Arquivos de Categoria: prosa poética

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA – de zuleika dos reis / são paulo

                              A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA

                                                                                                             Zuleika dos Reis

O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar  de que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do imediato real, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

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MUDEM – uma homenagem as mulheres no seu dia – do jornalista gustavo henrique vidal / curitiba.pr

MUDEM

As postagens de hoje estão cada vez mais variadas: as divertidas, as machistas e as do respeito.

Mas continua sendo o dia da veneração.
Hoje os homens reconhecem a importância delas.
Mas só hoje, salvo às exceções.

Todos são carinhosos, amáveis, que chegam a enojar.
Lotam os motéis de reservas e esgotam os estoques das floriculturas e docerias.

E tudo acaba em sexo.
Sem respeito.
Voltando às origens da servidão feminina.

Esquecem-se da luta diária delas.
Até elas esquecem.
Comemoram um dia originado do fogo, fogo que queimou centenas de mulheres dentro de uma fábrica.
Ah! Mas isso não importa.
O Dia Interacional da Mulher virou um negócio.

Não para mim.
Eu não esqueço.
Do enfrentamento e solidão.
Da aversão e raiva.
Sentimento comum nelas, devido à convivência diária com os “doadores da costela”, que transformam esse mundão, cada vez mais insensível.

Se eu sou sensível?

Eu sou.
Sensível às lutas, às suas dores.
Sou sensível, apenas.

Raros são os homens que enxergam o coração de uma mulher.
Não sou um deles.
Mas admiro-os sem conhecer.

Um coração que sangra sem cor.
Suportando a barbárie sem pulsação.
Que silencia.

Nós, homens, não sabemos a metade do que se passa no coração delas.
E não queremos saber.
É do homem a razão.
O coração é da mulher.
E muitas vezes a razão também é.

Mas é preciso se importar.
Defender.
E lutar, muito.

Anita, Olga e Rosa e tantas outras estão aí.
Indicando o caminho.
Lutaram com homens, independentes.
E não ‘como’ homens, como bradam velhas vozes roucas distorcidas.

O que me vem à cabeça neste dia?
Demonstrar o mesmo respeito de todos os dias.
Que pouco existe em muitos.
Pouco que já agrada a muitas.
Mas poucas ainda querem mais.

Amem as mulheres.
Todos os dias.
Eu amo.
Todas.
Pelo fato de serem, simplesmente, mulheres.

 

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ELE, o autor:

“ For the world is more full of weeping than you can understand “ – por omar de la roca / são paulo.sp

 

Se quebraram meus vasos de porcelana rara. Eu peguei os cacos e vi que não eram nada além de barro comum. Estalaram as cordas da harpa que se cansou da conhecida música. A ultima rosa de verão, tão acalentada, mirrou e suas pétalas se transformaram em pó. Nada mais resta de meus sonhos exaustos. Só o cansaço me acompanha fiel. Este cansaço “de todas as coisas”, ancestral,velho de milênios. Cansado de si mesmo, arrastando-se pelo sol em cega caminhada. De um lado a água profunda e escura do outro o deserto escaldante. A trilha estreita que me empurra ora para um lado ora para outro. Sem me dar chance de escolher, de dizer, é este que eu quero e não aquele. Meu coração, como o espelho, partiu-se de lado a lado. E cada lado se partiu em outros dois pedaços numa seqüência fractal indefinida. Espero com os pés na areia,mas a estrela não cai mais.A primavera congelou no tempo.Me cortaram as asas.Só eu continuo por aqui. Mas não sei como. Não sei como sou. Não sei quem sou nem o que importo. Nem se importo. Eu quem ? Mas a impossível continuidade segue em frente, e me carrega com ela. Como uma onda que varre tudo pelo caminho e vai levando, vai levando. Sem dizer para onde e nem se vai parar. A canoa  solta das amarras, insiste em ficar no mesmo lugar. Só vai balançando de um lado para o outro. Não vira e nem segue em frente. Não segue a corrente de água (límpida? turva? não sei ). Os dedos do salgueiro continuam tocando de leve a água do lago. Mas eles não escrevem mais, apenas observam as gotas escorrendo deles como as lágrimas que não chora. Nada mais me importa. Nem me interessa mais agradar a ninguém. Nem me interessa me dar bem com ninguém. Será apenas um momento? Será apenas este infinito, irremediável cansaço? Serei capaz de suportar este azul que insiste em se mostrar? Mas o azul não esta mais dentro de mim.  O falcão refugiou-se na gaiola e não quer mais voar pelas campinas amarelas. As borboletas, as flores de cerejeira, o beija flor, ficaram só na fotografia. Nada restou. Algo virá para ocupar o vazio? Há bastante espaço. Mas o vazio não quer ser incomodado com mágoas e sonhos destruídos. Nem as minhas. O vazio quer apenas o vazio e nada mais. Quer ficar vazio para sobreviver. Quer sobreviver?  Não sei.

Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery hand in hand,
For the world’s more full of weeping than you can understand

Vá embora, criança,                                                                                                                                   Vá para os lagos e floresta                                                                                                                   com uma fada em cada mão,                                                                                                                deste mundo cheio de tristeza e choro,                                                                                             além de sua compreensão.

E este interminável cansaço. Cansado de si mesmo e dos outros.. A última fibra de rompeu. Cansaço, companheiro inseparável de todas as horas. E eu, que pensava ser forte, cai em mim e percebi que não sou nada além de apenas mais um .Sem direito a nada mais do que meu cansaço me impele a conseguir. Será que vai ser só isso? Sem esperança de ir mais além? Só sei que cada vez estou mais triste, com menos esperanças. Era mais fácil quando eu acreditava que algo mais viria. Agora, não sei. Será só esta inexistência insossa? Só me resta esperar que meu cansaço me responda. Dá me tua mão cansaço,vamos seguir mais um pouco.

A MORTE LENTA ou MORRE LENTAMENTE – por pablo neruda / santiago.ch

“Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito e do trabalho, repetindo todos os dias o mesmo trajeto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o “preto no branco” e os “pontos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeções, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não tentando um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. 

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples ato de respirar. Estejamos vivos, então!” 

Paulo Neruda

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NOTA DO SITE:

recebemos de um colaborador, assíduo, e cremos que também não sabia e porque o conhecemos confiamos na informação de autoria do poema acima. ocorre que tal poema NÃO É de autoria de PABLO NERUDA e sim de nossa colaboradora a escritora gaúcha MARTHA MEDEIROS com o título A MORTE DEVAGAR. pedimos esclarecimentos a FUNDAÇÃO NERUDA, no Chile, e recebemos este email:

Estimado Joao,

Gracias por escribirnos.

“Muere lentamente” NO ES de Pablo Neruda. Su autora es Martha Medeiros.

 

Más información en el siguiente link: http://www.fundacionneruda.org/es/pablo-neruda/preguntas-frecuentes/104-tres-poemas-falsamente-atribuidos-a-pablo-neruda-.html

 

Saludos cordiales,

 

Carlos Maldonado R.
Director de Comunicaciones

Fundación Pablo Neruda

www.fundacionneruda.org

(56 2 737 60 04)

Fernando Márquez de la Plata 0192

Providencia, Santiago

NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER, ofereço aos homens, companheiros de jornada no mundo – por zuleika dos reis / são paulo.sp /


A mulher só conseguirá se libertar inteira para si mesma, para o lar e para o mundo quando o homem que se queira novo também florescer inteiro, em todas as suas potencialidades de ser, para si mesmo, para o lar, para o mundo.

Não há como separar a evolução, a plenitude, os direitos e os deveres da mulher dos deveres, dos direitos, da plenitude e da evolução do homem.  Quando ambos se puserem, ampla, geral e irrestritamente a serviço um do outro, e juntos a serviço do lar, e juntos a serviço do mundo, haverá de brotar um tempo melhor, um tempo mais justo.

É preciso que a nova mulher olhe de frente o novo homem e vice-versa. É preciso que se conheçam, para que se possam, efetivamente, reconhecer.

 

 

Desejo de tolo – de gilda kluppel / curitiba

Tolos ambicionam o poder

e aos inocentes restam as lágrimas

nem em seus piores pesadelos

podem imaginar

as competições repugnantes

em palavras equivocadas.

Clausuram sentimentos

encerram as amizades,

iniciam parcerias,

unem-se aos assemelhados

ocupam os espaços

demarcam territórios

e consolidam acordos

para abrigar os indesejáveis.

Enfileiram as pessoas

como cartas de um baralho sobre a mesa

para tecer julgamentos espúrios

descartam os inconvenientes

que podem ser recolhidos

numa próxima rodada.

Caem as máscaras

na face a madeira bruta

sem verniz para disfarçar.

Espectros se levantam

sombras predominam

desonram os honestos

e a virtude é humilhada.

Sepultam ideais,

revestem-se de autoridade

e mudam atitudes.

Invertem a moral

espalham sofrimentos

e se regozijam na desgraça.

Mentiras se transformam em verdades,

verdades se ocultam atrás das mentiras,

meias verdades bastam

onde impera a hipocrisia.

Travestem-se de mártires

manipulam pessoas

inventam feitos heroicos

para conseguirem seguidores.

Oportunistas de ocasião se prevalecem

e reacendem a chama da vaidade

para obterem privilégios.

Logram irmãos

apedrejam supostos inimigos

e dormem sem consciência

na certeza da impunidade.

Deliciam-se em fétidas fossas

ao repartirem as migalhas

conquistadas após sórdidas disputas.

Orgulhosos se julgam poderosos

e em todos veem súditos,

prontos para lhes servirem

doses diárias de simulada gentileza.

Vendem a alma por qualquer bagatela,

em mais uma falcatrua.

Jazem em túmulos esquecidos,

pela vergonha da lembrança

ruborizam descendentes

com a memória da sua insignificância.

No mundo dos espíritos, no reino das trevas,

cercado de seus semelhantes

distantes da tolerância dos inocentes

encontram a sua verdadeira morada.

NOITE ET – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

UM PRESENTE DOS CÉUS

A POTRA AMARÍLIA ET

 

O cão corria o lebrão saltado da moita na noite escura corria até pegar. Já tínhamos dois no saco de ráfia. A caçada rendeu bem pensei. Já era hora de parar. Meia noite ou quase. Sobre a pedreira a grande nave estacionou num repente. Passei o arame liso da cerca com o cão e encostamos a par do mato. A supernave mãe abre a grande porta da frente e lança uma extensa e luminosa esteira. Pensei despensei o que iria sair dali? Uma mulher linda uns homens tipo soldados armados pra guerra um líder com vestes bizarras?! Nada disso. O que saltou de dentro do truvisco luminoso era um belo cavalo: patas de acrílico ou carbono tilintando feito moeda no metal da esteira. Olhos crispados de céus noturnos o bicho levantado nas quatro patas. Nojo de pisar no chão saltou no campo… olhou pros lados conferiu avaliou e num salto espetacular por cima da cerca ganhou a parte mais alta do terreno. Um cavalo do espaço. Um cavalo alado. Um cavalo amarílio quase pinhão crinas douradas. Miúdo de cerca duns onze meses de idade. Um cavalo crispado de noite grande. Pensei despensei. Isso é uma jóia: um brinde dos céus pra quem olha tanto pra cima. Olha confere as noites kedences como um alucinado. Quem teria me mandado tão valioso presente?! Matutei. Agora é com o Charlinhos Soboleski: amanhã cedo tentamos pegar o bicho e fazer as avaliações de praxe. Se tem algo que conhecemos mais ou menos nesse mundo é cavalo. Isso que você tá pensando também… mas não acertamos uma. Fica só na mãe mesmo. AHHHHHHHHHHHHHHHHHH. Cernelha alta a potra ou potranco não deu pra ver o sexo na escuridão da noite. As patas luzentes de acrílico ou carbono. A pelagem fina e lustrosa. As crinas tecidas em seda chinesa. A cauda alta tipo do nosso cavalo terreno árabe em chuveirinho. Os olhos grandes e luzidios na noite grande. Um topete alto punkiano moikano estilizado no nathural cósmico. Não é sempre que se ganha um presente assim dos céus. O pior agora é o cuidado que a gente deve ter com a jóia rara. O olho grande dos especuladores. Não pode. Não poderia vazar a informação. Mas vazou. Caso dum caipora que foi buscar umas vacas gordas e esticou o zóio na éguinha ET. Avaliou: cara de anta (do avaliador) com espíritho de taititu. Dissimulado tipo besouro que finge a morte pouco disse ou demonstrou de suas intenções. Mas lá fora do cercado pros lados de Três Barras já abriu o bico. O Charlinhos não vence a procura de curiosos pela santinha do espaço equina formosa nojo de pisar no chão bailante redibrilha de brilhar. Eles chegam cara de quem não quer nada ver duns garrotes uma ovelha umas novilhas pra criar e fixam o zóio gordo na minha bichinha do espaço. Não tem preço não tem destino e não tem empresta e não tem tipo algum de negócio. Vai crescer ali na Fazenda Poema a pequenina curtida de noites cósmicas campos a perder de vista alumbradas paisagens siderais. Não é que o presenteador que já calculo quem seja Nilthand”s Lux do Planeta Help’s 888 passou por ali sobre a pedreira noite dessas olhos cumpridos pra baixo… garanto a fim de ver a minha boneca se tá bem cuidada etc etc. Amigos se fazem assim trocando presentes… inusitadas honrarias. Sem esquecer que ele me deve milão do shopping de Floripa que lhe emprestei pra comprar bagulhos terrenos. Num desses dias de calor intenso a pequena espacial cresceu pra fora do mato saltou a cerca e foi até a comunidade mais próxima. Muitas pessoas correram a vê-la transitando por ali. Mas cria que bebe o leite num lugar de ficar retorna sempre e ela voltou saltitante já passada de ano e meio. Encorpada trafega os piquetes do gado adentra os capões de mato e provoca os garanhões árabe e paint horse. Um americano extraviado por aí veio ver a encantada dia desses. O homem parece cria cavalos árabes no Arizona. David Walker um nome que lembra um bom uísque. Mas o rebatemos com uma boa cachaça do Eduardo Estachelski amarelinha daquela que até o nosso querido padre achou exceeeeelenteeeeeeeee! O homem queria levar a potra por uns cinquenta mil dólares mas trucamos na hora. Nem é pelo nível do animal sua postura em cena campal seus trejeitos femininos formosura de debutante cósmica. Mas pelo raro do presente o ato em si do presenteador que a escolhera (a potranca) entre tantas daquele espaço e especial a brindar-me nos orbes de cá onde grassa vio-rulência. Por uns tostões se prende tortura e mata. Fica o bichinho em meu pasto sim. O Charlinhos pôs o buçal amansando-a de corda depois foi pro quebra queixo lento nos dois anos e três meses. A monta se deu aos dois e meio idade de conhecer estrada com gente encima. Universidade livre do cavalo: a estrada. Ali bicho aloucado desbocado tresandador sente o trecho e aquieta na educação. Assim é que sempre fazemos. Dá certo. Deu. Sempre dá. Agora inventei de descobrir mais da bichinha dada atirada lá do céu e vi: abaixo da crina uns nódulos metálicos se insinuam na pelagem. Entre os dentes frontais pequenas lâminas de afiar nas pedras e na base da cauda cristais incrustados à pele que a fazem luzir em certas noites. A um primeiro olhar nada se vê do que digo insisto está no bichinho como uma marca estigma extraterreno. Acredite quem quiser mas de pasto come pouco. Adora broto de taquara e água só bebe da chuva quando empoça nos campos. Não excreta o que come. Outro o sistema digestivo e motor. Salta pra mais de dois metros de frente ou de lado. Amanhã ficou de vir o Sr. Laurindo Stael talvez o veterinário mais especializado em equino das Américas pra fazer um laudo definitivo da belezura como diz o meu amigo Lúcio Soboleski. Belezura por dinheiro nunca jamé… dinheiro é bom mas pode dar probrema como diz o caboclo: fiquemos com a potra mesmo que o laudo do homem dê que a cria é única (e acredito que é) transespacial e encantada de sóis noturnos.

 

Não poema – de omar de la roca / são paulo

Não poema

Fechei meus olhos,para que não te visses neles e recebi com carinho teus beijos não dados.
Abri meus olhos, os teus já fechados,pousei um beijo em cada um com a delicadeza de uma borboleta numa folha, para não te acordar.
Encostei minha mão no teu rosto e não acordastes.
Recolhi a mão,fechei os olhos, senti a mão que voce não colocara em meu rosto e curvei a cabeça para receber o carinho não dado,prendendo tua mão não estendida entre o rosto e o ombro.
Segurei com cuidado tua cabeça,para que não batesse no vidro do ônibus,mas tirei a mão já que abrias os olhos.
E fiquei vendo o teu reflexo bo espelho, enquanto mantinhas os olhos vigilantes, e olhei direto para teu rosto enquanto mantinhas teus olhos fechados.Não, não os abra,quero decorar teu rosto.Sim, abra-os,quero ver de relance a cor de teus olhos enquanto desvio o olhar.São claros ? Não se i.
Tens sono.Fecho meus olhos e te vejo em meus sonhos despertos.Espero estar nos seus,mesmo que misturados com tua vigília.Abro meus olhos.Em tua boca o contorno de um sorriso.Do que te lembrastes? O que fizestes ? Fecho meus olhos e sorrio também.Me lembrei do que fiz? Não.Gravei teu rosto.
Estamos chegando.Sussurro ao teu ouvido,está na hora.Não te dás conta.Espero-te ? Não respondes.Te olho mais uma vez quando chegamos ao ponto final.
Respondo com um sorriso ao até amanhã que não me destes.Até amanhã.Espero te ver de novo.Mesmo que seja durante os quinze minutos que a viagem dura.
Te abraço forte,mas pareces não sentir.Eu, entretanto, quase não respiro com a força do teu abraço não dado.
Te levantas rápido. E finges não perceber que te deixo descer na minha frente.Aguardas na calçada e não me estendes a mão, que pego com avidez.
Agradeço a gentileza não feita,enquanto amarras o tênis.Sigo até a escada rolante.Vo cê vai pela fixa.Mas ainda nos vemos no andar de cima em lados opostos.Te procuro e te acho.Dou um sorriso de satisfação pelo teu sorriso não dado.Aceno de volta para o teu aceno não dado.Viras a tua esquerda e eu viro a minha esquerda.
Quem sabe amanhã.Quem sabe amanhã tocarei teu corpo com o meu sem querer,perto da porta de saída,descendo as escadas.
Quem sabe amanhã um motorista descuidado não freia rápido,jogando tua cabeça para perto da minha.Quem sabe irei pisar em teu pé,meio que por acidente,só pra te olhar bem, me desculpar,e ver teus olhos verdes olhando para mim.

PLASTIKOS – de gilda kluppel / curitiba

Plastikos

O ícone da atualidade

dispensando a argila

moderno, termoplástico e elástico

este policloreto de vinila

adquire qualquer formato

por dentro correm as águas

reveste o piso, o teto e a parede

cria flores quase eternas

no frasco onde saciamos a sede

embalando diversos produtos

em tudo o ente plástico

o artificial artefato

descartáveis sintéticos

viram meros entulhos

a natureza em maltrato

no universo submerso

perversos com o meio ambiente

em suas inúmeras peças

formam um mosaico decadente

e nada que impeça

a paisagem em desarmonia

confundem as tartarugas marinhas

engolem seus piores pedaços

algas embrulhadas com plasticidade

como invadiu tantos espaços…

plastificará os mares por inteiro

assustando os marinheiros

de longas jornadas

nós, os passageiros

e o ser plastificador sorrateiro

querendo dominar o cenário

montanhas de lixo plastificadas

estáticas e petrificadas

pelos intrusos não biodegradáveis

realidade plastificante

pensou em seu uso e não no desuso

esquecendo da desplastificação

dos materiais macromoleculares

de longa decomposição

nada é justificável, apenas plastificável.

MALABARISTA – de wagner oliveira de melo / curitiba

Malabarista!
Eu sou você!
Destino ou acaso, quem é que decide?
Tortas ou retas, todas as linhas levam pro mesmo lugar. ( Afirmação ingrata).
No cartório, com nome e sobrenome legalizaram o aborto.
-Vai meu filho ser malabarista nessa vida!
Embora pequeno, já é adulto aquele menino. Vestindo a camiseta da ganância, todas as tardes ele compartilha suas moedas escassas com aquele espelho d`água; e sob o reflexo narcisista dos edifícios, repete o pedido de ontem, o mesmo de amanhã.
Voar, voar!
Tão alto quanto os edifícios, mais alto ainda, muito além das faces que se escondem atrás dos vidros escuros, olhos escuros, óculos escuros. Negligênciando, vilipendiando, atropelando a sua imagem e semelhança.
Eu sou você sem querer ser.

Sampa é uma festa (auto)móvel. Sumpa, uma festa junina. – ewaldo schleder / ilha de santa catarina

Sampa é uma festa (auto)móvel.

Sumpa, uma festa junina.

 

Presente célere: passado. Instala-se o inverno, 24 de junho, dia de São João.

Mas faz calor de primavera em São Paulo – posso ficar em casa

de camiseta e bermudas (acostumado com Florianópolis).

Na rua venta um pouco e deixa o sábado especialmente agradável.

Tati descansa de nosso percurso solo: ônibus urbano e demorada espera

pós-aeroporto, depois da viagem tranquila desde Curitiba.

Incongruências no transporte, na interação entre ar e terra =

uma hora de avião + 40 minutos no desembarque e bagagens

+ uma hora e dez de espera do ônibus urbano + 35 minutos

entre aeroporto e Tatuapé + 15 minutos de táxi até a Mooca.

Sampa, sumpa – o que vim fazer aqui?, além de acompanhar a Tati

em sua transição de trabalho daqui a curita.

Moro em floripa e lá eu deveria estar, em minha casa, sossegado.

Arrependimento não se aprende, ouso concluir.

Noutro dia faz frio e chove. Gelam os pés, a alma, as cobertas.

Só Tati, minha namorada, é preciso, somos precisos.

As atrações culturais e boêmias da metrópole não compensam

as aberrações da sub-urbe densa de gente. Os apelos da famosa

movida paulista não valem o impacto poluente

(som, imagem, movimento, detritos) de lata e borracha, do ar chumbado,

proporcional à escala automobilística: e o consumo estimulado

nas classes sócio-econômicas ascendentes, sofisticado nas elites,

consagrado nas camadas compactadas pela vox media, vox populi.

Emergente realidade no País novo-rico e mal-educado;

grande por fora e pequeno por dentro – como a Casa Feres, lá dos pinheirais.

Domingo na paulicéia – a desvairada, a airosa. Garoa. Mudo de assunto, mas nem tanto.

Penso nos brasis: dos pinheiros, das palmeiras, da soja, das matas,

das águas doces e salgadas. A fartura natural incomoda a tecnologia e o capital;

ainda que, respectivamente, a sirva e o sustente. Escassez, finitude, nem pensar.

Aceleramos a demolição: tijolos partidos, madeira aos retalhos, vidros trincados,

 ferros retorcidos, cimento rachado, pedras lascadas, entulhos;

a energia motriz da industrialização a recortar a natureza, a extinguir espécies;

os cálculos estruturais superam a sensibilidade, a sabedoria popular,

o instinto animal dos trópicos. Nada de novo debaixo do sol.

De janeiro a janeiro corre o rio Tietê.

Repartimos o que há no horizonte mais próximo. Buscamos e nos acomodamos,

enfim, aos nossos dois metros quadrados de felicidade. Ou de possibilidade.

De segurança? Locamos e assistimos filmes, lemos livros, revistas e jornais,

Ouvimos músicas. Bebemos. Mastigamos. Ruminamos. Mergulhamos na internet.

Bate o pânico, síndrome planetária.

Tati, paixão hibernal, colo! Teu colo. Sou hóspede da centenária

Mooca (tupi: fazer oca), bairro do clube ítalo-brasileiro Juventus.

Vila adotada por imigrantes lituanos e iuguslavos. Espaço histórico,

do Cine Santo Antonio, anarquista e comunista, berço da pizza tropical.

Pedimos uma de 2 sabores: nota dez. Durmo até achando que aqui mesmo

terminam os descasos brasileiros: a velha, a boa, a cúmplice pizza.

Nostalgia do futuro: – éramos cordiais aqui, Tati, minha paixão transcendental!

O trem que nos leva – de edu hoffmann / curitiba


Antes do pio dos pardais o trem apitava

sua locomotiva puxando VAGÕES VAGÕES VAGÕES VAGÕES … …

que não acabavam mais…

 

o trem cruzava a padre Germano Mayer

fazendo a manhã correr seu trilho, afugentando neblinas.

 

Ôrra meu, são seis horas, me enrosco no cobertor e

re-durmo no aguardo do amadurecer do dia.

 

No café, bolo de fubá mimoso, com bastante manteiga Aviação.

O café com leite, pra variar, pelando de quente. Só depois descascava

mimosa, fazendo companhia ao guapeca que festejava devorando o resto da vina de ontem.

 

Como todo piá pançudo, saía com a gurizada ranhenta, atravessando a quadra depois do sinaleiro, catando bolotas pra atirar com a cetra nos focos dos postes.

 

Sempre guardávamos algumas moedinhas pra comprar dolé.

Depois desse intervalo, íamos jogar betes ou soltar raia, já quase meio-dia, quando o sol já se alaranjava.

 

Tudo isso era louco de bom, quando nossas vidas ainda vestiam calça-curta

e qualquer ki-chute calçava nosso caminhos.

 

A benção, nossa senhora dos Pinhais !

 

SILPHIS, UM HÍBRIDO ENTRE NÓS – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Híbrido, demiurgo, espacial… o ser viveu anos entre nós. Nunca deu pra conhece-lo completamente. Onde nasceu, viveu, cresceu, formou-se.  Sabia de pesca, caça, poesia, artesem geral. Em filosofia, avançava muito. Nós o tratávamos por Silphis, quase carinhosamente.

Não haviam trevas para ele, nós, enliados do tempo. Só desvelo, luz, clareanças do pensamento. As pedras silenciam, as águas cantam, os céus estalam sagrações novas.

Numa pescaria no rio Iguaçu. Noite alta. A luz por trás da mata, aureolada, previa chuva intensa. Meu amigo Sete. O sete varas (Sr. Orlando) pediu que Silphis cuidasse do acampamento, enquanto armávamos uns anzóis de galho pra pegar traíra. Silphis, subiu numa árvore e lá ficou horas a fio. Não quis falar nada, mas vi que uma luz tênue, contornava o rapazinho. A velha canafístula, balançava ao vento e ele lá trepado, como um macaco prego. Horas mortas. A urutu em que quase pisamos encima. A carpa grande que saltou sob os sarandis. O grito do urutago no pau podre. Urutago. Urutau. Preguiça. Mão da lua. Manda lua. Abijaí-guaçu… Alguns peixes pescados e o retorno ao acampamento. Silphis ainda pairava na meia altura da árvore centenária. Ao nos ver chegar ao barraco, desceu, esgueirando-se por entre os cipós. Não sei, se o Sr. Orlando via, mas eu nitidamente enxergava o contorno de luz no garoto esguio, de aproximadamente 13 anos. Nos deixaram mais de ano a criança, com a alegação de que seus pais foram trabalhar numa barragem ou parque de diversões em Goiás. Oguri. Limpava peixe, capinava, lavava cavalo, cortava lenha, ajudava matar e pelar porcos. Sempre solícito, não negava mando. Nunca procuramos saber de seus pais, mais do que o necessário a justificar sua estada entre nós. Um pouco lá em casa, outro tanto com meu companheirão Sete, o guri foi luzindo e vivendo entre nós. Por mais de ano, ou dois, ou três… Tudo se confunde em nossa mente quando lembramos de Silphis e seus mergulhos longos no Iguaçu. Nadava, entrava em toca de tateto, subia em árvores altas. Esculturava com cipós, as mais lindas mulheres. Tinha conhecimento profundo das coisas terrenas, muito além do que se podia esperar de um garoto de 13 anos. Fazia flautas de taquarinha do mato e chamava pássaros. O sobrevivente surucuá, era sua companhia predileta. No rio, mergulhava fundo entre os peixes maiores e custava emergir. No espaço, elevava-se a mais de quatro metros de altura, num simples pular de cerca. A gente via, aquilo, só nós (eu e o Sr. Orlando, o Sete) e ficávamos quietos, só pra nós. Abestalhados. Com o tempo algumas pessoas mais observadoras, notavam algo diferente no guri. Disfarçávamos, o talento da criança, com uma história de circo. De que era egresso dum circo que há tempos atrás o esqueceu com os pais em Guarapuava. Ea vida ia correndo e Silphis, conosco aventurando pescarias, cavalgadas, construções artísticas e pensamentos filosóficos. Certa vez me disse que o espaço é um só, a substância universal a mesma, o sonho, o mesmo terreno e de todas as tribos do Cosmo. Num grão de areia da beira do rio, via o transfinito. Sinalizava aos orbes, estrelas… e parece recebia respostas. Em cavalos, tanto os adorava, andava quase deitado em cima, em galopes cancha reta. A luz em noites, de longas andadas tomava todo o dorso do animal e elevava-se também um pouco acima da cabeça. Eu só ficava vendo aquilo, abduzido, no lombo do meu Tigre paint. Minhas crianças, observavam que o piá era esquisitinho, dormia em qualquer lugar, a qualquer hora do dia ou da noite. Bastava, afastar-se um pouco das companhias e no encosto de um móvel, sobre um soalho, ou mesmo embaixo de uma cama, dormia. Uma noite o peguei, mentalizando algo, olhar fixo pela janela do sobrado de minha casa. A luz transpassava as árvores exóticas lá fora, e perdia-se no espaço. Percebi que havia um retorno de focos luminosos. Estabelecia-se ali comunicação entre seres de espaços diversos. Silphis jamais tocou no assunto de ter qualquer comunicação com o desconhecido. Seres cósmicos, ele mesmo podendo ser um híbrido, coisas assim… nunca fora sequer cogitado. Apenas eu e Sr. Orlando (o Sete) admitíamos, no nosso pobre entendimento dos transmundos a possibilidade do guri ser extraterreno, ou meio. Contava milhões de estrelas de cabeça, conjugava palavras novas, signos, símbolos. Eram vários guris num só. Várias cabeças pensantes. A gente via um e falava com outro, outro ser, outra psique na dialética cotidiana de horaem hora. Acostumamos assim na sadia relação. Aquela vez que trepou no jaracatiá, ficou três dias, no encosto com o monjoleiro vermelho. A boca amarela da polpa do fruto carnudo. Só desceu da árvore quando uma tempestade estalou madeira na mata.

Os cavalos quando Silphis chegava na Fazenda Poema relinchavam, abusivamente. Os cachorros latiam, os gansos, os patos, alariam. As ovelhas baliam. Uma égua prenha, o seguia pelos aramados por longas distâncias. Parece mantinha comunicação telepática com os bichos. Tinha alto poder de cura. Noutra vez em que um ferrão de mandiguaçu me acertou o peito do pé, num toque Silphis tirou a dor. Noutra, a inflamação na garganta passou, quando ele tocou-me o pescoço, com um ramo de gervão. Quando as abelhas africanas invadiram a casa na fazenda e todos puseram-se a correr, Silphis ergueu a mão (pude ver uma luz nas pontas dos dedos) e as pequenas asadas retornaram à colméia, sem ferir ninguém. Silphis fez muita falta quando partiu. Partiu, desapareceu, saiu pra comprar umas coisas na mercearia da esquina da Guajuvira com a Pinheirais na nossa Kedas do Iguaçu, e nunca mais retornou. Como não tinha família presente, sendo só nós os seus de vida e presença, nada aconteceu, além da imensa saudade que quase nos mata. Olho os céus detidamente, todas as noites. Estrelas sinalizam Silphis, em alguma via intergaláctica, mentalizando seus pobres amigos do Iguaçu. Cipós de pensamentos costuram tecidos de significação, sonhos, amizade. Uma vez Silphis acelerou minha mente, num processo telepático. Alguma coisa travou no desvelo de equações perigosas. Um caso de amor irresolvido!? Ou eram, sonhos sem finalização!? Sei que a solução ocorreu nathuralmente… Gostava de bifes de fígado e cáquis de sobremesa. Ensinou meus filhos a concentrar o tempo, atenção, mentalizar para o bem e o certo. Ensinou-os a expandir o conhecimento das coisas, em observando-as atentamente. Cresceu em nós como ser híbrido, espacial, deixando grandes lições. Há poucos dias um estranho homem, alto e forte, chegou em nossa casa e pediu pra mulher sobre Silphis. Disse que tinha uma mensagem de seus pais pro garoto. Em síntese: que era pro pequeno ir à Porto Alegre, perto de Praia de Belas, que seria encontrado pela família. Havia um brilho diferente nos olhos do homem. Um brilho, uma cor radiante na tez morena. A Mari, disfarçou que não sabia mais do garoto… que eu e o Sr. Orlando já o tínhamos encaminhado aos pais em Goiás… parece que a algum circo. Mal sabia ela, que Silphis partiu quando e como quis, sem nos dizer nada. É (sua passagem) uma fábula que se realizou, uma lenda em ser, que não tem fim e projeta aos tempos futuros. Silphis gostava de me ver escrevendo coisas. Ficava perdido, em noites altas, atento as minhas elaborações do pensamento. Poesia, arte, filosofia, direito, lógica, linguística, semiótica e misticismo. Tudo lhe chamava a atenção. Palavras não dizem tudo. Sentidos podem… mas nem sempre alcançam. Dizia. Senti, que nunca mais fui o mesmo como poeta e escritor, depois que Silphis se foi. Aquela luz, emanada do guri, o olhar atento, a sã comunicação interespacial que operava, deixaram em mim solitude, isolamento involuntário. A essa estrela nova que aqui passou consagro este texto de vento e brasa, saudade, conhecimento, além do terreno e do carnal. mvcxzn,mvn,mnv,mc1v euiondhSHdjjlkjdncxxvczzczcvzzsgzrk Expanda-se essa luz juvenil nos amplos espaços do Cosmo, vivendo e ensinando, o simples de pés no chão, que todos devemos ser. SIMPLES. Fui, sou, serei, à revelia do complexo. JARACATIÁ!

QUIRERA COM POESIA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


O milho amareliz amarelizarino sempre presente na minha vida de poeta do mato. Ontem colhemos duas carroçadas. O milho fica agora no galpão em espiga até secar bem, pra só após alguns dias ser quirerado. O milho novo pode dar garrotilho nos cavalos e é bom evitar o trato equino, nesses dias. As espigas tombadas no interior do galpão, pálidas estruturas envolvidas em palha, parecem corpos de seres de outro mundo. Amareliz amarelizarino o milho. Visitantes alienígenas vez por outra comparecem pra conhecer re-conhecer o milho, provar do seu amarelíssimo amido, sentir a textura de seus grãos como pepitas de ouro enchendo baldes, cestos trançados de taquara, carroças e caminhões no granel. Vi alguns seres refestelados no milho em noites altas de inverno. A luz forte da navemãe alumbrava a paisagem no entorno do velho galpão de madeira, onde o milho fica estocado. Os olhos do dono do milharal deixam o milho mais bonito, hígido nos grãos, pujante nas espigas. Nas colheitas, chego a deitar no meio do milho. Sentir o tépido e áspero das espigas dispostas irregularmente em montículos pelo chão da terra fresca. O milho amareliz amarelizarino milhante felizino cálido. Lanço poemas novos de cabeça. Eclipsemas fáceis de se entender e arranjar significação. Fugi da escola, me desinteressei pela gramática. Um poeta livre é de tecer sua própria linguagem/linguagens, regras de bem dizer e assim fiz, faço. A multidão de vozes prometida de vir não veio, não vem. A multidão de interlocutores que iria conhecer o meu verbo, debater contemporâneo e futuro da arte que penso, acho domino. As espigas vão sendo tombadas da carroça para o piso de cimento do galpão. Os corpos rolam pelo chão, amontoam-se, em composições aleatórias. Os corpos pálidos na tez pálida da palha seca do milho recém colhido. Entro pra dentro dos grãos amarelizes amarelizarinos do milho e sinto o protéico de sua razão de ser-estar no mundo como alimento primordial. O milho escorre pelas canaletas, distribui-se no recinto. Seus grãos de ouro indo pra maquininha de quirerar, saltitantes, felizarinos, amarelizarinos. A máquina quirera os grãos chegantes, como manda a peneira, se fina ou grossa. A quirera fumaceia, pó de milho no ar. A quirera quentinha saída da máquina, fumaceando o pó do milho, solar, solaríssimo. Na enteléquia da proselitílica conheci você. Ainda não existia o milharal o milho milho moído cangicado moído farinhado em minha vida de poeta. Vagava por avenidas de grandes cidades. E muitas vias passei, estrelas, estrelários conquistei e perdi. Muitas viagens interplanetárias no meu destino de tricoteiro de nuvens. Nem só de milho se vive vivo poemeio eclipsemo. Podia ter feito um colar de milho na safra passada com aqueles grãos maiores. Perfurar grão por grão até atingir as cento e tantas contas/miçangas de um razoável colar. Poemas fiz mais de setenta e manuscritos com caneta Pilot. Meus Ergochãs Espaciais saíram assim correndo da toca, como roedores espantados por algum animal perigoso. Em garranchos fui colocando as formigas pra fora do formigueiro. As formigas vinham manchadas de sol e espaço sideral, crispadas de musgos e alentadas de terra. Sei que isso nada tem a ver com o milho. Sei. Não sei. Também traziam uma carapaça de luz espelhar dourada. Não precisa ninguém vituperar vituperino nas minhas obsessões. Gosto disso dos grãos caídos ao chão, rolando despenhadeiros. Os grãos amareliz amarelizarinos do milho. Como da sua carne fresca ainda no pé, milho verde, ou em casa, pamonhado, ou mais tarde de colhido e seco quirerado na panela de ferro. O pó do milho em polenta, em broa, sempre servido na minha vida, como consagração da vida rural que levamos. Certo dia pisei no farelo de milho e saí pelo chão escuro do pátio, em noite minguante, deixando marcas douradas pelo caminho. O milho, esquenta parece, a quem se aproxima, seja homem, criação, cobra, rato, cães e gatos. No meu galpão uma vez um gato foi achado preso dentro duma bolsa de juta, quase meia de milho. O gato amareliz amarelizarino sobreviveu no dourado de sua pele, olhos, boca, patas. Noutra vez uma urutu preta daquelas encardidas e fétidas, saiu do paiol amarelizarina de pó do ouro de minha terrinha. O milho aquece as criaturas. Escreva aí. O milho sacia a fome e rebate o frio da vida. Meus cavalos babam o ouro do milho que os alimenta. Meus cavalos famintos de grãos amareliz amarelizarinos. No choque contra os dentes, os grãos de milho transformam-se milagrosamente, em líquido dourado. Meus cavalos que reverentes ou nem tanto, escutam meus longos monólogos sobre semiótica, philosophia, esthética principalmente e poesia. Meus cavalos diante de um louco milharante milharino comendo potes de cangica e operariando construções abstratas. Um louco-bom atirado na poeira amarela do milho. O milho entra pelas narinas, amarela os cabelos, os pés, os olhos, o milho, e numa mijada qualquer comparece também no sexo, o pó finíssimo do seu esmerilado, o milho entrando pelos poros, sujando de amarelo amareliz amarelizarino os pelos do corpo. O milho. mIlHo milhAnTE milHaRiNO. O milho já vi isso não se mistura com sangue. Certa vez tivemos que sacrificar uma galinha preta presa nuns ferros dentro do galpão. O pobre bicho entre a vida e a morte sangrava sangrava num membro dilacerado. O sangue escorria pelo chão mas não maculava o milho milharino que alimentou aquele bicho por tanto tempo. O sangue escorria sobre a quirera e a farinha de milho mas não incrustava não colava não adstringia de vermelho o amarelo vivatriz vivalhino do milho. Aquele poema que fiz aquela vez prenunciava minha vivência no pó amarelo vegetal. Minha vivência de verdes e amarelos, manchados de terra. Minha vivência de mato, jaracatiás, uvaias e guavirovas, pés nos chão e olhos/sentidos nas estrelas, pensamento no criado, criante e incriado. Os pirilampos lembram do milho, voante brilharino, pisquepiscante em noites de verão. Cogito, terço, enveredo agora pra eclipsemas difíceis de se entender e arranjar significação. Assim foi que no simplório orei ao milho milharino milhoz milhante milhoardeluzerino:

ELOGIO DO MILHO

 

A primeira vez que te vi:

milho

ouro vegetal em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

milho ouro vegetal

no prato nosso de cada dia

quirera

teus microgrãos triturados

de mão em mão

brilham na louça

ouro em pó

vegetal na palma de minha mão

um comedor de quirera

vivo na contramão

do tempo e da história

os bolsos cheios do pó dourado

de minhas roças

milho: triturados grãos

falso ouro dos que pedem

consolo dos desolados

na louça branca

na mesa improvisada

na cumbuca do bóia-fria

sob a lona do sem-terra

amo a nathura

onde vivo e trabalho

um comedor de quirera

nasce a cada minuto

:também nasci assim:

um comedor de quirera

minha voz entalou no muro

esse grão que se habilita

a matar todas as fomes

não tem pai nem sobrenome

é milho só em espiga em grão

moído cangicado

moído farinhado

crescido sempre na luta

das mãos que o semeam e colhem

:quirera: teus microgrãos

triturados de mão em mão

brilham na louça branca

ouro em pó

vegetal

na palma de minha mão.

 

Terminei o poema e vi a poeta quituteira que mais que ninguém escreveu sobre o milho o ouro vegetal: Cora Coralina. Estava em brancas vestes adornada de grãos de milho, amareliz amarelizarinos. Uma aura douratriz milhatriz milhante entornava-a. Assim como surgiu a imagem desapareceu, deixando odor de milho quente, passado em tacho, panela de ferro, feito cuizcuz, bijú, pamonha… Os ratos no canto do paiol roíam o resto de grãos que ficaram do transporte. Cora Coralina deixou uma cesta cheia de quitutes de milho encima da velha tulha de madeira de lei. Agradeci, dizendo como meu tio Nenê caboclinho de sepa do Riograndópolis do Sul, não carecia Dona Cora, não carecia. E me fartei dos quitudes amareliz amarelizarinos túmidos do amido de ouro. Evoquei kaingangues roçadas de milho no toco. Fogo e fumaça, naqueles fins de mundos. Verdes sobre verdes esmeraldados com clareiras plantadas de milho milharino. Evoquei tribos nômades transportando lavouras de milho dum lugar para outro. Tribos grandes. Curumins caras amarelas amarelizarinas do milho fresco comido em gula. Os cavalos corriam pensamentos bons pelos meus campos da Fazenda Poema, e furões e iraras adentraram nos montes de milho roendo a palha e os grãos. A terra joga pra fora as pequenas hastes verdes verdeforescentes do milho plantado a poucos dias. Mais tarde os pendões como pênis juvenis estiram-se pra fora do invólucro verde. O milho é valente e floresce, põe barbas de milho pra fora, avoluma-se na maturidade. Ficamos todos (homens e bichos) rondando o milharal anuviado de verdes, maturar o ouro do seu ser. E assim é, sempre será em nossa vida cabocla, quirera com poesia todo santo dia.

 

ENTÃO… – de woody allen / eua

“Em  minha próxima vida quero vivê-la de trás pra frente.

Começar morto para despachar logo esse assunto.

Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.

Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentadoria e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.

Trabalhar por 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável,  até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo; e depois estar pronto para o secundário e para o primário, antes de virar criança e só brincar, sem responsabilidades.

Aí, viro um bebê inocente até nascer.

Por fim, passo 9 meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e espaço maior dia a dia, e depois –  desapareço num orgasmo.”

NOCTURNAS PALAVRAS – por zênite / portugal

Escrevo sob a alpendrada, por entre as colunas. De um universo de centenas de milhares de vocábulos, procuro as palavras certas, as que devorem a escuridão abismal que me vai na alma. Onde as demandarei? Na lua incerta oculta pelas nuvens de incêndio e sangue que espelham o clarão suspeito da grande cidade, na outra margem? Não! Nas folhas da minha figueira mansa? Não! Antes fora brava, e provavelmente nela as encontraria. Nas laranjas verdes que, vacilantes, oscilam ao sabor da brisa, e que há muito olvidaram os aromas das flores? Também não. No rumorejante canavial do campo defronte, convertido em negro avejão de asas laceradas a partir do lusco-fusco? Porventura, mas não vou sair da prudente placidez do meu território para o saber.
Será que é esta luz de néon branca e fria que vem do alto do madeirame, como se este fora o cavername de um navio fantasma, que queima as raízes da noite sem margens e as minhas e me sufoca a mente, que não me deixa alcançar as palavras? Ou será a claridade asfixiante que ressalta da frígida indiferença do cristal de vídeo que tenho à frente? Talvez.

Na madrugada da noite que avança sem âncoras, como encontrar a medula grega do verbo, a genuína essência da seiva que corre ao longo das linhas oblíquas e labirínticas da história, que há muito partiu de Knossos nas asas estranhas de um vento pós-equinócio?

Apago todas as luzes e saio para a terra nua. Encosto-me ao tronco esguio de um choupo que num anúncio prematuro de Outono, quiçá de Inverno, a pouco e pouco se vai despindo.
Um sopro oloroso e húmido de sudoeste desliza continuamente pelo meu corpo. Tento agarrá-lo com as mãos e depois com os lábios, sorvendo-o, sedento, a longos haustos. Não corro risco de ser surpreendido na loucura do gesto, pois não há vivalma por aqui. Estou tão só como a lua silente lá no alto. Apenas o latido doloroso de um cão perfura de vez em quando a estranha quietude que me cerca.

Pergunto então à noite: “onde escondeste as palavras, que as não encontro?”
Taciturna, a escuridão devolve-me o seu eco silencioso, envolve-me no seu manto viscoso e sombrio e cinge-me com as suas algemas de orvalho, enquanto desprendida a lua se esconde por detrás de um algodão vermelho-vulcânico.

Hesitante, saio de onde estou e caminho por entre as árvores. O ritmo dos meus passos conjuga-se com a métrica da entoação muda da respiração da terra.
A rainha da noite volta a aparecer e a flutuar nos espelhos indistintos do pequeno lago ali perto. Cintila graciosa como se ensaiasse uma dança de nenúfares. É uma “lua sobre a água”. E porque a expressão é de García Lorca, peço encarecidamente a este que me ajude.

Distante e impassível, Lorca diz-me que não me apoia porque não gostou dos versos que um dia lhe dediquei. E acrescentou: “Todo o mundo que ser poeta. No entanto, é mais fácil ser farmacêutico… E ser farmacêutico até é bem difícil.” E afastava-se já, quando ouvi a sua voz em surdina: “Porque simplesmente não desistes?”

Não lhe respondi, mas pensei para dentro de mim: “fossem minóicas como as de Knossos estas colunas e de pedra antiga o madeirame da abóbada, e as palavras fluiriam como se provenientes da liquidez da fonte de Clepsidra, a que é alimentada pelas águas puras e cristalinas que escorrem das altas fragas e aclives da longínqua Messénia, na qual as ninfas davam banho a Zeus-menino.

Por entre os destroços e ruínas que povoam o meu espírito, as sílabas assemelham-se a fantasmas baços dançando sobre o silêncio indeterminado que paira sobre a lua do lago. Desisto então de procurar as palavras certas nesta noite de silêncio opressivo entrecortado pelos latidos magoados de um cão triste e pelos raios de luz imprecisa derramados por uma lua vaga-lume de novo oculta por nuvens opacas.

O lago está agora escuro como breu. Reacendo as luzes e volto ao cristal de vídeo. As claves mudas alinhavam sozinhas as palavras que não encontrei.
Vou apagar de novo todas as luzes, e talvez as palavras, e sentar-me tranquilamente a um canto a fumar. Não, não apagarei as palavras.

Descrevendo luminosas parábolas, só o meu cigarro incendeia a escuridão. Por entre os balaústres e as colunas vermelhas que constituem a minha única protecção contra o insustentável cavername que segura noite, apenas a minha solidão e a do meu cigarro existem e permanecem. Estou em Knossos. Na última curva da madrugada.

 

 

SILPHIS, UM HÍBRIDO ENTRE NÓS de jairo pereira / quedas do iguaçu

Híbrido, demiurgo, espacial… o ser viveu anos entre nós. Nunca deu pra conhece-lo completamente. Onde nasceu, viveu, cresceu, formou-se.  Sabia de pesca, caça, poesia, artes em geral. Em filosofia, avançava muito. Nós o tratávamos por Silphis, quase carinhosamente.

Não haviam trevas para ele, nós, enliados do tempo. Só desvelo, luz, clareanças do pensamento. As pedras silenciam, as águas cantam, os céus estalam sagrações novas.

Numa pescaria no rio Iguaçu. Noite alta. A luz por trás da mata, aureolada, previa chuva intensa. Meu amigo Sete. O sete varas (Sr. Orlando) pediu que Silphis cuidasse do acampamento, enquanto armávamos uns anzóis de galho pra pegar traíra. Silphis, subiu numa árvore e lá ficou horas a fio. Não quis falar nada, mas vi que uma luz tênue, contornava o rapazinho. A velha canafístula, balançava ao vento e ele lá trepado, como um macaco prego. Horas mortas. A urutu em que quase pisamos encima. A carpa grande que saltou sob os sarandis. O grito do urutago no pau podre. Urutago. Urutau. Preguiça. Mão da lua. Manda lua. Abijaí-guaçu… Alguns peixes pescados e o retorno ao acampamento. Silphis ainda pairava na meia altura da árvore centenária. Ao nos ver chegar ao barraco, desceu, esgueirando-se por entre os cipós. Não sei, se o Sr. Orlando via, mas eu nitidamente enxergava o contorno de luz no garoto esguio, de aproximadamente 13 anos. Nos deixaram mais de ano a criança, com a alegação de que seus pais foram trabalhar numa barragem ou parque de diversões em Goiás. O guri. Limpava peixe, capinava, lavava cavalo, cortava lenha, ajudava matar e pelar porcos. Sempre solícito, não negava mando. Nunca procuramos saber de seus pais, mais do que o necessário a justificar sua estada entre nós. Um pouco lá em casa, outro tanto com meu companheirão Sete, o guri foi luzindo e vivendo entre nós. Por mais de ano, ou dois, ou três… Tudo se confunde em nossa mente quando lembramos de Silphis e seus mergulhos longos no Iguaçu. Nadava, entrava em toca de tateto, subia em árvores altas. Esculturava com cipós, as mais lindas mulheres. Tinha conhecimento profundo das coisas terrenas, muito além do que se podia esperar de um garoto de 13 anos. Fazia flautas de taquarinha do mato e chamava pássaros. O sobrevivente surucuá, era sua companhia predileta. No rio, mergulhava fundo entre os peixes maiores e custava emergir. No espaço, elevava-se a mais de quatro metros de altura, num simples pular de cerca. A gente via, aquilo, só nós (eu e o Sr. Orlando, o Sete) e ficávamos quietos, só pra nós. Abestalhados. Com o tempo algumas pessoas mais observadoras, notavam algo diferente no guri. Disfarçávamos, o talento da criança, com uma história de circo. De que era egresso dum circo que há tempos atrás o esqueceu com os pais em Guarapuava. E a vida ia correndo e Silphis, conosco aventurando pescarias, cavalgadas, construções artísticas e pensamentos filosóficos. Certa vez me disse que o espaço é um só, a substância universal a mesma, o sonho, o mesmo terreno e de todas as tribos do Cosmo. Num grão de areia da beira do rio, via o transfinito. Sinalizava aos orbes, estrelas… e parece recebia respostas. Em cavalos, tanto os adorava, andava quase deitado em cima, em galopes cancha reta. A luz em noites, de longas andadas tomava todo o dorso do animal e elevava-se também um pouco acima da cabeça. Eu só ficava vendo aquilo, abduzido, no lombo do meu Tigre paint. Minhas crianças, observavam que o piá era esquisitinho, dormia em qualquer lugar, a qualquer hora do dia ou da noite. Bastava, afastar-se um pouco das companhias e no encosto de um móvel, sobre um soalho, ou mesmo embaixo de uma cama, dormia. Uma noite o peguei, mentalizando algo, olhar fixo pela janela do sobrado de minha casa. A luz transpassava as árvores exóticas lá fora, e perdia-se no espaço. Percebi que havia um retorno de focos luminosos. Estabelecia-se ali comunicação entre seres de espaços diversos. Silphis jamais tocou no assunto de ter qualquer comunicação com o desconhecido. Seres cósmicos, ele mesmo podendo ser um híbrido, coisas assim… nunca fora sequer cogitado. Apenas eu e Sr. Orlando (o Sete) admitíamos, no nosso pobre entendimento dos transmundos a possibilidade do guri ser extraterreno, ou meio. Contava milhões de estrelas de cabeça, conjugava palavras novas, signos, símbolos. Eram vários guris num só. Várias cabeças pensantes. A gente via um e falava com outro, outro ser, outra psique na dialética cotidiana de hora em hora. Acostumamos assim na sadia relação. Aquela vez que trepou no jaracatiá, ficou três dias, no encosto com o monjoleiro vermelho. A boca amarela da polpa do fruto carnudo. Só desceu da árvore quando uma tempestade estalou madeira na mata.

Os cavalos quando Silphis chegava na Fazenda Poema relinchavam, abusivamente. Os cachorros latiam, os gansos, os patos, alariam. As ovelhas baliam. Uma égua prenha, o seguia pelos aramados por longas distâncias. Parece mantinha comunicação telepática com os bichos. Tinha alto poder de cura. Noutra vez em que um ferrão de mandiguaçu me acertou o peito do pé, num toque Silphis tirou a dor. Noutra, a inflamação na garganta passou, quando ele tocou-me o pescoço, com um ramo de gervão. Quando as abelhas africanas invadiram a casa na fazenda e todos puseram-se a correr, Silphis ergueu a mão (pude ver uma luz nas pontas dos dedos) e as pequenas asadas retornaram à colméia, sem ferir ninguém. Silphis fez muita falta quando partiu. Partiu, desapareceu, saiu pra comprar umas coisas na mercearia da esquina da Guajuvira com a Pinheirais na nossa Kedas do Iguaçu, e nunca mais retornou. Como não tinha família presente, sendo só nós os seus de vida e presença, nada aconteceu, além da imensa saudade que quase nos mata. Olho os céus detidamente, todas as noites. Estrelas sinalizam Silphis, em alguma via intergaláctica, mentalizando seus pobres amigos do Iguaçu. Cipós de pensamentos costuram tecidos de significação, sonhos, amizade. Uma vez Silphis acelerou minha mente, num processo telepático. Alguma coisa travou no desvelo de equações perigosas. Um caso de amor irresolvido!? Ou eram, sonhos sem finalização!? Sei que a solução ocorreu nathuralmente… Gostava de bifes de fígado e cáquis de sobremesa. Ensinou meus filhos a concentrar o tempo, atenção, mentalizar para o bem e o certo. Ensinou-os a expandir o conhecimento das coisas, em observando-as atentamente. Cresceu em nós como ser híbrido, espacial, deixando grandes lições. Há poucos dias um estranho homem, alto e forte, chegou em nossa casa e pediu pra mulher sobre Silphis. Disse que tinha uma mensagem de seus pais pro garoto. Em síntese: que era pro pequeno ir à Porto Alegre, perto de Praia de Belas, que seria encontrado pela família. Havia um brilho diferente nos olhos do homem. Um brilho, uma cor radiante na tez morena. A Mari, disfarçou que não sabia mais do garoto… que eu e o Sr. Orlando já o tínhamos encaminhado aos pais em Goiás… parece que a algum circo. Mal sabia ela, que Silphis partiu quando e como quis, sem nos dizer nada. É (sua passagem) uma fábula que se realizou, uma lenda em ser, que não tem fim e projeta aos tempos futuros. Silphis gostava de me ver escrevendo coisas. Ficava perdido, em noites altas, atento as minhas elaborações do pensamento. Poesia, arte, filosofia, direito, lógica, linguística, semiótica e misticismo. Tudo lhe chamava a atenção. Palavras não dizem tudo. Sentidos podem… mas nem sempre alcançam. Dizia. Senti, que nunca mais fui o mesmo como poeta e escritor, depois que Silphis se foi. Aquela luz, emanada do guri, o olhar atento, a sã comunicação interespacial que operava, deixaram em mim solitude, isolamento involuntário. A essa estrela nova que aqui passou consagro este texto de vento e brasa, saudade, conhecimento, além do terreno e do carnal. mvcxzn,mvn,mnv,mc1v euiondhSHdjjlkjdncxxvczzczcvzzsgzrk Expanda-se essa luz juvenil nos amplos espaços do Cosmo, vivendo e ensinando, o simples de pés no chão, que todos devemos ser. SIMPLES. Fui, sou, serei, à revelia do complexo. JARACATIÁ!

DO SENTIMENTO DA INUTILIDADE; DA ONIPOTÊNCIA DO ACASO – por zuleika dos reis / são paulo


O sentimento mais terrível de todos, o mais insuportável de viver é o da inutilidade dos fatos, do sofrimento, da Dor. A necessidade, que de terrível toca o abominável, de se precisar encarar a ausência de finalidade e de Finalidade, a presença e a certeza do Acaso no Ocaso de todas as coisas.

Entrar na vida das pessoas, mover-lhes os sentimentos, sentir-se alterado até a medula dos ossos pelos sentimentos por elas despertados. Sofrer o Inexplicável, morrer de Silêncio. Causar o mal sem jamais se ter pretendido isto; agonizar cotidianamente pelo mal a nós causado, mal inocente de si mesmo. Saber-se e saber outros seres presas de equívocos sem mais tempo nem direito algum a Esclarecimento.

Ir-se em direção ao inexorável Fim do tempo, sabendo-se desprezado, até mesmo odiado, sem remissão possível, sem tempo para resgate, sem ouvidos quaisquer até mesmo para um pedido de perdão. Saber-se julgado e condenado, irremediavelmente, sem nenhum direito a apelação: personagem kafkiano.

Saber desperdiçados os tesouros do próprio ser e os tesouros dos outros seres no interior deles próprios. O horror de ser-se eternamente acusado por tal crime, o de ter posto a perder todos esses tesouros, em si e nos outros.  O horror supremo de não se poder ver o rosto do próprio crime, nem tampouco o rosto da própria inocência. O horror de ver a própria vida e a vida de seus parceiros-cúmplices passarem ao largo de si mesmas.

Saber irremediavelmente perdidas as Dádivas do Tempo Mágico. Perdidas, sem resgate à vista, ainda que no tempo mais longínquo, ainda que no tempo fora-do-tempo. As Dádivas do Tempo Mágico seguindo apenas em direção ao Esquecimento.

 

No fim da manhã de 11 de fevereiro de 2011.

 

MODELANDO NOSSOS SONHOS – de zuleika dos reis / são paulo


 

 

Parece-me ter passado a vida a modelar meus sonhos a partir da evocação dos traços que compõem teu rosto.

Parece-me teres passado a vida a modelar teus sonhos a partir da evocação dos traços que compõem meu rosto.

As evocações dos traços dos nossos rostos, os do teu, os do meu, foram a argila, a matéria-prima com que modelamos, tu, os teus sonhos; eu, os meus.

Foram, as evocações dos traços dos nossos rostos, os do meu, os do teu, a argila, a matéria-prima com que modelamos, eu, os meus sonhos; tu, os teus.

Nunca vi os sonhos que modelaste com a argila dos traços do meu rosto; nunca viste os sonhos que modelei com a argila dos traços do teu rosto.

Sei apenas, há muito tempo, os traços do meu rosto a se diluirem, cada vez mais, na imagem do espelho. O mesmo vives a dizer e a repetir, ad infinitum, sobre os traços do teu rosto no espelho.

Os traços dos nossos rostos, argila da qual se compuseram o teu e o meu sonho, a desaparecerem dos espelhos.

Hoje, onde os sonhos por nós compostos? Onde a argila de que foram compostos? Onde os traços dos nossos rostos?

É preciso que se recomece tudo, a partir, agora, deste quase ponto zero. Urge recomeçar, no sentido inverso ao do antigo percurso.

Ajudemo-nos, escultor: recomecemos o trabalho. Vamos compor de novo, eu, os traços do teu rosto; tu, os traços do meu rosto.

Recomecemos, escultor, o caminho para o  nosso retorno.

 

Na manhã de 17 de fevereiro de 2011.

 

 

TROPILUZ de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


 

(Ensaio de relação entre o cavalo e o poeta)

 

Esse cavalo continuará correndo pelos caminhos de meus caminhos suas ventas quentes a inalar o cheiro do capim verde da Fazenda Poema na saída das primaveras meu cavalo que já faz parte de mim um equus hígido de luz continuará pastando o pasto fino de minhas visões o ritmo dos poemas longos pousados nos livros inéditos as pernas longas no arremesso do bólido no espaço o bólido muscular em seu  primeiro galope acima do vento a manter o sonho vivo o sonho do sonhar a grande poesia no pasto da campina!? Eu um boi agora a sonhar a grande poesia no pasto da campina um cavalo nunca poderá correr na frente do vento um cavalo nunca poderá correr na frente do pensamento um cavalo correr quando seu pai o homem estiver morto sou pai desse potro exuberante sobre as planícies um potro pasta minhas palavras de aluguel nessas planícies que imagino vertidas de luzes espectros de pensamentos mal conduzidos é de se ficar envolto numa filosofia que não se pode solucionar expor como água na palma da mão aos pobres de espírito aos lerdos aos letargidos um cavalo é de ficar com o homem morto o homem que morre em pé e seu cavalo ao lado do seu pai o cavalo hirto e resolvido do lado do dono que vai o dono que se ausenta um cavalo correndo do outro lado da vida com seu dono sedento de tempo… não! Essa amizade não poderia terminar assim como terminam as amizades entre os homens um cavalo é de ficar sempre com seu dono aprendendo o tempo lendo nos porões da antiga Biblioteca de Alexandria com um louco um poeta e uma criança

era um homem e era um cavalo e era um louco e era uma criancinha e era uma biblioteca crescida pra fora das cavernas e era outra biblioteca edificada dentro da terra e ambos liam e reliam a história da humanidade sobre quatro patas um equus refulgia na noite fúrnica relinchos ecoados no ciberespaço relinchos no temporal relinchos de éguas no cio cavalos crescidos nos embates das idéias cavalos cavalos colagens de equuos nas páginas dos dias ensolarados do futuro projeções de um homem um poeta louco e seu cavalo nas home pages como um hacker dilacerador um hacker que destrói o tempo do mundo do sem-cavalo éguas parindo para o porvir éguas silentes de segredos antigos cavaleiros mortos espadados nos campos do Senhor silêncio de segredos antigos dos mandatários déspotas meu cavalo ergoluz refulge as verdades encobertas quando o conduzo para o sem caminho da criação meu criatório de almas signos a protonathuralização do ímpeto nefertímoro anímoro germe um poema cavalo me desafia a reconstruir o mundo do com-cavalo um poema larva na folha de couve verde clorofilado no desafio das cores recrescidas para dentro tive ímpetos de cavalgar sobre os mares cavalgar sobre chãos de águas cavalgar no espaço sideral tive ímpetos de adentrar nos Tribunais com meu cavalo ébrio de poesia tive ímpetos de freqüentar o Congresso Nacional a Assembléia dos Sábios Consagrados pelo Governo com meu cavalo de óculos lendo poemas de loucura-boa e convicta que toda loucura deve ser convicta e boa no mundo dos com-cavalos meu cavalo lendo para os ignaros legisladores a razão que se desmancha sobre as quatro patas de um loz cavalgado de ventos meu cavalo sábio na tribuna com sua verve cavalar hipocêntrica cancheira com gosto de capim e calor de ventas meu cavalo ébrio de embates no mundo dos com-palavras um cavalo meu cavalo ébrio de poesia pós-graduado em philosophia preleciona verdades

na noite assombrante que virá meu mundo por um cavalo que carregue meus poemas junto às ancas cestos invisíveis de poemas sobre as ancas do loz tropiloz triloz na veloz cavalgada do vento não é preciso te dizer que essa coisa de amor muito amor a cavalos é coisa de poeta que se descobre em um mundo sobre quatro patas meu mundo por um cavalo Dario meu mundo Birão meu mundo Ivanê por um cavalo um loz atirado no tempo quantos povoados por passar?! Estradas além estradas no deserto sobre as montanhas nos vales nos baixos pântanos meu cavalo hígido de sóis e luas transfixado pelas setas espinhos das mais diversas nathuras meu pai deveria estar comigo com seu cavalo eu e meu pai cada qual com seu cavalo atropelado de tempo caças por abater de cima dos cavalos perdizes atiradas nos campos do velho Rio Grande do Sul de onde viemos e nunca mais voltamos o pai arroja o loz branco andaluz triluz de ventos contidos redemoinhos no baixo-ventre arroja sobre os cercados assimétricos dos campos ali deixei poemas espalhados pelos caminhos poemas que nunca foram escritos mas vi deixei-os pendurados como enroscos nativos na paisagem sob as cruzes de cemitérios campeiros abandonados ali a raiz da raça naqueles campos onde o loz triluz na veloz cavalgada do vento um cavalo Birão um cavalo Dario para um poeta abduzido de tudo e todos um cavalo a me levar para o outro lado da razão

visionário meu cavalo antropocênico no espaço verde da campina um cavalo testa sua imagem na tez cristalina das águas do açude um cavalo narcísico mira-se no esplendor da água parada com gosto de limo também já tive horas de ficar olhando no espelho da superfície de poços parados meu destino enliado de pequenos nós que a vida vai desamarrando

um cavalo um poema uma verve uma montanha uma lagoa um pântano tudo encrestado de finos cipós do tempo minha mãe lia todos os livros inescritos nas folhas de ervas do campo minha mãe analfabeta lia nas folhas das ervas meu destino cego doido pra tudo quanto é lado um dia um cavalo me levará pra bem longe daqui um cavalo no mundo do sem-cavalo um cavalo álgido florescente na noite fúrnica com seu cavaleiro poeta tropiprolixo atirado de poemas pelos caminhos um poeta e um cavalo um cavalo e um poeta um loz e um poeta tropiprolixo na noite infinda do sem fim a esmo um cavaleiro e seu cavalo por todos os caminhos sem dor de dentes inchaços nas virilhas um cavalo e seu cavaleiro amplos de céus e ventos soprados ao deus dará tinha que carregar meus livros no dorso do meu cavalo meus livros simples que o tempo foi fazendo e fez para mim com seus signos calculados previsíveis que qualquer um entende e critica

quem quiser se habilitar a Homero que o faça neste mundo do sem-cavalo um cavalo e um cavalo e um cavalo e muitos poemas cavalgados de noite fria cavalgados de estrelas guias cavalgados de pós dos tempos transtempos finistempos um cavalo sou eu a vagar na noite azeviche a noite que faz a poesia dos outros invadir minha morada e a minha saltar em galope para rumos desconhecidos um poeta galopa com seu cavalo as estações irresolvidas um cavalo busca solução no tempo um cavalo e seu poeta vertidos de luz no vento cuidavam cavalo e cavaleiro os vagalumes atirados no chão haviam pedras que brilhavam à noite lêmptas esferas cintilantes estremecidas com o vento nos barrancos onde o loz passava na veloz cavalgada

um loz branco andaluz na noite fúrnica línguas de muitas palavras jogadas no vento do meio daquelas palavras que envolviam o loz tropiloz na veloz cavalgada do vento pude aferir do tempo da poesia perdida na nathureza das coisas uma coisa que se sobressai sobre outra coisa e outra coisa e outras coisas e tudo retertrançado de outras coisas é assim que o olho que vê revê desvê entrevê tropivê deve saltar de cima do cavalo e adentrar as matérias agora um poeta penetra o vegético depois o minérico matéria sobre matéria ali dentro de átomos comprimidos a transforça energética do vento vento dentro da madeira viva em árvore vento dentro dos minérios atirados na terra vento dentro das pedras dos protopólipos das cartilagens escondidas vento redemoinhos força sobre força energia trúsbita de veios subterrâneos meu cavalo loz luz ergoluz tropiluz calçado de matérias aderentes metempsicado dos pós dos tempos meu cavalo aéreo na ventania meu cavalo e um poeta corrido de ventos soprado pra longe do tempo era de se possuir muitos cavalos neste tempo do sem-cavalo muitos cavalos lâmptos ergoluzes retemperados nas tempestades era de se ter cavalos muitos cavalos em frente à casa cavalos prontos para ergofulgir pelos caminhos um cavalo pronto me aguarda para a futuridade um cavalo lâmpio experimentado nas canchas do indecifrável tempo um cavalo ferrado de ventos libertinos um cavalo convidativo na frente da casa pronto para o serviço do sem-serviço

me oprime uma palavra vertida de voz uma palavra que fala na noite que me sopra conceitos no dia uma palavra espiritada de poesia só com meu cavalo devo correr na noite o meu tempo do sem-cavalo quando fulgurava só pra dentro as coisas guardadas que a poesia palavra vertente de sons significantes significados não dizia não era pra dizer mas tenho que dizer e digo um cavalo me leva pra fora de mim um cavalo álgido como uma bola de neve no tempo um cavalo descido das montanhas um cavalo vaticinado nos porões por bruxos desconhecidos um cavalo alçado no vento um cavalo e um poeta um cavalo e a irresponsabilidade do gesto um cavalo e a insensatez do espírito que conhece um cavalo e um poeta um cavalo e a palavra marginal corrida na frente do pensamento eu um cavalo repercutido no tempo um cavalo andaluzirano rústico espectral na noite brasantina eu um cavalo sob os próprios pés de cavalos repentidos um cavalo com o mundo virado pra baixo nas patas irresolvidas um cavalo sem-mundo

no mundo do sem-cavalo ¿∑Ψθ∏߀ÕΔ o poeta.

 

 

 

SEM TITULO – por vera lucia kalahari / portugal

No deserto onde nasci, nesse Namibe das mil miragens, aprendi a falar
sem precisar das palavras, porque elas, muitas vezes, são pobres e
inúteis…Sim, significam as coisas banais e insignificantes da vida:
o camelo, o oásis, as tâmaras, o albornoz….
Quando sentimos alguma coisa profunda em nosso coração ,só o coração
saberia dizer o que as palavras não podem… Mas o coração só sabe as
sílabas da sua pulsação… Repousa a cabeça no meu peito, na solidão
da minha tenda, e ouve-o pulsar… Ouvirás o vento varrendo as areias,
curvando as palmeiras, secando as fontes, sepultando as caravanas.
E nas suas curtas sílabas, compreenderás todas as palavras que não
vale a pena serem ditas.
Esta é uma pequena alegoria que faço à mudança que tem que ser feita,
no deserto que é a vida…Quando aprenderes a encostar a cabeça num
ombro acolhedor e sentires que amas esse amigo, com a mesma ternura
que amarás uma árvore em cuja sombra, depois de longa caminhada ao sol
ardente pelas dunas solitárias, te dará a doçura da sua sombra
benfazeja, aí residirá a mudança. Saberás que ele não te poderá dar
senão a mesma frescura dos ramos dessa árvore acolhedora, nada mais…
Que somos na natureza seres diferentes, separados em mundos
diferentes, mas o amor junta-nos ali… E o amor é isso mesmo: Que
importa que linguas diferentes não nos nos deixem comunicar que as
mãos estejam distantes para uma carícia…Basta essa sombra da árvore
que acolhe um momento nossos destinos obscuros, errando pelos sóis do
deserto…
É aí que residirá o futuro da humanidade, nestes tempos de mudança.
Por isso, resta-nos ajoelhar e beijar a sombra silenciosa e
acolhedora, que, sem saber, aqueles que sabem amar trouxeram também
aos sois do nosso deserto.

P.S.  Dedicado ao meu amigo e grande poeta, João Batista do Lago

A VISÃO

Eu vi,

Corpos negros dançando

Num bailado sem fim…

Vi corpos requebrando ao vento

Como coqueiros  arqueados.

Era algo de profundo e magnífico…

Vi panos coloridos

Desnudando corpos,

Esvoaçando e brilhando,

Azuis, roxos, negros…

Vi  risos e cantos e tambores

Ressoando ao sol

Numa sinfonia sem fim…

Ran…Tan…Tan…

E vi a minha terra toda,

Meus avós, num bater frágil de asas,

Num canto inesquecível, superior à poesia,

Surgindo, surgindo,

De milhões de palmas, das fontes do eterno frio…

Deus… Que futuro imenso para esta terra,

Onde o lodo se tornará cristal,

E onde a liberdade há-de chegar…

Glória a todos os que morreram por ti,

Orgulhosos do seu fim,

Acreditando num mundo melhor…

Quem somos nós para duvidar

Que esse tempo tem que chegar?

 

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA de zuleika dos reis / são paulo

A MANIFESTAÇÃO DA CRIANÇA SAGRADA

 

 

O Natal nos liga à origem do Tempo Sagrado, onde está o Ser a Quem pertencemos, o Ser de Quem somos parte, independente do fato de termos clara em nós tal Ciência.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano como Recordação e Presença; vem para nos lembrar de que a Vida não tem fronteiras, nem de espaço, nem de tempo.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos mostrar que a Vida apenas É, a iluminar-nos desde Sempre, desde o Âmago, desde o Centro.

A manifestação da Criança Sagrada nos vem todo ano para nos incinerar das nossas misérias, por segundos que seja; para nos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Coragem Desmedida para nos deixarmos incinerar, por segundos que seja, para nos deixarmos Iluminar, por segundos que seja; é preciso Desmedida Coragem, para que ousemos duvidar do brilho mais do que nunca ofuscante do Imediato Real, do brilho que, se descuidarmos, nos fará passar totalmente em branco este Tempo de Recordação e de Presença da Criança Sagrada, que vem para nos Lembrar. Que vem para nos Lembrar, para nos lembrar de Nós.

 

Ainda na manhã de 22 de dezembro de 2010.

 

VERA LUCIA KALAHARI (sem titulo) / portugal

No deserto onde nasci, nesse Namibe das mil miragens, aprendi a falar
sem precisar das palavras, porque elas, muitas vezes, são pobres e
inúteis…Sim, significam as coisas banais e insignificantes da vida:
o camelo, o oásis, as tâmaras, o albornoz….
Quando sentimos alguma coisa profunda em nosso coração ,só o coração
saberia dizer o que as palavras não podem… Mas o coração só sabe as
sílabas da sua pulsação… Repousa a cabeça no meu peito, na solidão
da minha tenda, e ouve-o pulsar… Ouvirás o vento varrendo as areias,
curvando as palmeiras, secando as fontes, sepultando as caravanas.
E nas suas curtas sílabas, compreenderás todas as palavras que não
vale a pena serem ditas.
Esta é uma pequena alegoria que faço à mudança que tem que ser feita,
no deserto que é a vida…Quando aprenderes a encostar a cabeça num
ombro acolhedor e sentires que amas esse amigo, com a mesma ternura
que amarás uma árvore em cuja sombra, depois de longa caminhada ao sol
ardente pelas dunas solitárias, te dará a doçura da sua sombra
benfazeja, aí residirá a mudança. Saberás que ele não te poderá dar
senão a mesma frescura dos ramos dessa árvore acolhedora, nada mais…
Que somos na natureza seres diferentes, separados em mundos
diferentes, mas o amor junta-nos ali… E o amor é isso mesmo: Que
importa que linguas diferentes não nos nos deixem comunicar que as
mãos estejam distantes para uma carícia…Basta essa sombra da árvore
que acolhe um momento nossos destinos obscuros, errando pelos sóis do
deserto…
É aí que residirá o futuro da humanidade, nestes tempos de mudança.
Por isso, resta-nos ajoelhar e beijar a sombra silenciosa e
acolhedora, que, sem saber, aqueles que sabem amar trouxeram também
aos sois do nosso deserto.

P.S.  Dedicado ao meu amigo e grande poeta, João Batista do Lago

ELEIÇÕES 2010 – FOLHA de SÃO PAULO – 20/10/2010 – 19h58 Ibope mostra Dilma com 56% dos votos válidos e Serra com 44% – A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, tem 56% das intenções de votos válidos, enquanto José Serra (PSDB) está com 44%, segundo pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira. Pelos votos totais, a petista tem 51% das intenções de votos totais contra 40% de José Serra (PSDB).

JOSÉ SARAMAGO pelo olhar do poeta brasileiro C. RONALD /santa catarina

ARREMATE

Ninguém Saramago, inventa Deus para sua miséria; você teve pai e mãe, você não se inventou. Seus livros embalam o erro, a inocência e também o pecado.

Constância e tumulto sem quebra de visão na árvore, a figura humana é transferida, a morte é só ressonância. O desconhecido não deve ser impresso na presa, o medo mede todo o discurso do pavor, a eternidade passa além se a perdemos de vista. Se o homem inventou Deus, como o homem poderia inventar você?

A diferença é grande, não é? Quantas vezes foi Saramago o amor de Deus, perdido. O sentido é uma consequência sem memória. Havia distância que não sabia o seu tamanho, hibernação no contorno sem alma,leveza ritmada, dança! Quem chegar à vida só por si mesmo ganha Saramago de graça.

.

poemas de C.RONALD:

.

OS  SEMPRE

.


a demora do vidente precipita-se
naqueles que o esperam

novamente um princípio para o erro
caso contrário mastiga a norma como alimento
conhecíamos o destino quando vinha só
no ar como o enigma
sobreposto ao susto
e de repente alguém aderiu-se
à língua e fez-se prédio

por que os mortos não se tornam
excessivos e nem excitam a forma excetuada
houve espera na melancolia onde
o fundamento desapropriado
pelo rigor da claridade pode
alterar o riso análogo

a existência favorece o medo
partes variadas da distração com molas arriadas
e o pecado no meio
deve dar para quatro aventuras
quatro são as mãos do homem
quando dá e tira
depois vários quadradinhos de suspeita
e Abel no meio
se era mesmo a religiosidade
na parte crua do bife
faca e garfo sonolentos
sem que o prato justifique
mudança no percurso do Caim
ou dança simplesmente
o espírito mais ereto que liso
“Senhor eu não sou digno”

.

CUIDADOS DO ACASO poemas (II)

Tenho o nó na garganta, o tiroteio
no peito da criança, essa bagagem de ossos
próxima de um semáforo, esquecida
do tráfego sangrento numa noite sussurrada.

Um plaft para o homem sem aniversário.
As duas partes do rosto
fazem uma concha fechada pela indiferença.
Asas derretidas depois de derrubadas
entre a inquietação e a banalidade dos pardais
no asfalto exposto. Sinceramente

a morte não é coisa de mortos.
Estão podres os que representam
o personagem que nunca foram. O sonho
sai dos alvos alagados diante da porta,
alguns trazem sementes fumegantes,
farpas cravadas no luar,
o aquecimento da comunhão
no vermelho da maçã.

I

Que isto resuma toda a importância do homem:
não ficou pronto pela carne, mas viveu.
Animais escorregam do universo e sentem
apenas o momento veloz que une garras e dentes.

Desiguais na aparência, espelham o mundo
entre átomos sofridos quando Deus separa
na eternidade as árvores e os próprios bichos.
Os outros são defeitos da existência. O nada,

que o efêmero revela de um estranho fundo,
a realidade exige. Mas engulo Jonas,
como baleia, e o anzol, curva para nós mesmos,

é cuspido na aurora de um ser descontente.
Inconsciência e apogeu, cada qual com seu caos,
dobra de temporal desde o início do tempo.

C. RONALD, considerado o maior poeta da atualidade brasileira, em sua fantástica biblioteca.

.

Em 2 de Dezembro de 1935, nasce em Florianópolis, Carlos Ronald Schmidt, filho de Lourival H. Schmidt e Ana Ernestina Kersten Schmidt. Em 1942, aos 7 anos de idade, C. Ronald faz o pré-primário na escola particular Jurema Cavallazi. Em 1946, com 11 anos de idade, Ronald ingressa no Ginásio Catarinense. Aos 20 anos, em 1955, presta serviço militar no CPOR de Curitiba (PR), logo depois aos 21 começa a colaborar no jornal “O Estado” de Florianópolis (SC).

Em 1957 assina, entre outros, o Manifesto do Grupo Litoral. Com 23 em 1958, ingressa na Faculdade de Direito em Florianópolis, em 1959, publica o livro Poemas (Edições Litoral), mais tarde repudiado. Em 1960, com 25 anos, sai em edição do autor o livro Cantos de Ariel , também repudiado. Em 1962 recebe o grau de Bacharel em Direito e muda-se com a família para o Rio de Janeiro.

Com 30 anos, em 1965 casa-se com Neide Maria Campos, natural de Biguaçu (SC), logo após ocorre o falecimento de sua mãe, em Petrópolis, Estado do Rio. Em 1966 ingressa na Magistratura Catarinense, sendo nomeado Juiz Substituto da Comarca de Concórdia (SC), ocasião em que nasce sua filha Ariadne. É promovido para a Comarca de Guaramirim (SC).

Em 1967, nascimento do filho Cristiano, falecido quatro meses após, logo após, em 1968 Nasce sua filha Amarílis, e em 1969 Nascimento do seu filho André. Aos 36 anos de idade, em 1971 É promovido para a Comarca de Braço do Norte (SC); é editado no Rio(RJ) o livro As origens (Ed Livros do Mundo Inteiro/MEC).

Em 1973 Nasce seu filho Bernardo; e muda-se com sua família para a Comarca de Biguaçu(SC). Em 1975 Sai em São Paulo(SP) o livro Ânua (Ed. do Autor / Udesc): considerado o melhor livro do ano pelo Conselho Estadual de Cultura. Recebe o título de Personalidade Maior do estado de Santa Catarina; em 1978 É publicado em São Paulo o livro Dias da terra (Ed. Quíron/INL).

Aos 46 anos, em 1981 falece seu pai em Florianópolis(SC). Começa a colaborar no suplemento “Cultura” do jornal “:O Estado de São Paulo”.

Em 1982, é publicado o livro Gemônias (FCC/UFSC), em Florianópolis(SC). Em 1986, sai em Portugal na antologia Poesia Brasileira Contemporânea, coleção “Escritores dos Países de Língua Portuguesa” editada pela Imprensa Oficial — Casa da Moeda, Lisboa; Edição do livro As coisas simples (Arte Hoje Editora/INL), Rio.

Em 1993, é publicada em São Paulo (João Scortecci) o livro A cadeira de Édipo; Na mesma ocasião sai em Florianópolis seu livro Como pesa! (Editora Paralelo 27. coleção “Poesia de Santa Catarina”). Em 1995, C.Ronald publica o livro “Cuidados do Acaso” (Scortecci Editora, São Paulo, 1995), Em 1997, publica o livro “Todos os Atos (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 1999, o poeta publica o livro “Ocasional Glup” (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 2001, publica o Livro “A Razão do Nada (Scortecci Editora, São Paulo,2001), Em 2003, pela Editora Bernúncia Florianópolis-SC, o poeta publica “OS SEMPRE”. Em 2006 publica pela mesma editora o Livro “Caro Rimbaud”;

S E N H O R – de jamil snege

Senhor

Hoje amanheci insatisfeito.
O pão estava amargo
e até o jornal que leio
todos os dias me pareceu de
uma insipidez atroz.
De repente, Senhor, lembrei-me
dos que não lêem jornais –
mas os usam para embrulhar
restos de pão que os paladares
amargos deixam no prato
após uma noite insatisfeita.
Como deve ser delicioso
esse pão, Senhor,
depois que tu o adoças com
tua própria boca!

Às vezes lamento minha
má sorte – e o que me espera
em seguida é um dia luminoso.
Às vezes bendigo minha
fortuna – e logo após um
furacão desaba sobre minha cabeça.
Brincas comigo, Senhor?
Ou será que devo lamentar
a minha fortuna e bendizer
a má sorte como se o avesso
e o direito fossem iguais
para ti?

Quando eu era pequeno,
topava contigo a cada instante.
Adolescente, passei
a encontrar-te cada vez menos.
Adulto, duvidei que
algum dia tivesse visto o
brilho de tua face e
te busquei incessantemente
por todos os caminhos.
Não te encontrei,
Senhor, nem poderia.
O piolho que segue na juba
do leão jamais terá
consciência de que possui um
leão inteiro.

Tenho procurado por
todos os meios me destacar
dos demais.
É minha a intervenção mais
inteligente, o lance
intelectual mais audaz.
Procuro as luzes do palco
com o mesmo fervor
com que o peregrino procura
a tua face.
Que tolice, Senhor.
Dentro de alguns anos, numa
tumba escura, que
artifícios usarei para
chamar a atenção sobre o meu
pobre crânio descarnado?

Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, senhor,
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?

Quando menino, nascido
serra acima, o que
mais eu desejava era o mar.
Eu queria apenas o mar
a mais nada – para nele
desfraldar meus
sonhos marinheiros.
Fui crescendo e ampliando
meus desejos.
Uma casa junto ao mar,
um barco a motor, festas,
empregados, piscina.
Obtive tudo isso, Senhor.
Mas aí então o mar dentro de
mim já havia secado

Não sou melhor que
uma pedra, uma folha,
a madeira de uma ponte,
o pó das estradas.
Sou apenas mais frágil,
Senhor, pisa-me com carinho.

Na minha infância, havia
um jogo que consistia
em se colocar um porquinho-da-índia
no interior de um círculo
formado por
casinholas numeradas.
Vencia aquele cuja
aposta correspondesse ao
número do esconderijo
escolhido pelo animalzinho.
Nunca mais vi esse jogo,
Senhor, mas eu sei que
alguns religiosos continuam
a praticá-lo contigo.
Cercam-te com suas
igrejas almiscaradas –
e correm a vendar apostas
aos seus fiéis.

A última tentativa
de me entrevistar contigo
foi um grande fracasso.
Acendi incensos, decorei com flores
– e nada de ti, Senhor.
Amanheci frustrado e
fatigado como se dançasse
a noite inteira nos infernos.
Resolvi então fazer
tudo ao contrário: dancei,
me embriaguei, libertei
fantasmas, invoquei
demônios.
Tive um sono embalado
por anjos em doces paragens
celestiais.
És sempre assim, Senhor?
Imprevisível? Desconcertante?

O velho índio foi encontrado
vagando pela floresta,
aparentemente perdido.
Perguntaram-lhe. Respondeu
cheio de brios: “Perdi
foi minha casa; não consigo
encontrá-la”.
Quanta lição, Senhor.
O homem pode perder sua casa,
sua rua, os rostos que
ama – sem jamais se perder
de si mesmo.

Um dia tu sras demonstrado
cientificamente,
como o eletromagnetismo e
a gravitação universal.
Professores te reproduzirão
em laboratório,
crianças enfeitarão com tua
fórmula suas mochilas
e os grafiteiros rabiscarão
teu princípio pelos muros
da cidade.
Nesse dia, Senhor, alguém
estará restabelecendo
teu mistério… à luz
de uma vela, numa galáxia
bem distante.

Ontem não fui solicitado
como gostaria de ser.
Ninguém me pediu conselhos,
ninguém fez caso
de minhas opiniões –
até pareceu que o mundo
e as pessoas poderiam viver
bem melhor sem mim.
Sensação terrível, Senhor.
E pensar que já passei
dias e meses da minha vida
infligindo idêntico
tratamento a ti…


Não ouças qualquer
juízo que eu faça sobre
meu semelhante.
Amordaça-me.
Corta minha língua.
A pessoa que acusei
de furtar minhas luvas
não tinha mãos.

Ontem vi um jovem preso
a uma cadeira de rodas.
Mãos, pernas, tronco –
imobilizados numa rigidez
de pedra.
De vivo apenas seu olhar –
atento, vigilante,
como se contemplasse tudo
das alturas.
Que expressão, Senhor,
que força poderosa…
Tua puseste todos os seus
músculos ali.

Tenho pensado ultimamente
em comprar um carro novo.
Trabalho com afinco,
faço tudo o que devo fazer,
mas nunca me sobra dinheiro.
Outro dia, fazendo
minhas contas, cheguei a
botar a culpa em ti: “Deus
não tem me ajudado”.
Que vergonha, Senhor.
Tantos homens trabalharam
com afinco a vida toda,
fizeram tudo
o que podiam fazer,
e jamais te pediram sequer
a passagem do ônibus…

Dois meninos, magrinhos,
irmãos, aproximam-se
do balcão de pães.
Escolhem um bem pequeno –
o que pode comprar a moeda
que um deles guarda no
côncavo da mão.
Saem os dois com seu
pãozinho – uma fome tão
antiga, entre acrílicos
e colesteróis.

Eu gostaria de ajudar
todas as crianças pobres,
carentes, desnutridas.
Gostaria, Senhor…
mas tenho a alma fatigada
de proteínas.
Ontem, por uma fraqueza
de caráter, resolvi
separar as pessoas de meu
convívio em dois blocos distintos
– os bons e os maus.
Que terrível, Senhor.
Depois de muito ajuizar,
os bons me fitavam com
expressões demoníacas
enquanto os maus, todos,
me exibiam a tua face.

Um homem mata outro e
tu o consentes.
O perverso agride o inocente
e tu não o fulminas.
O poderoso humilha o fraco
e tu aumentas-lhe o poder.
Que Deus és tu,
Senhor, que tudo podes
e tudo permites?
Que deus extermina órfãos
e ilumina a face dos
tiranos com os carmins
da longevidade?
Não respondas, Senhor,
não digas nada.
É esse mistério que me atrai
irremediavelmente a ti.

Toma a máquina do meu
corpo e nela
transporta socorro para
os teus aflitos.
É de pouca serventia,
Sei – o coração me arde,
meus músculos estão
fracos – mas podes
usá-la à exaustão.
E quando não mais prestar,
Senhor, escolhe uma tíbia
e faze uma flauta.

Hoje sairei à caça de lucros,
exatamente como o faço
todos os dias.
Tentarei ser o mais astuto,
o mais sagaz, e a terra
tremerá sob meus pés.
No entanto, Senhor, vai
comigo um menino magrinho,
olhos distraídos, que
não consegue entender por
que meus interesses
são mais importantes que
as nuvens e as borboletas.

Conserva-o assim, Senhor.
Mesmo que ele me atrapalhe,
mesmo que
me obrigue a ceder
no momento em
que preciso ser duro e inflexível,
conserva-o comigo.
E se um de nós não voltar,
Senhor, que seja eu – não ele.
Posso viver bem melhor
sem mim.

Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco – não
penses que irei por
este mar sozinho.


MESTIÇA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

MESTIÇA

Mestiça afronta ao estabelecido.

Mestiço, abro clareiras na mata.

Mestiço, mastigo folhas

amargas.

Mestiço, arremedo macacos no topo

das altas árvores.

Mestiço, um peso

o peso das eras

me puxa pra trás

puxa relança

ao infinito.

Assim

é que também faço

e persisto.

No espaço duma vertigem e outra

embatem forças ocultas. Teu espíritho, meu espíritho, de sóis e luas repartidos, sofrem as vis agressões. É de tempera boa essa ferradura. É de tempera boa essa espada. São de tempera especial, esses golpes milenares em defesa pessoal.

As ogivas da morte, não estouram no meu chão. Não estouram na minha sede, não estouram na minha fome, não estouram na minha persistência de criador.

Acrescente

uma moeda de cobre

um metal qualquer

um adereço

no teu sonho

teu fazer

espectre a lua de frente

e subverta todos os sóis

dos dias seguintes

só pra ver como é

que fica.

Vem pelos séculos

nosso olhar

transternecido

nosso ver

crer, transfigurar

os transfinitos

almas perpassando

objetos.

Descalabro

do pensar

beligerante, eclético

trúnfico e imperial

a palavra vindo

e destruindo os sóis

arremessados de lado

e a voz fosforeando

céu acima na escuridão.

O fósforo

de tuas palavras

acende

iracriadora

no meu

coração.

A iracriadora

repercute no sempre

de todas as épocas

porque é voz lançada

ao infinito

transdiz o indizível

e revela os espaços

ocultos do orbe

em transe

de altosonhar.

Existe

o baixo sonhar

e sempre andei ali

escaravelhando

pós ardidos

de contigo, reergui

o gesto, a voz

o ímpeto e agora laboro

magmas alternados

de beleza e furor

explícitos zêlos

atônitas investidas

nos fatos.

Espírithos invictos no labor dos livros me desafiam

:golpes baixos no dizer:

agridem por mero deleite

a voz que poéticocircunda o entrelivros e delibera e torce as coisas de razão desrazão.

Comigo é assim despachado o despacho do dizer nos pacotes endereçados pra alguém no futuro que pouco ou nada me diz.

Na luta de facas, tu vinhas e eu me defendia com golpes marciais

as facas lampiavam na escuridão dos muquiviras e eu me defendia defendia. As lâminas finas, cromadas lampiavam na escuridão dos muquiviras e eu me defendia

defendia.

Em poeta e anjo e semioticista eu lançava mão de signos espérios ágeis no gatilho e mesmo assim tu te chegavas ostensivo, lampiando as facas afiadas no meu brilho.

Acrescente um punhado de feijão no prato, um punhado de arroz e um ovo frito fenomenal. Sacias a tua fome. Um poema como esse prato cheio, interfere em outras espheras. Interfere

educa o trauseunte peregrino. Um signo vive dum prato feito. Um signo, um homem, um centauro, um ente libertino. Dum prato feito a nossa fome. Dum prato feito, a nossa ira santa. Dum prato feito, o nosso amor. Dum prato feito, a imagem da musa crescida de sóis insuspeitos. Em poeta e centauro e ente reciclínio não me deixo abater pela cantilena negra do baixo espíritho. Uma proeza, a voz que poéticocircunda nossas ações de inventor

criador, filósofo pré promaduro, no caminho de todos os caminhos.

Luas e luas, sóis e sóis espelhos nos espelhos

linhas de pensar o impensado, tresandos de verbos novos fazendo pecado. Em poeta, me tentam imagens lindas. Me tentam, conceitos complexos, construções do alto espíritho. Mitigo

a dor maior, mitigo a ilusão esplêndida que dói

frente ao objetário vida.

DESCOBRIMENTO – de mario de andrade / são paulo


Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

MARIO DE ANDRADE

São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945

NO ANO PASSADO… de mario quintana / porto alegre

No ano passado…

Já repararam como é bom dizer “o ano passado”? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem…Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse “tudo” se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

“Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados”.

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos…

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição – morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.


Alegrete, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre, 5 de maio de 1994

SOBRE NÓS E ELOS de marilda confortin / curitiba

Acontece,

que somos elos de uma corrente

feita por um desses deuses dementes

que se divertem com a desgraça da gente.

Acontece,

que estamos sempre a procura

de uma corrente segura

pra nos encaixar.

Mas, acontece

que essa maldita corrente

sempre arrebenta no mesmo lugar.

Acontece,

que existem elos perdidos

que vieram ao mudo

só para serem partidos.

Elos órfãos,

que vivem sós,

que se amam,

mas não se atam,

como nós.

As vezes me pego sonhando

com um universo paralelo,

cheínho de elos,

todos sem par.

Quem sabe é por lá

que nossos chinelos

vão se encontrar.

TRANSIFIGURAÇÃO por lucas paolo / são paulo


Urubu bumba cá em meus olhinhos salteadores que pululicam fora das órbitas. Obturação obtuariosa. Maldito zumbadezum e creque de dente: biquinho bonitinho retira restinojos ratueirados de meus dentes. Pra ele: nata amarelada do leite. Pra mim: espinho da rosa o rosado mamilo que me sangra esverdeado. E a estátua sempre chora e chora liquefeita aguardente: pro santo! Ave Maria! A dissonância disacordiosa me mantém no transe. Noite Transfigurada. E pesa em delongadas iminências de finalização. E nada. Nada e nada e nada e nada ena da enad a enada… e dou-me em mim e não mais sozinha, o ataúde de Maldonado recebe uma visita tardia. O sono desvelado e a eterna solidão. Meu velório sepulcral sepultado por um rapazote indistinguível. De cabelo encaspado e casacão, a mão direita já se figura no pescoço e a carótida escorrega. Dedão no pomo de adão e o esganamento inerme. Um beijo e a língua arroxeada que lambe fora e marca a alvura cadavérica e as mordiscadas na bochecha flácida. Purê de batata e a mãozinha leprosa escorrega pelo polido terno azul-escuro e invade as calças, apalpa as nádegas, enfia dedos e a cabeça porco espinho em roçadura com a gravata mostarda. E, de repente, as mãos unem-se em reza e o homenzinho firma-se no genuflexório e põe-se a chorar e chorar e chorar as lágrimas que parecem não ser suas. Eu me ponho a seu lado, cerimoniosa. A carpidação acaba eu sufoco em abraços o estranho e desvaneço seu rosto fincado por minhas compridas unhas negras com beijos lancinantes e ele ri e ri e ri eriçado pelo pavor. Na jocosidade gargalhosa, reconheço Maldonado. Ele me leva pra casa, me estabefa com ódio. Até o cair do sono doce sono primaveril.

ENGANO – de tonicato miranda /curitiba

um telefone brota do silêncio balançando meu olhar/trinados no ar concedem cara aos olhos do susto/

borboletas me mordam/quem fala?, diz a voz vomitando da garganta o marrom da surpresa/

distante 1000 km o outro som demora dois micros segundos para se associar à mente receptora/

é a memória imprimindo no HD em contraluz o corpo imagem da voz logo reconhecida/boa noite! e a voz explicita o que não é mais preciso/agonia-me agora que ela se apagou da caixa de metal o seu mutismo/uma cachaça é preciso degustar para a intransigência da notícia/alguém diz que vem/meu corpo mais do que minha vontade não querem ser hospedeiros/levanto-me caio na noite como quem cai de um penhasco/sorte que o despenhadeiro tem apenas metro e meio/torço o tornozelo da arrogância/mendigo uma lástima/ninguém para dá-la/ninguém para aliviar e agora sou mal/talvez assassine alguém naquela esquina/talvez me jogue debaixo de um trem/fuga da fuga, pois aqui não passam estes monstros de ferro e desespero/hoje não é noite de assassinos e suicidas/melhor entrar num cinema e ver um velho filme de Godard/correndo com carros alucinados pela cidade/melhor mais dois goles de cachaça ou um malbec de Mendoza caso sobre algum para isto/para isto vou ligar de volta/enxotar o susto com meus ouvidos completamente tamponados de vozes distantes/desculpe-me; foi engano.

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS – de mário de andrade / são paulo

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

.

Em 9 de abril de 2010. (esta postagem na mesma página postada em 23 de março de 2010).

o leitor Helcio J. Tagliolatto, em comentário, alerta o site com relação “a fruta” que consta do texto. que teria sido “trocada” de JABUTICABAS para CEREJAS. fomos pesquisar  e nos deparamos com uma quantidade de “autores” do texto acima O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS. corre na internet como sendo autoria de RUBEM ALVES e de MÁRIO DE ANDRADE e por fim por quem se diz autor do texto cujo nome real seria O TEMPO QUE FOGE de RICARDO GONDIM cuja afirmação publicamos aqui, transcrita de seu blog após um comentário acusando-o de plágio:

Querem roubar e ainda me chamam de ladrão
Ricardo Gondim

Escrevi “O Tempo que Foge”. Alguém o fez circular como de um Autor Anônimo. Depois, disseram que era de Mário de Andrade. Agora, por último, me acusam de tê-lo roubado de Rubem Alves. Insisto, o texto é meu. Eu o escrevi no meu computador, na privacidade de meu ambiente de trabalho e está publicado no meu livro “Creio, mas tenho Dúvidas”, Editora Ultimato.

Recebi um e-mail cobrando explicações. Circulo o conteúdo do mesmo na esperança de que seja feita justiça.

Daisy Almeida
assunto: O texto que o senhor assina é de Rubem Alves
telefone:
mensagem: O texto “tempo que foge” que o senhor assina em seu site é de Rubem Alves. O que ele faz no seu site com sua assinatura embaixo? Como o senhor explicaria isso numa discussão sobre direitos autorais? (tempo que foge)

Prezada Daisy,

Não, Daisy, o texto não é do Rubem Alves. Ele é meu! Eu o escrevi. Está em meu livro “Creio, mas Tenho Dúvidas”, publicado pela Editora Ultimato, com registro no ISBN, consta na página 107.

Portanto, se alguém, inescrupulosamente, atribui o texto a Rubem Alves, está sendo desonesto comigo e com a minha produção intelectual. Inclusive, sugiro que você pergunte diretamente ao Rubem Alves, se é de sua lavra “O Tempo que Foge”. Sendo ele um homem digno, honesto e verdadeiro, certamente, reconhecerá que o texto é meu.

Grato. Como você duvida da minha integridade, lamento, mas o mesmo texto tem sido atribuido a várias pessoas, inclusive a Mário de Andrade.

A única coisa que me resta é esperar que um dia a justiça prevaleça.

Sinceramente,

Ricardo Gondim

para acessar o blog de RICARDO GONDIM clique AQUI

agradecemos o alerta do leitor HELCIO TAGLIOLATTO que terminou por conduzir a duvida além das frutas “trocadas” para  autores “trocados”. lamentalvemente a internet contempla pessoas de má fé. RUBEM ALVES e MÁRIO DE ANDRADE, com absoluta certeza, estão fora dessa lama virtual.

BIG BROTHER BRASIL, UM PROGRAMA IMBECIL (cordel) – de antonio barreto / santa bárbara.ba



Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

.

Autor: Antonio Barreto, natural de Santa Bárbara-BA

CONVERSA COM UM VELHO RIO – de marilda confortin / curitiba

Toda vez que passo na frente daquele riozinho

Ele pergunta:

– Passeando dona louca?

Atiro uma pedra nele e continuo minha caminhada.

Mais adiante ele se enfia debaixo de uma pinguela

E me provoca novamente:

– Ô dona doida, ainda não parou de falar com as coisas?

Nem tenho tempo de responder.

Ele já entra numa enorme manilha e se esconde outra vez.

Uma pedrinha curiosa se solta da mão da mãe

e rola até meus pés para brincar.

A velha rocha silenciosa, apenas observa.

Somos velhas amigas. Cúmplices dos tempos.

Um bando de garças adolescentes

faz cocô na minha cabeça.

Os bem-te-vis caem na gargalhada.

Um ipê florido, me xinga de careca.

Pode deixar… Eu me vingo na próxima estação…

Cumprimento uma roseira solitária.

Nem me dá bola.

Sempre esqueço que as rosas não falam.

Em compensação,

os beijos brejeiros se enfileiram

para me mostrar suas novas flores.

Como se multiplicam!

São como ratos, pombas e crianças de rua.

Antigamente era raro vê-los por aqui.

Aqui era um mato.

Agora virou um canteiro urbano.

Asfaltaram os carreiros,

arrancaram árvores,

prenderam o rio.

Por isso ele ficou sujo e malcriado desse jeito.

Antes, corríamos livres

e conhecíamos cada pé de amora que morava aqui.

O pé de chorão e eu ficávamos horas debruçados sobre ele,

ouvindo suas histórias de águas passadas.

Ele me chama de louca, mas quem perdeu o rumo foi ele.

Tem que andar por onde mandam,

parar onde querem que pare,

se fingir de morto, de surdo, de mudo, de bobo…

Se eu não te conhecesse, meu velho rio Belém…

– Vá tomar banho, sua doida varrida!

Não posso mais tomar banho contigo, querido.

Não posso nem me sentar ao teu lado.

Tudo é proibido.

E se me pegarem falando contigo,

me  internam num manicômio.

Ele me chama de doida que fala com as coisas,

mas ambos sabemos que insanos mesmo,

foram aqueles que nos represaram,

nos poluíram,

expulsaram as gralhas,

cortaram as araucárias,

plantaram pinus pra dar luz elétrica

em vez de pinhão.

Aqueles que taparam nossa boca

e nossos caminhos com asfalto

para que perdêssemos o rumo.

Aqueles que nos condenaram a esse…

… esse barulho ensurdecedor.

DESAFIO por vera lucia kalaari / portugal

Hoje resolvi apresentar-vos um trabalho diferente. Nesta época natalícia, que todos vivem o nascimento de Cristo, gostaria de vos conhecer um pouco melhor. Por isso,

aqui vai o meu desafio:

Eles vieram de longe, do Oriente… Seguindo a estrela mensageira, encontraram no deserto os caminhos que conduziam a Jesus.

Menino-Deus, pedacinho de gente, dormindo sobre palhas…

A História conta que levaram presentes dignos do rei mais poderoso da terra. Não conta, isso não, que foi feito do ouro, do incenso e da mirra… E da estrela que guiou os passos dos três Reis Magos, Baltazar, Gaspar e Melchior…

Perguntas que deixaram de ser, porque cada vez que surge um presépio, uma manjedoira e uma estrela, a história do Menino repete-se, como se cada um de nós tivesse estado presente nessa noite distante de Belém.

E se assim tivesse acontecido? Se a sua presença fosse ali, bem perto da manjedoira? Qual teria sido o seu presente para Jesus, SE VOCÊ FOSSE REI MAGO?

DESEJO FINAL

Quando eu morrer

Não quero rosas,

Não quero prantos.

Quero flores de buganvílias rubras,

De ouro e sangue…

Quero ventos…

Os que mordem as areias do deserto…

Os que curvam os corpos dos coqueiros desgrenhados,

Arrojados para o azul.

Sim…

Quando eu morrer,

Não quero rosas,

Não quero prantos.

Quero o ressoar dos tambores

Atroando os ares…

Ran-tan-tan-tan-ran …

Quero o óleo doce do denden…

Quero tudo …tudo da terra…

Que m’importam  rosas?

Que m’importam cantos?

Quero beber as ondas do mar…

O marufo ardente…

Quero sentir o tumulto da terra

A alegria do Povo…

Por isso tragam-me tudo…

Para ter a ilusão,

De ainda viver.

UM POUCO DE SILÊNCIO de lya luft / porto alegre


Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho,
gostar de sossego é uma excentricidade.

Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar,
ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos
uma infinidade de obrigações.

Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas
que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora
da ciranda: os que não se submetem mas questionam,
os que pagam o preço de sua relativa autonomia,
os que não se deixam escravizar, pelo menos sem
alguma resistência.

O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado.

É indispensável circular, estar enturmado.

Quem não corre com a manada praticamente nem existe,
se não se cuidar botam numa jaula: um animal estranho.

Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião
alheia, disparamos sem rumo – ou em trilhas determinadas
feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença.

Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça
quem leva um susto cada vez que examina sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que
não se arrumou ninguém – como se amizade ou amor se
‘arrumasse’ em loja.

Com relação a homem pode até ser libertário: enfim só,
ninguém pendurado nele controlando, cobrando, chateando.

Enfim, livre!

Mulher, não. Se está só, em nossa mente preconceituosa
é sempre porque está abandonada: ninguém a quer
.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude.

Logo pensamos em depressão: quem sabe terapia
e antidepressivo?

Criança que não brinca ou salta nem participa de
atividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio nos assusta por retumbar no vazio dentro de nós.

Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas
pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas,
ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos.

Nos damos conta de que não somos apenas figurinhas
atarantadas correndo entre casa, trabalho e bar,
praia ou campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado,
algo além desse que paga contas, transa, ganha dinheiro,
e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!)
vai morrer.

Quem é esse que afinal sou eu?

Quais seus desejos e medos, seus projetos e sonhos?

No susto que essa idéia provoca, queremos ruído, ruídos.

Chegamos em casa e ligamos a televisão antes
de largar a bolsa ou pasta.

Não é para assistir a um programa: é pela distração.

Mas, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego,
descobre – em si e no outro – regiões nem imaginadas,
questões fascinantes e não necessariamente ruins.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou
a mão no meu ombro de criança e disse:
– Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo.

A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz
para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases,
às tarefas, aos amores.

Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom
para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes,
e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos
e da música de todos os sentimentos.

Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo
à tona sabe Deus que desconserto nosso.

Com medo de ver quem – ou o que – somos, adia-se
o defrontamento com nossa alma sem máscaras.

Boa Semana, em silêncio sim, por quê não?

ORAÇÃO de joanna andrade / miami. usa

Meu coração – uma bomba ativada pela dor do simples pensar

Se existo no meio de um mundo hipócrita e imbecilizado pelas mediocridades alheias ao meu bom querer- que meu mundo nao caia em descrença

Não deixe a dor no peito ensurdecida se transformar num longo suspiro de morte em busca de um consolo solitário

Impeça a ira e transforme minhas unhas inoxidáveis e meu coração vudu em paz e os segundos de tormento em salvação de minha boa alma

Dualismo duelante dolorido decalcificante deliberado dicotômico

Meu coração – uma bomba comandada por um cérebro maquinado a exercer a função de guerreiro

Que as marcas das punhaladas recebidas continuem em minhas costas e eu não grave in memorium o mau feitor- a falsidade deve ser colocada para trás

Sendo a força do destino propulsora em direção aos objetivos e aniquiladora de defeitos e limitações – livre-me do mal Amém!!!!

MEUS MORTOS de tonicato miranda / curitiba


 

para Carlos Eustáquio

 

 

.

ouvindo Romeu e Julieta de Tchaikovsky

choro copiosamente sem soluços e águas

elas que sobram lá fora na chuva lavadeira de janelas

seguindo pelas sarjetas e calhas, lavando-me mágoas

choro meus mortos deixados na infância distraída

choro meus mortos porque sinto esta culpa traída

pois deixei-os intactos no barco da saudade

deles tenho uma só lembrança: os sorrisos eternos

sem viagens nas rugas do tempo, na dobra da coluna

este é meu pequeno gesto de imortalidade a eles

MEU CORAÇÃO por joanna andrade / miami.usa

Meu coraçao – uma bomba ativada pela dor do simples pensar

Se  existo no meio de um mundo hipocrita e imbecilizado pelas mediocridades alheias ao meu bom querer- que meu mundo nao caia em descrença

Nao deixe a dor no peito ensurdecida se transformar num longo suspiro de morte em busca de um consolo solitario

Impeça a ira e transforme minhas unhas  inoxidaveis e meu coraçao vudu em paz e os segundos de tormento em salvaçao de minha boa alma

Dualismo duelante dolorido decalcificante deliberado dicotomico

Meu coraçao – uma bomba comandada por um cerebro maquinado a exercer a funçao de guerreiro

Que as marcas das punhaladas recebidas continuem em minhas costas e eu nao grave in memorium o mau feitor-  a falsidade deve ser colocada para tras

Sendo a força do destino  propulsora em direçao aos objetivos e aniquiladora de defeitos e limitaçoes – livre-me do mal Amém!!!!

Prêmios – de marilda confortin / curitiba


Tenho na minha sala, uma lareira velha toda enfeitada de troféus e diplomas que ganhei pela vida afora. Modéstia a parte, sou foda.

Aquele troféu bonito ali na frente é de TIRO ao ALVO. A mosca morta no centro, sou eu.

E aquela taça dourada é de quando fui campeã mundial de BOLA FORA. Não dei uma dentro.

O crânio rachado, em gesso, revestido de bronze, ganhei num torneio de CABEÇADAS.

A miniatura de vaso sanitário em cerâmica branca é um troféu de CAGADAS HOMÉRICAS.

Aqueles barcos em latão são vários primeiros lugares que tirei nos campeonatos de CANOA FURADA e por sempre ter entrado de GAIATO NO NAVIO.

O diploma azul, que parece uma passagem aérea para lugar nenhum é de TEMPO DE VÔO. Tenho acumulado milhares de milhagens de horas com a cabeça nas nuvens.

Ao lado do Atestado de Burrice, você pode ver a Certidão de Casamento e a Declaração de Divórcio. Fazem parte do mesmo Festival de Besteiras que participei.

Aquela bola branca, maciça,  no canto esquerdo da lareira, é de torneios de SINUCA. Vivo numa sinuca de bico constante.

Aquelas cédulas emolduradas, são dos MICOS que paguei e os galos de bronze, são das BRIGAS  que comprei.

Aquela dama no porta-retrato sou eu: UMA CARTA FORA DO BARALHO.

Tenho também um punhado de medalhas de desonra, luta inglória, maratonas de trabalho, levantamento de peso inútil,  prêmio iBesta, nadação, danação  e por aí vai.

No momento estou disputando o primeiro lugar no FENAESBO – Festival Nacional de Escrita de Bobagens.  Apesar do imensurável número de concorrentes, minhas chances são enormes.

IMPACIÊNCIA de josé dagostim / criciúma

Impaciência

O tempo corta-me num cerco implacável. Percorro perdido entre os limites da rota e o balanço, num ritual que tenta agradar os deuses da lentidão. Minha dança é sem compasso, presa no entroncamento do destino. Avanço o sinal num gesto previsível que acusa o agastamento do logradouro…


CONCHAS por omar de la roca / são paulo

Colei as mãos aos ouvidos como conchas.Como conchas que contam estórias e que as vezes prendemos em nossas orelhas.Conchas que contem água mas não a bebemos.Talvez por ser estranha ,salgada e não querermos.Coloquei as mãos a cintura,como quem espera.Como mãos que esperam a concha vir a elas,resvalando pela onda.Mas a concha cala e seca.Pus meus pés no chão,que no ar estavam.Como pinheiros altos querendo possuir o céu.No chão molhado escorrego,mas não caio .Me segurando nas franjas do papel.Pus minha mente nas estrelas.Que nublada estava a visão do chão.Me veio a sempre névoa rosada e me embalou,me toldando de novo a visão.Serei como um carvalho teimoso,que insiste em crescer na ribanceira?Ou oliveira a produzir frutos amargos? Que trago a curtir em mim para melhorar o gosto e servi-los ?Como conchas moídas a distribuir fortalezas,hidratadas,concisas,continuas certezas ?Pus meus olhos no horizonte.Como alguém que espera,que alguém pelo caminho venha.Que venha e tenha certeza do que quer e que seja eu o que quer,o que deseja.Para que eu então,finalmente seja.Como a luz que ilumina o caminho escuro.E que por ele também segue tateando.Como o fogo que aquece e consome,mas ao mesmo tempo se acaricia e estrebucha e morre.Como a água que a tudo leva e tudo lava.E tudo limpa e permanece limpa.Como a lava que tudo derrete.Como a frágil folha que tremula e cai.Como o galho fino que o vento quebra.Como quebra a onda nas pedras que a lava funde.E confunde o vento que muda de direção.E foge,foge para longe.Para outras terras que penteará sem dó.Levantando as asas dos pássaros.Ou como o fundo triste de pedras de algum riacho. Que se lava e se lava e continua sujo. Mas limpo,que apenas aos seus olhos esta poluído.E segue mexendo uma pedra aqui,outra ali,outra oscilando. Na água que tudo vê e que corre zombando.Correndo sem saber pra onde,pro mar pro oceano pra longe na certa.Se fundindo no sal,ao sol que a areia aperta.E a areia escolhe seus grãos,e a eles presenteia,com outro grão de sol,que colhe alheia.E os peixes prateados que voam lá no fundo lambiscando molusco,pólem  e planta,seguem firmes pensando,que triste esse mundo e,solitário ,pobre de quem canta.E as conchas gritam que não só feitas de branco não são só feitas de nada.E reclamam furiosas,quem irá sozinho percorrer o caminho?Eu que era prosa sem graça e agora penso em rimas, falsas, corretas,perfeitas quase cristalinas.E me empenho em ajeitar o injusto,ainda me espanto,me surpreendo com o susto.Que levo ao abrir o e mail.E encontrar a mensagem que não esperava,mas esperava.Por que sabia que não viria mas ansiava que viesse e veio. Entrando em minhas veias dilatando tudo, latejando feio. E quieto, cedo, agradecendo tudo e nada. Como poderia ser de outra forma , meu caminhar nesta estrada?

MOFO de josé dagostim / criciuma.sc

É nos arrabaldes do umbral que brota a trágica doutrina das sombras e duplos…

Os escravos do sistema afinam o dorso das vítimas nas letradas universidades.

Abrolham crianças sem celebro, na sombra clínica dos doutores formatados nas institucionais academias da simulação capitalista…

Assisto ao bolor acadêmico do serviçal sistema, anjos perfumados com o mineral da fome proletária…

Operário patrão do dia seguinte, como um presidente maquinal de ilustres banqueiros, besta do mato e sanguinário revendedor da elite adoçante…

Fora o morno, quero a raiz!

VOU-ME EMBORA DE MIM de joaquim pessoa / rio de janeiro

Hoje é um dia qualquer. As coisas acontecem sempre
num dia qualquer, nós é que referenciamos o dia
em que as coisas aconteceram. O 14 de Julho, o 25 de Abril,
“faz hoje quinze anos que”, “completam-se dois séculos amanhã”,
e todos os dias acontecem coisas importantes para cada um de nós,
só que há dias em que as coisas que acontecem
são importantes para todos. Então o dia
deixa de ser um dia qualquer e, à posteriori, é quase sempre,
e para sempre, um dia de referência. Foi
num dia qualquer que te conheci. E, num dia qualquer,
comecei a amar-te. E amo-te. Todos os dias. Até qualquer dia.
O amor, a dor, a gente, toda a gente,
acaba, inevitavelmente, num dia qualquer.

D’ALMA por donato ramos / florianópolis

A saudade triste junto ao poeta chorou.
A lágrima pura também existiu.
O poeta sabia ter dentro de si alguma coisa que, aos poucos, ia tomando forma.

A materialização da lembrança… olhos aprisionados na saudade daquilo que, um dia, existiu.
Veja o que sobrou do poeta:
Olhos alongados no horizonte, à procura do que fugiu de si.
…..
De rezas e de rosas, fiz versos pra você.
De tanto andar, esqueci.
…..
Hoje haverá um céu e um sol como os outros de outros de outros dias, ou chuva iguais às outras, ou vento como os outros que já existiram em dias como este.
J.C.Meira Matos, no seu livro POEMAS SEM ENDEREÇO confirma que hoje haverá pássaros, é certo, e o mar estará onde sempre esteve, com suas ondas batendo como sempre foi.

Realmente, hoje se trabalhará como sempre se faz e se terá fome.
Morrerá gente certamente, algum parente talvez, talvez lá pelo meio dia caia uma chuva fina como às vezes cai no me io dia… e alguém roubará pela primeira vez e alguém, amará pela vez primeira igualmente…
Os rios continuarão correndo para mar e os ditados continuarão valendo…

Nascerá muita gente e muita gente desistirá de continuar por aqui.

Mas, muitos, ainda, sentirão o que, ainda, alguns sentem: saudade, mesmo sabendo que hoje será um dia igual aos outros…
…..
Da distância infinita do meu pensamento, quando este se alonga e força a lembrança, você sempre aparece.
Muda o tom das coisas que me rodeia, muda o tempo e as cores das margens dos rios, rasga e cola folhinhas velhas…

Vem me falar de promessas, de coisas das quais não lembro mais, de abraços e beijos esquecidos, sem marcas profundas,.
Você, sempre você é quem aparece.

Exéquias midiáticas – por cleto de assis / curitiba

CLETO DE ASSIS - EXÉQUIAS Michael_Jackson

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No dia 07 de julho de 2009, o mundo inteiro, enlaçado pela TV e pela Internet, viu um espetáculo meticulosamente produzido, dentro da tecnológica mise-en-scène de Hollywood, precisamente na terra do cinema, Los Angeles.

Compreendo: a indústria do entretenimento, ao transformar cantores e jogadores de futebol em semideuses, cativa milhões de mentes que também buscam, por meio de seus ídolos, alcançar extática plenitude, embora uma felicidade engastada em fantasias. Mas não pude deixar de sentir como somos nutridos por sentimentos paradoxais.

Ao mesmo tempo em que perdemos dias a velar e a chorar um distante personagem sabidamente produzido pela fábrica de ilusões – e que já foi causticamente imolado por erros e desencontros, em passado recente, pela mesma mídia que agora o coloca em altar mais alto do que os dos santos – conseguimos não perceber o desafortunado que passa por nosso lado e esquecer rapidamente a criança que morre de fome ou frio, a mãe que mingua por não ter como socorrer seus filhos.

Hoje uma família (os Jackson’s Five, que já devem ser Jackson’s Ten, Twenty or more) fez o seu espetáculo lacrimejante e, muito possivelmente, douradamente tilintante, capaz de fazê-los gastar 25 mil dólares em uma urna mortuária banhada a ouro. Hoje Stevie Wonder, um dos amigos do menor dos Jackson que cantaram em sua homenagem, disse singelamente que Deus precisou de Michael antes de findar seu tempo de permanência na Terra. E todos choraram e aplaudiram. Mas também hoje a mesma CNN, que transmitiu segundo por segundo as cenas do fantástico funeral,  noticiou que os Taliban, lá no Paquistão, estão comprando crianças para treiná-las em ataques suicidas. Quantos de nós protestamos e choramos por isso? Que deus está chamando prematuramente as crianças paquistanesas?

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C. de A.

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Desculpem-me os fãs de Michael Jackson, mas tive que recorrer à poesia para fazer meu contrachoro.

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Memorial a Peter Pan

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Aprendi a rezar pequenininho, ajoelhado ao pé da cama.
“Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador…”
Aprendi sem saber o que era zeloso
e nem piedade divina.

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Depois conheci outras orações

as decoradas e ditas sem sentimentos

improvisadas e cheias de sensações
rezas medicinais de curandeiras
preces de urgência socorrista
súplicas de desespero de última hora
ladainhas repetitivas e sem sentido
apressadas jaculatórias
ladários corta-tempestades
litanias por amores perdidos
padre-nossos e ave-marias de carpideiras incontritas
reza braba e despachos de encruzilhada.

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Desaprendi a rezar depois de pequenininho.

Aprendi a buscar dentro de mim
na vida e na viva deusa Gaia
energias mais próximas,
nem por isso distantes da energia cósmica,
nem por isso menos miraculosas, menos reconfortantes.

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Mas não conhecia ainda a oração que hoje,
pasmo ser vivente do terceiro milênio,
testemunhei no mega-espetáculo, no mega-funeral,
na mega-encomenda fúnebre sacramentada por hinos profanos,
na produzida despedida do Peter Pan midiático
saído prematuramente da terra do agora
em busca de uma sonhada terra do nunca.

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No adeus televisivo, vinte mil curiosos
inauguradores dos funerais com bilhetes e lugares marcados
representantes de milhões de órfãos e viúvas
do cantor bailarino de mil faces e de uma só e terrível solidão.

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Ao ver, em cores e ao vivo,
diretamente da cidade dos anjos
as exéquias do agora outro arcanjo Miguel,
son of Jack, o predador,
pensei no esquecimento constante imposto por seus milhões de órfãos e viúvas
a milhares de mães e filhos anônimos
que ontem, hoje e manhã
sofreram e penarão a dor e a solidão da morte,
sem ter ao menos uma pequena criança a rezar por eles
para pedir a um anjo menos holiudiano
que os reja, os guarde, os governe, os ilumine,
amém.

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Cleto de Assis

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Foto: CNN

MULHERES IDEAIS… de joanna andrade / curitiba

Liberdade desenhada nas temporas ao custo de uma bala perdida coberta com chocolates num filme de bang-bang,

Solução por uma voz em várias, dialogismo bacteriano

– A cena do Adeus nunca dá em nada quando a estaca é zero-

Fuga desenhada no coração parado no dia dos namorados.

Mulheres ideais vestidas de coelhinhas contentes com seus ovos chocos

– Inquérito-

O fluxo da consciência vai alvejar minh’alma, vaga, eclética, insatisfeita e hipócrita.

Veneno solto pelas presas gastas de meus caninos surdos

-sim, estou cheia deste mundo-

Bombardeio de palavras pérolas de meu harbour,

Ao chão, ao longe………..a moça caída, vestida em branco aguarda o choro da cerejeira em flor.

Ao seu lado uma folha em branco criptografada.

SOL em CÂNCER por josé dagostim / criciuma.sc

Romântico como uma brisa que corta o horizonte num brilho vaporoso, entre as nuvens.

O ar sonhador navega pelas ondas, em busca da harmonia de mais um ciclo…

O natural movimenta-se num perfeito espiral e conecta as energias reprimidas, refazendo momentos e reconstruindo as dimensões imbricadas do universo.

A carinhosa estação facilita o estranhamento amoroso que pertence ao inverso das dimensões modeladas, na relação mutua entre o verso e o longínquo mundo da alma. Assim, brilha os sentimentos em abundância e encharca o caranguejo numa busca lenta pelos mangues da existência.

ANJO GABRIEL de cruz e souza / florianópolis

Na calma irradiação das noites estreladas Alto e claro aparece, alto, aparece, claro, Alvo, claro, no luar das estrelas prateadas,

No triunfal esplendor celestemente raro.

O seu busto de Excelso, a sua graça fina,
A linha de harpa ideal do seu perfil augusto,

Estremecem de luz, de uma luz peregrina,
Do secreto fulgor de um sentimento justo.

Serenidade e glória e paz do Paraíso flutuam-lhe na face alvorecida e doce

E quando ele sorri é como se o sorriso

Claros astros semear por todo o espaço fosse.

Leve, loura, .radial, a soberba cabeça
Eleva-se da flor do níveo colo louro
E não há outro sol que tanto resplandeça
Como o sol virginal dessa cabeça de ouro.

As mãos esculturais, de ebúrnea transparência,
De divina feitura e de divino encanto,
Lembram flores sutis de sonhadora essência
Da etérea languidez e de etéreo quebranto.

Das madeixas reais largo deslumbramento
Num flavo jorro cai, com sagrado abandono…
E sai do Anjo o quer que é de vago e de nevoento
Que lembra o despertar sonâmbulo de um sono…

De alto a baixo, do Azul, desfilando das brumas, abre todo ele em flor como nevado lírio,
Belo, branco, eteral, do candor das espumas, banhado nos clarões e cânticos do Empíreo.

Maravilhoso e nobre ergue no braço ovante um gládio singular que rútilo cintila…

Enquanto o seu olhar de mágico diamante

Aflora em plenilúnio através da pupila.

Que o seu olhar, então, esse, recorda tudo
O quanto há de tranqüilo e luminoso e casto.

Maio de ouro a florir meigos céus de veludo

E a neve a cintilar sobre o monte mais vasto.

Do puro albor astral das asas majestosas

Desprendem-se no Azul mistérios de harmonia…

Entre as angelicais suavidades radiosas
Parece o Anjo Gabriel o alto Enviado do Dia!

Na chama virginal de tão rara beleza
Brilha a força de um Deus e a mística doçura… e sai das seduções de tamanha pureza
Toda a melancolia errante da ternura.

Do suntuoso agitar das delicadas vestes

Tecidas de jasmins, de rosas, de açucenas,

Vem o aroma cristão dos aromas celestes

Todas as imortais emanações serenas…

Transfigurado, excelso, agigantado, imenso,

Na candidez hostial das formas impecáveis, fica parado no ar, levemente suspenso
De raios siderais, de fluidos inefáveis.

Mas quando o seu perfil nas amplidões floresce
E das asas se lhe ouve a música sonora
Quando ele agita o gládio e as madeixas, parece
Que vai noctambular pelo Infinito afora.

E alto, branco, de pé, destacado no Espaço, Eleito das Regiões de estranhas Primaveras,

Traça, com o gládio no ar, alevantando o braco,

Uma cruz de Perdão na mudez das Esferas!

ORAÇÃO de luíz felipe leprevost / curitiba

LUIZ FELIPE LEPREVOST - CONFUSÃO 8-2008 leprevost_foto_gilsoncamargo_comfusao2_teatroapaiol_ago2008luíz felipe leprevost em ComFusão 2 no teatro paiol – curitiba – foto de gilson camargo

ORAÇÃO

Que Deus te proteja das gorduras trans, do bacon, do Baconzitos e de todas aquelas merdas da Elma Chips, das batatinhas fritas do Mac, e do Big Mac, e do Funcionário do Mês. Deus te proteja. Esse querido Deus parceiro do Sundown fator 30. Esse Deus inimigo dos raios ultra violeta. Inimigo dos canos de escape dos caminhões da Ford. Esse Deus maravilhoso, botânico da Boticário. Parceiro dos condicionadores de cabelo. Esse Deus feito à imagem e semelhança do Brad Pitt. Sócio investidor das mais bem equipadas academias de musculação, de fitness. Sócio investidor das clínicas de estética. Prestador de consultorias pra fabricantes de antiácidos e anfetaminas. Esse Deus da Vitamina C, D, E, K, A, B, B1, B2, B12. Esse da Aspirina. Do sabonete Phebo. Das lâminas da Gillette. Do Polvilho Antisséptico Granado. Que esse Deus, que amamos, me proteja e te proteja de sarnas e micoses. De artrites, alzheimers e artérioescleroses. Obrigado Deus. Obrigado Deus pelo aparelho nos dentes, pelas lentes de contato, pelas botinhas ortopédicas e por essas maravilhosas próteses.

leprevost veste: manto de papéis de balas e chocolates de efigênia rolim.

PAULO LEMINSKI fala da ARTE de RETTA – editoria

 

 

a arte de retta: "cobra coral" - acrílico sobre tela.

a arte de retta: "cobra coral" - acrílico sobre tela.

 

“paraporque jesustificar a desobra dobra do retta, o mais curvo dos criadores do plantel local? ao falo ” não fique doente,ficção” passo a palavra. retta sempre foi pedra de escândalo. fonte de pânico. alteração. sub-supra-versão. acidente que aleija. acaso que enche o saco. a droga é que esse experimentador(não dá pra passar por cima bons mocinhos)tem um puta nível de competência na manipulação dos códigos. humor branco, amarelo. humor. vermelho. humor. azul. a coisa do retta se situa na terra cinzenta-de-ninguém. esses extremos guestalticos e cromáticos. essa fornocomunicação, que brinca de parecer tão facsimilar à primavista é uma introdustria, monstrução. sua imagem favorita : código devorando código. a fêmea do louva-deus come o macho depois da cópula, para refazer as forças. trocadilho entre dois ou mais códigos: traducadilho. arretação.cartoom.foto.filme.design.desenho. desígnio.lay out. lay in.enquanto menores cultivam o tema retta teima. o traço. a obra:tão difícil porque transparente transa aparente de entender.+ que conteúdo. toda significado. eros tanatos. no duro o seguinte: (como retta diz quando fala sério) vida e morte. vida e morte no trabalho deste gaúcho que (felizmente) se encontra entre nós.”

P.LEMINSKI

 

UM POEMA  de RETTA:

 

quando você se cala o silêncio fala
canta o galo zumbe a abelha
mia o gato pia o pinto ruge o leão

quando você se cala o silêncio fala
a baleia bufa o burro zurra
o bezerro berra o bode bala ladra o cão

quando você se cala o silêncio fala
grasna o ganso o rato guincha
o cavalo rincha bate meu coração

quando você se cala o silêncio fala
a cigarra estrila a hiena gargalha
o dedo estala e canto esta canção

 

 

retta, o multimidia . pinta e borda com os pés no chão.

retta, o multimidia . pinta e borda com os pés no chão.

VINHA AO TEU ENCONTRO prosa poética de vera lúcia kalaari / Portugal

VERA LÚCIA KALAARI - VIANHA AO TEU ENCONTRO

 

 

Vinha vindo ao longo da vida e vinha ao teu encontro.

Por isso é que a vida sempre me pareceu bela e generosa.

Mas quando às vezes, sopravam os ventos adversos, havia qualquer coisa que, em meio da tormenta, falava ao meu coração. Era como a luz de um farol rasgando o nevoeiro, a noite, o temporal.

Vinha ao teu encontro.

Eras tu que eu sentia, como um encanto obscuro, uma fascinação misteriosa, além do horizonte.

E era a tua sombra que, às vezes, me fazia parar um pouco, junto do homem que passava.

E porque era a tua sombra fugaz apenas que me detivera, junto do homem que passava, logo o deixava passar.

E seguia a minha estrada, em busca do teu amor: o outro era apenas um caminho para o teu amor.

Vinha ao teu encontro… Como se seguisse na rota duma estrela, como se fosse no rumo do sol. Vinha ao teu encontro na certeza de encontrar-te, porque eras a promessa do meu destino. Sabia que existias e vinha vindo ao teu encontro, embora ignorasse se eras uma flor ou uma fonte, um raio de luar, uma nota de música, uma paisagem, um silêncio, um sonho.

Sabia que existias e vinha ao teu encontro, ao longo da vida. Assim, agora que te encontrei, tenho a certeza de que sempre estiveste em minha vida, de que sempre caminhámos juntos, pois vivias dentro do meu sonho. Agora tenho a certeza que vinha 

vindo ao longo da vida, caminhando ao teu encontro, como se seguisse na rota duma estrela – iluminada por sua luz distante.

DIÁLOGO POÉTICO VIRTUAL por marilda confortin

MARILDA & CORA

 

 – Não tenha medo do mar, não! Tormenta é renovação.

– Aé é? E o amor, há que temer?

– Ah… Esse eu não garanto. Tem sempre uma grande ressaca

e muito pranto. As vezes até mata.

– Não sei quando parar. Não delimito meus limites… não sei onde termina o mar e onde começa o céu.

– Ao léu, querida, ao léu….

– Espumas e nuvens me confundem.

– É que os horizontes se fundem.

– Pois é… Essa vida de alma fora do corpo faz a poesia achar pegadas onde não se pode mergulhar.

– Pois é…  nem todos os caminhos levam ao mar. Essa vida de veia exposta não mostra o tamanho da entrega.

– Mas vale a tinta da pena.

– Vale. Pena ela ser louca e breve feito horizonte tênue.

– É porque tua alma é maior que o peito.Vaza.

  1. – Pode ser… mas,  o fardo é pesado. Preciso manter os pés fincados no chão e as asas em constante ebulição.

– Talvez esse seja o preço dos que fazem diferença nessa existência.

– Talvez a gente sinta muito.

– Talvez a gente minta muito….

ELOGIO À JANELA por luciana cañete

Será sempre libertária, uma janela.
Esse espaço de fuga, em uma longuíssima reunião.
O céu, visível, como santuário daquilo que simples necessário se esquece cotidianamente.
O sagrado vão, lembrando que para além do confinamento existe vida.
Que para além da bronca materna, da explicação interminável e incompreensível, do discurso babado e hipócrita, há o mundo que não para.
Quem se permite essas pequenas fugas pelas paisagens através de vidros não perderá a alma.
Porque o escape pela janela quase nunca é físico , mas espiritual e silencioso.
Colocamos os olhos – como pontes – sobre as árvores, as nuvens, o canteiro, os carros que passam do outro lado, e por eles desliza a alma em fuga, seja lá do que for.
E há também as janelas moventes, de ônibus e automóveis. A dinâmica, as coisas sólidas que na velocidade se volatilizam: um lençol de algodão no quintal, o homem pintando de cor horrível uma parede, um muro que se ergue e outro que desmorona, um ramo de flores exóticas, cachorros desconhecidos latindo para o vácuo.
Aberta ou fechada, ela guarda uma fuga potencial, o anúncio de um vôo, o desenlace de
um desconforto.
São os memoriais do instinto de liberdade, o refúgio dos oprimidos que não têm coragem de num ímpeto arrombar uma porta e sair em disparada sem olhar para trás. Então pousam as púpilas sobre os vãos, a imaginar impraticáveis saídas .
Qualquer construção sem janelas é como uma mulher sem saboneteiras.
Uma janela será sempre uma liberdade.

NOSTALGIA prosa poética de vera lúcia kalaari / Portugal

 Escondida na minha choupana, nos caminhos que serpenteiam na verdura da minha

 

montanha/paraiso, onde a saudação dos pássaros me anunciava a hora de começar

 

o dia…

 

   Perdida na tranquilidade da natureza, onde o tocar do tambor consolava pelo exces-

 

so de paz, nesse sorridente, belo e doce vale, entre os companheiros meigos e mudos da

 

minha silenciosa solidão: o meu cão e as minhas filhas miudas.

 

   A realidade do quotidiano (a minha realidade) não conhecia nada, além do bom senso que me

 

era  legado por esse Deus, que eu alcançava, interpretando-o como fogo, chuva, trovão, ou

 

mesmo sol, mas com o Qual eu vivia em harmonia.

 

   Fosse esta uma interpretação bárbara, era esse o meu Credo, era essa a minha vida.