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“NOITES ANTIGAS” de NORMAN MAILER. 3ª EDIÇÃO, 950 PÁGINAS – resenha de arnaldo brandão

 

É óbvio que os dois competiam, Criação é de 1981, Noites Antigas é de 83, a temática é semelhante. O Mailer entrou em Harvard aos 16 pra fazer engenharia, depois abandonou. Foi boxeur, entre outras coisas. Descendia de outro macaco. Escrevia livros enormes, este, “Noites Antigas” bate de longe “Criação” do Gore Vidal. Não bate só em tamanho, mas também, em qualidade. Os caras trabalhavam duro e subiam o morro até os píncaros, mas as editoras americanas bancavam. É uma boa oportunidade pra se observar como o mundo mudou. Outro dia me vem o Paulo Coelho, aquele escritorzinho bem ruinzinho, que pertence a Academia Brasileira de Letras só porque vende livros, e propõe botar o “Ulisses” em 14 caracteres no twiter, ele queria nos lembrar que estamos na era do quanto menor o biquíni, melhor, isso já sabemos desde que o Gabeira voltou com sua tanga, mas com um livro interessante debaixo do braço.

E o Paulo Coelho escreve o que: umas bobagens que misturam auto-ajuda com misticismo barato. É por essas e outras que a literatura no Brasil chegou onde chegou, e um autor como o Jonhatan Frazen, que não se pode dizer que seja um bam-bam-bam, fica esnobando os brasileiros na Feira de Paraty, é claro que ele percebeu de cara que não se tratava propriamente de um evento literário, tinha virado um mafuá, por essas e outras não fui lá receber meu prêmio. Como ele pretende ser levado a sério, assim como eu, pulamos fora. A entrevista do pessoal da Veja com o Gore em 1987 foi a mesma coisa, o cara ficava fazendo gozações. Ainda bem que existem os leitores do Facebook e dos Torpedos que leem estas resenhas e ficam sabendo das coisas. Quer dizer, só uma meia-dúzia de contar nos dedos, mas como diz o ditado: “de grão em grão a galinha enche o papo” e depois que estiver bem gordinha vai pra panela, ou então vai ser exposta naquelas televisões de cachorros de porta de padaria.  É claro que o cara não precisa escrever um livrão enorme pra produzir uma obra-prima, vide meu texto favorito: “O Coração das Trevas”, se quiserem um brasileiro, tem o Raduan Nassar, que abandonou o ringue e foi criar coelhos. Às vezes, o cara precisa de 1.000 páginas pra dar seu recado, é o caso do Mailer, talvez o melhor escritor da segunda metade do século XX.  Ele não era tão famoso quanto o Gore Vidal, embora tão polêmico quanto. Nasceu pobre, morava no Brooklin. Os dois disputavam o título de maiores escritores do EUA e certamente do mundo. Se eu puder opinar diria que ele é o melhor. Com este livro ganhou mais uma vez o Premio Pulitzer, isto foi em 1980. O que tenho em mãos é a terceira edição brasileira, tradução de Aulide  Rodrigues. É um livro que pode até ser colocado na estante de “romances históricos”, o que não significa absolutamente nada. Segundo Mailer, falando dos livros de história, mas dando um “jab”, (tipo aqueles que o Muhamad Ali dava) no queixo do Gore: “o que circula por aí não é história, é uma série de romances extremamente sóbrios, escritos por homens que geralmente não tem vastos talentos literários, tem muito menos a dizer sobre o mundo real que os romancistas”. Assino embaixo, embora ele tenha lido dezenas de livros de história para escrever este. O Mailer não escreveu apenas um livro sobre o Egito Antigo, no fundo a obsessão dele é, como sempre foi, os EUA e o totalitarismo, que ele analisa através de um olhar prolongado sobre a superfície irregular das vidas de um tal Manhenhetet. Ele certamente é da estirpe do Gorvaidal, Guimarães Rosa e outros, que viveram várias vidas, uma só não seria suficiente para entenderem o que queriam entender.

O livro começa com um prólogo do W.B. Yeats, grande poeta irlandês: “creio na pratica e na filosofia do que se convencionou chamar de magia e no que devo chamar de invocação dos espíritos…”. Se Yeats e Mailer acreditavam, porque eu não acreditaria. O texto se divide em 7 livros, ou melhor, 7 capítulos. E estes capítulos são subdivididos em subcapítulos, como se quisesse dar, a nós leitores, um tempo para respirar. O livro se passa entre a 19ª e 20ªdinastias, 1290 a 1100 aC. O narrador é um tal Manhenhetet que durante as suas vidas encarna e reencarna várias vezes e passa a se chamar Manhehetet I, II e assim sucessivamente. Neste périplo ele convive com deuses, faraós e principalmente com Nefertiti, e como vocês podem imaginar, toda vez que ela aparece, eu não durmo direito, situação muito parecida quando o Gore Vidal falava de Babilônia. Ela costumava usar uma espécie de blusa que deixava um dos seios de fora. Era lindíssima, nada a ver com Cleópatra, que não era essas coisas que Roliude disse. Vamos ao que interessa, o texto do Mailer.

“A escuridão era profunda. No entanto agora eu sabia. Estava em uma câmara subterrânea de dez passos de comprimento por cinco de largura, e percebi (com a rapidez de um morcego) que o compartimento estava vazio…No escuro meus dedos encontraram um nicho entre dois blocos de pedras, não maior que uma  cabeça humana. Pelo hálito fresco devia conduzir à noite lá fora.” Pelo texto já devem ter percebido, que o estilo é muito diferente do Gore, muito mais poético, mais dentro da tradição inglesa e eventualmente americana, mais caprichado, mais tudo. Notem que a descrição alude a um morcego, só pra criar um ambiente mais assustador. O personagem acaba de reencarnar e começa a entender que tinha um corpo, e ele tinha a memória do que havia vivido, e então vai andando pelo que se chama hoje de “Vale dos Mortos”. Então ele se lembra do pai dele, que era ”superintendente do estojo de cosméticos” diz ele, o Manhenhetet, que preferia morrer de novo a ambicionar um título como aquele. Estão rindo, vocês não fazem ideia, mas tive um grande amigo que era uma figura lendária (participou diretamente da construção do Alvorada e era amigo do Plínio Salgado) e por acaso, meu ex-sogro. Ele me contou que mesmo os militares tinham a disposição uma maquiadora 24 horas por dia. Jango e a Maria Teresa eram clientes constantes, assim como JK. Daí podem fazer ideia da importância da coisa, para os egípcios a maquiagem era tão importante quanto a alimentação. Por falar em JK, quando comecei a escrever o romance “Encaixotando Brasília”, cogitei seriamente em contar a história de Brasília a partir da tumba de JK, que seria o protagonista (Benício registra a ideia, por favor). Não desisti ainda. Para concluir, vamos ao texto altamente poético do Mailer e vejam se ele não é muito melhor que o Gore: “…pois agora um cometa se aproxima. Sou açoitado por um vento terrível…Navegamos através de domínios vagamente avistados, afagados pelas ondas do tempo. Aramos campos de magnetismo. Passado e futuro se unem em tempestades e nossos corações mortos vivem como o relâmpago nos ferimentos dos deuses.”

 

D O B A I L E – por jorge lescano / são paulo.sp

A primeira dama havia lido a resenha de um grande baile de gala […]

a leitura propunha o questionamento e solução das sete seguintes fases:

Primeira: o baile como foi realmente oferecido há um século.

Segunda: o baile resenhado pelo cronista da época.

Terceira: o baile como a primeira dama imagina que foi,

com a resenha do cronista.

Quarta: o baile como a primeira dama imagina que foi,

sem a resenha do cronista.

Quinta: o baile como ela imagina dar.

Sexta: o baile como é realmente dado.

Sétima: o baile que pode ser levado a cabo,

utilizando a lembrança do baile como é realmente dado.

 

Virgilio Piñera, O baile, 1944

 

Segundo o encarregado do cotillon – a escolha do termo franco em detrimento do ianques coloquial, denotava o anacronismo do decorador e o habilitava para o cargo – , dever-se-ia respeitar as premissas do baile original se bem que acrescidas da técnica de última geração. A grande sala receberia iluminação indireta, porém, conservar-se-ia o grande lustre central, apagado. As fontes luminosas seriam arandelas douradas, devidamente guarnecidas de lâmpadas fluorescentes. O resto da ambientação não poderia violar este princípio. Por que a luz em primeiro lugar? O sorriso enigmático sugeria alguma causa mística – e nisto ele era perfeitamente contemporâneo – imaginasse a primeira dama os adereços correspondentes a partir desta causa não revelada.

O fashionista de moda (sic) sustentava opinião diversa. Para ele, a autenticidade da reprodução (sic) residia precisamente no uso do design e materiais pós-modernos – o itálico dava caráter de citação ao termo e habilitava o usuário para o cargo –, visto o idealizador do baile que se pretendia reeditar haver tido como referência um look prévio (vide V.Sa. o book & folderzinho anexos). De acordo com o cronista do baile (segundo nesta cronologia), os kits dos convivas eram exclusivos, criados especialmente para a ocasião, não streetwear nem week-end, com apenas um flashback da fashion do século retrô. Por tal motivo estavam, ele e seu competente team de fashionistas, ao inteiro dispor da primeira dama e seu wonderful catálogo de partners.

O músico da corte, tentando um caminho conciliatório – evitou a palavra alternativa por estar muito em voga –, sugeriu a inclusão de ritmos dançantes que remetessem aos bailes originais, melodias lights e um toque leve de música animal (sic). Acreditava que deste modo permitiria aos presentes a leitura simultânea do baile atual, devidamente justaposto à(s) lembrança(s) do(s) baile(s) original(is). Apreciasse a primeira dama o Song Book de artistas nacionais que acompanhava o parecer. Uma forte tendência para a simetria deu-lhe fama de espírito equilibrado, o qual o habilitava para o cargo.

Inúmeras objeções e conjeturas nutriram as tertúlias dos eruditos locais. Algum ficcionista cubano, de passagem por K, registrou as sete versões do baile, ou sete bailes possíveis, e as peripécias metafísicas e antropológicas vividas pela primeira dama e sua corte de senhoras bem nascidas. Seria cansativo referi-las neste parco resumo. Recorreu-se então à iconografia da(s) época(s)em questão. Saiu-seà caça de depoimentos de cidadãos provectos e de partituras mais ou menos consumidas pelas traças, uma vez que o Museu do Homem, em Paris, pegou fogo naqueles dias.

O patchwork party de ontem à noite nos Gardens de Calcutá City foi badaladíssimo. A iluminação light empolgou quem esteve lá. As teens vibraram com os mega insight do Luto Gacaz, que instalou spots Luiz XV munidos de psicodélicos pisca-pisca. O efeito alinear só foi superado pelo som, que circunviajou do hit Jesus Alegria dos Homens à oldfashioned tecno com paradas no country-rock& música étnica. A wearable Lulu Fueda Sertã estava diafânica. Vestiu saiote rodado, chapéu de plumas & peruca empoada à Maria Antonieta, com direito a fita de veludo blood no pescoço & franja irregular escorrendo para o decote free. Quem esteve animal foi Roland Small Pinto, 12. Seu black-tie, as polainas de verniz & hat a La Jack, o Stripper, compuseram um look zen. Arrasou! A promoter do evento passou a velada à margem esquerda de Sua Excelência. Digno de nota seu coque retrô. Vez por outra o sorriso spleen surgia por trás do leque de plástico made in Taiwan, decorado com graciosas figurinhas de Watteau. Sua Excelência vestia bermuda verde, óculos escuros, camiseta regata amarelo sorriso, tênis grunterssauro azuis, meias brancas com estampas de coqueiros & bonezinho Mickey Mouse. Spirit vídeo-clip, seu travel is do planalto to baía. Era-lhe impossível conservar a dignidade oficial, sempre identificada com a pose ice da pintura careta.

            O agito foi antológico, Yeah! Todos pediram bis. Uau!

Assim resenhou o baile um jornalista creditado no Palácio de Governo.*

*cf. Niu’s (Jornal Nacionalista) de 29/07/1997 (Nota de JL)

Morre a cantora africana Cesária Évora: calou-se “a grande voz” de Cabo Verde. – por regina bostulim / coimbra.pt


 

Portugal chora a morte da “Diva dos Pés Descalços”.


 

A cantora cabo-verdiana Cesária Évora, conhecida como Rainha da Morna, tipo de música que a popularizou, faleceu no dia 17 de Dezembro, aos 70 anos. Os telejornais portugueses já vinham dedicando várias reportagens à cantora desde que se ausentou dos palcos em 22 de Outubro. Na ocasião a cantora anunciou ao jornal francês Le Monde o fim da carreira devido a problemas de saúde, e retornou à sua ilha natal, São Vicente, para morrer.

Radicada na França há cerca de 20 anos, Cesária havia recebido em 2009 do presidente Nicolas Sarkozy a medalha da Legião de Honra. Mas amava o Brasil: em 1999 gravou em duo com Marisa Monte a canção É Doce Morrer no Mar, de Dorival Caymmi.

                                                 Pés descalços

A pior fase da vida da cantora no ano de 1975, ano da independência de Cabo Verde. As tremendas dificuldades econômicas  por que passava o país a forçaram a parar de cantar para dedicar-se ao sustento da família. Frustrada, a cantora caiu no alcoolismo, prolongando seus anos de inferno por 10 anos, a que chamou  dark years (anos negros).

Sua volta triunfal aconteceu em Portugal, incentivada por Bana, cantor e empresário cabo-verdiano radicado no país. Um francês chamado José da Silva a persuadiu a ir a Paris, onde grava em 1988 o álbum La diva aux pied nus (a diva de pés nus), forma como se apresentava nos palcos.

O álbum foi aclamado pela crítica, e em 1992 gravou Miss Perfumado, e passou a morar na França. Tornou-se uma estrela internacional aos 47 anos. Em 2004 recebeu um Grammy, de melhor álbum de world music contemporânea. Foi a cantora que recebeu maior reconhecimento internacional na história da música cabo-verdiana.

“Copia Fiel” – Um Kiarostami original . Ou não? – por monica benavides / curitiba.pr

Assisti mais um filme iraniano.  Copia Fiel, de Kiarostami.

Se quando citei iraniano e Kiarostami, você se animou com imagens de areia, deserto, camelos e exóticas caravanas de beduínos; digo que infelizmente não, esse Kiarostami não vai lhe agradar. Diferente do filme que colocou o Irã na moda e transformou o diretor em queridinho do cinema mundial (Gosto da Cereja), aqui Abbas Kiarostami guarda de sua origem persa muito pouco, apenas um toque. Em todo o mais ele se aproxima totalmente da escola francesa de cinema.

Em Cópia Fiel, esse toque a que me referi fica muito evidenciado. Eu o descreveria  como uma capacidade herdada pela sua origem,  para enxergar uma diferença básica entre o sexo feminino e masculino, uma sutileza de compreensão da vida e relação com o desejo, por parte da mulher, um passar de tempo consciente para elas, que acredito fique  sem eco aos homens ocidentais nascidos após o vitoriano.

No filme, Juliette Binoche, madura, linda e como sempre hipnotizante, (prestem atenção na cena do brinco), apresenta uma forma de sedução velada, com gestos, meio-sorrisos (sua marca registrada), olhares e porque não dizeres, que poderia ser considerada o supra-sumo do uso da feminilidade em uma relação de conquista homem e mulher. Enlouquecendo aos poucos ou não, (aqui está a escola francesa), a personagem de Kiarostami apresenta toda a sua capacidade de fantasiar e brincar de faz-de-conta com o viver.  Isso se dá devagar, através dos diálogos e os famosos closes femininos do diretor, que se desenrolam e que aparentemente surreais, surpreendem o espectador pela carga dramatica, o levando a sem sentir, sofrer por ela em sua tentativa ingênua e constrangedora de cativar.
Willian Shimell, esta muito bem no papel, quase a altura de sua parceira de cena. Mas sua perplexidade soa um tanto falsa e forçada, o que para o clima correto que o roteiro exige, deixa a desejar.

É importante avisar que não existe explicação racional aqui, o expectador não verá uma história lógica com começo, meio e fim e com certeza sairá da experiência um tantinho atordoado.

Se essa era a intenção do diretor, não importa. Para mim, o que há de mais iraniano nesse filme é justamente a capacidade de Abba, como um excelente exemplo do artista originário do Oriente médio (quem já leu Mahfuz e Layla sabe), de contar uma bela história de amor do jeito certo. Dando valor aos detalhes,  às pequenas reações individuais, a dinâmica dos diálogos de quem quer amar e ao medo que provoca querer alguém que não se conhece. Ou conhece?

Aqui definitivamente a cópia é o original, quem ver o filme entenderá.

Enviado via iPad

“Brinquedos Proibidos” de René Clement – por monica benavides / curitiba

domingo, 20 de março de 2011 às 22:56

Hoje assisti ao belíssimo “Brinquedos Proibidos”, um filme de René Clement, com uma fantástica trilha de guitarra do Narciso Yepes.

Carregado em dramaticidade porém livre de pieguices, como a maior parte da escola realista francesa do pós-guerra, “Le Jeux Interdits” no original, conta a história de Paulette uma menininha francesa na época da ocupação alemã (1940).

Órfã, a menina vaga pela França carregando o corpo de seu cachorrinho morto, até ser encontrada por um menino, Michel Dolle, filho de uma rude e ignorante família camponesa. Apesar da intensa dificuldade de adaptação de Paulette, ela verá no novo amigo a possibilidade de entender e sobreviver ao desmoronamento de seu mundo.

O filme tem um final previsível, porém assustador, que faz pensar muito no que aconteceu com as crianças órfãs da segunda guerra, e na incrível e insuperável capacidade que a raça humana tem, de superar os momentos de mais completo desespero, através da simples esperança.

Clement conseguiu separar bem o mundo adulto, cheio de mesquinhez e ódio, do infantil carregado de ternura e inocência. Mesmo caricatural sua crítica social é tocante e a separação das crianças angustiante. Como se não bastasse, mesmo datada a interpretação dos pequenos é maravilhosa.

O filme, apesar de recusado por Cannes (absurdamente), ganhou o reconhecimento do mundo com um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e com o Leão de Ouro em Veneza no ano de 1952 (merecidamente), suprema recompensa e menção especial do juri “…por ter elevado a uma singular pureza lírica a inocência da infância acima da desolação da guerra…”

Em tempos como o nosso de conflitos velados e pseudo guerras cirúrgicas, o filme realmente consegue a proeza de marcar nossa alma com um selo de intensa bondade e anti-belicismo.

Recomendadíssimo!!!!!

Historiador israelense defende que povo judeu é invenção do sionismo – fabio victor / são paulo

Na carteira de identidade do historiador israelense Shlomo Sand, no lugar reservado à nacionalidade está escrito que ele é judeu.

Sand, 64, solicitou ao governo que seja identificado de outro modo, como israelense, porque acredita que não existe nem um povo nem uma nação judeus.

Seus motivos estão expostos em “A Invenção do Povo Judeu”. Best-seller em Israel, traduzido para 21 idiomas e incensado pelo historiador Eric Hobsbawm, o livro chega agora ao Brasil (Benvirá).

O autor defende que não há uma origem única entre os judeus espalhados pelo mundo. A versão de que um povo hebreu foi expulso da Palestina há 2.000 anos e que os judeus de hoje são seus descendentes é, segundo Sand, um mito criado por historiadores no século 19 e desde então difundido pelo sionismo.

“Por que o sionismo define o judaísmo como um povo, uma nação, e não como uma religião? Acho que insistem em ser um povo para terem o direito sobre a terra. Povos têm direitos sobre terra, religiões não”, diz à Folha, por telefone, de Paris.

Olivia Grabowski-West/Divulgação
O historiador israelense Shlomo Sand, autor de "A Invenção do Povo Judeu", lançado no Brasil pelo selo Benvirá
O historiador israelense Shlomo Sand, autor de “A Invenção do Povo Judeu”, lançado no Brasil pelo selo Benvirá

“Na Idade Média a palavra povo se aplicava a religiões: o povo cristão, o povo de Deus. Hoje, aplicamos o termo a grupos humanos que têm uma cultura secular -língua, comida, música etc. Dizemos povo brasileiro, povo argentino, mas não povo cristão, povo muçulmano. Por que, então, povo judeu?”

Valendo-se de fontes e documentos históricos, a tese de Sand, ele mesmo admite no livro, não é em si nova (cita predecessores como Boaz Evron e Uri Ram). “Sintetizei, combinei evidências e testamentos que outros não fizeram, pus de outro modo.”

Ele compara: até meados do século 20, “a maioria dos franceses achava que era descendente direto dos gauleses, os alemães dos teutões e os italianos, do império de Júlio César”. “São todos mitos”, afirma, “que ajudaram a criar nações no século 19”.

Neste século 21, sustenta, não há mais lugar para isso.

“Não só o Brasil é uma grande mistura. A França, a Itália, a Inglaterra são. Somos todos misturados. Infelizmente há muitos judeus que se acham descendentes dos hebreus. Não me sinto assim. Gosto de ser uma mistura.”

Filho de judeus, nascido num campo de refugiados na Áustria, o autor lutou do lado israelense contra os árabes na Guerra dos Seis Dias, em 67, quando o país ocupou Cisjordânia e faixa de Gaza.

Em seguida virou militante de extrema esquerda e passou a defender um Estado palestino junto ao de Israel.

Professor na Universidade de Tel Aviv e na França, onde passa parte do ano, o historiador avalia que as hostilidades entre israelenses e palestinos, reavivadas nas últimas semanas, continuarão por tempo indeterminado.

“Enquanto o Estado palestino não for reconhecido nas fronteiras de 67, acho que a violência não vai parar.”

A INVENÇÃO DO POVO JUDEU
AUTOR Shlomo Sand
EDITORA Benvirá
TRADUÇÃO Eveline Bouteiller
QUANTO R$ 54,90 (576 págs.)

Como Água para Chocolate – por mônica benavides / curitiba

Como Água para Chocolate – Um livro/filme de receitas; para aprender a preparar comida, amor e lágrimas

 

O realismo fantástico é um gênero literário, que se desenvolveu principalmente na América Latina, e que encontrou aqui os seus expoentes máximos, gênios como García Marquez e Isabel Allende, de quem todos, (independente de amarem a leitura ou não), ou já ouviram falar ou já folhearam um livro na estante de uma livraria, banca de jornal ou farmácia (incrível, mas fato, hoje em dia se vende de tudo na farmácia menos remédios. Para esses, eles só aceitam um acordo financeiro que contemple sua assinatura em sangue sobre um contrato, no valor equivalente ao de uma alma em boas condições).

 

Bem, voltando; com certeza você já ouviu falar dos dois, blá, blá, blá… e não me delongarei no assunto. O que importa é que talvez, e digo chorando por você, infelizmente talvez, você não saiba que existe uma senhora mexicana, representante desse gênero que é um verdadeiro deleite. Seu nome: Laura Esquivel.  Essa mulher teve a ousadia de juntar o realismo fantástico com a cozinha ficção. O resultado?  Um cozido quente, com molho grosso e cheiroso; diria que opulento.

 

E eu fiz questão de falar desse livro, porque sei que muitas pessoas odeiam ler e que o cinema lhes vão em socorro para que conheçam adaptações das obras mestras da literatura,  consequentemente, conheçam as melhores histórias que a humanidade já inventou e contou. Na minha opinião, em noventa por cento dos casos de forma lamentável e criminosa. Quer um exemplo? Olha o que fizeram com o Germinal do Zolá… mas deixa essa história para outro dia.

 

Bem, voltando novamente (não sei porque, mas hoje estou tergiversando além do normal), Laura Esquivel é mexicana, tem um livro maravilhoso de estréia, perfeito representante do realismo fantástico latino americano, o dito é um deleite para quem ama cozinha (fiz duas receitas entremeadas na história e digo: elas dão certo), e que faz parte dos dez por cento restantes, que incluo nas adaptações cinematográficas aceitáveis, e digo até… MUITO bem feitas.

 

O filme é fiel à história, aos personagens, e o mais importante, mantem íntegro o clima do livro; romance, drama e intensa perplexidade.

 

Bem, quem não viu e não leu, pare de ler agora. Depois daqui começam os spoilers.

 

Como água para chocolate, é antes de tudo uma história de várias gerações (uma das características marcantes desse gênero literário), um romance com pitadas de melodrama (olha aí a segunda), e uma história povoada com o pó de ouro e a riqueza dos mitos e lendas de uma região (pronto está aí a terceira), além disso, entremeia a narração com fatos absurdos, que contrariam totalmente as leis da física e que se aproximam mais da ficção científica que dos documentários do Discovery Channel (pronto aí está a quarta e derradeira).

 

O livro e consequentemente o filme, contam a história de amor de Pedro e Tita e a história de ódio de Mamãe Elena. Mas o mais importante é que o livro, e graças ao cuidado com o roteiro e a fotografia, o filme; nos transportam para o mundo da cozinha de uma casa mexicana, com seus cheiros, sabores, suores e lágrimas.

 

O livro e o filme, apresentam cada capítulo da história com uma receita especial, lida por uma tataraneta de Tita, que é a narradora principal. Essa história guarda em si cenas belíssimas, que mostram como o cozinhar e o amar caminham juntos, desde que a primeira mulher das cavernas, assou um pedaço de caça para impressionar o homem que amava. As perdizes feitas por Tita utilizando as rosas destruídas, são a mais bela expressão de amor que já vi. Assim como o bolo misturado com as lágrimas de sua dor, mostram como a alma de alguém, quando torturada ao seu limite, pode causar desarranjos nas idéias impostas por outros.

 

O filme é lindo, a atriz mexicana Lumi Cavazos está fantástica no papel, mas perde muito para a soberba interpretação de Regina Torné como Mamãe Elena (ela realmente nos faz querer matá-la). Quanto ao erotismo é bem dosado, sem apelação e a cena de consumação (no sentido literal, afinal eles se consomem pelo fogo), do amor dos dois é belíssima.

 

Digo sempre a quem quer ouvir e a quem não quer também, que leia o livro antes de ver o filme, mas nesse caso digo com mais ênfase, porque aqui o prazer será maior, você verá que as descrições que te levam a criar os cenários da autora na cabeça se descortinaram na tela.

 

Será como ter uma revelação. Uma experiência, em que você verá sua imaginação praticamente transportada para o filme. Esse efeito é conseguido porque o diretor Alfonso Arau foi detalhista e cuidadoso. Fiel completamente aos cenários e aos personagens de Esquivel.

 

Esse livro e esse filme são jóias valiosas e um tanto discretas, como aquelas tabernas nos porões de casas simples em cidadezinhas européias da França ou da Espanha. Você entra receoso, porque são menos famosos do que deveriam (somente se conhece por indicação pois não constam em guias), mas sai maravilhado e saudoso, porque guardam em si um universo de sabores surpreendentes. E isso, é importante dizer, é muito mais do que se pode dizer de diversos pratos, servidos nos mais famosos restaurantes.

 

A ARTE de BEIJAR – por lourivaldo baçan / são paulo

O dicionário diz que um beijo é “uma saudação feita tocando com os lábios apertados e separando-os, próximo do “alvo”, de repente.

Disto é bastante óbvio que, embora se possa saber algo sobre palavras, não se sabe nada sobre beijos.

Se nós formos descobrir o real significado da palavra beijo, ao invés de irmos pesquisar velhos alfarrábios e dicionários,deveríamos ir perguntar isso aos poetas que ainda têm o sangue quente da paixão da mocidade nas veias.

O grande segredo e a arte do beijo.

Coleridge chamava o beijo de respiração de néctar. Shakespeare dizia que um beijo é um “selo de amor.” Marcial, poeta romano, dizia que um beijo era “a fragrância de bálsamo de árvores aromáticas, o odor do açafrão abundando, o perfume saboroso de frutas maduras, os prados floridos pelo verão, o âmbar esquentado pela mão de uma menina, um buquê de flores que atraem as abelhas”.


Sim, um beijo é tudo isso… e mais.

Outros disseram que um beijo era: o bálsamo de amor; a primeira e última das alegrias; o idioma do amor; o selo de felicidade; o tributo do amor; o gole refrescante e o néctar de Vênus.

Sim, um beijo é tudo isso. . . e mais.

Um beijo não pode ser definido, simplesmente porque cada beijo é diferente do anterior e do que virá em seguida, da mesma maneira que nenhuma pessoa é semelhante à outra.
Assim, não há dois beijos semelhantes, porque são as pessoas que fazem os beijos. Pessoas reais, vivas, que pulsam com vida, amor e felicidade extremas.


TIPOS DIFERENTES DE BEIJOS

Claro que há tipos diferentes de beijos. Por exemplo, há o beijo que a pessoa devota deposita no anel do Papa. Há o beijo materno de uma mãe em sua criança. Há o beijo amigável entre duas pessoas que estão se encontrando ou estão se separando. Há o beijo que um rei exige de seus escravos.

Mas embora todos eles sejam chamados de beijos,eles não são os beijos a que vamos nos referir neste livro. Nossos beijos são o único tipo de beijos que vale a pena considerar: os beijos de amor. O beijo, talvez, que Robert-Bums tinha em mente quando escreveu:

Doces selos de afetos suaves, suaves preces de felicidade futura,querido laço de conexões jovens,o primeiro galanteio de amor, beijo de virgem.

A coisa surpreendente sobre o beijo é que, embora o gênero humano tenha beijado desde que Adão se virou e viu Eva próximo dele, não houve praticamente nada escrito no assunto.

Todos os anos são publicadas centenas de livros ensinando como fazer isso ou aquilo, como ganhar dinheiro, como conseguir um trabalho, como cozinhar, como escrever e até como viver.

Mas, da arte de beijar, escreveu-se muito pouco. Uma razão para essa falta de instrução formal é devida ao senso de moral vitoriano, que persistiu através dos tempos. Para os puritanos do passado, qualquer coisa que se referisse ao amor era sujo e pornográfico.

Os escritos de John Bunyan mostram o que esses puritanos pensavam do beijo. Ele escreveu, em ” The Pilgrim’s Progress”, que os beijos eram “as saudações comuns de mulheres que eu detesto. É odioso para mim sempre que vejo isso.

Quando eu vejo homens bons saudar essas mulheres que eles conhecem ou que visitaram, eu faço minhas objeções contra; e quando eles respondem que é apenas um pouco de civilidade, eu lhes falo que não é uma visão graciosa.

Realmente, algumas mulheres consideram o beijo santo; entretanto, eu lhes pergunto porque fazem diferenciações; por que saudam os homens belos e saudáveis e deixam passar os feios e doentes?”

Talvez o velho Bunyan pensasse desse modo porque era um dos feios e doentes que jamais foram beijados.

Mas, hoje em dia, as pessoas têm uma perspectiva mais ampla da vida. Nossos jogos estão se tornando mais civilizados e menos mortais. Nossas artes não são mais censuradas por leis. Livros estão sendo escritos sobre assuntos que nenhum autor antigo teria ousado pôr no papel.

Anticoncepcionais, divórcios e a ciência do matrimônio são assuntos comuns em livros. Até mesmo os vícios estranhos do gênero humano são expostos e discutidos e não mais mofam nas câmaras escuras da censura.

Sim, livros como o de Van de Velde, “Matrimônio Ideal” e o de Stope, “Amor Casado”, são abertamente vendido em livrarias.

Mas, em nenhuma parte nós encontramos um livro que instrua as pessoas na arte de beijar, uma arte que é absolutamente essencial para uma vida feliz, como discutiremos nos próximos capítulos deste livro.

Porque nós não estamos livres absolutamente das correntes do puritanismo? Em certas partes do país, foram presos homens por beijar as esposas na rua! Isto é civilização?

É por isso que este livro foi escrito. Para ser um manual do beijo.

Aqui nós vamos discutir a maioria dos métodos aprovados de beijar, as vantagens de certos tipos, as desvantagens de outros, as reações mentais e físicas de beijoqueiros, episódios históricos de beijos, junto com exemplos da literatura mundial na qual beijos foram o assunto. Assim, aprume-se, prepare seus lábios e vamos à arena dos beijos!

POR QUE AS PESSOAS BEIJAM?

O que acontece quando um homem e uma mulher se beijam?

Quer dizer, o que acontece em várias partes do corpo quando duas pessoas apaixonadas unem seus lábios em felicidade? Anos atrás, antes de nossos biólogos conhecerem a existência das glândulas em nossos corpos, um escritor citou um cientista que teria dito que “beijar é agradável porque os dentes, mandíbulas e lábios estão cheio de nervos e quando os lábios se encontram uma corrente elétrica é gerada “.


Que tolice! Que tolice absoluta!

Em primeiro lugar, duas pessoas se beijam porque estão satisfazendo uma necessidade dentro delas, uma necessidade que é tão natural quanto a de comida, de água e de conhecimento.

É a fome de sexo, que os dirige um para o outro. Depois dessa necessidade saciada, então vem a de uma casa, a de crianças e de felicidade matrimonial.Essa necessidade é instintiva, isto é, nós nascemos com ela, todos nós, e não podemosaprender ou podemos adquirir isso de alguma forma.

POR QUE BEIJAR É AGRADÁVEL?

Uma vez que essa necessidade de sexo oposto se comprova, acontece no corpo humano o que é conhecido como tumescência que, em idioma simples, é a contração rítmica dos vários músculos do corpo junto com o funcionamento de certas glândulas que a ciência esteve impossibilitada de definir quais eram.

Especialistas em glândula sabem,executando certas operações, que a suprarenal, a pituitária, a gônada e outras glândulas controlam o comportamento sexual de seres humanos.

São essas glândulas que reagem, que secretam os hormônios no sangue que, em troca, leva-os aos vários órgãos envolvidos na reação sexual.

Então, pode ser dito que é a satisfação parcial da necessidade de sexo que torna beijar tão aprazível. Eletricidade é usada para girar motores, acender luminárias e aquecer ferros-elétricos. Mas eletricidade não dá satisfação completa ao beijo. E chega de ciência estéril!

Nós temos pela frente uma leitura aprazível sobre a felicidade do beijo. Agora que aprendemos porque homens e mulheres se beijam, vamos entrar nos métodos usados para beijar, de onde vem realmente a satisfação desse prazer.

MÉTODOS APROVADOS DE BEIJAR

O único beijo que conta é aquele trocado por duas pessoas apaixonadas entre si. Essa é a primeira exigência do beijo que satisfaz. Um beijo é realmente a união de duas almas-gêmeas que estão juntas porque nasceram uma para a outra. A razão para isso é porque o beijo é a introdução para se amar o verdadeiro amor.

O beijo prepara os participantes para a vida de amor do futuro. É a fundação, o ponto de partida do amor sexual. E é por isso que a maneira como o beijo é dado se torna extremamente importante.

Ainda há jovens mulheres que acreditam que os bebês são o resultado de beijos! Este é um fato! E essa condição existe porque nossos pais ou ignoram os métodos de explicar sexo às crianças ou ficam embaraçados de fazê-lo.

O resultado é que as crianças obtêm a informação sexual nas ruas e ruelas ou então permanecem ignorante e acabam acreditando em mentiras e fantasias.

BEIJOS SÃO PRELÚDIO PARA O AMOR.

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (contém spoilers) – por monica benavides / curitiba

Para mim, é engraçado ver como qualquer filme que sugira ou cite sexo, recebe um carimbo e passa a ser conhecido e reduzido a um clichê pornô. Não existe praga maior para qualquer roteiro, do que uma crítica (maldosa ou bem intencionada, não importa), de que o filme é “erótico”.

 

Automaticamente todas as intenções do roteirista, do diretor e dos atores, sejam elas quais forem, são transformadas em uma fumaça mal cheirosa que tende a disfarçar uma perversão inata dos seres humanos reunidos em sociedades ditas civilizadas, e pautadas pelo velho e bom moralismo cristão.

 

Tudo o que coloquei acima serviu de referência quando escrevi sobre esse, que para mim, não é um filme erótico, não é um filme pornô e muito menos é um filme feito para provocar a discussão sobre a moralidade social.

 

Last Tango in Paris, é um aprofundado estudo psicanalítico da sociedade francesa e uma metáfora para a transição da Europa para o  American Way of Life (prestem atenção na cena dos dois namorados franceses, escolhendo o vestido de noiva e discutindo sobre casamento pop… fantástica). Uma situação irreversível, que tomou de assalto esse continente vovô, assim que a última bala aliada foi deflagrada nos anos 40.

 

A relação doentia entre Marlon Brando (um americano expatriado, cinquentão, charmosíssimo e misterioso) e a doce e jovem Maria Schneider, com seu chapéu com peônias e sua capa escondendo um vestido curto, inverte o teor do conflito de gerações que dominava o mundo na década de seu lançamento (1972).

 

Em Last Tango in Paris, vemos Bertolucci em sua melhor forma, com um roteiro vigoroso, uma fotografia de ensaio e uma discussão séria sobre “o ser existencialista”, em uma época onde todos se sentiam culpados pela dor do outro (Guerra do Vietnã, Paz e Amor, Fidel Castro, Apartheid…enfim, a década da culpa).

 

Esse existencialismo descabido permeia todo o filme. Torna-se explícito quando Brando conversa com o amante de sua mulher que acaba de suicidar-se. Ao fundo, na parede, está uma foto de Camus e um pôster de Henry Moore. Schneider, em outra cena, ao conversar com sua mãe, conta sobre o tempo em que seu pai militar, já morto, morou na Argélia.

 

E assim vai; aos poucos. Descortinando o roteiro, e levando o sentimento de existência até o ápice, quando no diálogo dos dois, após a cena da manteiga, que na verdade foi colocada apenas como uma forma figurada de mostrar a Europa enquanto território conquistado, mas que rendeu ao filme sua fama, (Para usufruir da arte, a visão literal sempre será patética e te tornará medíocre, essa é uma lição importante) Brando diz para ela: “Garota, você está só, todos estão sós… as pessoas vão ser sós até o dia de sua morte, você descobrirá isso um dia… “. Nem Sartre teria explicado melhor.

 

O filme é romântico. Ok! Ninguém nunca concordou comigo, mas é, (como tudo que Bertolucci já fez. Para mim ele é o Rachmaninov do cinema). O filme é psicanalítico, na forma como ela mata Brando na sala do apartamento de sua mãe com a arma do pai dominador e diz: Quem era ele? Eu não sei? A cena chega a ser óbvia. E mais importante do que isso, o filme é extremamente perturbador e corajoso. Não pelas cenas de sexo, que na verdade para uma geração como a minha que convive com a tal mulher melancia e as novelas da Globo chegam a ser pudicas, mas pelo roteiro duro, pelo tema doloroso e pela narração crua.

 

Eu recomendo o filme, e recomendo que quem assisti-lo e após uma semana, só conseguir lembrar das cenas de sexo, procure urgentemente um psicanalista.

 

Realmente o filme mexe com o inconsciente de homens e mulheres, afinal todas as meninas já fantasiaram o amor por um homem mais velho, todas as mulheres já tiveram em algum momento uma vertigem de fuga e todo homem já se abasteceu  de prazer e encontrou o torpor para o sofrimento, na companhia da juventude de alguém.

 

Se não existe sinceridade na sociedade para aceitar isso como uma verdade, é outra história, e Bertolucci não quis contá-la aqui, disso eu tenho certeza.

 

 

A história viva dos anos da ditadura – por urariano mota / brasil

O livro 68 a geração que queria mudar o mundo é um calhamaço de 690 páginas que, em vez de assustar pelo peso e volume, deixa em toda a gente um fascínio. Explico, ou tento explicar.  De agora em diante, ele será um volume de consulta obrigatória, para que não se cometam mais tantos atentados à história e à verossimilhança em telenovelas, peças e filmes no Brasil, quando o assunto for ditadura.  

Organizado por Eliete Ferrer, publicado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no livro participam 100 autores em 170 relatos. Em mensagem coletiva no grupo da internet “os amigos de 68”, Eliete informa que nele se encontram “histórias reais ocorridas desde 1964 até a abertura política – nas reuniões, na militância, nas manifestações, nas discussões, na prisão, nas ações armadas ou não, nos treinamentos, na clandestinidade, no Brasil ou no exterior, no exílio. O diferencial do nosso livro caracteriza-se pela revelação do lado humano e afetivo daqueles que não aceitaram a prepotência do Golpe de 64, concebido e engendrado nos Estados Unidos”.

De fato, se em alguns relatos individuais as angústias e o heroísmo de militantes socialistas nem sempre se acham realçados, na maioria dos textos e no seu quadro geral se depreende uma história rica da vida de jovens, de homens e mulheres na última ditadura, que, setores à direita queiram ou não, está na agenda do mundo político do Brasil. O livro vem numa luta que exige resposta da civilização brasileira aos assassinatos até hoje encobertos. Mais precisamente, na batalha incansável dos familiares dos mortos que continuam a busca dos  corpos dos filhos, pais e irmãos. “68 a geração que queria mudar o mundo” é parte ativa  da consciência do  país que deseja uma punição exemplar para crimes contra a humanidade, que são imprescritíveis por todas as convenções internacionais do Direito.

Divulgação

O melhor e mais agradável em 68 a geração que queria mudar o mundo é que ele não é um volume de teses. Em seu conjunto lêem-se relatos plenos de frescor, isso quer dizer, de sangue vivo,  da hora, recuperado com o frescor da memória.  É um livro necessário, porque nele estão as chamadas fontes primárias, as pessoas fora dos arquivos, contando o que viveram, penaram ou mesmo imaginaram nos anos do terror da ditadura brasileira. Delas vêm os documentos primários da luta dos malditos anos. É um livro urgente, para ser lido e divulgado.

Nele hão de se debruçar historiadores, roteiristas, cineastas, teatrólogos e jovens de todo o gênero e escolas para que compreendam o mundo que ainda lhes é desconhecido, de pessoas iguais a eles, que viveram, morreram ou escaparam por um triz,  em situação-limite. São relatos da vida clandestina, de acontecimentos inimagináveis de “expropriações revolucionárias”, ou como a repressão as chamava, de assaltos a bancos por terroristas. Histórias de treinamento de guerrilha no Brasil, um documento vivo e inédito,  e de amor, do amor que sobrevivia entre as porradas e tensões.

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O curioso, para muitos, é que nele há também lugar para o humor, pois que os tempos eram duríssimos, mas os homens além do terror e crimes sofridos, também possuíam ou procuravam motivos para rir. Como neste caso, digno de Stanislaw Ponte Preta, o grande humorista que desmontou o ridículo da ditadura brasileira. Copio trecho do depoimento de Emílio Myra e Lopez:

“Um colega seu de ofício (do advogado Lino Ventura) defendia uma mulher e durante o seu processo ocorre o fato, verídico e registrado em seus autos. O advogado de sua defesa inquire o sargento, sua testemunha de acusação.

– Senhor sargento, por que o senhor acusa minha cliente de ser subversiva?

– Pelo material apreendido em sua casa – responde.

– Mas, especificamente, que material?

– Umas cartas…

O advogado prossegue.

– Sargento, seriam estas castas, às quais se refere?

– Sim, senhor, são estas cartas.

– Mas sargento, estas cartas estão escritas em idioma francês, o senhor tem conhecimento do idioma francês?

– Não senhor – responde o sargento para espanto e risos no plenário.

Insiste o advogado.

– Senhor sargento, se o senhor não conhece o idioma francês, como pode, por estas cartas, acusar minha cliente de ser subversiva?

– Mas é claro – prossegue convicto o sargento – eu li nas entrelinhas”.

o.mundi

A SEREIAZINHA: MEU CONTO DE FADAS PREDILETO – INTERPRETAÇÃO DE UM ADULTO – por zuleika dos reis / são paulo


 

Desde quando aos oito anos o li pela primeira vez, A SEREIAZINHA tornou-se meu conto de fadas predileto. Calou-me tão fundo e tão misterioso como o signo de um destino, hoje o sei: um dos signos simbólicos, precocemente dados, do meu próprio destino. Eis minha versão – lembrança deste conto magnífico.

A SEREIAZINHA, história “infantil”, já de início subverte a noção clássica das sereias como seres perigosos, aquelas que, com seu canto, levam os homens à perdição, à morte. A heroína de Hans Christian Andersen, não.

A pequena sereia vive no reino subaquático, com a avó, com as irmãs, com as demais companheiras de mesma dupla natureza. Sabe-se destinada a uma vida de trezentos anos, findos os quais seu corpo, como o de todas, se verá transformado em espuma do mar.

Sereiazinha não se conforma com tal destino: sonha com uma alma imortal, como a que possuem os humanos. A avó lhe diz que só há uma forma de obtê-la: conseguir o amor de um desses seres humanos. A fala da avó cria uma fusão, na jovem, do sonho da realização amorosa com o sonho de adquirir a alma imortal.

A princesinha do mar sobe, pela primeira vez, à superfície. As águas estão mansas; ao longe um navio. Aproxima-se e vê, no interior da embarcação, o rosto do mais belo dos príncipes humanos, rosto pelo qual se apaixona, instantaneamente. Queda-se a olhá-lo, as horas passam. Uma borrasca toma conta do céu e do mar, faz soçobrar o navio. Sereiazinha salva o príncipe, leva-o para a praia; ele abre os olhos, olha-a, novamente perde os sentidos. A jovem se oculta quando vê a comitiva real aproximar-se, tomar do príncipe, levá-lo para o palácio.

No reino subaquático, Sereiazinha almeja, fundidos, o sonho do amor humano e o sonho da alma humana. A feiticeira do reino lhe diz que só poderia conquistar o príncipe se tivesse duas pernas e lhe propõe metamorfosear-lhe a cauda, se lhe der em troca a sua voz maviosa, a voz mais maviosa do reino do fundo do mar, quiçá, de todos os reinos. A princesinha cede, torna-se muda e, junto com as perdas ganha, também, atroz sofrimento: ao andar é como se espadas a penetrassem desde a raiz dos pés.

Sereiazinha abandona o reino dos seus ancestrais. No reino dos humanos é admirada por sua beleza, pelo corpo perfeito, pelas pernas belíssimas que todos adivinham por baixo das castas vestes. Ninguém sabe de onde ela veio, não há como sabê-lo. Também o príncipe, por ela amado, queda-se seduzido.

O destino, caprichoso, trama destino diverso do que o deseja a leitora de oito anos (diverso também do que o viria a desejar a leitora adulta): o rei determina uma esposa para o príncipe; quando este conhece a escolhida por seu pai, julga reconhecê-la como aquela que o salvara do naufrágio.

Na festa de núpcias Sereiazinha dança, leve como uma fada. Dança… dança… dança… sufocando na garganta a terrível dor dos pés, sufocando no peito a dor da perda do amor e da perda da esperança por uma alma imortal. Como no início, as cenas finais se passam em um navio. A ex-princesinha do mar sabe que, ao amanhecer, deverá jogar-se ao mar, virar espuma, para todo o sempre. Olha pela janela do convés e vê suas irmãs se aproximarem, aflitas. Portam um punhal, entregam-no a ela, pedem-lhe que o enterrem no peito do príncipe: isto a salvará da morte tão precoce; isto a livrará do precoce destino de espuma.

Sereiazinha, com o punhal nas mãos, entra no quarto onde os noivos dormem, serenos; queda-se por longo tempo a olhá-los, chega mais perto, beija o príncipe amado na fronte.

O dia amanhece. A jovem sereia dirige-se à proa, lança o límpido e intacto punhal ao mar e, em seguida, joga-se também.  Sente-se dissolver; sabe-se, agora, espuma do mar. Em seguida, sente que se eleva e se percebe em presença de seres, estes sim alados, que lhe dizem: “Estavas entre dois caminhos, poderias ter escolhido o mais fácil: não o fizeste. Viemos para dizer-te que foi dado o passo inicial para a obtenção da alma imortal a que tanto aspiras. Teu amor pelo príncipe foi maior do que teu amor pela própria preservação. Tal renúncia suprema te confere o direito de ir em busca de tua alma, por mérito, por tuas ações. Já não dependes, como nós também não mais dependemos, dos seres do reino humano para nos tornarmos imortais.”

“MEIA NOITE EM PARIS” – por monica benavides / curitiba

 minhas sensações depois de uma dose de Woody Allen na veia (cuidado esse homem vicia…rs)…

 

Cheguei outro dia e havia recebido pelo correio ingressos de cortesia da Livraria Cultura para assistir Meia-noite em Paris (já é a quarta vez que ganho, e continuo afirmando, essa é a melhor livraria do país com o melhor programa de fidelidade), bem mas não é sobre isso que quero comentar, quero expressar o prazer que o filme me proporcionou.

Woody Allen dessa vez leva o público para uma viagem na cidade luz (que clichê adequado), mas não uma viagem no sentido figurado apenas. Quem já foi a Paris, sentirá nos primeiros 5 minutos de filme uma sensação incrível de reconhecimento. Para os que não foram… considerem o ingresso um carimbo no passaporte. A Paris de Allen é realmente uma viagem real e proporciona a sensação da visita.

Eu na minha ignorância de apreciadora e não de crítica formada em Cinema, divido os filmes de Allen em dois tipos: aqueles onde existe uma trama genial com desfecho memorável ( aqui Sofia Getê coloco, como vc bem lembrou, o Match Point, o Scoop, O Sonho de Cassandra, enfim….) e os filmes escritos para expressar e servir de catalisador a neurose de Woody Allen.

Pois bem, se vc gosta, esse filme se enquadra na minha segunda categoria. É um filme escrito pelo Woody Allen onde o protagonista é ou deveria ser o próprio. Como ele não teria idade para o papel, escalou Owen Wilson, que sinceramente me surpreendeu. Não é o próprio Allen mas chegou bem perto e deve ser parabenizado pela excelente imitação do original.

Aqui começam os spoilers, quem não assistiu leia por sua conta e risco. (rs)

O filme antes de mais nada, exige uma cultura ou um conhecimento mínimo sobre o que era a vida artística e cultural da chamada Idade do Ouro, a famosa Paris dos anos 20.

Por exemplo, quem não sabe que a Alice que abre a porta da casa de Gertrude Stein é na verdade sua amante, e que Stein é a maior crítica de arte da época e talvez a maior crítica de arte que já existiu; que Dalí casa com a Gala em Paris e que ele era um grande Surrealista; que Picasso odiava Hemingway, Modigliani, Braque, enfim todo mundo (rs); ou que Buñuel fez um filme chamado “O discreto charme da burguesia”, que ganhou com ele, já no fim da carreira, um Oscar e que no roteiro três amigos se reúnem para jantar e não conseguem mais ir embora pela porta, (a idéia dada pelo protagonista para Buñuel em uma das suas andanças ao passado), perderá alguns insights geniais de Allen. Lógico que entenderá o filme mas não terá o mesmo sabor.

Para mim, o que ficou foi a vontade de chegar em casa e passar essa noite em claro, lendo um conto de Fitzgerald e ouvindo um disco de Cole Porter…

Que sonho, que vertigem… maravilhosa!!! Poder conversar, namorar passar uma noite com o viril e obcecado Hemingway… rs…

Mas como tudo na vida, nada é perfeito. Para mim dois pecados foram cometidos por Titio Allen: o primeiro foi a escolha da Rachel Adams. Gosto muito dela mas, diferente de Wilson, não conseguiu estar a altura de Mia Farrow ou Diane Keaton, mulheres icônicas para um filme do mestre. A outra foi a concessão feita a beleza de Carla Bruni e a facilidade que colocar a namoradinha da França, daria a alguém tão novaiorquino como Allen, ao querer filmar um longa em Paris. Acho que ele não precisava ter se prestado a esse papel nessa altura da carreira. Diria que ela está linda mas… no mínimo medíocre…

De qualquer forma o filme é brilhante e prova que Paris ainda é e sempre será UMA FESTA!!!!! Assistam e me digam o que acharam…

Bjs… até uma próxima….e já fui que o Hemingway me espera nos meus sonhos ou dentro de um carro da década de 20….

Edoardo, o Ele de Nós: romance/rapsódia com teor de manifesto épico ou da prática do estilhaço – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Editora 7 LETRAS

2007 – Romance

Flávio Viegas Amoreira

 

Estilhaços de signos. Enigmas num detrator. Edoardo, o Ele de Nós é romance/rapsódia. Fruto verdadeiro de sua época. Manifesto ou quase-manifesto, em vestes de ficção. Flávio V. Amoreira, desvela conflitos. Interioridades que fazem literatura de primeira. Estetização do trágico. O autor, queda-se sujeito/objeto na voragem dos ditos. Ficção-transgênero, compêndio de reflexos dos sentidos. Pouco mais de 80 páginas, bastam pra que o leitor fragmente-se. Fragmentar-se no tempo em que tudo é fugaz. Fragmentar-se para ser tantos outros. Empática entrega. As relações relâmpagos. Amores desnorteados que nascem/morrem. Insigths da des-razão. Não se pode dissociar o poeta do prosador. A prosa ágil, cheia de obtusidades, agudas geografias, explode raras significâncias.

 

1. Numa primeira visão:

 

Rapsódia pura, sem filigranas… Isso é “Edoardo, o ele de nós”.

Ser grafo, mas dotado de vida própria, o personagem Edoardo é filho do acidente… da poesia/literatura ou arte!? Edoardo ama o autor de amor carnal intenso. Um híbrido-prosopoético, este texto, de onde pingam maravilhas imagéticas como: Edoardo concedeu sua rosa: abri intumescido florete. Homoeróticas vertigens, o mar como Signo/Senhor/Supremo da tríade vida/liberdade/escritura. Todo livro escrito é um anjo em nosso ombro apascentando o indizível. Flávio Viegas Amoreira, sem enredo, mas em superdotação semiótica, faz densa e primorosa esta rapsódia contemporânea única.

 

2. Numa segunda visão:

 

Rapsódia ou prosa poética para iniciados?! O personagem Edoardo: ser grafo, filho do acidente… da poesia/literatura ou arte!? Edoardo ama o autor de amor carnal intenso. Ama e dialoga: a vida e as relações. Um texto mágico, de onde pingam maravilhas imagéticas. Edoardo, como o autor, também é refratário ao ócio. Eduardo lê o livro do autor. Homoeróticas visios, o mar como signo forte & topos da escritura. Flávio Viegas Amoreira, em labor semiótico raro, torna densa e única esta rapsódia épica.

A escrita rapsódica é pródiga nas imagens e o autor a trabalha muito bem.

 

3. Numa terceira visão:

 

“Edoardo, o ele de nós” é rapsódia e não. O personagem é de carne, ossos e nervos e não. Um ser grafo ou um signo velado, advindo da própria linguagem!? Edoardo inconstante inconteste: você é onde me retrato. Flávio Viegas Amoreira, artífice-semiota, não poupa imagens fortes. Edoardo sintetiza inúmeras contradições. Edoardo como o autor é refratário ao ócio. Edoardo dá-se consubstancialmente… Ama e agride. Ama e dá sentido à existência. Edoardo exercita percepções livres & expande consciência/conhecimento. Camaleônica, esta escritura que afronta o eu, o ele e o nós da conformação.

Escritura densa, volátil, expansiva. Esse romance estilhaça qualquer razão. Uma prova concreta: a literatura opera o milagre das sãs inaugurações imagéticas. A literatura ousa em seu tempo/espaço. A literatura pode sim nominar o indizível. Além/aquém, e no entorno da filosofia e das ciências, a literatura provoca explosões de conhecimento. E sem mexer uma lupa. Ou melhor, sem romper um nervo do cadáver putrefato da história, ou isolar vírus num laboratório.

Trabalho de rara confluência de signos. O autor carrega de sentido as frases. Frases que em sua maioria formam versos da melhor poesia ou aforismos lapidares. (Gostaria de dizer ao modo de poeta: feitura de eclipsemas que fazem pensar). E nem só do objeto ficcional, o 11 de setembro histórico, que estilhaçou consciências, vive a obra. Há grande investimento na sintaxe diferenciada. Também no léxico, quando neologismos e sobreposições de palavras saltam aos olhos, como insetos luminosos. Essa a alquimia no texto, que faz de Flávio V. Amoreira, o grande autor de sua época. O autor/crítico, antenado com o tudo que nos rodeia. Das intersemióticas relações, e de bibliotecas consumidas, é que o artista se faz. E mais que isso, da Web o cyber-cognocer & plena/imediata comunicação com o mundo. Sempre exigindo-se muito, como se exercitasse um auto-desafio existencial, de busca e apreensão da objetalidade e do conhecimento. Foi-se a era dos autores acomodados no literesco. Fenômeno que ainda se reflete na literatura portuguesa (de Portugal mesmo). Hoje, na dúvida sobre o biotipo do leitor, o autor criativo, busca o máximo que sua pena pode dar, e isso, sempre abrindo canais com o desconhecido. Em variações de postura e conquista de espaços novos ao dizer. O leitor do futuro, que entenderá realmente o autor que fomos no tempo em que vivemos, pode ser uma realidade, ou apenas uma premissa alentadora à criação.

Sinestésica apreensão do indizível. O romance Edoardo, o Ele de Nós, marca um tempo e projeta outro, que é de plena potencialidade da escritura. Flávio V. Amoreira, é sensível antena da raça, e projeta a literatura brasileira, como um desafio aos pares. Um desafio que indica possibilidades novas de exercício do código. O código que não tira, mas acrescenta ao mundo, novos conceitos e conteúdos. Nisso, acompanham todas as mídias, fatores importantes ao resultado-soma da produção.

Entendia que a literatura brasileira ia ficar só naqueles nomes. Sofria, ante a recusa de editar. Desacreditava no processo. Mas agora não. Autores como Flávio V. Amoreira, já passaram por isso, e mostram que ainda é possível se fazer literatura com independência e originalidade nesse país. Literatura que pode ser um guia seguro pra gerações de criadores que hão de vir. Contra todas correntes de negação da arte, poesia e literatura, o produto da criação individual, sobrevive com dignidade no tempo.

 

tentava Arte pela Literatura esse algébrico esporramento de sons tintas gestuália reflexivo oblongo buraco alvo: seria essa minha descoberta do amor pelo entendimento?”

 

Edoardo, o Ele de Nós, representa muito pra literatura contemporânea brasileira. Seus efeitos de romance-rapsódico, estalo de imagens tensas, reflexo de seu tempo, frustra hermetismos por hermetismos e clareia veredas novas na ficção nacional. O livro recém lançadoem São Paulo e Santos, ganha o Brasil, e certamente instigará críticos e criadores. A bem da vida e da arte que se faz com palavras, o novo não é novo apenas porque é de agora aparecido. O novo é novo porque é de acrescento de significação. O novo é novo porque é de construção prodigiosa do pensamento, levando-se em conta labor estético e versatilidade dos meios. Em tempos em que ainda se cultiva o naturo-realismo na ficção, sem vôos de imaginação, e no tranco de pangaré no que se refere à sintaxe, a prosa de Flávio V. Amoreira aparece densa e inovadora. Ousar pelo signo, é mais que simplesmente escrever. É esforço dos sentidos, a parir a obra nova, que como flor-matriz provoca múltiplas interpretações. Tenho lido. Estou lendo. Releio.

 

FERNANDO PY comenta os “Poemas para a Liberdade” de MANOEL DE ANDRADE / petrópolis.rj

Nos seus Poemas para a liberdade ( São Paulo: Escrituras, 2009; edição bilíngue português/espanhol; tradução do autor), o catarinense Manoel de Andrade tem o desassombro e a temeridade de cantar a luta armada contra a ditadura militar. Pode parecer um anacronismo, já que os militares brasileiros há muito deixaram de comandar os destinos do Brasil. Mas, na verdade, o caso de Manoel de Andrade é bem diverso. Perseguido pela ditadura, em 1969, devido à panfletagem do poema “Saudação a Che Guevara”, refugiou-se na Bolívia, onde se integrou ao movimento guerrilheiro. Em junho de 1970, publicou  na Bolívia, em espanhol, os Poemas para la libertad, cuja 2ª edição saiu na Colômbia, em setembro. Expulso tanto do Peru como da Colômbia, atravessou diversos países da América, publicando livros, promovendo debates, dando palestras e declamando seus poemas em teatros, sindicatos e universidades. Em janeiro de 1971, seu livro Canción de amor a América y otros poemas foi editado na Nicarágua e em El Salvador. Depois de vários êxitos no exterior, Andrade regressou anônimo  ao Brasil (1972), onde se manteve afastado da literatura durante trinta anos. Em 2002, participou da coletânea paranaense Próximas Palavras, e publicou Cantares em 2007. Esta edição dos Poemas para a liberdade é, que eu saiba,  a primeira editada do Brasil.

É claro que a poesia política do autor paga tributo aos grandes poetas latino-americanos que sempre se opuseram às ditaduras fascistas, especialmente Pablo Neruda. O tom dos poemas, sua oralidade intrínseca, o pendor para uma abordagem vívida das condições sociais e humanas da nossa época, são ingredientes básicos do volume. A eles, porém, não  está ausente um toque de lirismo, o lirismo de quem sabe que a poesia dita “engajada” não se sustenta apenas com uma mensagem libertária ou um repúdio incisivo a um estado de coisas intolerável.  O poeta soube dosar muito bem os materiais de que se utilizou, e o resultado é um livro coeso, muito bem realizado dentro do que ele se propôs, e que lhe confere uma posição de relevo em nossas letras. Parabéns.

(Tribuna de Petrópolis, 1º de outubro de 2010)

Fernando Py (Rio de Janeiro, 1935), é poeta, crítico literário e tradutor. Colaborou em vários jornais do país entre eles o Jornal do Brasil, Jornal da Tarde e o O Globo. Traduziu autores como Marcel Proust, Honoré de Balzac, Saul Bellow (Nobel em 1976) e outros. Tem vários livros publicado entre poesia e crítica. Atualmente assina a coluna “Literatura” no jornal Tribuna de Petrópolis, cidade onde vive.

“O Cerco do Porto nos nomes das ruas” – conferência com francisco ribeiro da silva e joel cleto / porto.portugal

Lançamento do livro «O Cerco do Porto em 1832 para 1833 – por um portuense»

(U.Porto editorial)

Rua do Cerco do Porto, Rua do Heroísmo, da Bataria, da Bateria da Vitória, Praça do Coronel Pacheco, Rua de Sá da Bandeira, Rua do Marechal Saldanha… ,  nomes que recordam o cerco militar imposto à cidade do Porto pelas tropas absolutistas de D. Miguel em 1832.

No próximo dia 28 de Setembro, pelas 18h00, os historiadores Francisco Ribeiro da Silva e Joel Cleto vão falar sobre os reflexos do Cerco do Porto na toponímia da cidade, numa conferência intitulada “O Cerco do Porto nos nomes das ruas”. A sessão realiza-se no âmbito do lançamento do novo livro da U.Porto editorial intitulado «O Cerco do Porto em 1832 para 1833 – por um portuense» e terá lugar na Reitoria da Universidade do Porto.

O livro «O Cerco do Porto em 1832 para 1833 – por um portuense» é uma reprodução em fac-simile daquela que será a primeira obra escrita em língua portuguesa sobre um dos mais importantes episódios da Guerra Civil que opôs liberais e miguelistas. Foi escrita por um anónimo partidário de D. Pedro IV que nos leva a reviver o período das desajeitadas tentativas liberais de retomar a terra continental, dos desentendimentos e do sofrimento de um povo preso na sua própria cidade. Para o leitor conhecedor do Porto, os locais familiares aparecem, neste livro, investidos num diferente papel: redutos, fortins, baterias e paliçadas eriçavam uma cidade que teimosamente resistia aos bombardeamentos e às tentativas de rompimento das defesas pelas muito superiores forças miguelistas, todavia incapazes de partir a carapaça do exército que a protegia.

A sessão realiza-se na sala do Fundo Antigo da Reitoria da Universidade do Porto, sita na Praça Gomes Teixeira.

Informações:

28 de Setembro, às 18h00

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Americanos cogitaram ‘tomar a Amazônia’ no século XIX, revela livro


Chefe do Observatório Naval queria expandir ‘plantations’ em área brasileira.
Revelação está em livro de Gerald Horne, que falou ao G1 sobre o caso.

Daniel Buarque Do G1, em São Paulo


Capa do livro ‘O sul mais distante’ de Gerald Horne,
que revela o interesse americano na Amazônia no
século XIX (Foto: Reprodução)

Pesquisadores norte-americanos costumam chamar de paranoia a preocupação que os brasileiros têm com a ideia de intervenção dos Estados Unidos na Amazônia. Por mais que atualmente não haja nenhum indício real deste tipo de interesse na região da floresta tropical no Brasil, a história revela pelo menos um momento, no século XIX, em que políticos dos EUA discutiram a ideia de ocupar o território no norte do Brasil.

Foi em 1850, quando o chefe do Observatório Naval dos Estados Unidos, Matthew Fontaine Maury, sugeriu que seu país evitasse a Guerra Civil e continuasse expandindo sua produção de algodão com mão de obra escrava levando toda a estrutura, incluindo os escravos africanos, para a região da Amazônia brasileira. A revelação é parte do livro “O sul mais distante” (Cia. Das Letras), escrito pelo pesquisador de escravidão nas Américas Gerald Horne, professor da Universidade de Houston, no Texas. Segundo ele, Maury era interessado em deportar escravos norte-americanos para desenvolver a região com um plano de “tomar a Amazônia do Brasil”.

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Em entrevista ao G1, Horne explicou que este plano de “invadir a Amazônia” surgiu no contexto da consolidação dos Estados Unidos como uma potência violenta, que fazia da conquista territorial seu destino manifesto, então “não é uma surpresa” que cobiçassem também a Amazônia. O projeto de incorporar a floresta, disse, ganhou força especialmente no Estado da Virgínia, que era o centro do poder político dos Estados Unidos na época e onde Maury continua a ser visto como um herói até hoje.

Ele comentou que, por mais que o país continue se envolvendo em guerras pelo mundo, a situação mudou e nenhuma ação do tipo é sequer cogitada pelos americanos. “Hoje, não é necessário nem dizer, não há possibilidade desse tipo de intervenção. Especialmente por conta da ascensão do Brasil, que está desafiando a liderança americana na América Latina. O Brasil é mais forte, o mundo mudou”, disse Horne ao G1.

Separação e anexação
Maury costuma ser citado como tendo sugerido que os políticos americanos deveriam forçar o Brasil a permitir a livre navegação de barcos americanos na Amazônia porque o Rio Amazonas era “uma extensão” do rio Mississippi.

Hoje, não é necessário nem dizer, não há possibilidade desse tipo de intervenção”

Gerald Horne, historiador

Em “O sul mais distante”, livro de 2007 que acaba de ser publicado no Brasil, Horne explica que as relações entre Brasil e Estados Unidos americana foram muito intensas por conta da escravidão nos dois países. A proximidade diminuiu com a Guerra Civil, iniciada uma década depois do plano de Maury de transferir as plantações para a Amazônia.

Segundo Horne, os escravistas mais radicais do sul norte-americano defendiam fortemente a separação do país e “colocavam o Brasil próximo ao centro do seu sonho de um império transcontinental de escravidão, particularmente nos anos 1850, quando parecia que a escravidão encontrava um bloqueio em sua expansão para o Oeste”. Para eles, o futuro estava em um império “unido com o Brasil”.

Maury via a Amazônia como “válvula de segurança da União” e planejava deportar os escravos africanos dos Estados Unidos junto com seus proprietários para a região ainda não desenvolvida. “É mais fácil e mais rápido’, argumentou Maury, ‘para navios da Amazônia fazerem a viagem a Nova York de que ao Rio’”.

Segundo Horne, a proposta de Maury foi vista como provocativa e discutida no Brasil, o que fez com que o então secretário de Estado dos Estados Unidos, William Marcy, respondesse de forma superficial garantindo ao Brasil que não precisava levar a sério os argumentos de Maury. O pesquisador da Universidade de Houston, entretanto, diz que Maury gerou um forte interesse norte-americano em dominar a região amazônica, fazendo com que milhares de norte-americanos viajassem o Brasil investigando o país e analisando a possibilidade de se apropriar do território da floresta.

Em outras ocasiões no final dos anos 1850 e mesmo durante a Guerra Civil, em 1862, um comitê da Câmara de Deputados dos Estados Unidos chegou a considerar a possibilidade de deportar os negros para a Amazônia, o que foi ponderado pelo governo brasileiro e negado por a lei brasileira “não admitir negros livres em seu território”. O Brasil, diz Horne, teve um papel importante na mente de líderes do sul escravista dos Estados Unidos, que foi apoiado pelo governo brasileiro, servindo até mesmo como refúgio quando a Guerra Civil terminou com vitória do Norte do país.

A REVOLTA POÉTICA DE UMA ALMA COMPLEXA- por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Ariel – Sylvia Plath

Edição restaurada e bilíngüe, com

os manuscritos originais.

Prefácio de Frieda Hughes.

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

e Maria Cristina Lenz de Macedo

Verus Editora (2007)

210 Pags.

Em Sylvia Plath poeta. Agente de seu destino. Ou em Ariel o livro de poemas. Produto de uma vida convulsa. Confissão, imagismo e ficção poética se completam com extrema eficiência. Uma vida que se conta pelos poemas e traz mnemônicas imagens de submissão e rebelião. Aos trinta anos (em 1963) a poeta norte-americana totalizava seu existencial e se despedia da vida, mas não da poesia, produzindo ecos nas gerações posteriores, conquistando adeptos e leitores nos mais diversos países.

Complexa como sua alma, a poesia dessa artista ainda provoca dúvidas sobre o seu fazer poético: “confissão” ou “conficção”, “imagismo plathológico” ou “poema-performance”? Creio que todos ao mesmo tempo e mais alguns que serão pouco a pouco destilados nas exegeses de cunho acadêmico, marginal ou diletante. Qualifico minha análise, neste micro-ensaio, de marginal-poética, portanto haurida de visão pessoal e leitura recente. A tradução de Ariel, feita pelo poeta Rodrigo Garcia Lopes e pela estudiosa Maria Cristina Lenz de Machado, fidedigna ao original, valoriza o livro de Plath, sem quaisquer perdas e antes dos cortes do marido (o poeta Ted Hughes) feitos na edição de 1965. Rigorosa apreensão do pathos poético da autora, transferindo-o pra nossa língua. Vale lembrar que traduzir importa em transcriar: exercício dos sentidos de tomada do espírito do autor no seu essencial poético transpondo-o para outro idioma.

Importante salientar o trabalho anteriormente realizado por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça na tradução pioneira de Poemas, que saiu pela Iluminuras em 1990, onde se pode apreender dois ensaios escritos ao final pelos tradutores (respectivamente “Sylvia Plath: delírio lapidado” e “Sylvia Plath: técnica e máscara da tragédia”) o retrato existencial e de artista dessa poeta extraordinária.

Não há como se evitar, em análise-relâmpago, a força de poemas como ”Ariel”, que dá título ao livro, e cavalo oculto galopa apuros técnicos extremados. O “cavalo” que o poema induz/ser, pode também metaforizar a própria vida da poeta, flexa atirada, suicida, “contra o olho vermelho, caldeirão da manhã”. A vida, frágil e breve, lançada à existência — e, por conseqüência, à morte —  pelo suicídio. De outro ângulo: um cavaleiro, e só um cavaleiro, é capaz de sentir o que sentiu a poeta, de num galope cancha reta, lançar-se ao anoitecer aos espaços, rumo a um horizonte indefinido, compondo com o animal, o bólido musculado de intensa força. Há urgência em tudo. Urgência em delatar poeticamente. Urgência em viver e morrer.

“Me arrasta pelos ares/Coxas, pêlos;/Escamas de meus calcanhares”. “Ariel” é composto de dez tercetos, com a finalização apoteótica do verso: “Vermelho, caldeirão da manhã”. Esplêndido poema que, à primeira vista, nos parece enigmático.

Nos demais poemas que compõem o poemário certos símbolos reincidem: a lua, o sangue (negro), árvores (teixo, olmo, entre outras), bebês, peitos, remédio, enfermeira, médico, vermes, morte, abelhas, bonecas, crianças, gazes de curativos. Em “Purdah” se percebe da mulher melancólica, enigmática, de visão naturalista ou patológica, pantotal, mortal, neurótica, confessional, recorrente à infância e seus bebês recusados. “De um verde Adão, eu/Sorrio, de pernas cruzadas,/Enigmática”. Vou anotando assim o que senti em alguns poemas, sem o rigor acadêmico, mas no prazer do leitor/poeta, livre. Em Amnésico: vê-se bebês/brinquedo, enfermeira/vermes/médico, tocar seios/corpo/irmã e bebidas que se transubstanciam, queimando e espumando. Os signos hibridizam uma visão real/fática e o fantasmagórico da construção mental. Essa a grande arte de Sylvia Plath: transformar um real opressor, de um nada poético, em elevada poesia.

Claro que pra fazer isso, ela dispunha de técnica/domínio lingüístico e imaginação criadora, aplicada aos seus limites. Há sim, limites e deslimites na visão poética, que um fato (uma acontescência existencial) instala no agente criador. Além do que, a poeta joga incansavelmente com os extremos, de imagens contrárias, chocantes nos significados. E nunca recuando dos núcleos de significação, tematizados ao rigor dos mestres. “Talidomida”, tem versos crus, como: “Âmnio sangrento das ausências. / Toda noite eu teço”. Ou esses outros: “Da indiferença! / Os frutos escuros giram e caem. / O vidro se espatifa, / A imagem / Foge e aborta como gotas de mercúrio”. Sempre, algo de trágico, de rompimento e morte, delatando o irreversível, o que foi, não volta mais como ameaça de opressão e desamor.

No poema “Papai” assistimos, como em “Lady Lazarus”, “40 Graus de Febre” e outros, a reconstrução da mulher ferida, filha dileta da opressão. “Papai” é uma aula de exorcismo poético. “Com cola foram me refazer. / E então soube o que fazer. / Fiz um modelo de você, / Um homem de preto com um quê de Meinkampf”. A vítima arquetípica (Plath na pele de uma mulher judia) e o duro rebate ao pai e o acerto de contas, na última estrofe do longo poema: “Papai, papai, seu puto, eu acabei”. Em “O  Candidato”, a mulher-objeto (“uma boneca de carne”) é descrita por metonímias: peitos de borracha, ataduras, suturas. Poema cínico, uma resposta à altura pela crescente transformação da mulher em objeto, coisa, imagem a ser explorada, objeto de consumo.

Presente em vários poemas está a experiência da maternidade, de hospitais: como em “Canção da Manhã”,  poema que abre o volume, dedicado ao nascimento da filha, Frieda: o símbolo bebê pode representar a vida em estágio inicial, ante a avalanche de perigos, e a seta mortífera do opressor, repetido poema a poema. O frágil, frente ao monstruoso e desconhecido: “Num museu arejado, ……”. Importante notar que, nos poemas de Sylvia Plath, as metáforas nunca se escancaram em significação ao leitor, mas sinalizam caminhos, visões, denúncias, urgências. Pistas.

Como raros poetas, Sylvia Plath soube servir-se das imagens de sua breve vida para compor uma obra forte, brutal até, no seu conteúdo (vide poemas como “O Carcereiro”). Agressiva, pela linguagem quase-clássica, sem invenções provocadas.  Como uma química de fundo de quintal que, bolindo seus apetrechos e substâncias naturais, vai compondo óleos, suspensões, cápsulas, comprimidos e ungüentos milagrosos, a poeta aproveita o tudo de sua vida, convertendo-o com maestria em poemas. Certíssimo que essa seleção consciente e inconsciente dos símbolos prestigia o essencial, tanto de um viver as coisas, como de imaginá-las, transpô-las ao mundo das linguagens. É disso que se faz a grande poesia. Desse amontoado de símbolos, que entornam e fazem parte da vida e do imaginário do poeta. Cada qual com suas formigas de estimação, aleijões fixados na alma, perquirições inúteis, perceptos acelerados a caminho do nada…

Sylvia Plath consegue metaforizar em forma humana a nathureza, não só nesse poema “O Caçador de Coelhos, mas em outros na obra. O corpo disso, o corpo daquilo, que tomava formas humanas e enternecia ou aterrorizava. “Era um lugar de força — / O vento amordaçando minha boca com meus cabelos revoltos, / Arrancando minha voz, e o mar / Me cegando com suas luzes, a vida dos mortos / Se desenrolando nele, se espalhando como óleo”. Sempre é uma nathureza que toma corpo, reage, persegue e impõe beleza e aniquilamento. Negativa a visão de vida que nutria a poeta. Negativa de só carregar o fardo da opressão de pai, de marido, de poder estatal, de forças naturais avassaladoras, que repercutiam diretamente no eu, vulnerando-o. Um produto dos anos Einsenhower, de um ambiente de alta competividade, e de uma busca obsessiva por ser a melhor em tudo: a melhor aluna, filha, poeta, depois mãe e esposa. Essas cobranças acabaram vulnerando-a por toda a vida breve de artista. Quase um encosto, de patológica ação, cercava a poeta desde bebê, e prosseguia na infância (pai morto em circunstâncias tragi-cômicas, criança rejeitada) entre perigosos brinquedos, traumas, associações terríveis, pesadelos, psiquismos… Esse o entorno da artista, que deu origem a seu acervo riquíssimo de signos, símbolos, sinais pra denotar a vida em palavras.

Podemos dizer que Sylvia Plath tomou as rédeas de sua vida, dominando-a e sendo dominada pelo mundo exterior. O ser/poeta/filósofo de ação empírica que, sem o apoio de Deus, insiste em alquimizar o duro destino. Não há um pedido sequer de proteção, ou guarida a uma entidade superior, que viesse diminuir o pesadelo e a dor da poeta. Mas como transmutá-la em arte? Essa a questão para Plath, já que ela própria desconfiava da poesia como “grito do coração”. A mesma trouxe pra si, a responsabilidade do revide (vingança artística e terrena através da palavra poética) ao que se era quase-impossível de se revidar, como criança, adolescente, mulher e poeta naquele mundo. Potência e impotência foram signos de presença constante na vida e nos poemas da artista. Com suas catanas, afiadas no sofrimento, Sylvia Plath, rebateu as forças opressoras que a sugavam, um tanto a mais, do que conseguiria qualquer filósofo, escudado só na razão. A força de poeta, advém da adversidade e de transcendências não-identificáveis, variantes de um instinto primário de ação e reação.

Em “Lady Lazarus”, belíssimo poema longo, um dos pontos altos do livro, a poeta evoca imagens fortíssimas, como “a leprosa desenfaixada”, “pele e osso”, “violentada aos 10”, “vermes como pérolas grudentas”. A mulher que marca o tempo, devendo tentar um ano em cada dez, e já estava com trinta. O fato da poeta denotar/identificar o tempo, induz consciência atenta aos signos que a marcavam. Consciência seletiva na qualidade simbólica do que seria sua obra e o aproveitamento do lixo/suspiro/existencial. Novamente, o rebate contra o inimigo, se opera nesse poema. “Dispa o pano / Oh, meu inimigo. / Eu te aterrorizo?”, pergunta, sem resposta, ao terror que atravessa a vida da poeta. “E eu uma mulher sempre sorrindo. / Tenho apenas trinta anos. / E como o gato, nove vidas para morrer”. Fortíssima a imagem ao final do poema (“Lady Lazarus”), que evoca a ressurreição da mulher-oprimida, a qual sem piedade, retorna pra devorar o superinimigo: “Saída das cinzas / Me levanto com meu cabelo ruivo / E devoro homens como ar”. Em ato de ressurreição, a poeta volta aos ajustes, ainda não finalizados em vida pela palavra poética. Magnífica apreensão do ódio, dos efeitos da opressão no ser, que transferidos com o corpo ao além, comparecem novamente ao mundo terreno aptos à plena realização da vingança. É de se admitir que Sylvia Plath venceu a vida no esmero de sua produção poética, impondo ao mundo uma personalidade in-descartável, ao contrário dos seus bebês de estufa e sacos plásticos, ou mulheres dentro de garrafas, símbolos semelhantes nas suas visões convulsas da nathureza e do humano.

Jairo Pereira é autor de O Abduzido (romance-ensaio), Espirith Opéia (livro-poema), entre outros.

A TRILOGIA DE VELA AO CRUCIFICADO – por joão batista do lago / são luis

A Solidão, no contexto de Vela ao Crucificado, é, ao mesmo tempo, origem, mistério e enigma. E é exatamente essa trilogia que faz da obra de Ubiratan Teixeira, das mais expressivas no Maranhão, um compêndio que resume, em-si, significantes e significados que se podem retraduzir nos mais variados campos da arte. No caso presente essa retradução ocorre no cinema e no teatro.

Aos meus olhos, a solidão é a principal preocupação que contextualizou o curta-metragem Vela ao Crucificado, de autoria do cineasta Frederico Machado. Coincidentemente, muito embora haja sido escrito antes, o (também) roteiro para teatro, de autoria do escritor e teatrólogo Wilson Martins, traz em-si, consigo, a mesma contextualização: a solidão do Ser, do Ente, do Sujeito. Não a solidão do Homem (homem/mulher) como pessoas existênciais, mas a solidão que é e faz sentido na mundanidade do mundo do homem.

Contudo, a versão roteirística produzida por Wilson Martins foi mais ousada que a realizada por Frederico Machado. Diferentemente deste – que não ousou incluir, isto é, criar novos personagens para o contexto filmográfico – o autor do roteiro para teatro foi incisivo nesse ponto, ou seja, ampliou a formação e a geração de novos personagens sem ferir a originalidade do texto de Ubiratan Teixeira.

Porém, se os roteiristas tomaram esse caminho é porque encontraram na origem, isto é, no conto homônimo, de autoria do escritor e teatrólogo Ubiratan Teixeira, todos os fragmentos necessários e essenciais para a construção e reconstrução dum realabstraído da realidade existencial na obra original. Aos meus olhos, o processo de ontogonia (esse mesmo realismo existencial encontramos em Labirintos – do mesmo autor), isto é, a história da formação e geração dos seres organizados e introjetados na literatura ubirataniana, não se dá, pura e tão-somente, no campo do realismo-mais-que-real. Em realidade ela se transcende e se perpassa no tempo e no espaço formando, assim, o seu campo trioico.

Penso, pois, que o cineasta Frederico Machado (e a mesmíssima “coisa” raciocino sobre o roteiro para teatro produzido por Wilson Martins) soube captar essa ontogonia ao recriar, para o cinema, Vela ao Crucificado. A história da formação e da geração das personagens do filme provam, de maneira insofismável, contundente e contumaz, essa realidade existencial como uma mundanidade do mundo, onde o Ser é um Sujeito solitário do Ente.

Insofismável porque o que vemos na tela é o realismo-real-existencial que não se pode por em dúvida. Contundente porque orealismo-real-existencial contextualizado na peça filmográfica não pode ser contestado ou refutado. Contumaz porque esserealismo-real-existencial insiste e persiste em se construir como sujeito antagônico de si-mesmo.

A abstração feita por Frederico Machado, aos meus olhos, para produzir o roteiro, parte de “um campo” heideggeriano, qual seja, o ser no mundo que é, sempre, o existencial num movimento de lançar-se na mundanidade do mundo. E é exatamente neste ponto que se percebe a preocupação do curta-metragem em mostrar, como um campo presencial, “a presencialidade da solidão” introjetada em todo o contexto da obra de Ubiratan Teixeira.

Desde a primeira cena – o pai com o filho morto nos braços, antes de cavar a cova para enterrá-lo – até a cena final – a mãe esmurrando a barriga para (possivelmente) interromper um novo lançar-se no mundo –, o que os olhos dos expectadores captam é uma tipologia de estética da solidão.

E essa estética da solidão produz uma tipologia de ente que se projeta na mundanidade de um mundo, sempre meu, destituído de espacialidade e de temporalidade, posto que, agora, todos já fazemos parte da mundanidade do mundo projetada na tela, ou seja, lançada no mundo como se fora Ser, Ente ou Sujeito.

Vela ao Crucificado é, sem sombra de dúvida, um belíssimo conto escrito na década de 60 por Ubiratan Teixeira. Um conto com uma linguagem direta e objetiva. Um conto que cria e gera seres (des)organizados no interior de uma sociedade complexa – como a brasileira, por exemplo – onde a solidão começa a ser descortinada como “emblema” inconfesso daquilo que a partir dos anos 70 (?) passaríamos a entender como pósmodernidade. Ora, isso – per se – faz da obra de Ubiratan Teixeira uma literatura premonitória.

Por sua vez, as versões criadas – seja para o teatro, seja para o cinema – provam que o conto do autor da novela Labirintos continua a fazer e dar sentido no interior de sociedades complexas.

OS LABIRINTOS DE UBIRATAN TEIXEIRA por joão batista do lago / são luis


“Todos cantam sua terra

Eu também vou cantar a minha

A minha terra, seu moço

É uma belezinha”…

(João do Vale)

Em “LABIRINTOS”, de Ubiratan Teixeira, lançado na última quinta-feira, damos de cara com uma declaração (Mexericos Antes da Prosa) de amor a São Luis, feita pelo autor de forma deblaterativamente pungente. De pronto fui remetido aos versos compostos por João do Vale, aqui epigrafados. Ambos os textos fazem conexões internas entre si, muito embora os gêneros sejam díspares. Contudo, se tivermos a atenção devida vamos perceber que há, em ambos, o mesmo labirinto de paixões e emoções.

Penso que toda literatura – toda mesmo! – parte sempre de um ponto zero. E quando saímos desse possível ou provável ponto zero não sabemos até onde nem quando vamos chegar a um porto qualquer, onde ali possamos descansar nosso corpo. Não me refiro aqui de um corpo físico, mas de um corpo meta-físico ou mesmo metafísico, como um livro, por exemplo… Ou como os labirintos da alma dum sujeito existencial.

Ao ler “LABIRINTOS”, fincou-me mais clarividente essa impressão pessoal, posto que, o autor, escorreitamente, desde a primeiríssima página da novela vai-nos imbricando num novelo de tramas magistralmente construídas. Todas elas [as tramas] são sujeitos ilhéus com discursos próprios e mui bem administrados pelo autor.

“LABIRINTOS” tem um móvel que transcende ou perpassa por todos os viéses. Aos meus olhos é esse móvel que serve de combustível para veículos como a comunicação de massa (rádio, jornal e jornalista), a religião (arcebisbo e pai-de-santo) e a política (beatas, capangas, delegados, soldados… etc., etc). E é exatamente a partir e por meio desse móvel que vamos sendo conduzidos – magistralmente conduzidos! – e introduzidos nas tramas que se vão sendo geradas a cada página e a cada nova palavra, frase ou período da dissertação maravilhosa de Ubiratan Teixeira.

Dono de uma narrativa ágil, perspicaz, inteligente, o autor consegue segurar o leitor desde a primeira à última página. E quando se acaba de ler o livro tem-se a nítida sensação de se querer mais… Mas, aí, já não existem mais os “LABIRINTOS” de Ubiratan Teixeira. Em verdade, soçobram os labirintos do leitor inebriado pelo canto-chão duma Ilha encantante e encantada que nos foi apresentada pelas mãos mágicas de um autor que, quanto mais velho, mais sábio… Um autor da mesma estatura e peso como Dias Gomes, Josué Montello, Jorge Amado, Ariano Suassuna, por exemplo…

Enfim, e para retomar o campo viés literário (meu caso propriamente dito), fica-se, após a leitura, fazendo exercícios academicistas, i.é., procurando enquadrar o autor num determinado “ismo” de quaisquer dos gêneros literários. Chego assim à seguinte inferição: Ubiratan Teixeira é tão genial que consegue ultrapassar a marca ou o selo de um gênero literário. Ao lermos “LABIRINTOS” sob o manto da literatura, sobretudo da análise crítica, chegamos à conclusão que, Ubiratan Teixeira, é sim, um dos melhores escritortes que este Brasil já produziu.

Este seu “LABIRINTOS”, para quem assim o quiser experienciar, pode ser ofertado como uma obra literária sob o signo do Modernismo, do Surrealismo, do Realismo, do Romantismo… Enfim, a espaço de sobra para todos que quiserem, sob o manto literário, classificar esta obra. Aos meus olhos é, pura e simplesmente – e tão-somente – a melhor novela que li nos meus últimos 25 anos.

Por final, deixo aqui uma palavra de parabéns aos promotores do lançamento, sobretudo àqueles que, direta ou indiretamente, não cultivam o “boismo”, mas sim, buscam resgatar a principal arte dessa ilha e dessa gente marânhica: a Literatura – em toda a sua dimensão.

Sobre o livro: ” O brasiguaio Don Antonio” – por josé alexandre saraiva / curitiba

A leitura dos originais deste belo livro causou-me aprazimento e júbilo. Aprazimento de quem se vê a viajar por distintas e convidativas temáticas literárias, entrelaçadas de prosa histórica – incluindo revivências parlamentares do autor nos ásperos anos da década de 1960 – e incursões poéticas.

O júbilo consiste simplesmente na satisfação incontida de merecer a confiança do confrade Lyrio Bertoli para prefaciar estas perenes páginas.

Abro parêntese já no início para dizer que a tarefa é outorgada menos por minhas qualidades do que pela amizade. Uma amizade que remonta ao verão de 1998, quando fomos apresentados na Banca do Abel, a Boca Maldita de Foz do Iguaçu. Entre outros assuntos, falamos sobre a criação de um centro cultural para a cidade. Pouco tempo depois, no Hotel Rafain Centro, nascia a Academia de Cultura de Foz do Iguaçu (Aculfi), presidida por Lyrio nos primeiros quatro anos. Além da sua revista Cultura Basis Civilitatis, livros, eventos culturais e artísticos, palestras e ciclos de estudos foram chancelados pela Aculfi. Como já era esperado, não tardaria a chegar o valoroso aval da Academia Paranaense de Letras e do Centro de Letras do Paraná, então sob a liderança dos acadêmicos Túlio Vargas e Adélia Maria Woellner, respectivamente.

Ainda hoje está na boca do povo iguaçuense o sensacional encontro “Nordeste e Sul de Repentes”. Por várias horas, o repentista Oliveira de Panelas (pernambucano) e o pajador José  Estivalet (gaúcho) duelaram de improviso na melhor poesia popular, embalados por incessantes aplausos.

Sob a liderança e honorabilidade do ilustre presidente, e a valiosa colaboração de Nancy Rafagnin Andreola, então presidente da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu, o governo municipal nos cedeu ampla sala mobiliada e criou rubrica orçamentária para a novel agremiação cultural. A cada dia, a Aculfi consolidava sua importância junto aos diversos segmentos da sociedade. Acolheu membros de notória expressão no mundo artístico e cultural da região, incluindo cidades fronteiriças do Paraguai e da Argentina, e serviu de modelo no exitoso processo de interiorização da Academia Paranaense de Letras, iniciado por Túlio Vargas, de sentida memória.

A partir daí, na convivência diária, passei a conhecer de perto o extraordinário ser humano Lyrio Bertoli. No início, fiquei surpreso com tão denso passado histórico, a começar por sua eleição para a Câmara dos Deputados em 1962, como primeiro deputado federal do Oeste do Paraná. Nessa época, a região, com forte presença de jagunços e posseiros, caminhava lentamente na formação dos primeiros municípios. Era nítida a incipiente infra-estrutura rodoviária e de serviços básicos, a evidenciar agudas carências.

Lyrio trabalhou com afinco e cumpriu as promessas de campanha. O povo reconheceu nas urnas a dedicação de seu primeiro deputado federal e conferiu-lhe o segundo mandato. Após assegurar indelével legado à consolidação socioeconômica do Oeste do Paraná, Lyrio Bertoli despediu-se de seus pares em 1971, não resistindo aos apelos do aconchego familiar. Antes, em antológico discurso registrado nos anais daquela casa de leis, prestou alentada homenagem ao poeta neo-romântico e simbolista Alphonsus Henrique de Guimaraens (1870-1921), pelo transcurso de seu aniversário de cem anos.

Nesse delicado período da História recente do Brasil, Lyrio Bertoli lançou, em seus mais de 370 pronunciamentos da tribuna da Câmara dos Deputados, ideias de grande repercussão, seja pelo conteúdo, seja pela originalidade. Tive acesso a vários desses documentos e constatei expressivo número de proposições que se tornaram realidade. É o caso do projeto embrionário da construção da usina hidrelétrica de Itaipu, conforme comprova a edição de 8 de agosto de 1963 do Diário do Congresso Nacional.

A propósito, em carta datada de 9 de julho de 2004, o atual Diretor Geral Brasileiro da Itaipu Binacional, Jorge Samek, reconheceu o importante e decisivo papel de Lyrio nesse monumental empreendimento da engenharia mundial. Destaca o iguaçuense Samek “o grande exemplo de sua visão e seu desempenho parlamentar voltado a esse aproveitamento hidrelétrico do rio Paraná, hoje fonte de energia e garantia de desenvolvimento para o Brasil e o Paraguai”.

Aqui também merece registro o seu empenho na instalação da primeira cooperativa do Oeste do Paraná, a Consolota, de Cafelândia, hoje Copacol. Fundada por colonos, sob orientação do padre Luiz Luíse, o momento decisivo de criação da tradicional entidade surgiu em uma audiência de Lyrio Bertoli com o presidente João Goulart. Lyrio sensibilizou e convenceu o mandatário supremo do país das insuportáveis espoliações econômicas padecidas pelos pequenos produtores da agroindústria, graças às ações açambarcadoras dos atravessadores – verdadeiros sanguessugas.

Posteriormente, mesmo sem o mandato de deputado, Lyrio evitou que essa cooperativa – principal responsável pelo desenvolvimento e emancipação de Cafelândia, antes uma vila de Cascavel – fosse absorvida pela Coopavel. Ele continuaria ardorosamente engajado na preservação institucional e financeira da Copacol, dando eco, com sua prestigiada presença junto às autoridades de Brasília, aos pleitos legítimos das lideranças locais. Prova cabal disso é a correspondência enviada a Lyrio Bertoli em dezembro de 1971 por Estevão Grudka e Cristiano T. Maltezo, dirigentes daquela cooperativa, rogando-lhe intervenção pessoal e política para salvar a entidade.

Em documento escrito pelo padre Luiz Luíse, transcrito em trabalho da lavra de Alceu A. Sperança, o famoso religioso dá esse importante testemunho para a História:

“Vendo, em Cafelândia, a situação dolorosa dos bons colonos, pensei em ajudá-los, fundando a Associação Agropecuária Cafelândia em julho de 1963, porém não consegui legalizá-la, visto que em Cafelândia existia uma filial da Associação Agropecuária de Cascavel. Não sabendo o que fazer para salvar os colonos, escrevi um relatório ao deputado Lyrio Bertoli. Ele levou ao conhecimento do presidente do Brasil, João Goulart, os problemas dos agricultores. Foi assim que o presidente encarregou o próprio Lyrio Bertoli de chefiar e acompanhar uma missão composta do próprio chefe da Casa Civil da Presidência, um coronel e mais dois técnicos em cooperativismo do Ministério da Agricultura, para vir a Cafelândia e verificar a situação crítica dos colonos. Isto deu-se no mês de agosto de 1963”.

No mesmo sentido, enaltecendo a paixão de Lyrio Bertoli pelo Oeste do Paraná, a Associação Comercial e Industrial de

Cascavel, em correspondência a ele enviada por seu presidente Pedro Luiz Boaretto, ressalta que sua passagem pelo Congresso Nacional revelou “preocupação incessante com relação às causas do oeste paranaense, destacando-se as rodovias, os aeroportos, a política agrícola, a situação agrária, as agências do Banco do Brasil e da então Coletoria Federal, preços mínimos, e até a visão da Usina de Itaipu”.

Fecho o parêntese. Falemos um pouco sobre o livro.

Entre as narrativas reunidas nesta obra, particularmente me prenderam a atenção as tocantes histórias centradas em fatos reais ocorridos em plena colonização do Oeste do Paraná, em que a conquista da terra é elemento nuclear. Em uma delas (“Por um pedaço de terra”), o autor – ao mesmo tempo protagonista em carne e osso, na qualidade de promotor de justiça ad hoc – , mergulha com acurada sutileza no interior de personagens. Valendo-se da lógica dedutiva, técnica investigativa que consagrou Sherlok Holms, expõe com agudeza os ardis da incrível trama arquitetada pelo jovem Ismael, dominado pela cobiça material. Valendo-se da fragilidade feminina, ele seduz a donzela Ana Maria para atingir diabólico plano. Pretendia garantir ao pai uns palmos de terra disputados também pelo pai da moça. Movida por irresistível paixão, Ana Maria sucumbe à tentação e denuncia o próprio pai de falso estupro, levando-o premeditadamente à prisão.

Ampliando o cenário das instigantes histórias, extremamente realistas, o olhar crítico e investigativo de Lyrio Bertoli cruza o rio Paraná e vai às promissoras terras paraguaias de Alto Paraná, para onde são atraídos brasileiros desbravadores em busca do Eldorado. Ali, desenvolve-se praticamente todo o magnífico conto “O brasiguaio don Antonio”, em que se sobressaem vários paralelos narrativos. Nele, o autor tece as aventuras e infortúnios do gaúcho Antonio, homem de sólidas raízes morais, chefe de família, trabalhador e ordeiro. No entanto, traído por ambição desmedida de riqueza, torna-se prisioneiro de suas próprias conquistas, cercadas de experiências idílicas. Mergulhado nas areias movediças da ambição e das paixões proibidas, tem trágico fim em solo guarani. No episódio, o autor ressalta o conflito de consciências entre Antonio, humilde trabalhador, pai e marido, e o agora “don Antonio”, senhorio, próspero, sedutor e amante. O embate sobre o certo e o errado, o bem e o mal, dá um toque de maestria, digno dos melhores contistas, ao drama vivido pelo personagem Antonio, isto é, don Antonio.

Não é demais salientar que o Oeste do Paraná, recentemente agraciado com a obra No tempo dos pioneiros, de Heitor Lothieu Angeli, ganha agora, com o eficiente escritor Lyrio Bertoli, substancioso capítulo na consagração de suas letras. Além da importância histórica, o livro permite-nos visualizar cenários narrativos em cores vivas, com descrição de época, de ambientes, de costumes e de personagens, compreendendo o oportuníssimo resgate de lenda que, inexplicavelmente, ficaram perdidas nas antigas matas e nos abundantes rios da região.

Enfim, com esta obra Lyrio Bertoli lega aos pósteros o exemplo de indeléveis passagens da sua vida pública e, a um só tempo, assegura lugar cativo na galeria da melhor literatura regional paranaense. Em definitivo, passa a figurar ao lado de vultos como o saudoso amigo Ruy Wachowisk, Alceu A. Sperança e o já citado Heitor Lothieu Angeli, entre outros, cuja produção literária tem projetado além-fronteiras a apaixonante região do Oeste do Paraná.

Curitiba, 5 de abril de 2010.


“CHICO XAVIER,” o filme – por dr. rosinha / curitiba

“Vai lamber ferida”

Quando criança, ouvia periodicamente a frase “vai lamber ferida”. Nunca soube o porquê nem como surgiu esta frase. Mais tarde, ouvi o Brizola, após uma derrota eleitoral, dizendo que se retiraria por uns dias e, como o gado, iria lamber suas feridas.

Lamber as próprias feridas, termo mais conhecido, é citado, como Brizola fez, após uma derrota política, amorosa ou de negócios. Derrotados se retiram e vão ruminar seus erros ou dores num canto solitário. Vão procurar a resposta para a ferida aberta.

Estas duas situações surgiram enquanto assistia a “Chico Xavier – o filme”. Logo no início, a madrasta do menino Chico, interpretado por Matheus Costa, manda-o lamber uma ferida. O menino é submetido literalmente a lamber uma ferida. É nojento, mas é feito para mostrar como foi difícil a vida do garoto.

Órfão de mãe, mantinha com ela diálogos longos, que poderiam ser fantasias de crianças. Por essas “fantasias”, era uma criança absorta e sonhadora. Por isso, reprimida.

Fui ver o filme esperando um libelo do espiritismo. O filme mostra a vida sofrida de um homem profundamente humano e religioso, e que, possuído de um espírito superior, somente busca o bem.

Nunca estudei o espiritismo. Nunca li nada mais profundo sobre Chico Xavier ou escritos dele. Portanto, fui ao filme sem nenhum preconceito ou informação prévia sobre o mesmo. Fui de espírito desarmado.

Na infância, no interior do Paraná, ouvia falar do Chico Xavier e de caravanas que partiam da região para ir ao encontro dele. Todos iam imbuídos de fé e na busca de cura para seus males físicos ou espirituais. Também lembro que ele usava peruca, tema abordado no filme. Esperava que o filme fosse basicamente um rosário dessas curas. Não é. Aparecem estes tipos de cenas, mas são poucas.

Há momentos de descontração, como quando ele recebe uma família tomada por maus espíritos e pede ao seu auxiliar que use o “peso do evangelho”, se necessário. Usar o peso do mesmo era fazer a leitura, com muita fé, de uma passagem bíblica. O seu auxiliar entendeu outra coisa e fez uso de outra maneira.

Outro momento de descontração é quando Chico faz sua primeira viagem de avião e, ao passar por uma turbulência, é tomado de medo. Medo de morrer. Neste momento, aparece Emmanuel, que pede a ele que pelo menos morra com educação. O que será morrer com educação?

No inicio da década de 1970 a TV Tupi, hoje extinta, tinha um programa chamado “Pinga Fogo”. Esse programa era transmitido ao vivo e durava uma hora. O convidado do dia 28 de junho de 1971 foi Chico Xavier, e neste dia o programa durou mais de três horas. O filme tem como espinha dorsal esta entrevista.

O filme Chico Xavier é baseado no livro “As muitas vidas de Chico Xavier”, escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior. A partir do “Pinga Fogo”, é reconstituída a infância do menino em Pedro Leopoldo e o restante de sua vida, como as primeiras psicografias de Chico ainda jovem, interpretado por Ângelo Antonio, em Uberaba.

Roteiro bem construído e sem ser piegas, o filme leva a alguns momentos de emoção. Não às lágrimas.

Emocionante e bem posta é a música. Egberto Gismonti. Gismonti nos tem dado uma imensa e bem postada obra como Sonho’70, Academia De Danças, Dança Das Cabeças, Carmo, Mágico, Circense, Fantasia, Alma e tantos outros trabalhos.

A música de Gismonti eleva o filme e dá a ele um espírito. Eleva também o espirito de quem assiste. A música contribui para que se saia do filme de espirito limpo, quase que flutuando.

O filme apresenta um drama paralelo: um casal que teve um filho morto e que paira a dúvida entre um acidente ou um assassinato. Este casal espera uma carta psicografada.

Nelson Xavier é quem interpreta Chico na vida adulta. Não poderia ser outro ator, pois Nelson não só tem a coincidência do mesmo sobrenome, tem a semelhança física e desempenha a tarefa com profundo profissionalismo.

Fui ao cinema imaginando ver um filme meramente espírita. Enganei-me. É um filme humano e que nos coloca a lamber nossas próprias feridas.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR)

A QUARESMA DE UM CIENTISTA por marcio campos / curitiba

UM CIENTISTA LÊ A BIBLIA

A maioria, ou pelo menos boa parte dos cristãos está agora celebrando a Quaresma, um tempo de 40 dias que antecede a Semana Santa e tem ênfase especial na penitência e na mudança de vida. É verdade que, em algumas paróquias, as pessoas só percebem que estão na Quaresma porque está escrito no folheto e porque o padre usa roxo, já que os instrumentos musicais seguem à toda, assim como a bateção de palmas – anteontem mesmo estive numa missa dessas. Mas, para quem está disposto a viver esse período de forma mais séria, existem várias coletâneas de meditações nas livrarias ou na internet. Uma delas é o assunto dessa resenha, e aqui faço um mea culpa: esse texto devia estar no Tubo há uma semana, mas só agora consegui tempo para finalizar a leitura.

Pela própria natureza do livro, Um cientista lê a Bíblia é dirigido aos cristãos. Não sei se um ateu tiraria o mesmo proveito dele. Seu autor, John Polkinghorne, é um dos maiores nomes no debate atual sobre a relação entre ciência e religião. Físico cuja especialidade é a Física de partículas, ele também é clérigo anglicano, ordenado em 1982. Um cientista lê a Bíblia (edições Loyola, 159 p., apenas R$ 9 na Saraiva) é de 1996. Como eu já tive a chance de mencionar, é uma coletânea de meditações para cada dia da Quaresma – não foi feito para ser lido de uma tacada só, embora não seja longo (os textos para cada dia têm duas ou três páginas) e possa ser lido de uma vez, como eu fiz. Os textos têm todos uma mesma estrutura: começam com algum trecho bíblico, seguem com a reflexão do autor e terminam com uma oração curta.

Embora esse não seja propriamente um livro sobre ciência e fé como os que têm sido resenhados aqui no blog, em muitos pontos Polkinghorne ressalta as semelhanças entre uma e outra. Logo na introdução, por exemplo, o autor diz que, assim como o cientista busca a verdade sobre o mundo pela evidência científica, a Bíblia também é, por assim dizer, a “evidência” sobre Deus e sobre Cristo. “Há uma concepção atual estranha de que fé é uma questão de fechar os olhos, cerrar os dentes e acreditar em coisas impossíveis, porque alguma autoridade inquestionável diz que é preciso fazer isso. De forma alguma! O salto da fé é um salto para a luz, não para a escuridão. Envolve o compromisso com o que compreendemos,para que possamos aprender e compreender mais“, diz Polkinghorne (itálico do autor). Na meditação do sábado após a Quarta-Feira de Cinzas, o autor lembra a primeira carta de São Paulo aos tessalonicenses, em que recomenda examinar tudo e conservar o que é bom. Mais uma vez Polkinghorne diz que a busca pela verdade é um componente essencial na religião – é curioso como algumas pessoas se mostram chocadas quando uma religião ou uma igreja pretende ser a única verdadeira, mas essa é uma pretensão perfeitamente válida, até porque é impossível que duas religiões que digam coisas opostas sejam igualmente verdadeiras. Mas, enquanto o cientista faz todo tipo de experiência para comprovar sua teoria, na religião não se “testa” Deus. O mesmo vale para os relacionamentos humanos (Cervantes já sabia, basta lembrarmos da história do “curioso impertinente”, no Dom Quixote). Ainda assim, o que une o cientista e o religioso é a sede de entender o mundo. Também é interessante a semelhança que Polkinghorne vê entre os Evangelhos e a pesquisa científica (não vou entregar tudo aqui, já que o objetivo de uma resenha é levar vocês a ler o livro).

Os dias entre o início da Quaresma e o primeiro domingo são dedicados a temas mais ou menos variados (em um dos textos, descobrimos por que Tolstoi é infinitamente superior a Manoel Carlos), mas as semanas seguintes são dedicadas a temas específicos: Criação, Realidade, Busca, Oração e Sofrimento, até chegar à Semana Santa. Na semana dedicada à Criação, é impossível escapar dos comentários sobre o texto do Gênesis e a evolução. Polkinghorne afirma que o propósito dos relatos da criação não é ser científico (do contrário não teríamos como escapar da contradição entre os dois relatos), mas explicar o porquê das coisas. Usando o exemplo da lareira (“o fogo queima na lareira porque processos físicos e químicos atuam na madeira” e “o fogo queima na lareira porque estou recebendo amigos” não são explicações incompatíveis entre si), o autor diz que não é preciso escolher entre o Big Bang e o “faça-se a luz”. Ao comentar a evolução, Polkinghorne diz que Deus poderia ter feito o mundo todo pronto, mas preferiu criar um mundo que faz a si mesmo. Quando o autor do Gênesis diz que o homem foi formado “do pó da terra”, estabelece uma continuidade entre a natureza e o ser humano. Polkinghorne mostra pistas de Deus na beleza das equações matemáticas que regem o universo – é um trecho com o qual eu me identifico. Eu não sei ver beleza em equações (detestava Trigonometria na escola técnica), mas adoro Van Gogh e Mozart. Nem todo mundo me acompanha na admiração por um quadro ou uma composição musical, assim como para mim passa batida a beleza existente em outros aspectos da vida, que os demais reconhecem muito melhor que eu. E o autor encerra a semana com considerações sobre propósito e acaso – este último, diz Polkinghorne, está longe de ser negativo: é “o espaço de manobra que Deus concedeu às suas criaturas ao permitir que fossem elas mesmas”, afirma.

Na sequência da obra, o autor aborda temas como o maravilhamento diante das coisas do mundo, a diferença entre senso moral e senso cultural (sim, é possível ser uma pessoa boa sem ter religião nenhuma, mas como se nega a existência de certos padrões morais universais a todas as culturas?), a função da Teologia Natural, o emprobrecimento causado pelo Iluminismo na cabeça das pessoas ao desvalorizar o entendimento subjetivo e a experiência pessoal. Mas um capítulo que eu gostaria de comentar é o da semana dedicada ao Sofrimento, já que andamos discutindo o assunto aqui, por causa do Haiti. Polkinghorne se baseia especialmente nos Salmos e se pergunta: por que, no terremoto de 1755, Lisboa foi devastada justamente num Dia de Todos os Santos, quando milhares de pessoas estavam em igrejas que desabaram, matando os fiéis? “O que Deus estava fazendo com o terremoto em Lisboa? Acho que a resposta é que Ele estava deixando a crosta terrestre se comportar de acordo com a sua natureza”, diz o autor. Um Deus que não é “tirano nem mágico” permite que o mundo criado por Ele possa se desenvolver sozinho. Mas o salmista fica perplexo não apenas com os desastres naturais: ele percebe que coisas más ocorrem com pessoas boas. Pior ainda: coisas boas acontecem a pessoas más – que nadam “em mar de contentamentos”, como escreveu Camões. Nós também experimentamos essa perplexidade em vários níveis quando vemos desde autênticos cachorros atraírem o interesse das melhores garotas até mensaleiros sendo reeleitos. Como se resolve isso? Não basta nos consolarmos pensando que na vida eterna as coisas se encaixarão nos seus devidos lugares: se fosse assim, Nietzsche teria razão ao chamar o Cristianismo de religião de escravos conformados. Mas a resposta de Polkinghorne ao filósofo do século 19 eu deixo para vocês descobrirem ao ler o livro.

Ainda estamos no começo da Quaresma. Aos leitores cristãos, eu recomendo que procurem o livro e, depois de recuperar o tempo perdido, comecem a seguir as meditações dia após dia. Garanto que será um período de muitos frutos.