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Ando devagar porque já tive pressa… texto espírita sobre a canção TOCANDO EM FRENTE de almir sater

Ando devagar porque já tive pressa

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa de ter tantas coisas, de
chegar a tantos lugares, pressa do ter, do parecer.

Mas hoje ando a passo lento, pois já entendo que a vida é uma busca de
si mesmo, do ser: ser melhor, ser amável, ser amigo, ser sensível, ser
compassivo, ser caridoso…

Hoje compreendo que é preciso paz para poder sorrir, pois o sorriso
verdadeiro, a felicidade autêntica, vem da paz de espírito, a paz de
consciência, de quem segue o caminho do bem a todo custo.

Entendo também que as chuvas são bem-vindas, e que sem elas não há
floradas, pois é preciso chuva para florir.

A dor nos esculpe a alma, quando bem entendida, quando bem absorvida
nos passos diários da lida.

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa do sucesso a qualquer
custo, pressa de ser popular, de ser o primeiro, de agradar a todos…

Mas hoje ando tranquilo, percebendo mais as manhas e as manhãs, o
sabor das massas e das maçãs, absorvendo a vida em toda sua plenitude.

O viver pode ser o mesmo, as circunstâncias podem permanecer
inalteradas, mas minhas lentes são outras. Enxergo tudo de outra
forma.

E o mais importante de tudo: descobri que para cumprir a vida, para
cumprir meu papel, minha missão aqui, preciso compreender minha
própria marcha.

Sêneca, antigo sábio, afirmou que nenhum vento é a favor para quem não
sabe para onde ir. Então, compreender a marcha é fundamental.
Precisamos saber para onde estamos indo, precisamos saber o que é
nossa marcha, nossa vida.

Só então posso ir tocando em frente, com simplicidade e devoção, com
alegria e coração.

Pois todos temos talento, todos carregamos o dom de ser capaz e ser feliz.

A felicidade não é para poucos, não, é para todos. E cada um a vai
encontrando no seu tempo, no seu momento, da sua forma.

Ando devagar porque já tive pressa… Pressa de partir, já quis
desistir de tudo, em alguns momentos, mas hoje ando como que em câmera
lenta, com a coragem de quem quer ficar e ver tudo até o fim.

Carrego esse sorriso porque já chorei demais, mas isso não quer dizer
que não voltarei a derramar alguma gota dos olhos. Significa apenas
que os sorrisos serão a regra. A lágrima, exceção.

Ando devagar no passo curto dos meus filhos, pois se resolver andar
acelerado, os deixarei para trás.

Ando devagar para perceber o sabiá cantador, pois se torno minha vida
uma bomba-relógio, passo a não perceber a vida que passa ao largo de
meus passos, e assim, os sabiás passam a não existir mais.

Ando devagar para ainda conseguir olhar onde piso, e não esmagar nada,
nem ninguém com minha desatenção ou deselegância.

Ando devagar para pensar um tanto mais antes de agir, para escolher as
palavras certas, para digerir uma ideia nova, para escolher um
caminho, para silenciar a mim mesmo por alguns instantes.

Ando devagar… Porque já tive pressa.

* * *

A vida é especialmente rica para que se passe por ela, às pressas, sem
atentar para os detalhes.

O mundo é pleno de belezas para que se o percorra aos saltos, sem nos
determos a descobrir as belezas das flores, o segredo das matas, o
encanto das fontes.

Pensemos nisso!

Redação do Momento Espírita, com base na
canção Tocando em frente, de Almir Sater.
Em 28.11.2013.

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João Ubaldo Ribeiro completa hoje 72 anos – 23/01/2013

23.01 .13

(escritor, jornalista, roteirista e professor brasileiro)

ubaldo

“Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos.”

.

– João Ubaldo, in Vila Real.

OUTONO – Ofereço a ti e ofereço à minha mãe – por zuleika dos reis / são paulo.sp

 

Neste dia 20 de março, na alta madrugada começa, no hemisfério sul, a estação do Outono, ao mesmo tempo em que tem início a estação da primavera no hemisfério norte.

Se não dispomos da incrível beleza de cores dos campos na América do Norte, na Europa, na Ásia, em seu Outono que ocorre a partir de setembro, isso não significa que nosso Outono não seja belo. Assim, nenhuma outra estação costuma apresentar céus tão diáfanos nem luas cheias tão esplêndidas nem – permitam-me acrescentar este dado muito subjetivo –melancolias tão profundamente especiais. No Outono as estrelas cadentes se tornam mais visíveis, as chuvas se fazem mais silenciosas, as saudades e as lembranças insidiosas afloram mais intensamente, bem como os relâmpagos ocorrem com maior frequência.

No Outono também há árvores que se cobrem de flores, como a bonina, a espatódea, o manacá, a quaresmeira, a nespereira, a paineira, sendo que desta última existe, há décadas, um belíssimo espécime na pracinha em frente ao prédio onde moro, sempre diante da janela da minha sala, por sinal nos presentes dias já deveras florido, com suas flores rosa, com suas flores símbolo do meu amor, do meu amor sempre protegido entre as pétalas do coração. Assim como as árvores de Outono, a passarada também nos toca a todos com seus múltiplos cantos, nos campos e nas pequenas e grandes cidades do país.

No Outono temos a Semana Santa e a Páscoa. No Outono temos o dia do trabalho, o dia da abolição da escravatura, o dia em que as mães são homenageadas, o dia dos namorados… No Outono temos o tempo da colheita do arroz, o tempo da colheita do algodão.

Há quem diga que o Outono é a mais poética das estações.

Ergamos um brinde ao Outono, tempo de recolhimento, mas também tempo de  descobrimentos, tempos de renovação.

NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER, ofereço aos homens, companheiros de jornada no mundo – por zuleika dos reis / são paulo.sp /


A mulher só conseguirá se libertar inteira para si mesma, para o lar e para o mundo quando o homem que se queira novo também florescer inteiro, em todas as suas potencialidades de ser, para si mesmo, para o lar, para o mundo.

Não há como separar a evolução, a plenitude, os direitos e os deveres da mulher dos deveres, dos direitos, da plenitude e da evolução do homem.  Quando ambos se puserem, ampla, geral e irrestritamente a serviço um do outro, e juntos a serviço do lar, e juntos a serviço do mundo, haverá de brotar um tempo melhor, um tempo mais justo.

É preciso que a nova mulher olhe de frente o novo homem e vice-versa. É preciso que se conheçam, para que se possam, efetivamente, reconhecer.

 

 

“AO MENINO QUE BRINCAVA DE AVIÃO” – por omar de la roca / são paulo

 

Kevin então pigarreou, ajeitou as jóias da coroa para reunir coragem. Queria contar uma história mais leve.Mas o que vinha a cabeça dele agora eram os antigos e sempre presentes relatos sobre a grande fome , sobre os gigantes , “ banshees” que passavam voando baixo aos gritos.Humilhação e sofrimento. Corpos abandonados,sexo atrás dos muros da igreja quando ninguém estava olhando,ou nas praias durante os curtos verões.Longas viagens de navio para a América,das quais muitos não sobreviviam. Levantou a mão para persignar-se mas parou a mão no meio do caminho . A boa e velha culpa católica,incutida pelos padres de sua cidadezinha num recanto perdido da Hibérnia. Para disfarçar, abanou o rosto com a mão dizendo que estava com calor e só iria conseguir falar alguma coisa depois de mais uma cerveja. Pediu para que Sergio tomasse sua vez.

Sergio pediu um minuto,já que a cerveja fazia efeito rápido. “ Cambiare l’acqua de l’olive “, ele disse e retornou em poucos minutos. Jogou o chiclete que mascava para tirar o amargor da cerveja,era o que ele dizia, mas era dependente de açúcar e por isso comprava chiclete diet para enganar. Tossiu um pouco para chamar a atenção e começou a história, jurando que não era autobiográfica.

Já há alguns anos ele  elegeu como sua primeira memória de infância,ele mesmo saindo correndo pelo portão de casa na antiga Rua da Consolação com os braços abertos querendo ganhar o ar. E se maravilhava ao ouvir histórias de quem já havia voado. Naquela época, fim dos anos 50 as coisas eram mais difíceis. Ia-se a biblioteca para pesquisar biografias e, pasmem, havia um campeonato de carrinhos de rolimã que desciam a Av. Rebouças aos domingos.A pegadinha era que só ganhava o menino que trouxesse o carrinho até o ponto de partida, subindo a avenida. Mas ele só foi uma ou duas vezes.Naquela época,havia uma sessão de cinema matinal aos domingos com o Pica Pau,que ele raramente ia.É, as coisas eram mais difíceis. E não só para ele.” Mas não quero transformar este conto em livro, disse Sergio,até poderia mas ia ser difícil de contar .Para que colocar no papel todas as agressões sofridas? Todos nós tivemos más experiências na infância.”  Mas aquele episódio de violência sexual o marcou tão fundo que lhe perseguia através dos anos. Anos e anos querendo ser “ normal” mas sempre com aquela sombra,estigma e a inevitável depressão. A primeira namorada,que durou um dia, a segunda, que lhe  deu o fora no dia de seu aniversário , deixando-o arrasado.O retraimento. A introspecção. A miopia a falta de recursos para o óculos,a repetência na segunda série ,aquela sombra pesando cada vez mais.Agressões,auto agressões.O quanto não fez para sobreviver ? Foi como uma árvore criada entre muros, que o protegiam mas não lhe deixavam ver nada. E  não lhe protegiam deles mesmos. E sempre o peso ,o medo , a falta de orientação.A falta de alguém para conversar. Amigos poucos, quase nenhum. Um primo,que tinha que ter sempre razão e ia bem na escola.Mas ele não . Fez amizade com um rapaz e começou a freqüentar a casa dele que morava com a irmã e os pais. E para ele, era como um refúgio estar lá. E para ele eram todos amigos. Viajavam juntos, tinham coisas em comum, foi uma época bem legal. Estava tão escaldado do peso de tantas coisas que vivia meio desligado, com a cabeça na lua . As namoradas que nunca davam certo. Os amores platônicos sem continuidade. Para ele,  era apenas uma sólida amizade. Mas  faltou percepção para ver que para a irmã dele, as coisas não eram bem assim. Jurou que não foi por maldade,que não fazia a menor idéia. Um dia, estava na casa deles quando receberam visitas.Uma amiga de anos com o namorado. E uma voz falou ao  ouvido dele, “ Olha ai a tua mulher. “ .Estas coisas as vezes  acontecem a ele. Achar uma pessoa que o estava  esperando em um lugar que ele  não esperava encontrá-la. E muitos outros acasos os quais agora não cabem aqui. Passou algum tempo, voltou a encontrar aquela amiga,que já estava sozinha. E foi como se dois pólos opostos se atraíssem com força. Foi ela que o fez pensar que  poderia ser “ normal”,após tantos anos de sofrimento. Dali a uns anos se casaram e foi só ali que ele  percebeu que seus problemas haviam apenas começado.  “ Sergio fechou os olhos e roçou o dedo de leve por debaixo dos óculos.E nestes breves segundos passearam pela sua memória anos de rejeição, repressão e auto agressão.De depressão e auto controle. De fogo e gelo. “ Tossiu de leve e voltou a narrativa :  E sempre aquela ânsia pela normalidade,pela tranqüilidade.” Resolveu deixar de lado o relato de muitos anos,mesmo que o psicoterapeuta dissesse que conversar era uma forma de terapia e de compreender que muitas vezes não somos os únicos com aquele problema.Não ia interessar aos seus amigos ouvir as dificuldades de um terceiro.” Passados tantos e tantos anos assistiu ao filme “ O menino do pijama listrado “,e adaptou a música de início, quando o menino “ voa “ pelas ruas de Berlin  ( que na verdade era Budapeste ou Praga na versão do filme , ele não se lembrava bem) a sua primeira memória elegida, e quando não está bem retorna a ela   “ ouvindo “ a música junto . Fica se pegando em mínimas alegrias para manter a sanidade .Apega-se a pessoas , uma pessoa no escritório ( uma loura que não aquela da contabilidade ) a um amigo inglês que pescou na Internet há muitos anos atrás e que por coincidência tinha o mesmo problema de relacionamento com a mulher ( coisas do inconsciente coletivo )que ele tem. Sergio achou que devia explicar e o fez  dizendo que  o amigo,na época, entrou em um site que relacionava pessoas interessadas em trocar correspondências e enviou quase 20 e mails pedindo por amigos para escrever. Alguns poucos retornaram inclusive Trawets , que continua até hoje e se tratavam como Bro ( irmãos ). Então voltou a história .Perto do fim do ano recebeu um texto que falava sobre  Fênix   e renascimento e percebeu que na verdade tudo dependia dele. “ Sergio parou por um segundo e lembrou-se de um trecho do  conto de Omar que dizia ‘ vivi muito tempo em minha própria sombra,agora quero um pouco de luz.’ “E continuando o conto ,não quero mais arrastar minhas correntes, ninguém quer ouvir o barulho delas. Quero que elas se partam e caiam ao chão . Lembrou-se dos  quadros inacabados no alto da prateleira da cozinha. Não era um bom pintor,mas gostava da arte,do cheiro da terebintina e da mística que envolvia os pintores.Pintar o que conseguia era sua maneira de se vingar pela falta de oportunidade de estudar arte.Tinha adorado “ Meia Noite em Paris “.Gostaria de ter suas esculturas em bronze,mas o preço era proibitivo. A menos que conseguisse um mecenas que o patrocinasse.Mas também não era bom nisso. Mas para se vingar fazia as esculturas em argila e revestia com epóxi para criar resistência,e as cobria com folha de ouro para melhorar a apresentação . Deu-se conta de que as quedas se sucederiam, mas que teria que resistir a elas e ,a cada uma, ele iria se levantar mais rápido e mais sábio. Não deixaria mais de aprender algo com cada situação que a ele se apresentasse.  ‘” Sergio viu que os outros dois esboçavam uma cara de sono, tirou os óculos, fingiu que os limpava na gravata meio solta e disse que por enquanto era só.”

DA UTOPIA E DO CRIME – por jorge lescano / são paulo


 

Para Urda Klueger

 

Não há nada de quixotesco nem romântico em querer mudar o mundo.

É possível. É o ofício ao qual a humanidade se dedicou desde sempre.

 Não concebo melhor vida que uma dedicada à efervescência, às ilusões,

à teimosia que nega a inevitabilidade do caos e à esperança.

Gioconda Belli

Em termos gerais concordo com o pensamento da escritora nicaragüense, de quem conheço apenas esta frase, remetida por uma companheira de utopia. O que me motivou a escrever a nota são os conceitos quixotesco e romântico, citados por ela como pejorativos, ao gosto da mentalidade liberal burguesa.

Nada mais humano que o homicídio premeditado, o matricídio, o parricídio, o fratricídio, o latrocínio e a tortura. Nenhuma outra espécie comete estes crimes em sã consciência, eles são atributos exclusivamente humanos. O que um homem fez, a espécie faz. Nenhum indivíduo pode se declarar isento das características da manada humana. Nada mais humano, também, que o anseio de conhecimento, de liberdade, de justiça, de felicidade.

A sombra de Hitler nunca ofuscará a luminosidade de Mozart, a inquietante clarividência de Kafka. A prepotência de Mussolini não apagou a alegria de Vivaldi. Os crimes de Stalin só ressaltam a verdade da obra de Dostoievski que denuncia o absurdo da violência dos homens. O obscurantismo de Franco nunca empanou a lucidez de Cervantes. A desfaçatez de Obama que pretende justificar guerras injustificáveis, não perturba o reconhecimento das românticas viagens de Poe à região nebulosa da mente, não pode ocultar a melancolia dos quadros de Hopper nem o bom humor da música de Cage. É óbvio que tais nomes não esgotam o elenco de protagonistas da eterna luta entre a luz e as trevas. Eles perambulam anônimos ao nosso redor.

Toda revolução é romântica porque pretende mudar o mundo, realizar a utopia.

É revolucionário – não importa qual seja o teor da atividade nem o volume de sua tarefa – todo aquele que sonha com a justiça plena, isto é: os mesmos direitos para todas as diferenças. Muda-se o mundo menos pela gestão política que pela consciência individual que obrigará o político a obedecer.

Descreio de instituições cuja única função é disputar cargos públicos. A diferença entre um partido político e o movimento político é que aquele concorre ao governo do Estado (entidade semidivina na atualidade) e este educa, forma as pessoas para a autogestão. Em geral é trabalho realizado individualmente porque o poder político sempre acaba institucionalizando (entenda-se encampando, neutralizando e manipulando) os frutos da tarefa coletiva.

Se não podemos mudar de mundo, mudar o mundo é a única alternativa, única utopia válida. Deve-se pretender o máximo para conseguir o mínimo. Assim funciona a sociedade humana.

O Quixote era uma sátira na época de Cervantes, tornou-se paradigma moral e moralista por algum tempo, volta a ser exemplo de estupidez, de ingenuidade e loucura (?) nos tempos que correm porque não produz lucros monetários, valor máximo da comunidade ocidental e cristã.

A arte, por revolucionária que seja, não muda o mundo, apenas ilustra a doutrina de que a pensamento não deve ficar preso a preceitos estabelecidos pela “autoridade”. Isto é válido em todos os ramos, para todas as categorias. O conhecimento científico também caminha assim, desrespeitando a autoridade estabelecida pelo poder político das academias. O pensamento deve ser campo aberto para o cultivo. Somente os dogmas afirmam possuir verdades imutáveis.

Reivindico para mim os motes de romântico e quixotesco pelo que eles têm de inconformismo, e não é preciso que ninguém aprove ou adira à minha escolha. Tenho o mau costume de ver a realidade pelo avesso. Não fosse assim e teria me dedicado a vender apólices de seguros de vida e estaria em paz com os deuses (todos eles!) e com o mundo.

Atribuem-me a (má?) fama de iconoclasta. Não sei se isto é verdadeiro, sei sim que nunca pactuei com o culto à personalidade de nenhum ídolo, que sempre acaba servindo ou criando seitas, clubes, partidos apenas diferentes nas cores e tamanhos. Isto não impede que reconheça o valor de pessoas e obras sem que, necessariamente, deva render-lhes culto.

Em meus rascunhos abundam nomes de artistas. Suas obras, de diversos modos, moldaram a minha escrita. Também Natividad Cardozo, minha mãe e lavadeira analfabeta, colaborou com ela; e se não deixou frase memorável para ser citada formou o homem que sou hoje, com todos meus defeitos.

Talvez o sentido da vida de cada um seja procurar a perfeição (?), esta a utopia individual. Nisto acreditam diversas seitas de todas as latitudes. Eu me reservo o direito à dúvida.

O SIGNIFICADO DO NATAL – por manoel de andrade / curitiba.pr

 

          Nestes dias que precedem o Natal, ocorre-me pensar nas tantas portas que se fecham para o seu real significado, mascarado por estranhas personagens natalinas e maculado por poderosos interesses mercadológicos. Ocorre-me também pensar que se o Cristianismo fosse verdadeiramente interpretado não haveria tantos sectarismos e o simbolismo da manjedoura de Belém seria fraternalmente reverenciado no mundo inteiro, além da barreira das religiões.

 

Jesus não fundou nenhuma igreja, nem dogmatizou nenhuma religião. Trouxe-nos a imagem de Deus como um pai, mostrou a importância da religiosidade e nos revelou o significado incondicional do amor. Não escreveu nada, mas deixou, na memória de seus discípulos, a sabedoria de suas parábolas e, no Sermão da Montanha, toda a essência do cristianismo, falando do amor aos inimigos, do perdão das ofensas e da importância de dar a outra face como um caminho aberto para a reconciliação. Resumindo, quis dizer-nos que ser cristão é saber transformar o orgulho em humildade e o egoísmo em amor.

 

A ênfase de sua filosofia propunha a redenção humana pela educação e não pelo constrangimento. Embora abominasse o pecado, Ele amava o pecador e acreditava que educar é despertar o senso da justiça, do amor e da beleza moral que existe, potencialmente, em cada ser humano. Nesse sentido, entre tantos fatos de sua vida pública, exemplificou sua tolerância e sua caridade diante da mulher adúltera e do bom ladrão, no alto do Calvário.

 

Passados vinte séculos hoje perguntamos qual o significado do seu nascimento para cada um de nós. Sobretudo perguntamos quantos já leram e estudaram o seu Evangelho. Nesse singelo banco escolar que é o planeta,  — onde ainda somos espiritualmente crianças  — seu conteúdo é uma cartilha insubstituível para soletrarmos o beabá do amor, da paciência e do perdão. Diante das sabatinas diárias da vida é imprescindível aprendermos o que significa “orar e vigiar” e não fazer a ninguém o que não queremos que nos façam. Quantos são capazes de vivenciar suas lições e seus exemplos, ante as provas e os embates do dia a dia, oferecendo a outra face ante o agressor e perdoando sempre? Se já começamos a ensaiar essa difícil conduta então Jesus já nasceu para nós e temos um Natal para comemorar. Mas muitos ainda trazemos o coração fechado a essa realidade, tais como as estalagens de Belém, cujas portas se fecharam ao seu nascimento.

 

Se perguntássemos a Paulo de Tarso onde nasceu Jesus, ele certamente diria que foi diante das Portas de Damasco, onde chegou para aprisionar alguns cristãos da cidade. Se perguntássemos a Maria Madalena onde Ele nasceu, com certeza, responderia que Jesus nasceu para ela na casa de Simão, o fariseu. Foi ali que depois de lavar e enxugar seus pés ela ouviu sua voz compassiva perdoando-lhe os pecados.

Onde predomina o orgulho e o egoísmo — essas patologias crônicas da alma humana — Ele não poderá renascer, ainda que invocado em rituais e ladainhas. É imprescindível que façamos do coração uma manjedoura humilde para que Jesus possa renascer em nossas vidas. Caso contrário, além da beleza sentimental da fraternidade e o significado envolvente do Natal no seio da família, temos apenas uma data histórica para comemorar, com muitos presentes, a figura patética de um Papai Noel, um banquete de sabores e aparências e o apego às ilusões do mundo.

 

 

 

Curitiba, pastelão e chuva! – por wagner de oliveira mello / curitiba

Mentira é tudo mentira!

 Nunca tive uma estante, cama, mesa ou quarto; desde que fralda era um pedaço de pano que segurava minha merda presa à bunda eu divago por ai, sem burro, sem alça, às vezes um tênis, em outras uma calça. À merda com essa rima estúpida, tá pensando que tua vida é a Odisséia rapá.

• Acordei atrasado como se fosse a primeira vez, saí  sem escovar os dentes ou dizer bom dia pro espelho; à portaria fui invadido pela mesma dúvida que me assombra todas as manhãs, voltei tropeçando escada acima conferir se tranquei a porta…  – É claro que trancou, complexado idiota.
Tomei um cafezinho com pastel podre no china koreano e corri pro tubo. Chovia pra caralho naquela hora. Usuários de guarda-chuva  embaixo das marquises?! Eu a  nandar na sarjeta, desviando das pedras soltas que jogam lama nos calçados, nas calças, podendo subir até à camiseta dependendo da intensidade do passo.  Enfim,  semi-ensopado no tubo, advinha? esqueci o cartão de transporte e óbvio que estava duro. O cobrador que já me conhece bem, olhou pros dois lados antes de  liberar. “Entra pela portinha lateral, dá nada não, você ta sempre aí, outro dia me paga um café e ta tudo certo”. “Porra cara, valeu, valeu mesmo!” Como tem gente santa nesse mundo, e geralmente são as mais simples. Eu no seu lugar teria mandado o sujeito passear. O mundo não é bom, e pessoas boas cedo ou tarde acabam se fudendo; ou acha que se o fiscal da URBS, escondido atrás de um poste lá do outro lado da rua visse essa cena não teria delatado o pobre coitado; aí já era rapá! Não faz dessas coisas não meu filho, que Deus não abençoa!
• Trânsito parado, ônibus lotado, cheio de gente encasacada, molhada, empunhando guarda-chuva com olhar ameaçador como quem diz: “Esse canto é meu, não chega perto que te bato com isso na cabeça!” E eu numa ressaca braba, sonhando com minha cama, garrafas de água com gás e possíveis falecimentos que impedissem o expediente. Nada! A porta se abriu, e com muito custo consegui sair do coletivo, na verdade não sai, fui expelido porta à fora com a pressão dos que entravam pela outra. Alívio e desconcerto juntos. Mal desci do ônibus, um carro buzina ao meu lado, advinha quem era? Meu chefe é claro, nem pra me dar carona, jamais daria, esporro sem platéia não é esporro.

Como Água para Chocolate – por mônica benavides / curitiba

Como Água para Chocolate – Um livro/filme de receitas; para aprender a preparar comida, amor e lágrimas

 

O realismo fantástico é um gênero literário, que se desenvolveu principalmente na América Latina, e que encontrou aqui os seus expoentes máximos, gênios como García Marquez e Isabel Allende, de quem todos, (independente de amarem a leitura ou não), ou já ouviram falar ou já folhearam um livro na estante de uma livraria, banca de jornal ou farmácia (incrível, mas fato, hoje em dia se vende de tudo na farmácia menos remédios. Para esses, eles só aceitam um acordo financeiro que contemple sua assinatura em sangue sobre um contrato, no valor equivalente ao de uma alma em boas condições).

 

Bem, voltando; com certeza você já ouviu falar dos dois, blá, blá, blá… e não me delongarei no assunto. O que importa é que talvez, e digo chorando por você, infelizmente talvez, você não saiba que existe uma senhora mexicana, representante desse gênero que é um verdadeiro deleite. Seu nome: Laura Esquivel.  Essa mulher teve a ousadia de juntar o realismo fantástico com a cozinha ficção. O resultado?  Um cozido quente, com molho grosso e cheiroso; diria que opulento.

 

E eu fiz questão de falar desse livro, porque sei que muitas pessoas odeiam ler e que o cinema lhes vão em socorro para que conheçam adaptações das obras mestras da literatura,  consequentemente, conheçam as melhores histórias que a humanidade já inventou e contou. Na minha opinião, em noventa por cento dos casos de forma lamentável e criminosa. Quer um exemplo? Olha o que fizeram com o Germinal do Zolá… mas deixa essa história para outro dia.

 

Bem, voltando novamente (não sei porque, mas hoje estou tergiversando além do normal), Laura Esquivel é mexicana, tem um livro maravilhoso de estréia, perfeito representante do realismo fantástico latino americano, o dito é um deleite para quem ama cozinha (fiz duas receitas entremeadas na história e digo: elas dão certo), e que faz parte dos dez por cento restantes, que incluo nas adaptações cinematográficas aceitáveis, e digo até… MUITO bem feitas.

 

O filme é fiel à história, aos personagens, e o mais importante, mantem íntegro o clima do livro; romance, drama e intensa perplexidade.

 

Bem, quem não viu e não leu, pare de ler agora. Depois daqui começam os spoilers.

 

Como água para chocolate, é antes de tudo uma história de várias gerações (uma das características marcantes desse gênero literário), um romance com pitadas de melodrama (olha aí a segunda), e uma história povoada com o pó de ouro e a riqueza dos mitos e lendas de uma região (pronto está aí a terceira), além disso, entremeia a narração com fatos absurdos, que contrariam totalmente as leis da física e que se aproximam mais da ficção científica que dos documentários do Discovery Channel (pronto aí está a quarta e derradeira).

 

O livro e consequentemente o filme, contam a história de amor de Pedro e Tita e a história de ódio de Mamãe Elena. Mas o mais importante é que o livro, e graças ao cuidado com o roteiro e a fotografia, o filme; nos transportam para o mundo da cozinha de uma casa mexicana, com seus cheiros, sabores, suores e lágrimas.

 

O livro e o filme, apresentam cada capítulo da história com uma receita especial, lida por uma tataraneta de Tita, que é a narradora principal. Essa história guarda em si cenas belíssimas, que mostram como o cozinhar e o amar caminham juntos, desde que a primeira mulher das cavernas, assou um pedaço de caça para impressionar o homem que amava. As perdizes feitas por Tita utilizando as rosas destruídas, são a mais bela expressão de amor que já vi. Assim como o bolo misturado com as lágrimas de sua dor, mostram como a alma de alguém, quando torturada ao seu limite, pode causar desarranjos nas idéias impostas por outros.

 

O filme é lindo, a atriz mexicana Lumi Cavazos está fantástica no papel, mas perde muito para a soberba interpretação de Regina Torné como Mamãe Elena (ela realmente nos faz querer matá-la). Quanto ao erotismo é bem dosado, sem apelação e a cena de consumação (no sentido literal, afinal eles se consomem pelo fogo), do amor dos dois é belíssima.

 

Digo sempre a quem quer ouvir e a quem não quer também, que leia o livro antes de ver o filme, mas nesse caso digo com mais ênfase, porque aqui o prazer será maior, você verá que as descrições que te levam a criar os cenários da autora na cabeça se descortinaram na tela.

 

Será como ter uma revelação. Uma experiência, em que você verá sua imaginação praticamente transportada para o filme. Esse efeito é conseguido porque o diretor Alfonso Arau foi detalhista e cuidadoso. Fiel completamente aos cenários e aos personagens de Esquivel.

 

Esse livro e esse filme são jóias valiosas e um tanto discretas, como aquelas tabernas nos porões de casas simples em cidadezinhas européias da França ou da Espanha. Você entra receoso, porque são menos famosos do que deveriam (somente se conhece por indicação pois não constam em guias), mas sai maravilhado e saudoso, porque guardam em si um universo de sabores surpreendentes. E isso, é importante dizer, é muito mais do que se pode dizer de diversos pratos, servidos nos mais famosos restaurantes.

 

TEORIA DA MEDIOCRIDADE – por albert einstein / do além

Dia desses, um artigo no New York Times me chamou a atenção. Também pudera, o texto tinha como ilustração aquela maldita foto onde apareço de língua de fora. Falo maldita porque na ocasião em que foi clicada, quis apenas estragar os instantâneos dos paparazzi que me importunavam, mostrando a língua a eles. O efeito foi o contrário. Acabei por alimentar ainda mais a imagem de gênio irreverente, distraído e não preso às convenções. Cristalizei o mito que nunca gostei de encarnar. Mas já não reclamo mais. Se isso anima as plateias, tudo bem. Com base nesse episódio, cheguei à seguinte formulação: Entretenimento é igual a mentira vezes casualidade ao quadrado. E= mC2.

Mas voltando ao artigo do NYT, nele Neal Gabler sustenta que as ideias não são mais o que eram antes. As atuais não incendeiam debates, não incitam revoluções nem alteram a maneira como vemos e pensamos o mundo. Há uma falta de gênios públicos. Gabler não acha que as mentes de hoje sejam inferiores às das gerações passadas. O problema não é de burrice. A questão é que ninguém dá a mínima para as grandes ideias. Prestamos atenção só naquelas que podem ser monetizadas. Daí o fascínio pelos empreendedores da web. Para Garber, a Era da Informação transformou todos em acumuladores de fatos e não em pensadores. Maldita internet.

Não discordo por completo do articulista. E acrescento outros aspectos. Em parte, a falta de gênios se deve às redes sociais. Você começa a seguir alguém que considera genial e em poucos postsa pessoa se revela uma besta. Não há mito que resista à proximidade e ao excesso de microfone. A exaltação aocrowdsourcing, modelo de produção que utiliza a inteligência e os conhecimentos coletivos e voluntários espalhados pela internet, também dilui a importância e a aparição das grandes cabeças. O problema do crowdsourcing é que ele não rende boas estátuas. Os parques não estão preparados para monumentos tão grandes. Além disso, o único gênio desses esquemas colaborativos é o cara que faz o grupo todo trabalhar de graça em seu benefício.

Outro fator que dificulta a identificação de gênios é o uso indiscriminado desse qualificativo. Chama-se de gênio o DJ de fim de semana, a segunda voz da dupla sertaneja, o sujeito que desenhou um novo furador de coco. Há até técnico de futebol, sem grande expressão, que atende pela alcunha de Geninho. O amor sofre do mesmo mal. Esse sentimento, antes elevado e raro, banalizou-se. Amam-se bolsas, cachorros, dietas e tablets. Não amo muito tudo isso.

Mas há uma questão que Glaber não considera. Ser gênio é bom só para consumo dos outros. Viver como um não é tão delicioso. Não falo só da dificuldade de se relacionar com as coisas mundanas e calçar as meias de uma mesma cor. A genialidade é uma anomalia, uma doença cujos sintomas externos enganam: fama, poder e admiração. No entanto, esse estágio, na maioria das vezes, só é alcançado depois da morte ou nos estertores da vida. Quando ela é precoce, se consume ou é consumida rapidamente. O gênio é visionário e como tal passa boa parte da sua carreira na incompreensão. As grandes mentes, em geral, são acompanhadas de obsessões, compulsões, manias e comportamento antissocial. A lista de perturbados pela sua própria genialidade é enorme. Bach, Munch, Michael Jackson, Kant, Santos-Dumont, Marlon Brando, Nietzsche, Van Gogh e Dostoievski, só para citar alguns.

Espero que o último parágrafo tenha lhe servido de consolo e faça você retornar ao Facebook aliviado e sem culpa.

Vitor Knijnik 

TEXTO 3 – por wagner de oliveira melo / curitiba

Corrompi todo o Código Penal Padre; deus sabe que tentei ficar em casa rezando. Mas elas estavam ali o dia inteiro, perdidas, sem nada fazer. Tentei ficar em casa, mas o diabo me corrompeu. Se falar do mal, a igreja tem algo a dizer: “de boas intenções o inferno está cheio, meu filho”; “ótimo!, então não há mais lugar para mim; parto sem fim, padre”. Quero viver, fazer o bem, remunerar o jovem trabalhador, forjar uma nação e contribuir para o espetáculo do crescimento. Uns gostaram, outras nem tanto, outros ainda… Nada. Peixinhos. A maioria nunca tem opinião; é apenas movida de lá para cá ao sabor do poder, delícia dos anos 30: uma fotografia de mulher seminua da cintura pra cima. Ainda mais com toda a ofensa aos bons costumes… Nada. Peixinhos. Somos todos cordeirinhos, “meu pai não me levou à zona, foi tudo sem crase, mamãe foi junto, ela trabalhava lá, tenho orgulho, foi o que pagou meu estudo, hoje, quando derramo a última lágrima do funeral, imploro por seu perdão, mamãe, as leis eram mais fortes, não pude ser o contador do bordel”. Não há mães e pais no mundo, somos todos nós abusadores de criancinhas, elas gostam, serão nós, seremos elas, juntas elas fazem a pressão subir, uma com o dedinho na outra, até que o casamento acabe com tudo. Sou pra casar, cada vez que cometo uma atrocidade penso, Maria, me salve, case comigo, por favor. Tudo é saudade, quando não está aqui, quem sou se não o mal, o mal que posso fazer, pensando no meu bem. Vice-versa. Melhor dizer o mal, sei que elas queriam mais que eu, mas eu sei, li, não fui assassinado quando o exército vermelho exterminou todos aqueles que usavam lentes, suspeitos de serem leitores, – crime capital, pena: eu agora querendo mais, elas lá fora, esperando o dia inteiro, uma apóia na outra, “eu gosto assim, faz pra mim”. Queria poder me culpar mais, queria o suplício; mas confesso e não blasfemo: a culpa é sua, por que não está aqui comigo? Vergonha? Deve ser, eu também teria, jamais me encararia, esses olhos negros não têm fim, a gente se perde neles; tenta-se fixar o olhar, impossível, os olhos negros não têm pupilas, é preto e branco, um na cozinha, outro comendo, sendo servido. Bocejando há horas, Maria, José, João, qual é mesmo o nome da insônia? Insônia é simplesmente desistir de dormir. Tomar remédios, desabar, insônia só amanhã de manhã. Cada qual em sua realidade; cada qual pensando em fazer o bem; cada qual submerso em seus pecados – os olhos talvez os escondam, talvez queiram mais, mais bem, mais bem, mais bondade. Incrédulos, gentes, nações e organizações acreditam que o bem resta estático, pontual, – amantes do pragmatismo, “vamos distribuir remédios na áfrica”, “cotas raciais”, “o meu bem deve prosperar, afinal é o bem, é a bondade, é a minha religião: o bem”. – Te sento a mão na cara moleque, mas é para o seu próprio bem. – Aprenda de uma vez por todas que não se pode falar palavrões à mesa, sem crase, toma, toma, mais essa, toma e fica quieto, já pro seu quarto, que hoje não te quero ver nem pintado nem crucificado: Jesus botava tanto medo em José que, quando este lhe deu a primeira porrada, um milagre aconteceu. Nomes bíblicos dão tesão; para uns a religião é o próprio pecado, para outros é apenas destruir imagens de gesso em cadeia nacional, há aqueles ainda que juram não a ter – (tome cuidado) a natureza não reage, mas se vinga, preserve-a.

Solidão Furiosa – por omar de la roca / são paulo

 

Então,tudo o que fazemos é por medo da solidão? É por isso que renunciamos a todas as coisas as quais iremos nos arrepender no fim da vida ? É por isso que raramente dizemos o que pensamos?Porque, alem disso,nos prendemos a casamentos falidos,falsas amizades,entediantes festas de aniversário? O que aconteceria se recusássemos tudo isso, por um fim a chantagem disfarçada e fossemos nós mesmos? Se deixássemos nossos desejos aprisionados e nossa fúria desta escravidão jorrar forte como uma fonte ? Em que consiste esta tão temida solidão ? No silêncio de  mudas reprovações ?Em não precisar engatinhar no campo minado da vida de casado ou de meias verdades amigáveis, prendendo a respiração? Na liberdade de não ter alguém a nossa frente durante as refeições? Na integridade do tempo que boceja quando não temos compromissos? Estas coisas não são maravilhosas? Uma situação divina ? Então, porque teme-la ? Não é na verdade um medo que existe apenas porque não pensamos através dos objetos ? Um medo que nos foi incutido pelos pais , professores ou padres ?E como podemos estar certos que os outros não nos invejarão ao ver a extensão de nossa liberdade ? E que eles se afastarão em resposta?

Amadeu do Prado

Da biblioteca de papel – por jorge lescano / são paulo

O jogo do hircocervo nasceu, como tantas outras brincadeiras, à mesa com os amigos costumeiros. Originou-se de uma pergunta: e se Giordano Bruno fosse um músico que, obcecado pela infinidade dos mundos, jamais tivesse composto uma obra completa? Conclui-se depois que a solução ideal seria fundir os nomes de dois personagens conhecidos de modo a que se pudesse atribuir ao novo personagem uma obra inédita que recordasse algumas das características dos dois personagens originais; e melhor ainda, se contivesse algum outro apelo ambíguo. […]  convencionou-se que seria possível fundir também personagens com instituições ou objetos.

Umberto Eco: O segundo diário mínimo.

 

Eu, infinitamente menos enciclopédico que a turma do erudito italiano, faço-me eco de Umberto e publico aqui a minha contribuição mínima ao jogo, limitando-me à literatura.

 

 

 

ALGUNS AUTORES E LIVROS  DA BIBLIOTECA DE PAPEL

 

Mínima contribuição diária ao Hircocervos, segundo Umberto Eco.

 

 

ADRIANO YOURCENAR = Memórias de Ronaldo.

ALEXANDRE SARTRE = Os três mosquiteiros.

ANA TOLSTÓI = O diário de Anna Karênina.

ANTON NABOKOV = A verdadeira vida das três irmãs.

CELINE BORGES = Norte-Sul.

DUQUESA GEORGETTE LOUISE DE DURAS = Oulrika.

EDGAR ALLAN CORTÁZAR = Orientação dos gatos pretos.

EDGAR ALLAN NABOKOV = Arthur Gordon Pnin.

EDGAR ALLAN TWAIN = As aventuras de Arthur Gordon Finn.

EDGAR POECO = O poço e o pêndulo de Foucault.

EÇA DE SCORZA = Os incas.

EÇA CALVINO = As serras invisíveis.

FIÓDOR KAFKA = O possesso.

FRANZ KAFESCO = Josefina, a careca.

FRANZ HITCHCOCK = A metapsicose.

FRIEDRICH DÜRENMANN = Os tísicos.

FRIEDRICH WOOLF = A  visita da velha senhora ao farol.

GABRIEL GARCIA DE CARVALHO = Ninguém escreve ao lobisomem.

GERTRUD STEINER = Antroposofia de todo mundo.

GIACOMO LAWRENCE = O  amante de lady Buterfly.

GOLIARDO MERIMÉE = Carmen Burana.

GRACILIANO LORCA = A casa de São Bernardo.

HANS CHRISTIAN IBSEN = O patinho selvagem.

HENRIK DOSTOIEVSKI = Recordações da casa de bonecas.

HONORÉ DE BALCKETT = O  pai Godot.

IGOR DE QUEIRÓS = A sagração do primo Basílio.

ISAAC GAUGUIN = A festa de Papeete.

ÍTALO PÍGLIA = As cidades ausentes.

JACQUES PAVLOVICH TATIKHOV = Meu tio Vânia.

JORGE LUIS BECKETT = Funes, o inominável.

JORGE LUIS DURAS = O outro amante.

JORGE LUIS PROUST = Em busca do tempo refutado.

LEÔNIDAS HAWTHORNE = A casa dos sete enforcados.

MARCEL BORGES = Em busca de Averróis.

MARCEL BUTOR = O  emprego do tempo perdido.

 

MARGUERITE AMADO = Os velhos marinheiros de Gibraltar.

MARGUERITE BORGES = O amante de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius.

MARGUERITE CALVINO = O vice-cônsul partido ao meio.

MARGUERITE DONADIEU = Barragem contra o Atlântico.

MARGUERITE NABOKOV = O deslumbramento de Lolita V. Stein.

MARGUERITE STEIN = O  deslumbramento de Gertrude.

MARGUERITE PESSOA = O marinheiro de Tarqüínia.

MÁXIMO STRINDBERG = A mãe e o pai.

MIGUEL DE BABENCO = Dom Pixote.

NOEL TENNESSEE = O desejo do motorneiro do bonde.

PIERRE MENARD = Héctor Borgenco, autor do Pixote.

ROBERTO NICOLAI ARLTOL = Diário dos sete loucos.

RUDYARD CONRAD = Lord Tim.

SAMUEL DE BALZAC = Esperando Goriot.

SAMUEL BORGES = Beckett e eu.

SAMUEL JOYCE = Molloy Bloom.

TENNESSEE ECO = O nome da rosa tatuada.

TIMOCHENCO DUMAS = A dama das camélias e o rei de Cuba.

UMBERTO STEIN = O nome da rosa, da rosa, da rosa, da rosa.

VLADIMIR CORTÁZAR = Todos os fogos pálidos.

WILDE GUEVARA = O  retrato de Che Ernesto.

WILLIAM STRINDBERG = Senhorita Julieta.

 

(continua)

 

A SEREIAZINHA: MEU CONTO DE FADAS PREDILETO – INTERPRETAÇÃO DE UM ADULTO – por zuleika dos reis / são paulo


 

Desde quando aos oito anos o li pela primeira vez, A SEREIAZINHA tornou-se meu conto de fadas predileto. Calou-me tão fundo e tão misterioso como o signo de um destino, hoje o sei: um dos signos simbólicos, precocemente dados, do meu próprio destino. Eis minha versão – lembrança deste conto magnífico.

A SEREIAZINHA, história “infantil”, já de início subverte a noção clássica das sereias como seres perigosos, aquelas que, com seu canto, levam os homens à perdição, à morte. A heroína de Hans Christian Andersen, não.

A pequena sereia vive no reino subaquático, com a avó, com as irmãs, com as demais companheiras de mesma dupla natureza. Sabe-se destinada a uma vida de trezentos anos, findos os quais seu corpo, como o de todas, se verá transformado em espuma do mar.

Sereiazinha não se conforma com tal destino: sonha com uma alma imortal, como a que possuem os humanos. A avó lhe diz que só há uma forma de obtê-la: conseguir o amor de um desses seres humanos. A fala da avó cria uma fusão, na jovem, do sonho da realização amorosa com o sonho de adquirir a alma imortal.

A princesinha do mar sobe, pela primeira vez, à superfície. As águas estão mansas; ao longe um navio. Aproxima-se e vê, no interior da embarcação, o rosto do mais belo dos príncipes humanos, rosto pelo qual se apaixona, instantaneamente. Queda-se a olhá-lo, as horas passam. Uma borrasca toma conta do céu e do mar, faz soçobrar o navio. Sereiazinha salva o príncipe, leva-o para a praia; ele abre os olhos, olha-a, novamente perde os sentidos. A jovem se oculta quando vê a comitiva real aproximar-se, tomar do príncipe, levá-lo para o palácio.

No reino subaquático, Sereiazinha almeja, fundidos, o sonho do amor humano e o sonho da alma humana. A feiticeira do reino lhe diz que só poderia conquistar o príncipe se tivesse duas pernas e lhe propõe metamorfosear-lhe a cauda, se lhe der em troca a sua voz maviosa, a voz mais maviosa do reino do fundo do mar, quiçá, de todos os reinos. A princesinha cede, torna-se muda e, junto com as perdas ganha, também, atroz sofrimento: ao andar é como se espadas a penetrassem desde a raiz dos pés.

Sereiazinha abandona o reino dos seus ancestrais. No reino dos humanos é admirada por sua beleza, pelo corpo perfeito, pelas pernas belíssimas que todos adivinham por baixo das castas vestes. Ninguém sabe de onde ela veio, não há como sabê-lo. Também o príncipe, por ela amado, queda-se seduzido.

O destino, caprichoso, trama destino diverso do que o deseja a leitora de oito anos (diverso também do que o viria a desejar a leitora adulta): o rei determina uma esposa para o príncipe; quando este conhece a escolhida por seu pai, julga reconhecê-la como aquela que o salvara do naufrágio.

Na festa de núpcias Sereiazinha dança, leve como uma fada. Dança… dança… dança… sufocando na garganta a terrível dor dos pés, sufocando no peito a dor da perda do amor e da perda da esperança por uma alma imortal. Como no início, as cenas finais se passam em um navio. A ex-princesinha do mar sabe que, ao amanhecer, deverá jogar-se ao mar, virar espuma, para todo o sempre. Olha pela janela do convés e vê suas irmãs se aproximarem, aflitas. Portam um punhal, entregam-no a ela, pedem-lhe que o enterrem no peito do príncipe: isto a salvará da morte tão precoce; isto a livrará do precoce destino de espuma.

Sereiazinha, com o punhal nas mãos, entra no quarto onde os noivos dormem, serenos; queda-se por longo tempo a olhá-los, chega mais perto, beija o príncipe amado na fronte.

O dia amanhece. A jovem sereia dirige-se à proa, lança o límpido e intacto punhal ao mar e, em seguida, joga-se também.  Sente-se dissolver; sabe-se, agora, espuma do mar. Em seguida, sente que se eleva e se percebe em presença de seres, estes sim alados, que lhe dizem: “Estavas entre dois caminhos, poderias ter escolhido o mais fácil: não o fizeste. Viemos para dizer-te que foi dado o passo inicial para a obtenção da alma imortal a que tanto aspiras. Teu amor pelo príncipe foi maior do que teu amor pela própria preservação. Tal renúncia suprema te confere o direito de ir em busca de tua alma, por mérito, por tuas ações. Já não dependes, como nós também não mais dependemos, dos seres do reino humano para nos tornarmos imortais.”

FOI NECESSÁRIO PARA QUE COUBESSE – de jorge lescano / são paulo


folga na repartição e O Poeta folhe

ava seu jornal cotidiano ligeiramen

te enfastiado, como era praxe entr

e os Poetas fin de siècle e de mille

naire, quando nada mais poderia a

contecer e no entanto os encargos soci

ais obrigavam as personalidad

es a. E naquele sofisticado estado

de espírito chegou ao Caderno de V

ariedades. Sentiu um soco no peit

o e o rosto afogueado e tremores n

as pernas e uma repentina dilataçã

o das pupilas e do espaço circunda

nte e que o chão fugia sob seus pé

s, expressões estas caras aO. Ali n

aquele momento prosaico, preto no

branco: seu nome literário, a capa d

o seu livro, o logotipo da editora e u

ma resenha. E no primeiro instante n

ao acertou a. O impacto foi mais con

tundente ao perceber que a assinatu

ra não era a do seu compadre jornali

sta, mas a de um crítico renomado, d

o qual todos queriam uma. E passad

a a surpresa, admitiu que aquilo era

O. E abandonou a mesa da cozinha e foi até a sala e se espalhou no sofá d

e três lugares. Apanhou o Cachimbo d

as Grandes   Cerimônias e o  encheu com seu melhor tabaco e de esguelha contemplava-se no espelho. Foi c

om voz grave que solicitou à esposa que lhe trouxesse os sapatos, pois o

s chinelos. A mulher disse que as sol as dos pés no cocuruto lembravam uma postura ioga, mas ela estava ca

n sada  de saber  que O  Poeta nu

nca. (Amava a Tradição, a Forma, a Pureza e a Higiene na Poesia, dir

ia seu epitáfio.) E disse que seu olhar expressava textualmente (sic) a vontade de ficar de pé sobre aqu

ele pedestal. A fratura o pescoço, co

m seqüelas anatômico-lingüísticas, teria sido a causa mortis, segundo d

eu a entender o. Foi necessário r

etalhá-lo para que coub

O ANJO VINGADOR DOS POETAS RECUSADOS (fragmentos) – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Sentidos pouco sentindo no
marasmo dos dias thorpes. Sentidos vãos quando tudo está certo equilibrado no
tempo do sem-tempo. Para um herói qualquer dia é dia e a vingança não pode
durar mais q. alguns segundos.

Os
mortos vivos vão saindo das tumbas e vindo pro lado do anjo vingador vindo
trançando figas e coroas de flores os mortos vivos alarmados com algo q. não os
deixa dormir em paz algo q. passa pelo vão das pedras e não é formiga algo como
posso dizer estranho por nascença energia branda q. atormenta até morto
redormido. As almas pusthulentas interagem com algo q. está no ar e vagam os
espaços noturnos: estradas, beira de matas, costeando rios e cercas, sob pontes
e viadutos. O anjo cansa de ver as presenças negras nos mapas q. transita e
chega cumprimentá-las nos encontros acidentais. Ver a morte sempre de perto a
morte transnascida naquelas almas noctívagas refresca o pensamento de quem está
vivo :vivo: vivíssimo cheio de energia boa pra queimar pensamento no pensamento
criação na criação poema no poema prosa na prosa melodia na melodia rosto na
argila Cego
um poeta conta estrelas cego um poeta se avizinha do precipício cego uma alma
geme transmundos na fala. Lingüista algum explica!

A
diferença hoje é escrever com signos bólidos tridimensionais no espaço e não
com frases sentenças empoladas onde os signos da composição ficam entremamente
dependentes uns dos outros. Os signos avançam em todas as direções como vespas
autônomas sem destinação e é só apreende-las no espaço e lhes impor contexto
ludoespacial. Poetas gostam de complicar o simples e simplificar o complexo.
Poetas sabem fazer sopa de signos só pra ver no q. vai dar. Poetas refazer o
benfeito desconstruir reprojetar o estabelecido no tempo como forma de animar a
vida e a arte. Poetas, adoram abrir caroços dos frutos pra ver o q. tem dentro.
Poetas, impor significados às coisas não nascidas. Poetas, criar problemas de
entendimento. Contradição na contradição: existe o mundo do incriado, onde as
coisas ainda não nominadas animam sem rigor ou finalidade a vida. Poetas
mergulham nesses pântanos pra pinçar o q. se pode aproveitar, nominar, e fazer
existir pra todos. Comigo é assim e com meus irmãos deve ser muito pior.

De
tanto andar corpo a corpo com o chão o ser impoverteu-se: melhor dizer q. virou
pó.

Subi
naquela velha caixa de maçãs (não sem antes cortar o pedaço duma pro meu
pássaro yogurt) e proferi palavras de baixo calão enquanto moças brancas de Curitiba papel de
celofane no olhar e sandálias plásticas sorriam sobranceiras minha patética
figura naquele estado digamos assim rifutembho de aprofundamento poético
ficto-ético-esthético-existencial. Sim pois pra dizer o q. diria não dava pra
pensar outra coisa um paraíso na terra com belas polakas e um inpherno no céu
com gente te mandando trabalhar te impondo salário subordinação horário pra
cumprir dependência até pra limpar o cu cheio de limalhas pratas com círculos
preciosos do torno mecânico q. as criou por acidente. Um acidente dos sentidos
mentir q. se é o maior de todos os heróis anti-heróis personas erigidas por mentes prodigiosas. Mentir q. se é o maior
pra si mesmo compor filmes apavorantes com muitos corpos destroçados nos campos
de batalha e beber um vinho tinto suave temperatura ambiente depois do almoço
sobremesa de pêssego com calda e creme de leite uma polaka nua no quarto do
andar de cima de cima da terceira nuvem do viajante cósmico (nua e lúbrica
raspando a língua no batom vermelho dos cantos da boca) o anjo vingador q.
chegou pra vingar as polakas recusadas e amar a todas todas todas mantendo um
polakário particular no sítio das estrelas onde se recolhe trezentos e sessenta
e três dias por ano claro q. pelo menos umas horas se deve descansar nesse
pérphido ofício e périplo desregrado inglório de anjo vingador dos poetas
recusados. Afinal de contas ninguém é de estanho e estranho q. as puthinhas da
quinze deram agora de grudar no celular suas orelhas calejadas de golpes de
pica. Não se fazem mais programas como antigamente trintão por pegada boquet’s
grátis e massagem de língua na glande inflada. Vá pra casa mano, cuidar o filho
teu com a empregada, antes q. descubram tudo. Não deixe o piá passar sede
fome… te vira malandro. O anjo vingador dos poetas recusados tem mais de mil
e quinhentos polakinhos por esse orbe infielíssimo e nunca tu ouvirá reclamação
de um dente por fazer nos pirralhos. O anjo toma conta de tudo, claro q. sob a
regência das centenas de polakas q. compõe seu sórdido (e convenhamos
maravilhoso!?) imaginário. É responsa mano. Responsa, sabe o q. é isso!? Sabe
porra nenhuma, nem lavou o cê-u hoje e tá cheirando a sulampra do mês passado.
Sulampra pra quem não sabe é aquela porrinha de mnerda q. fica grudada nos
pentelhos do cu fazendo o maior estrago sujando a cueca às vezes até a calça e
dando ao agente detonador da nathureza (o trouxão) aquele cheiro característico
de prustifructo singular. AH VÁ TE PHODER ESPECTRO REVERTIGO DE SUPREMA
CUTILEDÔNEA SPRIÊNCIA LÚBRICA NUS TREE LENÇÓIS! Vou dizer e digo blasfemo
ensandeço contra o infinito. É só me tirar uma polaka e veja como fico.

Muitas
almas me freqüentam esplendoríndeas muitas almas muitas vidas de contra-favor
onde estou não fico onde fico não estou transmudo-me entre as raízes retorcidas
da paisagem.

Escrever simples e
complexo escrever erudito e popular escrever pra professores e estudantes
escrever pra poetas e pintores escrever por escrever sem ter q. dizer porque
pra que e pra quem eis a vida do anjo no solitário ofício de lançar palavras ao
espaço seus  signos de artifício o anjo e
sua sanha de desvelar os mundos escondidos do saber as verdades q. estavam ali
na pedra sob as árvores e ninguém imaginava o anjo em prospecções inúteis procurando
dar significado e nominação às coisas não-nascidas q. faz nascer a força um
anjo investido de sóis estranhíssimos nessa terça-feira de tédio e tentações.
Os convites são mais q. sedutores: o diabinho da direita diz q. é pra nadar
desnudo no rio o da esquerda incita a mandar um poema pra gata de olhos
amendoados q. tá na garupa do grandão supertatuado da motocicleta. É sempre
assim correr os riscos das tentações a cada momento e nunca deixar a peteca
cair. Todas as vezes q. sentir prazer escondido renegue-o para o bem da vida.
Prazer tem q. sentir-se às claras de olhos bem abertos e com amor amor amor q.
é tudo q. mais interessa nessa porra de vida onde estamos condenados a sofrer e
ser enganados e nos roubarem a moto e nos despedirem do emprego e nos
atormentarem com propostas indecorosas e nos fazerem crer q. o paraíso é pra lá
do mundo dos vivos e nos torpediarem dia-a-dia com aquela história de camisinha
de evitar a aid’s de evitar as nocivas relações promíscuas. O agiota, fia da
putha, tá pouco interessado em algo fora dos juros sobre juros a receber dos
trouxas, o agiota bancado pela vida q. não quer trabalhar. Tudo q. não presta
no olhar do crúsphito encostado no muro do colégio vendendo drogas aos
pequeninos. Uma mnerda a vida em meio a essa corja sem escrúpulos. Pureza nas
relações pureza na vida longe dos pais difícil acreditar q. alguém entenda o
mundo dos q. estão por vir e já devem estar a caminho. Com teus pais uma vida
grampeada no amor amor sobre todas as coisas vivas e mortas desse mundo. Lá
fora, além do pátio só martírio sacrifício de mano só pra ver a vida gemer. Te
liga transfirmotente em meus delírios de vingador te liga q. uma nuvem de
signos obnubla o quarteirão e são de minha lavra os proliferados vociferinos
contra os pulhas a corja as eminências pardicenthas do mal q. não as vejo mas
sinto de próstata inchada e impotência irreversível sobre aquelas velhas
cadeiras de espaldar.

reflexos nos espelhos
espetacular jogo de luz espelhar na sobrevivência. Os mortos vivos impõem o
contraponto do viver na sua inútil condição de seres nacaráctios. Para um anjo
q. viaja todos os orbes nada surpreende. Fogos de artifício nathurais cobrem de
luz os espaços negros da criação. Entre os raios lanchispantes vivas-almas
conquistam espaços novos nas relações, campos onde progridem os pensamentos
bons. Se há campos de pensamentos bons, há também os dos ruins. E ali onde
maltratam poetas, um dia haverá um circo pra mostrar os pulhas ao público. Os
pulhas q. sempre ficam atrás das cortinas, nos gabinetes dos maus espírithos,
elocubrando perversas ações. Os pulhas e seus patrocinadores não menos pulhas,
sem mulheres e sem amor, sem poesia e sem emoção. Os pulhas, cus de peixes,
frios e resistentes, em suas campanhas de tudo aniquilar, quando se trata de
arte, cultura, criação, talento & ímpeto. A garotinha q. tá fazendo Letras,
não entende ou não quer entender minha sacrossanta indignação. Pobrezinha…
nas mãos de tolos acadêmicos, vai perder parte da visão, parte da vida, parte
do entendimento estético, parte da ideologia poética, parte de parte da parte
da partitura. Para um anjo menina de belas intenções uma ópera se compõe em
poucos dias uma ópera como apoteótica revelação da vida abaixo da razão a vida
do mnerda q. somos sobrevivendo como rato de bueiro barata de pia mosca de
potreiro sempre a entornar o podre o q. fede o q. esterquilina. Um gole de água
tônica q. tem quinino pra tirar esse gosto amargo de mágoa na boca esse gosto
de revolta contra o sistema e a vida dos pothenthori’s com suas mãos pegajosas
de betume derretido acrescido de ranhos sangue veneno de cobra cuspe de sapo e
fezes de lagarto.

Muitas
almas me freqüentam esplendoríndeas muitas almas muitas vidas de contra-favor
onde estou não fico onde fico não estou transmudo-me entre as raízes retorcidas
da paisagem.

Escrever simples e
complexo escrever erudito e popular escrever pra professores e estudantes
escrever pra poetas e pintores escrever por escrever sem ter q. dizer porque
pra que e pra quem eis a vida do anjo no solitário ofício de lançar palavras ao
espaço seus  signos de artifício o anjo e
sua sanha de desvelar os mundos escondidos do saber as verdades q. estavam ali
na pedra sob as árvores e ninguém imaginava o anjo em prospecções inúteis
procurando dar significado e nominação às coisas não-nascidas q. faz nascer a
força um anjo investido de sóis estranhíssimos nessa terça-feira de tédio e
tentações. Os convites são mais q. sedutores: o diabinho da direita diz q. é
pra nadar desnudo no rio o da esquerda incita a mandar um poema pra gata de
olhos amendoados q. tá na garupa do grandão supertatuado da motocicleta. É
sempre assim correr os riscos das tentações a cada momento e nunca deixar a
peteca cair. Todas as vezes q. sentir prazer escondido renegue-o para o bem da
vida. Prazer tem q. sentir-se às claras de olhos bem abertos e com amor amor
amor q. é tudo q. mais interessa nessa porra de vida onde estamos condenados a
sofrer e ser enganados e nos roubarem a moto e nos despedirem do emprego e nos
atormentarem com propostas indecorosas e nos fazerem crer q. o paraíso é pra lá
do mundo dos vivos e nos torpediarem dia-a-dia com aquela história de camisinha
de evitar a aid’s de evitar as nocivas relações promíscuas. O agiota, fia da
putha, tá pouco interessado em algo fora dos juros sobre juros a receber dos
trouxas, o agiota bancado pela vida q. não quer trabalhar. Tudo q. não presta
no olhar do crúsphito encostado no muro do colégio vendendo drogas aos
pequeninos. Uma mnerda a vida em meio a essa corja sem escrúpulos. Pureza nas
relações pureza na vida longe dos pais difícil acreditar q. alguém entenda o
mundo dos q. estão por vir e já devem estar a caminho. Com teus pais uma vida
grampeada no amor amor sobre todas as coisas vivas e mortas desse mundo. Lá
fora, além do pátio só martírio sacrifício de mano só pra ver a vida gemer. Te
liga transfirmotente em meus delírios de vingador te liga q. uma nuvem de
signos obnubla o quarteirão e são de minha lavra os proliferados vociferinos
contra os pulhas a corja as eminências pardicenthas do mal q. não as vejo mas
sinto de próstata inchada e impotência irreversível sobre aquelas velhas
cadeiras de espaldar.

não tem ninguém

nessas miragens

heras sobre as pedras

o sangue dos mártires secou

como secará o meu

em teu amanhã de mentiras

Um
anjo vingador vingar passado presente e futuro do q. ainda nem nasceu nascerá
como é de se nascer apto a consertos. Meu périplo de anjo salvador vingador dos
poetas recusados começa num dia de sol soliníssimo de segunda-feira e passa por
noites de pau d’arcos com Augusto dos Anjos Pedrinho da Mampusheira o rude
Orástino da Silva o lírico Meliandro do Ingá o neobarroco Neco Ripo o sexínio
Ertho Murthis o inventor de linguagens q. criou poemas cut-ups (cutapes em
tupiniquim celerado) transgressoras colagens alla literatura de William Burroughs
Carlo Ferri q. esculpe no gelo seco universos paralelos com imensas naves
torres e ovnis Artur Landis q. apavora na noite com seus poemas sinistros de
supra-realidades, sempre depois da meia-noite nos bares, estrepa-se na Ilha da
Magia daqueles tempos com Cruz e Souza transgride com os loucos letargidos, os
pictóricos desassistidos e atola seu cavalo monet na mnerda da mediocridade. Um
quê de anjo todo mundo tem vingador se revelar consertador das coisas
incompreendidas dos atos pensamentos retornados sem sentido da vida q. alumbrou
ser estenuou no não-viver. Em muitos campos desolados brandi minhas espadas de
lata. Aquela vez q. invadi o Projac da Rede Globo Televisions transvi
tressaltos de desencantos. Minha fúria hostil não encontrou escora no entre
câmeras. Madames atrizes diretores bichas produtores pan-livrertinos &
marqueteiros vendedores de mães evoluíram seus desajustes. Siga bem condoreiro
anjo vingador dos poetas recusados. Sigo tresando nos meus dias negros. Esphias
nas esphias séphias, um galo há de brigar sempre pela mesma franga. Falar nisso
mano, manja a farsa dos dias enuviados com absinto falsificado!? Não erijo
transmundos por brincadeira nomino coisas só pro gasto e tudo tem seu ofício de
permanecer em mim. Te
transfiro um pouco de minha ira santa. Desbancar os bancados q. nos oprimem.
Teu bus de papelão vaga essa cidade neferthímora. Quantas vidas entornadas no
lixo!? Minha poesia nossa vossa adentra as searas sujas da periferia. O anjo
vingador está aqui. Me anuncio implume pássaro no carnaval polako. Já deves
estar putho com essa história forjada de um anjo vingador q. vem da linguagem
para a vida do nojo do signo transfimortente para a morte. Vá te cagar pentelho
espectral de aziagas noites. Nada te devo de meus arroubos operísticos. Um
doido convicto inventar conflitos só por prazer confluir as forças anímicas pra
tomar uma gelada no Bife Sujo. Da última vez o cézinha me trocou um cheque
voador de duzentas pratas q. atravessou três vezes a nado o Iguaçu. Vate
transfivatente dou gorjetas aos meus garçons preferidos. Nas vinhas do amor a
polaka espessa de sexo beija minha boca suja. Beija, suga, embaba de língua,
enosa chiclet’s e drops de hortelã untados de saliva energética. Signos
espérios meu garoto lambem o dizer criptofilho do chão.

A
coisa vinha vindo trinha sido tranha signos símbolos na minha língua grossa de
veios thérvios. A cornucópia do poeta é cheia do líquido precioso dê sua língua
à minha língua seu verbo thurvo a minha thurva esphia. Jesus nega os insensatos
e com toda razão des-razão apruma my verbo novo. A nathura q. louca amamos não
é por acaso também insensata em seus cataústricos!? Um poeta esmerilar os
signos nas amplas pedras do deserto. Como uma bala de fuzil cada nominata
dirigida a um inimigo. Nomeio coisas troisas pfscoisais loisas froixsas nos
meus desígnios. Um doido tirando formigas do formigueiro abandonado o anjo
vingador espalhador de ditos tranfusiados nichos de só-pensar. Elos nos elos
desengonçados. Perdida a febre terçã inicial da palavra e dos atos. Não é assim
q. se fazem heróis. Não é assim q. se fazem anjos vingadores. Um anjo vingador
dos poetas e artistas recusados se faz com ação conflito e solução do enguiço.
Este q. te fala é charlatão malquisto não age nada resolve não interage com o povo
e molesta polakinhas desprevenidas. Me entrelaço nas clareaduras de tua fala e
masco ervas amargas pra dizer-se só excluído recusado pelos editores atropelado
pelos mercadores marcado na volta da paleta pelos trívios políticos. Sou-me
risolentho esthertorante reflexímoro no mar do sonhar o ser sonhado e não deixo
visgo no meu rastro imundo. Tortilhas sonethárias nos jantares sob as
santas-bárbaras do norte do Paraná. Desci dali dos cafezais abandonados rio
Tibagi até o Piquiri e depois angulei ao Iguaçu o rio meu por excelência
agrilhoado em usinas.
Teus grilhões meu rio o anjo vingador romperá com dentes de
aço da terceira dentadura q. lhe deram em vida. Thorpes, essas
ogivas nas balas de hortelã não acalmam ninguém. Meu empresário vendeu um poema
por um prato feito em frente ao Passeio Público poema com gosto de carpa
húngara cravejada de poucas escamas douradas q. me roubou no acerto de contas.
Já viram o anjo vingador acertar suas contas com o empresário de sua poesia
recusada!? Só por deus ainda se fazem homens desse naipe enlevados no ofício de
sobreviver. Tangiro vencer o desvencido. Intenciono renovar o embolorado.
Minhas catanas descida dos triminhões das canas. Minhas armas de verdes hastes
embebidas no líquido espesso da cornucópia do poeta. Bom pra ti meu caro, esse
passeio pela língua do poeta o anjo vingador q. mata o passarinho de seu ofício
pra achar a pedra na vesícula.

Uma cobra escorregar pelo
barranco esgueirar pelos porões dos signos como uma língua extensa transverbal
uma língua eu-lúrica & magistral.

Um
pássaro é um pássaro uma formiga uma formiga um phósphoro um phósphoro uma
chave uma chave uma pedra uma pedra um caminho um des-caminho.

Um
anjo, manja de tudo um pouco e quando nada manja, arrisca. Se é pra vingar o q.
há de ser vingado, todas as armas são válidas, inclusive as do pensamento
enlevado. Poeta não pode ser o mnerda alienadão, q. pega uma receita de bolo e
fica naquela. Poeta q. é poeta arrisca tudo no conhecer em sendo, a fim de
trazer do nada o tudo q. ilumina a vida do poema.

Noutra
vez traveis desveis desci as escadarias da ampla Biblioteca de Alexandria e
naquela época pequenas moedas de lata tinham muito valor. Lascas de minha
espada como dinheiro naquelas soledades do deserto, trocadas por especiarias,
tapetes persas, sândalo, damasco, etc e tal. Com meu cavalo e uma criança li
livros herméticos naqueles templos. Livros costurados à mão. Livros dos
impérios do poder e da emoção. Sabe como se lê um libro hermético mi cidadon?
Cheirando-o. Os signos tem cheiro sim. Aprendi isso com as abelhas em colméias
abandonadas. Meu pai sempre fazia isso também cheirar os livros. Um anjo
vingador tem pai meu amigo pai como cada um de vós tranceiros duma figa. Um pai
progride com seu filho em suas loucuras de criação. Quantas vezes meu pai
imaginou seu louquinho-bom ganhando o mundo fudendo-se como espectro ambulante
alla 4Claudinei Ramos no seu périplo de três dias. Dá nojo enganar
polakinhas a troco de sexo, quando se é gerente de loja de eletrodomésticos em plena Marechal Deodoro,
próximo aos Correios. Um pai um sogro tios tias primos primas e amigos q.
desconsolo nos conhecerem em nossos repentes de imaginação. Um louco-bom
repercute em Santa
Felicidade a noergologia: 5Jacob Bettoni. O anjo
vingador dos poetas recusados o encontra escovando a bela égua alazã quarto de
milha. Ele vem noeticamente e enuncia conceitos revolucionários no paradigma
novo da psicologia. Um louco-bom como um arauto dos novos tempos, peripatético
sempre revoluteando as coisas. Jacob Bettoni me acena com a possibilidade da
protonathural philosophia estética e a noergologia comporem um único bloco
monolítico sapienthi’s pra enfeitiçar almas letargidas nas manhãs de
segundas-feiras ante as chaminés do pólo petroquímico. Um louco-bom sou eu
também poeta coça-saco de a pé e a cavalo, como diz o ditado-deitado paradão
cheio de chatos no acrílico onde o bus sosfrega e não vem. Um anjo vingador não
conhecer limites em sua luta de tudo levantar expandir como ofício de viver e
ser vivido amar e ser amado matar e ser matado. Nas barrancas daquele rio (o
Iguaçu) erigi transmundos só pra ver no que ia dar e deu: uma nau de carbono
luminosa crispou de lux trilux overlux o denso da floresta naquela noite. Tenho
certeza q. tinha gente dentro do tribuliço. Gente com olhos grandes e braços
abertos. Focos concêntricos para um mesmo (alvo) ideal, invisível. Um sinal,
era o sinal. E, o sinal era de signo ingos nigos sonigs perdido no
signário-vida e tive q. sair dali conquistar outros espaços com minha arte
singular de tudo transverter. Vem de príscas eras essa ânsia de inventar o
desinventado e interferir nos espaços sagrados da criação como um mephisto
invasor o anjo autoproclamado de salvador dos artistas recusados. Minha ira
santa enlevar o raso o letargido o transvencido como forma de animar a vida.
Meu castigo a incompreensão dos árvios iletrados dos púrcios néscios soberbos
em seus atóis. Para uma polaka de meu amor consagro essa verve: de primeira
insensata de segunda interferente de terceira auto-flagelada. Não se fazem mais
Cândidos ou o optimismo como antigamente, Dom quixotes, Macunaímas, heróis e
anti-heróis integrais em seus ofícios. Rapsódia nóia. Rapsódia nóia, ver,
sentir… tudo com o espíritho da vingança. A farinha q. o anjo vingador come é
q. traz os espectros sígnicos de sua verve alucinada e o pão q. a mesma amassa
é o pão de sua verdade representação esplendorosa do seu ser escroncho.
Inverossímil a linha de uma vida assim como a vertida agora. Nem um anjo
vingador satisfaz público empresário mecenas mídia loquaz pelo contrário um
louco deambulante pelos signos criar problemas de entendimento perverter as
mentes juvenis alardear significação como farsa às coisas não-nascidas.
Nascimento vida morte de um herói super-convicto q. acredita em correção do tempo
dos atos enfins dos homens para com os homens na história. O SOL eleva-se sobre
todos e distribui na mesma proporção quântica seus favores. O anjo vingador
também delibera e vence contra todos os inimigos comuns. Com esse ofício de
fazer poemas muitas almas penaram nos céus inphernos e purgatórios do Sr.
Dante. Selva selvagem selvagínia não há ninguém a minha espera ninguém nem um
sol de contra-favor a enovelar meu grito. Meu cavalo monet galopa por uma
estrada branca como uma polaka estirada em lençóis verdes uma estrada uma
polaka um oásis de prazer muito prazer na pororoquinha da marthininha muito
prazer lubricidade comesura de olhar uma polaka como uma flor sensual em seus
ofícios de amar amar sobre todas as coisas frias dessa cidade esses pontos de bus
cercados de cadeados invisíveis onde as almas esperam esperam o caixote de
papelão chegar combinado com outros caixotes e a vida repetindo-se sempre no
mesmo ritmo. Ritmo de lesa-vida meu irmão, sentido de pouco sentido, persigos
sobre persigos. Meu cavalo uma cancha reta como um louco evadindo-se do
inpherno de Dante. Atrás de nós as silhuetas dos trúmphicos imperiais do baixo
império/espíritho, almas trivilinas, soltando fogos pelas bocas. Siga comigo
seu verme strúnhio nesse domingo aziago. Vamos ver a fonte de onde vertem as
profícuas almas lângues. O que é uma alma lângue? Não tá viva, não tá morta, é
cruiféiz estaca no descampado da vida. Acabas por saber q. é uma expressão de
linguagem recém-criada como posso te dizer nefhertímora (nojenta, escabrosa,
escorchante). Não sabes com quem falas, pobre parvo espiroguentho. Comigo
aprenderás da vida seus melhores momentos. Q. bela polaka estirada no hall daquele hotel de terceira!? Q.
belas ancas no desperdício dos dias!? Já sei, não me venha com esse blá-blá-blá
de q. futebol é o q. interessa. Futebol antes de tudo e depois. Tá por fora
pica de trapo. Olor de creolina exposta ao sereno. O carinha do tênis, nos
iludindo com sua polpuda conta-bancária, bancado pelos nikteiros. Ora vejamos
pronóbis saturno nublinheski monte nardines pega o curtis o cavalo outro cavalo
como reforço providencial ao meu monet o meu crunspício (aquele q. sofre junto)
e vamos enveredar pro Sul. Farroupilhas hastes naquelas clareaduras de campos,
coxilhas, sangas e restingas. Digo q. mato e limpo o jaracatiá borbhota
sorthinífero no topo da canjarana e limpo com farpa de angico. Rude minha lide
nesses vergéis antigos. Na linha desse dizer muitas palavras se perderam nos
cimos das árvores muitos cascos gastos em cavalgadas inúteis. Esse dizer q.
atravessa eras e repousa no ombro esquerdo do anjo vingador dos poetas
recusados, como uma coruja, pássaro de bom ou mau agouro. Não esqueço nunca
daquela dos trezentos viúvos de polakas, lembra? Ou trezentas polakas viúvas de
defuntos vivos até o embate. A procissão dos mortos vivos reage em meus sonhos
quando estou fraco e cansado. A cabeça em recosto nas barbas de pau sob aquelas
árvores. Fraco e cansado, isso pouco acontece, mas enfrento meio-dormindo a
reação escrota dos mortos-vivos. Comigo é assim e com meu irmão o Birão é muito
pior. No asteróide ASPHIZ 8800 só de passagem quando me viram muitos
esconderam-se nos escombros da velha nave muitos morreram de medo do anjo
vingador q. mata e seca só de olhar. Uma vez uma tribo de Panfluetha’s mistura
de panviados com punhethas adentrou um trigal imenso e com minhas espadas
revistentes desnudei-os de um por um. Nada contra e nada a favor o milho cresce
nos amplos espaços do verso livre. Viu como se sai pela tangente!? O anjo
vingador do futuro guturaaaaaa… seu
grito de guerra com papel celofane na boca e um pente carioca pra
convocar legionários ao bom combate. No bom combate há o imperativo odiar
reconhecer o tranho e o perigo não se pode simplesmente atacar o q. sequer se
conhece ofereça perigo e tal e tal isso da guerra da luta fratricida coisas de
peleja tudo mundo deve saber de cor e salteado. A mesa dos Deonísios e
Philosísifos sentam-se os mnerdas das construções sígnicas. Os mnerdas e seus
afiliados sempre pardos eminentes nos gabinetes dos maus espírithos tramando
despautérios sacrifícios. Flagelos de vozes no degelo. Nada se cria e tudo se
copia na mesmasséia dos profedídithes. Massa mano, essas hastes de boas-falas
q. reverbero no espaço como biscoito protonathural. Não tem meu Sr. não pode
não haverá nunca de acontecer um anjo vingador vingar o já vingado amar o já
amado matar o já matado.

Uma
língua aderida de ciscos signos símbolos sinais pós asteriscos uma língua como
uma esteira luminosa na noite grande uma língua antropomística &
polissimbela.

Anjo
vingador dos poetas recusados venho quente na haste núbila abrir clareiras na
floresta escura para um colóquio estranho. Nem só de colóquios vive o homem e
tranço termos de ficar em tua vida pro que der e vier. Nos amplos horizontes a
escatológica vertigem todos mortos: o padeiro, o açougueiro (q. não perturbará
a mulher de mais ninguém), o vidraceiro, a prostituta, o padre, o militar, o
professor, o dentista (q. virou gangster), a enfermeira, a psicóloga (confusa),
o camelô, o advogado, o servidor público municipal, o político… todos mortos
sobre as folhas da relva ainda úmida do sangue dos poetas recusados todos
mortos e a cornucópia do poeta passando de mão em mão com seu líquido espesso
q. não é sangue e não é mel e não é vinho e não é leite e não é refrigerante e
não é cerveja e não se sabe e nunca se saberá ao certo o q. é q. é. Morta a
vida q. nunca nasceu cresceu expandiu como espera o anjo vingador em
conhecimento artístico reconhecimento do artífice q. faz e projeta e delibera e
inventa reinventa a vida como pode e deve. A cornucópia do poeta é invisível e
vc aí esperando o busão já bebeu desse líquido precioso-néctar meu Sr. meu Sr.
de muitas fábulas invertidas, sem moral e sem história. Vais contar tudo amanhã
ou depois, q. ninguém em sã consistência de gente ficará sem verve pra dizer e
oportunizar a todos sua experiência. No líquido espesso derramado em tua língua
a vida a vida de força de investimento nos atos fatos pensamentos te revelará
meu Sr., a glória de dizer o indizível de vencer o invencível tomará conta de
tua anímica força. Somos mais q. muitos imaginam. Mais q. tantos sonharam,
sonhamos. Muitos anjos vingadores nascidos da cornucópia do poeta do beber o
seu líquido espesso e agir e sonhar e deliberar e construir e reconstruir sobre
o lux owerlux trilux da vida e as trevas da morte. Um pai não procura defeitos
nos seus filhos. Um pai toca com as mãos os seus pupilos rumo ao futuro. Eu o
anjo vingador dos poetas recusados, unjo-te menino de boas falas um caminho muitas
sendas desígnios profícuos em tua vida. Naquele bar de beira de estrada parei
com meu cavalo monet. A moça loira (polaka) como era de ser me enovelou em suas
histórias de ficar. Fiquei. Meu cavalo estercou nas pedras da estalagem antiga.
O curió curioso deu uma cagadinha no ombro da bela e ensaiou três coices pra
cada lado, depois em sanha de urutago urucubou as coisas pro meu lado.
Sacatrapo du carilho pequetito estribilho de grilo, te mato fia da putha com
palito de dente afiado! Pra Curitiba hei de ir, pensei, sonhei, despensei,
ergui acampamento e com polaka e tudo parti. Entre um beijo e outro, costuras
de olhar, pegação, zanzeira com barrotranquira e cipó nas coxas grossas e pólem
viajante nos olhos amendoados. Pinecpecki no profhuri. Vindecthine soporhu
ghudam.

um superpesadelo negro nesta noite fria

como um flagelo demoníaco

suspendi a lança & cortei em cruz

três vezes os strúnhios inimigos

os inimigos não se afastaram

(demônios superconvictos)

mas saí pra fora do lúgubre transe

Devaneios de Luz – de wagner de oliveira melo / curitiba

.

Ainda era cedo e, preguiçosa, Luz estendia por mais alguns minutos sua permanência na cama. Os primeiros raios de sol invadiam o quarto através de um pequeno espaço entre as cortinas, onde todas as noites ela costuma observar furtivamente as pessoas lá embaixo, imaginando vidas e destinos, enquanto toma sua caneca de chá verde; anúncio de que logo vai pra cama.
Intrigada pelos solitários raios de sol que transpunham entrecortados pela fumaça do cigarro seu observatório secreto, ela se levanta e vai até a janela – está nua – com a mão direita afasta um pouco a cortina e com a esquerda fuma. Lá fora a aurora anuncia a cidade em frenesi: Pessoas chegando e partindo transbordam de ônibus abarrotados. Apressadas, se esbarram nas calçadas e nas ruas onde os carros atropelam-se, disputando seus poucos metros quadrados num buzinar, acelerar e frear caóticos. No entanto a janela está fechada. Ela está fechada, como se o silêncio da casa, seu silêncio e a distância dela para com seu próprio corpo, fosse pouco a pouco inundando as ruas as pessoas e as coisas. De repente, como num passe de mágica tudo ficou em câmera lenta, e dentre tantas coisas, entre os invisíveis e anônimos, ela viu o olhar cuidadoso do velhinho de chapéu antes de atravessar a rua. Um grupo de pombos alçando vôo a fugir de um cachorro que os persegue, alegremente latindo para seus amigos alados e uma folha frágil e amarelada se desprender do seu galho e partir, suavemente flutuando ao sabor da brisa, para pousar com toda a delicadeza e carinho que a natureza lhe emprestou, num pequeno espelho d’água que ainda vão construir na Praça Osório. Então, ela acordou. Era segunda-feira e faltavam alguns minutos para o despertador tocar.

 

 

Slow Food ? Slow Life ? – por omar de la roca / são paulo

In every colour there’s the light.

In every stone sleeps a crystal.

Remember the Shaman, when he used to say:

“Man is the dream of the dolphin” .

Existe luz em cada cor.

Em cada pedra existe um cristal adormecido.

Lembrem-se das palavras do Shaman que dizia :

“ O homem é o sonho do golfinho” .

Li a poesia acima ontem em um CD. Só a poesia já valeu. E ai pensei, pobre golfinho, só nos conhece de passagem ao brincar conosco nas praias distantes. Se pudesse nos conhecer melhor,certamente mudaria de idéia. Hoje em dia estamos tão acostumados com as facilidades, que passaram a fazer parte de nosso corpo . Alguém ainda se lembra de nossa vida sem o celular ? Tudo bem. É uma invenção recente. E do telefone fixo. Alguém ainda se dá conta da importância que foi o seu surgimento nos idos de … , bom deixa pra lá. Acho que estamos nos esquecendo de valorizar as pequenas coisas do dia a dia. Hoje é tudo cada vez mais rápido . São os Blue Rays,Androids, Facebooks, I-Pads e Pods , Terabites e Gingabites ( como diz a mãe de uma amiga). Nada contra tudo isso.É o caminho da evolução mesmo.Mas não podemos nos esquecer do básico. Hoje em dia cometemos gentilezas. Isso mesmo, num movimento reverso de valores distorcidos as gentilezas são cometidas. Não queria falar de novo sobre o metro de SP,mas lá vai. Já reparou que as pessoas que estão atrás da outras,querem sair ( ou entrar )no vagão antes de quem esta na frente? Cada um só quer saber de si. Poucos cedem o lugar.E alguns só porque viram a briga na televisão. É um tal de pisar nos pés, empurrar, passar a perna e por ai vai. Li que há ordem no caos. Então não podemos chamar isto que acontece de caos. Hoje vim me preparando no ônibus. Coloquei o Canon e vim, com o sol nos olhos, relaxando. Mas por mais preparados que estejamos, relaxados, as situações quase sempre nos tiram do sério.Nos fazem balançar e nos juntar a turba ( que palavrão! ).  Acabamos por ceder e entrar no remoinho. Fazendo o que todo o mundo faz.Mas tudo bem.É o caminho da evolução.Recebi um e mail sobre Slow Food.Acho que ainda não é para nós.O que queremos é a ultramegahiperblastersupersonicspeed food. And life too( e vida também ).Trabalho ao lado do “ponto” dos médicos sem fronteiras. E todos os dias me abordam,Tem um minuto ? E acabo parando e explicando que trabalho no edifício ao lado e que já ouvi a proposta deles semanas atrás  ( mentira,nunca parei). Ontem, após remar por entre eles, vi um rapaz que vinha com uma câmera fotográfica na mão.Uma Canon de 14 Megapixels. Num relance, ao chegar mais perto, apontou-a para mim, que ensaiei uma sida pela lateral esquerda, e só vi o flash me cegando. Olhei para ele sem entender, e ele já apontava de novo .O flash era de mão e demorou para carregar.Consegui passar sem que um segundo projétil de luz me atingisse.E só ouvi os comentário atrás de mim : O que é isso ? Alguém pensando que eu era uma celebridade.Tudo bem que eu parecia mais um mafioso italiano, com um terno azul noite, uma camisa listrada azul noite escura sem estrelas e uma gravata também listrada de azul meia luz.  ( Desculpe me Yeats mas não resisti a colocar aqui idéias de sua poesia  He wished for the cloths of heavens – algo como – Ele deseja os tecidos  dos céus  que incluo abaixo,com perdão pela tradução,que foge um pouco a idéia original ). Lembrei me do rapaz atingido pela lâmpada fluorescente,bem perto daqui.Deve ter sentido alguma coisa parecida.Segui até o metro sem olhar para trás. Não ia parar e discutir com ele e exigir que deletasse a foto. Agarrá-lo pelo colarinho ( perdão ele estava de camiseta ) e perguntar o por que ? Nem pensar. Dar maior atenção a ele ? Mais do que ele merece? Lembrei me do golfinho saltando .Não seria da natureza e ingenuidade dele  agradar aos homens ? E se chegar bem próximo,para que o acariciemos ? Quem ganha mais com aquele contato,nós ou eles? Só podemos mesmo ser  o sonho deles. O mais certo seria dizer, o pesadelo deles. Alguém que se aproxima querendo brincar, mas que com a outra mão é capaz de agredir, esfolar, matar. Apenas para servir ao seu propósito. Seja ele qual for. Acho que preciso fazer mais dias de abraço grátis aqui no escritório.Quem sabe a idéia de propaga e valorizemos mais o contato humano como forma de prazer não obrigatóriamente orgástico. Mas sim ainda bastante satisfatório nos breves segundos que dura.

He wishes for the cloths of heavens

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Ele deseja os tecidos dos céus

Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus,
Entremeados com luz dourada e  prateada,
O azul dos tecidos suaves e escuros
Da noite, e da luz e da meia-luz,
Eu espalharia os tecidos aos teus pés:
Mas eu, sendo pobre, tenho somente os meus sonhos;
E espalhei os meus sonhos aos teus pés;
Pisa com cuidado,pois pisas em meus sonhos.

Mais Que Coisa !!! – autor desconhecido


                           O substantivo “coisa” assumiu tantos valores que cabe em quase todas as situações cotidianas.

A palavra “coisa” é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia. Coisas do português.

A natureza das coisas: gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: “Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?”.

Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as “coisas” nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. “E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios” (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, “coisa” também é cigarro de maconha. Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: “Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já.” E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.

Na literatura, a “coisa” é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.

Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de “a coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!”.

Devido lugar

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (…)”. A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. “Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca.” Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas. Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta “Alguma coisa acontece no meu coração”, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim! Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem “Coisinha de Jesus”.

Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira “coisíssima”. Mas a “coisa” tem história na MPB.

No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré (“Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar”), e A Banda, de Chico Buarque (“Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor”), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “Coisa linda / Coisa que eu adoro”.

Cheio das coisas

As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o “rei” das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas. Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, “são tantas coisinhas miúdas”). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade (“ô coisinha tão bonitinha do pai”). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. “Esse papo já tá qualquer coisa… Já qualquer coisa doida dentro mexe.” Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: “Alguma coisa está fora da ordem.”

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: “Agora a coisa vai.” Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Coisa à toa

Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: “Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.” E, no verso do poeta, “coisa” vira “cousa”.

Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.

Mas, “deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida”, cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: “amarás a Deus sobre todas as coisas”.   Entendeu o espírito da coisa?

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enviado por JUCA (José Zokner)

PÁSCOA – por emanuel medeiros vieira / salvador

Em memória dos meus pais.

Como observou Mauro Santayana, o Cristianismo é uma ideia que sai dos limites dos dogmas estabelecidos e ultrapassa o limite das igrejas que o adotam.

Ele está enraizado no coração dos homens.

Um dia, um repórter falou ao cineasta Federico Fellini (1920-1993), sobre o seu filme “Satiricon”:

“Sua obra é pré-cristã, pagã, mas nela percebe-se a presença do Cristianismo.”

E ele respondeu de bate-pronto:   “Tenho dois mil  anos  de Cristianismo.”

Quando digo que ele está “enraizado” no coração humano, não estou afirmando que todos os seres nele acreditam em suas crenças, mas que ele permanece no nosso inconsciente e no nosso imaginário, além de nossas convicções.

A Encarnação em Cristo, para muitos pensadores, é a assunção da grandeza do homem enquanto homem.

Ele sobrevive, porque é o sumo da consciência humana, o compromisso da vida consigo mesma.

O jovem Cristo, na interpretação de muitos humanistas, foi um dos muitos judeus daquele tempo que,  inquietos com a situação política de seu povo, procuraram uma saída para a liberdade.

A Palestina estava sob o domínio do Império Romano e era tempo de Tibério, representado ali por Pilatos.

Os homens têm necessidade de transcendência – somos pós e voltaremos ao pó –, e necessitam  de algo que ultrapasse as misérias do cotidiano.

Alienação? Não creio. Mas sim, a busca de inserção numa vida mais plena, generosa, menos individualista, que respeite o próximo, e que tenha sede de Justiça.

A Ele se atribui origem divina.

“Era necessária a reafirmação da antiga aliança, com a Encarnação, a renovação da promessa mediante um homem de carne e osso, enviado do Absoluto para pregar o amor – ou seja, a solidariedade essencial entre os homens como pressuposto de sua salvação.”

Cristo era um homem, como lembra Santayana, capaz de amar, de se irritar, como no episódio dos mercadores do templo.

Segundo o articulista, muitas igrejas tentam reduzir a condição humana de Cristo, ao exaltar a ideia de que Ele é o Unigênito de Deus.

Mas, na visão de alguns teólogos, Ele é tão maior e mais necessário quando se reconhece a sua condição humana.

Não, não se está reduzindo a sua condição de Absoluto, mas buscando que se aproxime ainda mais do coração humano.

Como alguém salientou, Ele é tanto mais o filho de Deus quanto é irmão e amigo de todos os homens.

“O irmão e amigo a que recorremos nos rincões de nossa alma, onde se recolhe o sofrimento,  porque n’Ele – que é parte de nós mesmos – podemos confessar as humilhações  sofridas, o nosso desespero, nossa desesperança do futuro, e contar com o seu consolo e perdão.”

Sim: consolo e perdão.

E em quantas situações da vida, não precisamos de consolo?

E em quantas, não pedimos para ser perdoados?

“Aquele que não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não vos dará também com Ele todas as coisas?” (Rm, 8/32).

Sim, a Igreja cometeu erros desde Constantino.

Mas, hoje, quando celebramos a Páscoa (Ressurreição), não preciso falar sobre isso.

E como salientou o jornalista citado, neste momento também não quero lembrar que dirigentes de outras confissões religiosas que se dizem  cristãs explorem impiedosamente a credulidade pública, arrecadando bilhões  e construindo vastos impérios econômicos.

É Páscoa.

Repito: é Páscoa.

Que o sentimento de Ressurreição permanecesse em nossos corações: era a minha aspiração que eu desejava.

(Um anseio que vai do menino ao homem sessentão. E que seguirá comigo.)

Não tenho ilusões: os tempos são ásperos, de exploração, de matança, do império do tráfico,  um mundo no qual o homem vale pelo número do seu cartão de crédito.

Quer dizer: vale pelo que tem e não pelo que é.

Tempo de desagregação de um valor maior (a família).

Mas poderemos ser maiores que isso.

Nós podemos contar com Cristo em qualquer capelinha de estrada, em todos os corações que sofrem.

(Dedico este texto – além de Alfredo e Nenê, meus pais – a todos os amigos, ex-amigos, aos que padecem de enfermidades físicas e mentais, aos que aqui permanecem e àqueles que já partiram: não estão mais onde estamos, mas estarão sempre onde estivermos).

(Salvador, Semana da Páscoa – abril de 2011)

DOIDAS E SANTAS – por martha medeiros / porto alegre

Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem o amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar “the big one”, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá pra ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir, às vezes, que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar uma cafetina, sei lá, diga ai uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.

Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e diga se ela não tem ao menos três destas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascinante. Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota.

Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira pra ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca de pedra.

 

UMA CARTA – por Z / são paulo


Zuleika dos Reis (na carteira de identidade, no título de eleitor (?) na carteirinha da UBE… em outros “documentos” que tais.)

 

Ah, eu te entendo, como te entendo! Queria entender menos. Eu, no entanto, tento, desesperadamente, o mínimo do movimento inverso: ao invés de me dispersar totalmente em outro(s), como tu, tento ainda uma Z. mínima, um centro mínimo a partir do qual a(s) outra(s) saiam pelo mundo.

Tenho um amigo pessoal que todos os dias manda-me e-mails, com dois pseudônimos que se revezam. Hoje, eu lhe pedi que me escreva com seu próprio nome, S., para que eu possa, em algum lugar da vida, me sentir real, um pouco que seja.

Ele respondeu: “Mas, nós somos tantos! Como vai ser?” Eu retorqui: Apesar disso, de sermos tantos, escreva-me com o seu nome, que eu respondo como Z.,a Z. mínima que me for possível.

Isto escrevemos hoje, meu amigo e eu, esses dois cheios de labirintos, esses nós, que pertencemos, efetivamente, à estirpe dos labirínticos.

Se eu pudesse, me seria cigana, assim como tu gostarias de ser o palhaço de um desses circos de periferia; como não o posso, preciso me vestir o possível de uma Z. qualquer, que não pode, esta Z., pretender a ajuda de uma fé específica ( embora reconheça o poder de todas), nem de psicanalistas, não que os menospreze, longe disso, e ainda menos de livros ou de palavras de auto ajuda ???  (também nada tenho contra elas, fique claro).

Cigana, não das que leem mãos e adivinham futuros, mas porque as ciganas perambulam pelas ruas, o que deve ser mais suave do que se poder perambular apenas por dentro de si mesmo.

Por isso tudo te entendo, ah, como te entendo! Quisera entender menos. Só devo te dizer que desses, como nós, há uma legião, todos espalhados pelo mundo, num país chamado APÁTRIA, título de  conto que escrevi há muitos, muitos anos.

Abraço fraterno de

Z. uma desconhecida.

 

Nada há além da Arte e do belo – por tonicato miranda / curitiba


 

Chega um momento na vida que nada mais importa. Não faz mais sentido conquistar o amor das pessoas. Muito menos conquistar territórios que jamais nos pertencerão mesmo, a Terra no tempo será dos vulcões e do Sol. Nada faz sentido além da Arte durante nossa permanência planetária. Mas alguns perguntariam, o que vem a ser exatamente Arte? Onde ela se apresenta em sua plenitude? Qual Arte importa construir ou buscar ao nos dedicarmos a alguma forma de representação da estética? Não tenho, tu não terás, ele ou ela não terá, nem todos os plurais terão respostas para tal indagação. Mas é certo de que cada um buscará alcançar alguma forma de Arte, mesmo sendo no empréstimo do olhar, na palavra pronunciada, ou no torcer de narizes.

A Política o que é se não a forma como os homens tentam impor seus conceitos próprios e suas formulações sobre a maneira como deva se dar a organização social dos povos, dos agrupamentos humanos, do gentio. Nos tempos atuais, em especial em países onde as classes populares e médias ainda não atingiram grau cultural medianamente aceitável, o povo ainda elege para se ocupar da Política indivíduos que apenas querem se locupletar das benesses ofertadas pelo poder. Poder este cujos cargos e remunerações os próprios políticos definiram para si. Por isto mesmo a Política foi diminuída ao longo do tempo pelas relações exclusivas do poder pelo poder, não mais pelas ideias e por sua intenção transformadora do coletivo e do indivíduo.

Mas se a Política não é o caminho, o que dizer da Filosofia? Ora, a Filosofia é a forma como o indivíduo se coloca no mundo e no sistema de organização social, refletindo sobre sua participação no seu interior. Ou seja, é a individualidade adaptada à formatação gestada pela política praticada pelos coletivos de todos agrupamentos. Portanto, não há Filosofia sem vinculação a um momento histórico. Embora possa se abster dos fatos históricos isoladamente, não pode prescindir do tempo no qual está inserida. Assim, a Filosofia estará sempre prisioneira da atualidade na qual se reflete, ainda que possa atravessar seus conceitos em tempos passados. Ela sempre será presente e passado, muito pouco a reflexão em direção ao futuro.

Então a História poderia ser a grande motivação humana? Não. Definitivamente, não. A História como a grande tábua das marcas do tempo, contendo a cronologia humana no planeta, prima irmã da Geografia e de outras ciências correlatas, estas capazes de explicar a História do passado da Terra, pouco pode explicar sobre nosso avanço em direção ao futuro. Nada se repete, assim como o tempo não se repete. O homem avança inexoravelmente ao desconhecido. A História, com seu foco para o retrovisor dos fatos, nem mesmo o presente consegue aprisionar. Isto porque passadas algumas décadas, logo parece faltar-lhe algum parafuso na engrenagem e na memória, principiando ela mesma a duvidar do que a alimenta. Assim, a História passa após algum tempo a ser a ciência da dúvida, ou se contenta com uma das versões mais fantasiosa.

Mas então, se não é a Política, nem a Filosofia, nem a História ou a Geografia, o que poderia impulsionar a Humanidade? A Ciência? Não, também não é ela aquela capaz de agrupar os sentimentos dos humanos, transformando-os em raptores ou pitonisas do futuro. Não, a Ciência ainda que cumpra papel de destaque na busca do conhecimento sobre o desconhecido, estaca-se quando visa a aplicabilidade da descoberta, dando ao descobrimento função prática imediata. A única vantagem que leva sobre a Religião é que se apresenta sempre como curiosa, com desconfiança permanente sobre aquilo ainda não revelado. Enquanto a Religião, formadora de dogmas e de conceitos não comprovados, coloca todos numa unidade coletiva emburrecedora, sem questionamentos, totalmente anuladora das virtudes para qual fomos gerados.

Mas depois de tudo isto o que nos sobra? Ora, diria com toda sonoridade das três ou quatro letras onde ela se abriga na maioria das línguas planetária: somente existe a Arte. A Arte é a única entre todas as formulações humanas que tende a perpetuar todos pensamentos e virtudes dos seres. Não fora ela, não haveriam os próprios mitos. Ou alguém duvida que foi graças a ela que as figuras míticas de todas as Religiões se propagaram em todos os cantos da Terra? Desde Buda a Jesus; desde o Vaticano até os templos Hindus no Vietnam, na Índia, no Japão. Pela força das obras de Miguel Ângelo, de Da Vinci, pela grandiosidade das esculturas dos elefantes deuses em Bangkoc; no gigantismo presente nas dezenas de cristos espalhados em muitas cidades mundiais; ou ainda, na força da obra de Dante Alighieri. A Arte sempre emprestou seus virtuoses e seu virtuosismo às causas da Religião. E jamais disto se arrependeu.

A Arte sempre foi a tentativa humana da busca da comparação com o criador. Mesmo nele não acreditando. Mesmo nada tendo para por no lugar de Deus. Mesmo duvidando da própria existência dele. Apesar de todas estas desconfianças, o artista sempre buscou criar imagem assemelhada com sua pretensa virtude. Sempre experimentou o poder de criar. Não é à toa que muitos mais homens há e houve na produção da Arte do que mulheres. Isto porque elas podem, e muitas já experimentaram criar um ser no seu próprio ventre. Assim, ao longo da História é pequena a contribuição da mulher na produção das Obras de Arte, em especial nas Artes Plásticas. Mas existem algumas de alta gramatura na lavra do ouro produzido.

A Arte é de fato a mola propulsora a embalar o desejo de permanência dos seres sobre a pele do planeta. Quando todas as outras motivações já foram experimentadas e não mais sobra entusiasmo para qualquer outra tarefa, eis que aparece a Arte para ser a grande incentivadora dos permanecidos. Está claro que também faz uso da palavra Arte um monte do lixo produzido por cabeças vazias, por pessoas desprovidas de habilidade, de técnica e de talento. E eles, os obtusos, são capazes de gestar experiências formais e não formais, muitas delas consumidas em grande escala na sociedade consumista dos tempos hodiernos.

Mas como toda produção humana, o lixo não sobrevive ao tempo. Este imenso lixo não chega aos museus, não resiste a duas gerações, sendo logo descartado, sobram as sobras dos instrumentos ou bases para a produção da arte besta, da arte menor, da arte um destarte. Assim ocorre com a música pobre, de rápido consumo popular; assim acontece com a literatura produzida na forma de folhetim, transformada a produção de tempos em tempos em papel reciclável no rumo do papelão; ou mesmo nas aquarelas amarelecidas pelo tempo, passando à condição de água em processo de envelhecimento.

A Arte da qual falo é aquela imorredoura enquanto durar a vida planetária e o homem nela. Ela é e sempre será a grande motivação humana. Falo da arte buscada nos museus; nos compêndios das bibliotecas; nas edições especiais das grandes músicas trazidas de tempos em tempos aos nossos ouvidos pelos grandes veículos editoriais; ou presente nos acervos especiais disponibilizados aos nossos sentidos de quando em quando por um grande produtor.

Mas se esta é uma Arte especialíssima, o que a move? Diria que a grande Arte é aquela que busca o belo. Sim, mas o que é o belo em sua concepção plena? O seu belo não é o belo de outro, nem será do seu vizinho, nem da diarista do seu imóvel, nem tampouco do gerente da sua conta bancária; ou do seu filho; do seu pai; e de quem mais quiser individualizar. É verdade. O belo é o intangível. Mas o belo é também o que medianamente fascina a maioria. Quem de pé diante das meninas de Renoir, no MASP, em São Paulo, não se encanta ou não irá ser encantado? Pode ser o mais underground dos sujeitos. Pode ser o mais roqueiro dos indivíduos, ou mesmo cantor de música sertaneja, vai se emocionar. Vai perceber pairando por ali, naquelas luzes e nos vestidos diáfanos, um quê de encantamento impossível de não levá-lo a contrair sua pele, abrir seus poros.

A Arte dita maior é capaz disto. Quem ouvindo Garota de Ipanema, Carinhoso, Samba de Verão, tocadas com flauta doce, não irá se emocionar? Ou quem ouvindo Bach, ou as Bachianas de Vila Lobos, não irá se aperceber de estar diante de uma Arte que transcende? Todas capazes de elevar o espírito. Será não entenderá a luta do artista em busca da sua própria divindade? Assim é a Arte. Assim espera-se seja ela: sublimando o belo. Não há e jamais haverá algo adiante do belo. O belo é assim como o alvo ao qual nosso dardo fura o tempo em busca da ancoragem para nele se cravar. Mas a cada aproximação percebemos faltam-nos mais espaços a percorrer. O alvo parece viajar na mesma velocidade da nossa ânsia em furar o imaginário muro onde ele está. Assim é também a constante insatisfação do artista com a sua própria arte, onde mais um retoque é sempre possível, menos uma palavra ou menos uma pincelada pode aproximá-lo do belo.

Não há saída para a Humanidade. Temos de continuar a buscar o belo. Pelo menos alguns devem continuar nesta corrida, infelizmente apenas a poucos com reta de chegada. Muitos certamente se verterão à Política, à Filosofia, à História, às Ciências e mesmo a arte pela arte. Mas aqueles capazes de se entregar ao belo, à busca da perfeição, depurando textos; pincelando telas; esculpindo um osso, uma madeira ou uma pedra; ou regravando vezes seguidas uma música; repaginando a letra de uma canção; poderá certamente beber da água da fonte do oásis, encontrar uma cacimba no meio do cerrado, ou voar qual Ícaro e Dédalo sem que o Sol queime suas asas. O belo deve ser a meta da Arte e do artista. Aquele que o procurar estará sempre acima de si mesmo, sem cair nas tentações de Santo Antonio ou nas tentações do capitalismo humano. Brincar de ser Deus muitos tentam, mas levar adiante a tarefa de com ele jogar uma partida inteira de damas, estes são poucos. E Deus sempre premia seus opositores. Que o digam os museus e a eternidade dos nossos olhares e ouvidos.

 

MODELANDO NOSSOS SONHOS – de zuleika dos reis / são paulo


 

 

Parece-me ter passado a vida a modelar meus sonhos a partir da evocação dos traços que compõem teu rosto.

Parece-me teres passado a vida a modelar teus sonhos a partir da evocação dos traços que compõem meu rosto.

As evocações dos traços dos nossos rostos, os do teu, os do meu, foram a argila, a matéria-prima com que modelamos, tu, os teus sonhos; eu, os meus.

Foram, as evocações dos traços dos nossos rostos, os do meu, os do teu, a argila, a matéria-prima com que modelamos, eu, os meus sonhos; tu, os teus.

Nunca vi os sonhos que modelaste com a argila dos traços do meu rosto; nunca viste os sonhos que modelei com a argila dos traços do teu rosto.

Sei apenas, há muito tempo, os traços do meu rosto a se diluirem, cada vez mais, na imagem do espelho. O mesmo vives a dizer e a repetir, ad infinitum, sobre os traços do teu rosto no espelho.

Os traços dos nossos rostos, argila da qual se compuseram o teu e o meu sonho, a desaparecerem dos espelhos.

Hoje, onde os sonhos por nós compostos? Onde a argila de que foram compostos? Onde os traços dos nossos rostos?

É preciso que se recomece tudo, a partir, agora, deste quase ponto zero. Urge recomeçar, no sentido inverso ao do antigo percurso.

Ajudemo-nos, escultor: recomecemos o trabalho. Vamos compor de novo, eu, os traços do teu rosto; tu, os traços do meu rosto.

Recomecemos, escultor, o caminho para o  nosso retorno.

 

Na manhã de 17 de fevereiro de 2011.

 

 

HOMEM SENTADO – por ronie von martins / pedro osório.rs


 

 

Engolia todas as dores. E já se acostumara. Não havia dor que não estivesse acostumado a engolir. Todas. Friamente às engolia. Às vezes mastigava-as. Lentamente. Tudo ao seu redor era lento. Denso. Tudo era denso. Densidades estratificantes que lhe cobriam, envolviam em camadas. Como uma cebola. Não comia cebolas.

Os movimentos eram raros, da cama ao assento frente a parede que não se abria em janela, mas que se fechava em parede. E mesmo assim, seus olhos paravam ali. No espaço que só o olho do homem sentado conseguia ver. Ver? Seria uma frincha? Existiria a possibilidade de o olho buscar e se esgueirar pelos interstícios invisíveis e “impossíveis” da parede?

Comia dores e bebia chimarrão. Amargo e quente. E não escuta o rádio. Mas sempre ligava o aparelho. Uma estação além das vozes chiava dialetos singulares e vetustos. E seus olhos por breves instantes pareciam brilhar.

O tempo era impreciso, já não era possível determinar se era presa de Kronos ou Aion, ou se decidira deixar o corpo para um e o resto para o outro. Mas parecia que já havia preenchido seu quinhão de real com várias toneladas de memória e delírio.

Pelo substantivo louco, era definido pela família. Nunca apareciam, mas pagavam uma funcionária para limpara o pequeno apartamento. Ela chegava lépida, faceira, pequenas e infames piadinhas nos lábios, barriga volumosa e satisfeita, espantando fantasmas e poeira com seu espanador encantado.

Ele ordenava a sua máscara que forçasse um sorriso. Cordialidade. E o que saia era uma careta engraçada que fazia a mulher sorrir e dizer mais besteiras.

A funcionária era um vento. E soprava  com força todo o silêncio e a solidão do espaço do homem, mas quando saia, a gravidade puxava-os para baixo. E ele realmente não sabia se gostava do agora ou do antes.

“O que estás vendo?” às vezes a mulher perguntava e ele respondia que via a cidade da memória. E ela ria. Aquecia mais água para a térmica, perguntava se ele não queria trocar a erva. “Uma carteira de cigarro” ele dizia, mais que pedia. “Eles disseram que você não pode fumar” e ele sorria. E ela trazia a carteira e ele incendiava o lugar. O fósforo incandescente por segundos frente aos olhos e em seguida a fumaça se esvaindo e abraçando o ar em valsa erótica. Lascívia. “Eles se amam.” Ele dizia. “Quem?” perguntava a mulher. “A fumaça e o ar.” A gargalhada era dela, o silêncio dele. “Você é esquisito mesmo, hein?” “É.”, dizia o verbo pensando na conjunção “e”. Este era o problema. A finitude das coisas e de si mesmo começavam a lhe causar estranhamentos. Gostaria de se ligar a outra oração, acrescentar eternamente. O meio das coisas. O verbo ser. A palavra “é” definia, estagnava e prendia tudo que não deveria ser nas estruturas  sedimentares do “é”. O ser.

Ria desta suposta unidade. E se esvaia em fumaça. E dissolvido em nevoa, qual vampiro, perdia-se inteiramente pelas frestas do seu corpo real e organizado.

 

P Á S S A R O S – por jorge lescano / são paulo


 

Brisa de abril

como flechas de sombras

os pássaros voltam.

 

água dos pássaros. Frase vinda de outro lugar ou tempo, palavras cujo eco chega sem antes nem depois. Palavras sem destino à procura de suas origens? Às vezes Suécia, Noruega ou Dinamarca, às vezes nada. E cada palavra é um fato: palavra pássaro ou nós. Anoto a frase quando possível, ou as circunstâncias em que aparece. Em algumas ocasiões – nem sempre: o vôo é rápido -, ponto de partida para frases impensadas se aninhando em torno dela, ou prolongando seu vôo, mesmo quando em direção oposta: cada pássaro é um universo de plumas e cores e vôos e gritos alheios ao virtual ouvinte, livres por tanto. Talvez a frase tenha algum sentido antigo oculto na memória ou na tensão dos nervos, significado a ser desvendado pelo desenrolar do texto que origina. Percebo o vôo como a porta de um labirinto imaginário e cuja construção só poderá ter a finalidade de justificar a porta. Talvez a migração destas palavras seja apenas um pretexto para o vôo solitário (meu e talvez teu), ou este seja uma forma de nos fazer ver o espaço circundante: sombra na página em branco e pote de água para pássaros mas sem pássaros à vista, porém sempre possíveis: palavras em vôo dispersas na superfície do papel: grafismos sem outra função que a de existirem, como quem as anota e/ou lê rapidamente, antes de fugirem: pássaro nunca imóvel. Depois do eco, a contemplação e a procura de outro significado: outras palavras?, pois o vôo não fica gravado no espaço. E se fica, o que desenha? Palavras manuscritas: garras na neve do pensamento: lago virgem antes do pouso. Adejar de palavras: sons, grafismos, conceitos relativos: vôos incompletos e ao mesmo tempo auto-suficientes. Por isso: deixar agora que o texto seja um vôo anárquico apenas para nós por uma vez deixá-lo debandar sobre a rigidez geométrica do plano e ainda que só encontre sentido entre nossos iguais que seu vôo adquira forma no barro de nossos pensamentos sabendo que seu pouso é uma escolha e não a razão do seu ser-pássaro sempre aquém e/ou além da mirada à margem do silêncio inapreensível forma em branco que não se diz e que talvez voe rasante sobre a tua e a minha pele

 

 

A cachoeira ( O que farão os poetas quando todas as combinações de palavras tiverem sido usadas?) – por omar de la roca / são paulo

 

Tenho ouvido muito sobre a morte das palavras,de palavras que secaram, de poetas que se perderam ou que perderam as palavras.Não posso falar por todos,cada um tem o seu problema.Mas posso dizer que nem as palavras morreram,nem os poetas se perderam ( mas podem estar confusos ) e nem perderam as palavras ( sentaram-se apenas num canto do caminho esperando uma hora que o sol não esteja tão forte).Pode ser que me perguntem como posso ter certeza.Podem ser que não acreditem,mas encontrei a fonte das palavras.Mais corretamente,uma  cachoeira de palavras.Com certeza não deve ser o único manancial,mas com certeza o encontrei e passo a descrever o lugar em seguida.Depois de três quilômetros montanha acima,cheguei numa pequena fazenda. Havia um pequeno portão que levava a um caminho ladeado por hortênsias azuis e enormes plátanos. Mais para a frente a esquerda um pequeno lago sobre o qual se debruçava um salgueiro , escrevendo com seus dedos preguiçosos poesias na superfície do lago. Quando o vento soprava forte, levantava sua cabeça e sacudia os longos cabelos sorrindo. Passando por ele, um espaço aberto onde se via a entrada do caminho que leva a cachoeira. Era um caminho que precisava cuidado. Era um caminho essencialmente individual. Nada proibia que ajudássemos uns aos outros, já que as pedras estão quase sempre úmidas. Pelo caminho cruzei com alguns poetas que descansavam sentados na grama , sem pressa para seguir ate a cachoeira. Comecei a descer o caminho devagar. Havia curvas encharcadas de água, e pedras traiçoeiras. Poucos apoios havia pelo caminho onde pudesse me segurar. Mas segui em frente que já ouvia o som da cachoeira. Não era um som que eu esperava ouvir. Parecia que mil vozes falavam ao mesmo tempo, mil palavras diferentes, mil línguas de fogo.Continuei descendo pelas pedras animado. Enfim cheguei ate um lugar onde podia observar um trecho da queda d’agua.Não toda, pois o terreno era irregular e ela muito grande.Parei um pouco e fechei os olhos para ouvir melhor.Ouvi palavras doces,agressivas,de desencanto, de esperança, palavras de amor, de ilusão, palavras que cantam,  que desencantam, enganadoras, sinceras,ásperas ( que eram altas ), de fé, palavras de cansaço, de entusiasmo,de exaustão.Palavras de espera, de cansaço de esperar, de ingenuidade, de resignação, de revolta, de inconformismo , de ação, de reação, de choro, de tristeza, de histeria, aflição, de riso , de dissimulação, de surpresa. Palavras de areia e de cinzas de gelo e fogo. De sacrifícios inúteis, de longas preparações para algo que nunca acontecerá. Palavras prolixas,sublimes,eróticas, satíricas.Palavrastodaspalavras . Que davam as mãos ao cair apenas para se separar ao chegar ao solo. Mas não. Era o meio da cachoeira.Ela continuava seu caminho tranqüilo até mergulhar na terra e seguir adiante.Desci mais um pouco até um pequeno remanso onde as palavras boiavam com os bracinhos atrás da cabeça, antes de se precipitarem mais a frente.Ouvi ainda palavras de gozação, de riso dissimulado,de rostos virados, de comentários inconseqüentes. Palavras displicentes, engraçadas , de falta, de abuso, de pena, de como podia ter sido, de solidão , de compaixão.Abri bem os olhos e a cachoeira ainda estava ali.Palavras de ventos e calmarias, de pássaros, folhas, borboletas.De natureza, de terremotos, vendavais.Fartei-me de palavras.Fartei-me.Estão todas dentro de mim esperando para sair.Tomara eu não arrebente,ou arrebente aos poucos,deixando sair toda aquela caudalosa corrente.Enquanto a cachoeira segue seu caminho plácido entre as plantas,pedras,correndo célere para o mar.

 

UMA PROSA À MEIA-NOITE – por zuleika dos reis / são paulo


 

 

O pior cego é aquele que vê demais. Ver demais obscurece a visão, ao contrário do que imagina a nossa vã filosofia ou, para complicar um pouquinho mais, a nossa vã auto filantropia. Achar é estar distraído, isto é, não procurar ver demais para que não nos ataque a cegueira irremediável diante do real. Por sua vez, há cegos que veem muito além da conta, mas isso pertence a outro departamento ou a outra história como preferirem os que se estejam expondo à leitura desta prosa sem sentidos predispostos a serem tecidos no exato momento presente, ou melhor, destecidos, que isso mais parece um casaquinho de tricô com um ponto solto bem no meio e aí a tricotadeira se vê obrigada a desmontar metade das costas do casaquinho que já ia pelo meio. Não me perguntem nem se perguntem nada sobre o que esta bobagem toda está a dizer. Ela não pretende dizer nada: eu estava aqui, no vazio dos pensamentos ociosos, inúteis e, inutilidade por inutilidade, entrei no Recanto e me pus a escrever este “texto”, ao vivo e não em cores. Não exatamente a compor uma escrita automática – ora, vejam só que beleza esse “compor uma escrita automática”. Quem sou eu, quem me dera ausentar-me de mim o suficiente em alguma escrita automática. O que eu desejo é repartir um pouco dessa loucura noturna, a esmo, com algum pobre leitor que nela caia, ao acaso, como diz o título, e nela permaneça para ver se essa maluquice deságua em algum lugar minimamente aceitável. Poderia continuar a escrever indefinidamente, assim, sem razão qualquer, sem pausa, como a vida. Só porque pensei nisso parei um instante e me vou de novo por esse lago estagnado de palavras, simplesmente porque não tenho ânimo para telefonar a algum amigo, a algum ex-amante ou para o amor de toda a vida, mais perdido dentro de si mesmo do que este pobre texto aqui presente (?). Pobre texto meu, pobre amor meu, assim tão ausentes de si mesmos. Pobre leitor incauto, caindo nessa teia. Sorte dele é que a aranha está tão morta de cansaço que não tem forças para causar mal a quem quer que seja.

 

agastam-me as palavras – por zénite / portugal



“Abalarei os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca…”
(Ageu 2:6-21)

Hoje, venho dizer-vos que me agastam e entristecem as palavras.
Sou o errático andante que caminha descalço ou de sandálias pelo deserto das palavras, e as ama e anatomiza, as detesta e anatematiza, e volta a anatomizar e a amar e de novo a abominá-las e a anatematizá-las… e a amá-las…

Às palavras, a esses seres estranhíssimos que permitem amar e odiar em simultâneo, que nos amarram e escravizam e nos acenam depois com ventos de amor e liberdade, para voltarem de novo a acorrentar-nos sem piedade, há que rasgá-las, fendê-las, rachá-las, ateá-las e incendiá-las como lenha seca que arde em gigantesca pira – piramidal pira, diria, não fora a cacofonia – em sinuosas e ondulantes flamas de sangue.

Haverá estilhaços incandescentes e brasas incendiando todas as memórias.
E haverá fumo e uma inundação de luz e cinzas pairando. Perfurando o silêncio algemado e trucidado em serpejantes labaredas.
E haverá, outrossim, farpas. Dolorosas farpas rasgando e lacerando profundamente a pele, a carne e as ansas, qual mítica fénix de asas dilaceradas.

E dessa inundação de cinzas e de restos carbonizados, as palavras hão-de fluir de novo e voar, sopradas pelo vulturno nas noites soturnas e sem luar, ou nas manhãs e tardes aprazíveis e solares, impelidas pelo brando zéfiro, em eminentes vertigens de fénix renascidas.

Redescubramo-las e reinventemo-las, estáticas ou dinâmicas, desde o início de todas as linguagens.

Como na língua dos Hervos, que aqui vos deixo em soneto, neste meu deserto de vento e areia:

Soneto aos Hervos


Baixa lúcido o sol sobre os
montíolos,
E já a luz
sidárvia dos sidócitos,
Elíptica, tremula entre os gladíolos,
Trespassando as vidraças dos
esmócitos.

Crescem na tarde lânguidos ortíolos,
Em atávicos salmos tão
bartócitos,
Que agitam, paladinos, os pecíolos
Das hastes alongadas dos
acrócitos.

Ouve-se ao longe uma harpa merencória
Que aflita geme com a frauta lírica,
Enquanto a noite desce transitória.

São os hervos que voltam da hortírica
Com uvas de corinto e fruta
hespória
E mil sorrisos de candura onírica.

.

São os Hervos um povo gentil e humilde, amante da natureza, que habita os Vales Solitários do Nunca, contíguos à Terra-do-Meio, onde vivem os Hobbits, seus parentes próximos, que amam igualmente a natureza, a paz e o seu semelhante, e não se importam, minimamente, com o que se passa no resto do mundo, que, alías, não conhecem nem nunca ouviram falar.
P.S.: as palavras em itálico constam dos dicionários dos Hervos, e em nenhum mais.

EU TE COMPREENDO… de joão de abreu borges

 

 

Eu te compreendo…

Porque sei que estás vivendo da melhor maneira possível, apesar de todas as dificuldades financeiras que tens encontrado… e sorri para as conseqüências disto, principalmente a falta dos amigos que deixam minutos no chão para marcar o caminho mas se perdem, pois o tempo passa…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que as suas intenções são as melhores possíveis e que estás procurando enxergar aquilo que poucos têm a coragem de procurar entender… e sorri para as consequências disto, principalmente a falta do que fazer quando muitos estão ocupados com tantas coisas…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que a tua história se confunde com a história da maioria das pessoas que está ao seu redor, achando até mesmo graça no fato de às vezes se perderes no meio delas, encontrando-se como Um no organismo social que, nessas horas, faz sentido… e sorri para as consequências disto, principalmente quando tropeças por não conseguir acompanhar tanta pressa, tanta ânsia, tanto nervosismo…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que quando dizes “sim”, talvez devesses dizer “não”, mas prefere a mentira quando esta se torna necessária para o bem estar do próximo… e sorri para as conseqüências disto, principalmente se quem recebeu esta tua gentileza seguiu em frente sem nem olhar para trás… e você nem reparou…

 

Eu te compreendo…

Porque sei que tu queres o melhor para ti, a partir do momento em que ensinas tudo aquilo que queres aprender e reflete a luz daquele que não consegue brilhar… e sorri para as consequências disto, principalmente o esgotamento que muitas vezes o deixa em dúvida, com o olhar perdido no céu… mas isto não o impede de caminhar.

 

Eu te compreendo…

Porque sei que teus princípios são os mais nobres possíveis… que tua voz é a mais elegante possível… que as tuas idéias tem um valor inestimável… que o teu amor surpreende até mesmo ao teu próprio coração… e sorri para as consequências disto, principalmente pela roupa simples que usas, pelo tênis apertado que ganhastes e pelo cabelo desmanchado que ainda não aparastes…

 

Eu te compreendo…

Porque sei, enfim, que tu compreendes a ti mesmo como um filho da natureza que está em evolução e em perfeita sintonia com os fenômenos do Universo e, assim, teu sorriso se expande entre árvores e estrelas, e nada disso tem conseqüência porque tudo está interligado.

 

Então, eu te compreendo!

 

O pé de rosadá – por débora guedes / coruripe.alagoas


Sempre fui uma pessoa apegada a sons, aromas e sabores. Bem, observando minha forma física, muito mais em sabores do que em aromas e sons. Quando cheguei à emissora de rádio para editar um material de áudio da prefeitura em que trabalho, vi uma plantinha bastante familiar… Era um arbusto filhote ainda, quase imperceptível, meio sem graça, visto que suas folhas estavam maltratadas e seus frutos escassos. Era um pé de rosadá. Imediatamente, fui transportada para a infância vivida no sítio do meu avô, no povoado Estiva, na cidade de Coruripe.
Viajei até aquela casa, situada no alto de um morro, ladeada pelo alpendre onde redes e cadeiras de balanço convidavam para o descanso – se bem que a última coisa que uma criança queria, naquele paraíso, era descansar. Os quatro quartos eram simples, de piso grosso, com camas de madeira firme e lençóis caprichosamente lavados exalando cheiro de sabão em pó. O quarto de meus avós era um caso a parte: tinha guarda-roupa grande, penteadeira com muitos perfumes, talco, pó de arroz, cremes e muitas imagens de santos e terços. As marcas dos cosméticos eram populares, mas faziam a nossa festa. Todos tinham janelas enormes que permitiam a ampla entrada do sol e do vento. Fui levada pelo cheiro da lembrança àquelas salas de jantar e TV, onde religiosamente, todos os domingos, eu assistia a um programa de música regional, na companhia do meu avô, ouvindo a música tema de Renato Teixeira “Amanheceu, peguei a viola” e via a abertura linda que a emissora do plin-plin deixou de exibir.
A cozinha, que além do fogão a gás trazido pela modernidade, tinha um típico fogão à lenha, que era utilizado para cozinhar o feijão de arranca, temperado apenas com sal. Não que faltassem condimentos na casa de meus avós. Mas ele, o feijão, era preparado dessa forma, e confesso que jamais provei algo tão gostoso. Tentei prepará-lo igual em casa, mas não surtiu o mesmo efeito. Acho que a mágica estavam naquelas panelas sujas de cinza, nas lenhas do fogão e principalmente nas mãos calejadas de minha avó.
O quintal parecia um planeta colorido, saboroso com cajueiros, jaqueiras, bananeiras, goiabeiras, saputis, mangueiras, jabuticabeiras, limoeiros, laranjeiras, pitombeira, pés de café… Não que meu avô tivesse sido barão de café, porque com o escasso dinheiro, ele seria, na brincadeira, um café com leite. Mas tínhamos um pé e provávamos da fruta que por incrível que pareça, tem um sabor doce, meio enjoativo.
A oficina onde o caminhão e a saveiro eram consertadas, também era a montadora dos carros de rolimã, e carrinhos feitos de lata de óleo com os quais meus primos costumavam brincar.
Havia do outro lado da estrada de barro, um sítio de manga, com campo de várzea, para os famosos rachas, um cercado com algumas vacas que supriam nossa necessidade de leite fresco e o limite entre a terra vizinha, era o Rio Coruripe. Existia também uma casa de farinha onde descascávamos mandioca, colocávamos em sacas e meus tios colocavam sob a prensa, para retirar o líquido tóxico da raiz. Depois desse processo, a massa crua era peneirada por nós, em uma folia contagiante e levada ao forno de lenha, grande, redondo onde meus tios mexiam a melhor farinha que já comi. Lá, na casa de farinha, as risadas eram soltas, sem pudores e nós, as crianças, sempre a enlouquecer o juízo dos mais velhos – Eu mais que os outros, já que vivia às turras com meus primos e às quedas, porque falta de equilíbrio e coordenação me acompanha desde sempre. Qualquer semelhança com o fato de eu ser acadêmica de fisioterapia, não é mera coincidência.
Nas refeições, a mesa era farta de comida e principalmente de gente. Meu avô como típico patriarca do interior nordestino, não permitia que viva alma saísse de sua casa de estômago vazio. Tinha que estufar! “Coma!” Ordenava. “Tem feijão, arroz, macarrão, charque, carne guizada, peixe frito e salada. Se ‘silva’”, dizia ele em sua ingênua falta de traquejo na pronúncia da língua portuguesa.
Perto da casa de farinha, tinha uma mangueira e abaixo dela, um tronco quase sexagenário onde sentávamos as tardes para prosear e as noites para cantar ao som extraído das cordas surradas, porém afinadas do violão de meu tio.
Nas férias, ao chegar naquela casa, na subida do pequeno morro, o cheiro daquela planta sinalizava que minha festa estava apenas começando. Quando vejo o arbusto florido lembro-me daquele lugar, da minha infância muito bem vivida.
Confesso que antes de escrever esse post, liguei para minha prima e perguntei: “Kássia, como é mesmo o nome daquela planta que tem o cheiro da casa da vovó?” E sem pestanejar, ela respondeu: “Ah! É o pé de rosadá”.

ELOGIO DE JACK por jorge lescano / são paulo

 

 

para Sandra Esteves

 

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Era uma vez um menino chamado Daniel.

A bem da verdade, em sua certidão de nascimento constava Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, mas toda a aldeia o conhecia pelo clássico e híbrido apelido de Chapeuzinho Vermelho.

Em tempo, era uma época em que Lenhadores Corajosos e Alfaiates Vivaldinos perambulavam por aqui e acolá. Não esquentavam cadeira na França nem na Alemanha, sequer na Dinamarca. Parecia até que não tivessem o que fazer em prol da comunidade ou em proveito próprio, a menos que suas funções se limitassem às de coadjuvantes em histórias de Princesas Dorminhocas e Sapos Espertinhos, ou a costurar vestes sutis para o Imperador, se acreditarmos no filho de Anders. Época aquela deveras prazerosa, digam o que quiser os defensores do sindicalismo e da industrialização e da aposentadoria ao completar o segurado meio século de existência. Época, também, em que a especulação imobiliária ainda não atingira o interior do reino. Destarte, cada Ogro possuía seu Castelo Branco no planalto, mor de avistar o que corria pelo Gigante Adormecido, toda Fada tinha uma aldeiazinha para exercer sua profissão e, poderíamos dizer, não havia vilarejo cadastrado que não contasse com seu timinho de anões. Época feliz e eu não sabia!

Secundus, por que Diabos um garoto que tem dois nomes tão singelos como Pedro e Daniel, é reduzido à condição de chapéu, e ainda por cima, VER-ME-LHO!, sabendo-se das emoções negativas que tal cor provoca em todos aqueles que não estão apaixonados, hein?

Eu vos direi já já. Acontece que o garoto, traquinas que era, feito todos os garotos na puberdade, em certa ocasião, na qual tinha saído com seu avô paterno para caçar um Lobo Mau, animal de estimação que o velho compositor desejava conservar numa partitura, achou por bem surrupiar a mencionada peça de guarda-roupa, ou figurino, como quiserdes, de uma meninazinha não muito chegada a ouvir conselhos maternos, meninazinha esta que atinou a passar pelas imediações da trilha palmilhada por nossos músicos no interior úmido da Floresta Encantada. Ela, a meninazinha do período, ia ao encalço da moradia da genitora de sua própria genitora. Levava-lhe na cesta bolo, esfiha, chá de boldo e uma manguacinha de alambique muito apreciada pelas três. Há quem considere isto uma compensação, pois terão notado, sem dúvidas, a ausência de homens na família.

O reprovável comportamento do garoto foi bem feito para a mãe dele, deixem-me que lhes diga antes que me esqueça. Ela, como muitas outras mães, acreditava que por denominar o herdeiro de suas dívidas com dois nomes sérios, o de um profeta semítico, e o de um dos apóstolos de Nosso Senhor Jota Cristo, garantem-se contra as dores de cabeça próprias de sua função de parentesco, o que cunhou a famigerada expressão Ser Mãe é sofrer no Paraíso, e fazem como Pilatos, para não perdermos o tom bíblico do parágrafo.

O fato de o menino ter-se apropriado indevidamente do chapéu, que aliás não era chapéu e sim capuz, segundo o ilustrador, não seria coisa de muita monta. Porém, eis que um tio da pirralha, de nome Charles, o tio, claro, se bem me recordo, acabou levando o assunto ao conhecimento da autoridade policial da comarca.

Um jornalista presente na delegacia tornou-o famoso. Ao evento em pauta, não ao tio, após alguns retoques sensacionalistas bem ao gosto dos leitores do seu pasquim. Agora que me lembro, acho que era o jornalista que se chamava Charles, não o tio. Sim!

No B.O consta apenas que na tarde ensolarada do domingo próximo passado, isto escreveu o jornalista, que dizia ter pendores de poeta, o meliante, suspeito que a deixa é do escrivão, com o intuito de, desde o início, incriminar o réu, e/ou predispor o rábula desavisado contra a indefesa criatura, o meliante, prossegue o texto cruel, cognominado Pedro Daniel Nananá Nananá de Nonô, filho de Fulana e Sicrano, residentes todos os três mais o avô paterno do indiciado, dito Perengano, residente, digo, por enquanto, na rua Taletal desta megalópole, furtou a peça de vestuário supracitada, sem atenuante, o ato, não o chapéu, digo, diz o auto, sem nenhuma atenuante de ordem prática que justifique seu ato.

Com efeito, na ocasião, o larápio gozava de invejável posição social na aldeia, filho que era do Pizzaiolo-mór do Rei. Esta circunstância arredondará nossa narrativa, podeis crer.

Pedro Daniel gostava pouco de tomar banho. Achava o ritual extravagante, alheio aos seus costumes, com um quê de libertino, além de úmido, imaginai Vossas Mercês o que desejardes.

Não!, o jornalista era Jacob ou Wilhelm, e era irmão do delegado de plantão ou do tio, ou este e o delegado eram irmãos entre si e ele era  irmão do grego, não tenho certeza. É, havia um cego no princípio. Esqueci o nome do mero grego do início da história, graças a Zeus! Não podem querer que lembre de tudo, não é?

Então, pela sua atitude, de todo contrária à higiene pessoal, um modo sutil de desforra às pressões sociais, sugeriu o pediatra local, ou a forma de partilhar seu corpo, na visão de um  psicanalista, Pedro Daniel somente acedia a tomar banho se sua mãe, sentada à beira da tina, se penitenciasse lendo em voz alta, para que a vizinhança ouvisse, histórias infantis, ou as assim classificadas pela industria editorial emergente. Se a boa mulher não cumprisse a tarefa a gosto do mandrião, este chorava à portuguesa.

Tal estilo de lamúria era a preferida não apenas pelo facto do miúdo, de forma subliminar, certamente, haver sido condicionado pela família, pela história da literatura, pelo contexto social, que sei eu!, condicionado, diz o relatório, para reproduzir ipsis líteris, os traços marcantes de sua cultura, como pela instância, não menos profícua e familiar, dele apreciar superlativamente a iguaria itálica da qual, como foi apontado algures, o autor dos seus dias era exímio fabricante. Sim, senhoras e senhores, o delinqüente juvenil amava a pizza à lusitana! É de conhecimento público que tal modalidade prima pelo abuso de cebola em detrimento de outros pertences mais apetitosos para o paladar infantil, os quais sejam, ovo cozido, presunto e azeitonas pretas graúdas, cujo caroço, se bem aproveitado no estilingue, pode fazer misérias nas janelas da vizinhança, como Vossas Mercês estão fartas de saber.

O caso do jurista ou jornalista, não sei bem, talvez exija investigação mais demorada, pois não seria negócio de somenos.

Então, toda tarde de domingo ensolarado, estabelecia-se entre as duas gerações um tácito combate naval. Isto poderia explicar, por vias tortas, aquele primeiro ato delituoso de quem, com o passar dos anos, e após breve carreira de instrutor de lobos na requintada arte da literatura, segundo constata a vasta resenha policial concernente, viria a ser o tristemente célebre Jack, o Estripador.

Nada mal para um franzino garoto de aldeia, pelo qual ninguém dava uma rúpia furada, hein?

 

Há quem diga que Pedro (Daniel) era o próprio Lobo, e que seu sobrenome era Prokofiev. Todavia, nós não acreditamos em  Lobisomem, ainda que exista, anotou à socapa o escrivão de polícia. Algum cronista apresenta Pedro Daniel arrependido. Nesse relato, o facínora teria reencontrado, em suas andanças pelas estepes do Velho Mundo, a Meninazinha do Capuz Vermelho, agora uma starlet de grande sucesso no show-business. Desposou-a imediatamente para agradar Propp e foram morar no Castelo Branco do Rei Bonachão. Acredita-se que ambos foram felizes para Todo-o-Sempre. Contudo, o diretor de teatro Serguéi Korrêa (para manter o clima russo), continuou a escrever o escrivão, afirmava que a versão anterior é mentirosa e foi divulgada pelo indiciado Jack, o Estripador, mor de ocultar seu assassinato de Lulu. Fato este, aliás, já denunciado pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind (1864-1918).

Com gesto discreto mergulhou a caderneta no mais profundo dos bolsos internos de sua japona, sorrateiramente saiu do recinto.

 

 

 

OLGA BENÁRIO PRESTES: DESTINO DE MULHER? – por zuleika dos reis / são paulo



 

 

Quando a casa de Luis Carlos Prestes e Olga Benário Prestes  foi invadida, instintivamente Olga protegeu Prestes com seu corpo, colocando-se na mira dos policiais.

Muitas vezes me interrogo: será este, irreversível, no real palpável ou no real simbólico, o destino de toda mulher que ama, deveras, o seu homem? Será toda mulher antes de tudo, mãe? Mãe de seus filhos, mãe de seus homens, mãe de seus pais, mãe de seus irmãos… algumas, mães de comunidades inteiras?

Colocar seu corpo, sua alma, seu verbo, seu silêncio, suas renúncias, suas desistências, suas contradições, seus impasses, também suas conquistas a serviço da proteção do Amado, seja ele o homem amado, seja ele um filho… seja ele um ideal para o mundo, seja ele um Deus, é esta, em suma, a função efetiva e maior para a qual cada mulher vem à luz, função que, mais cedo ou mais tarde lhe bate à porta, a despeito de todas as liberdades para o seu sexo, liberdades conquistadas à custa de muita luta e de muito sofrimento? É este, enfim, o de mãe, o seu verdadeiro e inalienável destino, fado do ser-mulher, ou tal presente escrito não passa de discurso perfeitamente obscurantista?

 

Na manhã de 21 de outubro de 2010.

Zuleika dos Reis

O RECORTE NA JANELA por omar de la roca /são paulo

 

 

Fui acordando devagar.Me parecia que ainda estava no bosque de cerejeiras, com as minúsculas pétalas caindo sobre a relva, os beija-flores voando ariscos.E o sol pingando mel pelas folhas acesas.Pisquei mais uma vez e acordei vendo as paredes brancas. Vi teu corpo recortado contra a meia luz da janela naquela manhã perfumada de azul.Respirei mais fundo e você se virou.Estiquei as mãos num convite e você veio para mim.Devagar. Peguei a tua mão e te puxei com cuidado. Primeiro você resistiu  , de pois foi cedendo lentamente.Me provocando. Primeiro foi o teu pé, depois o joelho,  perna . E tua pele encontrou a minha onde você se acomodou fácil como se eu fosse uma almofada confortável onde você relaxava. Respirei fundo e fechei os olhos, para que não visses o teu brilho neles. E, devagar,para não te assustar e perder o momento mágico, com meu dedo anular fui descendo pelas tuas costas, a curva da nádega,a coxa.Devagar,fui massageando de leve o caminho de volta.Passei o dedo de leve atrás de sua orelha,para brincar,que sei que não gostas.Tentei  levantar teu queixo para te beijar,mas você sacudiu os cabelos no meu rosto parecendo querer me sufocar com eles. Fingi que estava nervoso e te virei sobre meu braço esquerdo. Sorrindo ajeitei teu cabelo e, feito um peixinho mergulhei no aquário de teus olhos de algas verdes.Querendo me esconder nelas,querendo te encontrar detrás de alguma delas.Como se fosse suficiente estar la para que você compreendesse todos os meus outros  eus e o porque deles.Como se pudesses nos conter e cuidar de cada uma das necessidades deles. “ Te quero.” Falei  baixinho ao pé do teu ouvido. Sem falar você me disse que também queria. Mas eu sabia que para você , por mais que eu fizesse, não seria suficiente.Você queria sempre mais. Te possui, como se quisesse ser mais do que sou. Querendo ser suficiente. E fiz tudo que sabia que você gostava. Gritei de prazer ao teu lado, enfiando a cabeça no teu travesseiro. Você me agarrava dizendo que tinha medo do meu prazer. E eu te tranqüilizava. Deitei ao teu lado e, enquanto o sol deslizava devagar pelo quarto, fui falando de mim,num monologo interminável,traçando riscos no ar. Achei que deveria parar e me calei. Mas você pediu mais. Falei mais um pouco e percebi que você adormecera. Acho que meu mais foi demais… Te fiz mais um carinho no rosto com as costas da mão. Você se remexeu de leve como se se perguntasse quem ousava perturbar os seus sonhos. Estava quente agora.Me levantei com cuidado para não te acordar.Era minha vez de ficar na janela.

 

 

CIRANDA da ANIMA EMPEDERNIDA por josé delfino silva neto / natal

No espaço-tempo específico, onde estou, fico. E a memória vestigial, em gestação, se especifica, se sincroniza e se adapta. E sua estrutura atemporal, como um temporal, me domina. Mineral, carvão, sou. A única pedra que pensa e raciocina. Há vinte bilhões de anos, num universo em expansão, frágil matéria que gira, parada, em torno de si própria . Urdida estrela, estou. Eu, uma só. A um tempo sólida e etérea presa, confinada a um mundo em movimento aparentemente parado, que gira, em torno de si e de outra estrela: ela, um sol. Pó em redemoinho de vento, da alma sou as lembranças; os elos que sobrevivem em nós, por duas gerações, apenas: lembra da sua trisavó? Decerto terei dez bilhões de anos mais, assim iguais. Desatando nós. Só espero. No norte, uma escuridão de brilho mais luminoso. Pois há bilhões de anos explodida em luz, em cor, serei sempre cinza, de supernova extinta. Ávida à vida, no onipresente claro/escuro, em que durmo e acordo; me acendo e me apago; no nariz de minha neta, no queixo do meu filho, num pires de porcelana, difícil ser mais explícito: fujo, pelejo, mato a fome; a sede, o amigo, o inimigo; talho, crio a cria em doce e fria luta, à noite em sexo, só um detalhe. De luto pesado, de alívio fico leve, corro em frente e sobrevivo, como um facho. Pois tudo é sempre em frente. O tempo ocorre do passado ao presente. A energia corre, morre, do quente pro frio. Do frio ao frio, melhor dizendo, pois um fogo morto, de quinhentos mil anos, controla a claridade noturna em meu domínio. A minha vida. A herança atávica de girar em hipérbole da direita à esquerda, em tudo. Como cabeças que giram, e minha vulva avulta, ao nascerem. Como a minha mais remota andança, me deslocando a pé entre continentes; nas danças juninas com minha amada; nas aeróbicas corridas em círculo; no infarto de amor, pau-a-pau com a dor do coração, vinda da direita adormecer o meu doído braço, esquerdo. Nada interessa. Só escrever, se como Deus e o Diabo (a quatro), se como macho ou fêmea, não importa o que. Me é caro, benéfico, na verdade um barato. Como um chapéu que me esconde. E me protege o olho.

CHAMAMENTO por vera lúcia kalaari / portugal

O ”Chamamento”, está a cada momento presente ao nosso olhar: Está naquele último raio de sol no poente…Aquele que ficou um só minuto efémero e luminoso… Está no voo distante e sereno duma gaivota que passa no concavo da tarde, quiçá para ignoradas e longínquas paragens, talvez para regiões inexistentes… Está no murmúrio da água sussurrante, o murmúrio leve, perdido, no silêncio da paisagem…Está numa nuvem na penumbra da tarde, leve , macia, como um gesto de ternura… Está até na pétala que tombou, silenciosa . no jardim, sob o luar…Que tombou com a leveza de um perfume que se evola…De um som que se cala… Eu considero todas estas pequenas maravilhas o ”Chamamento”… E quem tiver olhos para ver tudo isto, terá também a capacidade de se aperceber que nada poderá deixar morrer estes pequenos milagres que acontecem todos os dias e que teremos que, forçosamente, deixar como herança aos nossos filhos. Porque é neles que sentimos a realidade da Existência desse Ser Supremo. São os pequenos/grandes sinais de amor que o homem teima em ignorar, na sua profunda cegueira, na sua solidão, na sua apatia, na sua ignorância, que o levará a fechar, no final da sua vida, o seu livro, com as suas mil páginas em branco.

A MULHER QUE VIROU ROSA por joão batista do lago / são luis

Nem sempre a vida fora assim! Nem sempre, para ela. Todas as manhãs de março, sob chuva ou sol escaldante, lá estava ela plantando flores e rosas nos canteiros das avenidas, entre os carros velozes que conduziam as gentes da cidade para seus trabalhos ou para suas casas, ou, até quem sabe (!), para os motéis onde se traia mutuamente a burguesa sociedade dos casais são-luisenses. Mas, foi exatamente numa dessas manhãs de março que ela resolvera plantar-se na principal rotatória que dá acesso às principais praias de São Luis, situada ao final da Avenida Castelo Branco, no bairro do São Francisco. Foi, então, nesse dia, e apenas nesse dia, que ela passara a ser notada por todos os transeuntes e passageiros e motoristas dos carros de luxo que por ali passavam diariamente, sem notá-la, sequer, por um instante. De repente, aquela mulher queimada pelo sol ardente começara a despir-se literalmente e vagarosamente… Era como se ela estivesse no banheiro de sua casa. Lentamente ela foi tirando peça por peça que encobria seu corpo de pele dourada… Uma a uma. Pausadamente. Era como se estivesse dançando um balé no palco do Arthur Azevedo. Depois de totalmente nua ela tomou a pá e começou a cavar… a cavar… a cavar… a cavar e a cavar silenciosamente sem perceber que a essas alturas a avenida já se houvera transformada num caos pois todos os carros começaram a parar para assistir aquele espetáculo; todos os transeuntes ocupavam os principais lugares das ruas e avenidas. O burburinho era intenso. Diziam uns: “De onde surgiu essa louca?!”. Outros resmungavam: “O que passa pela cabeça dela para fazer tamanho desatino!”. Mais à frente dois homens falavam do seu corpo escultural: “Que desperdício, tão bonita e tão sensual”. O outro: “Se a tivesse visto antes… teria convidado para um passeio noturno pela praias de São Luis.” Mais à frente uma senhora de meia idade salientava: “Isso é pura falta de vergonha. Safadeza. Essa gente perdeu o caminho de Deus e por isso anda a cometer esse tipo de vadiação”. Do outro lado da rotatória uma moça por volta dos seus 21 anos, franzina como saracura-do-brejo, grunhia frases incompreensíveis aos outros vizinhos: “Que corpo! Quem me dera ter esse corpo. Não mais estaria aqui, com certeza. Estaria fazendo sucessos lá pelas ‘oropas’ sendo uma modelo e ganhando muito dinheiro”. Enquanto isso lá estava ela cavando… e cavando… e cavando… e cavando… e cavando. Não olhava para ninguém. Estava magnificamente só e solitariamente só. Cada pá de terra que tirava era como se estivesse fazendo uma oração; ia colocando uma a uma à volta do buraco que fazia. Essa sua atitude intrigava a todos que a viam naquela situação e todos se perguntavam silenciosamente o que ela pretendia significar com tudo aquilo, porém, ninguém arriscava um palpite; todos, já ali plantados, não conseguiam arredar os pés, pois, não mais era só o corpo da mulher, mas as suas atitudes que intrigavam. As avenidas e ruas viraram um pandemônio. Jornalistas de todos os jornais queriam chegar o mais próximo possível para fotografar e, possivelmente, entrevistar aquela mulher. E só não chegaram muito perto mesmo porque, ao tentarem, receberam como resposta o olhar ferino daquela mulher. Nenhum jornalista atreveu-se a desafiar seu olhar ferino. Aliás, único momento em que ela levantara os olhos para olhar a multidão que a rodeava. A essas alturas, meio corpo já se encontrava dentro do buraco. A essas alturas via-se, tão-somente, a parte superior do seu corpo… o busto ostentando seios de Vênus – a deusa do amor e da beleza, na antiga Roma – e seu rosto de faces arredondadas como a lua cheia e lábios carnudos e olhos verdes como esmeraldas e seus lindos e ondulados cabelos que esvoaçavam quando qualquer nesga de vento bandeava para seu lado espalhando e (já) misturando seus cabelos cor de juçara à terra. A polícia, que fora intimada a dar cabo àquela sinagoga, também não conseguia aproximar-se dela, nem por terra, nem pelo ar. E lá estava ela. Mas, como se fora uma pantera – e era! – ela saltara para fora do buraco. Todos que ali estavam ficaram atônitos. Todos, ao mesmo tempo, pensaram interrogativamente: “O que ela irá fazer agora?!”. E ela, vagarosamente e carinhosamente começara a espalhar a terra pelo corpo, esfregando-a convulsivamente, como se estivera passando sabonete ao corpo. Em seguida e depois de já se ter enterrada completamente, pulou para dentro do buraco… E, lentamente, carinhosamente, calculadamente, fora arrastando para dentro do buraco toda a terra que dele tirara. Metade do seu corpo já se encontrara coberto quando ela parou… Aí sim, pediu para os jornalistas se aproximarem e solicitou que lhes cobrissem com terra o resto do corpo. Houve dúvidas em todos. Ao perceber o inconveniente ela falara-lhos: “Por que vocês têm medo de plantar uma rosa?”.

A N O I T E D O P U M A – por jorge lescano

É o infortúnio, rainha, que nos separa?
É a desgraça, princesa, que nos separa?

É por ser tu minha florzinha azul, minha flor amarela?


[…] Como um espelho de água és uma ilusão.
Como um espelho de água és um engano.
Cantar de amores inca.

A mulher dissera que viria encontrá-lo ao pousar a lua na testa do puma. A silhueta da montanha erguia-se contra o céu translúcido, em breve a pedra do Puma levantaria a cabeça. A astúcia e a beleza do felino, a solidez da pedra, guardavam na noite vazia o templo do amor do Inca.

Apenas Ele, o grande sacerdote de Inti, os eunucos e algumas velhas, tinham permissão para entrar na Casa das Escolhidas.

Foi o olhar da coya – entre todas ela, a irmã e esposa do Filho do Sol – que o despertou para isto que agora o prendia junto ao muro da Aclla-Huasi, sentindo tremer o peito e latejar as têmporas.

A mulher dissera que a irmã da princesa, tão bela e exclusiva quanto ela, duas pétalas da mesma flor, acalmaria seus anseios. Jurou que também a coya sofria, por isso concordara e facilitaria o encontro. Daquela hora até o amanhecer, o Inca deveria participar da cerimônia de imolação de um jovem casal; teriam assim liberdade absoluta para se amar, por algumas horas.

A mão que o guiava era fina e suave. Também esta mulher havia sido uma das Escolhidas. Agora o abandonava na porta da câmara; sem uma palavra, a velha se afastou deslizando no clarão da lua. Começou então um tempo impossível, como vivido por outro homem.

Na luz dourada da tocha, a mulher pareceu surgir do nada. Apenas o olhar vivia na tensão do rosto. Luzia na testa uma diadema de ouro, sobre a qual brilhava uma lua de prata, símbolo da hierarquia da coya; oferecia-lhe um manto púrpura e uma réplica do llauto, o turbante que três vezes envolvia a testa do Inca, com uma borla auro-rubra a cair  na sobrancelha esquerda.

– Somente assim paramentado o Filho de Inti tem acesso à carne da aclla — as palavras tremeram levemente. — Seremos eles durante nossa cerimônia.

A borla bateu com suavidade na fronte. Talvez naquele momento sentiu a enormidade do seu ato, e o castigo pareceu-lhe justo. Nada menos que a morte merecia quem, violando seu espaço sagrado, lhe usurpasse a dignidade. Vagamente entendeu que caíra numa armadilha. Ao mesmo tempo, soube que o perigo sacramentava seu amor.

Uma mão delicada, carregada de anéis e de pulseiras, procurou seu corpo.

– Vem, o pensamento de minha irmã aquecerá meus beijos – no olhar da fêmea a paixão do puma.

Então ficou de joelhos, abraçou-lhe o quadril e não poderia dizer se a desejava ou lhe pedia perdão. Sabia, contudo, que o retorno era impossível. Depois pensou que a Lua, mãe do Inca, autorizara seu ato ao se esconder por trás das nuvens quando ele penetrou no corpo proibido.

Contava-se que na segunda noite a fera descia da montanha. Um puma de prata, encarnação noturna do Inca, de garras e dentes implacáveis, e que antes de fincar os dentes em sua carne, lamberia seus pés ensangüentados.

O animal faminto e silencioso poderá ser o libertador do sol e da sede e da dor, que começa na raiz dos cabelos, pelos que estão ambos amarrados  a uma árvore — até que a morte chegue após indizível agonia, determina a lei de Manco Cápac. Uma dor que se expande pelo espaço a partir dos pulsos e dos tornozelos,  firmemente atados  com finas tiras de couro  umedecido, abarca as pedras, as montanhas, o vasto céu e continua em outras vidas.  Cãibras  que  esvaziam  o  mundo.  Deixam-no  oco,  sem ar, sem movimento, exceto a reverberação do sol e o inevitável deslizar do puma, ainda quieto na penumbra da rocha, mas já predestinado ao salto, ao rugido, ao seu sangue. E à carne daquela que o acompanha no suplício. Não pode vê-la, não sabe se é a mesma que saboreara certa noite, agora tão longínqua, como se fosse fruta, Que acariciara com os olhos e as mãos e a boca e o pênis, até que seu amor foi uma convulsão e gemidos e uma erupção ardente e viscosa que inundou os labirintos dela, obrigando-a a estreitas ainda mais os olhos e o abraço, e lhe tirou dentre os lábios um sussurro antes do grito que o trouxe de volta ao interior da Aclla-huasi e o jogou nas mãos potentes dos eunucos que, como a ela, o imobilizavam.

Seu grito ainda ressoava entre os gritos das serviçais que choravam e tentavam defendê-la. Então soube que possuíra a verdadeira coya. Acreditando tratar-se de uma substituta, desejara aquela que possuía.

Nada foi ver sua família e seus vizinhos sacrificados, a casa arrasada e até as árvores do jardim arrancadas para que não ficasse testemunho de sua existência — a justiça de Manco Cápac pode eliminar o passado, evitar o futuro.

Talvez neste momento prefira as outras mortes. A fogueira ou o emparedamento seriam mais rápidos, e neles poderia ocultar o seu terror. Nada se compara a esta espera do puma, que já desce a montanha, convocado pelo cheiro do amor e do sangue.

A lua pousa na testa do puma.

RUMOREJANDO ditados juquianos – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De ditados juquianos).

A matemática,

Desenvolve

O raciocínio;

A prática,

Desenvolve

O tirocínio.

(E a globalização

Desenvolve

O morticínio…)

Constatação II

E como dizia aquela mãe extremosa, se referindo ao seu filhinho do coração de 35 anos que vivia dando golpes na praça: “Ele é um pobre de um incompreendido”.

Constatação III (Passível de mal entendido).

Ela colocou os ovos dele na geladeira.

Constatação IV

Sem dúvida, era um mau genro. Quando a sogra entrou numa escola de pára-quedismo, se pôs a distribuir, a torto e a direito, sementes e mudas de roseiras, abacaxi e daquele gênero de cacto bem espinhento…

Constatação V (Interlocutor chato).

A conversa

Converge,

Tergiversa,

Submerge…

Constatação VI

Rico aborda educadamente; pobre, baixa intempestivamente.

Constatação VII

Não se deve confundir despontar com desapontar, até porque, ao despontar a sogra no portão da sua casa você não deixa de sedesapontar.

Constatação VIII

Não se deve confundir preterido com preferido, muito embora, às vezes, o preferido é preterido como naquela história, que vocês tão bem conhecem – embora, ainda, não tenha passado na televisão –, do filho pródigo que volta à casa paterna e o pai manda servi-lo do bom e do melhor, coisa que para o preferido nunca havia sido feito.

Constatação IX

Rico negaceia; pobre, tira o corpo fora.

Constatação X

Impretérito perfeito não tem nada a ver com pretérito imperfeito, até porque impréterito não existe.

Constatação XI

Quebrou a munheca*.

Quando, pelos amigos largado,

Em casa entrou,

Todo cambaleante, torto,

Menos vivo que morto,

Que meleca !

De susto, quase expirou:

A mulher, no começo tão amada,

Tinha se mandado.

Não mais agüentou

O que se tornou

Uma empreitada…

Coitada!

Coitado!

*Quebrar a munheca = Embriagar-se.

Constatação XII

Pobre vende a alma; rico, faz concessões.

Constatação XIII

O rei estava nu. Claro, ele estava se preparando para entrar no banho.

Constatação XIV

Deu na mídia: “A Confederação Nacional da Indústria – CNI, em documento entregue aos presidenciáveis, citou que o país pode ter renda per capita de ricos até 2040”. Vai-se a esperança deste assim chamado escriba de fazer parte dos ricos, tendo em vista a sua – minha – provecta idade. E já que falamos sobre o assunto, a CNI nada falou quanto à distribuição de renda que em nosso país sempre foi a pior do mundo.

Constatação XV (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor que baixem as ações na Bolsa de Valores do que a tua frágil libido. No entanto, dependendo do número de ações que você tenha, baixando estas, o fato poderá ocasionar a baixa daquelas…

Constatação XVI

Do meu Amigo o psicanalista Davy Bogomoletz: “Minha aplicação da Lei de Newton ao problema econômico: O dinheiro atrai o dinheiro na razão direta das quantias e na razão inversa do quadrado da necessidade!”

Constatação XVII

O  técnico da Argentina fez a seguinte afirmação: ‘Se  a Argentina ganhar a Copa do Mundo, eu fico nu no Obelisco em Buenos Aires’. Data vênia, como diriam os nossos juristas e provavelmente os juristas dos  nossos hermanos, mas Rumorejando acha que  tal visão viria a empanar a alegria dos argentinos e, principalmente, das  argentinas. Pra quem não se interessa por futebol, somente pela referida soturna visão de Maradona pelado.

DÚVIDAS CRUCIAIS.

Dúvida I

E quem diria que a palavra fomentar, que quer dizer “promover o desenvolvimento, o progresso de”, também quer dizer “lixar-se; danar-se” ? (Houaiss)

Dúvida II

Foi o cético que passou a não acreditar até nas suas próprias palavras ?

Dúvida III (Via pseudo-haicai).

No bate, rebate

Até o gandula

Entrou no embate ?

Dúvida IV

Intercâmbio é quando os gaúchos trocam de time, passando do Grêmio para o Internacional ?

Dúvida V (Via pseudo-haicai).

Só naquele instante,

O ancião achou viagra

Interessante ?

Dúvida VI

Fugiram da casamata,

Do xilindró,

Usando só

Um abridor de lata ?

Dúvida VII

A expressão “cunhada” foi cunhada pela sua cunhada ou pela cunhada da sua cunhada ?

Dúvida VIII

Será que sem embreagem

E com o freio de mão puxado

Aumenta o teor de frenagem

Do perdulário

Das finanças, o secretário

Do vosso estado ?

Dúvida IX

O prezado leitor está em dúvida em quem votar ou em quem não votar nestas próximas eleições?

Dúvida X

E o prezado leitor também está apavorado com a seleção do Dunga?

FÁBULA CONFABULADA (INDIGNA DO MILLÔR).

Numa província chinesa, daquelas que muitos chamariam “bem no interiorzão”, vivia uma população pacata e ordeira como corresponde a quem vive nesses lugares. Trabalhavam a terra para de ela tirar o seu sustento, que no Ocidente se chama de cultura de subsistência, naturalmente estando expostos às condições climáticas para obter uma melhor ou pior safra, já que irrigação que é bom, nem pensar. Evidentemente havia também artesãos, pequenos comerciantes, um ou outro profissional liberal, mas efetivamente, a maioria se ocupava da terra.

O fim de semana, limitado apenas ao Domingo, era dedicado ao futebol, esporte que estava começando a se tornar muito popular, a exemplo de tantos outros países, principalmente do Ocidente. À medida que o esporte se difundia no país, também na província ganhava, cada vez mais, status. A evolução foi tamanha que se formou o time do lugar que disputava partidas amistosas com as províncias vizinhas, quando então se verificava que não eram tão amistosas assim, já que, muitas vezes, acabava em pancadaria, com envolvimento de jogadores, torcedores e outros “ores”, como, vejam só, quem diria, doutores. Sem deixar, é claro, de sobrar para o juiz, como é muito comum nesses casos suceder também no Ocidente. Mas, tudo isso, já é outra história.

A coisa começou a se tornar tão apaixonante, como soe acontecer com este esporte, que resolveram importar um técnico para treinar a equipe, procurando trazer de um país, chamado Brasil, que ficava do outro lado do mundo e que era considerado pela sua própria população, como “o melhor do mundo”, muito embora não tivesse sido campeão numa certa copa, perdendo de goleada de um país que, até então, sempre havia se destacado pelos seus vinhos e queijos e que tinha a fama de viver para comer ao invés de comer para viver, conforme, quem possui o dom da observação, depara algo similar em todo o reino animal. Bem, naturalmente, tudo isso de “gourmet” ou “gourmant”, não deve ser confundido, pois se trata de outra história que, pelo menos por ora, não vem absolutamente ao caso.

Mas, voltemos ao assunto, procurando se dispersar o menos possível: O primeiro técnico cogitado, que ao longo de toda sua carreira havia se mostrado supersticioso, invocando sempre o número 13, foi descartado pelo fato de haverem chegado a conclusão de que, se mandinga desse resultado, os campeonatos lá no Brasil terminariam com todos os times juntos em primeiro lugar. Ou em último, dependendo da pessoa, que estivesse analisando a colocação dos times, fosse otimista ou pessimista; o segundo técnico lembrado, também foi descartado por haver feito referência ao seu próprio bumbum, alegando ser feio e, com isso, não se propondo a posar nu para revistas especializadas. Julgaram que era uma espécie de marketing ao revés, pois achavam que o retro estava, ao não enaltecer essa sua parte pudenda, exatamente querendo chamar atenção sobre ela, o que não lhes parecia muito ético.

No fim, acabaram optando pela prata da casa, escolhendo o melhor jogador do time para ser o técnico. Aí, como não poderia deixar de ser, verificou-se a famosa Lei de Peter que diz que todo sujeito ascende numa escala hierárquica até atingir o seu nível de incompetência.

De cara, Rah Teh Ven, esse era o seu nome, começou a sugerir que o time jogasse sem se prender a esquemas rígidos. Até aqui, tudo bem. O time, assim, perdia e ganhava ou ganhava e perdia, dependendo se seja otimista ou pessimista. Mais tarde, Rah Teh Ven começou a fazer experiências, baseado em fórmulas de retrancas, copiadas de alguns técnicos brasileiros, que segundo os entendidos, são os mais entendidos no intrincado assunto: volantes atrasados, volantes adiantados, meio de campo com quatro apoiadores, três, sem nenhum, zagueiros líberos, zagueiros híbridos, zagueiros promovidos a beques, beques promovidos a zagueiros, uma barafunda total. O time, como diriam os entendidos, não os acima mencionados, mas os comentaristas esportivos, que parecem, por seus comentários, ser mais entendidos do que os outros entendidos, os técnicos, nunca mais fez as pazes com a vitória. Era derrota em cima de derrota. Rah Teh Ven, de ídolo como jogador, teve, como técnico, até de se mudar para outra província. Lá, constitui família e aos filhos proibiu, patriarcalmente, que se falasse em futebol para todo o sempre. O que, é claro, provocou muitos ressentimentos na família. O que, convenhamos, comumente acontece na maioria delas. Principalmente quando o assunto é herança. Mas, isso, já vem a se constituir numa outra história.

MORAL: Não se mexe em time que está ganhando e perdendo.

SÃO PAULO: “COMOÇÃO DAS NOSSAS VIDAS”! por zuleika dos reis / são paulo


Pobre da nossa São Paulo, comoção das nossas vidas, como foi a comoção da vida de Mário de Andrade. Pobre da nossa São Paulo, afogando-se nas águas vindas dos céus, nas águas transbordando dos rios, nas lágrimas transbordando dos olhos que choram por seus mortos.

São Paulo, comoção das nossas vidas! Rogai, Santo Apóstolo, pela cidade que carrega o vosso nome. Rogai por todos os filhos desta cidade, particularmente pelos mais pobres e miseráveis.

Rogai pelos pobres de todas as misérias, que são legião: a miséria da falta de trabalho, a miséria da falta de justiça, a miséria  da falta de pão; a miséria da falta de equilíbrio, a miséria da falta de paz, a miséria da falta de amor, a miséria da falta de tolerância, a miséria da falta de aceitação(…). Rogai pela superação das nossas misérias que, como em tantas outras cidades do mundo, compõem uma legião.

Apóstolo Santo: Rogai por nossa pobre tão rica cidade, amada como se ama a própria filha, como se ama a própria mãe; esta nossa São Paulo demasiado humana e, por demasiado humana, feita de toda luz e de toda sombra, de todo mal e de todo bem, de toda virtude e de todo vício, com sua alma sempre dividida entre Apolo e Dionísio.

Velai por nosso destino e pelo destino da cidade que carrega o vosso nome, Apóstolo dos gentios, vós que espalhastes a Mensagem para muito além dos muros do Templo.

São Paulo, velai por São Paulo!

SALA DE ESPERA (do psiquiatra) – por helena sut / curitiba

O que sou no outro? O que sou terá sentido se somente for percebido por mim? Será que o verdadeiro olhar não é o do senhor sentado a minha frente que me observa de forma dissimulada sobre a revista? Será que a verdade não aflora do desconhecimento e das impressões imaculadas de afinidades ou antipatias? O que sou nele? Será que o mesmo que sou em mim? O que sou no outro?

As inquietações surgiram de repente enquanto passava o tempo com uma revista de entretenimentos na sala de espera do terapeuta. Abandonei a leitura enquanto percorria as espirais da minha existência, mas mantive a publicação nos braços como um escudo para disfarçar a grande dúvida sombreada nas paredes da pequena sala. Concentrei-me no outro, no senhor sentado à frente com a revista em punho.

O que ele é em si, em mim, no mundo…?

Decifrá-lo seria uma quase resposta. Mas tive de abandonar minha incursão quando percebi que o meu olhar havia sido interceptado e que o senhor, visivelmente constrangido, cruzou as pernas e segurou com mais força a revista. Disfarcei.

Ele não é em mim. Não consigo perceber nada além de um homem de aproximadamente cinqüenta anos sentado na sala de espera de um psiquiatra. Rendo-me a dificuldade de colher minhas primeiras impressões. Estou maculada com as inquietações da minha existência. Mas ele… O que é? Ansioso? Deprimido? Louco? Talvez um caso perdido…

Oscilei diante da possibilidade de perigo. O outro… Novamente os olhares se cruzaram. Tracei um vôo improvável e alcancei o relógio como se estivesse preocupada com as horas. Pensei em hastear a bandeira branca e explicar ao desconhecido o porquê de estar ali. Insônia, ansiedade, trauma… Tudo começou com a depressão. Um momento difícil, o outro… Tarja preta. Mas não tomo mais antidepressivo. É verdade que de vez em quando ainda tomo um remedinho para dormir, o que restou… Insônia. Talvez um pouco de estresse, sei lá!

Não sou silenciosa ou louca, mas como poderia transpor o silêncio interposto pelo outro. Explicar-me talvez me libertasse do que não quero ser, mas… O que sou no desconhecido? Ansiosa? Estressada? Deprimida? Histérica?

A porta do consultório se abriu. Uma trégua. O senhor se levantou, cumprimentou o psiquiatra e saiu com a senhora. Um acompanhante. Mas ainda assim poderia ser ansioso ou deprimido. Ou um caso perdido… Quem sabe ele não é o verdadeiro motivo da ida da mulher ao terapeuta. Ele, o outro, o que foi em mim?

Era o horário da minha terapia. Vasculhei as angústias dos últimos dias e entrei. Ainda pensei em perguntar ao psiquiatra como eu existia em seu olhar, mas adiei a indagação diante da possibilidade de um diagnóstico.

Deixei minhas dúvidas junto à revista na sala de espera. Quem sabe na próxima sessão.

PASSEIO SOCRÁTICO – por frei betto – são paulo

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China.Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos  seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares,preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir:´´Qual dos dois modelo produz felicidade?´

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ´´Não foi à aula?´´ Ela respondeu:

´´Não, tenho aula à tarde´´.

Comemorei:´´Que bom, então de manhã você pode brincar,dormir até mais tarde´´.

´´Não´´, retrucou ela, ´´tenho tanta coisa de manhã… ´´Que tanta coisa?´´, perguntei. ´´Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina´´, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando:

´´Que pena, a Daniela não disse: ´´Tenho aula de meditação!´´

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica;

hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos:

´´Como estava o defunto?´´. ´´Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!´´ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual.

Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…

A palavra hoje é ´´entretenimento?; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres:

´´Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!´´

O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno.

Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center.

É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista.

Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o
mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:

´´Estou apenas fazendo um passeio socrático. ´´

Diante de seus olhares espantados, explico:

´´Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas,

quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:

“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !!!!!!

PERSONAS por jorge lescano / são paulo

Dentre as minhas anotações esporádicas com que o Fado quis me punir, frustrando qualquer Destino de Escritor, no dizer d’O Outro, tirando as aliterações, que são minhas e ali estão para suprir suas rimas, há uma que por algum tempo satisfez minha modesta vaidade, expressão esta menos incongruente do que o senso comum tende a acreditar, o senhor não acha?

Encontrava eu na supracitada anotação, algo que o estilo sensacionalista  da Pálida História Universal do Fogo vulgarizou, se a senhora está me entendendo.

Aquele breve artigo hoje protege da poeira o fundo de alguma gaveta. Não guardo nenhuma ilusão sobre ele. Se fosse publicado, não faltaria quem o associasse, seja pela forma, seja pelo tema, com suas obras menores, como apreciam dizer os críticos quando escrevem sobre eles dA Pessoa em Questão ou d’O Outro, quero dizer.

De fato, eis que encontro no volume que Vladímir Vladimiróvitch, Volódia para os íntimos, dedica às suas memórias, o assunto que eu tão ardilosamente elaborara. Assim pensava em minha inocência de leitor incompleto de sua Obra Completa Mas obraS completaS não sugere que haveria ObraS IncompletaS, fessora?

Leitura vigilante nas estepes da noite. Noites insones pormenorizadas indiscretamente por ambos escribas em suas respectivas autobiografias Apócrifas!, seria o caso de dizer, e digo-o

Minha proverbial modéstia, Campeão Mundial da Modéstia, chamou-me um beatnik de nome esquecido, não admitiria que usasse publicamente uma data de significado meramente pessoal, as tais datas íntimas da crônica jornalística Por favor, madame, não confunda estas com os dias da mulher, por assim dizer.

Enfim, para ser claro, declaro que nunca tirei proveito do fato do meu aniversário coincidir, sem que eu tivesse nenhuma participação nisso, com os de Edgar Allan Poe, de Paul Cezanne, de Jota Watt, de Auguste Comte e de muitos mais, ignotos, preteridos, injustiçados pela mídia, para me tornar interessante entre os fãs que a bem da verdade nunca tive. Deixo que outros, tá me entendendo?, façam disso uma efeméride literária, que assim tratam tudo que lhes diz respeito nesta aldeia. Tal data, casual sempre, se bem que causal no caso, não encontrou albergue em minha Obra Incompleta (sic, senhor Raimundo Silva, sem gracinhas gramaticais – anotação (posterior?) acrescida por mão anônima(?) – N. do C.), inédita, como todo mundo virá a saber algum dia se o meu MB cumprir sua tarefa à risca. Não, damas e cavalheiros (é bom afastar vocês, vez por outra, da porta das casas de banho públicas – Ass.: Mão Anônima – N. do C.), eu, mais tímido que Volódia, mais modesto que Grishka, preferi tratar da  morte do Pai dos Filósofos, no dizer  do platônico Ficino. E deixem-me acrescentar, visto estarmos num grupo de adultos que, mais previsor que Xiko K., mais decidido que o macedônico Fernández, tomarei em minhas próprias mãos o Destino, por assim dizer, de tais rascunhos inconseqüentes! Aproveito a oportunidade para agradecer ao nosso analista do sistema o novo impulso que deu à minha vida, obrigado, Herr Doktor Young Froid!

A partir de hoje ninguém mais, eu disse NIN-GUÉM, virá a lucrar, em fama ou dólares marcados, com a obra d’Ele Eu Mesmo!

Sim, voltemos ao redil, meus fiéis e caros compatriotas, disse enquanto devolvia o Colt ao coldre, antes de oferecer uma rodada de tequila a todos os figurantes.

Pois então, eu nunca incluiria, como poderia vir a ser comprovado facilmente, se as minhas anotações viessem à luz de néon das vitrines, contra todas as disposições em contrário devidamente explicitadas no meu testamento, este sim a ser publicado em edição bilíngüe por um testamenteiro prestativo, nunca incluí, melhor dizendo, o fato desportivo de sempre ter escolhido jogar de goleiro no meu time, ao invés de correr como os outros rapazes, na pitoresca expressão de nosso diretor de cena, russo naturalisticamente. É bem verdade que entre meus papéis poderia ser encontrado um texto confidencial que trata do assunto sob um ponto de vista insólito À maneira de Anton Pavlóvitch, meu caro!, zomba já sabem quem. Nele, antecipo-me a declarar, evitando equívocos  difíceis de desfazer e qualquer aproximação temática com o livro de Piotr Manke, explicações a posterior soam sempre pouco convincentes,  não me detenho a analisar Os Pathos do Guarda-redes ao Por de Sol, antes, trato da deficiência qualitativa do último defensor da cidadela por excesso de senso de justiça. Não fossem meus artigos serem incinerados na pira comum do esquecimento coletivo, e convidaria o leitor virtual deste a conferir a verdade naquele.

Tenho por fórmula, vício ou princípio estrutural, ou tudo isso ao mesmo tempo, usar três itens, e/ou motivos, no mínimo, em cada um dos meus escritos. Mania inofensiva, inda mais sendo eu meu único leitor, os outros, já sabemos, eles os açambarcaram.

Desejo encerrar  minha participação neste magno evento com a coda de uma pecinha despretensiosa para violoncelo solo, o arco empunhado por mão inspirada, embora inexperiente, poderia escrever um deles, parodiando meu estilo lírico dos sábados à tarde e das festas juvenis, às que compareço no caráter de paraninfo.

Datas são motivo recorrente de Grishka, Vladímir Vladimiróvitch faz uso do tema musical de modo nem sempre importuno. Numa bagatela, curiosamente muito popular entre os tradutores, calha acontecer a dupla citação do título de uma sonata para violino e piano, citação bifronte, para falar com propriedade, e tanto russa quanto germânica. Grisha Gueorguévitich leva sua paixão pelo calendário ao ponto de datar uma dessas imprudentes notas americanas (sic) que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho e cor, apresso-me a acrescentar. Tal imprudência, em sua hora, foi sábio conselho de economia de Henry Ford, o dos carros, ao então presidente dos USA, cujo nome lhe esquecemos.

Houve um compatriota nas noites de exílio, que para preencher a solidão, antes de ser capaz de comunicação com os nativos, segundo prezam dizer os anglo-americanos nos seus filmes de “aventuras”, como alguém recém chegado a Zembla, ou que sem notícia prévia aterrizasse em Tlön, dedicava-se a compor equações verbais. Por motivos óbvios, como a seguir se verá, guardo apenas uma, e esta incompleta. No caso, uma simples seqüência. Outras havia que por sua complexidade e número de componentes, seria impossível conservar de cor (vinham nomes antes de): O Henry-Henry James-James Joyce-Joyce Cary; seguiam-se outros nomes de escritores de língua inglesa e a seqüência tendia a se sintetizar: O Henry-James-Joyce-Cary, antes de passar para o segundo estágio, que permitia a convivência de diversas entidades na mesma instância: HenryFordMadoxFord, eis um nó que a memória se nega a desatar, and so on.

Porque intuo algo semelhante em relação a eles, disse abanando as mãos como se eu estivesse na sua frente e não atrás, como determina o regulamento Fora as costumeiras revelações indiscretas que sem pejo de ferir alguém despejam periodicamente na imprensa, visando uma publicidade de gosto duvidoso, se não descaradamente deplorável.

Por Alá!, exclama o oleiro, pois a argila resiste à pressão dos dedos, insiste em permanecer argila, nega-se à curva que em vão as palmas das mãos tentam lhe impor. Porque o tempo urge, ele é obrigado a apresentar os dados como o acaso os lança. Que o leitor se avenha, que se agarre como se agarrar possa, brada a pancarta fincada na arena deserta, à espera dos contendores, cada qual com sua razão e preferência.Lavamos as mãos, poderia ser o anúncio de sabonete que aqui promovemos a divisa, porque Volódia, na talvez única referência de Grishka, que até lhe esquece o nome, embora insista em que queria e queria se lembrar, e só vem a a ser identificado pelo jornalista que o entrevistava ao mencionar Manolita, título do seu romance mais popular, já que não seu melhor livro, atrevemo-nos a dizer, Volódia, dizíamos então, teria declarado, segundo a citação de Grisha, que pretendendo organizar uma antologia de páginas mestras da ruski literaturï, não consegue incluir nenhuma de Dosty Prosa russa, dissera Gueorgui Gueorguévitch na entrevista, mas eu gosto de tomar-lhe os modos, é minha pequena e secreta vingança. GG às vezes cita em galego e imediatamente transcreve a expressão do original anglo-saxão, já V.V. manipula o english, o Deutsch, o français, o ruski e num romance quatro palavras no idioma de GG, e depois (entre parênteses) a versão na língua em que o texto esteja sendo publicado, se bem que outras vezes o processo seja inverso. Volódia, numa das menções que faz a Dosty, poucas se comparadas com o número de vezes que a patriarcal figura do conde Liev Nikolaiévitch comparece à sua obra, lembra que Fiódor Mikhailóvitch é o autor de O Duplo. Por mera coincidência, percebe?, é o mesmo conto que O Outro cita em Cambridge, ao norte de Boston, faz questão de frisar, hum! Para completar a equação, sou tentado a acrescentar O Farsante e O Idiota e por que não Os Falsários?, este de autoria de MB, o que equivale a duas equações de segundo grau ou equação dupla: plural e autor novo na lista, este, por sua vez, poderá representar uma nova e tripla equação: judeu-“tcheco”-de língua alemã, condição esta  que o autoriza como possível matriz de outras equações. Para fim de conversa, sua conseqüência lógica aporta um título que poderá servir de corolário, caso renunciemos ao Mundo Antigo ou limitemos nosso campo de jogo ao calendário gregoriano ou a qualquer outra instância, todas arbitrárias, que exclua o plural e/ou os poetas latinos: A Metamorfose (Die Verwandlung). (Ufa!, esta foi de lascar. – Nova interferência, ou contribuição, como quiserdes, da Mão Anônima  – N. do C.).

Meu Leitor, se tal entidade existisse ou viesse a existir, não deveria estranhar o tom deste depoimento. Tenho vivido a ambigüidade desde William Wilson até Veinticinco de Agosto, 1983, com parada obrigatória no estranho caso do Doktor Kafka und Herr Max Brod. Sou O Escamoteado, O Inominável Homem das Neves, segundo estamos cansados de ouvir!

Nesta altura parece que o texto deveria se juntar ao rol das obras que tenta desmascarar, salvando as distâncias, naturalmente Tal seria o caso, em verdade vos digo, se a palavra viesse à luz, meu Pai não permita. Ela explicaria de uma vez por todas aquelas e muitas outras falácias literárias, bastaria conferir a variedade de nomes  com que O Outro comparece  na escritura para saber que estão a falar de mim.

Não há necessidade de se estender sobre o número de vezes, que Volódia usa e abusa da figura que nos ocupa (Eu, hein?). Que eu saiba, nunca alude a GG. Ignorância? Vingança? Álibi? Hum! O Mundo Existe Porque Eu o Contemplo, o dístico, grafado em grave alfabeto antigo, resume a atitude deles a meu respeito. O célebre professor Jotabson respondeu à consulta sobre Vladímir Vladimiróvitch lecionar literatura: não se convidam elefantes para dar aulas de zoologia. A apropriação do pronome EU pelo narrador que estamos a tratar, parece-me suspeita, excessivamente enfática, declaradamente autoritária.O caso não poderia ser mais simples do que prevê nossa terapia, Herr Doktor? No que tange à minha vida particular sabemos a quê nos ater, não é verdade?, e o leitor não tem nada com isso (Leitor em caixa baixa, senhor Raimundo, pois é do comum que se está a falar, apesar da caixa alta do leitor desta frase, assim tratado por força das circunstâncias. – A Mão Anônima não se rende! – N. do C.).

Nada cobiço, sequer pretendo figurar na Obra de Alguém, apenas reclamo o meu quinhão do que quer que seja neste emaranhado de temas que não tem Todorov que desate. Justo é reconhecer, contudo, que Volódia foi mais generoso, deixando pelo menos um texto no qual ocupo o lugar de honra, honra entre aspas faz favor brigado, segundo é fácil deduzir de um trecho de conversação registrado em Volódia’s Dúzia, na nova ortografia de Pindorama, conversação na qual me acusa de ter levado a passear sábios cidadãos de Sião  por Belgrado-Berlim-Bruxelas, tome nota da letra inicial destas cidades, que está a pedir  capítulo aparte Por que não Adis Abeba-Azul-Aracaju, hein? E para confirmar o assunto em pauta, o qual seja descarregar nas costas de outrem o peso das conseqüências de nossos próprios erros, não é assim?, me atribui desígnios mesquinhos, e quando por fim se estabelece em Boston, outra vez a escarlate letra do substituto, e agora não é Edgar Allanitch Poesky, intrinsecamente ligado a quem vos fala pelo signo de Capricórnio? E naquela metrópole do norte, custava-lhe escrever Antofagasta?, acredita ter se libertado da presença homônima, eis que continua a receber mensagens da outra existência, da qual finalmente se livra concedendo ao chantagista o pequeno valor pecuniário por ele exigido, valor este, diga-se de passagem, que nenhum extrato da minha periclitante conta corrente chegou a registrar.

Eu disse, retomando o fulcro narrativo, que Volódia foi mais generoso, e não só pela modesta quantia paga mor de se ver livre da presença incômoda, ato tanto mais fácil de realizar visto ser apenas virtual, ficcional, como se dizia antigamente. Porém, peca do mesmo defeito de todos os anteriores. Atribui aO Outro o nome do narrador que, a bem da verdade, ficamos sem conhecer, visto V.V. se recusar a revelá-lo na peça literária sobre a qual estamos debruçadas com afinco, procurando concluir nossa tese de mestrado Ensaio ao Crepúsculo, Forjei este título poético hoje, ao alvorecer, enquanto Ele repousava olimpicamente nos braços de Morfeu e eu e minhas colegas de turma, umas graças!, retoiçávamos pelo campus universitário, longe do labirinto acadêmico e seus meandros burocráticos Russifique tudo, minha querida (moya dushen’ka)!

A sinonímia, mezhdu prochim (por falar nisso), tem se mostrado o recurso mais acessível para tratar literariamente a anomalia em questão, e que segundo o próprio Volódia, no mesmo volume de suas obras completas, o ilustre Doktor Herman Brink denomina singelamente Mania Referencial. Porque é desta rica variante de interpretação do universo que estamos a tratar, de maneira um tanto parabólica, se se quer, conforme sua natureza sutil, não do grosseiro Conheço você de algum lugar!, com que os motoqueiros e outros sátiros motorizados ou de veículos de tração a sangue, skatistas (sic! sic! sic!) e patineurs, mormente, costumam abordar ninfetas de melenas fulvas, ainda que artificiais, que sem segundas intenções transitam vespertinamente pelas veredas destes tristes trópicos Tem se insinuado no presente estudo que a sinonímia é o modo mais fácil de se atingir O Outro, será também a mais eficaz?Hum! por assim dizer, diz meu Orientador, desorientado. Por exemplo, exemplifica, Jota Cortazarévitch, dizia eu, continua dizendo, tentou uma variação que eu não estou certo de que seja a melhor,  mas enfim, é uma variante, e é disso que estamos a tratar, não é? Assim ele, com neopravdannay a zhestokost’ (crueldade injustificada), opta por uma alternativa em que O Original, por assim dizer, topa com O Outro em gestação, digamos assim, para variar. Destarte, O Outro, O Duplo, a bem dizer, é encontrado pelo original (atenção, Sr. Raimundo, na grafia de eu, o outro, original. Aspas e caixa baixa terão alternância com caixa alta e omissão de aspas, segundo o narrador ou o usurpador tomem a palavra. Está-se de facto a se cercar a fortaleza e conto com seus inestimáveis préstimos para levar a bom termo esta cruzada. De mais a mais, dispenso suas graçolas lisboetas, como já disse algures e nem é bom repetir, mor de pouparmos o leitor do censurável espetáculo de nossas desavenças. Aliás, para por em pratos limpos as nossas relações, desejo explicitar que se naquela lamentável história  durante o cerco de Lisboa, eu disse ao editor Não é morte de homem, foi porque tenho apreço por si e sou da opinião de que todos temos o direito ao pão de cada dia enquanto não se for convocado a comparecer à bela Estocolmo (Gamla Stan) às vésperas de seu crudelíssimo inverno (vide postais anexas). Facto este fatal, o da convocação, para os escribas e do qual, quer me parecer, futuramente nem os modestos revisores estarão livres, ora que até um autor de língua lusitana (deixemos assim, provisoriamente) foi contemplado com o galardão máximo da solene Academia Sueca (toda adjetivação é insuficiente ao se falar da Veneza nórdica e de suas instituições). Ficam a advertência e os meus cumprimentos, prezado senhor, e deixe-me rematar o parágrafo para ir dormir, que já são quase seis horas da manhã. Isto tem de bom o gênero anotação: não precisamos pedir desculpas ao leitor pela digressão (nem pela cacofonia! anota a famosa Mão – N. do C.) E foi assim, minhas crianças, que o Cruel Original, havendo detectado O Duplo na adolescência, pálida rosa amarela, decide-se pelo final do jogo dovol’no skucho (é uma pena!), e interrompe o processo evolutivo daquele que viria a ser Ele, se este não tomasse as devidas providências. Não me pergunteis de que jeito  efetua seu intento, satisfazei-vos com meu relatório e observai que o epíteto com o qual Ele é identificado nesta sentença, revela-se suficientemente explícito para merecer maiores comentários, pois não? Moral da história: mais uma vez o Doktor Young Froid e eu fomos ludibriados! Eto unizitel’no (é humilhante)! Aqui se interrompe o manuscrito ou, se houver continuação, não acerto a encontrá-la na barafunda de minha mesa. Passarei então ao datiloscrito, no dizer de Volódia, depois de um sono reparador e quero crer bem merecido.

Eis-me aqui, novamente, acorrentado e a remar ao ritmo do tambor, e neste mar, não é menor o perigo pelas vagas serem pátrias Po razschyotu do moemu (pelas minhas contas) tendes apenas mais dez minutos de consulta, interrompe-me cerimoniosamente o Doktor Young Froid, pretendeis tocar o barco a toque de caixa alta e baixa, ou preferis que peneiremos vossa infância? Quais as cores que vos inebriavam aos três meses de idade? Na escrita usáveis com dupla freqüência o signe de interrogação, como é aconselhável? Inquire o bondoso terapeuta, transcrevendo literalmente a construção e terminologia de sua língua mãe, aqui mencionada para não fugirmos demais do repertório dos seus afazeres Falemos de efemérides, peço-lhe para arredondar a deixa Seja, se tal é vosso íntimo desejo Ladno (oquei)!

Não quero abusar da paciência daquele leitor virtual para quem inconfessadamente todos escrevemos, protelando a revelação da efeméride à qual se alude desde o início deste relatório. Trata-se apenas do ano de nascimento dos recrutas Volódia Gueorguévitch e Grisha Vladimiróvitch, general, vide Nabor; Posliédnie Novosti, Paris, 1935 e ou Viesná v fialte, NY, Tchekhov, 1955. Segundo revelaram em seus respectivos ensaios de autobiografia, como se não soubéssemos de quem estão a mangar, hein, Herr Doktor? Se não puder russificar privatize, que está na moda, encoraja-me Vladímir Vladimiróvitch; Speak, memory. An Autobiography revisited, USA, 1947; também Georgie Gueorguévitch Burgov, An Autobiographical Essay, NY, E. P. Dutton, 1970  Zhivo (depressa)! Ambos autores decidiram que tal evento, o respectivo nascimento quero dizer Zhivo! Acontecido no penúltimo ano do século dezenove e por algum motivo que me escapa, é digno de menção. Georgie ou Grisha, que vem a ser o mesmo Zhivo! é mais enfático a respeito. De facto, reitera, em mais de uma entrevista, que 1899 não é o último ano do século, visto a série, toda série numérica decimal, encerrar-se na dezena. Meu não-leitor, por escassez de textos, gostaria de dizer Zhivo! poderá deduzir facilmente que tanto Grishka quanto Volódia centenariam seus nascimentos no ano que não tarda a ter início. Agosto e Abril respectivamente, repare na letra inicial dos meses. Por que, se fizeram tantos esforços  para encontrarem suas vozes literárias, se de distintas formas ludibriaram  minha vigilância, por que, é o caso de se perguntar Zhivo! negligenciaram a publicação deste dado e de outros que me reservo para melhor ocasião? Permita-me discordar do termo negligência, tanto Gê quanto Vô, utilizam o dado além da  constância biográfica. Volódia faz participar de sua festinha de aniversário Shakespeare e Shirley Temple, quanto a Grisha, basta retornar à página 4 deste relatório para encontrar uma referência ligeiramente disfarçada. Oh, sim, ai de mim! a senhora acaba de enfiar a unha na ferida com a precisão de um punhal maneirista na mão primorosa do madrigalista Carlo Gesualdo, príncipe de Venosa. É justamente esse trecho da  Memory de Volódia Vladimiróvitch que se insinua na primeira página  deste relatório E se a senhora quiser mais um dado revelador do complô, ei-lo, dois pontos, Volódia convoca Shakespeare em suas Memory, Grishka aloja na memory do mesmo bardo britânico a data do seu natalício, ligeiramente disfarçada, como monsieur A, está entendendo? Dupin pode facilmente deduzir Feche a boca e comprove  minha afirmação na Obra Completa, insisto, d’Os Outros Como vê quis supor um descuido inocente, Padre Brown, porém o tiro saiu pela retaguarda, isto porque testemunhas desqualificadas deram sua contribuição ao enredo, enredo no mau sentido, claro, e agora o leitor deles está mais perdido que cachorro em caminhão de mudança, que o meu leitor, se o tivesse, sempre saberia a quantas andamos e que estamos entrando na reta final ou cerimônia de encerramento do encontro fortuito de duas bengalas e uma máquina de escever sobre esta escrivaninha Zhivo! e que o texto conclui com um dos truques preferidos pelos velhos magos, o qual seja a duplicidade dos protagonistas e a incógnita do significado da revelação Perguntar-se-ia o meu leitor, qual a intenção ao desvelar, ou relembrar(lhe) tal efeméride Zhivo! Eis algo que estou incapacitado para responder sem admitir, a socapa, que o sentido talvez seja também uma incógnita para o redator desta Crazy’s Memory, pois em virtude das peripécias de nossas atribuladas existências, vemo-nos obrigados a ditar e transcrever, respectivamente, suprindo a visão ausente de um dos personagens, o desconhecimento quase total do galego do outro, salvo aquelas quatro palavras no capítulo de sua obra que dedica a esse idioma e que nesta pressa não atino a achar, e a precariedade pecuniária do terceiro, como já alguém revelou algures, temos dito! Bem dito, meu caro Jota Elle, e no tempo regulamentar!

Mozhno pridti teper’, bárin (posso ir agora, patrão)?

CHARLES CHAPLIN : “O ÚLTIMO DISCURSO”

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio … negros … brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem … levantou no mundo as muralhas do ódio … e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem … um apelo à fraternidade universal … à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora … milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas … vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia … da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais … que vos desprezam … que vos escravizam … que arregimentam as vossas vidas … que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina!
Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar … os que não se fazem amar e os inumanos.
Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela … de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo … um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

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no filme “O GRANDE  DITADOR”.

É proibido fumar! – por jorge barbosa filho / curitiba


“Diz o aviso que eu li”… “é proibido fumar, pois o fogo pode pegar”…

Lei Municipal 13.254/2009 e Lei Estadual 16.239/2009. “mas não adianta o aviso olhar… pois a brasa que vou mandar, nem bombeiro pode apagar”.

O ato de fumar é tão antigo como a existência da humanidade. Fumávamos para misturar o azul da fumaça com o azul das estrelas, e mais, bebíamos para não distinguir as ondas dos copos, dos corpos das mulheres e as ondas do mar batendo em nossas bocas.

Bebíamos e fumava-nos (per fume) para nos fazer poesia…

Tudo era uma distração após dias de trabalho! O Fumo e a bebida ante um worksong!

Nos bares cada vez mais…

O cachimbo dos pretos, a chanupa sioux, o caminho da fumaça, e onde há fumaça, há fogo!

Fogo!

Quanto prazer negado pelo “politicamente correto”…

Onde meus amigos negos, são afrodescendentes, e meus amigos bichas, são homoerógenos…

Quanta babaquice em nome da polidez, hipocrisia e conveniência de nossa covarde classe média…

Tudo bem! Fomos proibidos de fumar em estabelecimentos públicos em nome dos defensores da Saúde, dos ex–fumantes, dos cancerígenos mentais…

Tais… como o Hospital do Câncer, na Cruz Vermelha , no Rio que levou muita grana com os fumantes desavisados… Muita verba gasta sem necessidade. Poderíamos prevenir! Câncer, Câncer!

Preferimos gastar com a conseqüência… ao invés da causa

Tais…como eu te amo!

Meu avô fumou até os 95 anos, e trepou mais que isto,  meu pai até os 56!  Fumando e galinhando!

Fico vendo o vendedor de cigarros oferecer no bar o que tem pra fumar! Como seus pacotes de Hollywood, Malrboro, Derby . etc. Os bares proíbem, mas ao mesmo tempo fornecem.

A gente tem fumar (o quê?).

É proibido fumar!

“Diz o aviso que eu li”

“No entanto a maconha no Brasil foi liberada, na cara dura, na frente da polícia… Até o presidente já fumou… laralara! Eu te amo meu Brasil, eu te amo, meu coração é amarelo, verde, branco e azul anil”. Os Incríveis!

Com esta lei os fumantes são obrigados a fumarem na rua… Na madrugada se expondo a assaltos.

Teve um caso de uma pessoa que foi fumar na calçada, fora do estabelecimento, foi assaltada e ainda sofreu agressões físicas sérias.

Quantas não serão?

Acho que as “leizinhas” dos nossos senhores deputados não chegam a suas casas. Fumam os seus “puros”, baianos e cubanos perto de suas descentes famílias…

Se é Proibido fumar! Pra onde vão as Tabacarias?

Onde ficam os alvarás?

Por que vender cigarros nos bares se É Proibido Fumar! Se neles não podemos fumar!

A arrecadação de impostos em cima do tabaco, só quem ganha é o Governo. Se não me engano deve ser no mínimo 80% de impostos que vão para a União. Para que os filhos- das- putas do Congresso fumem a nossa grana e traguem suas caras-de- pau. Fazendo as nossas de fumaça! Recebendo propinas da Indústria do Tabaco para suas campanhas políticas.

Não podemos agir em cima das conseqüências, e sim em cima das causas. Lembre-se que um Professor educa e trabalha sobre as causas, enquanto um Médico, nas conseqüências… Sempre um remédio…

O professor deveria ter um salário igual ou maior, por tratar da causa e não da conseqüência.

Um remedinho… E o cigarro é um remedinho para controlar a tensão social.

Igualmente aos fumantes de maconha que patrocinam a barbárie em todos os morros do Rio de Janeiro, nossa classe média…

É o que eu digo: Pois É Proibido fumar! “Diz o aviso que eu li”. Por que não substituem os plantations de tabaco no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, por plantação de legumes ou folhas hidropônicas?  Distribuindo pra população para matar a fome!

Por que não “ter um rancho de éter no Texas e uma plantation de maconha no Wyoming”?

Mas É proibido fumar

A caretice tomou conta de nossa classe média que antes topava Vinícius e Tom , mas sem inícios ou tons… Tom, qual tom?

Sem o charuto no ar… “que o fogo pode pegar”.

Diz o boteco que eu li.

Sejamos coerentes, fumemos em qualquer lugar!

Lugar, lugar! Estamos ficando sem lugar!

Tudo bem: “Vou apertar, mas não vou acender agora”.

Deveriam existir bares para fumantes e não fumantes.

Isto seria mais democrático e opcional…

Agora eu e meus amigos compramos cigarros, cervejas e mulheres e levamos pra casa.

Isto ficou mais barato meu caro amigo… um grande barato, até o vizinho reclamar que É proibido fumar!

Viva a hipócrita democracia brasileira!!!!!!!!!!!!

Rumorejando (Socorro! Socorro! O horário eleitoral tá chegando). – por juca (josé zockner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Nem sempre os sinônimos e os antônimos podem ser referidos através da negação de um em relação ao outro, como por exemplo, se você disser “ela não é simpática” não é a mesma coisa que se você disser “ela é antipática”. Pode-se não ser simpático, sem necessariamente ser antipático. Tenho, simpaticamente, dito.

Constatação II (Ah, esse nosso vernáculo).

Cheia de dedos, pediu emprestado à vizinha o seu único dedal.

Constatação III

“O livre mercado provoca instabilidade, desigualdade, empobrecimento e abandono dos mais necessitados. Abre terreno para desespero e violência. Também facilita o aparecimento de líderes carismáticos e fundamentalistas”. (Afirmação do Dr. John Gray, Professor da London School of Economics and Political Science, uma das mais importantes academias e ciência política do mundo, autor do livro Falsa aurora – as desilusões com o capitalismo global).

Constatação IV

O septuagenário jamais quer comparecer aos eventos badalativos para os quais tem sido freqüentemente convidado, com medo de que sua foto saia na coluna social de algum jornal, com os seguintes dizeres: “Fulano de Tal da atual geração imergente”.

Constatação V

Tá certo que nós somos um povo cordato e pacífico e que, por tal razão, não estamos preparados para a guerra. Mas isso, absolutamente, não quer dizer que estejamos preparados para a paz…

Constatação VI

Psicologia feminina: “Perua, são sempre as outras”…

Constatação VII (Com a primeira frase, passível de mal entendidos).

A gente até poderia estar se dirigindo em direção ao 1º Mundo. Mas, os juros das passagens aéreas estão muito elevados…

Constatação VIII

E já que falamos no assunto de 1º Mundo, os programas das televisões comerciais estão a cada dia em níveis tais que não parecem ser nem do 1º, 2º, 3º ,4º ou Enésimo Mundo. Parecem ser de algum outro mundo em via de formação, semelhante à feitura do planeta Terra, conforme nos é narrada na Bíblia Sagrada: “No começo era o caos”…

Constatação IX

Cavalinho recém nascido dá a impressão de que está com os lábios pintados, se é que cavalo tem lábios.

Constatação X (Meio eufemística e tergiversante).

Não se deve confundir redunda com redonda que são coisas totalmente distintas. Redunda tem rima fácil com tunda, cacunda, etc., principalmente etc.; já redonda é, normalmente, a forma do “principalmente etc.” o que não impede de também ter as suas rimas, como com sonda, ronda, onda e por aí afora. Elementar, minha gente.

Constatação XI ( Meio repetitiva, via pseudohaicai).

Comigo, ela não consegue falar

O sânscrito, pelo menos, mais ou menos.

Nem menos o mais rudimentar.

Constatação XII (Teoria da Relatividade para principiantes).

Em certos países, é preferível furar o sinal vermelho e pagar o ônus disso (perda de pontos na carteira de habilitação; perda de dinheiro por ter que pagar multa), do que ser furado por tiros de revólver ou faca, pagando o ônus disso (perda de sangue, da consciência, da vida, etc.).

Constatação XIII (De conselhos úteis).

Depois do famigerado “aumento”para os aposentados, “exulta-te e jubila-te”, quer dizer, vá escutar está obra de Mozart, já que a terapia musical é recomendada pelos médicos. De nada.

Constatação XIV

Não se pode confundir “tenha modos” com “tenha mudas”, até porque, se você mora em apartamento, é muito mais fácil você ter o primeiro que o segundo. Pelo menos, aparentemente, já que, no primeiro caso, depende da tua educação e da tua vocação; no segundo, mais da tua vocação…

Constatação XV

Rico escreve; pobre, garatuja.

Constatação XVI (Ah, esse nosso vernáculo).

Não trema se alguém te disser que a palavra “trema” leva trema.

Constatação XVII

Não se deve confundir Germinal que é o nome de uma obra do escritor Emile Zola, levada ao cinema pelo diretor Claude Berri, com terminal, muito embora a demora do ônibus em um ou outro terminal permitiria de se ficar assistindo o filme até o fim, mesmo sabendo-se que é de longa metragem…

Constatação XVIII (Via pseudohaicai).

Tchimbum!

Mergulhei de novo nos doces

Quebrando meu efêmero jejum.

Constatação XIX (Via pseudohaicai).

Nada mais que um arrufo

Foi o que ela teve

Com o hipócrita, o tartufo.

Constatação XX

Em certos países, viver é uma arte,/ sem que um trinta e oito te descarte.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I (De antigamente).

Foram os nubentes

Que já iam se agarrando,

Totalmente carentes ?

E o padre, ali, esperando ?

Dúvida II (Via pseudohaicai).

Foi depois daquela festa

Que o maridão começou a ficar

Com certos problemas na testa ?

Dúvida III

A troça, o riso de escárnio, o deboche são auto defesas dos complexados burros ou dos burros complexados ? (Cartas. Obrigado).

Dúvida IV

Joaquim!

Diga pra mim

Se é o fim

Escrever,

Ou ler,

Fim,

Em tupiniquim,

Assim:

Fin ?

Dúvida V (Via pseudohaicai).

Foi o Fernando*

Que andou

Pererecando ?

*Não quer dizer que, necessariamente, seja(m) o(s) Fernando(s) que vocês tanto conhece(m). Pode até ser outro totalmente desconhecido. Vá lá um saber…

Dúvida VI

Se “interechá” quer dizer se interessar por uma chávena de chá ? (Perdão, leitores).

Dúvida VII

Pouco lhe importa,

Minha senhora,

Comer torta

Fora de hora,

Sem oferecer

Também

A alguém

Que lhe quer

Tanto bem

E está a sofrer,

A esmaecer ?

Pouco lhe importa,

Hein, hein  ?

Dúvida VIII

O meu time Paraná não ia melhorar, segundo os novos dirigentes?

Dúvida IX

Elefante assoa a tromba quando está resfriado ? E, em caso afirmativo, qual é o tamanho do lenço?

Dúvida X

O Brasil tem milhões de analfabetos, a saúde tá um caos e tem a petulância de falar em 1º Mundo. Falta de sentido de observação ou de desconfiômetro mesmo ?

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

JANELAS PARA SE LER – por lucas paolo / são paulo

Janelas para se ler

Para Laura

… e nas janelas vislumbrar longe, portas presumem ser mais vantajosas, mas são as pequeninas frestas que permitem enquadrar o mundo: entrever o espaço: perceber o tempo: rever a vida:… e o Mundo vai se criando numa brincadeira eterna, pois tão divertida, imaginar-se por através destas molduras vazias, cada piscada é a revelação de uma metamorfose, milhares de inusitadas árvores: lagos: flores: condores:… e atentá-las é pintar o porvir, pinceladas cosmogônicas no que ainda não se significou, matizes de viver: brilho de observar: sombra de divagar: esfumaçamento de sonhos:… e transpassar os vidros, ver por depois das janelas, o cubismo de pessoas no metrô: o expressionismo nos espelhos: Dada na televisão: a natureza morta nos outdoors: o impressionismo no soprar do vento: o surrealismo de um sorriso:… e talvez as palavras, perpassar o contorno das minúsculas letrinhas…

A letra “P” – Apenas a língua portuguesa nos permite escrever isso: (autor desconhecido)



Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir.

Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas.
Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris.
Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas.
Pisando Paris, pediu permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se.
Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo… Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. – Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo.

Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para papai Procópio para prosseguir praticando pinturas.

Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? Papai – proferiu Pedro Paulo – pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal.

Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando.
Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito.
Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo pereceu pintando…
Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar… Para parar preciso pensar.
Pensei. Portanto, pronto pararei.

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ilustração do site. tela das “COBRAS PINTORAS“.  veja mais pinturas AQUI.

Rumorejando (Será que efetivamente vão lançar no mercado cuecas e meias com fundo falsos, perguntando). – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De diálogos desencontrados).

Exclamou a mulher que estava ao telefone: -“Caiu a ligação”.

Quis saber o marido que estava lendo o jornal: -“E ela se machucou ?”

Constatação II (De diálogos esclarecedores).

-“Afinal, aquele esquema de reencontros, de aproximações sucessivas para reatar com a tua ex-mulher acabou ocorrendo ?”

-“Que nada. Arrumei uma outra, muito melhor”…

Constatação III (De elucubrações, com conselhos úteis).

A palavra caduca pode ser escrita também da seguinte maneira 2k+du, senão vejamos:

Caduca, colocando em evidência “ca”, segue-se: ca(1+1)+du = 2ca+du; ca = a constante k,  donde caduca = 2k+du, c.q.d.*

*Se você ainda não aprendeu c.q.d. quer dizer como queríamos demonstrar, conforme Rumorejando já andou divulgando em tempos imemoriais.

Constatação IV (De resposta “bazofiamente” “gabola”).

“Você conseguiu resolver aquele problema que eu depois de mil e uma tentativas não consegui ?”

“Claro! Não só resolvi como achei a solução muito fácil, muito elementar”…

Constatação V (Via pseudo-haicai).

Procurou, com acuidade,

Uma rua, sem buraco, lá,

Na sua “desadministrada” cidade.

Constatação VI

Quando a gente estudava no ginásio, a Cadeira de História do Brasil, os livros e os professores, da época, enalteciam os Bandeirantes, sob a alegação que eles desbravaram o interior, abrindo novos caminhos, quando, na verdade, iam em busca de riquezas, como qualquer povo colonialista fez em todos os tempos, seja na América, Ásia, África, nesses continentes todos, enfim. O que os Bandeirantes escravizaram, torturaram e mataram índios, dificilmente é abordado, como a  História Oficial deveria. Tá na hora, pois, de revisá-la. Mormente, levando-se em conta que já comemoramos os 500 anos do descobrimento que só foi na base de oba-oba.

Constatação VII (De respeitosa mensagem aos senhores filólogos).

Assim como existe a figura do livreiro – não me refiro somente ao vendedor de livro, mas aquele que te orienta, uma vez que também costuma ler as obras do seu estoque –, existe, também, o “videolocadeiro”. A sugestão, do neologismo, fica aqui consignada para a sua respectiva adoção. De nada!

Constatação VIII

Não se deve confundir faturamento com futuramente, muito embora todo e qualquer faturamento que seja contra a nossa douta e ilustre pessoa poderia e deveria ser feito futuramente, isto é, adiadas sine die e sem juros. No caso do faturamento ser feito por nós, seria de bom, muito bom, de ótimo alvitre que fosse para pagamento a vista, sem desconto. Aliás, foi agindo dessa maneira que um comerciante descobriu como “tirar proveito em tudo”, tão em voga hoje em dia em vários setores…

Constatação IX (Via pseudo-haicai).

O gerente ficou tiririca:

Ao invés de assinatura

Uma ilegível rubrica…

Constatação X (Ah, esse nosso vernáculo).

Eles foram educados, para serem educados. Qual o quê !…

Constatação XI (Via pseudo-haicai).

Esgueirou-se do hospital.

Assim, sobreviveu

A mais de um carnaval…

Constatação XII

As estações do ano estão se antecipando em um mês. Talvez pelo fato da Terra estar se inclinando. Mas, com toda a segurança, não deve ser pelo peso da consciência da Humanidade. Principalmente daquela que se considera civilizada. Muito menos, da dita que se arvora a civilizar os outros…

Constatação XIII

A fim de, em tempo algum, não ser acusado de machismo, Rumorejando sugere que nas conjugações dos verbos também sejam incluídos os pronomes femininos “ela” e “elas”. Exemplo:

Eu rabisco

Tu digitas

Ele escreve

Ela datilografa

Nós garatujamos

Vós “vernaculais”

Eles redigem

Elas transcrevem.

Outro exemplo:

Eu digo

Tu sussuras

Ele declara

Ela resmunga

Nós falamos

Vós exclamais

Eles balbuciam

Elas fofocam.

Constatação XIV

A amiga da japonesa grávida, que há muito tempo não a via, perguntou simpaticamente:

-“É um japonesinho que vem vindo aí ?”

-“O Kenitiro, meu marido, que você ainda não conhece e que também é japonês, espera que sim”…

Constatação XV (Teoria da relatividade para principiantes, não necessariamente apenas pros vetustos, óbvia).

É muito melhor sofrer de priapismo – excitação sexual excessiva – do que de impotência – “desexcitação” sexual excessiva.

Constatação XVI

Efetivamente, num aspecto, as mulheres já se igualaram aos homens: as mesmas barbaridades que eles cometem no trânsito, elas também estão cometendo…

Constatação XVII

Sob condições normais

De pressão e temperatura,

Ela, sem seus percais,

Mereceria uma moldura…

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I

Foi o fabricante de parafusos, aquele que tinha um parafuso a menos, que, com as medidas governamentais, entrou em parafuso ?

Dúvida II

Se, eventualmente, o psicanalista conhece e não gosta da pessoa de quem a gente, na sessão, está se queixando e/ou falando mal, não é ele que nos deveria pagar a consulta ou, pelo menos, fazer um razoável desconto ?

Dúvida III

“Me diga, prima: Prima pela ausência a prima do teu primo ?”

Dúvida IV

É mentira, ou verdade, que é mentira ?

Dúvida V

Se os franceses fossem tão apaixonados por futebol como nós, brasileiros, e se não existisse no seu hino nacional o “le jour de gloire est arrivé”, o dia de glória chegou, será que, depois de haverem levantado a Copa do Mundo – vencendo na final, estrondosamente, o Brasil –, será que eles acrescentariam esse tão patriótico trecho ?

Dúvida VI

A alternativa para fugir dos remédios com efeito colateral é recorrer à medicina alternativa ou existe alguma outra alternativa ?

Dúvida VII (De um diálogo com a famosa rima em “ão”, tão raramente usada…)

-“Não é a televisão

Que deixa teu patrão

Mais bobão ?”

-“Meu caro irmão,

Se isso não,

O que, então ?”

Dúvida VIII

Sabendo-se que as ostras somente elaboram uma pérola quando doentes, se alguma espirasse perto de você, você exclamaria “saúde!”, com sinceridade ?

Dúvida IX (Via pseudo-haicai).

Uma derrota do Brasil

Ou do teu time, também te deixa

Uma sensação de vazio ?

Dúvida X (Via pseudo-haicai).

À perspectiva de eleição,

Você também considera

Uma encheção ?

Dúvida XI

Era a atriz que, esperando sua vez de entrar no palco, ficava, no bastidor, bordando com bastidor?

ENTÃO É NATAL – por “o ruminante” /belém

 

Lá vou eu mais uma vez me meter onde não devo, porém não resisto. Estamos a 30 dias do Natal e mais uma vez temos as mesmas coisas de todos os anos, mas jamais uma mudança efetiva na direção que a data celebrada requer.

O que segue eu já expus publicamente quando meu pai pediu que eu preparasse uma mensagem de Natal para o almoço do dia 25 de dezembro de 2008. Não sei se agradou, mas não me disseram qual era o tema e ninguém reclamou. É a primeira vez que eu escrevo este texto, pois no dia foi só conversa mesmo.

Particularmente não gosto quando me pedem para fazer este tipo de mensagem, em parte por minha forma de enxergar o mundo, em parte por estas exposições afetarem uma cultura profundamente arraigada e, principalmente, por eu passar por chato no final de tudo em muitas das vezes.

Se observarmos com o mínimo de cuidado a “Época” de Natal, vamos perceber que diversos jargões surgem como: “É tempo de Paz, de amor, de esperança, de ajudar as pessoas, et cetera.”

As casas são enfeitadas e as pessoas começam a se preparar para um momento de confraternização “cristã” onde as pessoas devem se unir para celebrar.

A generosidade aflora de forma ímpar, pessoas pobres recebem ajuda de todo os lados, caixinhas recebem donativos para melhorar o Natal de grupos como porteiros, faxineiros e outros.

Tudo isso é muito bom, muito legal, mas tenho alguns pontos que eu gostaria de avaliar com um pouco mais de calma.

Aos que se dizem cristãos eu gostaria de saber se há alguma referência de Jesus nos dizendo que no período de seu nascimento é que nós deveríamos nos tornar pessoas melhores? Eu tinha entendido que deveríamos amar ao próximo em todo o tempo.

Por que exatamente nós resolvemos fazer caridade nesta época? E o resto do ano, as pessoas não precisam de ajuda? Seria somente nesta época que Cristo pediu que tivéssemos compaixão pelos necessitados?

Se, durante este período, tirarmos tudo que é considerado tradição, como as comidas típicas da época, os enfeites, as música, a troca de presentes e algumas outras coisas, o que sobra é cristianismo?

Talvez a nós melhor fosse pegar toda a comida que nós reunimos para as celebrações e, entregando para quem nada tem, fossemos para nossas casas dormir envergonhados.

Não sou contra nos reunirmos para celebrarmos o Natal, pelo contrário, mas há muito que a grande maioria se esqueceu o que realmente estão fazendo nestes encontros, os quais podem ser feitos a qualquer tempo para a celebração do nascimento, vida, morte e ressurreição daquele que muitos acreditam ser o Cristo, a saber, Jesus.

O óbvio da força comercial da data nem perco meu tempo ruminando, pois todo mundo já comenta se achando especial por ter percebido algo tão explicito, mas a base do que as famílias dizem celebrar eu não concordo e não acho que esteja sendo feita da maneira correta.

Se você não se ofendeu comigo, nem me mandou àquele lugar durante esta ruminada, pense um pouco sobre o assunto e faça um Natal diferente este ano.

PROMESSAS DE CASAMENTO por martha medeiros / porto alegre

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento a igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre. “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?” Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:

– Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
– Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
– Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
– Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
– Promete se deixar conhecer?
– Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
– Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
– Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
– Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
– Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros.

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ilustração do site.

ALEPH NÃO QUER ME DAR O MUNDO – por zuleika dos reis / são paulo

Não sei quantos é Daniel: no mínimo dois. Ao segundo, que identifico, darei o nome de Aleph, nome da primeira letra do alfabeto hebraico, também de um livro e de conto de Jorge Luis Borges, conto no qual o termo Aleph indica o ponto no espaço de onde se podem ver todos os demais pontos do Universo.

Quando vi Daniel pela primeira vez, olhei seu rosto de musgo e neve e não pensei em nenhum profeta bíblico nem no rosto talhado entre os rochedos, nos rochedos do conto de Hawthorne.

O rosto mudo, de pedra, do conto de Hawthorne. Mas este é o rosto de Aleph, não o de Daniel. O rosto mudo de Aleph, ou melhor, a boca muda de Aleph, perdida de algum verbo original.

Não, não é exatamente muda. Dela, um sopro primeiro, leve sopro que vai virando respiração e, dependendo do que lhe digo, o que se tornou respiração vai se alterando muito, quase se transformando num grito, mas não chega a formar uma sílaba, que uma sílaba seria o começo da palavra, e a palavra já é o mundo. Aleph não quer isso, só me ouve como se eu fosse o Demiurgo. Aleph me ouve como se de minha fala lhe pudesse vir o ser, o ser dele mesmo ou o ser de Daniel, Aleph é consciente desta hipótese? Aleph quer que o mundo lhe venha de mim.

Eu tento, tento, mas sei que o que quero é chegar a Daniel, desesperadamente chegar a Daniel, através de Aleph. Chegar a Daniel, que não consegue nunca sonhar plenamente com seu próprio rosto, assim como jamais consigo sonhar plenamente com o meu próprio, coisa que só comecei a compreender de verdade depois da vinda de Daniel.

Qualquer semelhança é e não é mera coincidência. Escrevo tal frase assim como a advertência em um livro ou em novela de TV, para suportar o desespero, esse que me dá vontade de sair gritando pelas ruas ou de gritar a Daniel, pelo telefone, o seu verdadeiro nome, o nome que consta em sua certidão de nascimento, o mesmo pelo qual as pessoas o conhecem. O pavor de ter enlouquecido sozinha ou de ser a presa de uma outra Vontade, em um jogo inimaginavelmente cruel, obriga-me a um quase sobrenatural esforço, a fim de alcançar um mínimo de sensatez, e aí corro para Rubem, para enlouquecer do modo diametralmente oposto, sempre carregando e mantendo a certeza de que o meu pesadelo é maior do que os deles dois, somados. Rubem não sabe de Daniel-Aleph nem Daniel sabe o verdadeiro nome de Rubem e, de mim, cada qual colhe a metade que conhece e que sabe administrar.

O homem chamado Daniel não corre o risco de ser identificado, a não ser pelos seus porta-vozes, esses que ele utiliza para saber se estou aqui, em minha casa, com minha mãe, digamos num sábado à noite. É verdade que jamais descarto completamente a possibilidade de o mundo ter se tornado uma alucinação auditiva, embora tal hipótese seja algo indescritível, à Poe. Ligo todas as possíveis e impossíveis antenas para tentar apreender a verdade e creio que suportaria qualquer uma, qualquer, tendo, no entanto, que me resignar em cada segundo, na eternidade de cada dia, a este suplício inimaginado pelos deuses, até que o homem Daniel se transmute no Anjo da minha vida.

FILHOS, seus medos, meus medos – por marilda confortin / curitiba

Levei anos para convencê-los de que fantasmas não existam e que os barulhos que ouviam eram de seres vivos, inofensivos.

Fiz de tudo para que perdessem o medo do escuro, dormissem sozinhos, seguros.

 

E eles cresceram…

 

Hoje, sou eu quem teme os barulhos da noite.

Sirenes, disparos, gritos, freadas, gemidos, uivos, gargalhadas.

Morro de medo de ficar sozinha e não durmo enquanto não chegam em casa.

Desminto tudo o que eu disse sobre fadas e super-heróis. É pura crendice!

O que existe são homens cruéis, mulheres malvadas, seres invisíveis, drogas, pragas, vírus terríveis, doenças fatais.

O mal existe, meus filhos. E é muito real.

Riem como se meus conselhos fizessem cócegas, os pentelhos!

A menina, fica uma hora na frente do espelho,  diz que o chapeuzinho vermelho não ta com nada, que o lobo mau é um “coisarada”, tudo de bom, um cara legal.

Acha normal usar piersing na orelha, na sobrancelha, na língua, no umbigo, nos lábios (pequenos!), fez uma tatuagem nas costas, gosta de balada, ilha do mel, futebol, cerveja e o escambau. Diz que não é para eu me preocupar porque ela vai casar com um czar e morar num harém. Amém.

O menino, ainda acredita em super-heróis, vampiros, lobisomens, sei lá o quê e continua jogando RPG.

Pensa que aquela ruiva que conheceu na praia é uma sereia de saia.

Tadinho… Ainda não perdeu o medo de dormir sozinho.

Só dorme se for bem agarradinho com aquela cobra que me chama de sogra!

Sereia… Baleia, isso sim! Engoliu o meu filhinho!

Vejam só! Ela me disse que eu vou ser avó de um cardume de peixinhos!

Que hilário: Meus netinhos dentro de um aquário jogando beijinhos…

 

Filhos…  Filhos!

Nunca vêm com nota fiscal nem com manual de instrução.

Não avisam quando crescem e é só piscar, que desaparecem.

Mas uma coisa é certa: Mesmo que partam, quebrem, caiam, ou não saiam bem do jeito que a gente queria, não importa. Amor materno tem validade eterna.

Os filhos, estão sempre na garantia.

Rumorejando (O jogador do meu Paraná inspirou a França a fazer gol com a mão para se classificar, constatando). – por juca (josé zockner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

O Ratinho, há tempos, declarou – e sua frase teve ampla repercussão entre jornalistas, críticos, telespectadores, etc. – que se houvesse intenção de educar o povo brasileiro, utilizando essa notável mídia que poderia ser a televisão, os programas da Fundação Roberto Marinho, os tele-cursos, seriam levados ao ar em horário nobre e não praticamente na madrugada. E tudo ficou na mesma.

Constatação II (Para recitar pra ela).

Que estranho !

Ontem a conheci

E parece que a vi

Desde antanho*.

*Antanho = Antigamente, outrora.

Constatação III

Quando o septuagenário leu o texto do escritor uruguaio Mario Benedetti, intitulado Síndrome, se sentiu perfeitamente identificado com o autor:

“Todavia tenho quase todos os meus dentes

quase todos meus cabelos e pouquíssimas cãs

posso fazer e desfazer o amor

subir uma escada de dois em dois

e correr quarenta metros atrás do ônibus

ou seja que não deveria me sentir velho

mas o grave problema é que antes

eu não me fixava nestes detalhes”.

Constatação IV

A doce ilusão sempre acaba redundando amarga…

Constatação V

A loira burra que faz operação plástica, em certas regiões do corpo, quase sempre as mesmas, muda apenas o invólucro…

Constatação VI (De conselho isonômico).

Se você tem um filho de 20 anos que não quer estudar e, muito menos, trabalhar, não corte a mesada dele. Afinal, tá cheio de político e administrador que não faz nada e nem por isso ele tem os seus proventos cortados.

Constatação VII (Via pseudo-haicai).

Quem se julga o tal,

Não dá outra:

Boçal.

Constatação VIII

O mais grave da ignorância é não se dar conta dela.

Constatação IX (Teoria da relatividade para principiantes).

Se a sabedoria pode conduzir à loucura, é muito melhor morrer louco do que burro.

Constatação X

Pobre é caloteiro; rico é inadimplente.

Constatação XI

Perguntou o médico psiquiatra ao seu paciente: -“E então ? Como é que vai indo ?”

Respondeu o paciente: -“Mais ou menos. Tenho administrado razoavelmente minhas crises conjugais, depressivas, financeiras e existenciais”.

Constatação XII

A humanidade é ineducável.

Constatação XIII (Ah, esse nosso vernáculo, via pseudo-haicai).

Na Alfama,

Havia uma azáfama

Em busca de fama.

Constatação XIV

Ronca a mulher,

Ronca o cachorro.

O que mais se quer ?

Que, pelo menos, em coro.

Constatação XV

Rico tem necessidades imperiosas; pobre, é afoito.

Constatação XVI (Via pseudo-haicai).

Quando ouviram meu canto,

Os críticos, com a ousadia,

Fizeram cara de espanto.

Constatação XVII (Ah, esse nosso vernáculo).

O abúlico, metido a áulico, não sabia jogar bolinha de búrico. (No Rio de Janeiro, prezado leitor, se diz búrica).

Constatação XVIII (Via pseudo-haicai).

Truco, sem lúpulo,

É falta total

De escrúpulo.

Constatação XIX

Em certos países, quem consegue trabalho, consegue; quem não consegue, não consegue e fica por isso mesmo. Elementar, meu caro Watson…

Constatação XX (Via pseudo-haicai).

Alma, já não havia.

Mostrou, até,

Sua radiografia.

Constatação XXI

A grande incidência

De assaltos na rua

É uma verdade nua e crua,

Uma eterna reincidência.

Constatação XXII (Via pseudo-haicai).

Sua conversa opaca

Enchia a paciência

Paca.

Constatação XXIII (De alguma derrota de algum dos nossos times, algures, via pseudo-haicai).

Ficamos todos aturdidos

Com os três a zero.

Até hoje, ardidos…

Constatação XXIV (Ah, esse nosso vernáculo).

No decurso das férias, ela fez um curso para não mudar o curso das coisas. Acabou mudando o curso da minha história. Vou entrar com um recurso, sem decurso de prazo e sem muito discurso. Depois, participar de um concurso. Espero não ficar no percurso, pois creio que a banca não fará papel de amigo urso. Afinal, não se pode perder o “purso” (Perdão, leitores).

Constatação XXV (Via pseudo-haicai).

Até sem nitidez,

Deu para perceber:

Pura frigidez.

Constatação XXVI

E como dizia, via pseudo-haicai, o adepto do ócio total:

“Desocupação

Nunca gera

Preocupação”.

Constatação XXVII (gauchesca).

Me creia:

O doidivanas

Volta e meia

Se embriagava

Pois tomava

Dúzia de carraspanas

E ficava

De cara cheia.

Que “peleia”!

Constatação XXVIII

E já que falamos no assunto, em outra constatação, com a onda de violência, o perigo não está somente nas ruas; também, nas calçadas…

Constatação XXIX (Via pseudo-haicai).

Me abalo,

No trânsito,

Com tanto gargalo…

Constatação XXX

Rebola,

A Jane do Tarzan,

Toda gabola.

Até parece

A Chita pela manhã.

E quando anoitece..

Rumorejando (OS APOSENTADOS CONTINUAM PAGANDO O PATO, CONSTATANDO). por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Crônica de uma violência anunciada).JUCA - Jzockner pequenissima (1)

Creio que existe uma relação biunívoca, naturalmente imperfeita, entre a bola de futebol e os ônibus, em Curitiba. Explica-se: Cada vez que há jogo entre o Coritiba e o Atlético, o maior clássico do futebol paranaense, vários ônibus são depredados. Sem dúvida, os “hooligans” ingleses e alemães já fizeram escola…

Constatação II(Do meu Paraná que, lamentavelmente, não vai voltar ainda pra primeirona).

Vir a ser um finalista,

É coisa de se almejar.

Mas, não é de paranista

A qualquer preço ganhar…

Constatação III (De publicidade “emprestada” de uma companhia aérea).

Viagra permite trabalhar “non stop” para agradar você.

Constatação IV

Os resfriados e gripes estão de intensidade tais, que eu não sei se sai ranho também pelos olhos, ou lágrimas também pelo nariz…(Perdão, leitores).

Constatação V(De uma declaração de amor).

Leva vida de cachorro quem passa a vida sem cachorro. Tenho dito!

Constatação VI

Depois do grata, greta, grita, grota, gruta, que Rumorejando havia sugerido para o ensino do a, e, i, o, u, nas escolas de alfabetização, uma leitora, nos enviou a sua colaboração: barra, berra, birra, borra, burra. Obrigado.

Constatação VII

“Energúmeno”, o Ministro afirmou,

Se referindo a quem achou

Que a medida tomada

Tinha fins eleitoreiros. Que nada!…

Constatação VIII

E já que falamos no assunto, não se deve confundir ministério com monastério, muito embora o mistério como alguns ministros conduzem o seu ministério – já que ninguém, nunca, fica sabendo o que eles estão fazendo – é cercado de um eterno segredo digno daqueles monastérios onde se costuma fazer votos de silêncio e coisas afins…

Constatação IX(Teoria da relatividade p/ principiantes).

É muito melhor ser jovem e não precisar de remédios do que ser aposentado e gozar de descontos de até 20% na compra em farmácias.

Constatação X

Andam dizendo que o viagra, cialis, levitra, etc. provocam, dentre outros efeitos colaterais, o desarranjo intestinal. Mui respeitosamente, eu espero que, pelo menos, seja antes ou depois de. Jamais durante…

Constatação XI

Em terra de f. da p., quem não for, não terá vez…

Constatação XII

Correu risco de levar

Um tiro de trabuco:

Corte seco não quis dar

No renhido jogo de truco.

Constatação XIII

Não se deve confundir brigar com obrigar, muito embora, quando a mulher quer nos obrigar a fazer uma coisa que a gente não tem a mínima vontade, na verdade, a gente acaba fazendo, mas sem antes deixar de brigar…

Constatação XIV

Rico joga polo, golfe, tênis; pobre, no bicho.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I (Via pseudo-haicai).

Correntes frias X quentes

Igual a chuvas inundantes

Frequentes ?

Dúvida II

O fabricante de solvente é que estava insolvente ?

Dúvida III (Via pseudo-haicai).

Repercutiu com estrondo

A manchete:

CURITIBA, NOVA MACONDO ?

Dúvida IV

Foi o coronel que disse para a sua mulher que só vivia lhe pedindo dinheiro: “Querida, me desculpe, mas eu não sou o seu coronel”?

Dúvida V (Via pseudo-haicai).

No palco da vida,

Afinal, aonde fica

A saída ?

Dúvida VI

Está na hora de acabar com os concursos de miss. Mas, se isto não for possível, está na hora de acabar com o preconceito de que, para participar, as concorrentes têm que ter mais de 1,75m de altura, caso contrário, como é que fica com a representante dos pigmeus ?

Dúvida VII (E já que falamos em Coritiba x Atlético, via pseudo-haicai).

A contenda,

Não era

Pra “punhos de renda”.

Dúvida VIII

“Quanto pior, melhor” não deve ser somente algo eminentemente político/ideológico. Não será, também, a máxima adotada por algumas das nossas emissoras de televisão ?

Dúvida IX

Para o boêmio, o noctívago, para aquele que troca a noite pelo dia, o alvorecer, o amanhecer, é uma espécie de ocaso, de crepúsculo ?

Dúvida X (Via pseudo-haicai).

A semiótica*,

Pro obcecado,

Visão erótica ?

*Semiótica = Ciência que estuda os signos e sinais e/ou sistema de sinais.

Dúvida XI

Pra ter boa cabeça é preciso ter boa “poupança” pra poder ficar o dia inteiro sentado, estudando ?

Dúvida XII

Uma erva-mate que passou no barbaquá*, é uma erva barbaquada ?

*Barbaquá = carijo = “Armação de varas, onde se colocam os ramos de erva-mate para crestá-los** ao calor do fogo”.

**Crestar = “Secar, tostar, queimar de leve”.

Dúvida XIII (Via pseudo-haicai).

“Te esconjuro”,

Foi o que disse o padre

Pro dedo-duro ?

Dúvida XIV (Via pseudo-haicai).

É só que tem o Poder

Que pode ter

Querer ?

Dúvida XV

Ele se entregou,

O alcagüete,

Quando enviou,

Pra viúva, o ramalhete ?

O CULTO CARREIRISTA por ” o ruminante ” / belém


Todos nós sabemos que hoje o mundo está cada vez mais corrido, caótico, competitivo e stressante. A velocidade dos acontecimentos e do fluxo de informações estão fazendo das pessoas escravas de tecnologias que até pouco tempo nem mesmo pensávamos ter. O que deveria nos beneficiar está nos trazendo mais sofrimento, pois hoje ficamos angustiados quando acaba a bateria do celular, quando não podemos acessar a internet, quando perdemos algum e-mail que era importante, além de muitas outras coisas.

Ao observar essas coisas comecei a analisar nossas vidas, valores e o que tem sido considerado importante nos dias de hoje. Logo no primeiro momento percebi que cada vez mais as empresas estão nos levando a crer que a carreira profissional é a nossa maior realização na vida, como se sucesso no trabalho fosse sinônimo de felicidade. Também pude notar que muito da tecnologia que temos é para trabalharmos mais rápido e sermos mais eficiente. Não consegui de deixar de pensar em alguns pontos, por exemplo:

  1. Telefone Celular: desde o ínicio de minha carreira não tenho um celular próprio, estou o tempo todo conectado a disposição da empresa, podem me ligar a qualquer hora, seja lá o que estiver fazendo. Temos um coleira eletrônica e por esta somos pagos para usar.
  2. Notebook da empresa: se a empresa lhe concede um computador portátil, pode ter certeza, é para você poder trabalhar em qualquer lugar. Não acredite que se a empresa lhe acrescentar no pacote um sistema de internet móvel via celular você vai estar com vantagens, a única garantia é que além de te ligarem a qualquer hora, você ainda vai receber tarefas onde estiver.
  3. Cursos Motivacionais: esse é um dos piores, pois com o tempo os empresários descobriram que é só falar ou fazer algumas coisas estimulantes aos empregados para obterem maior produtividade. Estamos sendo tratados como cachorrinhos em adestramentos, recebemos um agradinho, fazemos o truque e somos premiados com um biscoitinho.
  4. Livros de auto-ajuda: talvez pior do que os cursos, as empresas tem feito um marketing enorme sobre livros de liderança, motivação, mudanças e muitos outros assuntos que, no final das contas, só querem nos levar a dar mais de nossas vidas para eles.

Acredito que muitos podem vir a me interpretar como um preguiçoso que não quer trabalhar, ou até receber críticas de que eu estaria sendo influenciado pelo comunismo ou outras linhas de pensamento socialista, mas na verdade não é isso que me estimula a escrever.

Com as observações que venho fazendo, percebi algo: não damos mais o mesmo valor para nossos familiares e vida pessoal, damos o nosso sangue para sustentá-los, mas o que eles mais querem é que estejamos por perto, que possamos passear no praça ou praia com nossos filhos e conjugês. Pode não ser tão perceptível, mas estamos nos colocando em uma situação que somente nos sacrificando ao extremo podemos dar tudo o que nossa família talvez nem precise, deixando de fora o mais importante: pais, mães, maridos, esposas e filhos que são muito mais importantes.

Emprego, trabalho, carreira pode ser que traga felicidade para um indivíduo, desde que não seja por uma influência imposta pelo culto ao profissional, mas por um gosto pessoal, se isso lhe dá felicidade, seja feliz assim. Hoje nos está sendo imposta a idéia que o sucesso profissional é a realização de nossas vidas, mas será que ao final de tudo, quando olharmos para trás terá valido a pena deixar de brincar com nossos filhos? Será que agüentaremos a saudade de nossos pais que estão envelhecendo e abruptamente podem nos deixar? Não seria melhor aproveitar o máximo de nossas vidas com quem amamos? Ainda que tenhamos que viver de forma mais simples, acredito que eu sei a resposta, pelo menos para mim.

SÓ PARA ISSO, SÓ PARA TUDO, SÓ NOS INTERVALOS por zuleika dos reis / são paulo

Quando ouço alguém dizer que fulano nasceu só para isso, quase morro de inveja. Robert de Niro engordou quarenta quilos para interpretar O TOURO INDOMÁVEL. Carlos Vereza, que odiava cigarros, aprendeu a fumar quatro maços por dia para representar Graciliano Ramos na prisão, nos tempos do Estado Novo. São atores. Que mais poderiam ser?

Francisco de Assis conversava com os bichos. Chamava o Sol e a Lua de irmãos. Era santo, nada menos do que isso. Nada a fazer senão ser santo.

Dos navegadores portugueses Fernando Pessoa aprendeu o mote “navegar é preciso, viver não é preciso” (existem outras versões sobre os verdadeiros autores do referido mote, o que não vem ao caso, no presente momento) e seguiu-lhe, à risca, na linguagem, a rota de navegações sem descanso. Era poeta. Nada a ser senão poeta, e apenas isso. Se tivesse casado com a filha de sua lavadeira ai, pobre dela, a filha de sua lavadeira!

Há, em contraponto, os que nasceram para tudo e se contentam com isso. Os antropófagos. Os opíparos. Dormem em todas as camas e sobre todos os corpos; provam dos mais incompatíveis e inconcebíveis manjares; trabalham como  escafandristas desde o Mar Morto até ao Mar Vermelho; trazem no bolso  receitas para a cura de cada um dos males do mundo, tanto quanto para a cura do próximo mais próximo; portam sempre algum isqueiro para fumantes (a mais recente espécie de criminosos surgida nas ruas de São Paulo) que precisem infringir a Lei que proíbe o fumo em recintos públicos e fechados.Enfim: nenhuma escolha senão ser múltiplo.

Há, por fim, os que só acontecem nos intervalos. Nos intervalos entre os noticiários crêem no Futuro. No brevíssimo intervalo entre as dívidas assimilam novas necessidades de consumo. No intervalo entre silêncios sem sentido escrevem poemas os quais, por um segundo, consideram perfeitos. No intervalo entre pânicos

ensaiam grandes gestos de coragem que começarão a praticar na próxima segunda-feira (Como algum novo regime alimentar para perder vinte quilos).Nos intervalos entre ceticismos absolutos convencem os outros de verdades insofismáveis. Nos intervalos… arrumam as malas para partir mas jamais partem.

Assim, os que nasceram só para isso; os que nasceram só para tudo; os que só acontecem nos intervalos. Nada a dizer dos grandes BURACOS NEGROS.

O CASO DOS GENERAIS por jorge lescano / são paulo

O cromo representa o general Beresford (William Carr, vizconde de, 1768-1854 – Nota do Compilador) comandante invencível, entregando o espadim em sinal de rendição. Está de perfil e à esquerda do espectador como corresponde a quem chega – na convenção de nossa escrita — : oferece a arma com as duas mãos. As mãos do outro militar estão espalmadas e juntas, formando uma bandeja digna de receber o símbolo de sua vitória. A farda do invasor é vermelha com textura de veludo (uniforme negro imperial, de escamas brilhantes, com uma única estrela de ouro e esmeraldas no peito, e botas altas de verniz, que contrastavam com a palidez do seu rosto.- Enrique Molina: Uma Sombra Onde Sonha Camila O’Gorman; Editora Guanabara; R.J.; 1986; páginas 76/77). A do seu adversário, de tecido mais leve, azul com alamares dourados e detalhes em branco. Também o branco e o dourado fazem parte da roupa de Beresford, vencido porém orgulhoso súdito de sua Majestade Britânica (Alto, delgado, calvo […] infeliz executor dos desígnios da coroa – E.M.) O outro, anônimo ou de nome esquecido nos bancos escolares, é súdito de Fernando VII, rei da Espanha (Don Santiago de Liniers y Bremond, militar  francês a serviço da Espanha, 1753-1810. Foi vice-rei, governador e chefe da esquadra, simultaneamente, nomeado pela Primeira Junta de Governo que o mandou fuzilar alguns meses mais tarde. Reempossado pelos historiadores, seu primeiro sobrenome   designa um bairro e sua estação ferroviária na capital do país. – N.C.). Ambos militares se encontram em continente estranho e longínquo das metrópoles. Determinou o acaso – que alguns chamam A História –, que estes homens saíssem da Europa e se confrontassem numa geografia neutra, embora o chão que pisam pertença, por direito de ocupação, a Espanha (superfície de terreno coberta por uma multidão desprezível, gauchos, negros e gente de pigmentação subversiva, incapazes de respeitar as bandeiras do mais poderoso império da terra – E.M.).

Sir Home Riggs Popham, almirante de uma esquadra de seis navios “e por iniciativa privada”, lançou-se à conquista do Rio da Prata em 1806. Acompanhavam os barcos tropas de infantaria – 1.635 soldados, “porque o objetivo da Grã Bretanha é a felicidade e prosperidade daqueles países” – comandados pelo general Beresford, que depois seria famoso na guerra da Independência espanhola, isto é, lutando contra os franceses.

Porque a sorte beneficia os audazes, o desembarque foi um sucesso, apenas alguns disparos ao acaso. Em 27 de junho,  as tropas desfilaram pelas ruas de Buenos Aires com bandeiras e tambores, surpreendendo seus habitantes. Em princípio, a esquadra tinha por objetivo Montevidéu, cidade de 15.000 habitantes, contra os 40.000 de Buenos Aires; notícias de uma forte remessa de ouro nesta última, modificaram o filantrópico programa. No forte da praça, residência do vice-rei, o brigadeiro Quintana  lhes entregou a cidade.

Em 12 de agosto daquele mesmo ano, don Santiago de Liniers y Bremond “reconquista” a cidade.  – N. do C.

O quadro original (óleo sobre tela) foi realizado em data incerta para glorificar o vencedor. Talvez por isso o britânico se inclina sutilmente e mantêm os olhos baixos (um olho coberto por um emplastro negro – E.M.); tal atitude permitiu ao artista aumentar a estatura do seu herói, sem que parecesse desproporcionado, ou impertinente seu gesto familiar, a mão  direita sobre o ombro esquerdo do vencido, como Spinola no quadro de Velázquez (Os dois rivais se confundiram num abraço. Uns gauchos próximos  propuseram degolar o general inglês. Liniers os conteve com um gesto. – E.M.).  As cores escolhidas para retratar as tropas em conflito são vistosas, mas deixam margem à dúvida. A farda azul e branca do militar da direita prefigura a bandeira pátria que, no entanto, seria criada mais de uma década depois deste encontro, durante a guerra de independência da Espanha e por um general improvisado.

Se o pintor optou por excluir da paleta o amarelo da bandeira espanhola, poderia ter apresentado o vencedor em farda verde, cor complementar do vermelho, e que contraposto a ele produz intensa vibração na retina. Este contraste cromático reiteraria visualmente as hostilidades cujo epílogo se ilustra. Foi um ato instintivo o que lhe sugeriu a escolha do azul, ou, pelo contrário, trata-se de um anacronismo deliberado? Não é impossível que por ignorância ou esquecimento, tenha pressuposto que estas sempre foram as cores nacionais. Contudo, se a pintura é contemporânea das Invasões Inglesas, conforme recentes pesquisas permitem suspeitar, poderia ter inspirado as cores da bandeira pátria. As opiniões de que as cores da tela teriam sido alteradas posteriormente, e de que o cromo não respeita a obra original (misteriosamente desaparecida) não merecem crédito.

O leitor tem o direito  de perguntar se este símbolo é uma homenagem ao vencedor  do cromo. Se  assim for,  todo o  exercício (vide box) poderia ser interpretado como um eco do primeiro  confronto, na versão de um pintor desconhecido e  onipresente.

As cores azul e vermelho percorreram todo o século XIX, desatando-amarrando nós de ódio na santa guerra fratricida que forjou a nacionalidade. Azuis e Vermelhos irmanados pelo sangue dos degolados. Duas cores com prerrogativas de Destino: nascia-se e já se pertencia a uma das facções, sem que, muitas vezes, se soubesse por quais delas se morria (N. do C.).

Passado mais de um século e meio daquela derrota britânica, nas manobras de treinamento do Exército Nacional, as duas facções em que era dividido adotavam os nomes das cores das tropas representadas no quadro. Tratava-se de uma identificação meramente verbal. Os soldados, para cumprir à risca o exercício, vestiam uniformes de campanha (calça e jaqueta cáqui, estampadas em sépia; capacete de papelão sanfonado por dentro, com incrustações de gravetos e folhas naturais tenras no exterior, coturnos ocre), com a função de se mimetizarem na vegetação onde realizavam as escaramuças. Prática esta assimilada dos exércitos de nações altamente civilizadas e com larga tradição bélica. Porém, as roupas de campanha igualavam as tropas. Assim, para que as manobras alcançassem o fim pretendido com qualidade, sem confusão entre soldados do mesmo país e com fardas semelhantes, os comandos tornaram obrigatório o uso de um bracelete (de cetim) com a cor respectiva à sua facção (azul no braço direito, vermelho no esquerdo). – Roldán Barros:  Primeiro Simpósio da Moda Militar; Curuzú Cuatiá, década de 1990.)

Por cento e setenta e cinco anos Beresford (mantinha sob o braço esquerdo um sabre curto, cuja língua bifendida aparecia intermitentemente pela ponta; na mão direita, preso por uma das pontas, empunhava um emplumado bicorne de oleado. – E.M.) capitulou no cromo. Depois do sacrifício de dois mil Rapazes Azuis, na frustrada invasão às ilhas ocupadas por súditos de Sua Majestade Britânica, é previsível que o General Vermelho, sem homenagens, brindes nem banquetes, receba o atributo da vitória postado na margem direita do vídeo. O Azul se inclina sutilmente para depositar em suas mãos em bandeja o espadim original, retirado sem cerimônias do Museu Nacional.

AMANHECER em SANTA ROSA (RS) por tonicato miranda. curitiba

TONICATO MIRANDA - Periferia de Santa Rosa


Quantos já repararam numa cidade amanhecendo? Muitos, com certeza.

Mas agora, aqui, no alto do quinto andar do Hotel Rigo, em Santa Rosa, assisto um tanto solitário, a este amanhecer de verão, no extremo oeste do Rio Grande do Sul.

De início tudo era penumbra, e as luzes nas ruas eram pontos brilhantes desenhando os traços feitos pelos homens. Depois, com a claridade, as luzes ficaram boiando no espaço, penduradas por árvores de cimentos como estrelas mortas.

À minha frente passa um ciclista, sofrendo no pedal na subida da ladeira. Outro desce tranquilo.

E mais outro vem, regulando a freada na descida. Aquele vai olhando a manhã, sereno como ela. Com pedaladas ritmadas, mochila às costas, segue no rumo do trabalho. Nesta hora, bem cedo na manhã têm mais bicicletas do que automóveis nas ruas. Certamente são os operários rumando em direção à labuta de mais um dia.

Abençoados sejam esses trabalhadores matutinos de Santa Rosa, ou de Horizontina, que visitei ontem, de Arraial do Cabo, de Joinville, de Teresina, de Arapongas, de Monlevade, e tantos, em tantas cidades brasileiras; e todos que vão ao encontro do trabalho montados nas suas magrelas.

O hotel, numa de suas laterais, faz frente com a Rodoviária da cidade. Exatamente a fachada do apartamento onde estou e que tem esta sacada e eu dentro dela. Lá embaixo, uma mãe atenciosa aponta para cima indicando a um dos três filhos que algo acontece aqui em cima. Acho que aponta para mim. Deve estar a dizer: __ Olha que estranho, lá em cima tem um homem a escrever! – O filho certamente não entende nada, pois isso não lhe parece tão estranho, nem tampouco tão normal. Como pássaro não escreve e homem não se dependura no céu, as possibilidades estão empatadas. A situação é somente inusitada.

Por via das dúvidas, diante do interesse, como pássaro ou como escritor maluco, ensaio um tímido adeus que fica sem resposta.

Mais tarde para o alto do telhado da Rodoviária – começando a se alvoroçar com o povo que não para de chegar – tenho a visão de três a quatro bairros da cidade de Santa Rosa e de um dos seus principais acessos viários. Também posso ver algumas plantações de soja, de milho e outras culturas não identificáveis à distância e, ainda, tufos de matas remanescentes exigidos no interior das fazendas pelo IBDF.

Os raios de Sol que vêm chegando iluminam primeiramente as torres dos silos mais distantes. Depois, arrancam da penumbra um trecho de mata, todo um bairro situado na parte alta da cidade. Para, mais tarde, cambiar do escuro para o claro o verde das plantações. Uns vinte minutos depois, os raios já um pouco mais inclinados, permitem-me a visão da primeira sombra de uma árvore sobre um relvado distante. É o sol fazendo parceria com o tempo para produzir formas com a luz e assim enaltecer a geometria.

Passada a primeira meia-hora que o Sol pareceu seus raios já atingem em cheio um prédio lá embaixo, fazendo janelas abrirem-se de par em par. Mas ao longe as chaminés de um fábrica iniciam o lançamento de rolos de fumaça ao ar. Pode-se ouvir agora mais fortes os ruídos da cidade e dos homens a trabalhar.

Os passarinhos ainda cantam aqui e acolá, porém seus trinados soam perdidos no interior da sinfonia urbana do homem. Santa Rosa agora está de pé, já acordou. Perdeu um pouco a graça da Santa e o Róseo tom da manhã; é mais amarela e um pouco mais movimentada. E eu tenho de tomar café, como todos os outros que levantam mais tarde na manhã.

Rumorejando (Começou a disputa política. Os candidatos já estão apelando. Quem votar para deputado ou senador pra ir pro inferno ou purgatório estará uma passagem comprando). – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Tem gente que encobre

De já ter sido nobreJUCA - Jzockner pequenissima (1)

Quando descobre

Que não é mais rico, é pobre.

Constatação II

Enquanto ela rebolava

Num sensual saracoteio,

Por causa de comentários libidinosos

Que se referiam aos seus dotes apetitosos,

O marido, vexado, incomodado,

Se meteu num sururu

Onde muita rasteira,

Muita bordoada rolava,

Por baixo, por cima e pelo meio,

Além de golpes de capoeira,

Que doía mais que rabo-de-tatu.

Coitado!

Constatação III

Dentre os muitos e-mail’s recebidos após a publicação de “O terror que matura”, no dia 11 de outubro, transcrevo do meu amigo e colega Abelardo Perseke Junior:

Juca:

Deixe o futebol, esta loucura,

Que torna em vinagre a água mais pura

Que endeusa vagabundos de feroz feiúra,

E viva a poesia, que esta sim, em ti perdura,

Pois este teu poema, de alvear secura,

Foi para mim, serena criatura,

Motivo de prazer, que dura

A Eternidade que tanto procura…

Abelardo, e, parabéns ( e pêsames pelo Paranito)”.

Constatação IV

E já que falamos no assunto, como disseram os poucos neurônios sobreviventes deste locutor que vos fala, digo digita: “O terror que matura, com as 166 rimas em ura, contadas pelo Amigo Sérgio Antunes de Freitas, no seu site www.reforme.com.br/kitnet, pra nós, pobres neurônios, foi uma radical e sofrida aventura. Hurra! Hurra! Quer dizer, Ufa! Ufa!”

Constatação V

Foi a massa de ar quente

Que disse pra frente fria,

Demonstrando alegria:

“Vamos criar uma chuvinha

Grossa ou fininha

Ou se você quiser um furacão

Com relâmpago e trovão”?

Constatação VI

Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que a garota que faz a publicidade, na televisão, como funcionária da Caixa Econômica Federal, na cidade de Califórnia, no meu estado, o Paraná, merece um prêmio pelo seu desempenho. Parabéns!!! Rumorejando, sem ter bola de cristal, prevê um futuro brilhante como atriz pra “Mari” ou “Marilyn”.

Constatação VII

Foi uma picuinha,

Uma questiúncula

Ou uma boutade

A pergunta pro rei

Da magra rainha:

Perdoai-me, Vossa Majestade,

Segundo eu sei,

Não deveis

Esquecer

Que os reis

Não devem cometer

Nunca um pecado,

Mormente o da gula.

Coitado!

Constatação VIII (Ah, esse nosso vernáculo).

Os noivos para cortarem o bolo do casamento, cortaram um doce.

Constatação IX (De conselhos úteis).

Não deve ter uma namorada

Quem sofre de ronco na barriga,

Pois pode assustar a coitada

E o bem-bom redundar em briga.

Constatação X

Ríspido, ele foi considerado,

Apenas por falar mal da sogra

Ao considerá-la não mais que uma ogra.

Ele só havia dito a verdade. Coitado!

Constatação XI

Não tem algum sentido

Discutir com a sua Maria

E depois ficar deprimido

Afinal não se briga com a chefia…

Constatação XII (Ainda sobre o gol vergonhoso do meu Paraná).

Considerou a derrota do seu time um baita revés.

E pior, o gol validado tinha sido com a mão.

Comentou: “Talvez eu não tenha razão,

Isso que se chama meter as mãos pelos pés”.

Constatação XIII (Dúvida crucial, com rima não apelativa e passível de mal-entendido).

O rechonchudo

E a rotunda

Rolaram e fizeram de tudo,

Merecendo uma tunda?

Constatação XIV

Quando um médico começa a ficar enfermo (Rico fica enfermo; pobre, doente), ele perde a credibilidade dos seus pacientes ou estes consideram a máxima de que “casa de ferreiro, espeto de pau”.

Constatação XV

Rico é ilibado; pobre, censurável.

Constatação XVI (De um pseudo-soneto).

O condenável caçador de dotes

Que vivia até com puídas calças

Recebeu,do pai da noiva, potes

De uma bolada de notas falsas.

A atitude fez nele um ressentimento,

Mas como a noiva era muito querida

Pesou o custo/benefício do casamento

E pensou: “Vamos enfrentar a nova vida”.

Aí, acabou engolindo o fel do veneno.

Sempre acaba existindo uma boa mulher,

Atrás de um homem grande ou pequeno.

Rejeitou do sogro uma oferta de emprego

Que disse que trabalhar se faria mister.

“Afinal, tenho que preservar o meu sossego”.

Constatação XVII

Quem é bitolado só vislumbra uma única solução, ou nenhuma, diante de um problema, mesmo que neste haja inúmeras variáveis.

Constatação XVIII

Diz a sabedoria popular que “quem não chora, não mama”. Já no caso de político, chorando ou não, mama…

Quem Cortou o Meu Queijo* – por “o ruminante” / belem


Me diz uma coisa, você já teve a oportunidade de ler o livro infantil “Quem Mexeu No Meu Queijo” de Spencer Jonhson? Se leu acredito que percebeu que este clássico da auto-ajuda menospreza totalmente nossa inteligência. Caso não tenha lido, vou te passar a mensagem de forma respeitosa: Mudanças podem ser positivas, quando algum panorama estiver alterando, procure alternativas para seu dia-a-dia, não fique preso a conceitos arraigados que não te permitem ver novos horizontes, você precisa se adaptar. Pronto não precisa mais ler o livro. Tudo bem, eu sei que tem mais detalhes, mas não vale a pena perder tempo com isso.

Conforme um resumo bem básico que achei na internet, o conto ocorre com essa base:

“Os quatro personagens imaginários descritos nesta história os ratos: Sniff e Scurry, e os duendes: Hem e Haw – tem a intenção de representar as partes simples e complexas de nós mesmos, independentemente de nossa idade, sexo, raça ou nacionalidade.

Às vezes podemos agir como Sniff que percebe a mudança logo, ou Scurry que sai correndo em atividade, ou Hem que rejeita a mudança, resistindo-lhe, assim como teme que ela leve a algo pior, ou Haw que aprende a se adaptar a tempo, quando percebe que a mudança leva a alguma coisa melhor !

Quaisquer que sejam as partes de nós que escolhemos utilizar, todos nós dividimos algo em comum: a necessidade de encontrar nosso caminho no labirinto e ser bem-sucedido em períodos de mudanças.”

A mensagem do texto nos é apresentada como uma estórinha para criança, por isso fico chateado com esse tipo de literatura, pois trata as pessoas como se elas não tivessem crescido. Não é que o autor esteja errado em sua opinião (pode até ser que esteja), só não gosto da forma como é passada. Com toda sinceridade, se é para utilizar este livro, eu usaria para ensinar minha filha (nem fudendo), jamais para um adulto.

Não entendo a razão de tanta alarde sobre este livro, pois a mesma mensagem poderia ser passada de forma bem humorada e direta, com exemplos práticos de nossa vida. Se alguém precisa de contos infantis para entender uma mensagem como essa, me desculpem, mas tem algo errado com essa pessoa.

Vocês precisam de um livro para ajudar a entender como se comportar diante de uma mudança drástica e necessidade de adaptação? Leiam “Robson Crusoé” de Daniel Defoe. Um texto inteligente e muito mais interessante que dois duendes e dois ratinhos. Pode ter certeza que você tem senso crítico para ler este livro e encontrar lições para lidar com as mudanças de seu dia-a-dia.

* Só um pequeno desafio (muito pequeno mesmo): a primeira pessoa que explicar corretamente o trocadilho que fiz com o título no post em referência ao título do livro ganha um exemplar de Robson Crusoé. Eu mando direto para casa do vencedor, é garantido!

PARA NÃO NOS LEVARMOS A SÉRIO DEMAIS ! por lucas paolo / são paulo

Para começar achamos de suma importância esclarecer padrões epistolares! Não nos expressaremos em primeira pessoa!  Muito menos em terceira! O primeiro caso traria uma vivência por demasiada pessoal para se tratar a complicada questão a ser abordada! O segundo caso não conseguiria convencer nem Eu nem Ele nem Você! Portanto não passaria de uma farsa ridícula com ares de paródia!  Para uma abnegação completa de qualquer forma de subjetivismo falaremos por Nós!  Isso exclui definitivamente o emissor e o remetente liquidando qualquer tipo de dupla significação! Entretanto é uma carta! De nós para nós mesmos!  O intuito não é ativar a imaginação nem dar margens às suposições! Seremos tão límpidos como água clara! Enfim diretos! Não buscaremos palavras nem expressões diferentes no dicionário! Qualquer erro redundância contradição ou demonstração de sentimentos será com certeza uma falha devida à imperfeição humana! Desejamos a maior perfeição possível para a presente abstração! Seremos absolutamente científicos exatos e indiferentes! Também não usaremos de qualquer simbologia! Apenas será usado o ponto de exclamação para finalizar as frases e dar a devida importância a elas!  Não julgamos necessidade de qualquer paragrafação além da próxima e mais uma no final! Prestem muita atenção ao que se segue o sentido da vida pode estar contido aqui!

Estamos com muita vontade de suicidar palavras e gastar papel! Ou seja queremos por demais escrever qualquer coisa! Porém falta-nos um tema para um possível romance e não sabemos também por onde começar um conto uma crônica um poema o que for! Acreditamos não haver tema neste mundo e na nossa cultura que mereça nossa reflexão! Não! Não desejamos falar de amor! Este tema é por si só mesquinho e pouco metafísico! Não somos românticos e não temos boas experiências para dividir! Achamos que ninguém as tem! Só existe uma supervalorização idiota do momento vivido com alguma outra pessoa que não nós mesmos! Dividir a existência com alguém é estúpido e não é nem um pouco produtivo! Falar de amor é repetir metade da literatura universal já escrita! Não existe amizade verdadeira ou que dure realmente! Sendo assim a amizade é mais um tema que não merece ser especulado muito menos mencionado em algum texto inteligível! A família é uma propriedade cultural e histórica que não daria tema nem para 50 páginas! E outra coisa todo mundo tem uma família e elas são em seu cerne todas iguais! Pra que falar delas! Aliás para que falar de alguma coisa que envolva o convívio humano! Somos todos animais que não sabemos conviver em sociedade nem longe dela! Não nos olhamos! Não nos percebemos! Não nos conhecemos! Enfim não nos merecemos então para que falar de nós mesmos e nossas relações! Estupidez inventar personagens fictícios! Para que botar mais gente egocêntrica no mundo mesmo que literário! Que fique bem claro não desejamos falar do bicho homem e de sua existência tão supérflua e insignificante! Não ansiamos nem por um instante tratar de arte! Música! Música é um banal artesanato infindo e sem qualquer resultado palpável! Produzir movimento em partículas que formam uma onda que causará devido à imperfeição do ouvido humano a errônea impressão de estarmos ouvindo determinada freqüência ou seja um som para o qual buscaremos relação com algum sentimento ou que tentaremos racionalizar até o último ínfimo físico e estético do possível significado de uma movimentação do ar que nada mais tem que significar do que uma coisa que acontece devido à uma movimentação nas coisas que existem na natureza! Uma movimentação do ar caramba! Artes cênicas ou teatro não merecem nosso tempo também! Que babaquice é representar uma coisa que por si só já é uma representação! A vida não tem que ser representada tem que ser vivida e representar uma representação da vida é se afastar cada vez mais dela! Atores são aqueles que mais procuram a perfeição do gesto em suas encenações e são também os que menos prestam atenção em seus próprios gestos! Artes plásticas ou visuais ou como quiserem chamar a produção de alguma coisa para ser contemplada com os olhos! A cor é uma ilusão! A produção de uma imagem é congelar no tempo um momento uma pessoa um objeto uma abstração uma qualquer coisa! Resumindo é parar na seqüente movimentação do espaço cósmico uma asneira qualquer! Interferirmos no fluente curso de nosso texto para falar de intervenções artísticas performáticas seria por si só uma intervenção! Continuemos! O amálgama de coisas que podem ser consideradas arte é muito grande! Se as grandes artes não fogem de um irracionalismo absurdo o que diremos então da Moda da Gastronomia da Numismática e do que mais houver! Finito! Não falemos da produção humana! Muito menos podemos falar do pensamento humano! Toda hora aparece um novo grego falando bobagens e usando da retórica para distorcer e torcer um assunto que já foi tão controvertido pelos homens! Filosofar é parar no tempo para refletir sobre o nada com o intuito de concluir o sentido do lugar nenhum! Quantas bobagens já não foram ditas sobre o nada e o tempo! A junção dos dois resulta na existência da memória e do gênero humano! A junção do homem nessa mixórdia toda resulta no conjunto de coisas chamada Humanidade e conseqüentemente resulta em culturas diferentes e prosseguindo conseqüentemente em guerras! E ainda bem! Conseqüentemente logo logo no fim da raça humana! Ufa! Ufos! Falar de alienígenas verdinhos ou de vida extraterrena é extrapolar para fora de uma realidade que já é desinteressante inferindo nossa visão antropológica do mundo que de nada provavelmente tenha a ver com possíveis culturas marcianas, plutonianas ou seja lá quem for os possíveis cabeçudinhos! Deixando o homem e a suposta outra vida inteligente do universo de lado poderia se falar de todas as outras coisas que existem vivem mas não pensam! Se é que podemos chamar o que os homens fazem de pensar! Podemos escrever mil duas mil três mil páginas sobre uma manga uma pedra um dromedário uma pulga um cristal condensado sobre o ar a terra a água a via lactéa o surgimento de tudo! Mas pensamos que nós temos bem mais o que fazer! Podemos falar da preguiça da gula da luxúria da avareza! Podíamos falar de Deus o ubíquo! Mas tememos muito as heresias e não somos chegados aos gnosticismos! Não acreditamos em nenhuma religião mas tememos constantemente o inferno! Já conseguimos deduzir que não se vale a pena falar de nada sobre o que se possa divagar ou reproduzir com palavras! Podemos falar do niilismo ou da escrita! Pensando bem os dois são uma e a mesma coisa! A justificável desistência do mundo material para o mundo das possibilidades ou não possibilidades! Contudo queremos nos permitir deixar aqui no fim da carta algo de redundante de modesto de conclusivo de irreflexivo escrito! Alguma bobagem que justifique o endereçamento de uma carta a alguém! Um aforismo!

Muitas vezes quanto mais verde se joga mais se colhe leitores maduros!

Observação minha sobre a missiva: Não pretendi alcançar nesta carta o sentido da vida; não busquei um impacto muito grande para minhas palavras e nem as escolhi a dedo; só queria escrever e não sabia sobre o que, então, escrevi de uma maneira esquisita sobre muitas coisas que, NO MOMENTO, não tinha vontade de tratar neste texto. Sei lá do que posso ter tratado nesta epístola! Acho que não tratei de nada, só escrevi. Mas escrever foi por demais bom e divertido. Desculpem a chatice e a possível crítica a alguém ou alguma coisa importante da vida. No mais, agradeço pela leitura de meu texto.

RAINER MARIA RILKE sobre o poeta/escritor / alemanha

“Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:”Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (…)”

RUMOREJANDO (27/09/09) por juca (JOSÉ ZOKNER) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Rico ganha abastança*; pobre, perde a esperança.

*Abastança =  substantivo feminino

1 provimento satisfatório ou suficiente

2 excesso de provimentos e haveres; abundância, riqueza.

3 vida segura, confortável, sem privações ou problemas de subsistência (Houaiss).

Constatação II

Um otimista sempre vai achar que o Paraná volta para a Primeirona do Brasileirão; o pessimista, que ele cai para a Terceirona; o realista que ele deverá continuar na Segundona. Esta, parece ser a  mais provável. Triste sina…

Constatação III

Não se pode confundir provisão com profissão, muito embora muitos políticos fazem de seus cargos uma profissão, recorrendo a alguma provisão de numerário, não necessariamente honesta, independentemente de seus estratosféricos salários.

Constatação IV

Não se pode confundir colunável (Quem aparece nas colunas sociais [e/ou policiais]) com colimável (passível de se ter em vista; pretenso), até porque nem sempre é possível obter o objeto, pessoa ou coisa que se deseja por meios lícitos ou não com o fito de passar a ser colunável. A recíproca é como é e tá acabado. Tenho democraticamente dito!

Constatação V

Parcos pode ser substantivo ou adjetivo; porcos, também. Mas nem por isso deve-se confundir uns com os outros.

Constatação VI

Eu achei o pedido da ministra incabível”, disse a ex-secretária da Receita Federal Dilma Vieira se referindo a Ministra Dilma Roussef. Taí mais uma expressão sendo inaugurada em depoimento. E a sua utilização, embora soe estranha, está correta. Igualmente como foi a de um outro ministro que usou o “imexível”. A utilização de ambas é infrequente (epa…).

Constatação VII

Esse pessoal do PT que votou a favor do Sarney agora tenta justificar o voto (“Obedeci ordens porque sou homem do partido”), para estar bem com todos. Os nazistas também, segundo eles, obedeciam a ordens. Tá na hora desse pessoal do PT se dar conta de quem bate o córner não consegue também cabecear. A falta de caráter virou pandemia…

Constatação VIII

Disse a mulher na praia para o marido: “Pare de olhar para essas meninas todas”.

Disse o marido: “Não sou eu que estou olhando pra elas. São elas que estão olhando pra mim. Como você já deve ter se dado conta, no meu caso específico, charme não se compra em farmácia”.

Contestou a mulher: “Mas xarope tem de todas as marcas”.

Constatação IX

Uma livraria cá de Curitiba colocou junto a sua placa indicativa uma máxima, atribuindo sua autoria ao grande escritor gaúcho Mário Quintana: “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas; os livros mudam as pessoas”. A autoria da frase é contestada. Segundo os entendidos ela foi proferida pelo romano do século II a.C. Caio Graco. Rumorejando gostaria de receber informações dos seus leitores a respeito. Obrigado.

Constatação X

Travado

Pelo zagueiro,

De gol com gana e sede,

O artilheiro

Chutou-o e também a bola.

Esta, quicou

Como se tivesse cola

E ficou

Ali ao lado.

O coitado do zagueiro,

Ao ser chutado,

Voou

Raspando o travessão.

Acabou

Estatelado

Na rede

Onde se emaranhou

Na maior contusão.

Coitado!

Constatação XI

Nada de ladainha!

A credibilidade

Da Situação

E da Oposição

Tá um caco.

Na realidade,

Eles sempre foram farinha

Do mesmo saco.

Constatação XII

Se o Homem foi criado à semelhança de Deus, como se propaga por aí, a Sua imagem como é que fica?

Constatação XIII

Rico dispõe de tudo; pobre, eventualmente do entrudo.

Constatação XIV

Deu na mídia: “Presidente da Inguchétia retorna dois meses após atentado”. E Rumorejando que achava que seus conhecimentos de gografia estavam em dia. Inguchétia?

Constatação XV

E como dizia o obcecado para a solteirona convicta, parodiando o antigo partido União Democrática Nacional – UDN (“O preço da liberdade é a eterna vigilância”): “O preço da ignorância é a eterna vigilância. E o preço da vigilância é a eterna ignorância”.

Constatação XVI

E já que falamos no assunto da incompreendia liberdade, o livro Poemas para a Liberdade, do escritor Manoel Andrade, catarinense radicado em Curitiba, publicado em vários países da América do Sul, saiu em português, pela editora Escrituras de São Paulo, numa edição bilíngue. Leitura obrigatória , como diriam os críticos.

Escrita em iminência – por lucas paolo / são paulo

Ou será que, sendo tão fraco de visão quanto tímido de espírito,

ele sentia menos prazer com o reflexo do mundo sensível e

brilhante através do prisma de uma linguagem multicolorida e

ricamente lendária do que com a contemplação

de um mundo interior de emoções individuais perfeitamente

espelhadas em uma prosa periódica, lúcida e flexível?

James Joyce, um retrato do artista quando jovem

Preâmbulo Ostensivo

Inconclusivo, mas ele decidira experimentar as teclas do computador:

<PALAVRAS>

A sugestão estaria dada. Algum hipotético leitor (absolutamente necessário) poderia facilmente influir que era um azarão: apenas alguns pouquinhos professores ineficientes a mais e duas mil, duas mil e duas páginas de literatura fantástica a menos [leitor criativo adicione a esta conta vivências artísticas e humanas a seu bel-prazer] e pronto! seria ele um futuro físico-quântico, acadêmico, político, médico, engenheiro, talvez um pedagogo, que poderia confortavelmente viver de forma satisfatória duas, talvez  três vezes por semana. [mais uma vez fiquem à vontade para complementar a sugestão à monotonia]

* Reflito agora e percebo que alguns leitores poderão se sentir subestimados, ou, superestimados com as liberdades oferecidas acima, sendo assim, do próximo parágrafo em diante, poderia eu correr o risco de não sugerir complemento imaginativo nenhum; mas por achar divertida a idéia  de uma possível antecipação redundante do leitor, continuarei com minhas sugestões totalmente desnecessárias. [Porém deixo a seu critério: se quiser, leia o que esta dentro das chaves; se não quiser, não leia!]

Por essas e aquelas palavras já se pode alumbrar um axioma:

Ele é inextricavelmente um pensador!

Pensador! mas é um filosofador bem ruinzinho – da pior espécie – daqueles que congenitamente saem sempre do nada para dar em lugar nenhum. [Aqui há espaço para a implementação fátua de alguma situação vivida pelo próprio leitor – algo como: uma conversinha de buteco, um simpósio sobre a estética de tal parágrafo de tal autor sobre a estética de outro autor, …]

Deixando de preâmbulos, havia ele de escrever alguma coisa.

Redenção da Introdução à Crônica

Antes de me desenrolar (e me enrolar) em reflexões acerca de algum assunto, gostaria de tentar muito perfunctoriamente imergir o leitor em minha problemática. De antemão peço desculpas por meu escasso repertório, mas com as singelas ferramentas que tenho tentarei dizer alguma coisa.

Introdução à Crônica

Pode-se escrever sobre tudo (e muitos aspirantes-pseudo-pensadores-picaretas como eu são a prova escrita disto). Ao mesmo tempo é absolutamente incontestável que tudo já foi escrito, pensado ou imaginado por algum ser humano. Que nenhuma idéia é nova ou inteiramente auto-referente. Desta forma, um bom leitor jamais escreveria uma palavra sequer de qualquer tipo de literatura. Entretanto a vida nos impregna de uma poesia completamente inquietante [peço que se dê a poesia o infindável sentido que a palavra possui e merece] que anseia por transbordar em sons, cores, cheiros, sabores, gestos, enfim, palavras.

Não há como resistir ao comichão ansioso que vive a cutucar a imaginação e o ego, pedindo para virar mais uma refletida expressão do nada. Por isso, é irrevogável desnudar a mente e o coração em mais uma manifestação do eu que muitíssimo raramente acrescentará ou melhorará algo em Nós.

Penso que julgar intenções e méritos de pobres almas mortais que pensam exprimir algo através da palavra é sandice das mais ignóbeis. Tanto faz ler 1.500 livros para descrever a ignorância de dois homenzinhos ou tirar da própria ignorância material para escrever 1.500 livros. (Que se divirta que tem saco para tanto! Hoje minha ignorância cabe muito bem em três páginas redigidas em letras grandes). [Transportem o exemplo do conhecimento literário para os vários âmbitos da existência humana: a vivência amorosa, o conhecimento sobre as duras realidades e injúrias da vida, e por aí vai…].

Um problema imponente e de insondáveis divagações existencialistas é a vaidade literária. Todos os escritores querem escrever o Quixote, (os que desistem da imortalidade se contentam em ser o best-seller semanal). Como se contentar em ser mais um autor-sem-editora ou blogueiro-potencial?

Apesar de tudo, toda palavra quer ser lida, imaginada, colorida, musicada, saboreada, profanada, respeitada, sussurrada, adjetivada, citada, ensotaqueada, silabeada, esmiuçada, aguçada, emporcalhada, mal-tratada, esgotada, …

Talvez o pior entrave seja, finalmente, o esgotamento da criatividade. Quando ela esgota esgotou… E muitas vezes não se disse nem um tiquinho do que se ansiava dizer.

Resumo da tentativa de Crônica

[Ao fim, algo foi realmente dito?

O que havia me feito começar a escrever?

Consegui explicar a primeira palavra?

Minha existência foi justificada?

Nos divertimos?

Pensamos?

Entrarei eu agora para a infinita Biblioteca?]

*

Hei de escrever outros textos?

RUMOREJANDO -PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES. por juca ( josé zokner) / curitiba


Constatação I

Não se pode confundir acata com ataca, até porque quem acata quem te ataca quer dizer que você é um bunda-mole que o dicionário Houaiss define como:

1 Regionalismo: Brasil. Uso: informal, pejorativo.

Pessoa fraca, covarde; pusilânime.

Ex.: agora vamos ver quem é homem e quem é b.JUCA - Jzockner pequenissima (1)

2 Regionalismo: Brasil. Uso: informal, pejorativo.

Pessoa pouco ativa, desanimada.

Nota de Rumorejando: Os deputados e senadores são pessoas de muita atividade. Lamentavelmente, em seu próprio benefício…

Constatação II

Deu na mídia: “O Banco católico Pax Bank pediu desculpas por investir em armas, cigarros e pílulas anticoncepcionais”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que banqueiro é banqueiro, sem distinção de raça, cor ou religião. Aliás, a religião do banqueiro é o dinheiro. E, em certos países, sempre visando lucros estratosféricos e, consequentemente, pornográficos… Não é à-toa que o irlandês George Bernard Shaw disse que “o pecado do ladrão é a virtude do banqueiro”.

Constatação III (e já que falamos no assunto…)

Ela era toda circunspeta

Inclusive sua bunda,

Pouco rotunda,

Que tava mais para atleta.

A dita, nunca mostrava os dentes

Foi a única que conheci assim

As demais, sempre sorridentes,

Como costumam ser

As bundas femininas,

Pela manhã, à tarde e ao anoitecer.

Sejam de meia-idade,

Da longínqua mocidade

Ou de meninas;

Sejam brancas, morenas ou carmesim.

Será que, além dos glúteos, os músculos,

Das bundas que abrigam algum biquíni,

Grandes ou minúsculos,

Possuem também o músculo Risório de Santorini*?

*que ou o que se localiza na proximidade dos lábios (diz-se de pequeno músculo).  (Houaiss). Músculo do riso.

Constatação IV (Pseudo-soneto da série Ah, o Amor…)

Meus sensíveis pontos erógenos

Ela, irritada, me ponderou,

São os que mexem com meus estrógenos

E você mais uma vez se enganou.

Você foi muito pro lado e acima

E, como sempre, muito depressa.

Você só pensa na tua superestima,

Você ainda não aprendeu, ora essa!

Me diga, então, os pontos exatos

To cansado de ouvir teus desacatos.

Preciso reaprender com exatidão.

Meu nariz, meu pulso e meu cotovelo;

Meus cílios, minhas unhas e meu tornozelo,

As bochechas, o cabelo e o metatarso do dedão.

Constatação V (De diálogos matrimoniais intelectualizados).

Sugeriu à mulher

Um “ménage à trois”.

Ela, como quem nada quer,

Esnobou no francês:

-“Ce serait bon, tu crois?

Você vai convidar

Teu amigo javanês?”

-“Não. Queria que você convidasse

A mulher dele”.

-“Aí, vamos ficar

Num baita impasse.

A javanesa,

Que, reconheço, é uma beleza,

Apenas topa ir com ele.

No ménage que eu participei

Com os dois

Eu só fiquei

No feijão com arroz”*

*Não ficou claro o que ela quis dizer com o “feijão com arroz”. Quem souber, por favor, cartas a este assim chamado escriba, pelo correio eletrônico, para podermos esclarecer aos nossos prezados leitores. Obrigado.

Constatação VI

Não se pode confundir prensado com repensado, mormente no caso da crise do Senado brasileiro, até porque, cada vez que o presidente do Senado é prensado por atos que cometeu e/ou tinha conhecimento sem tomar providencias e a Oposição tenta afasta-lo entram variáveis do tipo “eles também têm o rabo preso” e o caso passa a ser, incontinentemente, repensado

Constatação VII

Pintou e bordou:

Pintou o sete;

Bordou no corpete

A foice e o martelo.

O marido de Direita

Pôs-se amarelo.

Broxou.

Cortou, logo, o elo

E com ela não mais se deita.

E com cara amarrada

Falou muito zangado:

“Quem assim se enfeita,

Por si só se enjeita”.

Coitada!

Coitado!

Constatação VIII

Incorrigível,

O Senado doente

Acertou os ponteiros

Que o seu presidente,

Ainda por muitos janeiros,

À semelhança de anos inteiros,

Parece ser irremovível.

Constatação IX

O coringa ensejou

Que ele batesse

No jogo de canastra.

Aí, ela a roupa tirou,

Conforme combinado

De quem perdesse.

Ela, de tão magra,

Parecia uma pilastra.

Eis que o pai entra na sala

E os dois flagra.

Brande sua bengala.

Em sua direção.

“Seu safado!”

Ele nem se despede,

Se escafede

E na escuridão

Do jardim

Cai numa vala.

E rasga sua túnica

E sua única

Calça de brim.

Coitado!

Constatação X

Rico sempre seus ganhos dobra; pobre, soçobra.

RUMOREJANDO – PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES (16.08.09) por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

A torcida do Paraná contra o Bragantino chegou a gritar olé. É. Quem nunca come melado, quando come chega até a esquecer que pode se lambuzar na próxima. Mas, afinal. A gente estava acostumado a apenas levar e não dar olé…

Constatação II (E já que falamos no assunto, vamos externar nossa modesta e abalizada opinião):

A possibilidade do Paraná ser campeão

E ascender pra Primeira Divisão

É inversamente proporcional

A eu encontrar um adversário local,

Nacional ou mundial

Que me ganhe no truco.

Mesmo me deixando maluco.

Enfim, um cara bom…

Constatação III

Deu na mídia: O senador Artur Virgílio, que protocolou ações contra o presidente do Senado José Sarney, admitiu que manteve em seu gabinete um funcionário que estudava na Espanha. O líder do PSDB negociou com a diretoria do Senado o ressarcimento do dinheiro pago, R$ 210 mil em quatro parcelas”.

Moral I: Quem tem telhado de vidro não joga pedra no telhado do vizinho.

Moral II: Em certos países os desonestos são sempre os outros.

Moral III: Aparentemente, os dois não estavam do mesmo lado. A nossa relativa suposta sorte é que eles estavam se degladiando entre eles. Até a hora que sobreveio a tradicional e não surpreendente pizzada: “Eu não mexo com V. Excia.. E V Excia. não mexe comigo”. E viva “nóis” que não somos V. Excias…

Constatação IV (Classe é classe…)

Deu na mídia: “SÃO PAULO – O senador Fernando Collor de Melo (PTB-AL), disse em discurso em plenário dia 10 de agosto estar “obrando” na cabeça do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, da revista Veja”. Data vênia, como diriam nossos juristas, masRumorejando supõe que na bacia sanitária seria bem mais cômodo e confortável.

Constatação V (Quadrinha para ser recitada em algum Fórum Mundial, daqueles que não levam absolutamente a nada).

Se eu fosse o presidente

Da República do Burundi

Eu viveria por lá, somente

E não viveria por aqui.

Constatação VI (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Na chuva, foi o amigo Bertoldo

Que, ao invés de guarda-chuva,

Usava um baita de um toldo?

Constatação VII (De outra dúvida crucial via pseudo-haicai).

Inspiro gás carbônico

Sobrevivo assim mesmo.

Será que sou biônico?

Constatação VIII (Quadrinha de cinco estrofes [pentinha?] para ser recitada no Senado ou na Câmara dos Deputados).

Conversa vai, conversa vem

Sempre haverá alguém

Que jamais, na vida, fará um bem.

E, qual um líquido, outro alguém

Tomará a forma do vaso que o contém…

Constatação IX (E já que falamos no assunto…)

Falta pros simples mortais perspicácia

Em se dar conta  que a democracia,

Apregoada por esses políticos, é uma falácia?

Constatação X (Pseudo-soneto da série Ah, o Amor…)

Chegamos no motel rotundo

Fechamos a porta do apartamento

E ficamos separados do mundo.

Nos olhando por um momento.

Trocamos beijos e abraços

No estilo “finalmente sós”.

Não foram pouco escassos.

As línguas, só faltavam dar nós.

As peças de roupa voavam

Quais corruíras no firmamento

E o teu corpo desnudavam

Você disse: “Vou tomar um banho

E volto em um momento”.

Tardou. Te segui. Visões de antanho.

Constatação XI (Com os agradecimentos ao professor de Educação Física, Personal training e Fisioterapeuta João Paulo de Andrade Alarcão).

Rico tem escápula; pobre paleta.

Rico tem gastrocnêmio; pobre, batata da perna.

Rico tem patela; pobre, rótula.

Constatação XII

O empate do Campinense um minuto após o gol do Paraná aos 46 minutos do segundo tempo lembra “mutatis mutandis” que o pão de pobre sempre cai com a manteiga voltada para o chão. E que alegria de pobre dura pouco…

Constatação XIII

Foi a mosquita

Que disse pro mosquito:

“Você andou chupando pirulito

Ou alguém que tomou birita?”

Constatação XIV

Foi a tigresa

Que disse pro tigre:

“Mas que beleza

Chegando essa hora!

Vá embora!

Emigre!

Você tá atrasado!

Seu desmiolado!”

Coitado!

Constatação XV

Não que a gente seja contra. Ao contrário. Mas a facilidade com que certas mulheres mostram os seios também pode ser explicado pelo fato delas acharem que estão mostrando algo que não lhes pertencem. Eles não são os seus seios originais. Eles foram siliconados. Elementar…

Constatação XVI

Escritor rico é vocabularista; pobre, sensacionalista.

.

FREIRAS - DE MARTA FERREIRA

a mesa diretora do senado federal em pose especial para o domingo de sol.

foto de marta ferreira.

ilustração do site.

DARCI RIBEIRO, SEUS PENSAMENTOS, SUAS FRASES E POESIAS / rio de janeiro

“Memória…Através dela daremos livros, livros a-mãos-cheias, a todo o povo. O livro, bem sabemos, é o tijolo com que se constrói o espírito. Fazê-lo acessível é multiplicar tanto os herdeiros quanto os enriquecedores do patrimônio literário, científico e humanístico, que é, talvez, o bem maior da cultura humana.”

.

“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si… Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros…”

.

“Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes.

Construímo-nos queimando milhões de índios.Depois, queimamos milhões de negros.

Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais.”

.

“Dizem, também, que nosso território é pobre – uma balela. Repetem, incansáveis, que nossa sociedade tradicional era muito atrasada – outra balela. Produzimos, no período colonial, muito mais riqueza de exportação que a América do Norte e edificamos cidades majestosas corno o Rio, a Bahia, Recife, Olinda, Ouro Preto, que eles jamais conheceram.”

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“Nosso povo preservará, depois dessa drástica cirurgia, a vitalidade indispensável para sair do atraso ou estará condenado a afundar cada vez mais no subdesenvolvimento? Quem está interessado em que o Brasil seja capado e esterilizado? Serão brasileiros?”

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“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

.

“O Delta do Amazonas constitui uma das áreas de mais antiga ocupação européia no Brasil. Já nos primeiros anos do século XVII ali se instalaram soldados e colonos portugueses, inicialmente para expulsar franceses, ingleses e holandeses que disputavam seu domínio, depois como núcleos de ocupação permanente. Estes núcleos encontrariam uma base econômica na exploração de produtos florestais como o cacau, o cravo, a canela, a salsaparrilha, a baunilha, a copaíba que tinham mercado certo na Europa e podiam ser colhidos, elaborados e transportados com o concurso da mão-de-obra indígena, farta e acessível naqueles primeiros tempos.”

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“Embora a civilização nas zonas de fronteira seja algo tosca e desconjuntada, é sempre a civilização ocidental que avança através da sua encarnação na sociedade brasileira. O que oferece aos índios não são, naturalmente, as conquistas te cnicas e humanísticas de que se orgulha, mas a versão degradada destas, de que são herdeiros os proletariados externos dos seus centros de poder.”

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“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

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“O Brasil cresceu visivelmente nos últimos 80 anos. Cresceu mal, porém. Cresceu como um boi mantido, desde bezerro, dentro de uma jaula de ferro. Nossa jaula são as estruturas sociais medíocres, inscritas nas leis, para compor um país da pobreza na província mais  BELA da terra. Sendo assim, no Brasil do futuro, a maioria da gente nascerá e viverá nas ruas, em fome canina e ignorância figadal, enquanto a minoria rica, com medo dos pobres, se recolherá em confortáveis campos de concentração, cercados de arame farpado e eletrificado.

Entretanto, é tão fácil nos livrarmos dessas teias, e tão necessário, que dói em nós… A nossa conivência culposa.”

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“ Nessa casona, hoje, um homem espera a Morte.

Eu. Nem homem sou.

Sou é um des-homem,

de punhos atados,

de dentes cerrados,

de pernas peadas,

aos pés do Senhor!

Quanta coisa boa!

Mas devo respeitar o espaço, e só tenho  TEMPO de falar de Emilinha,

uma gostosura de poema e de figura:

Emilinha não era desse mundo.

Ou era, demais da conta.

Safada de nascença.

Nela havia o sumo de dez,

de cem mulheres

muito fêmeas.

Tanto que extravasava,

sopitava em cheiros e barbas.

Suspiros e choros.

Era uma força viva,

selvagem como esses bichos silvestres.

Emilinha me fez homem

como jamais fui antes nem depois.

parecia até feitiço.

Eu e ela inesgotáveis…

Vi por fim,

me convenci,

de que Lea me vencia,

me amofinava.

Era mulher demais para um homem só.

Eu não podia com a mulinha!”.

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“ Ele sentava na ponta do banco, comendo no prato com a mão,

fazendo capitão e me escutando.

Lindo, quando ele fala de Benedito Gomes:

Chamei o compadre Benedito.

homem de  SABEDORIA,

para ver se descobria

e me explicava a causa de tanto urubu

Não sabia! Ótimo quando se vê como o mulo:

Aquele sim, é o homem

que eu sou,

inteiro. Cabal.

Sossegado, Valente

Realizado.

Contente.

Isso tudo, sem saber.

Inocente “

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES. (02/08/09) por juca (josé zokner) / curitiba


Constatação I

Não se pode confundir inveterado que o dicionário Houaiss dá como: “que contém arraigado em si, por obra do tempo, determinada maneira de ser, determinado hábito (diz-se de pessoa)” com invertebrado que o mesmoJUCA - Jzockner pequenissima (1)dicionário assinala como “desprovido de coluna vertebral”, até porque quem é, por exemplo, um inveterado bajulador (rico é bajulador; pobre, puxa-saco) é um invertebrado, maria-vai-com-as-outras e outros epítetos desse jaez.

Constatação II

O que tem de time no Brasileirão e na Segundona surrando a bola não está escrito em lugar algum. Coitada!

Constatação III

Quando o Sr. Pedro Malan proferiu que o salário mínimo dava pra uma família e ainda sobrava será que ele e a sua – dele – família viviam assim?

Constatação IV (De um pseudo-soneto da série Ah, o amor…).

Pensar que algum dia

Você me disse vários não

Agora virou uma alegria

Você se deu conta o quanto é bom.

Até no meio da noite você me aborda

Me dizendo: Bem, façamos uma conjunção

Para certas coisas a gente sempre acorda.

E eu acedo com entusiasmo e emoção.

Você se contorce de prazer

Com a perspectiva do que vai acontecer.

Quando percorro teu corpo nu

Rola entre nós um forte ardor

E nos teus olhos brilha um fulgor.

Trejeitos de danças; jamais o lundu*

*Dança de par separado de origem africana, ainda que de grande sensualidade. (Houaiss).

Constatação V

Chamaram o septuagenário

De boa carcaça

Ele considerou isso uma pirraça;

De mau-gosto, uma chalaça:

“Sinto-me um bi-centenário,

Caquético e alquebrado”.

Coitado!

Constatação VI

Foi o contorcionista do circo que chegou tarde em casa e se pôs a fazer contorcionismo verbal com a patroa que lhe deu, em resposta, uma camaçada de pau. Coitado!

Constatação VII (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Anjo

Toca lá no céu

Lira ou banjo?

Constatação VIII

Resoluto

Quis votar

Num parlamentar

Que seja impoluto.

Depois de muito procurar

Cheguei a terrível decisão

Que não dá mais

E, é bem provável,

Que não dará jamais.

Triste e lamentável

Conclusão…

Constatação IX

Ele reconheceu

A assinatura

No notário.

Nela havia escrito,

Segundo ele, com ternura,

Com muito amor,

Tudo rimado,

Pedindo à namorada

Dinheiro emprestado.

Ela respondeu

Também com firma reconhecida:

“Você é um caradura,

Um salafrário.

Na tua carta está dito

Que eu sou tua querida

Que eu sou uma flor*.

Você tá com nada.

Você é um charlatão,

Um aproveitador,

Um desregrado.

Com essa demonstração

Falsa de carinho.

Vá catar coquinho”.

Coitada!

Coitado!

Coitado?

*Este cara, além de ser um mau-caráter ainda é do tempo que rima amor com flor. Nota zero pra ele.

Constatação X

Deu na mídia: “Bolsa-Família: Lula diz que governo tem papel de ‘mãe’. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas será que o nosso presidente sabe quem é o pai?. Se é conhecido, ou não? Ou o pai é o padrasto?

Constatação XI

Também deu na mídia: “Nos bastidores, Sarney já avalia deixar o cargo”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejandoacha que, salvo membros da família e alguns amigos, ele não deixará saudades…

Constatação XII

Ainda a mídia: Lula diz que os economistas deveriam fazer um mea culpa”. Data vênia, mais uma vez, mas Rumorejando acha que só os economistas. Os políticos, não. Estes deveriam ser banidos para dar lugar a algum esquema de participação da Sociedade no assim chamado processo democrático, já que os políticos apenas representam o interesse deles mesmos.

Constatação XIII

“Cientistas australianos descobrem porque balançamos os braços ao caminhar”. Quanto ao fato das mulheres graciosamente rebolarem quando andam, nada foi pesquisado. Provavelmente, porque sim e tá acabado.

Constatação XIV

Deu na mídia: “Conselho de Ética já recebeu 11 ações contra Sarney”. Só??!!

Constatação XV

Atlético e Paraná têm trocado constantemente de técnicos. Mas pelos resultados que os dois times vêm alcançando dá a impressão que eles estão trocando entre eles mesmos…

Constatação XVI

Será que o esforço de se eleger vem do fato que para deputados e senadores a lei é diferente do que para os simples mortais? Quem souber a resposta, por favor, cartas por correio eletrônico. Obrigado.

CHARLES BUKOWSKI, o escritor e poeta – editoria

Nasceu em Andernach, na Alemanha, a 16 de agosto de 1920, filho de um soldado americano e de uma jovem alemã. Aos três anos de idade, foi levado aos Estados Unidos pelos pais. Criou-se em meio à pobreza de Los Angeles, cidade onde morou por cinqüenta anos, escrevendo e embriagando-se. Publicou seu bukowskiprimeiro conto em 1944, aos 24 anos de idade. Só aos 35 anos é que começou a publicar poesias. Foi internado diversas vezes com crises de hemorragia e outras disfunções geradas pelo abuso do álcool e do cigarro. Durante a vida, ganhou certa notoriedade com contos publicados pelos jornais alternativos Open CityNola Express, mas precisou buscar outros meios de sustento: trabalhou 14 anos nos Correios. Casou, se separou e teve uma filha. É considerado o último escritor “maldito” da literatura norte-americana, uma espécie de autor beat honorário, embora nunca tenha se associado com outros representantes beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg.

Sua literatura é de caráter extremamente autobiográfico, e nela abundam temas e personagens marginais, como prostitutas, sexo, alcoolismo, ressacas, corridas de cavalos, pessoas miseráveis e experiências escatoló gicas. De estilo extremamente livre e imediatista, na obra de Bukowski não transparecem demasiadas preocupações estruturais. Dotado de um senso de humor ferino, auto-irônico e cáustico, ele foi comparado a Henry Miller, Louis-Ferdinand Céline e Ernest Hemingway.

Ao longo de sua vida, publicou mais de 45 livros de poesia e prosa. São seis os seus romances: Cartas na rua (1971), Factótum (1975 ),  Mulheres (1978),  Misto-quente (1982), Hollywood (1989 ) e Pulp(1994).

Bukowski publicou em vida oito livros de contos e histórias: Ereções, ejaculações e exibicionismos (1972) – que no Brasil foi publicado em dois volumes, Crônica de um amor loucoFabulário geral do delírio cotidiano (L&PM POCKET, 2006) – , South of No North: Stories of Buried Life (1973), Tales of Ordinary Madness (1983), Hot Water Music (1983), Bring Me Your Love (1983), Numa fria (1983), There’s No Business (1984) e Septuagenarian Stew (1990).charles-bukowski

Seus livros de poesias são mais de trinta, entre os quais Flower, Fist and Bestial Wail (1960), You Get So Alone at Times that It Just Makes Sense (1996), sendo que a maioria permanece inédita no Brasil. Várias antologias, além de livros de poemas, cartas e histórias foram publicados postumamente, como O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio (L&PM Editores, 1998 / L&PM POCKET 2001), com ilustrações de Robert Crumb. Este livro é uma espécie de diário comentado dos últimos anos de vida do autor.

Bukowski morreu de pneumonia, decorrente de um tratamento de leucemia, na cidade de San Pedro, Califórnia, no dia 9 de março de 1994, aos 73 anos de idade, pouco depois de terminar Pulp.

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O CORAÇÃO QUE RI

A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.


Charles Bukowski
(Tradução de Tiago Nené)

Exéquias midiáticas – por cleto de assis / curitiba

CLETO DE ASSIS - EXÉQUIAS Michael_Jackson

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No dia 07 de julho de 2009, o mundo inteiro, enlaçado pela TV e pela Internet, viu um espetáculo meticulosamente produzido, dentro da tecnológica mise-en-scène de Hollywood, precisamente na terra do cinema, Los Angeles.

Compreendo: a indústria do entretenimento, ao transformar cantores e jogadores de futebol em semideuses, cativa milhões de mentes que também buscam, por meio de seus ídolos, alcançar extática plenitude, embora uma felicidade engastada em fantasias. Mas não pude deixar de sentir como somos nutridos por sentimentos paradoxais.

Ao mesmo tempo em que perdemos dias a velar e a chorar um distante personagem sabidamente produzido pela fábrica de ilusões – e que já foi causticamente imolado por erros e desencontros, em passado recente, pela mesma mídia que agora o coloca em altar mais alto do que os dos santos – conseguimos não perceber o desafortunado que passa por nosso lado e esquecer rapidamente a criança que morre de fome ou frio, a mãe que mingua por não ter como socorrer seus filhos.

Hoje uma família (os Jackson’s Five, que já devem ser Jackson’s Ten, Twenty or more) fez o seu espetáculo lacrimejante e, muito possivelmente, douradamente tilintante, capaz de fazê-los gastar 25 mil dólares em uma urna mortuária banhada a ouro. Hoje Stevie Wonder, um dos amigos do menor dos Jackson que cantaram em sua homenagem, disse singelamente que Deus precisou de Michael antes de findar seu tempo de permanência na Terra. E todos choraram e aplaudiram. Mas também hoje a mesma CNN, que transmitiu segundo por segundo as cenas do fantástico funeral,  noticiou que os Taliban, lá no Paquistão, estão comprando crianças para treiná-las em ataques suicidas. Quantos de nós protestamos e choramos por isso? Que deus está chamando prematuramente as crianças paquistanesas?

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C. de A.

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Desculpem-me os fãs de Michael Jackson, mas tive que recorrer à poesia para fazer meu contrachoro.

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Memorial a Peter Pan

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Aprendi a rezar pequenininho, ajoelhado ao pé da cama.
“Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador…”
Aprendi sem saber o que era zeloso
e nem piedade divina.

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Depois conheci outras orações

as decoradas e ditas sem sentimentos

improvisadas e cheias de sensações
rezas medicinais de curandeiras
preces de urgência socorrista
súplicas de desespero de última hora
ladainhas repetitivas e sem sentido
apressadas jaculatórias
ladários corta-tempestades
litanias por amores perdidos
padre-nossos e ave-marias de carpideiras incontritas
reza braba e despachos de encruzilhada.

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Desaprendi a rezar depois de pequenininho.

Aprendi a buscar dentro de mim
na vida e na viva deusa Gaia
energias mais próximas,
nem por isso distantes da energia cósmica,
nem por isso menos miraculosas, menos reconfortantes.

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Mas não conhecia ainda a oração que hoje,
pasmo ser vivente do terceiro milênio,
testemunhei no mega-espetáculo, no mega-funeral,
na mega-encomenda fúnebre sacramentada por hinos profanos,
na produzida despedida do Peter Pan midiático
saído prematuramente da terra do agora
em busca de uma sonhada terra do nunca.

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No adeus televisivo, vinte mil curiosos
inauguradores dos funerais com bilhetes e lugares marcados
representantes de milhões de órfãos e viúvas
do cantor bailarino de mil faces e de uma só e terrível solidão.

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Ao ver, em cores e ao vivo,
diretamente da cidade dos anjos
as exéquias do agora outro arcanjo Miguel,
son of Jack, o predador,
pensei no esquecimento constante imposto por seus milhões de órfãos e viúvas
a milhares de mães e filhos anônimos
que ontem, hoje e manhã
sofreram e penarão a dor e a solidão da morte,
sem ter ao menos uma pequena criança a rezar por eles
para pedir a um anjo menos holiudiano
que os reja, os guarde, os governe, os ilumine,
amém.

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Cleto de Assis

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Foto: CNN

E TU TCHÊ LOCO? por bruxa gaudéria / porto alegre

E tu, tchê loco, depois de tudo o que se sabe sobre a devastação da Floresta Amazônica por conta do teu sacrossanto “churrasquinho”, ainda não tomou vergonha na cara? Olha o exemplo que estás dando para os teus filhos…

Tenho visto que a definição de “gaúcho” por esses tempos que correm não é outra que… “comer churrasco!” Já houve tempo em que gaúcho era sinal de consciência política, e até ecológica: os bruxamovimentos ecológicos partiram daqui, as feiras de produtos orgânicos começaram aqui, a primeira associação nesse sentido, a AGAPAN, nasceu aqui. E isso fazia com que a gente estufasse o peito de orgulho por ser gaúcho.
As escolas do Brizola, então, aquela enorme quantidade de escolas espalhadas pelo Estado… isso sim era uma definição decente da nossa gente.

E não me venha com essa de que “isso é uma coisa cultural”. Até bem pouco tempo, o prato tradicional do brasileiro, em geral, era feijão com arroz, uma saladinha e – de vez em quando – uma carne. Nos domingos, uma galinha. Nunca essa cosa loca de x no almoço, x no jantar, e, no domingo, dê-lhe churrasco… Aqui pelas redondezas do meu rancho, o céu chega a ficar enevoado nesses dias, de tanta fumaça…
Eu sei que a maior devastação é para exportation, mas mesmo assim… olha o exemplo!

Sem contar a gordura, que agora tem um nome poético… obesidade! e as diabetes? Antes do advento da tal fast food, a gauchada era guapa! As gurias eram umas potrancas bem fornidas, mas sem exagero! Olha só a Yeda Maria Vargas!… Te espelha! E a Teresinha Morango… tudo umas esbeltezas.
E o mundo velho sem porteira parece que endoidou de vez! pôes que agora, além do povo se entupir de toda sorte de porcaria, ainda por cima querem que as china véia fiquem tudo uns fio. Pros bagual berrar na porteira do rancho: te cuida com o vento, vivente! Vai de lado… Ou… essa, se comer uma azeitona, vai parecer que tá grávida!
Os taura, ao contrário, em vez de cuidar da roça e ficarem macanudos ao natural, chegam a tomar uns trecos, uns tais de anabolizantes… e acabam parecendo uns abobados da enchente, como dizia a minha avó.
A deseducação é tanta, que canso de ver os PRÓPRIOS PAIS! (???) oferecendo uns tais salgadinhos – que tem o mesmo nome dessas coisas do computador, e devem ter o mesmo gosto misturado com papelão e regado com suquinho de inhãnha –, os chips.
Depois de tanta carne, tanto fast food, tanto salgadinho, e dê-lhe refrigerante pra fazer a gororoba descer, vem a parte dos remédios, das cirurgias, das culpas e dos consultórios de psicologia (e aí eu gosto porque o meu fica assim de loquinho). PURA NEURA! tudo isso.

Pra ter tanto churrasco, por exemplo, tanta carne e tanto lugar pro gado, já fizeram desaparecer um terço do Rio Grande. Os outros dois se foram com a soja e agora com os tais eucaliptos. E é por isso que o nosso frio ficou reduzido a 3 meses, com 36º em junho, o verão é aquele verdadeiro inferno, e não acaba, não acaba, não acaba nuuuunca, a gente torra, a gente vê tudo cor de laranja… eu já senti os meus óvulos fritando pelas próximas três gerações… e, pelo que sei, o buraco na tal camada de ozônio, aqui, é o maior de todos. Ah, disso podemos nos ufanar! Somos os maiores!…
Sem contar otras pragas… mas isso é pra depois.

Texto de ROSE PORTO ALEGRE.

JORGE LESCANO é PALAVREIRO DA HORA! E A EQUIPE FAZ A FESTA!

o PALAVRAS,TODAS PALAVRAS após algumas publicações, esparsas, de trabalhos literários do escritor e artista visual jorge lescano e apoiado no grande número de acessos nos links específicos, tomou a feliz iniciativa de convidar lescano para colaborar com a página de maneira mais regular, ou seja, jorge assume o compromisso de publicar quinzenalmente! convite aceito! é desta forma que o PALAVRAS se mantém e alcança todo esse sucesso. outra razão não é senão os PALAVREIROS e suas publicações  que atrai essa grande quantidade de leitores. sobre jorge lescano, fala a sua obra. no BUSCAR, acima, você acessa o que foi postado do escritor, dramaturgo e artista visual.

JORGE LESCANO

mesmo contrariando sua aversão por fotos, conseguimos, com alguma dificuldade, esta raridade. não tem “algo” de DALÍ aí?

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Como artista plástico participou de 15 salões de Arte Contemporânea, 10 exposições coletivas e realizou 3 exposições individuais, entre 1969-1975.

Em 1976 fundou e coordenou a Oficina Literária no SESC no CCD Carlos de Souza Nazareth – SESC (Consolação) depois de ter sido premiado na categoria conto no  Concurso Literário organizado por este centro.

Em 1978 publicou Amanhã São Perón – contos, Editora Ática.

Em 1983 publicou Os Quitutes de Luanda – conto infantil – Criar Edições, Curitiba; premiado pela Biblioteca Internacional da Juventude – Munique, Alemanha.

Na década de 1980 ministrou cursos e oficinas de Escrita-Leitura em diversas Casa de Cultura e Bibliotecas Municipais.

Desde 1992 ministra aulas de Criação Literária e Teoria do Teatro no Espaço Violação – Escola de Música e Arte.

De 1992 a 1995 lecionou Teoria do Teatro no Teatro Escola Macunaíma.

Em 1996-97, ministra aulas de criação de textos nas Oficinas de Criação da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Em 1996-98 leciona Teoria do Teatro na Escola Recriarte.

Em 2003 lecionou História das Artes Cênicas na Escola Everton de Castro.

Em 2004 dirigiu o espetáculo Máscara Preta, de Maurício Ayer.

Em 2006 dirigiu o espetáculo O Homem de Praga, com texto de sua autoria e apresentações no Espaço Violação e no Teatro Julia Bergman.

Tem participado como dramaturger em diversas montagens.

Vários dos seus textos foram encenados, dentre eles: O Mordomo; Era uma vez… Jack, o Estripador; Atrás do Móvel.

É tradutor de espanhol-português-espanhol.

NOTURNO de jorge lescano / são paulo

O beijo de despedida à sombra  do pessegueiro invadindo a calçada por cima do muro. Ninguém à vista. O bar da esquina, com as portas abaixadas, é um bloco cinzento. A lâmpada de iluminação pública: sol elétrico sobre o lago de asfalto orlado pelo duplo bosque de eucaliptos e suas sombras projetadas no chão e nas fachadas. Do outro lado o fim da vila formando uma pracinha.

Entreolham-se. Provavelmente pensam a mesma coisa: quem são? De onde surgiram os quatro homens que gesticulam preguiçosamente ao ritmo de suas próprias vozes?

Ela pressiona com seus dedos a mão dele se transformando em punho.

Os homens, à contra-luz, são figuras de sonho. O rumor das vozes e a impossibilidade de identificá-las ou de entender suas palavras, como se falassem um idioma estrangeiro, aumentam esta sensação. Um deles levanta o braço e no vulto da mão acreditam perceber um brilho metálico apontando em sua direção. Nenhum dos dois poderá afirmar com certeza, uma vez que a fonte de luz fica atrás do grupo e só permite comprovar os movimentos laterais, nunca aqueles que fizerem para a frente ou para trás. Estes gestos de aproximação ou recuo não alteram as silhuetas na tela da noite.

Esperam ou apenas avaliam a conveniência de esperar?

Ela esboça um passo em direção ao interior da casa. Ele a segura pelo pulso receando que percebam sua hesitação. Talvez pensem que se os desconhecidos associam a vacilação à presença deles, terão mais um motivo para esperar, e não é improvável que suas possíveis intenções em relação a eles ganhem novo incentivo. Da sala chega o tom esvaído da luz do abajur. Certamente deve provocar nos observadores alguma imagem parecida àquela que o casal tem do quarteto.

O volume preto e murmurante de um carro flutua rápido e breve na nata de luz da esquina.

Ela acredita ver o estremecimento de um dos homens, porém, não poderia dizer se é de fato uma sensação óptica ou o desejo de algo que para ele se manifesta no quase imperceptível tremor dos lábios e da mão que envolve seu punho. Ela sente os dedos se umedecerem ao contato com a pele do homem , sem, contudo, poder precisar de qual dos dois nasce a transpiração.

Ao longe, o martelar de um trem perfura a noite.

O grupo está em silêncio, reunido em arco: as duas extremidades voltadas para o casal. Vagarosamente um deles descansa o peso do corpo sobre uma das pernas, dobrando o joelho da outra; o segundo afunda as mãos nos bolsos do paletó e levanta os ombros como se sentisse frio; o terceiro dá um passo para trás e apóia as costas no muro; o quarto permanece imóvel: boneco de neve espessa e negra.

Quebrado brilho perfila o nariz dele, luz opaca além dos cílios.

Para ele, a cabeça da mulher é uma bola informe sobre o pálido triângulo do decote. Toda ela um sutil perfume de alfazema que aos poucos vai se aproximando até encostar os lábios na boca dele. Um contato breve e suave, sem movimentos supérfluos: ficar nas pontas dos pés e levantar o rosto e apoiar os calcanhares novamente no chão e esconder a testa sob a franja de cabelo e ao mesmo tempo a mão abandonar a outra mão.

Um do quarteto faz um gesto que poderia ser interpretado como de aproximação (se as sombras não eliminassem a perspectiva). Ela tenta disfarçar a procura da porta, que toca com os cotovelos. Ele deve sentir que não é mais possível prolongar a situação. Olha na direção do rosto dela e depois para dentro da casa.

Antes de ela acabar de abrir a porta, ele, como querendo seu testemunho, já vai à direção dos desconhecidos olhando um ponto por cima de suas cabeças. Provavelmente imagina o nervosismo dela ao dar duas voltas à chave e o abajur sendo apagado enquanto procura o isqueiro.

Após acender o cigarro, leva a mão ao bolso interno do paletó e a retira lentamente, como se carregasse um peso que o pequeno objeto e seu brilho não justificam.

Anda, talvez pensando na moça encostada na porta, (des) esperando o grito, ou os passos apressados, ou o silêncio como um som total e interminável abafado pela noite e que corresponda à dança muda, individual e simultânea, dos cinco homens no espaço retangular da esquina. Anda como se ignorasse os obstáculos.

Entre as imagens que surjam na mente dela, dificilmente poderá aparecer a dos desconhecidos fazendo um corredor silencioso para que ele passe sob seus olhares à luz da lua amarela  que desenha em preto o flanco dos gatos nos telhados e salpica cera na folhagem.