chegado a isso e não confiava em santo alheio a não ser no próprio. Possuía os seus, sabia-lhes os nomes, os milagres, data de canonização etc. e tal. Bem, já estava ali no escurinho mesmo, não custava fechar os olhos. E de certa forma, lhe fora gentilmente solicitado. Com aquelas velas fraquinhas, manteria uma frestinha, uma nesga de olhar a bisbilhotar o recinto, no caso de algum imprevisto. E foi o que fez. E aí, foi quando viu mãe Maria. Sabe-se lá por que, segurava e vinha com uma faca enorme para as suas bandas. O homem levantou, desatou a correr, derrubou muitas imagens de São Jorge e outras tantas de exus e outras que nem sabia quem ou o que eram. Disparou porta a fora. Tamanha inquietação não lhe permitiu reparar no bode preto que estava amarrado ao seu lado, resfolegando feio. Ele, o bode, era o objeto do desencarne e não ele, o convidado. Ficou para uma outra vez, uma outra sessão que ele sabia, de antemão, jamais estaria lá.

“O TEMPO e o ESPAÇO” e “DE REALEZA e de LOUCO…” por raymundo rolim / morretes.pr

O tempo e o espaço

 

A manhã passava depressa apesar do sol radiante. Veloz como uma corrida de bigas. O jardineiro não conseguiu colher mais que uma dúzia de flores (quando a média beirava às dezenas de dúzias). O padeiro conseguiu vender apenas um quinto do pão costumeiro e o homem que ordenhava as vacas não chegou ao final do segundo balde de leite. O relógio andava na mesma balada, mas, algo não estava bem. Era preciso descobrir o que houvera, pois os telefonemas eram interrompidos assim que chamavam. Um físico acusou uma rachadura no tempo que se dividiu em dois: antes e depois. Os que ficaram com o antes, adquiriram a primeira parte da manhã e por lógica simples, a outra parte com os que optaram pelo depois. Não sem muitas e exaustivas negociações, (explica-se): O fato suspeito teve desdobramentos nas relações interpessoais, pois partilhar as manhãs, não era tarefa de pequena monta. Os que tinham mais urgência do tempo compravam-no dos que dele dispunha, e passou-se a comercializar até mesmo semanas futuras de anos bissextos. Alguém teve uma grande e luminosa idéia e convocou os concidadãos a opinarem. Em conseqüência, fizeram relógios que andavam para trás. Assim o dia começava tarde e terminava com todos no berço e no colo do espaço, à medida que o tempo engatinhava rumo ao sol nascente.

 

De realeza e de louco…

 

Por mais que se tentasse extrair do infeliz uma confissão feliz, ele jurava inocência. E dizia sempre a mesma história e tão repetidas vezes e de tal modo nos mesmos detalhes, que a sua versão passou a ser aceita como a mais completa até então. O júri havia se reunido pela décima sétima vez. Fazia-se necessário e urgentemente por um final àquelas sessões infindas. Entrariam num acordo, desde que o sacana não expusesse desta vez como dantes, as suas lágrimas, que a todos comoviam para finalmente entrarem num choro compulsivo e coletivo. Passaram aos autos do processo que se sabia de cor parágrafo a parágrafo, volume a volume, quando o danado teve uma idéia. Mudou o curso de tudo até então dado por certo e definitivo. Disse que desta vez falaria a verdade! Houve tumulto, tentaram adiar a sessão. Juízes eram acometidos por chiliques e cacoetes pessoais. Não havia quem se conformasse! Ninguém queria outra versão por ser a atual de interesse geral – segundo alguns – e particular segundo outros. Além do que, a todos agradava o final que o confesso autor deitava à própria história de um realismo fantástico, cujo fecho de ouro, apontava para uma série de dúvidas que ainda pairava sobre o caso. Absolveram-no por exclusiva falta de provas conclusivas, por mais que ele insistisse em dizer que era uma espécie de mordomo clássico e único culpado pelos deslizes amorosos dos súditos e que se esforçava sempre pelo reino e por todos que estavam presentes naquela sala! Internaram-no com uma certa urgência. O rei delirava!

O PANDEIRO e SEM EIRA – de raymundo rolim / curitiba

O pandeiro

O sol já vinha de revirar a noite de boca pra cima quando “o samba descansou, porque um samba, jamais se acaba”! Foi esta a última frase que proferiu o Zé do Morro antes de fechar o paletó. Ele que sabia gingar e entendia da bocada de além fumo e aquém morro. Muitos mares e muitos portos seguros de terras estrangeiras conheceu o Zé. Até sabia falar palavras e frases inteiras em esquisitos idiomas. Largou mão de tudo! Agarrou-se com o samba. E compôs. E ficou alegre. Alegre de morrer.

Sem eira

Estava convicto de que seria alguma coisa na vida; como dizem! Desde que tivesse qualquer importância. Qualquer bobagem lhe soava como sendo uma boa coisa, desde que fosse imediatamente reconhecida como uma bobagem. Já era um reconhecimento e logo tinha importância! Aí, pensou bem e de novo e não achou mesmo lucro algum em se tornar o maior criador de pernilongos. Além do processo da cadeia alimentar, para que é que servia exatamente, na ordem do dia urbano, um pernilongo? Achou tão boba essa historia que não a quis, deixou-a pela metade. E mesmo porque os sapos andavam tão escassos na cidade! E sapos na cidade não tinham lá tanta importância.

CHUVA por omar de la roca / são paulo

“Tenho medo de trovões”,ela me confessou,enquanto tomávamos néctar diretamente dos cálices das flores.Estava quente e estávamos sentados num banco suspenso por correntes de ar.”mas anseio pela chuva como anseio pela luz.Mas não aquela garoa gelada que só incomoda e não molha nada,ou molha tudo.Anseio pela chuva forte,com ventos indiferentes e cortantes que penetram em todas as frestas.Quero a chuva forte que me faça ajoelhar para o prazer,que me force a deitar e me penetre profundamente como se eu fosse feita de terra.A chuva que me domine a força e me faça rir enquanto me afoga aos poucos.Que desmanche meus medos como se fossem torrões teimosos,mas me deixe fértil  e preparada.Espalhe as ervas daninhas para que escorram pelo ralo.Deixe a semente plantada para que a planta cresça forte com suas raízes,caule e flores.Que frutos só saberei mais tarde.Que percorra todo o meu corpo com suas línguas rápidas e ávidas e me deixe as pernas bambas, me fazendo rir ou chorar,não importa.Que me mostre o que o numero quatro pode fazer comigo,me sacudindo ,me levantando para fora do chão e depois me colocando suavemente de pé,mais fraca agora ( a chuva ) quase garoa ( a chuva ) gotejando lentamente pelos meus cabelos,peito,coxas e pés, até meu corpo secar.Depois, que eu possa me sentar entre as folhas,vestindo minha túnica de vento,puxando as franjas para cobrir os pés frios.”E eu ,atônito,sem saber o que dizer depois de tanta poesia pluvial,ofereci minha mão.E  eu disse : Joguei a corda para o teu lado do abismo.Você pegou,olhou bem para ela e a deixou cair nas sombras sem entender que eu precisava de você.” Ela me olhou como se não entendesse aonde o que eu disse se encaixava.E riu,um riso de deboche.” Acaso não percebes a proposta que te faço?” Ela disse. E respondi “ Sou fraco e não conseguiria te dominar como desejas que a chuva te faça. Apenas jogo minha corda para mantermos contato e quem sabe achar uma saída juntos.Mas imagino que você queira a plenitude da luz.Que te recorte em tiras,penetre no âmago de teu ser,te fazendo sentir completa.Que te faça rodopiar e dar cambalhotas enquanto  prende teus braços  e te possui cegamente.Ofuscando ate teus próprios sonhos de prazer indo e voltando dentro de ti,indo e voltando enquanto estiras a cabeça para trás e gritas ao vento,explodindo.E abraças a luz e a brisa do mar como abraçastes a tempestade e seus ventos.Com  prazer .E depois te deixe só na escuridão com as gotas de luz secando pelo corpo,enquanto te deitas em folhas secas com tua túnica de  espuma do mar.”Você me olhou,como se olhasse alguém que lia um livro de poesias em voz alta.Como se eu pudesse te dar o que você queria,precisava.” Sou apenas um amante mediano,com pouca chuva e pouca luz.Posso de dar o que posso te dar.Se esperas plenitudes de mim,repito, sou apenas mediano.” Trovejava forte agora,e ela se achegou a mim.Abracei-a como pude e fiz um carinho tímido.Beijei-lhe os cabelos encharcados de chuva e brilhantes de gotas de luz e a tomei delicadamente,como sou,com jeito.Passei as minhas mãos pelo corpo dela,passei os lábios.E a penetrei  sem pressa.Cuidando para que seu prazer fosse antes do meu.Mais uma vez.Até que poucas gotas molhassem sua fronte e refletissem o brilho da Lua no céu.Um reflexo de um reflexo. E choramos juntos por reconhecer nossa pequenez diante do que sonháramos.Um sonho de chuva e luz,de ventos fortes e brisas do mar.Nos sentamos de novo no banco suspenso pelas correntes, ajeitando nossas túnicas imateriais e voltamos a conversar sobre nossos sonhos exaustos,mil vezes sonhados. Admirando a transparência turva da água que caia.

SEM CHANCES e A SORTE DOS MERCADORES por raimundo rolim / morretes.pr

Sem chances

Que inferno que nada, gritava o ateu empírico. Deus? Céu? Nem pensar! Não vou e não quero. Recuso-me terminantemente a ir a qualquer desses lugares pelo simples, tranqüilo e justificado motivo de nunca ter comungado com tais Entidades antes. Não seria agora, depois de fazer a grande travessia da vida que se entregaria, assim sem lutas, nem bandeiras. Fez uma careta danada de feia, torceu os braços numa banana sólida. Fora-lhe o último gesto a carregar túmulo adentro.

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A sorte dos mercadores

E veio a neve e veio o frio e veio a chuva e a tempestade e o maremoto. Depois o furacão impiedoso e o granizo, a peste e a fome. Os vulcões explodiram, liberando um forte cheiro de enxofre e na saraivada de impropérios, o carrasco brandindo a machadinha na mão direita com o decreto real na esquerda, despojava a todos de seus bens. Mulheres e filhos abandonados à própria sorte correram, e os trovões se expuseram assustadores. Raios e mais raios coriscaram os céus e a terra com intensidade jamais imaginadas enquanto os cães ladravam. Um dragão saiu do fundo do mar e a besta do Apocalipse roncou alto. Nos campos, os grãos secaram e um terremoto sacudiu a crosta. As montanhas vieram abaixo e os vales se elevaram enquanto a caravana passava tranqüila.


“A FORRA” e “FIRME E FORTE” – de raymundo rolim / morretes.pr

A forra

Os sinos já haviam dobrado mais que o suficiente para que os ofícios principiassem com a abertura dos trabalhos. E nada do sacristão parar com as badaladas. Fechara-se por trás da porta de ferro antiga e blindada, que em tempos idos de guerra, serviu a cidadezinha como torre de vigia e abrigo de víveres e água potável, caso resistisse aos impactos. E lá estava ele, que havia enlouquecido com o vinho do padre e resolvera mostrar a todos, como é que se fazia! (É que a cidadezinha não aprovara o namoro dele com a filha do prefeito). Prevenido, lembrou-se de estocar também muito vinho, para que sua permanência fosse o mais agradável possível, já que de antemão, traçara planos. E o sino continuou, e foi por todo aquele dia e adentrou a noite. A cada hora, era socado pelo sacristão com uma fúria terrível a ferir os ouvidos dos pacatos cidadãos que, de joelhos, rezavam para que lhe voltasse o juízo. Ainda mais que era moço bem quisto de todos, pois o conheciam desde criança, devotavam-lhe até algum apreço, apenas não aprovavam o namoro dele com a filha do prefeito, devido a incrível rebeldia da moça em acatar as ordens paternas, além de ser dona do único lupanar existente na região, onde os prazeres corriam graúdos e às escâncaras. Escandalosos, exatamente! Mas, paixão é paixão, e a moça lhe roubava por completo todo o seu ser e o fazia sofrer de modo vil. O vinho já ia pela metade do estoque quando, ao sétimo dia, chegou o vigário da capital para exorcizar o moço que se encontrava possuído de coisa ruim. A imprensa teve acesso ao fato. Chegaram caravanas de repórteres com suas câmeras de assédio e gente de binóculos, caneta e papel na mão. Procurou-se pela mocinha, a tal da Juju, a dona do bordéu, lá no próprio, para que se obtivesse mais informações sobre aquele caso purpúreo que intrigava e daria matéria sobre matéria. Saiu-lhes a atender uma mocinha extravagante e semi-nua que soltava baforadas de um cigarrinho enroladinho – cigarrinho de artista como ela dizia – hummm- e bebia longos tragos no gargalo da garrafa. Informou-lhes ela, que a prima Ju desaparecera há uma semana e que provavelmente deveria estar numa outra festa louca, lá na torre, com o sacristão. Bem que se ouvia música em altíssimo volume entre as badaladas e risinhos e fumacinha de cigarrinhos artesanais saíam pela chaminé impoluta, que ganhava ares de fábrica ao povoadinho….! “Valha-me Santo Expedito”! – ouviu-se uma horinha lá o sacristão dizer isto sussurrando -!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Firme e forte

Ela já havia entrado na idade. E era idade o bastante para duas ou três vidas. E danou-se a querer se apaixonar novamente. Seu queixo trêmulo e o andar claudicante não ofereciam perigos maiores, mas que o glamour tinha ido pelo ralo, isto tinha. A coisa estava cada vez mais difícil, quando lhe surgiu à frente um senhor de iguais tremores no queixinho e tempo de vida. Foi amor à primeira vista. A palavra primorosa que ela, a descendente do tempo, dirigiu-lhe em tom ansioso e espontâneo, foi à custa de saber se aquele senhor ali, postado à sua frente, estava mesmo potente! Ao responder aquele “sim” analítico e convicto, o oponente-pretendente teve uma síncope e seu coração não agüentou tanta emoção. Ela comoveu-se tanto e de tal forma com o fato (pois, havia acabado de perguntar se ele estava “contente”) que acabou por acompanhá-lo em mesmo guardamento em mesma capela mortuária. Ele também já andava ouvindo com dificuldades… e ela se expressava por parábolas. Foi bom assim.

EXORCISADO EST de raymundo rolim / morretes.pr


Não passava um dia sem que pudesse se livrar do barulho no interior dos seus ouvidos. Consultou-se a muitos do ramo e também a leigos e ninguém lhe pode ajudar. Perguntavam-se então de como e se era possível que naqueles ouvidos cantassem sereias. Ulisses nem aí! Pedia que o amarrassem mais e vigorosamente com cordas novas e nós fortes. Não poderia jamais ceder aos cantos-encantos daqueles seres míticos. O homem era um rolo de amarrias, suspiros e desajeitos e já não podia mais se mover, nem falar, nem nada; (enquanto os rabos-de-peixe, de canto constante, lhe desfiguravam a face). Mantinha os olhos fechados. Nada pedia nem de nada reclamava. Acreditavam que desta vez, em sua quietude, teria ele se livrado para sempre da cantoria daqueles demônios, do qual o mesmo se achava vítima confessa e fiel. Não saberiam nunca! Quando ao cabo de longa travessia o desamarraram, seu corpo estava esticado, frio, impassível e sua voluntariosa alma possuída da sensação de quem ouvira a mesma e aguda nota do começo ao fim. Jogaram-no ao mar. (Por sobre ondas e marolas, seres invisíveis ao cair da tarde, carregavam-no para todo o canto e assim que se ultimava o dia, como se fosse ele um cão de estimação, um bichinho de brincar de faz de conta, puxavam-no para lá e para cá até o deixarem assim, boiando, subindo e descendo com as marés. Queriam tais seres que Ulisses se rehidratasse e que ficasse fortinho, bonzinho. Queriam que Ulisses aprendesse a cantar, como elas, com elas). Optou-se enfim, por consentir estas práticas de técnica vocal para as calendas gregas. Descansou Ulisses e não aprendeu a cantar nesta vida!