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TATUAGEM DO DESTINO de luis garcia / tomar.pt


Arrancara o som de cada palavra;
uma busca pelo sentido
que só se encontra no momento seguinte
e um abraço cheio de vazio por desculpar…

Suprira o valor,
fizera um instante em que fosse rei
e chorara por ter muito para esconder!

O receio desenhara-o
como se fosse ele próprio
a tatuagem do destino.
E a mão que estava tão perto
só conhecia palavras de dor

 

CORALE de cristina annino / itália


Abbiamo preso le vostre

scorie, abbiamo sofferto per

farcele

entrare dentro; c’avete fatto più

male di quanto credete. Lo

dicono gli

alberi, mica noi. Eppure questo

panorama scortese, coi

gradini da un lato, mostra a

voi fermi, il Transito. Con

salto strusceremo la

terra. Siamo

stati quel che si poteva.

Soli, nel

senso magari di vera

fagocità; ci s’è

scappati di mano, può

darsi, per ansito forte

di sogni. Ora,

lividi di lingua, zitti, si

siede sopra noi come

tromba, l’aria e lo spazio.

 

.

Da Magnficat. Poesie 1969-2009 (puntoacapo, 2009)

 

CINEMA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 

 

Gosto de ver cartazes nos cinemas

como se fossem uma exposição,

por um longo tempo olhei o cartaz do filme do Homem-aranha,

que linda a perspectiva, o nadir.

O uniforme entrou em mim até a segunda babuska.

Compro entrada,

será um suvenir.

Entro no banheiro

sinto o perfume do sabonete líquido,

morango,

cai sobre as mãos como calda,

devia ser comestível.

Compro coca

beber coca-cola é uma performance pop,

salgo a pipoca

a deixo com gosto do Mar Morto.

 

Dúvida nostálgica

entre mentos fruit box ou confetes m&m`s,

Discutem a terceira e a segunda babuska.

 

Com olhos esfomeados

entro no cinema.

 

Quero sentir, toco as paredes do corredor,

procuro detalhes bonitos, bebo o néctar dos detalhes.

 

Como é fresco, algo de templo,

o clima deve ter sido importado de uma montanha tibetana

veio de iaque, avião, navio, caminhão até aqui

 

Reverente, vontade de nadar, passear como peixe num aquário

sobre as poltronas, passar perto da tela, do projetor.

As luzes me atraem, tenho algo de mariposa, queria morrer na luz.

 

O filme tem

de movimentos graciosos algo de balé

mas gostaria de ter mais tempo para ver os cenários, a cidade,

acho que as edições são muito rápidas para uma alma contemplativa.

The end

Arranco um pedaço da alma do cinema

e saio,

tirar a alma não mata, alma é como fígado se regenera.

 

VÊNUS NO ESPELHO de josé delfino silva neto / natal

 

 

 

 

 

Deitada no quarto em penumbra

Entre lençóis de linho encoberta

Enroscada desnudado em ter-te

Inalcançável como uma asa

Refletida faz-te e semeada

Em chão de pedras batidas

Pontos de luz fogaréu ao longe

No quadro antigo em claro-escuro

O riacho em cheia parecendo rio

Em faces de espelhos d´água  onde

Meu fogo afoga-se sem guarida

Como se  irreal imagem fosse

Vertida em desconsolo imenso

No vazio do meu gesto em ver-te

Vinga o meu sofrimento

 

 

SOLIDÃO de omar de la roca / são paulo

 

Sacrifiquei as lúdicas palavras,

querendo apurar meus sentidos.

Suprimi o duplo sentidos das palavras,

Mas sem ele as palavras  ficaram ocas.

Pobres palavras, meio mortas de cansaço

mas de um cansaço meu e não delas.

Serei eu o meio morto ?

Aguardando as palavras me acordarem?

Do sono agitado, de sonhos cansados,

que se repetem a cada dia mas não se realizam?

Sacrifiquei as poéticas palavras,

Achando que algum sentido faria,a falta delas, a sua ausência.

Mas ausências são raramente boas e sem sentido as vezes.

E cismei, para que ?

Que sentido posso eu fazer se não puder surpreender  as pessoas?

Criar mundos ambivalentes onde o sonho corre descalço numa estrada de pedras?

Continuar questionando se posso ou não, se quero ou não ?

Se irei ou não ? Ou como farei ?

Se posso continuar por ai, sem medo de ferir e ser ferido?

Tentei reviver as palavras mortas.

Consegui apenas reviver alguns segmentos. Não sei se os melhores.

Não sei se conseguirei reuni-los novamente na mesma folha,

E pior , não sei se ainda farão sentido.

Ou se seguirão assim , escondendo o rosto ,

mostrando apenas um olho exausto.

Se arrastando na meia escuridão.

 

 

BEIRA-MAR de manoel de andrade / curitiba

 

 

 

 

 

 

 

 

Tudo abeirou minha infância

beira do rio, beira-mar,

orla branca de esperança

no leste do meu olhar.

 

Meu batelão emborcado

à beira de me afogar,

eu sobre a ponte abeirado

puxando minhas puçás.

 

Beirando todas as rotas,

nas asas das gaivotas

meus olhos cruzavam o mar;

 

sonhava à beira do cais

com um barco, nada mais,

e eu no mundo a navegar.

 

 

 

 

Curitiba, novembro de 2004.

 

 

JAIRO PEREIRA e sua POESIA / quedas do iguaçu.pr

O LOUCO BOM E AS MATRIZES

.

um louco bom despacha sozinho em seu balcão

um louco bom sou eu a pé e a cavalo

poeta de vastas claridades olhos pro infinito

no azul transmundo do entendimento

epistemologias exegeses labores solitários

a língua geme no corpo dos verbos

recém-inaugurados

um louco bom chuta matrizes ao espaço

núcleos concêntricos dos transignificados

matrizes florísticas do transfinito no real

onde pétalas pêlos escamas compõem vidas novas

na vertigem da criação: o aproveito pleno das sobras

matrizes de um louco bom q. despacha sozinho

um louco bom atrás do pequeno balcão das idéias

versado em erros e acertos no miolo das odisséias.


.

PERDAS E GANHOS

.

uma revoada de pássaros em minhas palavras

asas na amplitude do dizer sem precedentes

nervosas inaugurações na língua

e tudo por um mínimo de brilho

longos os trilhos as idas retornos dos signos

estreitas as vias transversas das imagens

complexas as gnoises as hastes as revertigens

trípticas as telas no superespaço sidério

máxima virtude do criar o ser criado

um passo prum vendaval interior

lastimo a falta do espectador atento

nada fazer pra vencer e tudo ganhar na poesia

belos cavalos mulheres jogos caçadas inventos

pouco saber e muitíssimo arriscar na loteria dos signos.

 

.

NO PRIMEIRO CONGRESSO INTERESPACIAL

DOS SEMIOLOGISTAS

.

na via XPTZ 14 acelerei o trusbólido

na mesma mesa em q. Peirce transmitia

vi Leminski –um grosso baseado aceso-

olhar rísico insurreto ou de escárnio

no Congresso dos Semiologistas no árido

REXTYX 640 aquele asteróide da órbita savagé

é q. encontrei vc com seus óculos transmióticos

pura redenção sígnica a esphera atômica em minhas mãos

esphera de significados difusos prata com brilho lunar

esphera de concêntricos núcleos espelhos nos espelhos

esphera positrônica na mão direita exibida aos semiólogos

a esphera ardia em alta rotação sígnica

pedi a Leminski um basta de contradições nos ditos

e Peirce por bem ou mal suspendeu a sessão.

 

.

DOS IMBECIS

COMO DONOS DO MUNDO

.

os imbecis na midiosfera investidos de sóis

deuses da mediocridade os imbecis

os imbecis supremos

carnavalizam a vida como podem

enquanto trabalhamos sofremos pensamos

os imbecis resistem dionisíacos

a melhor porção da nathureza pra nós criada

aos imbecis se consagra como totem do supercapital

imbecis: os imbecis estão vencendo

já ganham nossos espaços bebem do melhor vinho

roubam nossas mulheres festejam

os imbecis do mundo inteiro estão vencendo

palavras cobertas de cal :augúrios de má-fé:

soberba nos atos perfídia no modus q. contemplam.

.

.

AZPHYZ 888:

ONDE VIVI

.

não só nesse asteróide mas noutro o AZPHYZ 888

o mago dos significados híbridos é q. vivi

ali foi decidido tudo sobre o signo

o q. deve dizer e diz sem precedentes

medo de ficar doente me meti na cápsula plúrima

alumínios de alta resistência e carbonos finos

a esphera ardia em minha mão direita

a esphera incircunscrita aos meus dedos

pedia a todos por meu destino

e ninguém respondia só o reflexo dos triumphantes

asas longas e prateadas transmitia bons sinais

o futuro chegando mais cedo em minha casa

o futuro sem seguro licença taxa ou prêmio

caído dos céus como chuva de ouro

no país do nunca mais.

 

.

O HOMEM Q. QUERIA

SER ROBÔ

.

sou o homem q. queria (e ainda quer) ser robô

um coração de metal cérebro superchipado

pulmão de espuma sintética braços de carbono leve

pernas com veias de mercuriocromo

erijo-me em robô e tenho a pele estampada em zinco

olhos refletores de gás néon dedos como garras em cobre

o homem robótico q. almejo e sou a partir de agora

não geme não chora deve mas não teme pondera

sou o homem-robô construído protonathuralmente

costurado com arames oxid’s nos fundos da casa

materiais desprestigiados em estruturas criativas

o ente robótico em q. me finalizo e sou

ansia pelo intelecto perfeito computar o indizível

deter muitas línguas numa só com verves associativas.

O LOUCO de vera lucia kalahari / portugal

 

 

Chamavam-lhe louco…

 

Porque vivia a vida que Deus lhe dera

 

Fazia o que lhe aprouvera

 

Sem receios, sem ofensas

 

E sem promessas suspensas.

 

O seu Deus verdadeiro

 

Era a sua consciência

 

E com ela estava bem.

 

Não queria mal a ninguém,

 

Não roubava, o alheio não cobiçava,

 

Não pregava liberdade

 

Em longos discursos cansados,

 

De serem lidos, relidos,

 

E nunca serem cumpridos.

 

Não ouvia maledicências

 

E não tinha, nem consentia,

 

Em ódios, segregações sociais…

 

Em nenhuma hora aplaudia os comícios sindicais

 

E nem sequer conhecia

 

Livros,. Leis e outros mais.

 

Para ele a melhor Lei,

 

Era a que fosse verdadeira.

 

Nunca uma Lei ditada apenas pela razão

 

De sábia e douta carreira,

 

Mas a Lei do coração.

 

E porque era tudo isto,

 

Do princípio até ao fim,

 

Honesto, recto, leal,

 

Não farsante, adulador, ou outras coisas assim,

 

Não o consideravam um homem.

 

Era um louco. Nada mais.

 

 

FRATURAS de josé delfino / natal

 

 

ah as palavras

num  vai e vem

em  minha mente

se  abrem e fecham

em  copas como lábios

como  portas

como dedos de  mãos

que vagas imitam

em arco envergam-se

sobem e descem

às folhas de papel

se curvam se rendem

e escrevem

e não dizem

[…]

é  que elas se escondem

nos  vãos da casa

na  janela no telhado

debaixo  da escada

nas  frestas do chão

em utensílios  de pouco

ou nenhum valor

esquecidas  em armários

em quartos de despejo

em  malas e cartas

em  velhas compoteiras

no oco de elefantes

de falsa porcelana

em cima das  geladeiras

[…]

como e lembradas são

à  paisagem inglesa partida

das  xícaras de chá trincadas

amanhã de cacos esquecida

no fundo das cristaleiras

[…]

no varal do guarda-roupa

onde  pendurados  cabides

enrolados em trapos

imitam as curvas

dos teus pequenos seios

tuas ancas estreitas

 

[…]

brancas em quadros

negros expostas estão

soltas nas ruas

sem eira nem beira

em  castelos de cartas

se encobrem

em torres de babel

se confundem

como a água na  sede

como o fruto  na  fome

como a dor esquecida

na cicatriz de um antigo corte

[…]

difícil achá-las

questão de segui-las

vazar a vista  enxergar sonhos

achar nos olhos a cegueira

em quadros objetos  pessoas

procurar  bem

[…]

lugares onde nenhuma esteve

ir e acaso encontrando-as

ouvi-las

e fazê-las tangíveis

corpóreas palpáveis

[…]

mas amiúde nem tudo

é tangível e pior

numa foto ou num quadro

detalhes de coisas

discretas invisíveis quase

indizíveis são

 

[…]

tangível é o meu peito

onde elas se acoitam

e dentro  dele um relógio

a consoante e vogal afeito

que bate bate e bate

a três por quatro pulsando

dodecafonicamente  às vezes

em semitons de violão

o descompasso

 

[…]

 

tictac  tic tac  tictic  tac

que eu só  percebo

e não se escutam

a não ser quando repousam

cabeças  entre mamilos ou

ouvidos sobre o meu coração

[…]

mas lá estão escondidas

na força do vento

na inclinação da árvore

na dança do grão de areia

na forma da nuvem

no vazio do bolso

no sabor da conserva

no fermento da raiz

no tempero da panela

na mistura dos legumes

no iogurte no mel

no correr da água

na lágrima recente

no mercado persa

na harmonia em desordem

na tela do cinema

na catacumba caiada

embaixo da folha em branco

[ …]

no desejo invisível

ao ver teu ventre exposto

nas partes visíveis

de púbis encobertos

no dormido despertar

dos teus olhos se abrindo

[…]

e se vão e se perdem

em gritos gagos

no céu da tua boca

em cheiros e cores

na flor do desejo

no fogo-fátuo

do fálico carinho

no azul dos anos

no vermelho das vulvas

na selva dos teus pelos

meu negro crespo pente

[…]

e se acham e se queimam

no sol da pauta musical

na tua língua calada

no moinho de vento

no grito dos pássaros

no Beethoven surdo

na cabeça do alfinete

no falso desvelo

passado a limpo

no final do pesadelo

[…]

no meu ódio mudo

a inimigos vivos

nas minhas córneas

embaçadas de saudade

no desgosto de ver

um amigo morto

[…]

até no barulho do ido tempo estão

num largo de catedral

mas essas pararam no tempo

e se encantaram para sempre

ao meu lado sorrindo

ao som de um sino a tocar

degraus molhados eu subindo

vendo no céu passar

um avião

 

 

RUA SEM SAÍDA – de osvaldo wronski / curitiba

 

 

 

Havia algo de errado

Passando pela cabeça

Do osvaldo

 

Saiu de casa sem ensaio

E com a roupa do corpo

desabotoou a madrugada

 

O carro na garagem o esperava

Sem aquecer o motor

acelerou em disparada

 

 

O coração batia no limite da velocidade

Empreendida pelas ruas da cidade

Aumentando a quilometragem

 

 

Sem olhar pela sombra do retrovisor

Baixou instintivamente a cabeça

Ao passar entre as pernas do viaduto

 

Sem eira nem beira

Deixou pra trás

Toda a poeira

 

Havia alguém por perto

Bastava achar a pessoa errada

No lugar certo

 

Conheceu no percurso

anabela e anacleto

logo esquecendo

o nome deles por completo

 

 

Falava somente

na proporção do que ouvia

Pagava a vista toda conversa fiada

 

Saiu de si

Ao encontro de algo

Mas não havia alvo

 

Pensamentos dispersivos sobre minha reencarnação – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Esta manhã quis que

meu rosto fosse

cega pedra de nascente

e sentisse a água fresca

temperada com musgos e folhas,

correr eterna sobre minha face.

.

E meu olhar distâncias

ou linha do horizonte

para ver o sol

estender sua luz limpa e quente sobre a terra,

como um lençol recém passado sobre

a cama.

Que de meus braços emplumados de folhas

e dedos transformados em galhos de árvores

pingassem tangerinas.

ETERNA TARDE de alceu wamosy / santana do livramento.rs

 

 

 

A tarde vai morrer, calma como uma santa,
num êxtase de luz infinito e divino.
Há nas luzes do céu qualquer coisa que canta,
com músicas de cor, a tristeza de um hino.

Tudo, em torno de nós, se esbate e se quebranta.
Em nossos corações, como um dobre de sino,
e esperança agoniza; e a alma, triste, levanta
suas trêmulas mãos para o altar do destino.

Não é somente a tarde, a eterna moribunda,
que vai morrer, e espalha esta mágoa profunda
no nosso olhar, nas nossas mãos, na nossa voz…

É uma outra tarde — que nunca há de ser aurora
como a do céu será amanhã — que morre agora,
triste, dentro de nós…

 

ELOGIO DO MILHO de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


A primeira vez que te vi:

milho

ouro vegetal em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

milho ouro vegetal

no prato nosso de cada dia

quirera

teus microgrãos triturados

de mão em mão

brilham na louça

ouro em pó

vegetal na palma de minha mão

um comedor de quirera

vivo na contramão

do tempo e da história

os bolsos cheios do pó dourado

de minhas roças

milho: triturados grãos

falso ouro dos que pedem

consolo dos desolados

na louça branca

na mesa improvisada

na cumbuca do bóia-fria

sob a lona do sem-terra

amo a nathura

onde vivo e trabalho

um comedor de quirera

nasce a cada minuto

:também nasci assim:

um comedor de quirera

minha voz entalou no muro

esse grão que se habilita

a matar todas as fomes

não tem pai nem sobrenome

é milho só em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

crescido sempre na luta

das mãos que o semeam e colhem

:quirera: teus microgrãos

triturados de mão em mão

brilham na louça branca

ouro em pó

vegetal

na palma de minha mão.

 

ELEIÇÕES 2010 – FOLHA de SÃO PAULO – 20/10/2010 – 19h58 Ibope mostra Dilma com 56% dos votos válidos e Serra com 44% – A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, tem 56% das intenções de votos válidos, enquanto José Serra (PSDB) está com 44%, segundo pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira. Pelos votos totais, a petista tem 51% das intenções de votos totais contra 40% de José Serra (PSDB).

A MATEMÁTICA DA BOLHA DE SABÃO – por omar de la doca / são paulo

 

 

Para suportar o fardo,

tive que me multiplicar em muitos.

E me perguntam como nos  suporto.

E rimos, eu e os outros.

Sou muitos, mas sou um só.

Somos crianças, estrangeiros , mar e vento.

Dividimos os pesares para que fiquem mais leves,  palatáveis.

Sem aquela da maior parte,

Que desta arte entendo.

E vamos somando as pequenas conquistas diárias,

As pequenas alegrias.

Os desafios vamos conquistando, sem os subtrair de mim.

Vamos calculando a vida com cuidado.

Sem calculadora científica.

As porcentagens não me favorecem mais.

Com cuidado, sigo. Braços abertos para o equilíbrio.

Seguindo sempre.

Soprando a bolha de sabão.

 

A PALAVREIRA ZULEIKA DOS REIS completa mais um ano de existência ! / são paulo

por questões técnicas não foi possível postar ontem (dia do nascimento) esta homenagem, simples, do PALAVRAS, TODAS PALAVRAS à grande poeta, palavreira da hora e amiga ZULEIKA DOS REIS, a quem dirigimos nossos desejos de muita saúde e alegrias neste e nos demais dias de sua vida, que o tempo lhe seja leve e a caminhada para o sonho não tão longa.

com forte e fraternal abraço,

OS DEMAIS PALAVREIROS DA HORA

 

 

 

 

.

POESIA                                                                                             .de Stéphane Mallarmé

Toda alma que a gente traça
lenta, no ar, em resumidos
vários anéis de fumaça
noutros anéis abolidos

atesta qualquer cigarro
por pouco que separado
fique da cinza e do sarro
seu claro beijo inflamado.

Assim o coro dos poemas
dos lábios voa sutil.
A realidade, não temas,
excluí-la, porque é vil.

A exatidão torna impura
tua vaga literatura.

 

.

Fosse

Seria
pior
não
mais nem menos
indiferentemente mas tanto quanto

As profecias de Igor – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

 

 

 

I

Sete nomes terá a ovelha com estômago de lobo que trará o

Tempo das algemas abençoadas com vinho, e o escriba da

Masmorra escreverá com cobras, poemas tristes. Um viajante

Irá decorar o livro, será assim contrabandeado e traduzido.

 

II

No cio das estrelas as aves do paraíso morrerão ao se

Alimentar com as unhas de Sithar, mas assim conseguirão

Levar oferendas para o lado negro da lua onde vive um cão

Dourado que guarda num átomo a história da humanidade.

 

III

Quando o primogênito reinar, a peste se abaterá sobre

O ouro que ficará coberto de terríveis chagas e as formigas

Desmembrarão os diamantes. Os ciclos parecerão mortos,

Mas uma colméia de lobos negros aprenderá a fazer mel.

 

IV

No cálice de prata cinzelado com a história dos heróis,

A sacerdotisa ordenhará o sangue simbólico do sacrifício

E entoará aos cardeais do concílio, nova mensagem: o sinal

Da cruz não deve tocar o ombro, mas nas palmas das mãos.

 

V

Peixes ornamentais nadarão nas chamas das bibliotecas

E a liberdade perderá seus braços como Vênus de Milos

E as esposas terão que beber água do mar para voltar a ter

Lágrimas e aguardar os rouxinóis comporem outra canção.

 

VI

Aos demônios reunidos, o que foi anjo magnífico anunciará

Acariciando seu gato que uma mãe pacífica em demasia criará

Os trigêmeos do anticristo, então as águias terão que combater

As pombas malévolas e o cordeiro será mais cruel que o lobo.

 

VII

Quando um coral de bicéfalos e irmãos siameses cantarem

Uma canção natalina para o eclipse, seu sinal.Ele assinará

Com uma pena de corvo um tratado de paz nefasto. Sacrifíca

Tua televisão, teu automóvel no altar de Deus enquanto há tempo.

 

VIII

O país justo terá suas leis em um pequeno livro de letras

Grandes, usarão apenas vinte carneiros para os pergaminhos.

O rubi valoroso, seu símbolo, ficará exposto na Ágora, sem

Soldados, maldições ou redomas e não será roubado.

 

IX

Quando a ciência substituir os Sacerdotes na descrição

Do apocalipse e crença na vida eterna for retirada das

Mãos divinas e entregues à medicina saberemos que

o asno apenas substitui uma tolice por outra maior.

 

X

O homem acreditará no sábio que dissecou o corpo e não

Encontrou alma alguma e assim provou que ela existe.

E no alquimista que escreverá na quinta linha que a matéria

Que se transforma com mais facilidade em ouro é o suor.

 

XI

Os que pensam emaranhar os desejos na verdade tecem crisálidas

Dirá o deificado que pacificará com luxúria e um novo versículo

Aparecerá na escritura: quanto mais casto, mais furioso é um povo.

E mostrará no sêmen, os pregadores em desterro no sétimo círculo.

 

XII

Aviões jogarão tigres sobre as cidades e as viúvas gemerão como cedros

Caindo e o povo abandonará suas casas como um filhote de cervo a mãe

Devorada. No êxodo, poucos sobrevirão bebendo o veneno das serpentes

E enriquecendo com sua passagem, os tecelões de mortalhas baratas.

 

XIII

Será o tempo da última fome no sol nascente, porém somente

Tenores poderão anunciar o suntuoso imperador vestido de jade

Mas para provar sua abnegação se alimentará com apenas um

Pequeno pedaço do baiacu, a maior parte será distribuída a multidão.

 

XIV

O que lê no passado, o futuro verá uma amarga verdade no seu cristal:

As nações que enriquecerão a custa da servidão se tornarão dignas

Com mais facilidade que as pobres que tentarem ser generosas em

Demasia antes do tempo, estas retornarão a mais triste barbárie.

 

XV

Quando nenhuma profecia se realizar e a concha não ter mais o

Marulho do mar, o silvo do guepardo, o rosnado do chacal

E o sibilar da serpente, será usado para adormecer as crianças.

A flora gemerá de preocupação porque o leão começará a pastar.

 

FRIDA (fragmento) – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Que coragem tem uma mulher ao morrer!

Que coragem! Homens são covardes.

Diego sente o hálito da morte na boca de seu túmulo.

Por que morrer

Frida ferida?

Ai, teu útero de frutos verdes.

Dá-me seu cabelo cortado

quero fazer tranças e feitiços.

Põe velas para Karl Marx.

Faça promessas a Karl Marx.

E procissões a Karl Marx.

Dê Fé mexicana a Karl Marx.

Peça aquela mulher

para pôr o pênis em você.

Frida sobre uma coluna quebrada

sustentou Diego.

Ai, pensava em Diego.

Ai, como Diego pesava e como era leve.

E como Diego era lágrimas e como era sorriso.

Tequila para Frida.

Tequila que queima minha língua.

Tequila queima, é fogo do Espírito Santo.

Por que morrer Frida?

Por que, morrer estes teus olhos fortes de toureiro

em frente ao touro?

Por que morrer Frida, por quê?!

Ai, queria ter sido um filho teu

destes que não vingaram

três meses em teu útero

valeriam por noventa anos de vida, Frida.

Três meses vestido com teu corpo.

Três meses ouvindo tua voz carinhosa.

Às três horas

depois da siesta

fazia amor com Diego

na tarde quente.

Ele dizia coisas engraçadas e você ria

depois alimentava pavões no pátio.

Por que morrer, Frida, por quê?

 

 

LIBERTÉ/LIBERDADE – de paul èluard / paris

Nos meus cadernos de escola

Nesta carteira nas árvores

Nas areias e na neve

Escrevo teu nome


Em toda página lida

Em toda página branca

Pedra sangue papel cinza

Escrevo teu nome


Nas imagens redouradas

Na armadura dos guerreiros

E na coroa dos reis

Escrevo teu nome


Nas jungles e no deserto

Nos ninhos e nas giestas

No céu da minha infância

Escrevo teu nome


Nas maravilhas das noites

No pão branco da alvorada

Nas estações enlaçadas

Escrevo teu nome


Nos meus farrapos de azul

No tanque sol que mofou

No lago lua vivendo

Escrevo teu nome


Nas campinas do horizonte

Nas asas dos passarinhos

E no moinho das sombras

Escrevo teu nome


Em cada sopro de aurora

Na água do mar nos navios

Na serrania demente

Escrevo teu nome


Até na espuma das nuvens

No suor das tempestades

Na chuva insípida e espessa

Escrevo teu nome


Nas formas resplandecentes

Nos sinos das sete cores

E na física verdade

Escrevo teu nome


Nas veredas acordadas

E nos caminhos abertos

Nas praças que regurgitam

Escrevo teu nome


Na lâmpada que se acende

Na lâmpada que se apaga

Em minhas casas reunidas

Escrevo teu nome


No fruto partido em dois

de meu espelho e meu quarto

Na cama concha vazia

Escrevo teu nome


Em meu cão guloso e meigo

Em suas orelhas fitas

Em sua pata canhestra

Escrevo teu nome


No trampolim desta porta

Nos objetos familiares

Na língua do fogo puro

Escrevo teu nome


Em toda carne possuída

Na fronte de meus amigos

Em cada mão que se estende

Escrevo teu nome


Na vidraça das surpresas

Nos lábios que estão atentos

Bem acima do silêncio

Escrevo teu nome


Em meus refúgios destruídos

Em meus faróis desabados

Nas paredes do meu tédio

Escrevo teu nome


Na ausência sem mais desejos

Na solidão despojada

E nas escadas da morte

Escrevo teu nome


Na saúde recobrada

No perigo dissipado

Na esperança sem memórias

Escrevo teu nome


E ao poder de uma palavra

Recomeço minha vida

Nasci pra te conhecer

E te chamar


Liberdade

tradução de Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

A BRUMA DO LAGO de omar de la roca / são paulo

A beira do lago enevoado

Peguei o livro há muito esquecido

E caiu de minha mão distraído

Enquanto mirava  o céu congelado

E a paisagem estava cinza e eu cinza estava

e o chão cinza recebeu o livro cinzento

Peguei  o livro pela capa e uma pagina voava

dobrada,manchada  e solta,para meu contentamento

que mensagem a velha folha traria?

me daria de volta o colorido?

Com cuidado peguei-a e abri-a

Para logo me sentir traído.

Uma folha em branco por certo guardada

Para uma carta,mensagem quem sabe?

Poesia de amor apaixonada?

Aviso de partida que aqui não cabe?

Guardei a folha ,folheei o livro cinzento

De certo grifado algum pensamento

Encontrei secas flores de cerejeiras

Que voaram  livres e impunes tão faceiras

E elas molharam o chão seco ,minúsculas gotas

De rosa pálido de branco rendadas nas beiras

Iluminaram o cinza,e também as  pedras rotas

Tal qual fossem frescas flores de paineira

Levanta a névoa cinza feito magia

A água azul de leve ao vento dança

Para agora a chuva cinza que caia

Tudo azul e verde e rosa,doce bonança.

Passa o cinza momento

Acaba o cinza dia

O sol brilha em pensamento

Que a escolha me fugia

Escolhi o sol, o céu transparente

Arvore verde florida,borboleta, passarinho

A emoção pede e cedo contente

E caminhando descalço sigo o caminho.

Caminho que não, nunca termina

Passa pelo mar,montanha ,pelo sol

Pela pedra,flor lilás que me fascina

trilha e ponte que vai ao farol.

O vento trás a bruma novamente

Prendo ao meu lado o colorido

Penduro o sol no galho pendente

Sento na arvore,duende foragido

O circulo de sol me ilumina

Me cerca da cor pura que reluz

A névoa triste aqui termina

o cinza é fora, aqui tudo é luz.

MENINICES – de luis garcia / Tomar. pt


Era um costume ridículo.
Um arrojado exercício de amor-próprio
aquele que me perdia; e pensar
qual o tempo que  teria de existir
para o haver que obtemos na idade.

Dívidas que se transmutam
e respiram pontuações
interrogativas, ou interrogatórios
que asfixiam o pouco de fé
em sistemas que nos desgovernem.
Banalidades assumidas
e sorrisos hipócritas.
Um legado de fantasia, que só bebemos
na meninice.

Sentidos por desobedecer,
inócuos do amor que se perdeu
no conhecimento que não é nosso.
Uma pergunta que nos faz cócegas
numa parte inominável do nosso corpo.
Educação, ou falta dela
e muitas mais dúvidas por desvendar!

Um amealhar de ingenuidade,
um desenho com um mapa,
autores como velhos
que ainda moram no Restelo
e parvoíces que pagam juros.
A quota da inocência é um desdito
um fingir de lágrimas sem doer.
Afinal a verdade pesa tanto
como o dia em que juraste fidelidade.
Os amantes que te fizeram senhor
que procurem outras ruelas
e qualquer parecença com crédito
apenas soa a vómitos de refeições roubadas.

Olhares de crianças não fazem manchetes,
só o escarlate inibirá os governantes
e aqueles que falam.
E mais não haverá,
apenas aquilo que levará à perdição
dos poucos sonhos que se combinou,
poderíamos inventar sem carecer
de mãos no ar!

VERMES de joão batista do lago / são luis

Sinto o permanente asco da tua presença
Que, sem qualquer licença, perturba minha paz.
O volume que tua ossatura carrega
É castigo gerado pela insensatez da
Vermidade, que te faz sentido no
Palco dos teus pensamentos dissonantes.

Ó vermes que vomitam palavras com
Sabores e cores das açucenas – mas que
Logo se transformam em jazigos de ignomínias –,
Não se vos faltarão as eternas catacumbas
Que se vos servirão de abrigos comuns,
Enterrando os falsos sabores e as falsas cores de palavras vãs.

E nesse lugar recôndito vossos discursos são enxofres
Que exalam de gabinetes e púlpitos:
E falam de vossas pabulagens… E se vangloriam…
Esfalfam-se nos rapapés;
Trocam asnidades servis,
Herança duma gera podre de palavras vis.

BATER DE ASAS de walmor marcellino / curitiba


De ter feito os exercícios
não me adonei da arte.
Posso falar das tentativas
limitadas, circunstanciais
em que me empenhei,
e dos anti-resultados, os pífios
sucessos que me couberam.

Tenho pertinência em apontar
os alvos e descrever caminhos e processos
em que trotei compelido,
e fui atropelado de ânsias e urgências.

Sem pretensões nem escusas, hoje
devo mais confessar do que proclamar:
o homem é seu alvo e suas frechas;
o homem é seu projeto e seus meios;
o homem não é senão sua própria estrutura;
porque necessita, porque deseja, porque se impõe.
À sua natureza aparentemente conhecida
à sua característica enovelada pelos desejos
cada um de nós acresceu a sua cultura
e utopias.

Então, sejamos esse projeto
mas sob advertência do que é
insistentemente procurado, hipoteticamente conseguido…
e satisfatoriamente alcançado.
E seus fracassos, naturalmente.

DEUS IMPERFEITO de zuleika dos reis / são paulo



Palavras criaram espelhos

em cada espelho

o rosto do outro projetado.

Palavras criaram lagos

em cada lago

a imagem de outro Narciso.

Palavras pararam

ponteiros dos relógios

enovelaram o mundo.

Palavras reviraram a vida

tão de dentro

que as árvores revelaram

o rosto do Sonho.

Palavras entre sonho e vida

de sinais trocados

teceram a história

que não explica o Abismo.

Assim, as horas ocultas:

Palavras.

Assim, eterno retorno do Mundo sem Memória:

Palavras.

Tempo inexistente anjo que se repete no Portal:

Palavras.

Sonho exausto querendo acordar de si mesmo:

Palavras.

Palavras desde sempre tardias a forjarem

organismos … de palavras.

Palavras:

Demiurgas de Simulacro.

Palavras:

Deus Imperfeito.

Palavras:

Sem perdão possível.

Descendo a Blumenau, subindo à nova frase – de tonicato miranda / curitiba


para aquela que nada sabe ser sempre ela

Deputados franceses aprovam

proibição aos véus islâmicos”

berra a manchete da Gazeta do Povo

no colo de alguém na minha

poltrona vizinha.

E o que tem eles

a ver sob o véu?

o que tenho eu

a ver sobre o véu?

Isto ainda vai dar

panos pras mangas.

E ainda vai sobrar

pro véu

Bom dia!

Acordar-te queria

mas não com tristezas.

Sepultarei elas em mim,

eu decreto

através de um telefone TIM.

A tristeza está morta.

Para ela fechei a porta.

Agora chegou a hora

do combate em campo aberto,

aos políticos distantes

e aos que estão perto.

Morte às quatro rodas

e aos motores à explosão,

incendeiem todos

besouros de lata,

mas protejam

caminhões e o busão.

Faz frio

nesta manhã sulina

mas meu coração arde

como o passeio na tarde

de uma bela menina.

Ah, quem me dera

ser o Sol,

ter o grito do maçarico

furar a camisola das nuvens

chegar até os braços dela

com meu anzol.

Será que a pescava?

Bobagem curta

a mim o olhar bastava.

Mas não só a menina

de saia curta

interessava

queria roubar do pintor

toda a paisagem

e da sua cara

a expressão de terror.

MARILDA CONFORTIN e sua poesia II / curitiba

Pro par oxítono

Inóspito,
responde ríspido
a minha presença abrupta
em sua tela pálida
e impávido desconecta
rápido como relâmpago.

Erótico,
passeia de helicóptero
entre minhas pernas trêmulas,
derrete minha máscara
de lantejoulas pretas,
me despeja incandescente
sobre o piso de mármore
de um hotel barato da zona norte.

Artístico,
rabisca em minhas costas
a capa do próximo livro,
capta meus pensamentos
com máquina fotográfica
e me deixa atônita
com seus desenhos mágicos.

Cândido,
acolhe-me lírico
em seu crisálido peito,
sussurra blandícias,
bucólicos hinos
e me nina angélico,
o diabólico menino.

***********************************************

Garoto tolo…

Se não fosse para tê-lo,
por que eu iria pô-lo
em meu colo
assim,
nuzinho em pêlo?

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Disse-me:

No e trago mucho, pero te traigo siempre.
Fiquei bem quieta.
Ele, um poeta.
Eu, aguardente.

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Sem papo

Não, amigo…
Hoje eu não quero conversa.
Estou no meu melhor mau humor
e  não quero ouvir suas histórias de amor.
Sou avessa a versos amenos.
A menos que em vez de papo,
queiras levar um sopapo…

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Naturezas mortas

Sumo, somes,
secas, seco,
escoas, escôo.

Escorres, escorro.
só corres, só corro.
Socorro!

Somos somente ecos
do que fomos.
Ah, essa maré de dó,
marré de si…
Pobre de ti, pobre mim
pobre dessa poesia pobre.

SÓ de vera lucia kalaari / portugal

Só, com este olhar de descrente,

De noites mansas sem estrelas,

Com este andar sem destino

Como rio deslizante

Fugindo em desvario.

Só, nestas asas desdobradas,

Em sonhos, em cavalgadas,

Cabelos ao vento atirados,

Batida pelo vento suão

No meu negro alazão.

Só, nesta brisa que chega

Cheirando a feno e a campo,

Na ribeira escondida

Perdida no mundo distante

Duma vida já vivida.

Só, no tempo que passa

Que é tempo perdido somente,

Tempo sem nada, só tempo.

REVÓLVER de sylvia beirute / Faro.pt


{ao josé ferreira}

por fim: entre desejos lindos, estrita-
-mente prováveis, e contra-impulsos no
dorso, dia sim dia não, como que

numa mistura clássica e fascinante,

substituo o corpo na competência

de parir o tempo que resta

no rebentar das águas de um

instante principal em forma de

edema e américas;

e entre desejar e não desejar, o vazio

de cordas deseja e consegue: a certeza
de não cabermos numa
única possibilidade, o saber que há
um inverno de grande razão

na carne fria do nosso cesariny,
o ter o coração em riste no diadema
solitário sob os olhos dos mi-
-nutos emperrados em direcção a meca,
o supor que a morte já
não admite exemplos

e um excesso de memória

adivinha o futuro.

MOMENTO QUE NÃO SEI OUVIR de luis garcia / Tomar. pt


Não sei porque raio
tenho esta mania,
de fazer de um segundo
muito mais do que o tempo.
Ás vezes é como se eu não soubesse,
aquilo que tenho de fazer,
tudo o que tenho de ser…
e apenas procurasse
um momento para sentir
e então me perdesse,
porque não sei ouvir
o que me diz o agora!
Porque raio persigo o vazio
se ele às vezes também me persegue.
É como se eu quisesse fugir
e não conseguisse correr,
não porque as pernas não queiram
não porque eu me tenha esquecido
de como se pode perder o fôlego
em dez segundos
mas apenas porque não sei
somente porque eu não compreendo
para onde tenho de ir.

TEMPO? de j b vidal / ilha de santa catarina


que idade tens? perguntam,

a todo instante, sem poder, respondo

não sei,

não contei os sofrimentos que passei,

os sonhos que penso ter sonhado,

as dores que senti, quantas lágrimas derramei,

.

não sei quantos silêncios me fiz,

quantos amores tive e penso que amei,

não contei os caminhos que andei,

quantas pedras recebi  quantas atirei,

quantas aflições ofereci quanto magoei,

quantas vezes penso que pensei,

.

não sei o tempo do tempo que passo,

se vivo ou se me vivem no universo,

se me conto no tempo ou no espaço,

não contei quantas dúvidas [ou se dúvida sou]

se existo por contar ou por pensar em existir,

se me olho e não me vejo se desejo sem sentir,

.

não contei quantos prazeres vivi quantos neguei,

quantos fui quantas almas mostrei,

em quantas noites morri,  quantas voltei,

jamais contarei

a morte o fará por mim,

quando na cova saberei se fui, estou ou serei

ANIMAL de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


Comer da tua carne lamber teus ossos os nervos beber o sangue sorver a seiva de tua alma telúrica

beijar teus olhos os cabelos a tépida tez rubra de teus encantos

fulgir poemas novos no céu da tua boca compilar ensaios de vidamorte salvação nos teus silêncios

trançar oníricas redes conceitos mapas

sempiternas guias na tua pele

gerir em teu sexo minhas artes de corpo inteiro compor brinquedos semlimites

variações de intenso

prazer

Visceral teogônico antropocêntrico o ato animal

Tomar-te toda como objeto anímico e desigual.

“MONÓLOGO DE UMA SOMBRA” de AUGUSTO DOS ANJOS



“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A sáude das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
– Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
– O metafisicismo de Abidarma –
E trago, sem bramánicas tesouras,
Como um dorso de azémola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo á Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como urna vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infurtúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem…
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
– Engrenagem de vísceras vulgares –
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

E unia trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo…
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E á noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, á noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta…
E explode, igual á luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descamada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na cavema escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
E a fauna cavernícola do crânio
– Macbetbs da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam…
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca…
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de urna esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
– O homicídio nas vielas mais escuras,
– O ferido que a hostil gleba atra escarva,
– O último solilóquio dos suicidas –
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases…
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandiloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta á quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!

AUTONOMIA de joão batista do lago / são luis


Por que me pretendes prisioneiro, se

Sabes o tanto e o quanto que te amo?

.

Sou pássaro vadio na solidão dos tempos.

Nem tenho domicílio e levo vida errante!

Sou capeta da minh’alma ambulante;

Viajor eterno dos meus momentos (e)

Dos meus maltrapilhos instantes.

.

Então, por que me pretendes prisioneiro, se

Sabes como sou? (…) Autônomo e livre.

.

Deixa-me voar pelos universos infinitais

Das essências universais que existe em cada ser.

Deixa-me livre para que eu possa retornar ao teu colo

Prenhe de amores apreendidos de todos os mundos.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE NÃO SER de zuleika dos reis / são paulo



Este momento é meu só

ninguém mais dele sabe

nem eu.

Estrangeira aqui em toda parte

tal Pessoa

e não tal Pessoa

nunca estou onde estou

nem estou onde não estou.

A tarde escoa morre

inteira fora

não depende de nada

nem de ninguém

como eu não dependo de mim.

Parece que estou a árvore na praça em frente

mas não estou a árvore na praça em frente

nem me pareço com alguém que olha pela janela

a árvore na praça em frente.

Para  ser uma com a árvore

na praça em frente

precisaria ser

uma com o Tudo

como dizem iniciados

e simpatizantes …

Na janela se projeta uma sombra

da árvore?

de mim?

Cegueira sem transcendência.

A noite caiu

e não quebrou

esta insustentável leveza

de não ser.

Haikai: fotogramas * – por jorge lescano /são paulo

Haikai:  fotogramas *


A seguir, em quatro tomadas, as metamorfoses de um poemeto.

No Tâmisa

o silêncio da Patinha

é um mistério.

Patinha é nome próprio, caracterizado assim pela maiúscula. Poderá parecer arbitrário, mas se trata do diminutivo do apelido de uma amiga do autor, residente em Londres, ao mesmo tempo sugere o tamanho e a idade de uma ave. Patinha, então, deve ser entendido nestes dois sentidos, justapostos.

A primeira “falha” do terceto — e por isso não admitido como haikai –, é a ausência do kigo (termo que indica a estação do ano), elemento estruturador deste tipo de composição. O kigo pode ser interpretado também como verdadeiro tema do haikai. Na sua ausência, o poemeto perde tal qualificação.

O segundo “verso” é narrativo, não dramático (ação direta), prefigura um narrador que distancia o leitor da experiência. A falha é de concepção, pois o haikai deve provocar no leitor a iluminação, ou revelação, de um significado novo nos fatos cotidianos. O zen chama isto de satori.

O terceiro verso é conceitual. Mistério é uma sensação já filtrada pelo autor; o leitor recebe a idéia do fato, não o fato.

No velho Tâmisa

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

Neste contexto, o adjetivo velho pode ter o sentido de antigo, nobre, respeitável, é ainda termo carinhoso e familiar. Também cumpre a função, mais ou menos convencional neste “gênero poético”, de “cenografia” aprazível. No cenário vazio deverá surgir a personagem passiva do agente da ação (revelação) do terceiro “verso”: luar (kigo). No espaço criado pelo primeiro verso, a lua cria uma cena de penumbras, necessária para tornar sensível o mistério.

No rio londrino

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

O nome do rio é substituído pelo termo genérico, embora localizado. À sensação de rio se segue uma noção geográfica que o situa; porém, há uma certa demora na sua identificação. Isto é condenável no haikai, que deve ser direto, próximo, concreto; as palavras devem criar o fato mais do que narrá-lo. Todos os leitores sabem o nome deste rio?

É premissa do poemeto a apreensão imediata e não seletiva de leitores. Poderá se questionar também  se  todos  os  leitores  da  versão  anterior  sabem  onde  fica  o Tâmisa,  ou  se a  lembrança é

instantânea, pois na construção e recepção do haikai devem-se evitar processos não sensoriais. A

sensação do rio supera a informação seguinte, tornando-a quase supérflua, não fosse intenção do autor localizar a ação. Isto cria um novo inconveniente. Londres é cidade famosa o bastante para se ter uma imagem de pontes e avenidas e prédios e de todo tipo de construção das grandes zonas urbanas; assim sendo, a acepção bucólica de Patinha é praticamente anulada.

O efeito final já se incorporou ao haikai: luar entre nuvens.

À margem do Tâmisa

Patinha silenciosa.

Luar entre nuvens.

O fato se dá em outro local. A ação da personagem humana também mudou: ela observa o rio (e talvez a avezinha solitária), já não está no centro dele; sua posição no quadro é outra: oferece-se ao leitor num efeito “cinematográfico”. O objeto percebido por este foi modificado. Se na versão anterior o leitor podia pressentir a beira do rio pela imagem da água, a câmera agora apresenta uma visão panorâmica que inclui Patinha, objeto-sujeito do silêncio.

A composição ganha profundidade espacial por ter um elemento interferindo na linha do horizonte: o corpo da observadora. A cena é iluminada parcialmente pelo luar entre as nuvens, recurso ou imagem-clichê dos filmes (por que não ingleses?) de mistério. O autor selecionou e transferiu para o leitor os componentes que expressam sua experiência. Cada uma destas variantes — não se trata de correções — é um haikai. As variações são determinadas pela necessidade de provocar no leitor recolhimento, contemplação estática, primeira sensação produzida no autor pelo fato original. A preferência por qualquer uma das versões não exclui as outras.

Ainda que a leitura não seja “tema”  de haikai, ela faz parte do morador da cidade, leitor alvo do poema. A primeira versão tinha endereço único, dirigia-se à amiga e por ela podia ser entendido além, ou aquém, das regras poéticas. As versões seguintes procuram leitores diversos, alguns deles versados no assunto.

Após a leitura, outro silêncio.

___________________

* Haikai é poesia popular japonesa, considerado a forma poética mais breve do mundo. Não leva título. É composto de dezessete sílabas, divididas em três versos de cinco, sete, cinco, respectivamente. O kigo é o termo que identifica a estação do ano. Pode ser o próprio nome da estação, é mais comum, contudo, que seja um produto da natureza; vegetal, animal, fenômeno atmosférico, etc., ou evento que caracterize a estação. Exemplos: flor (primavera); urubu (inverno); luar (outono); carnaval (verão).

LA MER de tonicato miranda / curitiba


para Jairo Pereira e Achille Claude Debussy

.

choro neste dia claro estas incontidas marinhas lágrimas

na ponta da pedra debruço-me em minhas vagas de mágoas

depois vou até os píncaros deste incandescente azul celeste

junto-me ao vôo do gavião e ao seu prestigioso bico agreste

.

Debussy e seus timbres marolam águas, marés indo e vindo

é La Mer no alto de mim, o céu daqui é este precipício lindo

vontade de me jogar céu abaixo, mar adentro, no olhar da raposa

para brilhar na água com o pó de ouro do poema de Cruz e Souza

.

mas não, Oh! Grilhões, por que me apertam como a um parafuso

meus pés presos ao chão estão, minha cara presa ao horário fuso

sou apenas a inveja dos pássaros no céu, das baleias no mar

dos acordes do músico a dedilhar notas em mim, soltas a farfalhar

.

preciso doar o ruído do vento ou a planície a quem passar manso

aquele que pingar sobre mim o amor ou a morte como descanso

preciso partir meu corpo em milhentos pedaços doando-o à minhoca

dá-me o penúltimo sorriso da flauta, para ir feliz a minha última toca

PELA METADE de omar de la roca /são paulo

Pela metade,me dou por inteiro.
querendo preencher o vazio
do corpo,da mente,da vida.
Querendo que o meio vazio
fique meio cheio.
Pela metade me entrego inteiro.
Tanto quanto me permitem
as convenções,os pudores.
Então não me entrego.
Por inteiro cedo as meias palavras,
aos meio pensamentos
meio concretizados.
Por inteiro choro meias lagrimas,
que (re) marcam a trilha ja funda,
na qual a agua nega correr.
Por inteiro recebo o vento que corta.
Me corta ao meio e me divide.
Mas me divide apenas com ele mesmo,
por inteiro.
E sigo assim,aos pedaços.Separado de mim
e unido a mim por inteiro.
Num desenho sinuoso,calcado em papel vegetal,
em multiplas telas,unidas em partes
maiores que o inteiro.

NA FLORESTA PERMITIDA DO FUTURO de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


Minha floresta permitida

do futuro tem verdes expansivos

para tudo quanto é lado

verdes de pássaros sobre os galhos

verdes de rastejanças miúdas

e roeduras de animais nas tocas

verdes que despencam por cima

das pedras verdes que adentram

as águas do rio verdes que enfeitam

as manhãs e clorofilam o lugar

em todos os dias da

minha vida

verdes invertidos de lugar

tombados estirados no horizonte

verdes de sóis refletidos

nos gomos das taquaras

verdes de vestes arbóreas

verdeforescentes onde os frutos

nascem crescem e são comidos

pelos bichos verdes onde

as abelhas

fazem mel nos ocos de paus

verdes que me convidam

a mascar ervas para ter sempre

em mim a substância verde

da mata e seus signos.

GLAUBER É UMA IDÉIA de ewaldo schleder / ilha de santa catarina

glauber é uma idéia

.

a luz natural

será outra em alguns segundos

outra e outra mais

ou caso não haja nuvens

nem sol a se esconder

ou só nuvens plúmbeas

chapadas no céu

a frisar o horizonte com negritude

nem tarde nem cedo demais

tem vez que ela – estática extasiante

se sai cônica e firme

como a luz segura

de uma fresta no breu

pode vir de um poste elétrico

quando em noite sem vento

sem chuva sem sereno

.

a luz se faz do lado de cá

nesta sublime falsificação

da realidade

virá do facho largo da lâmpada

calculada em micro watts

ou estreita como o foco no confessor

ela vem da chapa de espelhos

multiplicada e inebriante

como um dia ensolarado

e poderá ser rebatida e morta

apagada na escuridão e no silêncio

.

uma câmera

o que poderá uma câmara na mão

sem uma idéia na cabeça?

o que sentirão os olhos injetados

de cansaço e angústia

veios carmim prestes a estourar?

o coração? o que irá ver e lhe bater

em média 24 quadros por segundo?

o peso sobre os ombros débeis

ou rijos e calejados tal o peso da pá

do trabalhador noturno

a câmera nas mãos

no olho da grua

a idéia alta e bom som

ressoa no ar de encomenda

as mãos formigam como alheias

ao empunhar sem parar

a metralhadora de olhares

.

agora um zoom depois uma grande angular

travelling vai: a menina vem passar

e só uma vez o homem e a velhinha

profundidade e foco preciso

sem tremedeira

um pintor em devaneio boêmio

a visualizar a própria mente

até refratar aos sentidos

o subjetivo olhar da imaginação

sair e viajar com bilhete de volta

a cada cena

até o embarque da platéia em fantasia

e o sonho nunca acaba

.

ação – depois da reação à idéia: a ação

fiat lux o olhar o ator a paisagem o cenário

a precisão visual a desvendar o processo

em preto e branco

ou nas cores daquele século

chora mulher – faz cara de puta

faz cara de dor imbecil

.

achar intérpretes já talentosos

antes do registro da experiência

puros como o sonho das estrelas

seduzir abdicar sofrer atuar calar

verbalizar os bastidores

incendiar mentes e corações

não contar com a chuva

se livrar dela – antes a seca

como a vida que se entrega

enrijecer a face e depois sorrir

racionalizar o mito e pronunciar a verdade

nascida da angústia de perfeição

de sua busca nos ensaios perfeccionistas

como pegar agora aquele passado

e deixá-lo com cara de futuro?

a seqüência de imagens senão mapas

de uma geografia humana

a contar sua história

a conter uma idéia

na cabeça

ANTÍFONA de cruz e souza / ilha de santa catarina


Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!…

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

Incensos dos turíbulos das aras…

.

Formas do Amor, constelarmente puras,

De Virgens e de Satãs vaporosas…

Brilhos errantes, mádidas frescuras

E dolências de lírios e de rosas…

.

Indefiníveis músicas supremas,

Harmonias da Cor e do Perfume…

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

Réquiem do Sol que a Dor da luz resume…

.

Visões, salmos e cânticos serenos,

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…

Dormências de volúpicos venenos

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes…

.

Infinitos espíritos dispersos,

Inefáveis, edênicos, aéreos,

Fecundai o Mistério destes versos

Com a chama ideal de todos os mistérios.

.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

Que fujam, que na Estrofe se levantem

E as emoções, todas as castidades

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

Fecunde e inflame a rima clara e ardente…

Que brilhe a correção dos alabastros

Sonoramente, luminosamente.

.

Forças originais, essência, graça

De carnes de mulher, delicadezas…

Todo esse eflúvio que por ondas passa

Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

.

Cristais diluídos de clarões álacres,

Desejos, vibrações, ânsias, alentos,

Fulvas victórias, triunfantes acres,

Os mais estranhos estremecimentos…

.

Flores negras do tédio e flores vagas

De amores vãos, tentálicos, doentios…

Fundas vermelhidões de velhas chagas

Em sangue, abertas, escorrendo em rios…

.

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

Passe, cantando, ante o perfil medonho

E o tropel cabalístico da Morte…

D’ Eus – de tonicato miranda / curitiba


para Hamilton Alves e Manoel de Andrade


.

Será que amando esta tarde

no encontro dela com a ponta da noite

estaria eu lhe amando?

.

Será que desprezando minha vida

estaria conspurcando o que dizem

ser sua maior obra?

.

Será que nada sei de mim, eu

com o chinelo velho no pé e a altivez

debruçada na beira do precipício?

.

Será a morte descanso ou início

da nossa provação a vagar qual alma

liberta no calendário infinito do tempo?

.

Será seu outro nome tempo

onde retornar é história e a nossa

chama saudade e é casa da tristeza?

.

Estou ainda por aqui, nada sei

do Sol, este astro invencível,

nada sei de pedras rolando no espaço.

.

Uma criança perguntou sobre mim

lembrei do rapaz vestido de velho contanto

histórias para uma plateia infantil.

.

O que importa quem eu sou, o que fui?

para muitos fui por breves momentos

igual a você, permita-me tratá-lo assim.

.

Algumas vezes erigi um templo

conduzi mudanças nos homens de poder,

mas não consegui recriar o mundo.

.

Jamais consegui o calendário retroceder

muito menos no tempo matar a morte

ou estancar sua adaga ceifando a pobreza.

.

Talvez não fosse digno como você

talvez não fosse mesmo sombra a você

nem um anjo seu, fui apenas sua tolerância.

.

Eu que de você duvidei, e tudo materializei

fui apenas seu competidor, milhas e milhões

de ano luz atrás, igual a outros mortais.

.

Por isto agora, sucumbido na derrota

mesmo sendo tarde para amá-lo

reservo o direito de amar suas criações.

.

Quão bela está esta tarde

lindas estão as cores nela distribuídas

nas borboletas, nas flores e no arco-íris.

.

Deixo a você, Deus, um Grande Abraço

e um pedido de vaga no alojamento ali

na porta do céu, mas com sacada para a Terra.

MONDRIAN FALSO de sylvia beirute / portugal


café às dez da manhã, porque outro início me

não ocorre agora neste lastro de fome e o escrito

deve começar, aqui numa londres primitiva

onde a transparência duplica a memória,

a inocência mata de olhos muito claros e em toda

a parte vê mondrians falsos; aqui onde

a raiz expande até ao caudal do quando-exílio

e o sistema do corpo e respectivo pulso preliminam

a máscara infinitiva inconjugável com as coisas da arte.

às nove da manhã, antes da medula que agora existe

e que me afasta o corpo do sentir mais sedentário,

alguém me acordou com uma palavra hirsuta-

-mente insana e tão sem esperança

que me pareceu ter nascido de costas voltadas

para qualquer um dos seus significados.

AMOR SACRÍLEGO de vera lúcia kalaari / portugal

No meu negro pretérito já passado

Há a sombra triste dum amor imenso.

Imenso mas cruel por ter deixado

O perfume doce do seu incenso.

Amei-o, sim, em doce chama

Meu coração de menina lhe concedi.

Perdi a fé, a paz, perdi a alma,

E era um sacrilégio amar assim.

Era um sacrilégio, mas no seu todo,

Nosso amor era um raro sortilégio…

Criamo-lo neve e era lodo,

Criamo-lo santo e era sacrilégio.

Esse amor, esse amor, foi todo meu.

Em mim, seus laços ficaram impressos.

Nosso amor era luz e era sombra

E eram prantos e risos os nossos beijos.

E foi um sacrilégio e foi loucura

Foi loucura de amor, foi um lamento,

Como um hino imenso de amargura

Como um imenso, lento tormento.

I N C O N V E N I E N T E de marilda confortin / curitiba

Mas o que é que você faz aqui
no meu pensamento à uma hora dessas?
Quem lhe deu consentimento?
Tá  pensando que é festa?

Mas não há de ver,
que o atrevido fez isso comigo!
A poeira estava assentada,
os sentimentos organizados,
cada qual em sua gaveta.
Todos lacrados com etiqueta
para que nada os confundisse.
O relógio de parede parado
descansava sem compromisso…

Daí me chega esse visitante
e num instante me faz reboliços!

Desarruma minha cama,
abre as portas do armário,
cheira meu pijama,
invade meu sacrário
atrasa meu sono,
dilata e contrai as horas ao bel prazer,
aparece e some na hora que quer,
como se ele fosse  o homem
e eu apenas uma mulher!

POEMA PARA JOÃO de joão batista do lago / são luis

Para ele a vida era apenas um começo!
Tudo era descoberta. Tudo.
Mas a algoz violência calou João.
João está mudo!
Antes mesmo do deserto da vida calaram João.
Mataram João.
Agora João, a esperança, está mudo.
Agora tudo está mudo.

O calvário de João
Tomado de assalto pelo ladrão, que
Sem qualquer perdão
Arrastou o corpo de João pela
Cidade Maravilhosa,
Começou no semáforo,
Anticorpo das artérias da cidade…
Da cidade de João.

Chicoteado pelo asfalto,
Arrastado pelo sonho do consumo,
João desfilava sua dor
Entre os gritos das gentes:
– Párem… párem… párem,
Pelo amor de Deus, párem!
Mas Deus não estava ali
Para salvar o pequeno João.

Golias venceu Davi!
Agora João está mudo, e
Não está mais aqui, e
Não terá mais o Rio para
Batizar a Vida, e
Não terá mais o mundo – este deserto -,
Para deblaterar contra
A insensatez da miséria.

Quanta pilhéria nos
Revela o calvário do pequeno João!
João está mudo,
Mas se instala em cada coração
Para dizer a toda gente:
– prestem atenção senhores dono do mundo,
Eles não têm razão, e vós, que razões querem ter?
Escutai, escutai com coragem a voz do Ser.

Ah, João não está mudo!
João agora é cada um… é cada ser.
E cada João não quer esquecer
Que em cada ser há um “bom” ladrão…
Ladrões de joões e josés, de marias e madalenas
Que revelam em suas cantilenas
O sofrimento da hora, da agonia de agora,
Mas logo em seguida esquecem a Maria que chora.

João não está mudo!
Está plantado no alto do morro,
De braços abertos, está
Gritando ao mundo, está
Pedindo socorro, está
A toda gente, a todo crente,
E aos donos do mundo, está
Dizendo: menos riqueza… dai conta da miséria e da pobreza.

M E U C A V A L O de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

.

Meu cavalo é veloz
acompanha a nascente
cavalgo sempre no amanhecer.

L U X Ú R I A de josé delfino / natal

úmido canto onde teu cio aflora

carne e sangue de espuma a poça

odre túrgido viscoso molusco caravela

em mar vermelho de desejo que se abre

à beira de lábios que se colam na busca

da vulva salobra  onde quase me provo

um rio largo de amor e aconchego

feito a alça arriada no ombro

que realça grudada em meu corpo

o rastro da língua que adentro apossa

esse dedo essa mão nesse claustro

onde cá me termino e te possuo

A música alegre mergulha nas ruas de Santa Maria – de regis fernandes / santa maria.rs

Para: Letícia

A música alegre mergulha nas ruas de Santa Maria,

Visito suas mãos com passos cegos

Tormentas

Vespertinas publicadas no seu olhar

Entes figurados na extensão burlesca da 24horas

A brisa leve levanta a poeira

Dos fregueses

‘Últimos pedidos’- seu José: encerra o café Cristal

Cansado.

Gosto arenoso, fachadas e prédios

À viga mestra percorre os limites do coração

Na esquina da Rua São Paulo onde

Nossos olhos serpenteiam

Acampamentos remotos

Desfigurado

Existe um sujeito que dorme

Frente a uma farmácia

Onde antes havia

Outra farmácia

Nos olhos que não enxergamos

Desfilam avôs e seus netos

Demolições e construções

Eu, você.

Veredas:

E a milonga segue só

‘Possuo duas alianças e um olhar repleto de memórias’

Quem construiu a Vila Belga?

E colocou seus trilhos na direção dos meus dedos?

Itaimbé recolhia seus bichos de madeira

Enquanto Imembuí amamenta o

Futuro xamã dos

Êxodos

Estação em ruínas, Joana

Aguarda Gustave

Sua espera é como um dragão

Dilacerado ou

Uma música sem compasso

Lágrimas que brotam do seu rosto

Formam ondas quando

Alcançam o extinto riacho

Do Itaimbé

As malhas de aço foram costuradas

Conforme o tamanho dos seus

Braços:

Restam apenas lembranças

Crescendo

Entre suas engrenagens

O ruído calou,

A sineta rachada: nos trilhos

Sinuosos

A locomotiva

E o ferrugem do

Seu corpo atravessa

A cidade

O estado: seu corpo

Trançados como algodão

Indo

Até o meridional de suas pernas

Mariano escuta

O grito da Maria-fumaça,

Enquanto espera o ônibus

Com outros estudantes para o

Camobi.

Bozano prova da

Água-ardente e não

Faz idéia do que

Vai lhe acontecer cinco dias

Depois do nascimento

Do salvador…

Isaias mesmo inseguro

Manteve a pistola erguida

Ao vê-lo cair.

T R Ô P E G O de josé delfino / natal

Trôpego

é que às vezes me sinto

bago de fruta azeda

caído em teus ombros

bêbado mar verde-absinto

deserto ardido em chama

jardim ao avesso

é que às vezes me acho

acha em teu corpo acesa

atirada em escombros

em véspera de cinza

F L O R de L I S B O A de jorge barbosa filho / curitiba


(para Ana Griffo Antunes Coimbra)

.

perguntei por cantar

por que canto?

enquanto encanto a dor

num espanto!

luas e sóis na minha voz

e a canção por um fio.

ah! fina flor de lis boa

ah, na boa, coimbra!

és leve águia e leoa

e soas entre as sílabas.

teço teu fado alado

por isto grifo teu mito

e teu sorriso de fato

finda meus conflitos,

a fúria dos ventos impunes

ante a tudo, que antes unes…

ah! naquilo que musico

há! ana, ana griffo

dá-me o teu charme castelã

deixa-me rei dos teus fãs.

oceânicas perguntas!

cavalos marinhos

acesos em nossas bocas,

azuis, azuis, azuis do mais íntimo

do espelho que despe-se a toa:

nunca vi tantas mulheres numa!

ah! braços de porto e gal

à sombras de caetanos

e caravelas amamos

em nossas praias de mel e sal.

contemporaneamente antigo,

é meu beijo de porquês,

pois este poema é um jeito

de viajar um pouco contigo

sem que as malas as tenha feito

assim te amo em português…

TONICATO MIRANDA e sua poesia III : “dois botões de camisa e um patuá”, “fuga pictórica opus 2002-8″ e “meus mortos”

DOIS BOTÕES E UM PATUÁ

.

para todas as mulheres palavreiras da hora

.

preciso de você para coisas simples

tomar café às seis da tarde com pão fatiado

contar como fui idiota de manhã

e como posso ser um adorável tolo ao seu lado

.

preciso de você para pedir a toalha

após o banho, após o amor

coisa simples e tão essencial

coisas que não sobem de elevador

.

preciso de você para comentar com o olhar

todas estas paisagens pintadas de cinzas

e sonhar apagado porque no meu cinzeiro

já não mais se põem dos cigarros as cinzas

.

preciso de você para correr ladeira abaixo

puxando-a pelo meu pescoço e pela correia

alegria de cachorro solto na alegria em estar

aqui, ali, no rio, no sol, na chuva, sem cadeia

.

preciso de você para ser dor e o amor

cortina balançando ao vento na janela

lençóis macios amarfanhados

seu beijo sabor de madrugada e siriguela

.

quem mais precisa mais gasta a caneta

não produz versos econômicos ou haikais

a paixão consome horas e papéis

cem folhas para um solitário dó e muitos ais

.

guardo muitos tarecos numa latinha amarela

dois botões de camisas, moedas antigas, um patuá

contas e miçangas formando estrelas para esquecer

um retrato velho seu que teima em não amarelar

.

gaivotas passam sobre mim

conduzindo minha memória prisioneira

vou das montanhas às lembranças do capim

atravesso a baía na barca da Cantareira

.

preciso de você para abrir estas caixinhas

bem cedinho de manhã, comer bolo com café

aos passarinhos lançar muitos miolos de pão

à minha alma um só sentido para ainda estar de pé

.

preciso de você para sobreviver

mas também para dar gargalhadas

mas se isto não for possível

preciso de você para construir novas jornadas


.

FUGA PICTÓRICA OPUS 2002 – 8

.

para Lilia Alcântara

e Moana Miranda

.


acordei e encontrei o dia assim: sol aberto, luz radiante – domingo

ontem foi dia de finados e levaram flores assassinadas aos mortos

hoje tem feira na praça, as barracas estão silenciosas à distância;

os filhos da cidade, barulhentos, dormem e que fiquem nesse dormir

H. Hancock, com seu piano, num afro-jazz, provoca o clarinete a subir

ao limite do arrebatamento, onde cabe somente mais um único pingo

.

dias assim trazem e levam distâncias temporais, frases que vem e vão

defronte dos meus olhos, gerânios numa rua interna de um convento

a foto é de Arequipa, e no meio do branco salpicam pontos vermelhos

são tantos e tão vivos que mesmo o hábito das freiras nada lhes fenece

a alegria de se mostrarem completos para a luz, independente da prece

crescem sobre pedras cortadas após o esfriamento da lava do vulcão

.

em dias assim Curitiba é linda, também o verde da grama de Brasília

depois da chuva, depois de tantos meses de seca, quase fim de ano

preso à memória, meus caminhos e daqueles que com eles cruzaram

foram tardes e noites passadas dentro de prédios de concreto olhando

a curva abatida no horizonte, longe: vazios e mais vazios até um quando…

hoje, o cerrado ocupado vai apagando marcas do tempo, a fantasia da ilha

.

Herbie Hancock incansável, dedilhando o piano, para-ra-ra-raram

o Convento e os gerânios ainda diante de mim, agora mais vivos

o Sol na manhã já vai alto, de Curitiba segue para Brasília no oeste

apenas 10 segundos separam sua passagem do meu olhar até lá

vai o sol vencer as nuvens, secar lagoas, alegrar pardais, aquecer o ar

lá, onde moram amigos, a filha querida e, depois da chuva, muitas rãs

.

é primavera, jamais vi tanto sol e flor; Herbie e os gerânios, tudo cintila

bobagem estúpida, a primavera não está fora ela mora dentro

da alma de quem escreve, nas ruas e jardins das casas de Curitiba

está no riso de orgulho do pai com o filho, no enfeite da feirante das batatas

no vento nas árvores, nos vestidos das meninas, no reflexo do sol nas latas

no trumpete do amigo do Herbie, mora na minha sala, nas flores da família


.

Meus Mortos

para Carlos Eustáquio


.

ouvindo Romeu e Julieta de Tchaikovsky

choro copiosamente sem soluços e águas

elas que sobram lá fora na chuva lavadeira de janelas

seguindo pelas sarjetas e calhas, lavando-me mágoas

choro meus mortos deixados na infância distraída

choro meus mortos porque sinto esta culpa traída

pois deixei-os intactos no barco da saudade

deles tenho uma só lembrança: os sorrisos eternos

sem viagens nas rugas do tempo, na dobra da coluna

este é meu pequeno gesto de imortalidade a eles


ANIMAL de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

ANIMAL

Comer da tua carne lamber teus

ossos os nervos beber o

sangue sorver a seiva de tua alma

telúrica

beijar teus olhos os cabelos a

tépida tez rubra de teus encantos

fulgir poemas novos no céu da

tua boca compilar ensaios de

vidamorte salvação nos teus

silêncios

trançar oníricas redes conceitos

mapas

sempiternas guias na tua pele

gerir em teu sexo minhas artes de

corpo inteiro compor brinquedos

semlimites

variações de intenso

prazer

Visceral teogônico

antropocêntrico o ato animal

Tomar-te toda como objeto

anímico e desigual.

CORPOS NÃO IDENTIFICADOS de sylvia beirute / portugal


amam-se os nossos corpos mortos.

amam-se num amor subterrâneo: os nossos corpos mortos.

amam-se os nossos corpos mortos num muro transparente

por onde vejo ainda: os nossos corpos mortos.

amam-se na ressonância do amanhecer que desperta

leve e docemente sobre a vitamina F que os seus cabelos
conservam: os nossos corpos mortos.

amam-se na respiração limpa dando caminho a uma

contemplação de cristais, a uma porta que ora:
os nossos corpos mortos.

amam-se no sonambulismo do primeiro acto, próximo

de uma prova contrária à sede que a nuvem rejeita:

os nossos corpos mortos.

amam-se numa súbita vontade que crucificou

a metamorfose do dia de hoje: os nossos corpos mortos.

amam a emulação palpável dos presentes na
cerimónia fúnebre: os nossos corpos mortos.

porque só depois do amor, descansa a morte.

H I S P A N I D A D de francisco álvares hidalgo / colombia



“Abominad la boca que predice desgracias eternas,

abominad los ojos que ven sólo zodíacos funestos,

abominad las manos que apedrean las ruinas ilustres,

o que la tea empuñan, o la daga suicida”.

(Rubén Darío, Salutación del optimista)

Hombres de Hispanidad, en dos riberas,

tended sobre el azul del mar las manos;

venid, auténticos americanos

de las llanuras y las cordilleras.

No os amedrente sombra de gigante

que en su altivez os ha robado el nombre,

ni anglosajón del norte, ni emigrante,

por hablar en inglés será más hombre.

Nos une mucho más que nos separa,

romped los moldes que fraguó el pasado,

el troquel de la Historia está gastado,

y un nuevo amanecer nos da en la cara.

Ayer hubo rencillas familiares,

y hoy hemos de sentarnos a la mesa;

tornemos los insultos en cantares,

las divisiones en común empresa.

Sólo el enano necesita ruinas

para alcanzar significante altura;

en nuestros propios pies hay estatura

para estar al nivel de las colinas.

Que el Maya y el Azteca consideren

sangre y color, mezcla de casco y pluma;

y que la herencia que desde hoy prefieren

sea en común Cortés y Moctezuma.

El Inca en Machu Pichu se asegure

la robustez de sus ciclópeos sueños,

y al mismo tiempo logre que perdure

el recuerdo de un grupo de extremeños.

En el extremo austral, junto a la orilla

del Mar del Sur, reviva el araucano

su ayer heroico, y se confiese hermano

ya de Caupolicán como de Ercilla.

Y el gaucho de las pampas, que al becerro,

a caballo persigue en la llanura,

reconozca que en parte es su cultura

Juan de Garay y en parte Martín Fierro.

Amazonas, hermano de los Andes,

río de sambas y de carnavales,

portugués o español, somos iguales,

multitud somos ya, seamos grandes.

Gentes del Orinoco y la sabana,

Bolívar y Miranda no han arado

sobre el agua del mar; hay un legado,

vivo y común que a todos nos hermana.

Poeta o guerrillero colombiano,

cubano del exilio o del bloqueo,

emigrante a la caza de un empleo,

no te llames latino, eres hispano.

Y al otro lado del azul profundo

romana Mérida, Granada mora,

Toledo visigótico, Zamora,

Burgos, León…somos el mismo mundo.

Repudiemos el odio y el rechazo,

olvidemos la sombra y los errores,

mezclemos esperanzas y sudores,

y abramos la sonrisa y el abrazo.

Que una familia somos, todos uno,

y al mismo tiempo todos diferentes,

cien civilizaciones, tantas gentes,

a una mesa en que no sobra ninguno.

Conversa sobre a teoria da evolução com um gato – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Do que adianta

sua elegância e graciosidade

construídas em milênios sobrepostos

de fina evolução gato?

Eu estou no topo

e posso matar o tigre e o guepardo

porque sou homem,

e nós fizemos a escolha certa.

Não perdemos tempo

atrás de força e agilidade.

Muito menos com asas,

ou tecendo belas plumagens,

nem com sentidos apurados.

Em vez dessas delicadezas

escolhemos

a brutalidade da inteligência.

SONETO I de bocage

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores ;
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade;
Que elas buscam piedade, e não louvores;

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores ;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores ;

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

CLAUDIA REGINA TELLES – poemas / itajaí.sc

O vazio do ventre vítreo

Vazio espaço do ritmo

Saúda a malandragem

Salve o querubim Pixinguinha

Inventou moda a seu modo

aligeirou o ritmo e o compasso

choro no espaço vazio de um gole

Bebe o vazio delirante

Chora choro

Campanheiro das madrugadas

Fumaça no ar

chorão na praça e no portão

Captura a noite com a ponta dos dedos

Contempla a noite através da redoma

E bebe o ultimo gole da cachaça

.

Lentes turvadas

Lentas observações da madrugada

Perambula pelas ruelas do desconhecido

Vazio transparente

A lua chora nos acordes do violão

Choro dolente

Mente o que sente o poeta

Vida vadia

Vazia

Vidrada mentira colore o dia

Ilude

Mergulha

Dorme embriagada no altar

Vigiada por anjos de gesso


CADERNOS de regis fernandes / ilha de santa catarina


Estradas molhadas

Servem de meditações

Para o barco transitar nas

Fronteiras da consciência

No céu

Nuvens sonoras abrigadas no ir e vir

Imenso pavimento verde

Todo sonho é uma esmeralda

Esquecimento de si

Oh! embarcações do instante

Deixe o coração do pescador

Apertado ao jogar sua rede

Num borbulhar suave

Ao toque do fantasma

Primitivo que

Entende português

E navega

Até ilhas

Como minhas idéias

OTTO NUL e sua poesia VI / ilha de santa catarina

A COISA

Entre coisa e coisa

Há outra coisa

.

A coisa é inerte

Ou salta

.

Ou se move

Ou segue

.

Vem e vai

Num movimento

.

Constante e torto

Sem saber-se

.

A coisa vem de dentro

E vem de fora

.

A coisa é uma coisa

Infinita e absurda


.

UMA FOLHA

Uma folha seca

Caiu da árvore

.

Soprada pelo vento

Foi levada adiante

.

Rolando sobre si mesma

Com destino incerto

.

Bem seca como

Seca nunca vi igual

.

Até que exposta à rua

Um carro passou sobre ela

.

E ali estrebuchando

Agonizou até o fim

.

PALAVRAS AO VENTO

Persigo tuas palavras

Soltas ao vento

.

Sem meio de retê-las

Ou absorvê-las

.

São como o sopro

De uma música

.

Que evola num ritmo

Alucinante e inusitado

.

Sonho por isso acordado

Ao enlevo de seus acordes

.

Que ora soam fracos

Ora fortes

.

O sopro de uma música

Que sugere o eterno

HIBERNAL de ewaldo schleder / ilha de santa catarina.solidão

hibernal

.

na praia da solidão

o galo todo prosa

anuncia ao mundo novo

a sua velha cantilena

.

como platéia alvoroçada

o mar ecoa entre os morros

pré-histórico solo das ondas

em ressacas infindáveis

.

o vento na vila da praia

lambe as frestas do arvoredo

deixa sua marca nas folhas

e silencia os passarinhos

.

quando as nuvens desabam

a cachoeira faz a festa

água doce em largo abraço

bate na porta das casas

.

já a sorte do pescador

não se lê em mãos vazias

a miragem está no sal

num cardume de tainha

RETRATO FALADO de um VELHO JAPONÊS de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

Seus olhos são baços e pequeninos

delicadamente colocados

sobre a renda das rugas.

Mas seu olhar tem uma imensidão que

lembra o mar.

O ar de oitenta anos de sorrisos

desgastaram seus dentes

como o vento, uma rocha.

Ele tem um chuvisco com

arco-íris cada vez que fala contra o sol

e suas palavras rodam

nos cérebros como

folhas de outono

quando entram pela janela dos ouvidos.

DO AVESSO de zuleika dos reis / são paulo



O mundo do avesso do avesso do avesso do avesso

do avesso do avesso do avesso do avesso do avesso

do avesso

dez vezes como se este número

assim redondo

repusesse o direito

do mundo

repusesse

o mundo do lado direito.

AFINAL:

DE QUE LADO DO AVESSO FICAMOS?

SERENIDADE… por rosa DeSouza / ilha de santa catarina

O vento varre sonhos sem tempo,
Desvela certezas com desalento,
Expulsando a torrente do tormento.

O vento dança entontecido
Em rajadas cruéis estarrecido,
Balançando cortinas negras…

O vento cá dentro como fora,
A vaga estilhaça em mil fantasmas
Secando o puro ar, criando asmas…

O vento desatento ao amor,
Pisa e repisa almas – assustador
Recriando a engrenagem do desamor…

Vento, vento sem alma e cego,
Expulso-te e mesmo da brisa abnego,
Minha utópica nuvem branca navego…

Longe de tudo o que lembre agitações,
Ciclones, procelas ou tufões,
Me desacerto no ideal da coerência…

Troco o passo, vôo, corro, salto, escorrego,
para longe desse inferno vem uma vontade pugnaz…
Recolho-me serena na gruta da paz.

MADURÊZ de marilda confortin / curitiba


o apuro do vinho

se dá sozinho

em escuros

repousos

reclusos

recusas

3 brindes para celebrar a memória de leminski – de julio saraiva / são paulo

“Viver de noite
Me fez senhor do fogo.
A vocês eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse eu mesmo carrego.”

– Paulo Leminski –

1.


deve ser mesmo o fim
: bebi a estrela da manhã
com muito gelo e gim

2.

de cartola e fraque
uma rã mergulha num
tanque de conhaque

3.

1 litro de saquê
: bashô baixou em mim
ou terá sido você?

VOCÊ PARTIU… de tonicato miranda / curitiba


para aquela que partiu ontem

plim, plim

os meus sins

vão caindo assim

caindo de mim

como um nariz pingando

como um sim falando

dizendo a você,

ao seu amor,

que para ele vim

sim, eu vim

vim ver a dor doer

vim para perto

do seu sofrer,

mas você não está mais a fim,

mesmo assim, sozinho vim

para lhe rever

.

plim, plim

são notas do piano

pingando

e eu,

sou a poça d’ água

aparando todos os pingos

no final do cano

recebendo uma a uma

estas notas musicais

para dispô-las numa ruma

de círculos naturais

formando pequeno lago,

o meu próprio cais

nesta poça somente minha

onde o amor ancorou

para tomar um trago

mas você não está mais a fim,

mesmo assim, sozinho vim

e da poça meu amor eu brado

.

plim, plim

cai em mim o trompete do Chet

junto com o piano e a bateria,

cavalgando discretos na charrete

atravessam minha poça de agonia

cheia do óleo da morte sem nexo

do vazamento do Golfo do México

.

plim, plim

o mundo agoniza

mas eu ainda tenho amor

e você com sua voz de brisa

e este sorriso sem som

vai caindo em mim

como música de um só tom,

mas minha poça é tão frágil como louça,

e nela há reflexos compridos

é o Sol da meia noite sobre a moça

com grandes brincos nos ouvidos

ela que é você presa na memória

no tempo quando ouvíamos calados

músicas de outras poças e glória

de outros amores mal largados

mas você não está mais a fim,

mesmo assim sozinho vim

lembrar nossos sons amados

.

Você partiu…

ODE à CARICATURA – de valério mendes / rio de janeiro (1902)

I

A chlamyde sombria desvestindo
Com que o bom senso e a sisudez casmurra
Quotidianamente sacrifico,
Banzeiro e somnolento,
Lepido cinjo o saio auri purpureo
E a leve camiseta de bretanha,
E de rosas e lyrios coroada
A cabeça, que os annos salpimentam,
Venho carmes e lôas offertar-te,
Caricatura augusta!

II

Nobre filha do Traço e da Risada,
Sobrinha do Sarcasmo e da Ironia,
Prima da Troça e neta do Assobio,
Éso allivio supremo dos que soffrem,
Dos perseguidos e desamparados,
Dos que têm fome e sêde de justiça.
Salve, Consoladora!
Ave maravilhosa, hybrida, estranha,
De garras de ouro e bico de diamante,
Receiam-te os ataques os perversos
E os tyrannos de ti pávidos fogem…
Ave, Caricatura!

III

O que as palavras exprimir não podem,
O que ás pennas e as linguas a lei veda,
Pode o lapis dizel o impunemente,
No papel branco saracoteando…
Reputações que o Tempo, cauteloso,
Morosamente solidificara
Num momento desfazes com dous traços!
Pões verrugas sacrilegas nos santos,
Zarolhos fazes os imperadores.
Nos ministros penduras rabo-levas,
E até do proprio Deus brincas com as barbas!
Ave, Caricatura!

IV

Mãe das artes, origem do desenho,
Foste irmã da canção nas eras priscas,
No symbolismo egypcio é encontrada,
O fetichismo desmoralisando,
Veneram-te gregos e romanos,
Cicero amou-te, o
scurra consularis
E foste de Aristophanes amiga,
O Olympo debochaste, irreverente,
Nos graves deuses dando piparotes,
Em pedra, em bronze, em ouro trabalhaste,
O vingador ridiculo atirando
Por toda parte onde a tolice humana
O gordo papo alcançava.
P’ra gloria tua trabalharam genios
Erasmo e Rabelais, Vinci e Carracio
– O proprio Manoel Angelo serviu-te –
Papyros, telas, marmores lavrando,
Rindo os vicios castigas, e os costumes
Corriges a brincar. Teu nobre peito
Do Juvenal hospeda a alma serena,
És refrigerio e abrigo á desventura,
Odios desarmas, vingas injustiças,
Irreverente, intrepida, indomavel,
Bombas de risoatiras ás targedias,
Da tyrannia, a liberdade humana
Defendendo e salvando……
Eis-me a teus pés, bradando alegremente:
Ave, Caricatura!

Rio, Setembro, 1902


.


poema publicado no jornal (panfleto) O MALHO no Rio de Janeiro em 1902.


CAMPO MINADO de zuleika dos reis / são paulo



Estilhaços do teu silêncio

me atingem em cheio.

Tua dor meu campo minado.

Tua voz aranha e teia

no espaço intangível.

Calo o que jamais saberemos.

A manhã conjunto de cheiros

a criar formas dentro das panelas

colheres de pau a mexerem o dia

e o que não seremos à noite

quando o dia estiver consumado

e consumido.

ENÓLOGO de marilda confortin / curitiba


Muito sabes sobre colheitas

e  as tenras uvas eleitas.

Mas acaso sabes dos estios,

da sede da terra cansada,

do desperdício dos cios,

das sementes abortadas?

Ah! meu deus grego… o que sabes?

Segredos de vinho, são sagrados.

Guarde-os em porões fechados.

Aproveite e esconda também os meus.

Os das castas, das profanas, dos ateus.

Junte aos dos amantes, desesperados.

Tranque-os com carinho e cadeado.

Segredos escapam nas noites escuras,

convém reforçar as portas, as fechaduras.

Já os medos, entram por todos os buracos,

crescem, moram dentro da gente

tornam-se monstros, nos deixam fracos.

Diante deles, somos frágeis, impotentes.

Bebe teu vinho sozinho, mortal!

Sou Ariadne, esposa infiel.

Vivo no plano dos humanos

onde moram os sonhos e as orgias,

os desejos mais ardentes, profanos

e as mais estranhas heresias.

Teus vinhos precisam de porões,

minhas videiras, de clarões.

Meus opostos se intercalam

entre suavidade e  secura.

Meus azedos, dos doces falam.

Minha mentira é a verdade pura.

Estudos simbólicos sobre o público – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr


A multidão é a mesma,

mas o poeta  fala sem amplificação

para um exército de  nucas indiferentes,

enquanto o ídolo está de frente para os rostos e aplausos.

Saiba, os pedantes são os alicerces econômicos da cultura.

Cruza o inferno até uma editora,

o impostor com a mesma gravata púrpura dos demônios,

quem pode pagar anjos mercenários com seu cartão de crédito,

o movimento com Sarissas:Um novo inseticidas

com um novo príncipe ativo.

Ou um Virgílio,

mas Virgílios são tão raros como Dantes

Cantores abóiam,

já os escritores tem que dissolver a manada

e fazer que cada vaca encontre um canto e leia seu livro.É uma tarefa mais árdua.

A platéia é aviário de águias recém-nascidas,

ávidas por engolir  cobras e lagartos

jogadas por alguns rebeldes.

Já de uma ovelha no palco, só aceita doces.

Como morsas,

nas livrarias e bibliotecas, os livros dos vivos lutam contra os poderosos mortos

pelo feio harém de intelectuais.

Geralmente os jovens livros dos vivos são expulsos. I’ll be back.

Lembra,a inteligência santifica a inteligência,

criar é uma insinuação para o eterno.

ESSE HOMEM de vera lúcia kalaari / portugal

Queria esse homem escondido em ti mesmo,

Esse homem  de que tu és apenas uma sombra…

Queria os teus silêncios e os teus sonhos

E essa melancolia que t’envolve como um véu…

Queria o gesto vago que fizeste

Como quem afugenta uma lembrança amarga…

Queria o afago indiferente dos teus dedos

Desfolhando um livro ou escrevendo um poema…

E os pensamentos que às vezes passam um instante

Nos teus olhos, fazendo-te, medroso, cerra-los um pouco

Para que não escape nada

Queria tudo de silencioso e íntimo, de impreciso e distante

Que ocultas, avaro, em tua grave solidão,

Essa solidão que mesmo nos instantes mais livres

E mais despreocupados, é a atmosfera que respiras,

A nuvem em que t’escondes,

Tua agreste e invisa solidão.

Queria as palavras que não dizes, que não vêm aos teus lábios,

Mais do que num leve e breve sorriso meio triste…

Queria um beijo da tua boca, em tua boca.

Um beijo em que estivesses fremente e palpitante,

Com os teus anseios e os teus mistérios revelados,

E teu corpo ardente estremecendo

De amor intenso, de entrega absoluta,

Na ânsia de revelar-se, de dar-se, de doar-se completamente…

Queria esse homem escondido em ti mesmo.

Fuga Pictórica em Rap – de tonicato miranda / curitiba


Vida que passa e não passa

Quando minha cara de passas

Caça o seu olhar e laça

O vento sibilando na janela

É a flauta de Bashô

Fabricando músicas, fazendo um dô

No sopro que a boca dá

Há açúcar lambuzado na cara

Melado escorrendo do ouvido

O mundo de súbito parido

A lua tinindo seu sorriso

Os negros aqui e ali batem tambores

Estalam línguas, dedos e pés

O ritmo exige balanços, muito bis

O coração tem de ir aos quadris

Não queria ser assim tão caminhante

Preciso parar no meio do caminho

interromper a viagem, saltar do ônibus

visitar uma casa jamais visitada: este o ônus

Por que viajar no tempo tão ligeiro?

É preciso fazer novembro voltar a janeiro

ter um verão no olhar e a perna mais solta

uma voz sem cor, um olhar sem respostas

ter a porta aberta ao novo, ao desconhecido

Tudo livre à frente, preparando a volta

para fora de mim, para longe do agora

Quem sabe um gato salte do meu telhado?

QUANDO AS NUVENS FECHAM de jorge barbosa filho / curitiba


quando as nuvens fecham o céu

e meus olhos choram, são chuvas, sempre chuvas

onde você deitou, chorou e escorregou.

em meu peito molhado, ficando carregado

de tantos trovões, com teu amor.

quantos estouros, não sei porque!

queria um beijo que fosse sincero.

não um beijo, mais do que um beijo,

um beijo para ser eterno… e terno.

mesmo no inferno… e mesmo no inferno.

a tempestade do meu ser, acho,

deve te dar algum prazer…

algum prazer! uhunhuhn algum prazer!

o céu está cinza. pra quê tantas chuvas,

se admiro isto distante, distante,

e me molhar no meu amor num instante

apenas por um instante.

apenas por um instante.


os pingos das chuvas me dão o lazer

pra brincar com você, para ser o quer você ser…

o seu ser… as nuvens se fecham,

meus olhos se cerram e as nuvens se fecham

nunca mais verei as luas, as luas…

quando as nuvens se fecham,

e minhas pálprebas também…

A CASA QUE CHEIRAVA GOIABA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

A CASA QUE

CHEIRAVA GOIABA

Minha casa pobre que cheirava

goiaba :goiaba madura:

noite e dia o odor do fruto no ar

& compareciam abelhas vespas &

outros insetos nathivos

compareciam urdiam moradas

nichos ninhos cobriam as janelas

os vãos das portas os armários

minha casa circulada de pássaros

ao cheiro de goiaba madura

minha casa ornada de insetos

& pássaros aninhos minha casa

com cheiro de goiaba freqüentada

por aves & insetos da estação

minha casa com polpa carmim

pelo chão cascas verdes-amarelas dos

frutos carnudos coladas às paredes

casca polpa sementes aderidas

à madeira bruta às telhas portas

janelas

linguagem de odores & cores

na estrutura :minha casa:

casa de goiaba madura do

piso ao teto

a casa que cheirava goiaba.

Queria agora um poema com

o sabor da fruta: goiaba.

VERA LÚCIA KALAARI e sua poesia / portugal

Não.

Não poderei fazer de ti

Um só poema.

Não poderei jamais cantar

Este desejo,

Este anseio que tenho por ti.

Desvendar-te tudo qu’escondo

E obter de ti,

Palavras de plenitude e d’esperança.

Porque p’ra ti,

Seria como trair um bem

Seria  matar essa imagem

Que não vive no teu corpo

Mas só no teu coração.

Seria desejar… e não amar…

Seria enganar tanta imensidão…

Seria dar corpo a uma alma

E tirar a vida à própria vida.

Ah… Como desejava que  quedasses à minha espera,

Logo, ao cair da noite,

Não com a fé de quem espera uma miragem

Mas com a ânsia férrea dum macho qu’espera a sua fêmea

Para juntos rolarem pelos espaços infinitos

Corpos unidos, lábios colados,

Na agonia lenta que explode num turbilhão d’estrelas.

Por isso, amor, não…

Não poderei escrever de ti um só poema…



.

Senhor:

Embora não creia que m’escutes,

Embora não entenda a tua voz,

Embora te procure e não t’encontre,

És ainda a palavra escutada de menina,

Que invoco, que invoquei,

E volto a repetir agora.

Senhor:

Qu’eu seja um campo virente

Coberto de erva e flores viçosas…

Ou vento uivante…Ou aragem que corre mansamente.

Que seja chuva caindo nos beirais

Ou nuvem correndo pelo céu…

Que seja rio cantando sem destino,

Ou barco vogando

Que seja um raio rasgando a escuridão,

Que seja tudo ou nada

Tudo o que se veja

Ou tudo o que não se veja.

Que seja terra ou seja ar,

Que seja alegria ou seja dor

Que seja ódio ou seja amor

Que seja tudo, tudo, tudo,

O que tu quiseres

Por muito humilde que seja.

Mas não me deixes ser fraca nas minhas convicções

Não me deixes deixar de acreditar naquilo em que acredito

Deixa-me continuar a ser eu, sempre, eu mesma…

A NONA CANÇÃO DO FILÓSOFO (THE NINTH PHILOSOPHER’S SONG) de aldous huxley


Versão brasileira: Ivan Justen Santana

GOD’S in His Heaven: He never issues

Jr. (Wise Man!) to visit this world of ours.

Unchecked the cancer gnaws our tissues,

Stops to lick chops and then again devours.

DEUS está em Seu Céu: Ele nunca manda

(Quão Sábio!) Seu Guri aqui em visita.

Incógnito o câncer nos morde a vianda,

Nos lambe os pedaços e regurgita.

Those find, who most delight to roam

‘Mid castles of remotest Spain,

That there’s, thank Heaven, no place like home;

So they set out upon their travels again.

Uns acham (os que mais fruem vagar

Por castelos da mais remota Espanha)

Que não há nada como o próprio lar;

E logo partem a outra terra estranha.

Beauty for some provides escape,

Who gain a happiness in eyeing

The gorgeous buttocks of the ape

Or Autumn sunsets exquisitely dying.

A alguns a beleza oferece fuga,

Os que se prazem na contemplação

Das nádegas das primatas sem ruga

Ou dos crepúsculos em explosão.

And some to better worlds than this

Mount up on wings as frail and misty

As passion’s all-too-transient kiss

(Though afterwards — oh, omne animal triste!)

E outros alçam voos com asas frágeis

Rumando a mundos melhores do que este,

Movidos por paixões, beijos voláteis

(Pesar que após – ó, omne animal triste!).

But I, too rational by half

To live but where I bodily am,

Can only do my best to laugh,

Can only sip my misery dram by dram.

Mas eu, tão racional até a raiz

Dessa fração que o corpo não me abole,

Só posso mesmo me esforçar em rir,

Só posso sorver meu fel gole a gole.

While happier mortals take to drink,

A dolorous dipsomaniac,

Fuddled with grief I sit and think,

Looking upon the bile when it is black.

Enquanto os mais felizes enchem taças,

Eu, um doloroso dipsomaníaco,

Embaraçado nas minhas desgraças,

Medito em minha bile de cardíaco.

Then brim the bowl with atrabilious liquor!

We’ll pledge our Empire vast across the flood:

For Blood, as all men know, than water’s thicker.

But water’s wider, thank the Lord, than Blood.

Então: taça cheia e atrabiliária!

Brindemos nosso vasto Império-mangue:

Pois Sangue, sabe-se, é mais denso que água

Mas a água, salve!, é mais larga que o Sangue.

TRANSMIGRAÇÃO de joão batista do lago / são luis

TRANSMIGRAÇÃO


(Dedicado ao escritor português José Saramago)

Deixai que a terra mansa e calma se acostume

No consumo eterno da carne que me restara

Nas noites, nas manhãs e em todas as madrugadas.

Minhas mãos não mais apertam a terra

Agora, então, e de fato, toda a verdade suportável

Numa alma prenhe de ossos que se desliga de todas as carnes.

Há-me, doravante, a plural palavra solta ao vento,

Migrante como todas as almas necessitadas de renascimentos

Faminta de todas as carnes, de todas as verdades… De todos os lamentos.

VEM, POESIA… VOLTA! de zuleika dos reis / são paulo



Espero há tanto

a palavra poética

faísca

chama

chaga

sublevação deste mundo sem dor

há tanto agonizando…

a palavra poética

a revoltar

os dias de marasmos

de limbos

de rosto sempre

o mesmo

DEUS INÚTIL

a palavra poética

espada

a tingir de sangue vivo

o silêncio confortável

de morto

SOL QUE CEGA REVELANDO

a palavra poética

de novo vida

nas veias

nas artérias

amor-vivo

movendo o ser

movendo

ESTE IMÓVEL.

Espero há tanto…

MAGIA & DEGREDO de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

graphar na pele dos peixes

meus poemas longos como o mar revolto

graphar poemas lindos pelo lado de dentro

da pele ou no baixo das escamas

refletidas as palavras pro lado de fora

não entendo essa magia q. só aos bruxos

é dada a conhecer

um mar uns peixes uns corais umas algas

uns pedriscos calcificados na minha

alma oceânica

não há mais como sair daqui

estou preso à esta ilha de meu deus

e de nossa esperança

um sol imenso cobre minha sina de poeta

um sol como um destino de ariano

denso e resolvido

reflete minha vida nas águas deste mar

reflete thurva com pós vermelhos

cavalos de metro e setenta na cernelha

& poemas do rio Iguaçu

thurvos de lambaris policrômicos.

ETERNA TARDE de alceu wamosy / uruguaiana.rs

A tarde vai morrer, calma como uma santa,
num êxtase de luz infinito e divino.
Há nas luzes do céu qualquer coisa que canta,
com músicas de cor, a tristeza de um hino.

Tudo, em torno de nós, se esbate e se quebranta.
Em nossos corações, como um dobre de sino,
e esperança agoniza; e a alma, triste, levanta
suas trêmulas mãos para o altar do destino.

Não é somente a tarde, a eterna moribunda,
que vai morrer, e espalha esta mágoa profunda
no nosso olhar, nas nossas mãos, na nossa voz…

É uma outra tarde — que nunca há de ser aurora
como a do céu será amanhã — que morre agora,
triste, dentro de nós…

.

Alceu Wamosy

(Uruguaiana RS, 1895 – Livramento, atual Santana do Livramento RS, 1923)

Publicou seu primeiro livro de poesia, Flâmulas, em 1913. Na época já trabalhava como colaborador no jornal A Cidade, fundado por seu pai, em Alegrete, RS. A partir de 1917 tornou-se proprietário do jornal O Republicano, apoiando o Partido Republicano. Continuou colaborando para diversos periódicos, como os jornais A Notícia, A Federação, O Diário e a revista A Máscara. Publicou as obras poéticas Na Terra Virgem (1914) e Coroa de Sonho (1923). Postumamente foram publicados Poesias Completas (1925) e Poesia Completa (1994). Poeta simbolista, Alceu Wamosy escreveu poemas cheios de desencanto, em uma produção que se destacou no sul do país e é uma das mais significativas do Simbolismo brasileiro.

JOSÉ SARAMAGO pelo olhar do poeta brasileiro C. RONALD /santa catarina

ARREMATE

Ninguém Saramago, inventa Deus para sua miséria; você teve pai e mãe, você não se inventou. Seus livros embalam o erro, a inocência e também o pecado.

Constância e tumulto sem quebra de visão na árvore, a figura humana é transferida, a morte é só ressonância. O desconhecido não deve ser impresso na presa, o medo mede todo o discurso do pavor, a eternidade passa além se a perdemos de vista. Se o homem inventou Deus, como o homem poderia inventar você?

A diferença é grande, não é? Quantas vezes foi Saramago o amor de Deus, perdido. O sentido é uma consequência sem memória. Havia distância que não sabia o seu tamanho, hibernação no contorno sem alma,leveza ritmada, dança! Quem chegar à vida só por si mesmo ganha Saramago de graça.

.

poemas de C.RONALD:

.

OS  SEMPRE

.


a demora do vidente precipita-se
naqueles que o esperam

novamente um princípio para o erro
caso contrário mastiga a norma como alimento
conhecíamos o destino quando vinha só
no ar como o enigma
sobreposto ao susto
e de repente alguém aderiu-se
à língua e fez-se prédio

por que os mortos não se tornam
excessivos e nem excitam a forma excetuada
houve espera na melancolia onde
o fundamento desapropriado
pelo rigor da claridade pode
alterar o riso análogo

a existência favorece o medo
partes variadas da distração com molas arriadas
e o pecado no meio
deve dar para quatro aventuras
quatro são as mãos do homem
quando dá e tira
depois vários quadradinhos de suspeita
e Abel no meio
se era mesmo a religiosidade
na parte crua do bife
faca e garfo sonolentos
sem que o prato justifique
mudança no percurso do Caim
ou dança simplesmente
o espírito mais ereto que liso
“Senhor eu não sou digno”

.

CUIDADOS DO ACASO poemas (II)

Tenho o nó na garganta, o tiroteio
no peito da criança, essa bagagem de ossos
próxima de um semáforo, esquecida
do tráfego sangrento numa noite sussurrada.

Um plaft para o homem sem aniversário.
As duas partes do rosto
fazem uma concha fechada pela indiferença.
Asas derretidas depois de derrubadas
entre a inquietação e a banalidade dos pardais
no asfalto exposto. Sinceramente

a morte não é coisa de mortos.
Estão podres os que representam
o personagem que nunca foram. O sonho
sai dos alvos alagados diante da porta,
alguns trazem sementes fumegantes,
farpas cravadas no luar,
o aquecimento da comunhão
no vermelho da maçã.

I

Que isto resuma toda a importância do homem:
não ficou pronto pela carne, mas viveu.
Animais escorregam do universo e sentem
apenas o momento veloz que une garras e dentes.

Desiguais na aparência, espelham o mundo
entre átomos sofridos quando Deus separa
na eternidade as árvores e os próprios bichos.
Os outros são defeitos da existência. O nada,

que o efêmero revela de um estranho fundo,
a realidade exige. Mas engulo Jonas,
como baleia, e o anzol, curva para nós mesmos,

é cuspido na aurora de um ser descontente.
Inconsciência e apogeu, cada qual com seu caos,
dobra de temporal desde o início do tempo.

C. RONALD, considerado o maior poeta da atualidade brasileira, em sua fantástica biblioteca.

.

Em 2 de Dezembro de 1935, nasce em Florianópolis, Carlos Ronald Schmidt, filho de Lourival H. Schmidt e Ana Ernestina Kersten Schmidt. Em 1942, aos 7 anos de idade, C. Ronald faz o pré-primário na escola particular Jurema Cavallazi. Em 1946, com 11 anos de idade, Ronald ingressa no Ginásio Catarinense. Aos 20 anos, em 1955, presta serviço militar no CPOR de Curitiba (PR), logo depois aos 21 começa a colaborar no jornal “O Estado” de Florianópolis (SC).

Em 1957 assina, entre outros, o Manifesto do Grupo Litoral. Com 23 em 1958, ingressa na Faculdade de Direito em Florianópolis, em 1959, publica o livro Poemas (Edições Litoral), mais tarde repudiado. Em 1960, com 25 anos, sai em edição do autor o livro Cantos de Ariel , também repudiado. Em 1962 recebe o grau de Bacharel em Direito e muda-se com a família para o Rio de Janeiro.

Com 30 anos, em 1965 casa-se com Neide Maria Campos, natural de Biguaçu (SC), logo após ocorre o falecimento de sua mãe, em Petrópolis, Estado do Rio. Em 1966 ingressa na Magistratura Catarinense, sendo nomeado Juiz Substituto da Comarca de Concórdia (SC), ocasião em que nasce sua filha Ariadne. É promovido para a Comarca de Guaramirim (SC).

Em 1967, nascimento do filho Cristiano, falecido quatro meses após, logo após, em 1968 Nasce sua filha Amarílis, e em 1969 Nascimento do seu filho André. Aos 36 anos de idade, em 1971 É promovido para a Comarca de Braço do Norte (SC); é editado no Rio(RJ) o livro As origens (Ed Livros do Mundo Inteiro/MEC).

Em 1973 Nasce seu filho Bernardo; e muda-se com sua família para a Comarca de Biguaçu(SC). Em 1975 Sai em São Paulo(SP) o livro Ânua (Ed. do Autor / Udesc): considerado o melhor livro do ano pelo Conselho Estadual de Cultura. Recebe o título de Personalidade Maior do estado de Santa Catarina; em 1978 É publicado em São Paulo o livro Dias da terra (Ed. Quíron/INL).

Aos 46 anos, em 1981 falece seu pai em Florianópolis(SC). Começa a colaborar no suplemento “Cultura” do jornal “:O Estado de São Paulo”.

Em 1982, é publicado o livro Gemônias (FCC/UFSC), em Florianópolis(SC). Em 1986, sai em Portugal na antologia Poesia Brasileira Contemporânea, coleção “Escritores dos Países de Língua Portuguesa” editada pela Imprensa Oficial — Casa da Moeda, Lisboa; Edição do livro As coisas simples (Arte Hoje Editora/INL), Rio.

Em 1993, é publicada em São Paulo (João Scortecci) o livro A cadeira de Édipo; Na mesma ocasião sai em Florianópolis seu livro Como pesa! (Editora Paralelo 27. coleção “Poesia de Santa Catarina”). Em 1995, C.Ronald publica o livro “Cuidados do Acaso” (Scortecci Editora, São Paulo, 1995), Em 1997, publica o livro “Todos os Atos (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 1999, o poeta publica o livro “Ocasional Glup” (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 2001, publica o Livro “A Razão do Nada (Scortecci Editora, São Paulo,2001), Em 2003, pela Editora Bernúncia Florianópolis-SC, o poeta publica “OS SEMPRE”. Em 2006 publica pela mesma editora o Livro “Caro Rimbaud”;

EM MEU OFÍCIO ou ARTE TACITURNA de dylan thomas / gales

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte
.

(Tradução: Ivan Junqueira)

.

Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, no País de Gales, a 27 de outubro de 1914. Considerado um dos maiores poetas do século XX em língua inglesa, juntamente com W.Carlos Williams, Wallace Stevens, T.S. Eliot e W.B. Yeats. Dylan Thomas teve uma vida muito curta, devido a exagerada boemia que o levou ao fim de seus dias aos 39 anos, mas, ainda teve tempo de nos deixar um legado poético que o tornou um dos maiores influenciadores de toda uma geração de escritores.”

A NAU de augusto dos anjos / paraíba

Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,
Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica…
Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudica
E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro!

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro
Ergue a alta mastreação, que o Éter indica,
E estende os braços da madeira rica
Para as populações do mundo inteiro!

Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda,
Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha!
Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as…

E não haver uma alma que lhe entenda
A angustia transoceânica medonha
No rangido de todas as enxárcias!

ABRI A PORTA COMPANHEIROS de noémia de souza / moçambique

Ai abri-nos a porta,
Abri-a depressa, companheiros,
Que cá fora andam o medo, o frio, a fome,
E há cacimba, há escuridão e nevoeiro…
Somos um exército inteiro,
Todo um exército numeroso,
A pedir-vos compreensão, companheiros!

E continua fechada a porta…

Nossas mãos negras inteiriçadas,
De talho grosseiro
– nossas mãos de desenho rude e ansioso –
já cansam de tanto bater em vão…

ai companheiros,
abandonai por momentos a mansidão
estagnada do vosso comodismo ordeiro
e vinde!
Ou então,
Podeis atirar-nos também,
Mesmo sem vos moverdes,
A chave mágica, que tanto cobiçamos…
Até com humilhação do vosso desdém,
Nós a aceitaremos.

O que importa
É não nos deixarem a morrer,
Miseráveis e gelados,
Aqui fora, na noite fria povoada de psipócués…
“o que importa
é que se abra a porta.”

L. Marques, 23/6/1949

VAMOS BRINCAR DE BAUDELAIRE? (ou ALMA PASSANTE) – de ivan justen santana / curitiba

A rua matava surdo a buzinada.
Faróis e placas falavam ao mesmo tempo.
Meu pé: dependurado na calçada.
Mas o olhar já contornava o cruzamento.

Percebi que perseguia uma passante
Quando ela viu também que me seguia.
Disfarcei e ela disfarçou no mesmo instante.
Fiz que fui mas não fui, e ela ia e não ia.

Fingi ser mais velho, ela deu-se ares de menina.
Saí pela esquerda. Ela, pela direita.
Esbarramos logo na próxima esquina,
Cúmplices abaixo de qualquer suspeita.

PAVANA PARA UM TREM MORTO – de júlio saraiva / são paulo



o trem
tem
o trem

o trem
é
o trem
sem

o trem
traz
o trem
mas
o trem
sem
o trem
jaz

………………..

na noite
fria
o trem
chacoalha
o trem
sacode
o trem
não pede
o trem
não pode
a lua
coalha
o sol acode
o trem
não para
o trem
não pede
o trem
não pode
o trem
se despe
o trem
despede
o trem
dispara
o trem
explode
o trem
nem pisca
o trem
arrisca
o trem
petisca
o trem
não risca
porque
na busca
o trem
se assusta
o trem
desponta
o trem
aponta
o trem
apronta
o trem
apita
o trem
navega
o trem
divaga
num mar
de ferro
o trem
se afoga
o trem
naufraga
num mar
de ferro
num mar
de ossos
ossos
de ferro
ossos
de aço
cadê o trem?
cadê o trem?
cadê o trem?
a noite
espanta
a noite
despista
a voz
sinistra
da alma
penada
do maquinista
atrás
do trem

TANTO LIMITE… de rosa DeSouza / ilha de santa catarina


Inusitado limite que nada permite.

Dor que nobilita e me devora.

Mamilo doce de terrível fera.

Corro presa a uma corda que me consola.

Terrível minotauro… procuro Teseu.

Do sol tenho tanta sede…

A montanha me atrai e se dissipa.

No mar um veleiro sem bússola nem céu.

No deserto medra uma tulipa sem ar.

Pressinto paz no entorpecimento.

Da escotilha, mão febril cai no mar

Condiciono amor, impetuoso e  paixões…

Ludibrio sentimentos acusando ilusões.

Ariadne em mim lhe dá uma longa linha.

Me confunde com Hermíone.

DEMIAN de marilda confortin / curitiba

Se Demian chegasse
as 3 da manhã
mordesse a maçã do meu rosto
ou a barriga da perna
me levasse ao inferno
ou ao céu de sua boca
me chamasse de louca varrida
ou de vaca profana
me jogasse na cama
e me amasse macio
num cio de silêncio
como se fosse plantar
a semente de um Cristo
em meu ventre…

Se Demian chegasse
as 3 da manhã,
obsceno e mesquinho
invadisse meu sonho, meu ninho,
roubasse meu sono
e deixasse em meu corpo seu filho…

Se Demian entrasse,
me deixasse em transe
transasse comigo
mesmo que já não fosse
as 3 da manhã,
mesmo que já não fosse
de manhã,
mesmo que já não fosse
um Demian de Hesse.
Desde que chegasse e nunca mais se fosse
esse … esse desgraçado que nunca chega!

CÂNTICO DOS CÂNTICOS de vera lúcia kalaari / portugal


Queria ter confiança na eternidade

E na terra da verdade…

Queria nunca m’esquecer

Que volta sempre a primavera

Qu’entre pedras faz nascer rosas…

Queria deixar de ser este mar morto

Mar sem ondas e sem portos…

Queria deixar de mendigar

No silêncio das noites escuras

Caminhando por ermas estradas

Sem saber p’ra onde vou.

Queria saber quem me roubou minha coroa de rainha

Quem pisou minhas ilusões desfolhadas…

Queria ser a manhã qu’apaga estrelas

E encontrar amor em todas elas…

Queria ser a perdida, a que não s’encontra

Aquela que ninguém conhece,

A rutilante luz dum impossível…

Queria deixar de segurar nas mãos

O bem que nunca é meu

E encontrar no caminho o meu bordão d’estrelas…

Queria encontrar a água que procuro e de que estou sedenta…

Queria não pensar nos que andam descalços pela vida…

Nos que choram em insanas guerras…

Nos que mentiram e nos que mentem…

Não ter pena dos que em má hora nasceram…

Queria ter asas para voar e ser a fé

Na agonia dum moribundo…

Queria ser tudo…e não sou nada.

MÁXIMA FORÇA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O sonho e a força máxima.

O sonho é o deus infantil escondido atrás

do racional.

O sonho tece tratores

monta fábricas, compõe andaimes.

O sonho abre um shopping.

O sonho não é ingênuo.

O sonho rouba.

O sonho depreda.

O sonho angustia.

O sonho frusta.

O sonho quer ser eleito.

O sonho quer conhecer a África.

O sonho quer vender a cura de doenças.

O sonho planta quatro mil alqueires

de soja todo o ano.

O sonho quer escravos.

O sonho mata e desmata.

O sonho gerou esta era de desperdício.

O sonho é predador de outros sonhos.

O sonho quer mais.

O sonho mistura, aumenta, encolhe,

cães, gatos, bois e cavalos.

O sonho desmesura úberes e quer sempre mais leite.

O sonho.

S E N H O R – de jamil snege

Senhor

Hoje amanheci insatisfeito.
O pão estava amargo
e até o jornal que leio
todos os dias me pareceu de
uma insipidez atroz.
De repente, Senhor, lembrei-me
dos que não lêem jornais –
mas os usam para embrulhar
restos de pão que os paladares
amargos deixam no prato
após uma noite insatisfeita.
Como deve ser delicioso
esse pão, Senhor,
depois que tu o adoças com
tua própria boca!

Às vezes lamento minha
má sorte – e o que me espera
em seguida é um dia luminoso.
Às vezes bendigo minha
fortuna – e logo após um
furacão desaba sobre minha cabeça.
Brincas comigo, Senhor?
Ou será que devo lamentar
a minha fortuna e bendizer
a má sorte como se o avesso
e o direito fossem iguais
para ti?

Quando eu era pequeno,
topava contigo a cada instante.
Adolescente, passei
a encontrar-te cada vez menos.
Adulto, duvidei que
algum dia tivesse visto o
brilho de tua face e
te busquei incessantemente
por todos os caminhos.
Não te encontrei,
Senhor, nem poderia.
O piolho que segue na juba
do leão jamais terá
consciência de que possui um
leão inteiro.

Tenho procurado por
todos os meios me destacar
dos demais.
É minha a intervenção mais
inteligente, o lance
intelectual mais audaz.
Procuro as luzes do palco
com o mesmo fervor
com que o peregrino procura
a tua face.
Que tolice, Senhor.
Dentro de alguns anos, numa
tumba escura, que
artifícios usarei para
chamar a atenção sobre o meu
pobre crânio descarnado?

Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, senhor,
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?

Quando menino, nascido
serra acima, o que
mais eu desejava era o mar.
Eu queria apenas o mar
a mais nada – para nele
desfraldar meus
sonhos marinheiros.
Fui crescendo e ampliando
meus desejos.
Uma casa junto ao mar,
um barco a motor, festas,
empregados, piscina.
Obtive tudo isso, Senhor.
Mas aí então o mar dentro de
mim já havia secado

Não sou melhor que
uma pedra, uma folha,
a madeira de uma ponte,
o pó das estradas.
Sou apenas mais frágil,
Senhor, pisa-me com carinho.

Na minha infância, havia
um jogo que consistia
em se colocar um porquinho-da-índia
no interior de um círculo
formado por
casinholas numeradas.
Vencia aquele cuja
aposta correspondesse ao
número do esconderijo
escolhido pelo animalzinho.
Nunca mais vi esse jogo,
Senhor, mas eu sei que
alguns religiosos continuam
a praticá-lo contigo.
Cercam-te com suas
igrejas almiscaradas –
e correm a vendar apostas
aos seus fiéis.

A última tentativa
de me entrevistar contigo
foi um grande fracasso.
Acendi incensos, decorei com flores
– e nada de ti, Senhor.
Amanheci frustrado e
fatigado como se dançasse
a noite inteira nos infernos.
Resolvi então fazer
tudo ao contrário: dancei,
me embriaguei, libertei
fantasmas, invoquei
demônios.
Tive um sono embalado
por anjos em doces paragens
celestiais.
És sempre assim, Senhor?
Imprevisível? Desconcertante?

O velho índio foi encontrado
vagando pela floresta,
aparentemente perdido.
Perguntaram-lhe. Respondeu
cheio de brios: “Perdi
foi minha casa; não consigo
encontrá-la”.
Quanta lição, Senhor.
O homem pode perder sua casa,
sua rua, os rostos que
ama – sem jamais se perder
de si mesmo.

Um dia tu sras demonstrado
cientificamente,
como o eletromagnetismo e
a gravitação universal.
Professores te reproduzirão
em laboratório,
crianças enfeitarão com tua
fórmula suas mochilas
e os grafiteiros rabiscarão
teu princípio pelos muros
da cidade.
Nesse dia, Senhor, alguém
estará restabelecendo
teu mistério… à luz
de uma vela, numa galáxia
bem distante.

Ontem não fui solicitado
como gostaria de ser.
Ninguém me pediu conselhos,
ninguém fez caso
de minhas opiniões –
até pareceu que o mundo
e as pessoas poderiam viver
bem melhor sem mim.
Sensação terrível, Senhor.
E pensar que já passei
dias e meses da minha vida
infligindo idêntico
tratamento a ti…


Não ouças qualquer
juízo que eu faça sobre
meu semelhante.
Amordaça-me.
Corta minha língua.
A pessoa que acusei
de furtar minhas luvas
não tinha mãos.

Ontem vi um jovem preso
a uma cadeira de rodas.
Mãos, pernas, tronco –
imobilizados numa rigidez
de pedra.
De vivo apenas seu olhar –
atento, vigilante,
como se contemplasse tudo
das alturas.
Que expressão, Senhor,
que força poderosa…
Tua puseste todos os seus
músculos ali.

Tenho pensado ultimamente
em comprar um carro novo.
Trabalho com afinco,
faço tudo o que devo fazer,
mas nunca me sobra dinheiro.
Outro dia, fazendo
minhas contas, cheguei a
botar a culpa em ti: “Deus
não tem me ajudado”.
Que vergonha, Senhor.
Tantos homens trabalharam
com afinco a vida toda,
fizeram tudo
o que podiam fazer,
e jamais te pediram sequer
a passagem do ônibus…

Dois meninos, magrinhos,
irmãos, aproximam-se
do balcão de pães.
Escolhem um bem pequeno –
o que pode comprar a moeda
que um deles guarda no
côncavo da mão.
Saem os dois com seu
pãozinho – uma fome tão
antiga, entre acrílicos
e colesteróis.

Eu gostaria de ajudar
todas as crianças pobres,
carentes, desnutridas.
Gostaria, Senhor…
mas tenho a alma fatigada
de proteínas.
Ontem, por uma fraqueza
de caráter, resolvi
separar as pessoas de meu
convívio em dois blocos distintos
– os bons e os maus.
Que terrível, Senhor.
Depois de muito ajuizar,
os bons me fitavam com
expressões demoníacas
enquanto os maus, todos,
me exibiam a tua face.

Um homem mata outro e
tu o consentes.
O perverso agride o inocente
e tu não o fulminas.
O poderoso humilha o fraco
e tu aumentas-lhe o poder.
Que Deus és tu,
Senhor, que tudo podes
e tudo permites?
Que deus extermina órfãos
e ilumina a face dos
tiranos com os carmins
da longevidade?
Não respondas, Senhor,
não digas nada.
É esse mistério que me atrai
irremediavelmente a ti.

Toma a máquina do meu
corpo e nela
transporta socorro para
os teus aflitos.
É de pouca serventia,
Sei – o coração me arde,
meus músculos estão
fracos – mas podes
usá-la à exaustão.
E quando não mais prestar,
Senhor, escolhe uma tíbia
e faze uma flauta.

Hoje sairei à caça de lucros,
exatamente como o faço
todos os dias.
Tentarei ser o mais astuto,
o mais sagaz, e a terra
tremerá sob meus pés.
No entanto, Senhor, vai
comigo um menino magrinho,
olhos distraídos, que
não consegue entender por
que meus interesses
são mais importantes que
as nuvens e as borboletas.

Conserva-o assim, Senhor.
Mesmo que ele me atrapalhe,
mesmo que
me obrigue a ceder
no momento em
que preciso ser duro e inflexível,
conserva-o comigo.
E se um de nós não voltar,
Senhor, que seja eu – não ele.
Posso viver bem melhor
sem mim.

Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco – não
penses que irei por
este mar sozinho.


TERRA PROMETIDA por walmor marcellino + / curitiba



“Sempre fui palestino.
Era palestino
antes de saber meu destino,
e que existiram
Nabucodonosor, Ciro
seu pai Cambises
ou seu neto Artaxerxes
o que eles sentiram,
ou o que dizes do rito
agora dos reis a quem serves.

Sempre fui um palestino,
e tempos depois abissínio,
pele negra, sangue tinto
derramado em 1935.
Fui judeu estrelado em 40
e a cada seqüente ano;
depois, moreno cigano,
ditos indigitados estranhos
a qualquer núcleo humano.

Tornei-me vietnamita
numa povoação calcinada;
desde a porta de entrada
procurei defender nossa vida
com fraternidade ativa.
Bombas e napalm rasantes
à morte, traçantes
tentamos
a resistência massiva
ante o terror imperialista.

Hoje, é o mesmo inimigo,
pouco distinguimos ao vê-lo,
impondo ao povo castigo
quer arrasar a Palestina.
É um amargo pesadelo.

Novas tábuas do Sinai, a sina
vêm na luz “starfight” do céu, na
estrela de seis pontas no tanque,
vai retornando essa malsina
com todo o poderio ianque.”

(Curitiba, julho de 2002)

PARA ALEXANDRE ONEILL – de julio saraiva / são paulo

tenho mal- afamados sonhos com imagens de necrotério

ontem por exemplo vi meu corpo nu

deitado na morgue

troquei a lente dos óculos para certificar-me melhor

a miopia é comum na minha idade

ontem te vi alexandre a beber com vinícius

uma taça de vinho…não..desculpe não era uma taça

era uma garrafa inteira onde os dois se afogavam

num cantar d’amigos

hoje só hoje pela manhã percebi ao olhar-me no espelho

que os meus olhos são tristes como os teus

precisei viver 52 anos entre luas e viagens que inventei

para perceber que sou um homem triste

e trago a morte na saliva como quem diz bom dia ao zelador do prédio

tenho surtos de memória

não me lembro quando foi ontem

o relógio no meu pulso parou e a vida insistiu em me usar

dei-me a ela como se fosse um puta abrindo as pernas

não quero este gozo infernal

tenho mulheres que me tiram a consciência de homem

e me fazem perder o juízo do dia seguinte

(não sei nem se haverá o dia seguinte

eu invento o dia seguinte no balcão de um bar

onde não levanto a minha taça

o balconista passa o pano encardido na mesa

e me empresta o jornal onde leio as notícias que eu mesmo escrevi

penso irremediavelmente que não tenho a fúria dos vinte anos

inevitável é saber que com a última noticia morri

talvez seja breve

sim breve como o meu funeral.

UMA NÊNIA A WILSON BUENO de ivan justen santana / curitiba

Nossa Santa já não pode mais ser Cândida

Nossa vida assassinada e cada vez mais bandida

Facada que vem sem nem falar pra que vinha

.

Mas as frases não acabam no final da linha

Um sangue de poeta grava toda a escrivaninha

CHUVA: de luiz gustavo pires

chuva:

uvaia púr
pura

vaia
ou
fica

a deus dará

( chuvarada )
charada do tempo:

o que é que cai que nem pluma
mas não é algodão ?

não molha e não é seco ?

mais parece um soco no saco ?

só dor sua dor ?

escarcéunário

VIA CRUCIS – de alceu wamosy / uruguaiana.rs

Ó calvário do Verso! Ó Gólgota da Rima!
Como eu já trago as mãos e os tristes pés sangrentos,
De te escalar, assim, nesta ânsia que me anima,
Neste ardor que me impele aos grandes sofrimentos…

Esta mágoa, esta dor, nada existe que exprima!
Sinto curvar-me o joelho a todos os momentos!
E quanto falta, Deus, para chegar lá em cima,
Onde o pranto termina e cessam os tormentos…

Mas é preciso! Sim! É preciso que eu carpa,
Que eu soluce, que eu gema e que ensangüente a escarpa,
Para esse fim chegar, onde meus olhos ponho!

Hei de ascender, subir, levando sobre os ombros,
Entre pragas, blasfêmeas, gemidos e assombros,
A eterna Cruz pesada e negra do meu Sonho!

OTTO NUL e sua poesia VI / ilha de santa catarina

OS ECOS IMORTAIS

Que venham das alturas

Os ecos imortais

E das planuras

As formas abissais

Que perambulem à noite

Os bêbados trágicos

Na madrugada sofram

Os poetas mágicos

Que adormeçam

No seio das putas

Os filhos das putas

Que desfrute a paz

No meio da lama

O réprobo contumaz


====


INCÓGNITA

Me envolvo com a manhã,

Com a tarde,

Com a noite;

Tiro daí uma lição

Quanto à manhã, à tarde

Ou à noite;

Na manhã sou mais eu,

À tarde menos eu,

À noite sou em plenitude;

De que me valem, porém,

A manhã, a tarde, a noite,

Se não sei quem  sou?

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POEMA SEM TINO

Nunca mais farei

Um poema como manda

O bom figurino

Meio sem tino

Debochado e torto

Meio vivo, meio morto

Sem alma nem palma

Sem dama nem ama

Sem rima

Sem prima

Sem metro

Sem treta

Poema para dizer tudo

De ficar-se mudo

EIS O HOMEM – de marco aurélio campos / porto alegre

I

Brotei do ventre da pampa
Que é Pátria na minha terra
Sou resumo de uma guerra
Que ainda tem importância,
E, diante de tal circunstância,
Segui os clarins farroupilhas
E devorando coxilhas,
Me transformei em distância.

II

Sou do tipo que numa estrada
Só existe quando está só.
Sou muito de barro e pó.
Sou tapera, fui morada.
Sou a velha cruz falquejada
Num cerne de curunilha.
Sou raiz, sol farroupilha,
Renascendo estas manhãs,
Sou o grito dos
tahãs
Voejando sobre as coxilhas.

III

Caminho como quem anda
Na direção de si mesmo.
E de tanto andar a esmo,
Fui de uma a outra banda,
E se a inspiração me comanda,
Da trilha logo me afasto
E até sementes de pasto
Replanto pelas vermelhas
Estradas velhas parelhas,
Ao repisar no meu rastro.

IV

Sou a alma cheia e tão longa,
Onde as saudades rebrotam
Como os caminhos que voltam
Substituindo os espinhos,
E a perda de alguns carinhos
Velhos e antigos afrontes,
Surgiram muitos, aos montes,
Nesta minha vida aragana,
Destas andanças veterana,
De ir descampando horizontes.

V

Sou a briga de touros
No gineceu do rodeio.
Improtério em tombo feio,
Quando o índio cai de estouro.
Sou o ruído que o couro faz,
Ao roçar no capim.
Sou o rin-tim-tim da espora
Em aço templado.
E trago o silêncio guardado,
Do pago dentro de mim.

VI

Fazendo vez de oratório,
Sou cacimba destampada,
De boca aberta, calada,
Como a espera do ofertório.
Como vigia em velório,
Que tem um jeito que é tão seu.
Tem muito de terra… é céu,
Que a gente sente ajoelhando,
De mãos postas levantando
O pago inteiro para Deus.

VII

Sou o sono do cusco amigo,
Dormindo sobre o borralho.
Sou vozerio do trabalho,
Na guerra ou na paz – sou perigo.
Sou lápide de jazigo
Perdido nalgum potreiro.
Sou manha de caborteiro,
Sou voz rouca de cordeona,
Cantando triste e chorona,
Um canto chão brasileiro.

VIII

Sou a graxa da picanha
Na bexiga enfumaçada,
Sou cebo de rinhonada.
Me garantindo a façanha.
Sou voz de campanha,
Que nos lançantes se some.
Sou boi-ta-tá – lobisomem.
Sou a santa ignorância.
Sou o índio sem infância,
Que sem querer ficou homem.

IX

Sou Sepé Tiarajú,
Rio Uruguai, rio-mar azul,
Sou o cruzeiro do sul,
A luz guia do índio cru.
Sou galpão, charla, Sou chirú,
de magalhanicas viagens,
Andejei por mil paisagens,
Sem jamais sofrer sogaço.
Cresci juntando pedaços
De brasileiras coragens.

X

Sou enfim, o sabiá que canta,
Alegre, embora sozinho.
Sou gemido do moinho,
Num tom triste que encanta.
Sou pó que se levanta,
Sou raiz, sou sangue, sou verso.
Sou maior que a história grega.
Eu sou Gaúcho, e me chega
P’rá ser feliz no universo.

TRAVESSIA – de manoel de andrade / curitiba

A praia quase deserta

a manhã despertando na luz dos elementos

o céu e o mar buscando os seus azuis

as águas que se iluminam lentamente

o vôo preguiçoso das gaivotas

a serenidade de uma vela na distância

as ondas que se quebram mansamente

o enigma dessa paz que só o mar nos concede.

Meus olhos perscrutam o impossível

na invisível beleza marítima da vida.

Minha alma penetra no âmago majestoso da paisagem

e viaja longamente pelo instante mágico do tempo.

Mar, imenso mar

meu olhar flutua na imobilidade do teu corpo iluminado

nestas canoas batidas pela luz ao largo da baía

nestes pescadores curtidos pelo sol e pelo azul

a recolher, de longe em longe, seus frutos de escamas coloridas.

Beijo-te na salgada madeira destes  barcos  recolhidos,

te abraço no velho homem remendando sua rede.

Caminho neste estuante cenário de água e areia

recordo-me menino neste banquete de espumas flutuantes

na frescura das ondas que morrem aos meus pés

mergulho no teu ritmo

e danço contigo no encanto desta valsa milenar.

Atlântico, meu Atlântico

águas que não conheço nas distâncias do horizonte

esse mar visto apenas das areias

da foz exuberante das correntes

da barra destes rios que tu acolhes

águas fundas, águas rasas

águas doces que cruzei.

Recortados litorais do sul

meu norte

minha praia

meu idioma açoriano

meu salgado fruto

minha fritura, meu peixe, meu pirão

roteiro prematuro dos meus passos

itinerário incansável em meus pés descalços

íntimos recantos de baías e enseadas

antigo esconderijo dos corsários

história nas estórias de velhos habitantes.

Mar, imenso mar

planície total e palpitante

miragem  e sedução

misteriosa  superfície  nos caminhos do destino

o mar de todas as proas

esse território dos meus sonhos.

Navegar, não naveguei…

as águas do Titicaca foram minha gota de oceano no alto da Cordilheira

navegar como quisera navegar, nunca naveguei…

rota costeira de Quayaquil à Callao,

minha única travessia

meu mar sem horizontes

minha comovida migalha de aventura.


este poema consta do livro CANTARES da Escrituras

O BRUXO – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

(extraído de um sonho)

o Douglas Diegues é um bruxo

:meço seu supertalento:

graphar poemas nas peles das rãs

num átimo a gente pensa:

ah é simples! isso também faço!

é só pegar as bichinhas pelas longas pernas

estendê-las em uma tábua

e pronto!

com um fino ponção pontear

a epiderme com versos rasteiros

pior q. não!

a coisa não é bem assim

o tranho escreve por dentro da pele das

ditas :::micro-poemas lúminos:::

pra se observar a noite

depois as solta sãs e belas (no charco)

na fronteira Brasil/Paraguay

entes sígnicos saltitantes

em portunhol salvaje.

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